março 18, 2012

A Ponte Sobre o Drina - Ivo Andrić

Título original: Na Drini Cuprija
Ano da edição original: 1945
Autor: Ivo Andric
Tradução do servo-croata: Lúcia e Dejan Stankovic
Editora: Cavalo de Ferro
 
"No início o leitor encontra-se em pleno século XVI, em Višegrad, cidade na fronteira entre a Sérvia e a Bósnia. Mehmed-Paxá, Grão-Vizir, sonha ainda com o dia em que, criança, foi separado da sua família cristã, obrigado a atravessar para a outra margem do rio. É essa criança que agora, décadas depois, convertido à fé do Islão, dá a ordem de construção de uma ponte sobre o rio Drina.
Esta é a história épica dessa ponte, e também dos que a cruzam. A sua edificação exigiu anos de trabalho árduo, lágrimas e sangue, sacrifícios e vítimas. Ao longo dos séculos a ponte foi local de passagem, de encontros, de conversas, de conspirações; sofreu inundações, foi encerrada para impedir o alastrar da peste, assistiu a suicídios; sobre ela transitaram exércitos em fuga e desfilaram outros vitoriosos; nela foram executados espiões; acompanhou o desmoronar de impérios e o nascer de novas nações...
Romance histórico, grande épico europeu, «A ponte sobre o Drina» pertence à categoria das obras incontornáveis da literatura mundial."

Este foi um livro que me custou muito a ler... Demorei uma eternidade a acabá-lo porque não tenho tido oportunidade de ler sem ser antes de ir dormir e... invariavelmente acabava por adormecer ao fim de uma ou duas páginas. :) Que fique bem claro que o problema não é do livro, que é sobejamente interessante e envolvente, o problema é mesmo meu. O João Pestana parece ter-se mudado aqui para casa! :p

A Ponte Sobre o Drina é, como o nome indica, uma espécie de crónica acerca de uma ponte sobre o Drina, mandada construir pelo Grão-Vizir, Mehmed-Paxá e que permitiu unir as duas margens da cidade de Višegrad, uma pequena cidade na Bosnia-Herzegovina e vizinha da Sérvia. Em 1571, quando o Grão-Vizir manda construir a ponte sobre o Drina, toda aquela zona fazia parte do Império Otomano e, por isso coabitavam no mesmo território, bósnios, turcos, sérvios e alguns judeus. A coabitação, embora tensa, era cordial e Višegrad sempre foi considerada uma cidade pacífica cujos habitantes eram conhecidos pela diversão e descontração.

A história que Ivo Andrić conta é a história da ponte mas, na realidade a história que se conta é a da Bósnia Herzegovina e da zona dos Balcãs, zona conflituosa, desejada e continuamente conquistada pelos diferentes líderes do mundo. Fizeram parte do Império Otomano, foram ocupados pelo Império Austro-Húngaro e, quando o herdeiro ao trono Austro-Húngaro, Franz Ferdinand é assassinado por um membro do movimento nacionalista Young Bosnia, que lutava pela unificação dos países eslavos, inicia-se uma guerra que acaba por levar à I Guerra Mundial. 
Conhecemos uma parte da história do mundo, até 1914, ano em que a crónica termina, com a destruição de um dos pilares centrais da ponte sobre o Drina, através dos olhos dos habitantes de Višegrad, dos naturais da cidade e daqueles que a adoptaram como sendo a sua casa. É através das histórias de vidas destas pessoas, histórias simples quase do quotidiano, que Ivo Andrić nos vai dando a conhecer um povo, uma cultura e o que este contribuiu para a história da humanidade. Entrelaçadas em histórias de amor, de desencanto ou de luta por uma vida melhor, encontramos o nascimento da política como a conhecemos hoje em dia e, é-nos permitido observar de perto como é que uma força estrangeira consegue, com organização e implementação de leis rígidas, que resultam em progresso e em enriquecimento aparente, ocupar um país durante décadas e de forma relativamente pacífica. Vemos de perto a alteração de formas de viver, quando em Višegrad os habitantes começam a ganhar gosto pelo consumismo não se sentindo inibidos naquilo que desejam possuir e fazer. Višegrad é-nos apresentada quase como um tubo de ensaio da sociedade em que vivemos hoje.

A ponte sobre o Drina "assiste" a todas estas mudanças e movimentações, serve de forma isenta cada um dos protagonistas e resiste a todas as provações - "A sua vida, ainda que em si finita, assemelha-se à eternidade, pois o seu termo não é previsível", sobrevive aos Homens e às suas acções - "Assim, as gerações sucederam-se ao redor da ponte e a ponte sacudia de si, como quem sacode o pó, todos os traços que nela deixavam os caprichos humanos ou os acontecimentos efémeros e permanecia, depois de tudo passar, inalterada e inalterável." e resiste ao passar dos séculos, continuando a existir e a ser a ponte sobre o rio Drina, ponto de referência para os seus habitantes e para os que se deslocam a Višegrad, de propósito para a verem.

