julho 12, 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto

Título original: Terra Sonâmbula
Ano de edição: 1992
Autor: Mia Couto
Editora: Editorial Caminho

"Primeiro romance do moçambicano Mia Couto, já bem conhecido e apreciado pelo público português, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo os recentes tempos de guerra em Moçambique, da qual traça um quadro de um realismo forte e brutal.
Dentro deste cenário de pesadelo movimentam-se personagens de uma profunda humanidade, por vezes com uma dimensão mágica e mítica, todos vagueando pela terra destroçada, entre o desespero mais pungente e uma esperança que se recusa a morrer. 
Terra Sonâmbula é um romance admirável, sem dúvida uma das melhores obras literárias que nos últimos anos se escreveram em português."

Li este livro pela primeira vez há uns largos anos. Na altura, pouco percebi, no entanto gostei.
Porque é que gostamos de coisas que não percebemos? Talvez aquilo que não percebemos nos intrigue, nos desperte para o desconhecido e nos ajude a alargar horizontes e a sair da nossa zona de conforto.
Terra Sonâmbula, deve ter sido o primeiro livro "estranho" que li. Estranho na escrita, com personagens difíceis de conceber mas com uma linguagem que, embora não conseguisse captar na sua totalidade, não me era tão estranha assim. Um livro cheio de palavras inventadas que mostrou que uma história não tem de ser regrada e cheia de barreiras gramaticais. Quando se conseguem quebrar barreiras e ultrapassar preconceitos, a linguagem deixa de ser rígida e é possível reinventar toda a língua e as palavras tem o significado que lhe queremos dar. Não deixa de ser reconfortante que nem tudo na vida tenha de fazer sentido. Sabendo isso é mais fácil apreciar as coisas que realmente importam e a beleza de uma nova linguagem, a linguagem dos sonhos, dos sentimentos, a linguagem mais próxima da primeira palavra proferida pelo Homem há milhares de anos atrás.

Mia Couto é irrepreensível na forma como nos conta uma parte da história de Moçambique, apoderando-se dos sonhos dos dois jovens Muidinga e Kindzu. É um livro cuja beleza reside na forma como está escrito e nos sentimentos nobres que o escritor tão bem descreve. Tudo o resto é feio e angustiante, igual a todas as guerras.

Este é um livro difícil de descrever e de comentar porque embora fale de assuntos muito concretos e muito reais, fá-lo de uma forma pouco palpável e qualquer tentativa, da minha parte, para tentar fazer ver o porquê de este ser um livro especial e que não devem deixar de ler, seria uma tentativa inútil de chegar perto da qualidade literária de Mia Couto.
Por isso vou-me limitar aquilo que consigo transmitir por palavras "normais".


Em Terra Sonâmbula, Mia Couto fala-nos de um país destruído pela guerra, onde as pessoas se sentem perdidas e desenraizadas. Todos são órfãos de alguma espécie, todos perderam e têm a certeza de que vão continuar a perder. Muidinga é um rapaz, de idade um pouco indefinida, é jovem mas não consegui perceber quão jovem seria, que foi salvo por Tuhair. Sem qualquer memória do que lhe aconteceu, o rapaz tem como única referência este homem que foge de algo ou de alguém que não identifica. Encontram abrigo num machimbombo incendiado à beira da estrada, uma estrada que parece ela própria deslocar-se. Toda a paisagem envolvente parece mudar, como se não fossem só as pessoas a deslocarem-se, fugindo da guerra, de um conflito que não conseguem perceber. Como se toda a terra fosse sonâmbula e caminhasse sem destino certo.
Perto do machimbombo Muidinga encontra uns cadernos, junto a um cadáver. Estes cadernos foram escritos por Kindzu, mais um jovem sem idade, porque as crianças da guerra parecem-nos sempre mais velhas, precocemente envelhecidas. Nos seus cadernos Kindzu registou a viagem que iniciou com o objectivo de se tornar um naparama, figuras temidas pela população por serem uma espécie de exército de almas guerreiras, abençoadas pelos feiticeiros e que lutavam contra a guerra. O relato da aventura de Kindzu passa a ser uma parte importante na vida de Muidinga e Tuhair, permitindo-lhes evadir-se da vida triste e temerosa que levam no machimbombo destruído. Com os cadernos de Kinzu a capacidade de sonhar e a esperança de um futuro mais risonho mantêm-se vivas!

