maio 01, 2012

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia - J. Rentes de Carvalho

Título original: Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia
Ano de edição: 2011
Autor: J. Rentes de Carvalho
Editora: Quetzal Editores

"Uma paixão tórrida em Sevilha; a crueldade de um filantropo inglês; o crime passional de Bebé Almeida; uma fria manhã de Paris de 1955; o afamado bordel de Madame Blanche enquadram algumas das extraordinárias histórias que compõem Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, o mais recente livro de ficção de J. Rentes de Carvalho."


Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia estava nas minhas estantes, quieto e silencioso desde a Feira do Livro de Lisboa do ano passado. Finalmente pediu para ser lido e em boa hora o fez. Numa altura em que o tempo para ler não abunda, o melhor é mesmo ficar-me por escritores que já conheço e que tenho a certeza serem uma boa companhia. J. Rentes de Carvalho é assim, embora dele só tenha lido dois livros, A Amante Holandesa e Ernestina, já aqui comentados, a afinidade foi imediata e irreversível. É para mim um velho conhecido. :)

Os Lindos braços da Júlia da Farmácia é uma colectânea de pequenas histórias sobre os mais variados temas que, na maioria delas, o que têm em comum é o narrador, a familiaridade e a proximidade que transmitem. O narrador parece-se muito com J. Rentes de Carvalho, melhor dizendo, a vida do narrador parece-se muito com aquilo que conhecemos ser a vida de J. Rentes de Carvalho. É impossível não associar uma coisa à outra e, embora ficcionadas, muitas das histórias serão baseadas em factos reais.
As histórias falam de amores antigos, falam de encontros e de velhos amigos, falam da infância e das recordações que dela trazemos, falam da família e da terra, falam de aventuras e de histórias do dia-a-dia e falam de coisas tão simples como os lindos braços da Júlia da farmácia. Esta história que dá nome ao livro é a mais curta que nele encontramos e nada mais é do que um pequeno texto acerca dos braços magníficos da Júlia da farmácia e do fascínio que provocava num senhor de certa idade. :)

É-me difícil destacar uma ou outra história porque gostei de todas elas e, como são todas muito diferentes é complicado referir uma e não outra. No entanto, gostei particularmente da "Incêndio no Chiado" onde é notório o carinho que o autor tem por esta zona da capital e achei deliciosa a "No Barbeiro" onde o narrador recorda um episódio da infância.

Gosto muito da forma como J. Rentes de Carvalho escreve, de forma descontraída e bem-humorada, isto aliado ao facto de as histórias que conta serem sempre boas é a combinação perfeita para termos um livro dos bons.

Nunca é demais dizer que gosto de J. Rentes de Carvalho e, a cada livro que leio dele, gosto mais um bocadinho.

Recomendo!

Boas leituras!

Excerto:
"Segunda-feira de manhã, iluminados pelo sol, os escombros parecerem-me ainda mais terríveis e desesperados, ao mesmo tempo símbolo e sinal de mau agouro num país onde, mau grado a democracia recuperada, a vida da maioria continua a ser uma longa espera impotente e triste entre coisas que apodrecem e coisas que ardem."

abril 08, 2012

Inés da Minha Alma - Isabel Allende

Título original: Inés del Alma Mia
Ano da edição original: 2006
Autor: Isabel Allende
Tradução do francês: Ana Mendes Lopes
Editora: Difel
"«Suponho que venham a colocar estátuas da minha pessoa nas praças, e haverá, por certo, ruas e cidades com o meu nome, tal como as haverá também com o nome de Pedro Valdivia e outros conquistadores, mas as centenas de mulheres que tanto se esforçaram por fundar as cidades, enquanto os seus maridos lutavam, serão, quase de certeza, esquecidas.»
Inés Suárez é uma jovem e humilde costureira, oriunda da Extremadura, que embarca em direcção ao Novo Mundo para procurar o marido, extraviado com os seus sonhos de glória do outro lado do Atlântico. Anseia também por viver uma vida de aventuras, vedada às mulheres na pacata sociedade do século XVI. Na América, Inés não encontra o marido, mas sim uma grande paixão: Pedro de Valdivia, mestre-de-campo de Francisco Pizarro, ao lado de quem Inés enfrenta os riscos e as incertezas da conquista e fundação do reino do Chile.
Neste romance épico, a força do amor concede uma trégua à rudeza, à violência e à crueldade de um momento histórico inesquecível. Através da mão de Isabel Allende confirma-se que a realidade pode ser tão ou mais surpreendente que a melhor ficção, e igualmente cativante."