Gostei bastante do livro, tive alguma dificuldade com os nomes e a geografia da região, no entanto, isso não afectou a minha capacidade de apreciar o livro. Achei a escrita de Ivo Andrić interessante e dinâmica, pois enquanto que nalgumas páginas o tom era mais documental, mais próxima da crónica que pretende ser, noutras o tom é puramente ficcional, a escrita é bonita, poética e extremamente eficaz visualmente.

Recomendo como não poderia deixar de ser. É realmente um documento que permite conhecer um pouco mais da história mundial, em particular de uma região culturalmente tão rica.

Boas leituras!

Excerto:
"Como tantas vezes acontece na história humana, a violência, a pilhagem, e mesmo o assassínio, eram tacitamente permitidos desde que fossem cometidos em nome de interesses superiores, em conformidade com regra estabelecidas e contra um número limitado de pessoas de uma determinada espécie ou credo.
Um homem de espírito puro e de olhos abertos que então vivesse poderia testemunhar como é que se dá esse milagre e como uma sociedade inteira se podia transformar num único dia. Em poucos minutos a tradição secular da cidade foi devastada. É certo que sempre tinham havido secretos ódios e despeitos, intolerância religiosa, infâmia e crueldade, mas também sempre houvera amizade e magnanimidade, e um sentimento de decência e de ordem, que mantinham todos os instintos vis dentro dos limites do suportável, e que, ao fim e ao cabo, os acalmavam e os submetiam ao interesse geral da vida em comum"

fevereiro 27, 2012

Lituma nos Andes - Mario Vargas Llosa

Título original: Lituma en los Andes
Ano da edição original: 1993
Autor: Mario Vargas Llosa
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: Publicações Dom Quixote (Colecção Autor Nobel - Revista Sábado)

"Sob a ameaça constante dos guerrilheiros maoístas do Sendero Luminoso, o cabo Lituma e o seu adjunto Tomás vivem num acampamento mineiro das montanhas do Peru, onde inexplicáveis e obscuros desaparecimentos lhes prendem o interesse. Paralelamente, a vida pessoal de ambos - sobretudo o reaparecimento de um antigo amor de Tomás -, intrometer-se-à profundamente na investigação. O drama real das comunidades peruanas, nos anos 80, reféns da organização paramilitar de esquerda, e as dúvidas pessoais dos personagens cruzam-se durante todo o romance, tornando Lituma nos Andes uma obra ímpar no percurso literário de Mario Vargas Llosa, mas também umas das suas mais ferozes críticas à violência estrutural que afectou o Peru durante tantas décadas. Uma obra obrigatória em qualquer biblioteca."


Lituma nos Andes é o meu segundo livro de Mario Vargas Llosa e começo a familiarizar-me com a sua escrita. Sim, porque os livros dele não são fáceis de ler, a forma como ele encadeia as diversas histórias em diversos tempos exige concentração. Neste livro, à semelhança do outro que li dele (A Festa do Chibo, já aqui comentado), a minha primeira reacção é de estranheza e penso sempre que não gosto muito dele. No entanto, a verdade é que, em ambos os livros, fui sendo conquistada, sem que me apercebesse disso, e no fim... no fim gosto e muito dos livros dele. Não é um escritor fácil, não é um escritor vulgar e óbvio. O que ele é, é um escritor inteligente, criativo e cativante.
Agora que já elogiei o criador, vamos lá falar do livro. :)

A história que Llosa nos conta passa-se na década de 80, no Peru, mais especificamente nos Andes, como titulo do livro indica. Esta foi uma década marcada pelas acções violentas de um grupo revolucionário, considerado hoje como terrorista, os Sendero Luminoso, oficialmente denominados por Partido Comunista do Peru. Este grupo que professava a igualdade e a melhoria das condições de vida dos camponeses, fazia passar a sua mensagem de forma extremamente violenta e pouco coerente.
É neste clima de terror que o cabo Lituma e o seu adjunto, Tomás Carreño (mais conhecido por Tomasito ou Carreñito) chegam ao posto da Guardia Civil de Naccos, uma antiga aldeia mineira, isolada na serra andina. Lituma e Carreñito têm como missão supervisionar a construção da estrada há muito ansiada pela população local, geradora de emprego e a última esperança de uma vida melhor para aqueles que permaneceram depois de a exploração mineira ter terminado na região.