Terra Sonâmbula foi o primeiro livro de Mia Couto e a "brincriação" com as palavras é genial e refrescante. É curioso voltar a uma obra mais antiga de um escritor que têm evoluído na forma como escreve, tornando-se mais maduro. As últimas obras dele são mais "normais" mas igualmente boas. São apenas uma outra vertente de um escritor que acredito, escreveria novamente e com a mesma qualidade Terra Sonâmbula.
O livro para além da guerra e das pessoas que nela se vêm envolvidas, fala nas tradições, nas crenças de uma sociedade fechada e muitas vezes preconceituosa.
Com este livro veio-me à memória um dos pouco poemas que conheço e recordo (não sou dada à poesia) do tempo da escola, "Pedra Filosofal" de António Gedeão:

"Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."


Obra de leitura obrigatória!

Boas leituras!

Excerto (um dos infinitos possíveis de escolher):
"Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E, sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com os olhos postos no mar."

Deixo-vos ainda o trailer do filme Terra Sonâmbula, de Teresa Prata, baseado neste livro de Mia Couto:


junho 29, 2012

O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu - Jonas Jonasson

Título original: Hundraaringen som klev ut genom fönstret och försvann
Ano da edição original: 2009
Autor: Jonas Jonasson
Tradução do francês: Mário Matos
Editora:Porto Editora

"No dia em que Allan Karlsson celebra 100 anos, toda a cidade o aguarda para uma grande festa em sua honra. 
Mas Allan tem outros planos... Morrer de velho? Sim, mas não ali!
Munido de um par de chinelos gastos, joelhos empenados e uma ousadia tremenda, Allan lança-se numa extraordinária aventura, arrastado numa torrente de equívocos e golpes de sorte.
E ao mesmo tempo que acompanhamos a sua última viagem (ou será que não?), conhecemos o seu passado, perdido entre guerras, explosões e mulheres fatais - qual delas a mais perigosa"

Este livro é absurdo da primeira à última página! A história é absurda, Allan Karlsson, o centenário que no dia do seu centésimo aniversário decide que não quer morrer no lar de terceira idade, é absurdo e, por fim, todo o livro é absurdamente bom e divertido! :)

Allan Karlsson decide, num impulso, no dia do seu centésimo aniversário que, não quer participar na festa que o lar de terceira idade lhe está a preparar. Calça as pantufas, salta, com alguma dificuldade, pois os seus joelhos já não são o que eram, pela janela do seu quarto e parte, sem destino, à procura de mais uma aventura.

O livro relata aquela que julgamos ser a última aventura de Allan Karlsson, ao mesmo tempo que nos conta a longa vida do velhinho. E que vida a deste homem! Dono de uma personalidade simples, de bom carácter mas com uma noção de certo e errado por vezes duvidosa, viajou pelo mundo e atravessou a pé os Himalaias. Quem diria, ao iniciar a leitura deste livro, que estaríamos na presença de alguém que participou de forma activa, embora nada premeditada, nos destinos do mundo, sendo que na maior parte das vezes a única coisa que o guiava era o prazer de comer uma boa refeição acompanhada de uma boa bebida, qualquer uma, desde que contivesse álcool. :) Allan Karlssom, o homem que não suportava falar de política, que não tomava partido, ao longo da sua longa vida, jantou com todos os líderes mundiais, Franco, Estaline, Mao Tsé-Tung, Truman, Churchil, De Gaulle e por aí fora, tudo porque Allan tinha um talento especial para lidar com explosivos...

O Allan com cem anos continua igual a si mesmo, vivendo segundo o lema de que o que tiver que ser será e que tudo se resolverá. Ao fugir do lar de terceira idade dá início a uma aventura hilariante que toma proporções inimagináveis, que vai envolver a polícia, a imprensa nacional e um grupo de gangsters que só queriam recuperar a mala que Allan levou consigo, apenas e só porque lhe pareceu o melhor a fazer, talvez na mala estivessem uns sapatos que pudesse trocar pelas suas pantufas mija-pés!
E mais não digo. Acrescento apenas que Allan, ao longo desta sua aventura, reúne à sua volta um grupo de pessoas dignas de conhecer. Temos Jullius, um pequeno delinquente sexagenário, Benny um vendedor de cachorros quentes que é quase licenciado em tudo o que se possa imaginar, Minha Linda uma ruiva explosiva e Sónia a paquiderme... Curiosos? :)

Adorei este livro, é muito divertido sem deixar de ser um livro historicamente interessante. Gostei muito da escrita de Jonas Jonasson, e as personagens são extraordinárias! O tom é muito semelhante ao da série de

Recomendo!

Boas leituras!

Nota: Os países nórdicos têm uma tara qualquer por títulos enormes e descritivos! Neste caso funciona muito bem, porque acaba por ser o primeiro indício de que estamos na presença de um livro genialmente divertido!


Excerto:
"Allan constatou que conseguia ser ao mesmo tempo uma ratazana e um cão, em menos de um minuto. Estaline devia ser doido, se ainda achava que ia ter a ajuda dele. De qualquer forma estava farto de ser insultado. Tinha ido a Moscovo para ser útil, e não para ser maltratado. Estaline que se desembrulhasse sozinho. 
- Estava a pensar cá numa coisa - disse Allan.
- Ah, sim? E em quê? - perguntou Estaline, furioso.
- Não acha que devia rapar esse bigode?
A noite terminou com esta pergunta. O intérprete perdera os sentidos."

junho 21, 2012

Por Favor Não Matem a Cotovia - Harper Lee

Título original: To Kill a Mockingbird
Ano da edição original: 1960
Autor: Harper Lee
Tradução: Fernando Ferreira-Alves
Editora:Difel

"Durante os anos da Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo de Maycomb, uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar curioso e rebelde de uma criança, Harper Lee descreve-nos os dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Recentemente, alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos atribuíram grande destaque ao livro, ao elegerem-no como o melhor romance do século XX."


Não sei por onde começar... Por um lado tenho imensas coisas para dizer, por outro, o que dizer sobre este livro fabuloso, emocionante e divertido? Harper Lee escreveu um único livro e, fê-lo tão bem, que ficou sem palavras, optando por não escrever mais nada.

A história passa-se numa pequena cidade do sul dos EUA, em Maycomb, nos anos 30, em plena Grande Depressão, no seio de uma comunidade conservadora e fechada. 
Scout Finch é uma menina de 7 anos, rebelde e maria-rapaz, é extremamente inteligente e possui uma inocência desarmante. O irmão, Jem, uns anitos mais velho é o seu companheiro inseparável de brincadeira. Juntamente com Dill, o rapaz que passa os Verões em casa da tia, vizinha dos Finch, formam um trio maravilha, cujas brincadeiras acabam muitas vezes em castigo. Um preço baixo a pagar pelo excesso de imaginação. :)
Atticus Finch é pai de Scout e Jem, viúvo e advogado, é um pai invulgar para a época, deixando as crianças mais ou menos à vontade e tratando-os sempre como seres inteligentes e capazes, e não como meras crianças. A relação deste com os filhos é fantástica porque, embora estes o tratem pelo nome, muito raramente o chamam de pai, o carinho que os une é indiscutível e notório. As personagens são, a par da história, um dos pontos mais fortes deste livro.

Quando Atticus é escolhido para defender em tribunal um negro acusado de violar uma jovem branca, a vida da família Finch sofre alguns percalços, com os habitantes de Maycomb a não tolerarem que Atticus trabalhe para os "pretos". Muitas destas pessoas admitem até a inocência do rapaz, no entanto nem lhes passa pela cabeça ilibá-lo do que quer que seja, nunca quando do outro lado está um branco, mesmo que um não muito estimado na comunidade.

São estas contradições, estes defeitos de carácter que Scout e Jem vão estranhando, ao longo de todo o processo, e questionando, uma vez que, na sua inocência de pessoas bem criadas, não conseguem perceber o conceito de racismo.
Por Favor Não Matem a Cotovia é um livro que mais do que tudo fala de respeito. Respeito pela diferença, respeito pelo espaço dos outros, pelas opiniões dos outros e respeito pelos mais velhos. O facto de não se focar apenas no racismo poderá ser umas das razões que o tem destacado, ao longo dos anos, de toda a literatura que existe sobre o tema. No entanto, acredito que é o tom despretensioso com que é escrito, onde nenhum ponto de vista é imposto, que o tornam na obra incontornável e actual que é. Quem ainda acredita que é na cor da pele que reside o nosso valor como seres humanos não se sentirá ofendido ou espicaçado com a leitura deste livro, no mínimo sentir-se-à envergonhado por nunca se ter apercebido de algo tão óbvio e de ter precisado que uma criança de 7 anos lho explicasse.

Para além dos temas mais ou menos pesados, o livro é naturalmente muito divertido pois, Scout, Jem e Dill são crianças maravilhosas. A leitura é muito fluída, não só porque a escrita é muito acessível mas porque as personagens estão todas muito bem desenvolvidas e a autora consegue manter-nos, enquanto leitores, sempre interessados na história.

Gostei muito e por isso, recomendo, sem quaisquer reservas.

Boas leituras!

Excerto:
"Tinha a sua própria visão das coisas, talvez bastante diferente da minha... filho, eu disse-te que se tu não tivesses perdido a cabeça, eu ter-te-ia mandado ler para ela na mesma. Queria que visses qualquer coisa nela...queria que visses o que é a verdadeira coragem, em vez de pensares que coragem é um homem com uma arma nas mãos. Coragem é sabermos que estamos vencidos à partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até ao fim. Raramente se ganha, mas às vezes conseguimos. E Mrs. Dubose ganhou, do princípio ao fim, da cabeça aos pés. Segundo a sua visão das coisas, ela morreu livre e sem dever nada a ninguém. Era a pessoa mais corajosa que já conheci."

Nota: Existe pelo menos um filme baseado na obra de Harper Lee: "To Kill a Mockingbird". Fica aqui o trailer:

junho 11, 2012

Mau Tempo no Canal - Vitorino Nemésio

Título original: Mau Tempo no Canal
Ano de edição: 1944 
Autor: Vitorino Nemésio 
Editora: INCM - Imprensa Nacional Casa da Moeda

"«Creio que o isolamento de cada ilha açoriana dá lugar à constante presença de um fantástico individual, que percorre de um modo exemplar o romance de Nemésio, desde a personagem mais singela até à de maior complexidade. Fantástico individual que está em luta aberta contra um maravilhoso colectivo. Assistimos a um descer dentro de cada um, como se dentro de si pisassem os degraus da escada em curva - perfeita sucessão de serpentes cegas - que levam, na geografia insular, ao lago subterrâneo da ilha Graciosa; a única das cinco ilhas centrais que as páginas de Mau Tempo no Canal não contemplam.»"                                                                                       
                                                             Do prefácio de João Miguel Fernandes Jorge

Mau Tempo no Canal é um livro sobre os Açores, mas não é bem um livro sobre os Açores. Foi escrito nos Açores, a acção tem lugar no Arquipélago, as personagens são açorianas, no entanto, a história poderia passar-se em qualquer outra ilha perdida no meio de um qualquer oceano. Posto isto, Mau Tempo no Canal é, para além de muitas outras coisas, um livro sobre o isolamento e sobre as amarras da sociedade que nos impõem caminhos que na realidade não desejamos. Tendo como pano de fundo o Canal do Faial, Vitorino Nemésio vai-nos contando uma história de amor, que acaba por não o ser, aliás, poucas são as coisas que correm como planeado neste livro. :) A protagonista, Margarida Clark Dulmo é uma filha da terra, pertencente a uma das famílias mais antigas e respeitáveis da ilha. Margarida é uma miúda inteligente, divertida, corajosa e sonhadora. Todos os seus sonhos acabam, no entanto, por ir contra ao que a família espera dela, um casamento conveniente que permita à família recuperar algum do fulgor económico que perdeu, com a má gestão do pai, Diogo Dulmo, e com a cada vez mais rara caça de baleias.
O livro começa com a promessa de uma história de amor entre Margarida e João Garcia, um rapaz não tão bem-visto no seio dos Clark Dulmo. João Garcia parte para o continente para cumprir serviço militar, deixando Margarida quando ainda havia muito pouco para recordar, no entanto, o que sente por ela em vez de desaparecer, cresce e Margarida acaba por se tornar na única mulher que realmente amou. Margarida, pelo contrário, acaba por afastar João Garcia, embora ao longo do livro se perceba que sente por ele mais do que quer dar a entender. Na verdade, Margarida, nos dias de hoje seria, provavelmente, uma mulher concentrada na carreira profissional, sem procurar a felicidade numa relação amorosa, mas sim no seu desenvolvimento pessoal. Posto isto e, tendo em conta que a acção se desenrola entre 1917 e 1919, num sítio rodeado por mar, podemos intuir que a vida de Margarida não será propriamente fácil e as suas escolhas serão tudo menos pacíficas. :) Tendo sempre presente que, num meio pequeno, de certa forma isolado, todos os problemas parecem maiores, todos os dilemas, questões de vida ou morte. Neste aspecto, Margarida não é muito diferente de todas as outras pessoas da ilha.

É com pena que chego ao fim deste livro sem ter gostado especialmente dele. Não me identifiquei com a escrita elaborada de Vitorino Nemésio, não me conseguiu envolver nas vidas das personagens ou mesmo fazer sentir o ambiente das ilhas. Manter a concentração foi o maior desafio que encontrei neste livro. No entanto, embora não tenha ficado impressionada com ele, fiz um esforço extra para tentar chegar ao fim (confesso que saltei parágrafos) queria saber como acabava tudo. A história é boa, a forma com nos é contada é que, pessoalmente, não me cativou. Gostei, por exemplo, dos diálogos, da escrita em "açoriano" praticamente indecifrável mas que ajudavam a criar o ambiente vivido e gostei de algumas descrições. A forma como tudo isto está ligado, pareceu-me por vezes desconexo, confuso e com muitas descrições, para mim desnecessárias. Cheguei a mais de meio do livro e pensei em desistir, custava-me voltar a pegar nele, exactamente porque me sentia completamente desligada da história, tão desligada que a memória do que tinha lido era muito vaga e cheguei a confundir personagens... Só quando li algumas críticas é que me apercebi de que nem tudo acontecia na mesma ilha e que o canal separava a ilha do Pico e do Faial... (shame on me). Só voltei a pegar nele por puro despeito e, na realidade, lá mais para a frente a história ganha outro balanço e, como já referi, gostei da parte dos diálogos e por isso fui lendo. 

Não fiquei impressionada e duvido que alguma vez volte a ele, no entanto, não li nenhuma crítica negativa sobre ele, pelo contrário, sempre li coisas muito positivas sobre este livro. Sendo assim, não posso deixar de o recomendar, é muito provável que o problema seja meu! :)

Boas leituras!

Excerto:
" O mundo, aliás, nunca lhe aparecera tão vivo, representado na sua solidão de solteiro pela própria força do silêncio da noite e do esgotamento de um dia gasto à espera daquela mensagem de Margarida que dois meses enchiam de uma necessidade dolente e tornavam cada vez mais longínqua. Mas a própria intensidade e uso desse desejo criava em João Garcia um começo de palpitação daquilo por que esperava, como se a carta fosse o seu próprio cérebro excitado, e as sombra do fundo do quarto, o guarda-fato de espelho, o cubículo que lhe servia de escritório abafado em veludos puídos e me laçarotes encarnados derivassem da projecção do papel em que Margarida lhe escrevesse."

maio 31, 2012

Desaparecido para Sempre - Harlan Coben

Título original: Gone for Good
Ano da edição original: 2002
Autor: Harlan Coben
Tradução: Lucinda Santos Silva
Editora: Editorial Presença

"«Onze anos atrás, a 17 de Outubro, na pequena cidade de Livingston, Nova Jérsia, o meu irmão Ken Klein, então com vinte e quatro anos, violou brutalmente e estrangulou a nossa vizinha Julie Miller. Na cave dela.»

Esta é, pelo menos, a versão oficial da Polícia, mas nem Will, irmão de Ken, nem os seus pais jamais duvidaram da inocência de Ken, apesar das evidências junto ao local do crime. Onze anos passaram e nunca mais se soube do paradeiro de Ken. Estaria ele vivo ou morto? Will sempre preferiu acreditar na segunda hipótese, até ao dia em que a sua mãe, no leito de morte, lhe revela que Ken está, afinal, vivo. A partir daqui, o medo e a inquietude começam a dominar a vida de Will e isto será apenas o início do desencadear de novos e perturbadores acontecimentos. Praticamente na mesma altura, Sheila, a namorada por quem Will sente um amor incondicional, desaparece misteriosamente, deixando atrás de si um rasto de dúvida e medo. Will descobre ainda que o suposto reaparecimento do seu irmão está estranhamente associado a um grupo de colegas dos tempos de escola, e uma agente do FBI revela-lhe que Sheila é procurada por duplo homicídio. Histórias interligadas, informações surpreendentes e personagens misteriosas constituem o mote destes thriller intenso, cujo suspense aumenta vorazmente ao virar de cada página. Um livro excepcional, capaz de despertar verdadeiras emoções em todos os amantes do género."

E, surpreendentemente, este foi um policial do qual gostei e que me fez continuar a virar as páginas, espicaçada pela curiosidade. É raro, e o mérito só pode ser do escritor e da forma como nos apresenta a história. Harlan Coben foi, ao fim de apenas algumas páginas, adicionado à minha lista de escritores de policiais com os quais aceito gastar o meu tempo. :)

Vou tentar não arruinar a possível leitura do livro aos que continuam a visitar este meu cantinho, ou aqueles que, por algum acaso, aqui venham parar. Assumido o compromisso, vamos ao que interessa, o livro!

Em Desaparecido para Sempre, a personagem principal, Will Klein é, sem que nada o fizesse prever envolvido numa perigosa e confusa trama, que envolve a sua actual namorada, Sheila, e o seu irmão Ken, procurado há mais de onze anos pelo violento assassínio de Julie, a ex-namorada de Will. Confuso? Um pouco... Pelo meio temos agentes do FBI com interesses pessoais no caso, temos um mafioso famoso por ser implacável, temos um ex-nazi que procura redimir-se dos erros do passado ajudando almas perdidas e temos um homem conhecido por Ghost, temido por todos por ser extremamente violento e frio no seu "trabalho".
Estas personagens vão estar envolvidas em cenas violentas, algumas com o dom de nos deixar de estômago embrulhado. Não é um livro bonito e a maior parte do tempo anda à volta de temas pouco agradáveis.

Curiosos? Deixo-vos só o aviso de que nada do que parece é. Nada neste livro é preto ou branco, ninguém ali é simplesmente bom ou puramente mau.

Desaparecido para Sempre é um livro escrito numa linguagem muito simples, coloquial, com sentido de humor e com uma história bem estruturada. As personagens são interessantes e bem desenvolvidas. É fácil simpatizarmos com Will porque mesmo no meio de toda a desgraça e azar que o rodeia, tem sentido de humor, não perde a ingenuidade que o caracteriza e torcemos, com sinceridade para que tudo se resolva pelo melhor. :) Faz uma boa dupla com Squares, uma personagem que vive ele próprio com os seus terrores e erros do passado.
Com o desenrolar da história, e à medida que os mistérios vão sendo revelados, houve muita coisa que me pareceu inverosímil, no entanto, isso não incomoda, faz parte do género e quando isso é assimilado a leitura flui muito bem. A história mantém-se interessante ao longo de todo o livro e os capítulos muito curtos ajudam a uma leitura tendencialmente mais compulsiva.

São raros os livros deste género que recomendo. Com este, a recomendação é reforçada com um "sem qualquer hesitação".

Boas leituras!

Excerto:
"Seria de pensar que depois de tantos anos, já se insensibilizara ao sofá puído, à carpete manchada de água e ao televisor tão velho que nem sequer tinha ligação por cabo. Mas não. Pois todos os sentidos lhe diziam que o corpo da irmã ainda lá estava, inchado e apodrecido, o cheirete da morte tão espesso que até custava a engolir."

maio 20, 2012

O Milagre de São Francisco - John Steinbeck

Título original: Tortilla Flat
Ano da edição original: 1935
Autor: John Steinbeck
Tradução: Gervásio Álvaro
Editora: Editora "Livros do Brasil"

"Apropriando-se da estrutura e dos temas do ciclo arturiano, Steinbeck imaginou um novo castelo de "Camelot", situou-o numa das colinas pobres que cerca a cidade de Monterey, na Califórnia, e deu-lhe por habitantes um particularíssimo grupo de "cavaleiros".
Os "cavaleiros" em causa são paisanos, homens de diversas origens, cujos antepassados vieram estabelecer-se na Califórnia há centenas de anos. Sem laços constrangedores a empregos específicos, nem a outras complicações do American way of life, eles resistem com todas as suas forças à maré corrupta do trabalho honesto, e ao oceano de rectidão cívica que os cerca por todos os lados."

Tinha muitas saudades de ler Steinbeck e foi muito bom regressar a ele com este livro. Adoro ler autores que já conheço porque me dão uma tranquilidade na leitura, uma sensação de estar em casa que com os autores novos normalmente não acontece, têm outras vantagens, mas esta pertence aos escritores que são nossos velhos conhecidos e nos dão esta sensação de aconchego. :)

O Milagre de São Franscisco é a história de Danny, dos seus amigos e da casa de Danny. Danny e os amigos moram em Tortilla Flat, uma espécie de subúrbios de Monterey, na Califórnia. Em Tortilla Flat vivem os paisanos, homens e mulheres cujos antepassados habitam a Califórinia há mais de 100 anos. No seu sangue corre uma mistura de sangue índio, espanhol, mexicano e caucasiano. "Os paisanos estão isentos de comercialismo, libertos dos complicados sistemas americanos de negócios, e como não têm nada que possa ser roubado, explorado ou hipotecado, não foram muito atacados por esse sistema."

Danny e os amigos, Pablo, Pilon, Big Joe Portagee e Jesus Maria, são paisanos típicos. Têm aversão a qualquer tipo de relação duradoura e isso inclui o trabalho e o namoro. A única coisa que prezam para além de um garrafão de vinho é a amizade que os une. No centro desta amizade está Danny, um rapaz que poderia ter sido alguém na vida  mas que escolheu vaguear, embebedar-se, dormir ao relento e andar à pancada. Quando regressa do serviço militar descobre que o avô morreu e fez dele proprietário, deixando-lhe duas casas nas colinas de Tortilla Flat. Com esta repentina subida na escala social, Danny sente o peso da responsabilidade e começa a repensar a sua forma de viver. Incapaz de viver debaixo de um tecto e ter os seus amigos a dormir ao relento, pouco a pouco a casa de Danny torna-se a casa de todos eles. Nela passam os dias encostados, a beber e a planear como conseguirão o próximo garrafão de vinho. :)
É numa dessas alturas que surge Pirata, uma pobre alma que vive rodeado de cães, que dorme num galinheiro com eles e que ganha a sua vida a vender madeira na cidade. Não gasta um cêntimo daquilo que ganha, vive em condições miseráveis sendo, no entanto, acarinhado por todos na cidade, por ser um rapaz honesto, sem qualquer malícia no seu coração. Quando Pablo se apercebe da quantidade de dinheiro que Pirata deverá ter guardado algures na mata, enceta um plano para lhe ficar com a pequena fortuna. E é quando Pirata, com toda a sua ingenuidade, entra na vida destes homens, que não sendo más pessoas não eram propriamente possuidores da melhor moralidade, que tudo começa a mudar e a lenda da casa de Danny começa a ser escrita. É também aqui que percebemos de onde vem o título da edição portuguesa, muito bem escolhido. :)

No início estranhei bastante a forma como Steinbeck retratava este grupo especial de homens, cujo único interesse era beber, procurar um rabo de saias e agradar a Danny. Retratava-os sempre como sendo homens de bom coração, cujas intenções eram sempre as melhores, mesmo quando roubavam, mentiam e interferiam na vida dos outros pensando apenas no seu próprio benefício. Era tudo absurdo e moralmente duvidoso, no entanto, pouco a pouco, estes homens preguiçosos, completamente parasitários na sociedade, incapazes de pensar para além do círculo onde se moviam, começam a mudar e o que se começa  evidenciar é o sentimento muito forte que nutrem uns pelos outros. Com um sentido de justiça muito próprio protegiam-se uns aos outros e não hesitavam em ajudar, mesmo não tendo nada para oferecer de seu. A realidade é que ao longo do livro ganham um aura de santidade, retorcida, é certo, mas que não deixa de ser mesmo assim uma coisa boa.

Mais uma vez Steinbeck coloca as suas personagens em situações limite de pobreza, evidenciando a dureza daqueles tempos e daquela região.
O Milagre de São Franscisco é uma história sobre a amizade e sobre a bondade que mesmo a mais vil das criaturas pode ter dentro de si. É uma história sobre a ingenuidade, sobre os bons corações das pessoas que cometem acções menos boas, ou moralmente condenáveis, em prol do outro. Difícil de perceber? Talvez, no entanto quando lerem o livro é fácil de perceber e de conceber.

Se juntarmos a isto tudo a escrita divertida de Steinbeck, este é um livro que não devem deixar de ler! Recomendo!

Boas leituras!

Excerto:
"Esta é a história de Danny, dos seus amigos e da sua casa. Esta história narra como eles os três se tornaram numa só coisa, de modo que, na Tortilla Flat, quando se fala da casa de Danny, não se tem em mente uma estrutura de madeira coberta de caliça velha a desprender-se do emaranhado de uma antiga roseira-de-castela. Não, quando se fala da casa de Danny, subentende-se uma unidade cujas partes são homens, uma unidade donde emanava a ternura, a alegria, a filantropia e, no fim, uma tristeza mística. É que nem entre a casa de Danny e a Távolo Redonda havia diferença nem os amigos de Danny eram diferentes dos cavaleiros." 

Deixo-vos aqui o trailer de um filme de 1942, baseado no livro de John Steinbeck, e com o mesmo nome deste - Tortilla Flat:


maio 17, 2012

A Trilogia de Nova Iorque - Paul Auster

Título original: The New York Trilogy
Ano da edição original: 1985 e 1986
Autor: Paul Auster
Tradução: Alberto Gomes
Editora: Edições ASA

"A Trilogia de Nova Iorque continua a ser, tantos anos depois, o livro mais emblemático de Paul Auster. São três fascinantes histórias de mistério, centradas no submundo da grande cidade norte-americana, em que o leitor, tal como as personagens, se torna prisioneiro dos irresistíveis enredos, dos puzzles alucinantes, dos quais o autor é mestre incontestado.
Cidade de Vidro, Fantasmas e O Quarto Fechado constituem os três andamentos de uma sinfonia única, em que Paul Auster demonstra, mais uma vez, porque é hoje considerado um dos grandes nomes da literatura mundial."

Este livro de Paul Auster não é um livro fácil de se ler. As três histórias que o constituem estão cheias de coisas e acontecimentos que não fazem muito sentido, as personagens têm comportamentos difíceis de aceitar, inesperados e auto-destrutivos. Nada de muito novo no que diz respeito aos livros de Paul Auster. :)

A Trilogia de Nova Iorque é um livro ainda mais estranho e irreal que os restantes que já li do autor. As três histórias aparentemente nada têm a ver umas com as outras, a não ser o tom e o facto de todas serem sobre homens, solitários, perdidos e esquecidos numa cidade gigante, alienados do que os rodeia, ignorados e extremamente infelizes. Nada mais parece ligar estes homens que desistem da vida que levam, para vigiarem a vida de outros homens e serem completamente absorvidos pelas vidas e rotinas da pessoa que vigiam obsessivamente.

Na primeira história, A Cidade de Vidro, conhecemos Daniel Quinn, um escritor de policiais bem sucedido, que deixou de escrever poemas no dia em que perdeu a mulher e o filho pequeno. Quinn vive sozinho, ocupa o seu tempo entre um livro e outro, a vaguear por Nova Iorque, sem destino pré-definido, gosta de andar e deixar de se sentir na sua pele, ser absorvido pela multidão e conseguir não pensar. Uma noite a sua rotina é interrompida por um estranho telefonema de um homem que lhe pede ajuda, julgando que Quinn é Paul Auster, um detective privado. :)A partir deste telefonema a vida de Quinn muda e nunca mais será como era.
Gostei muito desta história e da forma como Auster nos conta a crescente loucura e alienação de Quinn. À medida que este se vai perdendo, a sua história torna-se cada vez menos credível e temos dificuldade em distinguir o que é real e o que não será bem o que aparenta.

A segunda história, Fantasmas, é uma história estranha sobre um detective privado, Blue, que é contratado por White para vigiar um outro homem, Black. Estranho? Sim, mas não são apenas os nomes das personagens que são diferentes. Blue, instala-se num apartamento em frente ao apartamento de Black e passa os dias em frente à janela a vigiar os movimentos de Black. Depois de um tempo, está de tal forma sintonizado com as rotinas de Black, que já nem precisa de vigiar, simplesmente sabe o que o outro está a fazer. Será mesmo assim? É o que nos vai sendo contando ao longo desta história, mais uma vez cheia de solidão e infelicidade.
Embora existam semelhanças entre esta e a primeira história, não tive a sensação de que estava a ler mais do mesmo. Gostei, mais uma vez, da forma como Auster parece conhecer o que é ser umas destas personagens, sozinhas e desligadas do resto do mundo.

A terceira e última história, O Quarto Fechado, é talvez a mais confusa das três. Um crítico literário, escritor frustrado, de quem não sabemos o nome, recebe notícias de um amigo de infância, Fanshawe que, aparentemente desapareceu sem deixar rasto.
Fanshawe é uma personagem completamente atípica, um homem extremamente inteligente e escritor talentoso, embora nunca tenha publicado uma única obra. É admirado por todos os que o conhecem e o narrador foi o seu melhor amigo na infância. Antes de desaparecer, Fanshawe deixou indicações precisas sobre o que deveria ser feito às suas obras por publicar, caso algo lhe acontecesse. O narrador, por razões que este não entende, foi o escolhido para ser o depositário da obra deixada pelo amigo. Vê-se de um dia para o outro na posse de um espólio de valor incalculável e com a responsabilidade de a publicar.
Durante este percurso vão-se dando algumas mudanças no carácter do narrador, que numa espécie de insanidade temporária, subverte as suas noções de moralidade e honestidade.
Mais uma de que gostei. :)

Na terceira história são referidas personagens que são também personagens nas outras duas histórias. A única diferença entre estas parece residir apenas no facto de não se detectar nelas nenhuma da escuridão que vivem na histórias respectivas, como personagens principais.
Fazendo uma ligação entre a cidade de Nova Iorque e os temas transversais às três histórias, a sensação como que fiquei foi a da indiferença que todos sentimos nos outros e em nós próprios, principalmente se vivemos em grandes cidades, como Nova Iorque. É como se as personagens, absorvidas pelos seus dilemas pessoais não se apercebessem de quão normais podem parecer para o vizinho do lado, absorvido pelos seus próprios problemas. Não sabemos, nem queremos saber, dos problemas das pessoas que se cruzam connosco na rua e se sentam ao nosso lado nos transportes. Nem nos passa pela cabeça a possibilidade de os nossos medos poderem ser comuns e, portanto, partilhados, divididos e esvaziados de algum do drama. :)

Paul Auster é um escritor genial! Numa escrita leve, na forma e não no conteúdo, fala de desilusão, abandono, loucura, alienação, solidão, perda e de tristeza com uma propriedade e conhecimento que assusta. As personagens são complexas e credíveis ao mesmo tempo, com as quais nos conseguimos identificar, de alguma forma. E não poderia ser um livro de Paul Auster se não estivesse repleto de histórias dentro da história e cheio de referências a outros livros. :)

Gostei mesmo muito e, por isso, recomendo sem quaisquer reservas!

Boas leituras!

Excerto: Este livro não é dado a excertos, além disso... a opinião já vai longa! ;)