Isabel Allende raramente desilude e por isso, quando decido ler mais um livro dela sei que vão ser horas bem passadas. Não existem expectativas a gerir, uma vez que é quase garantido que o livro vai ser bom. Inés da Minha Alma é assim, um livro de Isabel Allende que cumpre em todas as vertentes aquilo que se espera desta escritora. Pode até não ser o seu melhor livro mesmo que a época retratada seja fascinante, as personagens cativantes e a história envolvente, não achei este o seu livro mais inspirado. No entanto, é sem qualquer dúvida, um livro que valeu cada segundo que lhe foi dedicado.

O livro relata a história de Inés Suárez, a conquistadora do Chile. Inés Suárez nasceu na Extremadura, em Espanha, de origens humildes, nunca poderia adivinhar que a vida lhe reservava muito mais do que a costura e um casamento mais ou menos feliz.
Quando o marido parte na aventura da descoberta do Novo Mundo, as novas terras conquistadas pelos espanhóis, no outro lado do atlântico, Inés fica, como qualquer esposa da época, à espera do seu regresso ou do anúncio da sua morte. Cansada de esperar por uma coisa ou pela outra, Inés decide aproveitar a oportunidade de cortar com a vida que leva, parte em busca de notícias do marido e embarca num navio que a leva até ao Peru, a mais recente jóia da coroa espanhola. No entanto, não é tanto a busca do marido que a move, e sim a oportunidade de ser mais do que uma humilde costureira, ao recomeçar uma nova vida numa sociedade em construção onde, até as mulheres tem a possibilidade de se sentirem úteis.

Seguindo o rasto do marido, acaba por conhecer o homem que lhe vai mudar a vida, Pedro de Valdivia, com quem parte na conquista do Chile, terra até então inconquistável devido à tenacidade das tribos Mapuche que lá habitavam. Os mapuche eram considerados uma das tribos mais combativas e menos "domesticáveis" de todo o Novo Mundo. Juntos, Inés e Pedro, fundam a primeira cidade do Chile, Santiago e nela iniciam o sonho de construir uma sociedade justa (para os padrões da época), onde os seus habitantes dessem mais importância à fertilidade da terra, ao clima ameno e à beleza da paisagem, em vez de correrem, como loucas atrás do ouro e da prata, abundantes nas regiões conquistadas e muito procurados por aquelas bandas.

Para além da ambição do ouro e da prata, a única coisa que impedia o sonho dos dois de se tornar realidade eram os índios Mapuche, que se recusavam a render, a ser colonizados, recusavam entregar as suas terras e ser evangelizados, e que eram incapazes de perceber como é que os homens barbudos davam mais importância ao ouro e à prata e tão pouca importância à liberdade. Lutaram de forma feroz, suicida, com armas incapazes de derrotar o metal dos europeus, lutaram de forma instintiva, sem qualquer estratégia. Não fossem eles tantos e, provavelmente deles não rezaria a história.

São impressionantes as descrições das batalhas e da forma como os índios, não só os mapuche do Chile, mas todos os colonos das terras conquistadas, eram tratados. A forma como "nós", os Europeus entrámos pelas terras deles, e lhes alterámos a forma de vida, impondo regras e crenças que não conseguiam compreender e das quais não precisavam.
Foi muitas vezes desconfortável ler algumas opiniões, algumas formas de pensar da época, mesmo contextualizado e tentando não ver à luz dos nossos dias, foi muitas vezes revoltante a forma como exaltamos algo que tanto sofrimento trouxe a outros seres humanos. Este livro acaba por ser um misto de sentimentos, porque se por um lado sentimos um grande orgulho na mulher que ajudou a fundar o Chile, que lutou ao lado dos homens e que teve um papel tão ou mais importante que estes, por outro, não deixamos de nos sentir chocados pelo preço que foi infligido aos índios. Se por um lado reconhecemos em Inés e em Pedro, um bom coração, inteligência e muita coragem, por serem duas pessoas que tinham uma forma de pensar diferente da maioria, não podemos, por outro lado, deixar de sentir uma impotência grande porque, em abono da verdade, não havia outra forma de conquistar novos mundos, sem ser com sangue e sacrifício de vidas humanas. Que mundo seria o nosso se todos os povos conquistadores não tivessem aniquilado a cultura e a história dos povos conquistados? É impossível saber...