Lituma sente muita dificuldade em ambientar-se à serra, tendo nascido e sido criado na zona costeira do Peru, não entende o carácter desconfiado dos serranos e as suas crenças e superstições. Vive, juntamente com Carreñito e o resto da população, com receio do ataque dos terrucos (guerrilheiros do Sendero). Dão por certa a sua vinda, só não sabem quando e ambos têm a certeza de que não sairão dali com vida. Para piorar a vida de Lituma e de Carreñito, quando três pessoas desaparecem sem deixar rasto, todos se fecham em copas e em nada contribuem para a resolução do mistério que acaba por se tornar numa obsessão para Lituma. O único momento de paz que o cabo Lituma experimenta naquele fim do mundo é à noite, quando Carreñito, partilha com ele  história do seu amor com a bailarina Mercedes, a mulher que o levou ao desterro em Naccos. :)

Mais uma vez neste livro, Llosa cria uma rede de histórias, todas contadas ao mesmo tempo, que muitas vezes se tocam, onde conhecemos todas as personagens, não só o seu presente mas também o seu passado e o que as levou ali. Curiosamente, de todas as personagens aquela de quem acabamos por saber menos é Lituma, que sendo a personagem principal tem um papel mais de aglutinador, de ligação entre as diversas histórias e não um papel desencadeador dos acontecimentos.

As mudanças bruscas de história, muitas vezes sem qualquer a estrutura no texto que indique essa mudança de tempo ou mesmo de narrador, deixou-me baralhada no início, no entanto foi algo a que me fui habituando ao longo do livro.
Tal como no A Festa do Chibo, primeiro estranhei, depois entranhou-se e na verdade acho que posso dizer que gosto de Mario Vargas Llosa. Gosto que ele conte a história de forma pouco óbvia, conseguindo manter uma narrativa coerente e onde todas as ligações acabam por bater certo. Gosto da forma como escreve e das personagens que cria. Gosto dos temas, gosto que fale da América Latina e dos seus povos culturalmente tão interessantes e ricos. Enfim, gosto deste senhor! :)

Recomendo sem qualquer reserva!

Boas leituras!

Excerto:
"(...) mal e quando, como agora em Naccos, em toda a serra e talvez no mundo inteiro, só se sofre e já ninguém se lembra do que era gozar. Antigamente as gentes atreviam-se a fazer frente aos grandes estragos através das expiações. Era assim que se mantinha o equilíbrio. A vida e a morte como uma balança de dois pratos com o mesmo peso, como dois carneiros com a mesma força que marram um no outro sem que nenhum deles avance e nenhum recue."

fevereiro 21, 2012

[ebook] Ultimate Short Stories (Wattpad)

Ultimate Short Stories
Ultimamente tenho ponderado se devo ou não adquirir um e-reader ou um tablet que também me permita ler ebooks. A minha dúvida reside, preços à parte, na utilidade que poderei dar ao dispositivo. Os livros em português não são muitos, não leio assim tanto em inglês e os preços dos ebooks são ridículos (sendo politicamente correcta e pondo de parte a opção da pirataria). De dúvida em dúvida e enquanto não me decido, o telemóvel vai cumprindo também a função de e-reader. :) 
Recorrendo à aplicação Wattpad, que diz ser o youtube dos ebooks, deparei-me com esta colecção de contos, o ideal para ler no ecrã pequenino do telemóvel. Foi uma agradável surpresa e a descoberta  de alguns autores até então desconhecidos.

Desta colectânea fazem parte:

The Vendetta - Guy de Maupassant

Primeira incursão na escrita de Guy de Maupassant, autor sobejamente conhecido mas com o qual nunca me tinha cruzado.
O conto fala de vingança, como o próprio nome indica. Da vingança de uma mãe que perde o seu único filho e vê o culpado ser libertado e a continuar a sua vida como se nada fosse. Com a morte do filho a única companhia que lhe resta é o cão, companheiro inseparável do filho. Calmamente esta mãe prepara a sua vingança, seguindo o velho ditado de que a vingança deve ser servida fria. :)

História muito bem escrita e que me suscitou interesse pela obra do escritor.

The Telephone Call - Dorothy Parker

Uma mulher aguarda ansiosamente uma chamada de telefone que nunca chegará...
Os estados de espírito pelos quais esta mulher passa enquanto aguarda que o homem lhe ligue são angustiantes. Começa por pedir encarecidamente a Deus que ele ligue, passa para uma fase de fúria em que deseja a morte do rapaz e termina a rezar a Deus que lhe dê forças para não lhe ligar ela. 

Gostei! :)

A Haunted House - Virginia Woolf

Nunca li nada de Virginia Woolf e este conto foi portanto uma estreia com a escritora. Na realidade não percebi nada... e  por isso nem sei muito bem o que dizer quanto a ele, a não ser que não fiquei com especial vontade de voltar a ler alguma coisa de Virginia Woolf. :(

A Slander - Anton Tchékhov

Este é um conto bem divertido de como se geram os boatos. Muitas vezes, numa tentativa de justificar algo que não tem de ser justificado acabamos por, de certa forma, fazer com que os outros acreditem nos boatos e não no que dizemos. :) Enquanto lia, a banda sonora na minha cabeça era a "I Started a Joke", original dos Bee Gees embora na minha cabeça quem cantasse fosse o genial Mike Patton. :)

Mais uma vez Tchékhov não desilude.

The Monkey's Paw - W. W. Jacobs

Este conto é assustadoramente bom! 
A pata de um macaco, como amuleto, que tem o poder de conceder três desejos a quem a possuir. Todos sabemos que estas coisas raramente acabam bem, e este caso não é excepção. 

Está muitíssimo bem escrito. Mal acabei de o ler fui logo pesquisar este autor de quem nunca tinha ouvido falar. Nada traduzido para português, mas muita coisa disponível na internet, já sem os famigerados direitos de autor.

Gostei muito!

The Minister's Black Veil - Nathaniel Hawthorne

Um jovem padre começa, de um dia para o outro, a usar um véu preto que lhe cobre o rosto e que não tira nem no dia em que morre. Porquê? É o que toda a gente questiona...

É uma história engraçada. :)

The Fiddler - Herman Melville

Deste também gostei muito, pese embora o Moby Dick estar entre os poucos livros que não consegui ler até ao fim. Este pequeno conto de Herman Melville fala de um poeta frustrado e de um génio sem fama, aparentemente vulgar, que por isso mesmo é feliz. 

O escritor subiu uns pontos na minha consideração com este conto. :)

The Elephant's Child - Rudyard Kipling

Conto a puxar para a fábula do escritor que apenas conheço por ser o autor do O Livro da Selva, que nunca li mas, que à semelhança de muito boa gente conheço das muitas adaptações cinematográficas feitas até hoje.

Conta de uma forma muito original a origem da tromba do elefante, que teve origem numa cria de elefante possuidor de uma curiosidade insaciável.

Gostei bastante, tanto que estou a ponderar conhecer melhor o Mogli... ;)

The Baron of Grogzwig - Charles Dickens

Um barão que tem tudo, no dia em que perde quase tudo pensa em acabar com a sua vida. À semelhança do Scrooge, é visitado pelo espírito do suicídio que não está ali para o convencer a viver, mas para garantir de que ele se mata e sem perder muito tempo com o assunto. Será bem sucedido?

Apenas digo que, quando parece que não existe solução para os problemas que nos vão surgindo ao longo da vida, devemos fazer como o barão da conto de Dickens, parar para fumar um cigarro, beber um copo, olhar para as diversas opções dando maior importância às que são positivas e, tal como o barão, mandar o espírito do suicídio dar uma volta ao bilhar grande! :)


Ultimate Short Stories está disponível, gratuitamente, aqui:

fevereiro 19, 2012

[Filme] A Solidão dos Números Primos

Título Original: La Solitudine dei Numeri Primi 
Realização: Saverio Costanzo
Duração: 118 min
Origem: Itália

Sinopse:
Alice e Mattia. Torino. Duas crianças da mesma idade cujas consciências são marcadas por um trauma profundo que de nunca se libertarão. Conhecem-se. Poderiam amar-se. Separam-se (ele aceita um emprego na Alemanha e ela casa-se). Poderiam voltar a encontrar-se se permitissem a si próprios o que, de uma forma ou de outra, sempre se proibiram.

Depois de ler o livro, já opinado aqui, que adorei, fiquei com curiosidade para ver como tinha sido feita a adaptação para o cinema desta história, porque achava que seria complicado passar para o grande ecrã uma história feita de coisas que se sentem e adivinham e não tanto de coisas que se vêm ou dizem.

Gostei do filme e acho que os actores foram muitíssimo bem escolhidos. É uma história, à semelhança do que acontece no livro, feita de silêncios, olhares que dizem mais do que as palavras poderiam dizer. O filme transmite uma aura de irrealidade que se adequa à irrealidade do mundo em que Mattia e Alice vivem, afastados dos outros e um do outro, mesmo quando estão juntos. 
Embora o filme se tenha mantido fiel ao livro no essencial, o final foi diferente e não sei ainda se o prefiro ao do livro. Para além disso acho que se deu pouco ênfase à personalidade amargurada de Mattia, a paixão pela matemática e pelos números primos, o cuidado que tem para perturbar o menos possível o mundo à sua volta para que nunca mais uma acção sua transforme de forma irreversível a vida dos que o rodeiam. 
No geral acho que se aprofundou pouco a personalidade dos dois, no entanto gostei muito do filme. Se não tivesse lido o livro acho que o teria achado mais confuso. O livro ajudou a interpretar algumas reacções e, pessoalmente deu uma outra dimensão ao filme.

Gostei e aconselho, tanto o livro como o filme! 

E, já agora a banda sonora também merece um destaque, mais que não seja porque é do extraordinário Mike Patton! :)
http://youtu.be/JyofAXy6gT8


Fica o trailer do filme:

fevereiro 12, 2012

A Estrela de Gonçalo Enes - Rosa Lobato de Faria

Título original: A Estrela de Gonçalo Enes
Ano da edição original: 2007
Autor: Rosa Lobato de Faria
Editora: Quasi Edições
 
"Trata-se de uma obra leve e descontraída sobre a vida e aventuras de dois personagens quase esquecidos da História de Portugal, mais especificamente da Época das Descobertas. São personagens reais se bem que quase todo o enredo seja ficcionado.
Gonçalo Enes ficou na História pela descoberta das grutas de Tassili N’Ajjer.
Trata-se de um jovem órfão de pai, nascido e criado na aldeia algarvia de Bensafrim.
Encantado pela estrela Sirius, que o ilumina e encanta durante toda a vida, o jovem Gonçalo, desiludido por um amor impossível, abre o seu destino às incríveis aventuras do Império que El-rei D. Afonso sonhava construir.
Pelas aldeias indígenas de África, pelas cidades encantadas de Marrocos, pelas areias misteriosas do deserto, Gonçalo leva consigo o espírito de aventura e coragem que transformou este pequeno país num mundo inteiro de esperança e riqueza.
"

Gosto de Rosa Lobato de Faria, já o disse mas, também já o disse que os primeiros livros que escreveu são aqueles que mais me encantam. As suas últimas obras têm-me deixado sempre com a sensação de que falta alguma coisa e de que não é aquela a Rosa Lobato de Faria que encontro em obras como O Prenúncio das Águas, O Sétimo Véu, A Trança de Inês e Os Pássaros de Seda. Não sei o que mudou, se eu se a escrita dela mas, qualquer que seja a razão, a estranheza que sinto nos últimos livros dela é algo do qual não me consigo abstrair. 
A Estrela de Gonçalo Enes foi escrito em 2007 e, portanto acabou por ser um dos que me deixou desconfortável, a procurar durante a leitura algo que me lembrasse porque gosto de ler Rosa Lobato de Faria...

A Estrela de Gonçalo Enes tem como personagem central, Gonçalo Enes, uma figura importante da história portuguesa, que viveu na época dos descobrimentos. Gonçalo Enes nasceu e cresceu em Bensafrim, criado pela mãe, viúva com quem mantinha uma relação muito cúmplice. Um dia apaixona-se pela rapariga mais bonita da aldeia, Balbina, e esta corresponde aos sentimentos do rapaz. Começam a namorar, às escondidas, pois o pai de Balbina não é para brincadeiras. E é às escondidas que se amam, nos campos de Bensafrim, livremente, descobrindo-se mutuamente, entregado-se de forma irreversível. Nasce entre eles um amor que durará a vida toda, sem nunca esmorecer.
Quando o pai de Balbina se apercebe de que andará mouro na costa a sondar a sua menina, decide apressar o casamento desta com Barnabé, a quem havia prometido a menina quando esta era ainda uma criança. Contrariada e sem coragem para enfrentar o pai, Balbina casa-se com Barnabé e Gonçalo, destroçado, parte à aventura, pelos mares fora a descobrir o mundo.
A partir daqui viajamos com Gonçalo Enes e, mais tarde, Pero de Évora, por África, onde este dois vivem aventuras atrás de aventuras, acabando por descobrir as grutas de Tassili N’Ajjer, na Argélia, conhecidas pela sua importância arqueológica.

E basicamente é isto, Gonçalo Enes anda pelo mundo a divertir-se, não esquecendo nunca a sua amada e Balbina vive amargurada presa a um casamento que não desejou junto a um homem que não ama e a quem não consegue dar um filho.
A história acaba por ser contada de uma forma muito simplista, sem aprofundar nada em particular, excepção feitas às inúmeras descrições dos encontros sexuais que Gonçalo Enes tem ao longo da sua vida... Rosa Lobato de Faria abusou neste livro, fiquei com a impressão de que todo o livro gira à volta do sexo e que tudo o resto é secundário.Sexo à parte, o livro tem momentos em que é possível reencontrar algum do encanto presente nos seus primeiros livros, com as descrições simples mas bonitas e cheias de significado e com personagens fortes com quem nos conseguimos identificar, no entanto esse momentos não estão em maioria.

Não posso dizer que não gostei mas é, sinceramente e por muito que me custe dizê-lo, um livro que não me ficará na memória por muito tempo porque, na realidade, não trouxe nada de significativo ao mundo da literatura. 

Recomendo porque é da Rosa Lobato de Faria e porque sei que muita gente não partilha deste meu desencanto com as obras mais recentes da escritora falecida em 2010.

Boas leituras!

Excerto:
"Foi a estrela de Sirius que o levou até ao mar.
Gonçalo Enes vivia no campo com a mãe, mas tinha aquele enlevo de levantar os olhos da terra, que trabalhava de dia, para o céu que o atraía de noite.
Quando a mãe dormia, se o tempo era quente e a noite serena, vinha sentar-se no escabelo do alpendre a ouvir os ralos e a tentar decifrar aquela imensidão de estrelas que pareciam falar-lhe. Foi o Padre Palma que lhe disse que aquela estrela se chamava Sirius e era a mais brilhante da abóbada celeste (...) E então concentrou o seu amor pelas estrelas naquela ali, tão formosa, que o fazia pensar se a veriam outros em outras paragens, ou se só ele, no seu palmo de terra, do alpendre da sua casinha caiada, era capaz de enxergar."

Nota: Não sei se por nabice minha ou por não existir mesmo, mas não consigo encontrar na Internet informação sobre a personagem Gonçalo Enes a não ser a que vem associada a este livro da Rosa Lobato de Faria. Está a escapar-me algum pormenor? :/

fevereiro 05, 2012

A Muralha de Gelo - George R. R. Martin

Título original: A Game of Thrones (part 2)
Ano da edição original: 1996
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência

"Estes são tempos negros para Robert Baratheon, rei dos Sete Reinos. Do outro lado do mar, uma imensa horda de selvagens começa a formar-se com o objectivo de invadir o seu reino. À frente deles está Daenerys Targaryen, a última herdeira da dinastia que Robert massacrou para conquistar o trono. E os Targaryen sempre foram conhecidos pelo seu rancor e crueldade...
Mais perto, para lá da muralha de gelo que se estende a norte, uma força misteriosa manifesta-se de maneira sobrenatural. E quem vive à sombra da muralha não tem dúvidas: os Outros vêm aí e o que trazem com eles é bem pior do que a própria morte...
Ainda mais perto, na Corte, as conspirações continuam. O ódio entre as várias Casas aumenta e desta vez o sangue mancha os degraus dos palácios e o veludo dos cadeirões dourados. E quando parece que nada poderia piorar, o rei é ferido mortalmente numa caçada. Terá sido um acidente ou um assassinato? Seja como for, uma coisa é certa: a guerra civil vem aí!"

Reservei este livro na Biblioteca depois de ter visto a primeira temporada de Game of Thrones porque, ao contrário do que é usual, gostei mais do que vi do que daquilo que li no primeiro volume da saga de George R. R. Martin, A Guerra dos Tronos, lido há mais de um ano (já comentado aqui). Fiquei com a impressão de que este segundo volume poderia mudar a minha opinião acerca da saga e... mudou! Começo a gostar desta gente dos Sete Reinos e arredores! ;)

Em A Muralha de Gelo, o que não falta é acção, muitas lutas, muitas cabeças cortadas, muito sangue e muita morte! Terrível? Nem por isso, a guerra é assim, feia e sórdida! E é neste livro que a guerra tem início, com a morte do rei dos Sete Reinos, Robert Baratheon e as esperadas lutas pelo trono ao qual muitos acham ter direito. 
No meio da conspiração e das traições que se cozinham nos bastidores, Ned Stark, acaba por ser arrastado para o meio desta luta pelo poder e, demasiado honesto e honrado, acaba por ficar em maus lençóis por ter confiado nas pessoas erradas. Por ser um guerreiro e não um político e por amar a família acaba por se ver de pés e mãos atados, colocando-se a si e aos que ama em perigo.
Para salvar o pai e as irmãs das mãos de Cersei Lannister, a rainha calculista, Robb o filho mais velho de Ned Stark, parte de Winterfell com os seus aliados, declarando guerra ao reinado dos Lannister. Rebenta assim uma guerra civil que ameaça dividir a região de forma definitiva, com alianças que se formam e quebram ao sabor do vento gelado e planos que se adivinham e se temem.
Enquanto os Sete Reinos andam distraídos na luta pelo poder, a norte, para lá da Muralha de Gelo, começam a surgir notícias inquietantes sobre o regresso dos Outros, sobre aldeias desertas, não se sabendo para onde foram os seus habitantes, sobre criaturas de olhos azuis, vindas de um mundo do qual não deveria ser possível regressar: o mundo dos mortos. :p
Enquanto o povo no sul luta pelo trono de ferro, a Patrulha da Noite, os guardiões da muralha de gelo, enfraquecida por anos de paz e pela dificuldade de recrutamento de novos irmãos de Negro, luta por se manter como a única barreira entre o mundo das trevas, que traz consigo o Inverno depois de gerações inteiras de Verão, e o resto do reino.

Para ajudar, parece que os Dragões afinal não foram extintos e poderão regressar... :)

Gostei bastante deste livro. É um livro que tem poucos elementos fantásticos, a fantasia resume-se aos dragões, aos lobos gigantes e a um mundo inventado na íntegra pelo autor. A fantasia acaba aí. Não existe magia, não existem super poderes, as cabeças são cortadas e são cortadas mesmo que a personagem que a tinha em cima dos ombros fosse uma das mais importantes na história... Gostei que o autor não tenha receio de matar as suas personagens, o que só é possível porque todas elas são muito fortes, muito bem caracterizadas e com um enorme potencial de crescimento na história. Só desta forma se conseguiria manter uma saga deste tamanho interessante durante tanto tempo, o que parece ser o caso.
Achei que neste livro a escrita é mais adulta e por isso, para mim, a história acabou por me prender mais.
Tal como no primeiro livro, acho que a forma como a história nos é contada, cada capítulo tem um narrador diferente, torna-a mais rica por permitir diferentes pontos de vista e vozes tão diferentes resultam numa leitura mais dinâmica.

Personagens favoritas: 
Nesta segunda parte da história, a Arya não tem tanto protagonismo, mas continua a ser uma presença muito forte. Continuo a gostar muito de Tyrion Lannister, o anão e, ganhei um carinho especial por Catelyn Stark. Na realidade neste livro não houve nenhuma personagem com a qual tenha embirrado especialmente, até os maus tem o seu encanto. O único que me chegou a irritar, por ser tão crédulo, foi mesmo o Ned Stark... :/

Recomendo a leitura e recomendo a série. Ter visto a série não me atrapalhou muito a leitura, acabou por ajudar a situar todas as personagens, no entanto, vou tentar, a partir de agora, ler primeiro os livros e só depois acompanhar a série. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Mais tarde, não poderia afirmar que vira a batalha. Mas ouviu-a, e vale ressoou com ecos. O crac de uma lança quebrada, o tinir das espadas, os gritos de "Lannister", "Winterfell" e "Tully! Correrrio e Tully!". Quando compreendeu que nada mais havia a ver, fechou os olhos e escutou. A batalha ganhou vida à volta dela. Ouviu batidas de cascos, botas de ferro a chapinhar em água pouco profunda, o som de madeira de espadas a bater em escudos de carvalho e o raspar de aço contra aço, os silvos das setas, o trovejar dos tambores, os gritos aterrados de mil cavalos. Homens berravam pragas e suplicavam pela mesircórdia, e recebiam-na (ou não), e sobreviviam (ou morriam). As vertentes pareciam fazer truques estranhos com o som. Uma vez, ouviu a voz de Robb, tão claramente como se estivessem em pé a seu lado, gritando "A mim! A mim!". E ouviu o seu lobo gigante, a rosnar e a roncar, escutou o estalar daqueles longos dentes, o rasgar da carne, gritos de medo e de dor tanto de homem como de cavalo. Haveria apenas um lobo? Era difícil dizer com certeza."

janeiro 30, 2012

Orgulho Asteca - Gary Jennings

Título original: Aztec
Ano da edição original: 1980
Autor: Gary Jennings
Tradução do inglês: Carlos Romão
Editora: Saída de Emergência

"Em 1530, depois de Hernán Cortés quase extinguir o povo Asteca, o Rei de Espanha ordena ao bispo do México que lhe faculte toda a informação sobre a vida e os costumes desse povo. O bispo, frei Juan de Zumárraga, decide redigir um documento baseado no testemunho de um ancião asteca, um homem humilde e submisso, que irá chocar a moralidade e os preconceitos da Europa. O nome do ancião é Mixtli - Nuvem Escura.
E Mixtli relata com detalhe toda a sua vida: a infância, as leis e os costumes dos seu povo, o sexo e religião, as suas viagens e os seus amores - sempre tormentosos e trágicos. Esta é a empolgante e maravilhosa história  de um homem que representa o choque entre duas civilizações com formas inconciliáveis de ver o Mundo.
A História de Mixtli é em grande parte a história do próprio povo Asteca: épica e de uma dignidade heróica. É o princípio, o auge e a queda de uma colossal civilização."

Orgulho Asteca é um livro grande, não só em número de páginas mas também na história que conta e nas personagens míticas que traz até nós, humanizadas e próximas. Confesso-me uma ignorante no que à cultura e civilização Asteca diz respeito. O meu conhecimento, antes da leitura deste livro, era muitíssimo superficial, daí este livro ser muito mais do que um romance, é também um valioso documento histórico, mesmo que ficcionado, sobre um povo e uma cultura de uma riqueza enorme. Orgulho Asteca é um livro que vale por isso, por tornar o leitor culturalmente enriquecido, e por estar bem escrito, misturando muito bem a parte romanceada com a parte mais documental.
Embora inicialmente tenha sentido alguma estranheza perante a narração de Mixtli, não o achando credível como ancião asteca, essa estranheza depressa desapareceu, não só porque o que Mixtli narra vai validando a forma como o faz mas, também, porque o que nos conta vai-nos agarrando à história e quando damos por isso já lemos o livro todo...

A acção de Orgulho Asteca situa-se no ano de 1530, uns anos depois de os Espanhóis terem chegado ao México e terem conquistado Tenochtítlan, a capital do Império Asteca, a capital do O Mundo Único e actual Cidade do México. Em 1530, temos o povo asteca da capital, completamente subjugado aos conquistadores, dizimado pelas doenças que os europeus trouxeram com eles e praticamente extinto como civilização e cultura.
Quando o Rei de Espanha ordena ao bispo do México que procure conhecer tudo o que for possível conhecer acerca do povo Asteca, surge Mixtli, o narrador desta história e um dos últimos sobreviventes Astecas da região. A história que nos traz é a história da sua vida e, necessariamente, uma visão privilegiada sobre a cultura, a religião e a forma como viviam e se relacionavam os Astecas.
E que vida a de Mixtli! O que este ancião asteca nos vai contando, de coração aberto mas sempre num tom propositadamente desafiante, fazendo questão de narrar ao pormenor cenas que sabe serem moralmente chocantes para os religiosos escrivãos que o ouvem e que, eram também condenáveis aos olhos da sociedade Asteca da época. Os Astecas eram, uma civilização que tinha, neste aspecto regras muito similares aos católicos da época, a homossexualidade, o incesto e o sexo antes do casamento não eram tolerados. Se por um lado a descrição das cenas de sexo me deixavam constrangida (especialmente se calhava lê-las nos transportes), a descrição das cenas de sacrifícios humanos deixavam-me enjoada, pelo que neste livro temos de tudo um pouco e de monótono tem pouco. :)

Mas a vida de Mixtli não foi, ao contrário do que por vezes parece, apenas sexo. Durante este primeiro volume, Mixtli vai estudar para Texcóco, a capital do conhecimento no Império Asteca. Lá aprende a escrever e a ler a complicada língua Nahuatl, aprende a viver como um nobre, cria amizades e, devido à sua característica de ver as coisas como elas são, cria também alguns inimigos que acabam por levá-lo até ao seu primeiro campo de batalha de onde sai como um herói. Perde duas vezes o amor da sua vida de forma trágica, torna-se um mercador bem sucedido e viaja pelo mundo Asteca, e além dele, onde conhece os diferentes povos que habitavam a região. Este primeiro volume das memórias de Mixtli, acaba quando ele encontra novamente o amor e, parece que o destino talvez lhe vá dar algum descanso. Talvez... não sei. Para isso vou ter de ler o segundo volume, Sangue Asteca.

Foi com desconfiança que comecei a leitura deste livro, tive até receio de que o fosse largar mas, felizmente a desconfiança apenas me acompanhou nas primeiras páginas, daí para a frente a leitura foi, de certa forma, compulsiva e extremamente interessante. Gostei da forma como está escrito, gostei das personagens, gostei do que me permitiu aprender e gostei da capacidade que teve de me surpreender. Portanto... gostei de praticamente tudo e, nem facto de quase todos os nomes no livro serem impronunciáveis, estragou a leitura, tornou-a sim, mais exótica! :)

Recomendo sem qualquer reserva!

Boas leituras!

Excerto:
"Se os índios nos oferecem um trabalho barato e útil, isso deve ser considerado, desde um ponto de vista secundário, para poder salvar as suas almas pagãs. Se muitos deles morrem assim, o nome da Igreja será menosprezado. Além disso, se todos esses índios morrerem, quem construirá as nossas catedrais e igrejas, as nossas capelas e mosteiros, os nossos conventos e claustros, as casas de retiro e todos os outros edifícios cristãos? Quem constituirá, então, a maior parte da nossa congregação e quem trabalhará e contribuirá com o dízimo para manter os servos de Deus na Nova Espanha?"