agosto 31, 2012

[Pré-Venda] O Aroma das Especiarias - Joanne Harris

E vem aí um novo livro da Joanne Harris, O Aroma das Especiarias, que pouco ou nada tem a ver com o título original - Peaches for Monsieur Le Curé
Este é o terceiro livro da "saga" Vianne Rocher, a personagem que surgiu em Chocolate e voltou a ser protagonista em Sapatos de Rebuçado.

Não é novidade que gosto muito de Joanne Harris e, embora as histórias de Vianne Rocher não sejam as que mais gosto da autora, não podia deixar de o comprar. 
Ele já está em pré-venda nas livrarias. Acabei por encomendá-lo na Wook, aproveitando a oferta dos portes e um vale de desconto que tinha para utilizar. E, surpresa das surpresas, no check-out adicionaram-me, como oferta, o Maligna da mesma autora. Já o tenho (devidamente comentado aqui), mas sendo oferecido, não vou ser esquisita. Como não anunciam a oferta, nem sei se oferecem sempre o mesmo livro... Se calhar é uma espécie de roda da sorte com os livros da Joanne Harris! :)

Na Fnac online anunciam a oferta do Cinco Quartos de Laranja, que adoro (a minha opinião aqui)! 

E de repente tenho vontade de ler qualquer coisa dela... :p

Boas leituras!

agosto 19, 2012

A Idade do Ferro - J. M. Coetzee

Título original: Age of Iron
Ano da edição original: 1990
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: Ana Luísa Faria
Editora: Publicações Dom Quixote

"Na Cidade do Cabo, uma mulher, idosa e só, está a morrer de cancro. Durante toda a sua vida, conseguiu distanciar-se dos horrores e da violência do apartheid. No final dos dias, porém, é obrigada a confrontar-se com as dramáticas brutalidades forjadas por um regime a que sempre se opôs. A Idade do Ferro retrata a situação de muitos sul-africanos que se viram mergulhados num clima de tensão social a que não estavam habituados nem previam; mas, ao mesmo tempo, é uma perturbante metáfora sobre um regime político que se sustentou pela injustiça até provocar uma irrupção de revolta que a todos atingiu."

Este é o segundo livro que leio de J. M. Coetzee e é com este pequeno livro que Coetzee confirma que merece um lugar de destaque nas minhas estantes. Em No Coração Desta Terra (já comentado aqui), fui surpreendida por uma personagem feminina extraordinária e difícil de esquecer. Neste A Idade do Ferro, temos novamente uma mulher que me vai acompanhar durante uns tempos. :) Coetzee é bom com as personagens femininas, estou a ver. Aliando a isto histórias muitíssimo bem contadas, a leitura dos seus livros só pode acabar por ser uma experiência muito intensa.

Em A Idade do Ferro, Coetzee leva-nos até à África do Sul do Apartheid. Um país que, à semelhança de muitos outros países africanos, tem tudo para ser líder mas, quando escolhem o caminho da ignorância, da injustiça e da desigualdade, perpetuando atitudes racistas e desumanas, geram violência, medo e morte e zero de liderança e desenvolvimento.
Na Cidade do Cabo vive Mrs Curren, uma senhora idosa, que está a morrer com cancro. No dia em que o médico que lhe diz que não irá sobreviver à doença, conhece Vercueil, um sem-abrigo que escolheu o seu jardim para se abrigar. A idosa vive sozinha, a filha emigrou para os EUA, amargurada e desiludida com o país que deixou de reconhecer como seu. Partiu e nunca mais regressou. Quando Mrs Curren encontra o desconhecido no seu jardim, a primeira atitude é expulsá-lo da sua propriedade, no entanto a reacção do homem é de total indiferença e apatia, o que deixa a velha senhora sem reacção.
Sem que ninguém o pudesse prever, inicia-se ali uma relação estranha entre os dois a que só podemos chamar de amizade mais para o fim do livro. Ela vê nele uma companhia para a sua solidão, despertando nela curiosidade. Vercueil intriga-a e mantêm-a interessada na vida. Acredita, até ao fim que Vercueil foi enviado para a ajudar a morrer, para tornar a sua despedida do mundo menos dolorosa. No que a ele diz respeito, não se percebe muito bem o que ele quer. Inicialmente, talvez tenha visto nela segurança, no entanto, à sua maneira, acaba por gostar dela e da sua crescente loucura. Talvez vá ficando porque se sente útil na cada vez maior fragilidade da senhora. Na realidade é muito difícil não gostar dela... :)