Gostei bastante do livro, principalmente da história. Acho que Isabel Allende consegue criar, no leitor, este desconforto por fazermos, quer queiramos quer não, parte dos conquistadores, beneficiando até hoje dessas conquistas, que agora nos parecem tão aberrantes. O livro é lido tendo sempre presente esta ambivalência dos sentimentos e da nossa consciência colectiva.

Gostei das personagens, mais uma vez Isabel Allende apresenta-nos uma personagem feminina muito forte, uma autêntica guerreira, sem ser uma amazona e sem perder aquelas características que nos tornam a nós, mulheres, de uma forma ou de outra, semelhantes. Gostei de Inés Suárez, mais ainda sabendo que é uma personagem real, e das restantes personagens.

Recomendo vivamente, não só por ser Isabel Allende, mas porque é mesmo um livro interessante.

Boas leituras!

Excerto:
"Quando chegámos ao Chile nada sabíamos dos Mapuche, pensado que seria fácil submetê-los, como fizemos com povos mais civilizados, os Astecas e os Incas. Demorámos muitos anos a compreender quão errados estávamos. Não se vislumbra o fim desta guerra, porque quando torturamos um toqui logo aparece outro, e quando exterminamos uma tribo inteira, outra sai do bosque e toma o seu lugar. Nós queremos fundar cidades e prosperar, viver com decência e descanso, enquanto eles só querem a liberdade."
"Para eles quem provê é a Santa Terra, as pessoas ficam com o necessário e agradecem, não exigem mais não acumulam; o trabalho é incompreensível, uma vez que não há futuro. Para que serve o ouro? A terra não é de ninguém, o mar não é de ninguém; a simples ideia de os possuir ou dividir produzia ataques de riso ao normalmente soturno Felipe. As pessoas também não pertencem umas às outras. Como podem os huincas comprar e vender gente que não é sua? Por vezes, o menino passava dois ou três dias mudo, esquivo, sem comer, e quando lhe perguntava o que tinha, a resposta era sempre a mesma: «Há dias alegres e dias tristes. Cada um é dono do seu silêncio.»"

março 30, 2012

82ª Feira do Livro de Lisboa 2012

http://feiradolivrodelisboa.pt/

O Parque Eduardo VII começou esta semana a ser preparado para mais uma Feira do Livro de Lisboa. 

Agora que estou tão perto e posso acompanhar desde o início o evento para o qual ainda faltam tantos dias, sofro com ansiedade... Pela minha saúde, gostaria que as barraquinhas estivessem por lá todo o ano! Pela minha carteira... bem, pela minha carteira é melhor que seja apenas uma vez por ano. ;)

Boas leituras!

março 22, 2012

Uma Cana de Pesca para o Meu Avô - Gao Xingjian

Título original: Gei Wo Laoye Mai Yugan
Ano da edição original: 1990
Autor: Gao Xingjian
Tradução do francês: Carlos Aboim de Brito
Editora: Publicações Dom Quixote

"Com imenso talento, subtileza e inteligência, Gao Xingjian percorre, nestes seis inesquecíveis contos, os lugares da infância, as alegrias simples do amor e da amizade, os dramas da rua e as tragédias vividas pela China. Sorrisos e lágrimas atravessam esta leitura, que nos deixa o belo e suave sabor da emoção. A revelação de um dos maiores escritores chineses da actualidade."

Eis que, no espaço de um mês leio dois prémios Nobel da literatura, Ivo Andrić e agora o Gao Xingjian, escritores dos quais ainda não tinha lido nada. :)

Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, é uma colectânea de contos a transbordar de simplicidade, cultura oriental e poesia.
Ao longo dos cinco contos que compõem este pequeno livro, o escritor dá-nos a conhecer o amor, a amizade, a morte, a saudade e a vida.

No primeiro conto, O Templo, intromete-mo-nos na lua-de-mel de um casal jovem que transmite uma tal serenidade na forma de se amarem e de estarem juntos, não só como casal, mas também como amigos e companheiros que são, que só podemos sorrir durante a sua leitura.

No segundo conto, O Acidente, passamos da vida e do amor para a morte e um outro tipo de amor. Neste conto, um homem é atropelado por um autocarro e morre. No local do acidente junta-se uma multidão perplexa e cheia de opiniões, como só este tipo de desgraças consegue juntar. O fascínio que todos acabamos por sentir, de uma forma ou de outra, por situações como esta é estranhíssimo, inexplicável e, neste caso inconsequente, porque passadas apenas algumas horas após o acidente, já todos seguiram com as suas vidas e no local do acidente já nada nem ninguém recorda a vida que ali se perdeu.

O terceiro conto, A Cãibra, traz o tema do mar, que se repete nos contos que se seguem. Um rapaz nada no mar e sente uma cãibra, aflito para regressar a terra firme deseja que a rapariga que estava a tentar impressionar o tivesse visto entrar no mar e se aperceba da sua situação.

No quarto conto, Num Parque, conhecemos um rapaz e uma rapariga que se reencontram ao fim de alguns anos. No passado gostaram um do outro mas nunca deram o passo que levaria a relação mais além. A vida separa-os e, agora que se voltaram a encontrar, aquilo que sentiam um pelo outro, embora intacto já não faz muito sentido. Ao longe, no mesmo parque, observam uma rapariga que chora. Não a tentam consolar porque de nada servirá, a dor é algo que faz parte da vida e da qual não se consegue fugir.

O conto que dá nome ao livro, Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, é o mais extenso e aquele em que a escrita de Gao Xingjian se torna mais apelativa e imaginativa. Um conto com um cheirinho oriental e muito bom de se ler, cujo título resume bem aquilo de que trata. Um homem jovem compra uma cana de pesca para o avô que não vê há muitos anos e de quem sente muita falta. O conto narra a infância deste homem junto do avô que lhe ensinou tanto. Uma história de saudade, de esquecimento e lembrança.

O último conto, intitulado Instantâneos, não é bem um conto, mas sim, como o próprio nome indica, instantâneos. A narração de alguns instantes nas vidas de várias personagens sendo possível perceber um fio condutor que os liga uns aos outros. O mar volta a ser uma referência importante. Gostei bastante destes Instantâneos. :)

Gostei desta colecção de pequenas histórias e da escrita de Gao Xingjian, poética e colorida.

Recomendo!

Boas leituras!!! :)

Excerto:
"A bola de sabão aumenta à medida que lhe sopram. À superfície, a água com sabão move-se cada vez mais depressa e, quanto mais a luz do sol se reflecte nela, mais brilhante e multicolor fica. Chegada ao ponto limite, desaparece sem ruído, revelando a cara espantada do rapazinho que a soprava."

março 18, 2012

A Ponte Sobre o Drina - Ivo Andrić

Título original: Na Drini Cuprija
Ano da edição original: 1945
Autor: Ivo Andric
Tradução do servo-croata: Lúcia e Dejan Stankovic
Editora: Cavalo de Ferro
 
"No início o leitor encontra-se em pleno século XVI, em Višegrad, cidade na fronteira entre a Sérvia e a Bósnia. Mehmed-Paxá, Grão-Vizir, sonha ainda com o dia em que, criança, foi separado da sua família cristã, obrigado a atravessar para a outra margem do rio. É essa criança que agora, décadas depois, convertido à fé do Islão, dá a ordem de construção de uma ponte sobre o rio Drina.
Esta é a história épica dessa ponte, e também dos que a cruzam. A sua edificação exigiu anos de trabalho árduo, lágrimas e sangue, sacrifícios e vítimas. Ao longo dos séculos a ponte foi local de passagem, de encontros, de conversas, de conspirações; sofreu inundações, foi encerrada para impedir o alastrar da peste, assistiu a suicídios; sobre ela transitaram exércitos em fuga e desfilaram outros vitoriosos; nela foram executados espiões; acompanhou o desmoronar de impérios e o nascer de novas nações...
Romance histórico, grande épico europeu, «A ponte sobre o Drina» pertence à categoria das obras incontornáveis da literatura mundial."

Este foi um livro que me custou muito a ler... Demorei uma eternidade a acabá-lo porque não tenho tido oportunidade de ler sem ser antes de ir dormir e... invariavelmente acabava por adormecer ao fim de uma ou duas páginas. :) Que fique bem claro que o problema não é do livro, que é sobejamente interessante e envolvente, o problema é mesmo meu. O João Pestana parece ter-se mudado aqui para casa! :p

A Ponte Sobre o Drina é, como o nome indica, uma espécie de crónica acerca de uma ponte sobre o Drina, mandada construir pelo Grão-Vizir, Mehmed-Paxá e que permitiu unir as duas margens da cidade de Višegrad, uma pequena cidade na Bosnia-Herzegovina e vizinha da Sérvia. Em 1571, quando o Grão-Vizir manda construir a ponte sobre o Drina, toda aquela zona fazia parte do Império Otomano e, por isso coabitavam no mesmo território, bósnios, turcos, sérvios e alguns judeus. A coabitação, embora tensa, era cordial e Višegrad sempre foi considerada uma cidade pacífica cujos habitantes eram conhecidos pela diversão e descontração.

A história que Ivo Andrić conta é a história da ponte mas, na realidade a história que se conta é a da Bósnia Herzegovina e da zona dos Balcãs, zona conflituosa, desejada e continuamente conquistada pelos diferentes líderes do mundo. Fizeram parte do Império Otomano, foram ocupados pelo Império Austro-Húngaro e, quando o herdeiro ao trono Austro-Húngaro, Franz Ferdinand é assassinado por um membro do movimento nacionalista Young Bosnia, que lutava pela unificação dos países eslavos, inicia-se uma guerra que acaba por levar à I Guerra Mundial. 
Conhecemos uma parte da história do mundo, até 1914, ano em que a crónica termina, com a destruição de um dos pilares centrais da ponte sobre o Drina, através dos olhos dos habitantes de Višegrad, dos naturais da cidade e daqueles que a adoptaram como sendo a sua casa. É através das histórias de vidas destas pessoas, histórias simples quase do quotidiano, que Ivo Andrić nos vai dando a conhecer um povo, uma cultura e o que este contribuiu para a história da humanidade. Entrelaçadas em histórias de amor, de desencanto ou de luta por uma vida melhor, encontramos o nascimento da política como a conhecemos hoje em dia e, é-nos permitido observar de perto como é que uma força estrangeira consegue, com organização e implementação de leis rígidas, que resultam em progresso e em enriquecimento aparente, ocupar um país durante décadas e de forma relativamente pacífica. Vemos de perto a alteração de formas de viver, quando em Višegrad os habitantes começam a ganhar gosto pelo consumismo não se sentindo inibidos naquilo que desejam possuir e fazer. Višegrad é-nos apresentada quase como um tubo de ensaio da sociedade em que vivemos hoje.

A ponte sobre o Drina "assiste" a todas estas mudanças e movimentações, serve de forma isenta cada um dos protagonistas e resiste a todas as provações - "A sua vida, ainda que em si finita, assemelha-se à eternidade, pois o seu termo não é previsível", sobrevive aos Homens e às suas acções - "Assim, as gerações sucederam-se ao redor da ponte e a ponte sacudia de si, como quem sacode o pó, todos os traços que nela deixavam os caprichos humanos ou os acontecimentos efémeros e permanecia, depois de tudo passar, inalterada e inalterável." e resiste ao passar dos séculos, continuando a existir e a ser a ponte sobre o rio Drina, ponto de referência para os seus habitantes e para os que se deslocam a Višegrad, de propósito para a verem.

Gostei bastante do livro, tive alguma dificuldade com os nomes e a geografia da região, no entanto, isso não afectou a minha capacidade de apreciar o livro. Achei a escrita de Ivo Andrić interessante e dinâmica, pois enquanto que nalgumas páginas o tom era mais documental, mais próxima da crónica que pretende ser, noutras o tom é puramente ficcional, a escrita é bonita, poética e extremamente eficaz visualmente.

Recomendo como não poderia deixar de ser. É realmente um documento que permite conhecer um pouco mais da história mundial, em particular de uma região culturalmente tão rica.

Boas leituras!

Excerto:
"Como tantas vezes acontece na história humana, a violência, a pilhagem, e mesmo o assassínio, eram tacitamente permitidos desde que fossem cometidos em nome de interesses superiores, em conformidade com regra estabelecidas e contra um número limitado de pessoas de uma determinada espécie ou credo.
Um homem de espírito puro e de olhos abertos que então vivesse poderia testemunhar como é que se dá esse milagre e como uma sociedade inteira se podia transformar num único dia. Em poucos minutos a tradição secular da cidade foi devastada. É certo que sempre tinham havido secretos ódios e despeitos, intolerância religiosa, infâmia e crueldade, mas também sempre houvera amizade e magnanimidade, e um sentimento de decência e de ordem, que mantinham todos os instintos vis dentro dos limites do suportável, e que, ao fim e ao cabo, os acalmavam e os submetiam ao interesse geral da vida em comum"

fevereiro 27, 2012

Lituma nos Andes - Mario Vargas Llosa

Título original: Lituma en los Andes
Ano da edição original: 1993
Autor: Mario Vargas Llosa
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: Publicações Dom Quixote (Colecção Autor Nobel - Revista Sábado)

"Sob a ameaça constante dos guerrilheiros maoístas do Sendero Luminoso, o cabo Lituma e o seu adjunto Tomás vivem num acampamento mineiro das montanhas do Peru, onde inexplicáveis e obscuros desaparecimentos lhes prendem o interesse. Paralelamente, a vida pessoal de ambos - sobretudo o reaparecimento de um antigo amor de Tomás -, intrometer-se-à profundamente na investigação. O drama real das comunidades peruanas, nos anos 80, reféns da organização paramilitar de esquerda, e as dúvidas pessoais dos personagens cruzam-se durante todo o romance, tornando Lituma nos Andes uma obra ímpar no percurso literário de Mario Vargas Llosa, mas também umas das suas mais ferozes críticas à violência estrutural que afectou o Peru durante tantas décadas. Uma obra obrigatória em qualquer biblioteca."


Lituma nos Andes é o meu segundo livro de Mario Vargas Llosa e começo a familiarizar-me com a sua escrita. Sim, porque os livros dele não são fáceis de ler, a forma como ele encadeia as diversas histórias em diversos tempos exige concentração. Neste livro, à semelhança do outro que li dele (A Festa do Chibo, já aqui comentado), a minha primeira reacção é de estranheza e penso sempre que não gosto muito dele. No entanto, a verdade é que, em ambos os livros, fui sendo conquistada, sem que me apercebesse disso, e no fim... no fim gosto e muito dos livros dele. Não é um escritor fácil, não é um escritor vulgar e óbvio. O que ele é, é um escritor inteligente, criativo e cativante.
Agora que já elogiei o criador, vamos lá falar do livro. :)

A história que Llosa nos conta passa-se na década de 80, no Peru, mais especificamente nos Andes, como titulo do livro indica. Esta foi uma década marcada pelas acções violentas de um grupo revolucionário, considerado hoje como terrorista, os Sendero Luminoso, oficialmente denominados por Partido Comunista do Peru. Este grupo que professava a igualdade e a melhoria das condições de vida dos camponeses, fazia passar a sua mensagem de forma extremamente violenta e pouco coerente.
É neste clima de terror que o cabo Lituma e o seu adjunto, Tomás Carreño (mais conhecido por Tomasito ou Carreñito) chegam ao posto da Guardia Civil de Naccos, uma antiga aldeia mineira, isolada na serra andina. Lituma e Carreñito têm como missão supervisionar a construção da estrada há muito ansiada pela população local, geradora de emprego e a última esperança de uma vida melhor para aqueles que permaneceram depois de a exploração mineira ter terminado na região.

Lituma sente muita dificuldade em ambientar-se à serra, tendo nascido e sido criado na zona costeira do Peru, não entende o carácter desconfiado dos serranos e as suas crenças e superstições. Vive, juntamente com Carreñito e o resto da população, com receio do ataque dos terrucos (guerrilheiros do Sendero). Dão por certa a sua vinda, só não sabem quando e ambos têm a certeza de que não sairão dali com vida. Para piorar a vida de Lituma e de Carreñito, quando três pessoas desaparecem sem deixar rasto, todos se fecham em copas e em nada contribuem para a resolução do mistério que acaba por se tornar numa obsessão para Lituma. O único momento de paz que o cabo Lituma experimenta naquele fim do mundo é à noite, quando Carreñito, partilha com ele  história do seu amor com a bailarina Mercedes, a mulher que o levou ao desterro em Naccos. :)

Mais uma vez neste livro, Llosa cria uma rede de histórias, todas contadas ao mesmo tempo, que muitas vezes se tocam, onde conhecemos todas as personagens, não só o seu presente mas também o seu passado e o que as levou ali. Curiosamente, de todas as personagens aquela de quem acabamos por saber menos é Lituma, que sendo a personagem principal tem um papel mais de aglutinador, de ligação entre as diversas histórias e não um papel desencadeador dos acontecimentos.

As mudanças bruscas de história, muitas vezes sem qualquer a estrutura no texto que indique essa mudança de tempo ou mesmo de narrador, deixou-me baralhada no início, no entanto foi algo a que me fui habituando ao longo do livro.
Tal como no A Festa do Chibo, primeiro estranhei, depois entranhou-se e na verdade acho que posso dizer que gosto de Mario Vargas Llosa. Gosto que ele conte a história de forma pouco óbvia, conseguindo manter uma narrativa coerente e onde todas as ligações acabam por bater certo. Gosto da forma como escreve e das personagens que cria. Gosto dos temas, gosto que fale da América Latina e dos seus povos culturalmente tão interessantes e ricos. Enfim, gosto deste senhor! :)

Recomendo sem qualquer reserva!

Boas leituras!

Excerto:
"(...) mal e quando, como agora em Naccos, em toda a serra e talvez no mundo inteiro, só se sofre e já ninguém se lembra do que era gozar. Antigamente as gentes atreviam-se a fazer frente aos grandes estragos através das expiações. Era assim que se mantinha o equilíbrio. A vida e a morte como uma balança de dois pratos com o mesmo peso, como dois carneiros com a mesma força que marram um no outro sem que nenhum deles avance e nenhum recue."

fevereiro 21, 2012

[ebook] Ultimate Short Stories (Wattpad)

Ultimate Short Stories
Ultimamente tenho ponderado se devo ou não adquirir um e-reader ou um tablet que também me permita ler ebooks. A minha dúvida reside, preços à parte, na utilidade que poderei dar ao dispositivo. Os livros em português não são muitos, não leio assim tanto em inglês e os preços dos ebooks são ridículos (sendo politicamente correcta e pondo de parte a opção da pirataria). De dúvida em dúvida e enquanto não me decido, o telemóvel vai cumprindo também a função de e-reader. :) 
Recorrendo à aplicação Wattpad, que diz ser o youtube dos ebooks, deparei-me com esta colecção de contos, o ideal para ler no ecrã pequenino do telemóvel. Foi uma agradável surpresa e a descoberta  de alguns autores até então desconhecidos.

Desta colectânea fazem parte:

The Vendetta - Guy de Maupassant

Primeira incursão na escrita de Guy de Maupassant, autor sobejamente conhecido mas com o qual nunca me tinha cruzado.
O conto fala de vingança, como o próprio nome indica. Da vingança de uma mãe que perde o seu único filho e vê o culpado ser libertado e a continuar a sua vida como se nada fosse. Com a morte do filho a única companhia que lhe resta é o cão, companheiro inseparável do filho. Calmamente esta mãe prepara a sua vingança, seguindo o velho ditado de que a vingança deve ser servida fria. :)

História muito bem escrita e que me suscitou interesse pela obra do escritor.

The Telephone Call - Dorothy Parker

Uma mulher aguarda ansiosamente uma chamada de telefone que nunca chegará...
Os estados de espírito pelos quais esta mulher passa enquanto aguarda que o homem lhe ligue são angustiantes. Começa por pedir encarecidamente a Deus que ele ligue, passa para uma fase de fúria em que deseja a morte do rapaz e termina a rezar a Deus que lhe dê forças para não lhe ligar ela. 

Gostei! :)

A Haunted House - Virginia Woolf

Nunca li nada de Virginia Woolf e este conto foi portanto uma estreia com a escritora. Na realidade não percebi nada... e  por isso nem sei muito bem o que dizer quanto a ele, a não ser que não fiquei com especial vontade de voltar a ler alguma coisa de Virginia Woolf. :(

A Slander - Anton Tchékhov

Este é um conto bem divertido de como se geram os boatos. Muitas vezes, numa tentativa de justificar algo que não tem de ser justificado acabamos por, de certa forma, fazer com que os outros acreditem nos boatos e não no que dizemos. :) Enquanto lia, a banda sonora na minha cabeça era a "I Started a Joke", original dos Bee Gees embora na minha cabeça quem cantasse fosse o genial Mike Patton. :)

Mais uma vez Tchékhov não desilude.

The Monkey's Paw - W. W. Jacobs

Este conto é assustadoramente bom! 
A pata de um macaco, como amuleto, que tem o poder de conceder três desejos a quem a possuir. Todos sabemos que estas coisas raramente acabam bem, e este caso não é excepção. 

Está muitíssimo bem escrito. Mal acabei de o ler fui logo pesquisar este autor de quem nunca tinha ouvido falar. Nada traduzido para português, mas muita coisa disponível na internet, já sem os famigerados direitos de autor.

Gostei muito!

The Minister's Black Veil - Nathaniel Hawthorne

Um jovem padre começa, de um dia para o outro, a usar um véu preto que lhe cobre o rosto e que não tira nem no dia em que morre. Porquê? É o que toda a gente questiona...

É uma história engraçada. :)

The Fiddler - Herman Melville

Deste também gostei muito, pese embora o Moby Dick estar entre os poucos livros que não consegui ler até ao fim. Este pequeno conto de Herman Melville fala de um poeta frustrado e de um génio sem fama, aparentemente vulgar, que por isso mesmo é feliz. 

O escritor subiu uns pontos na minha consideração com este conto. :)

The Elephant's Child - Rudyard Kipling

Conto a puxar para a fábula do escritor que apenas conheço por ser o autor do O Livro da Selva, que nunca li mas, que à semelhança de muito boa gente conheço das muitas adaptações cinematográficas feitas até hoje.

Conta de uma forma muito original a origem da tromba do elefante, que teve origem numa cria de elefante possuidor de uma curiosidade insaciável.

Gostei bastante, tanto que estou a ponderar conhecer melhor o Mogli... ;)

The Baron of Grogzwig - Charles Dickens

Um barão que tem tudo, no dia em que perde quase tudo pensa em acabar com a sua vida. À semelhança do Scrooge, é visitado pelo espírito do suicídio que não está ali para o convencer a viver, mas para garantir de que ele se mata e sem perder muito tempo com o assunto. Será bem sucedido?

Apenas digo que, quando parece que não existe solução para os problemas que nos vão surgindo ao longo da vida, devemos fazer como o barão da conto de Dickens, parar para fumar um cigarro, beber um copo, olhar para as diversas opções dando maior importância às que são positivas e, tal como o barão, mandar o espírito do suicídio dar uma volta ao bilhar grande! :)


Ultimate Short Stories está disponível, gratuitamente, aqui: