fevereiro 19, 2012

[Filme] A Solidão dos Números Primos

Título Original: La Solitudine dei Numeri Primi 
Realização: Saverio Costanzo
Duração: 118 min
Origem: Itália

Sinopse:
Alice e Mattia. Torino. Duas crianças da mesma idade cujas consciências são marcadas por um trauma profundo que de nunca se libertarão. Conhecem-se. Poderiam amar-se. Separam-se (ele aceita um emprego na Alemanha e ela casa-se). Poderiam voltar a encontrar-se se permitissem a si próprios o que, de uma forma ou de outra, sempre se proibiram.

Depois de ler o livro, já opinado aqui, que adorei, fiquei com curiosidade para ver como tinha sido feita a adaptação para o cinema desta história, porque achava que seria complicado passar para o grande ecrã uma história feita de coisas que se sentem e adivinham e não tanto de coisas que se vêm ou dizem.

Gostei do filme e acho que os actores foram muitíssimo bem escolhidos. É uma história, à semelhança do que acontece no livro, feita de silêncios, olhares que dizem mais do que as palavras poderiam dizer. O filme transmite uma aura de irrealidade que se adequa à irrealidade do mundo em que Mattia e Alice vivem, afastados dos outros e um do outro, mesmo quando estão juntos. 
Embora o filme se tenha mantido fiel ao livro no essencial, o final foi diferente e não sei ainda se o prefiro ao do livro. Para além disso acho que se deu pouco ênfase à personalidade amargurada de Mattia, a paixão pela matemática e pelos números primos, o cuidado que tem para perturbar o menos possível o mundo à sua volta para que nunca mais uma acção sua transforme de forma irreversível a vida dos que o rodeiam. 
No geral acho que se aprofundou pouco a personalidade dos dois, no entanto gostei muito do filme. Se não tivesse lido o livro acho que o teria achado mais confuso. O livro ajudou a interpretar algumas reacções e, pessoalmente deu uma outra dimensão ao filme.

Gostei e aconselho, tanto o livro como o filme! 

E, já agora a banda sonora também merece um destaque, mais que não seja porque é do extraordinário Mike Patton! :)
http://youtu.be/JyofAXy6gT8


Fica o trailer do filme:

fevereiro 12, 2012

A Estrela de Gonçalo Enes - Rosa Lobato de Faria

Título original: A Estrela de Gonçalo Enes
Ano da edição original: 2007
Autor: Rosa Lobato de Faria
Editora: Quasi Edições
 
"Trata-se de uma obra leve e descontraída sobre a vida e aventuras de dois personagens quase esquecidos da História de Portugal, mais especificamente da Época das Descobertas. São personagens reais se bem que quase todo o enredo seja ficcionado.
Gonçalo Enes ficou na História pela descoberta das grutas de Tassili N’Ajjer.
Trata-se de um jovem órfão de pai, nascido e criado na aldeia algarvia de Bensafrim.
Encantado pela estrela Sirius, que o ilumina e encanta durante toda a vida, o jovem Gonçalo, desiludido por um amor impossível, abre o seu destino às incríveis aventuras do Império que El-rei D. Afonso sonhava construir.
Pelas aldeias indígenas de África, pelas cidades encantadas de Marrocos, pelas areias misteriosas do deserto, Gonçalo leva consigo o espírito de aventura e coragem que transformou este pequeno país num mundo inteiro de esperança e riqueza.
"

Gosto de Rosa Lobato de Faria, já o disse mas, também já o disse que os primeiros livros que escreveu são aqueles que mais me encantam. As suas últimas obras têm-me deixado sempre com a sensação de que falta alguma coisa e de que não é aquela a Rosa Lobato de Faria que encontro em obras como O Prenúncio das Águas, O Sétimo Véu, A Trança de Inês e Os Pássaros de Seda. Não sei o que mudou, se eu se a escrita dela mas, qualquer que seja a razão, a estranheza que sinto nos últimos livros dela é algo do qual não me consigo abstrair. 
A Estrela de Gonçalo Enes foi escrito em 2007 e, portanto acabou por ser um dos que me deixou desconfortável, a procurar durante a leitura algo que me lembrasse porque gosto de ler Rosa Lobato de Faria...

A Estrela de Gonçalo Enes tem como personagem central, Gonçalo Enes, uma figura importante da história portuguesa, que viveu na época dos descobrimentos. Gonçalo Enes nasceu e cresceu em Bensafrim, criado pela mãe, viúva com quem mantinha uma relação muito cúmplice. Um dia apaixona-se pela rapariga mais bonita da aldeia, Balbina, e esta corresponde aos sentimentos do rapaz. Começam a namorar, às escondidas, pois o pai de Balbina não é para brincadeiras. E é às escondidas que se amam, nos campos de Bensafrim, livremente, descobrindo-se mutuamente, entregado-se de forma irreversível. Nasce entre eles um amor que durará a vida toda, sem nunca esmorecer.
Quando o pai de Balbina se apercebe de que andará mouro na costa a sondar a sua menina, decide apressar o casamento desta com Barnabé, a quem havia prometido a menina quando esta era ainda uma criança. Contrariada e sem coragem para enfrentar o pai, Balbina casa-se com Barnabé e Gonçalo, destroçado, parte à aventura, pelos mares fora a descobrir o mundo.
A partir daqui viajamos com Gonçalo Enes e, mais tarde, Pero de Évora, por África, onde este dois vivem aventuras atrás de aventuras, acabando por descobrir as grutas de Tassili N’Ajjer, na Argélia, conhecidas pela sua importância arqueológica.

E basicamente é isto, Gonçalo Enes anda pelo mundo a divertir-se, não esquecendo nunca a sua amada e Balbina vive amargurada presa a um casamento que não desejou junto a um homem que não ama e a quem não consegue dar um filho.
A história acaba por ser contada de uma forma muito simplista, sem aprofundar nada em particular, excepção feitas às inúmeras descrições dos encontros sexuais que Gonçalo Enes tem ao longo da sua vida... Rosa Lobato de Faria abusou neste livro, fiquei com a impressão de que todo o livro gira à volta do sexo e que tudo o resto é secundário.Sexo à parte, o livro tem momentos em que é possível reencontrar algum do encanto presente nos seus primeiros livros, com as descrições simples mas bonitas e cheias de significado e com personagens fortes com quem nos conseguimos identificar, no entanto esse momentos não estão em maioria.

Não posso dizer que não gostei mas é, sinceramente e por muito que me custe dizê-lo, um livro que não me ficará na memória por muito tempo porque, na realidade, não trouxe nada de significativo ao mundo da literatura. 

Recomendo porque é da Rosa Lobato de Faria e porque sei que muita gente não partilha deste meu desencanto com as obras mais recentes da escritora falecida em 2010.

Boas leituras!

Excerto:
"Foi a estrela de Sirius que o levou até ao mar.
Gonçalo Enes vivia no campo com a mãe, mas tinha aquele enlevo de levantar os olhos da terra, que trabalhava de dia, para o céu que o atraía de noite.
Quando a mãe dormia, se o tempo era quente e a noite serena, vinha sentar-se no escabelo do alpendre a ouvir os ralos e a tentar decifrar aquela imensidão de estrelas que pareciam falar-lhe. Foi o Padre Palma que lhe disse que aquela estrela se chamava Sirius e era a mais brilhante da abóbada celeste (...) E então concentrou o seu amor pelas estrelas naquela ali, tão formosa, que o fazia pensar se a veriam outros em outras paragens, ou se só ele, no seu palmo de terra, do alpendre da sua casinha caiada, era capaz de enxergar."

Nota: Não sei se por nabice minha ou por não existir mesmo, mas não consigo encontrar na Internet informação sobre a personagem Gonçalo Enes a não ser a que vem associada a este livro da Rosa Lobato de Faria. Está a escapar-me algum pormenor? :/

fevereiro 05, 2012

A Muralha de Gelo - George R. R. Martin

Título original: A Game of Thrones (part 2)
Ano da edição original: 1996
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência

"Estes são tempos negros para Robert Baratheon, rei dos Sete Reinos. Do outro lado do mar, uma imensa horda de selvagens começa a formar-se com o objectivo de invadir o seu reino. À frente deles está Daenerys Targaryen, a última herdeira da dinastia que Robert massacrou para conquistar o trono. E os Targaryen sempre foram conhecidos pelo seu rancor e crueldade...
Mais perto, para lá da muralha de gelo que se estende a norte, uma força misteriosa manifesta-se de maneira sobrenatural. E quem vive à sombra da muralha não tem dúvidas: os Outros vêm aí e o que trazem com eles é bem pior do que a própria morte...
Ainda mais perto, na Corte, as conspirações continuam. O ódio entre as várias Casas aumenta e desta vez o sangue mancha os degraus dos palácios e o veludo dos cadeirões dourados. E quando parece que nada poderia piorar, o rei é ferido mortalmente numa caçada. Terá sido um acidente ou um assassinato? Seja como for, uma coisa é certa: a guerra civil vem aí!"

Reservei este livro na Biblioteca depois de ter visto a primeira temporada de Game of Thrones porque, ao contrário do que é usual, gostei mais do que vi do que daquilo que li no primeiro volume da saga de George R. R. Martin, A Guerra dos Tronos, lido há mais de um ano (já comentado aqui). Fiquei com a impressão de que este segundo volume poderia mudar a minha opinião acerca da saga e... mudou! Começo a gostar desta gente dos Sete Reinos e arredores! ;)

Em A Muralha de Gelo, o que não falta é acção, muitas lutas, muitas cabeças cortadas, muito sangue e muita morte! Terrível? Nem por isso, a guerra é assim, feia e sórdida! E é neste livro que a guerra tem início, com a morte do rei dos Sete Reinos, Robert Baratheon e as esperadas lutas pelo trono ao qual muitos acham ter direito. 
No meio da conspiração e das traições que se cozinham nos bastidores, Ned Stark, acaba por ser arrastado para o meio desta luta pelo poder e, demasiado honesto e honrado, acaba por ficar em maus lençóis por ter confiado nas pessoas erradas. Por ser um guerreiro e não um político e por amar a família acaba por se ver de pés e mãos atados, colocando-se a si e aos que ama em perigo.
Para salvar o pai e as irmãs das mãos de Cersei Lannister, a rainha calculista, Robb o filho mais velho de Ned Stark, parte de Winterfell com os seus aliados, declarando guerra ao reinado dos Lannister. Rebenta assim uma guerra civil que ameaça dividir a região de forma definitiva, com alianças que se formam e quebram ao sabor do vento gelado e planos que se adivinham e se temem.
Enquanto os Sete Reinos andam distraídos na luta pelo poder, a norte, para lá da Muralha de Gelo, começam a surgir notícias inquietantes sobre o regresso dos Outros, sobre aldeias desertas, não se sabendo para onde foram os seus habitantes, sobre criaturas de olhos azuis, vindas de um mundo do qual não deveria ser possível regressar: o mundo dos mortos. :p
Enquanto o povo no sul luta pelo trono de ferro, a Patrulha da Noite, os guardiões da muralha de gelo, enfraquecida por anos de paz e pela dificuldade de recrutamento de novos irmãos de Negro, luta por se manter como a única barreira entre o mundo das trevas, que traz consigo o Inverno depois de gerações inteiras de Verão, e o resto do reino.

Para ajudar, parece que os Dragões afinal não foram extintos e poderão regressar... :)

Gostei bastante deste livro. É um livro que tem poucos elementos fantásticos, a fantasia resume-se aos dragões, aos lobos gigantes e a um mundo inventado na íntegra pelo autor. A fantasia acaba aí. Não existe magia, não existem super poderes, as cabeças são cortadas e são cortadas mesmo que a personagem que a tinha em cima dos ombros fosse uma das mais importantes na história... Gostei que o autor não tenha receio de matar as suas personagens, o que só é possível porque todas elas são muito fortes, muito bem caracterizadas e com um enorme potencial de crescimento na história. Só desta forma se conseguiria manter uma saga deste tamanho interessante durante tanto tempo, o que parece ser o caso.
Achei que neste livro a escrita é mais adulta e por isso, para mim, a história acabou por me prender mais.
Tal como no primeiro livro, acho que a forma como a história nos é contada, cada capítulo tem um narrador diferente, torna-a mais rica por permitir diferentes pontos de vista e vozes tão diferentes resultam numa leitura mais dinâmica.

Personagens favoritas: 
Nesta segunda parte da história, a Arya não tem tanto protagonismo, mas continua a ser uma presença muito forte. Continuo a gostar muito de Tyrion Lannister, o anão e, ganhei um carinho especial por Catelyn Stark. Na realidade neste livro não houve nenhuma personagem com a qual tenha embirrado especialmente, até os maus tem o seu encanto. O único que me chegou a irritar, por ser tão crédulo, foi mesmo o Ned Stark... :/

Recomendo a leitura e recomendo a série. Ter visto a série não me atrapalhou muito a leitura, acabou por ajudar a situar todas as personagens, no entanto, vou tentar, a partir de agora, ler primeiro os livros e só depois acompanhar a série. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Mais tarde, não poderia afirmar que vira a batalha. Mas ouviu-a, e vale ressoou com ecos. O crac de uma lança quebrada, o tinir das espadas, os gritos de "Lannister", "Winterfell" e "Tully! Correrrio e Tully!". Quando compreendeu que nada mais havia a ver, fechou os olhos e escutou. A batalha ganhou vida à volta dela. Ouviu batidas de cascos, botas de ferro a chapinhar em água pouco profunda, o som de madeira de espadas a bater em escudos de carvalho e o raspar de aço contra aço, os silvos das setas, o trovejar dos tambores, os gritos aterrados de mil cavalos. Homens berravam pragas e suplicavam pela mesircórdia, e recebiam-na (ou não), e sobreviviam (ou morriam). As vertentes pareciam fazer truques estranhos com o som. Uma vez, ouviu a voz de Robb, tão claramente como se estivessem em pé a seu lado, gritando "A mim! A mim!". E ouviu o seu lobo gigante, a rosnar e a roncar, escutou o estalar daqueles longos dentes, o rasgar da carne, gritos de medo e de dor tanto de homem como de cavalo. Haveria apenas um lobo? Era difícil dizer com certeza."

janeiro 30, 2012

Orgulho Asteca - Gary Jennings

Título original: Aztec
Ano da edição original: 1980
Autor: Gary Jennings
Tradução do inglês: Carlos Romão
Editora: Saída de Emergência

"Em 1530, depois de Hernán Cortés quase extinguir o povo Asteca, o Rei de Espanha ordena ao bispo do México que lhe faculte toda a informação sobre a vida e os costumes desse povo. O bispo, frei Juan de Zumárraga, decide redigir um documento baseado no testemunho de um ancião asteca, um homem humilde e submisso, que irá chocar a moralidade e os preconceitos da Europa. O nome do ancião é Mixtli - Nuvem Escura.
E Mixtli relata com detalhe toda a sua vida: a infância, as leis e os costumes dos seu povo, o sexo e religião, as suas viagens e os seus amores - sempre tormentosos e trágicos. Esta é a empolgante e maravilhosa história  de um homem que representa o choque entre duas civilizações com formas inconciliáveis de ver o Mundo.
A História de Mixtli é em grande parte a história do próprio povo Asteca: épica e de uma dignidade heróica. É o princípio, o auge e a queda de uma colossal civilização."

Orgulho Asteca é um livro grande, não só em número de páginas mas também na história que conta e nas personagens míticas que traz até nós, humanizadas e próximas. Confesso-me uma ignorante no que à cultura e civilização Asteca diz respeito. O meu conhecimento, antes da leitura deste livro, era muitíssimo superficial, daí este livro ser muito mais do que um romance, é também um valioso documento histórico, mesmo que ficcionado, sobre um povo e uma cultura de uma riqueza enorme. Orgulho Asteca é um livro que vale por isso, por tornar o leitor culturalmente enriquecido, e por estar bem escrito, misturando muito bem a parte romanceada com a parte mais documental.
Embora inicialmente tenha sentido alguma estranheza perante a narração de Mixtli, não o achando credível como ancião asteca, essa estranheza depressa desapareceu, não só porque o que Mixtli narra vai validando a forma como o faz mas, também, porque o que nos conta vai-nos agarrando à história e quando damos por isso já lemos o livro todo...

A acção de Orgulho Asteca situa-se no ano de 1530, uns anos depois de os Espanhóis terem chegado ao México e terem conquistado Tenochtítlan, a capital do Império Asteca, a capital do O Mundo Único e actual Cidade do México. Em 1530, temos o povo asteca da capital, completamente subjugado aos conquistadores, dizimado pelas doenças que os europeus trouxeram com eles e praticamente extinto como civilização e cultura.
Quando o Rei de Espanha ordena ao bispo do México que procure conhecer tudo o que for possível conhecer acerca do povo Asteca, surge Mixtli, o narrador desta história e um dos últimos sobreviventes Astecas da região. A história que nos traz é a história da sua vida e, necessariamente, uma visão privilegiada sobre a cultura, a religião e a forma como viviam e se relacionavam os Astecas.
E que vida a de Mixtli! O que este ancião asteca nos vai contando, de coração aberto mas sempre num tom propositadamente desafiante, fazendo questão de narrar ao pormenor cenas que sabe serem moralmente chocantes para os religiosos escrivãos que o ouvem e que, eram também condenáveis aos olhos da sociedade Asteca da época. Os Astecas eram, uma civilização que tinha, neste aspecto regras muito similares aos católicos da época, a homossexualidade, o incesto e o sexo antes do casamento não eram tolerados. Se por um lado a descrição das cenas de sexo me deixavam constrangida (especialmente se calhava lê-las nos transportes), a descrição das cenas de sacrifícios humanos deixavam-me enjoada, pelo que neste livro temos de tudo um pouco e de monótono tem pouco. :)

Mas a vida de Mixtli não foi, ao contrário do que por vezes parece, apenas sexo. Durante este primeiro volume, Mixtli vai estudar para Texcóco, a capital do conhecimento no Império Asteca. Lá aprende a escrever e a ler a complicada língua Nahuatl, aprende a viver como um nobre, cria amizades e, devido à sua característica de ver as coisas como elas são, cria também alguns inimigos que acabam por levá-lo até ao seu primeiro campo de batalha de onde sai como um herói. Perde duas vezes o amor da sua vida de forma trágica, torna-se um mercador bem sucedido e viaja pelo mundo Asteca, e além dele, onde conhece os diferentes povos que habitavam a região. Este primeiro volume das memórias de Mixtli, acaba quando ele encontra novamente o amor e, parece que o destino talvez lhe vá dar algum descanso. Talvez... não sei. Para isso vou ter de ler o segundo volume, Sangue Asteca.

Foi com desconfiança que comecei a leitura deste livro, tive até receio de que o fosse largar mas, felizmente a desconfiança apenas me acompanhou nas primeiras páginas, daí para a frente a leitura foi, de certa forma, compulsiva e extremamente interessante. Gostei da forma como está escrito, gostei das personagens, gostei do que me permitiu aprender e gostei da capacidade que teve de me surpreender. Portanto... gostei de praticamente tudo e, nem facto de quase todos os nomes no livro serem impronunciáveis, estragou a leitura, tornou-a sim, mais exótica! :)

Recomendo sem qualquer reserva!

Boas leituras!

Excerto:
"Se os índios nos oferecem um trabalho barato e útil, isso deve ser considerado, desde um ponto de vista secundário, para poder salvar as suas almas pagãs. Se muitos deles morrem assim, o nome da Igreja será menosprezado. Além disso, se todos esses índios morrerem, quem construirá as nossas catedrais e igrejas, as nossas capelas e mosteiros, os nossos conventos e claustros, as casas de retiro e todos os outros edifícios cristãos? Quem constituirá, então, a maior parte da nossa congregação e quem trabalhará e contribuirá com o dízimo para manter os servos de Deus na Nova Espanha?"

janeiro 22, 2012

[Série] A Guerra dos Tronos

Título Original: Game of Thrones
Realização: David Benioff, D. B. Weiss
Transmissão: HBO (SyFy em Portugal)
Origem: USA

 Sinopse:
"Num mundo em que os Verões duram décadas e os Invernos se prolongam por gerações, as tensões e os jogos de poder, fazem parte da vida. Guerra dos Tronos é uma história coral num mundo mágico: a história de sete reinos, onde reis, rainhas, cavaleiros, vassalos, nobres e tiranos dançam numa batalha de traições, intriga, amor e luxúria.
A primeira temporada da série acompanha várias famílias: os Stark, Senhores do Norte; os Baratheon, que detém a coroa do reino; os Lannister, a poderosa família que controla as finanças do Reino e da Coroa; e os Targaryen, expulsos do trono pela actual dinastia. Entre eles um enorme grupo de cortesãos, súbditos e mercenários que desempenham um papel importante nas histórias cruzadas que compõem esta produção."

Acabei de ver o último episódio da primeira temporada de Game of Thrones, baseada na obra homónima de George R. R. Martin. Li, há uns meses o primeiro livro publicado pela Saída de Emergência, A Guerra dos Tronos e não tinha ficado especialmente impressionada com ele, confesso. 
Esta primeira temporada baseia-se no primeiro volume publicado pelo escritor e que a Saída de Emergência partiu em dois: A Guerra dos Tronos e A Muralha de Gelo.
Apenas li o primeiro e, na altura achei que não trazia nada de novo, que não era especialmente original e, embora soubesse que o livro originalmente não terminava naquele volume, não senti grande apelo para partir imediatamente para o segundo volume. Compreendo agora que se o tivesse feito, conhecendo a história que se seguirá, provavelmente teria gostado mais do livro. :)

É pouco comum gostar mais da adaptação cinematográfica de um livro do que da obra em si mas, neste caso foi o que aconteceu. A série está muito bem feita, com actores fantásticos dos quais destaco Peter Dinklage no papel de Tyrion Lannister. Simplesmente genial! :)

Resultado: tenho o segundo volume da série reservado na Biblioteca e, dada a lista de espera existente, estou a ponderar quanto vale a minha vontade de acompanhar a série, mas só depois de ter lido os livros... :)

Vejam que vale a pena e, agora com mais propriedade, leiam porque vale a pena!


Deixo-vos o trailer da primeira temporada:



[Filme] Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres

Título Original: The Girl With The Dragon Tattoo
Realização: David Fincher
Duração: 158 min
Origem: USA

Sinopse:
Mikael Blomkvist é um jornalista de meia-idade, divorciado, que tem passado a sua vida a denunciar a corrupção do mundo dos negócios de Estocolmo na sua revista Millennium.
Quando Henrik Vanger, um poderoso empresário, o convida para um trabalho de investigação, Mikael tem nas mãos material irrecusável. Mas para sua surpresa descobre que, desta vez, esse material não tem nada a ver com escândalos financeiros, mas com o desaparecimento da sobrinha do empresário, Harriet, 36 anos antes, num encontro de família. Com a ajuda da sua nova e rebelde parceira, Lisbeth Salander, uma hacker de alto nível com problemas de comportamento social, irão desvendar muitos segredos da família de Henrik, até então escondidos na penumbra.


Fui ontem ver a versão de David Fincher para a sobejamente conhecida história de Stieg Larsson, Millenium I - Os Homens que Odeiam as Mulheres e gostei bastante.
Já vi os três filmes suecos de que gostei bastante mas acho que este do David Fincher consegue captar melhor a essência do livro, sendo-lhe mais fiel e fiquei com a sensação de que conseguiu explicar melhor todos os acontecimentos. Digo isto porque, vi todos os filmes com o meu mais-que-tudo, que não leu os livros e que neste, pese embora já ter visto os filmes suecos, não houve necessidade de o enquadrar com pormenores do livro, o que acabou por acontecer depois de vermos a versão sueca dos mesmos.

Gostei da escolha dos actores e, embora  Noomi Rapace como Lisbeth Salander seja difícil de igualar, a actriz escolhida por Fincher para este papel, Rooney Mara, não deixou mal a Lisbeth. Embora num registo um pouco diferente porque a Lisbeth de Rooney Mara tem uma aparência mais frágil que a de Noomi Rapace, ambas apanharam muito bem a personalidade da Lisbeth de Stieg Larsson.
Daniel Craig foi também uma boa escolha para o Mikael Bloomkvist, talvez até mais credível que o Michael Nyqvist, da versão sueca.

Embora o filme tenha sido feito a contar com as adaptações dos dois últimos livros da trilogia, não sei se este será o género de filme que o público americano aprecie e valorize de forma a que seja possível a realização/produção dos outros dois filmes. Mas este é, por si só, um filme que vale a pena ver, independentemente de vir a ter continuação ou não.

Deixo-vos os trailer da versão David Fincher:


E o trailer da versão de Niels Arden Oplev, Män Som Hatar Kvinnor:


janeiro 18, 2012

Muana Puó - Pepetela

Título original: Muana Puó
Ano da edição original: 1978 (escrito em 1969)
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"[...] Muana Puó uma história de amor num fundo de luta. Era ainda em abstracto, eu nunca tinha visto guerra na minha vida, por isso arranjei a simbologia com a máscara. [...] Vi a fotografia de um cartaz para um espectáculo da Miriam Makeba, com a Muana Puó... e fiquei fascinado. Foi amor à primeira vista. Fechei-me uma semana no quarto, todo branco, com o cartaz à frente e comecei a escrever sem saber o que ia escrever. [...] A estória é perfeitamente intemporal e muito simbólica. O livro foi escrito com a máscara à frente e é para ser lido assim, com a máscara à frente. A acção segue as linhas da máscara: o mundo oval, o rosto, o lago, a boca..."

Pepetela


Pepetela é dos escritores que ultimamente mais me tem surpreendido pela positiva. Os seus livros mais recentes são muito bons e as suas obras mais antigas são surpreendentes. Cada vez o acho mais versátil na forma como escreve, sem medo de evoluir. Muana Puó é o seu primeiro livro e é diferente de todos os que já li dele.
É uma obra cheia de metáforas, onde Pepetela conta uma história de amor, uma história de sonhos realizados e esquecidos. Uma história inquieta, de luta pelos sonhos, de luta por uma vida digna e pela felicidade. A realização de uma utopia, que nas palavras de Pepetela parece ao alcance de qualquer ser humano.

Muana Puó relata a dura subida ao topo da montanha, levada a cabo pelos morcegos, e a conquista de um lugar que, desde o início dos tempos, era pertença dos corvos.
Nesta parábola, os morcegos produzem o mel que os corvos consomem e, alimentam-se dos excrementos dos mesmos. Dos corvos apenas é esperado que grasnem, e isto apenas se eles o quiserem. Numa relação que pouco ou nada tem de simbiótica, os morcegos oprimidos pela soberba dos corvos, revoltam-se e iniciam uma luta pelo direito de verem o mundo aos seus pés, do topo da montanha.
Paralelamente a esta luta entre oprimidos e opressores, Pepetela relata a história de amor de dois jovens morcegos que participam na subida à montanha, na caminhada que mudará o mundo. Ao mesmo tempo que tentam lidar com os sentimentos confusos que os assaltam, tentam encontrar o seu lugar no mundo, mesmo que isso signifique cada um seguir o seu próprio caminho.

Muana Puó é um livro que se lê num piscar de olhos, não só por ser pequeno, mas principalmente porque a história, quase um conto, não convida a interrupções. Tem um ritmo muito próprio e que custa a quebrar quando se tem de deixar o livro de lado.
Está escrito numa linguagem muito africana e com momentos de verdadeira beleza literária, a fazer lembrar um pouco Mia Couto, não tanto na reinvenção da língua, típica deste escritor, mas na atmosfera de sonho que consegue criar com as palavras.

Gostei e recomendo, não só por ser do Pepetela, mas porque é um livro que continua tão actual como no ano em que Pepetela o escreveu, em 1969. Uma obra intemporal de um escritor que não pára de me surpreender.
Vale mesmo a pena reservar umas horinhas para leitura deste livro!

Boas leituras!


Excerto:
"Até que o pressentiu a seu lado. Bastaria virar-se prà direita, atravessar a montanha que os separava, e encontraria os seus olhos. Estremeceu. Não teve coragem de vencer a montanha, rompendo a igualdade de todos os dias. Sentia o abismo perto, ao lado da montanha. Nesta vertente , a tranquilidade e a monotonia. No cimo da montanha, onde o Sol brilhava em turbilhão de cores impossíveis, a angústia do desconhecido, a aurora."