Numa longa carta que decide escrever à filha, onde relata os seus últimos meses?, semanas? de vida, vamos descobrindo o estado a que o país chegou. A crescente revolta dos negros com a natural violência que isso acarreta. Os jovens negros que lutam, com as armas que têm e conhecem, por uma vida melhor para todos e que, à conta disso não têm infância, crescem demasiado rápido, tornam-se frios e distantes, perdendo valores como o respeito pelos mais velhos. São quase orfãos todos eles... São no entanto o orgulho dos pais que vêem neles a esperança de dias melhores, mesmo que isso signifique perde-los na luta. São heróis para a comunidade negra e uns arruaceiros para a comunidade branca que governa o país. Mrs Curren é confrontada com esta realidade, da qual se conseguiu manter afastada quase toda a sua vida, quando Florence, a sua empregada, traz para sua casa o filho adolescente, Bheki, com o intuito de o afastar das zonas de maior violência.

Paralelamente a isto, Mrs Curren vai descrevendo à filha a sua crescente degradação física e mental, com momentos de pura confusão e alheamento, devido à medicação forte que toma para deixar de sentir dor. Esta é uma mulher extraordinária que vale a pena conhecer. Só nos seus piores momentos perde a vontade de viver, numa luta perdida à partida, contra a morte.
É  um relato apaixonado e muitas vezes incómodo, do caminho que é feito até ao dia em que a morte a decide levar. E é, também, um relato impressionante de uma luta desigual que condenou à morte muita gente, que permitiu conquistas que são, ainda hoje, tão frágeis. Um relato contado na perspectiva de alguém que, vivendo ali nunca se tinha apercebido da dimensão do problema.

Gostei imenso deste livro que, sendo tão pequeno consegue falar de coisas tão grandes e importantes. Gosto muito da escrita de Coetzee, gosto muito das histórias que conta e gosto muito das personagens que cria, principalmente das personagens femininas.

Gosto e recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excertos, de entre os muitos possíveis:
"«Agora a criança está enterrada, e caminhamos por cima dela. Digo-lhe que quando caminho por esta terra, por esta África do Sul, tenho cada vez mais a impressão de caminhar por cima de rostos negros. Estão mortos, mas o espírito que os animava não os abandonou. Jazem na terra, pesados e empedernidos, à espera de que passem os meus pés, à espera de que eu me vá, à espera do dia em que tornarão a erguer-se. Milhões de figuras de ferro fundido, a vogar debaixo da pele da terra. A idade do ferro que se prepara para voltar."

"Filhos de ferro, pensei. A própria Florence, também não muito longe da dureza do ferro. A idade do ferro. Após a qual virá a idade do bronze. Quanto tempo, sim, quanto tempo até que o ciclo regresse às idades mais brandas, a idade do barro, a idade da terra? Uma matrona espartana, um coração de ferro, gerando filhos guerreiros para a nação. «Nós temos orgulho neles.» Nós. Regressa a casa empunhando o teu escudo ou deitado no teu escudo."

agosto 12, 2012

A Fúria dos Reis - George R. R. Martin

Título original: A Clash of Kings (part 1)
Ano da edição original: 1998
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência
 
"Quando um cometa vermelho surge nos céus de Westeros encontra os Sete Reinos em plena guerra civil. Os combates estendem-se pelas terras fluviais e os grandes exércitos dos Stark e dos Lannister preparam-se para o derradeiro embate.
No seu domínio insular, Stannis, irmão do falecido Rei Robert, luta por construir um exército que suporte a sua reivindicação ao trono e alia-se a uma misteriosa religião vinda do oriente. Mas não é o único, pois o seu irmão mais novo também se proclama rei, suportado por uma hoste que reúne quase todas as forças do sul. Para pior as coisas, nas Ilhas de Ferro, os Greyjoy planeiam a vingança contra aqueles que os humilharam dez anos atrás.
O Trono de Ferro é ocupado pelo caprichoso filho de Robert, Joffrey, mas quem de facto governa é a sua cruel e maquiavélica mãe. Com a afluência de refugiados e um fornecimento insuficiente de mantimentos, a cidade transformou-se num lugar perigoso, e a Corte aguarda com medo o momento em que os dois irmãos do falecido rei avancem contra ela. Mas quando finalmente o fazem, não é contra a cidade que investem...
O que os Sete Reinos não sabem é que nada disto se compara ao derradeiro perigo que se avizinha: no distante Leste, os dragões crescem em poder, e não faltará muito para que cheguem com fogo e morte!"

A saga dos Sete Reinos continua, neste 3ª volume da edição portuguesa (2º da edição original), com a luta pelo trono de ferro mais acesa do que nunca.
Embora a descrição das batalhas, nesta parte da história seja praticamente inexistente, achei este volume mais duro e mais opressivo que os anteriores. Com a família Stark espalhada por todos os cantos dos Sete Reinos, cada pedaço da história dedicado a cada um deles é triste e aflitivo. Para além disso as tramas que se vão planeando e aquilo que se vai pressentindo também não augura nada de bom. Pressinto que esta vai ser uma saga cada vez menos bonita de se ler... Mas é, também por isso que é uma saga que todos querem continuar a seguir. É um facto que existem personagens mais importantes do que outras, no entanto, nada impede que a sua importância deixe de existir assim que seja atingindo um propósito. E quem define isso é o autor, mais ninguém.

Joffrey Lannister é aparentemente o legítimo rei dos Sete Reinos a quem todos os outros senhores deveriam ter vindo jurar fidelidade, no entanto, após a morte do pai, vive juntamente com a mãe, Cersei Lannister, exilado por detrás das muralhas de Porto Real.
Aguardam impacientemente que o abastado chefe da casa Lannister, Tywin Lannister, consiga derrotar Robb Stark que se aproxima vindo do norte, a tempo de impedir que Stannis Baratheon e Renly Baratheon invadam Porto Real. Os dois irmãos mais novos de Robert Baratheon têm pretensões a trono de ferro e, lutam cada um deles, um contra o outro, para alcançarem esse objectivo. Apenas um Baratheon poderá chegar ao trono, nunca os dois...

Robb Stark, proclamado Rei do Norte e que não tem qualquer pretensão ao trono de ferro e a reinar nos Sete Reinos, vê o seu objectivo de vingar a morte do pai e libertar Arya e Sansa do cativeiro dos Lannister, comprometido pelas ambições de cada um dos outros pretensos reis. Em vez de juntarem forças contra o mal comum que são os Lannister, estas são divididas e por isso enfranquecidas pelos planos pessoais de cada um deles.

Do outro lado do mar, Daenerys Targaryen começa a reorganizar-se depois da perda trágica do seu "sol-e-estrelas" tendo consigo três armas poderosas que a torna na mais poderosa candidata ao trono de ferro.
Para lá da Muralha de Gelo as notícias não são nada animadoras. Os rumores acerca do regresso dos Outros parecem ser mais do que rumores.

Em Winterfell, Bran Stark, uma criança do Verão, com todas as limitações que possui e atormentado por pesadelos constantes, tenta ultrapassar a tristeza de nunca vir a ser um cavaleiro e luta a todo o custo para ser digno do nome Stark.

É, como podem adivinhar um livro um pouco triste. Tem descrições bem pesadas e momentos de pura aflição e miséria humana.
Os momentos mais leves são, mais uma vez protagonizados por Tyrion Lannister, o anão, que como Mão do Rei está mais acutilante do que nunca e que confirma, neste volume, a importância que ganhou no anterior. Só espero que George R. R. Martin não o mate porque a personagem dele é genial. :)

Personagens favoritas: 
Mais uma vez o pódio é ocupado por Tyrion e Arya.
Arya continua a ser uma miúda especial e neste volume perde alguma da inocência, deixando de ser uma criança rebelde, uma maria-rapaz, e passa a ser uma sobrevivente. Acredito que, juntamente com Tyrion, Arya é umas das personagens que não vai desaparecer tão cedo. Creio que o autor tem grandes planos para esta miúda. :)
Sendo que no pódio cabem, normalmente três, o terceiro terá de ser Jon Snow. Gosto do "bastardo" e acredito que para ele também estão reservados grandes acontecimentos. :)

Nunca é demais dizer que todas as personagens desta saga são dignas de destaque, sem excepção.

Posto isto e, esquecendo o nó que tanta personagem provoca no meu cérebro, este é um livro a não perder e que mantém as expectativas altas para os que se seguem.

Boas leituras!


Excerto:
"Arya atirou-se de cabeça pelo túnel adentro e caiu metro e meio. Ficou com tera na boca mas não se importou, o sabor era bom, era um sabor de lama, água, minhocas e vida. Debaixo da terra, o ar estva fresco e escuro. Por cima nada havia a não ser sangue, um rugido vermelho, fumo sufocante e os gritos de cavalos moribundos. Rodou o cinto para que a Agulha não se pusesse no seu caminho, e começou a rastejar. Tinha penetrado uns três metros no túnel quando ouviu o som, como o rugido de algum monstruoso animal, e uma nuvem de fumo quente e poeira negra formou uma vaga atrás dela, cheirando ao inferno. Arya susteve a respiração, beijou a lama do chão do túnel e chorou. Por quem, não saberia dizer."

Ao terceiro e quarto volume das edições portugueses corresponderá a 2ª temporada de Game of Thrones, já exibida e que ainda não vi porque queria ler os livros primeiro. Deixo-vos aqui um "cheirinho" desta fantástica série:

agosto 05, 2012

O Desejo de Kianda - Pepetela

Título original: O Desejo de Kianda
Ano da edição original: 1995 
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"«João Evangelista casou no dia em que caiu o primeiro prédio. No Largo do Kinaxixi. Mais tarde procuraram encontrar uma relação de causa a efeito entre os dois notáveis acontecimentos. Mas só muito mais tarde, quando a síndrome de Luanda se tornou notícia de primeira página do New York Times e do Frankfurter Allgemeine. Aliás João Evangelista casou às cinco da tarde, na Conservatória do Kinaxixi, e o prédio caiu às seis. A existir relação, parece claro ser o casamento a causa e nunca o suicídio do prédio. O problema é que as coisas nunca são tão límpidas quanto gostaríamos.»"

Este é um daqueles livros que se lêem de uma assentada. É pequenino, quase um conto a dar para o comprido. Não é o meu Pepetela favorito, aliás este não é o registo que mais aprecio no escritor, no entanto gostei bastante da história.

No dia de casamento de João Evangelista com Carmina, membro do Comité Central, tem início, em Luanda, um fenómeno que ninguém consegue explicar. No dia do casamento cai o primeiro prédio no Largo do Kinaxixi. Cair um prédio, sem razão aparente já seria de estranhar, quando a queda do prédio parece desafiar todas as leis da física o acontecimento torna-se um fenómeno. Como é que é possível que o prédio tenha caído lentamente, com todas as pessoas a chegarem ilesas ao chão? Estranho? Sim, no mínimo. Mais estranho só mesmo se a queda do prédio não for única mas o primeiro prédio do Largo do Kinaxixi que rui daquela forma. Pouco a pouco, todos os prédios do Kinaxixi vão caindo, sem que ninguém consiga encontrar uma razão lógica para o fenómeno que acaba por ser apelidado de Síndrome de Luanda. Um por um, os prédios de um bairro residencial recente, habitado pela classe média de Luanda, vai desaparecendo.
No bairro existe um prédio cuja construção nunca foi terminada e junto a ele existe uma espécie de lago, barrento e putrefacto. Cassandra é uma das muitas crianças que moram nesse prédio e apenas ela parece pressentir a razão do estranho comportamento dos prédios naquele bairro. Cassandra ouve uma voz que apenas ela consegue ouvir. A voz de Kianda, a figura que os angolanos crêem que habita em todos os lagos, rios e mares, uma sereia. O bairro do Kinaxixi foi construído em cima de uma lagoa, onde naturalmente habitava Kianda. A pessoas que assistiram à destruição da lagoa, contam que uma mafumeira, a mafumeira de Kianda, chorou sangue pelo cepo durante uma semana. Será que o Síndrome de Luanda não é apenas Kianda a fazer cumprir o seu desejo de restituir a lagoa ao seu sítio original? Será que a natureza está a reclamar o seu espaço novamente?
Enquanto a natureza reclama o seu direito à terra, ao seu espaço, os homens guerreiam e vivem deslumbrados pelo poder e pelo dinheiro e João Evangelista vive num mundo de fantasia. Alheio ao que se passa à sua volta, passa os dias a jogar jogos de estratégia no computador, construindo civilizações enquanto lá fora se vão destruindo alguns dos pilares da civiliação.

Mais uma história de Pepetela que toca o tema da guerra e da corrupção em Angola. Onde os ideais são facilmente postos de parte se o que está em causa são milhões de dólares. Por milhões de dólares alguém que sempre lutou pelo povo e do lado do povo que tem a oportunidade de servir esse mesmo povo nas mais altas esferas do poder político de Luanda, sucumbe à tentação e fica milionário com o negócio de compra e vendas de armas, que alimentam a guerra civil que estalou na sequência das eleições. As mesmas eleições que legitimam a presença desses representantes do povo permite que estes lucrem com o conflito que se inicia

Fazendo alguma pesquisa na Internet, descobri que o prédio em eterna construção existiu durante mais de trinta anos (http://www.diariodaafrica.com/2008/07/o-prdio-do-kinaxixi.html) tal como o Largo de Kinaxixi e a lenda da lagoa de Kianda.  



Gostei e recomendo!

Boas leituras!


Excerto:
"Era um cântico suave, doloroso, que uma criança um dia ouviu. Disse aos amigos, que riram. Agora a água canta? É tão bonito, mas tão triste, repetiu a criança. Cassandra de seu nome. (...) Cassandra insistia, os pais não quiseram ouvir o cântico. Os amigos riam, Cassandra pirou de vez, diziam. Então não é maluco quem ouve o que mais ninguém ouve, ou quem vê o invisível para os outros? E no entanto, o cântico subia, cada vez mais dorido, das águas escuras onde rãs e cacussos coabitavam no meio de plantas de folhas redondas. Cassandra deixou de falar nisso, por inútil. Mas muitas vezes se punha à beira da lagoa, ouvido atento, o pé ritmando a música. E a sua cara de menina entristecia como as flores ao fim da tarde."

O nome da criança, Cassandra, que ouvia a voz de Kianda, fez-me lembrar esta música do cantor espanhol Ismael Serrano:

julho 29, 2012

[Filme] A Vida de Pi


Entretanto está marcada a estreia do filme baseado na obra de Yann Martel, A Vida de Pi (já comentado aqui), para dia 29 Novembro de 2012, nos EUA. 

Acho este livro muito complicado de adaptar ao cinema, no entanto parece que Ang Lee parece ter conseguido.

O trailer deixa-me algumas reservas, visualmente parece muito bonito, quanto à história... O melhor é esperar para ver! :)

Fica o trailer:


A Terra das Ameixas Verdes - Herta Müller

Título original: Herztier
Ano da edição original: 1994
Autor: Herta Müller
Tradução do inglês: Maria Alexandra A. Lopes
Editora:Difel

"A Terra das Ameixas Verdes é uma obra sublime, um relato contido e agudo de existências em perigo sob a ditadura de Ceausescu. Romance político? Também. Mas é sobretudo um poderoso libelo contra a desumanidade tortuosa dos sistemas de governo cuja legitimidade deriva do silêncio e do medo. Um romance polifónico e anónimo: da maior parte das personagens conhecemos apenas o primeiro nome; da narradora, nem sequer isso…
Partindo do (aparente) suicídio de Lola, uma jovem - a narradora anónima - encontra apoio num grupo de três rapazes que, com ela, se interrogam e procuram entender tanto a morte de Lola como a sua própria impotência perante um regime que não se abstém de humilhar e silenciar todos aqueles que ousam desafiá-lo. Os quatro irão enfrentar os meandros de um poder corrosivo que visa diminuí-los e isolá-los, aniquilando-lhes a vontade e a capacidade de ter esperança.
Romance de resistência. Resistência ao silêncio asfixiante, porque cúmplice e perpetuador de despotismos, A Terra das Ameixas Verdes é um texto de «palavra difícil» porque as palavras apodrecem verdes na boca, trivializando experiências de terrível indizibilidade. Como dizer o medo da experiência? Como descrever a vontade de morrer? E no entanto, há o imperativo de dizê-lo.
Entre o silêncio impossível e a palavra estrangulada, esta é uma história de feridas jamais fechadas e do despudor impenitente de uma ditadura insidiosa que, obrigando à interiorização, sobreviveu nas marcas inelidíveis que deixou nos corpos e nas almas."

A Terra das Ameixas Verdes não é um livro fácil de ler. A mim custou-me muito a entrar na narrativa e estive muito perto de desistir de o ler, de o guardar para uma outra altura. No entanto, depois de uma pequena pausa, reiniciei a leitura, com mais calma, porque é um livro que, pelo menos de início, exigiu de mim alguma concentração extra. Depois de ter conseguido entrar no ritmo da narrativa este livro acabou por ser uma boa surpresa. Gostei bastante da escrita e da perspectiva em que a narradora colocou a história.

A Terra das Ameixas Verdes não é um livro bonito mas sim um livro opressivo e angustiante. Não poderia ser de outra forma uma vez que retrata os anos 60, 70 da ditadura comunista de Nicolae Ceausescu na Roménia.
Os protagonistas são um grupo de jovens, Kurt, Georg, Edgar, a narradora, de quem não sabemos o nome e Lola a companheira de quarto da narradora, cuja morte acaba por juntar estes quatro jovens, que descobrem que a sua aversão ao regime os une. São perseguidos, vigiados, ameaçados e interrogados por um agente do Securitate, a polícia secreta do regime, o Capitão Pjele e o seu cão feroz e ameaçador. Embora este agente os tenha na sua lista, a verdade é que eles não são militantes activos de nenhuma organização anti-regime, são apenas quatro jovens  que não concordam com  Ceausescu e que são aterrorizados por causa das conversas que têm entre eles. Não distribuem panfletos, não nos é dito que tentem convencer outros a juntarem-se à causa. Parece que estes quatro são perseguidos apenas e só por causa dos seus pensamentos, muitos deles nem sequer verbalizados. 
O cerco a estes quatro vai-se apertando a uma velocidade crescente, eles vão ficando cada vez mais deprimidos, perdidos, sem qualquer ponta de esperança, sentimento que, aliás nunca foi muito notório entre eles. A atitude deles sempre foi muito fatalista, como se o desfecho que acabou por ocorrer fosse óbvio, inevitável, nada mais poderia acontecer. Daí este livro ser tão opressivo. Eles nunca tomaram uma atitude que fosse declaradamente contra o regime e as suas vidas foram sendo, de forma lenta mas consistente, desfeitas. Psicologicamente abalados, afastados uns dos outros, intimidados pelas ameaças feitas não só a eles mas também às suas famílias. Herta Müller mostra-nos aqui uma forma de repressão, de destruição da capacidade de luta e de viver, que por vezes é tão subtil que parece mentira, parece inventada, o que torna este livro ainda mais angustiante. Neste livro não há espaço para o amor, para a confiança despreocupada nos outros. O único espaço que existe é para o medo e para morte, nas suas mais variadas formas.

A maneira como Herta Müller nos vai contando esta história é muito interessante, porque não é um livro típico, dos muitos que já se escreveram sobre ditaduras, quer de direita quer de esquerda, mas sim um livro que se debruça mais sobre cada um destes jovens e vai-nos mostrando, página a página como eles vão sendo destruídos pelo ambiente em que vivem. Com uma escrita nada óbvia e que é quase poética, nalgumas partes do livro, A Terra das Ameixas Verdes é mais do que um romance, uma ficção. A palavra que me ocorre é humano, é um livro muito humano.

Recomendo sem reservas, é um livro que para além de ser uma extraordinária obra literária é também um livro que me obrigou a pesquisar alguns factos. Conheço muito pouco sobre a história dos países da Europa do Leste e a Roménia não é excepção. 
Um bom sítio para se ler este livro!
Fiquei a conhecer um pouco melhor aquela região e começo a sentir uma inclinação pelos escritores dos balcãs. Para além de Herta Müller, também Ivo Andrić foi uma boa surpresa, com o seu A Ponte Sobre o Drina e, que provavelmente não teria conhecido se nunca tivessem ganho o Prémio Nobel da Literatura, em 2009 e 1961, respectivamente.

Leiam tanto um como outro! Boas leituras!



Excerto:
"Por entre as plantas mais estúpidas que arrancou, o pai diz: As ameixas verdes fazem mal, o caroço ainda está mole e trinca-se a própria morte. Ninguém nos pode valer, morremos mesmo. Com as febres claras, o coração queima-se-te por dentro.
Os olhos do pai estão nublados e a criança vê que o amor que o pai lhe tem é como um vício. Que ele não consegue controlar o seu amor. Que ele, que fez cemitérios, deseja morte à criança.
Daí que mais tarde a criança coma bolsos inteiros de ameixas. Todos os dias, quando o pai não está a ver, a criança esconde metades de árvores na barriga. A criança come e pensa, isto é para morrer.
Porém como o pai não vê, a criança não tem de morrer.
As plantas mais estúpidas eram os cardos-do-coalho.
O pai sabia alguma coisa da vida. Assim como todos os que falam da morte sabem como é que a vida continua."

julho 12, 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto

Título original: Terra Sonâmbula
Ano de edição: 1992
Autor: Mia Couto
Editora: Editorial Caminho

"Primeiro romance do moçambicano Mia Couto, já bem conhecido e apreciado pelo público português, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo os recentes tempos de guerra em Moçambique, da qual traça um quadro de um realismo forte e brutal.
Dentro deste cenário de pesadelo movimentam-se personagens de uma profunda humanidade, por vezes com uma dimensão mágica e mítica, todos vagueando pela terra destroçada, entre o desespero mais pungente e uma esperança que se recusa a morrer. 
Terra Sonâmbula é um romance admirável, sem dúvida uma das melhores obras literárias que nos últimos anos se escreveram em português."

Li este livro pela primeira vez há uns largos anos. Na altura, pouco percebi, no entanto gostei.
Porque é que gostamos de coisas que não percebemos? Talvez aquilo que não percebemos nos intrigue, nos desperte para o desconhecido e nos ajude a alargar horizontes e a sair da nossa zona de conforto.
Terra Sonâmbula, deve ter sido o primeiro livro "estranho" que li. Estranho na escrita, com personagens difíceis de conceber mas com uma linguagem que, embora não conseguisse captar na sua totalidade, não me era tão estranha assim. Um livro cheio de palavras inventadas que mostrou que uma história não tem de ser regrada e cheia de barreiras gramaticais. Quando se conseguem quebrar barreiras e ultrapassar preconceitos, a linguagem deixa de ser rígida e é possível reinventar toda a língua e as palavras tem o significado que lhe queremos dar. Não deixa de ser reconfortante que nem tudo na vida tenha de fazer sentido. Sabendo isso é mais fácil apreciar as coisas que realmente importam e a beleza de uma nova linguagem, a linguagem dos sonhos, dos sentimentos, a linguagem mais próxima da primeira palavra proferida pelo Homem há milhares de anos atrás.

Mia Couto é irrepreensível na forma como nos conta uma parte da história de Moçambique, apoderando-se dos sonhos dos dois jovens Muidinga e Kindzu. É um livro cuja beleza reside na forma como está escrito e nos sentimentos nobres que o escritor tão bem descreve. Tudo o resto é feio e angustiante, igual a todas as guerras.

Este é um livro difícil de descrever e de comentar porque embora fale de assuntos muito concretos e muito reais, fá-lo de uma forma pouco palpável e qualquer tentativa, da minha parte, para tentar fazer ver o porquê de este ser um livro especial e que não devem deixar de ler, seria uma tentativa inútil de chegar perto da qualidade literária de Mia Couto.
Por isso vou-me limitar aquilo que consigo transmitir por palavras "normais".


Em Terra Sonâmbula, Mia Couto fala-nos de um país destruído pela guerra, onde as pessoas se sentem perdidas e desenraizadas. Todos são órfãos de alguma espécie, todos perderam e têm a certeza de que vão continuar a perder. Muidinga é um rapaz, de idade um pouco indefinida, é jovem mas não consegui perceber quão jovem seria, que foi salvo por Tuhair. Sem qualquer memória do que lhe aconteceu, o rapaz tem como única referência este homem que foge de algo ou de alguém que não identifica. Encontram abrigo num machimbombo incendiado à beira da estrada, uma estrada que parece ela própria deslocar-se. Toda a paisagem envolvente parece mudar, como se não fossem só as pessoas a deslocarem-se, fugindo da guerra, de um conflito que não conseguem perceber. Como se toda a terra fosse sonâmbula e caminhasse sem destino certo.
Perto do machimbombo Muidinga encontra uns cadernos, junto a um cadáver. Estes cadernos foram escritos por Kindzu, mais um jovem sem idade, porque as crianças da guerra parecem-nos sempre mais velhas, precocemente envelhecidas. Nos seus cadernos Kindzu registou a viagem que iniciou com o objectivo de se tornar um naparama, figuras temidas pela população por serem uma espécie de exército de almas guerreiras, abençoadas pelos feiticeiros e que lutavam contra a guerra. O relato da aventura de Kindzu passa a ser uma parte importante na vida de Muidinga e Tuhair, permitindo-lhes evadir-se da vida triste e temerosa que levam no machimbombo destruído. Com os cadernos de Kinzu a capacidade de sonhar e a esperança de um futuro mais risonho mantêm-se vivas!

Terra Sonâmbula foi o primeiro livro de Mia Couto e a "brincriação" com as palavras é genial e refrescante. É curioso voltar a uma obra mais antiga de um escritor que têm evoluído na forma como escreve, tornando-se mais maduro. As últimas obras dele são mais "normais" mas igualmente boas. São apenas uma outra vertente de um escritor que acredito, escreveria novamente e com a mesma qualidade Terra Sonâmbula.
O livro para além da guerra e das pessoas que nela se vêm envolvidas, fala nas tradições, nas crenças de uma sociedade fechada e muitas vezes preconceituosa.
Com este livro veio-me à memória um dos pouco poemas que conheço e recordo (não sou dada à poesia) do tempo da escola, "Pedra Filosofal" de António Gedeão:

"Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."


Obra de leitura obrigatória!

Boas leituras!

Excerto (um dos infinitos possíveis de escolher):
"Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E, sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com os olhos postos no mar."

Deixo-vos ainda o trailer do filme Terra Sonâmbula, de Teresa Prata, baseado neste livro de Mia Couto: