setembro 02, 2012

Enquanto Salazar Dormia... - Domingos Amaral

Título original: Enquanto Salazar Dormia...
Ano da edição original: 2006
Autor: Domingos Amaral
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Lisboa, 1941. Um oásis de tranquilidade numa Europa fustigada pelos horrores da II Guerra Mundial. Os refugiados chegam aos milhares e Lisboa enche-se de milionários e actrizes, judeus e espiões. Portugal torna-se palco de uma guerra secreta que Salazar permite, mas vigia à distância.

Jack Gil Mascarenhas, um espião luso-britânico, tem por missão desmantelar as redes de espionagem nazis que actuavam por todo o país, do Estoril ao cabo de São Vicente, de Alfama à Ericeira. Estas são as suas memórias, contadas 50 anos mais tarde."

Sentia alguma curiosidade em relação aos livros deste escritor, Domingos Amaral. Parecem retratar épocas interessantes da nossa história e não há assim muitos que escrevam sobre nós, portugueses. Curiosidade satisfeita e... pronto. :) Gostei da história mas a escrita pareceu-me demasiado, como hei-de dizer?, demasiado simples, talvez seja por aí. As personagens são interessantes q.b., mesmo o Jack Mascarenhas, Don Juan de algibeira, não deixa de ser uma personagem simpática. Tive receio que se tornasse mais um Tomás Noronha da literatura portuguesa, mas felizmente as (muitas) investidas sexuais do luso-britânico estão melhor enquadradas na história e este tem muito mais pinta do que o pseudo-garanhão que José Rodrigues dos Santos criou. No entanto, acho que o destaque que o autor dá às proezas sexuais e às conquistas de Jack, acabam por afastar o leitor da história e não são sendo assim tão divertidas, acabam por se tornarem isso mesmo distracções à leitura. :)

Enquanto Salazar Dormia, Lisboa estava repleta de refugiados da II Guerra Mundial. Refugiados ricos e excêntricos, espiões ingleses e alemães, e muitas mulheres deslumbrantes e desinibidas, que viveram numa capital diferente da que hoje conhecemos, onde as conspirações eram mais que muitas, algumas com capacidade para resolverem a guerra.

Conhecemos Jack Gil Mascarenhas (que raio de nome!), um luso-britânico, quando este regressa a Portugal, passados 50 anos, para o casamento do seu neto com uma portuguesa. É no momento em que aterra no aeroporto de Lisboa que todas as recordações da época dourada que viveu em Lisboa, nos anos 40, começam a ressurgir. São essas memórias que ele vai partilhando connosco. Vai-nos falando de uma Lisboa difícil de imaginar, digna de um filme de Hollywood, repleta de uma vida, à primeira vista impossível de conceber em plena ditadura de Salazar. Para manter o país fora do conflito mundial, Salazar acabou por permitir que Portugal se tornasse num ninho de espiões, vigiando as suas acções, mas interferindo o menos possível nas suas missões. Enquanto a grande maioria dos portugueses sofria na pele a mão pesada do regime, cada vez mais pobres e menos livres, estes estrangeiros especiais viviam num autêntico El Dorado, onde tudo era permitido.
E o livro é isto, um livro de memórias de um ex-espião, que viveu em Portugal os melhores anos da sua vida, onde conheceu as mulheres mais bonitas e libertinas de que há memória e onde contribuiu de forma muito concreta para a resolução do conflito mundial.

Do ponto de vista histórico, o livro é muito interessante, retratando uma época fascinante. A história em si também é boa, está bem estruturada e prende o suficiente para se irem virando páginas atrás de páginas. O que torna este livro mais normal, quando poderia ter sido muito bom, é a escrita desinspirada, os clichés e a obsessão pelo sexo, embora se perceba o porquê deste ser tema recorrente, achei exagerado e não muito bem conseguido. Escrever sobre sexo é complicado, existe uma linha muito ténue entre o que tem qualidade e o que é apenas ordinário. Neste caso não é ordinário é apenas óbvio e não acrescentou nada à história.

Não sei se voltarei a ler mais algum livro dele. Não me impressionou mas não ponho de parte voltar a ele.

Recomendo. É um livro que se lê bem.

Boas leituras!

Excerto:
"Nunca esperei regressar a esta rua, e nunca esperei que o meu velho coração sentisse tanta emoção ao pisar os passeios da Lapa. Quando saí do táxi em frente ao hotel foi como se uma bola de demolição tivesse chocado comigo. Fiquei sem respiração por momentos, invadido por sentimentos, memórias de cheiros, imagens e vozes. Não me lembro sequer de ter pago o táxi, nem me recordo das palavras do porteiro, a dirigir-me com cortesia para a recepção. Nada, de repente, existia. A não ser Lisboa, 50 anos atrás. A minha Lisboa, onde amei tanto e tantas vezes."

Marina - Carlos Ruiz Zafón

Título original: Marina
Ano da edição original: 1999
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Editorial Planeta - Colección Booket

"«Quince años más tarde, la memoria de aquel día ha vuelto a mí. He visto a aquel muchacho vagando entre las brumas de la estación de Francia y el nombre de Marina se ha encendido de nuevo como una herida fresca.
Todos tenemos un secreto encerrado bajo llave en el ático del alma. Éste es el mío.»
En la Barcelona de 1980 Óscar Drai sueña despierto, deslumbrado por los palacetes modernistas cercanos al internado en el que estudia. En una de sus escapadas conoce a Marina, que comparte com Óscar la aventura de adentrarse en un enigma doloroso del pasado de la ciudad, un desafío de siniestras consecuencias que alguien deberá pagar."

Escolhi este livro de Carlos Ruiz Zafón para ler em castelhano, para ver se não enferrujava enquanto estou de férias das aulas de castelhano. Sabia que a escrita do autor não é muito complicada e, este livro, Marina, é relativamente pequeno, pelo que me pareceu perfeito para treinar o idioma de nuestros hermanos. :)

De Carlos Ruiz Zafón já li os mais que conhecidos e falados A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo (já comentados aqui e aqui). Gostei, sem grandes entusiasmos do primeiro, e achei mais ou menos o segundo. :)
Marina é, segundo o próprio autor, o último livro que escreveu para um público mais juvenil, partindo depois dele para os livros que o tornaram conhecido do grande público.
Este é um livro fácil de ler, mesmo em castelhano não senti grandes dificuldades, embora tivesse parado muitas vezes para ver no dicionário as palavras mais esquisitas, a história não é difícil de acompanhar.

Óscar Drai é um adolescente de 15/16 anos que vive num internato, em Barcelona no anos 80. Barcelona aparece-nos mais uma vez como uma cidade cheia de mistérios, cheia de histórias e recantos para descobrir. O autor volta a descrever a cidade como uma cidade sombria, envolta numa permanente neblina e habitada por seres sinistros que vivem nas sombras. Este continua a ser o ponto forte dos livros de CRZ e, a cada livro que leio aumenta a minha curiosidade para conhecer a cidade.

O nosso protagonista é um rapaz que adora perder-se por essa Barcelona antiga, cheia de becos e palacetes abandonados, os destroços de uma franja da sociedade que perdeu, ao longo dos tempos, o poder económico que lhes permitia viver numa zona privilegiada da cidade e que agora mais não são do que bairros fantasmas e ideais para a imaginação prodigiosa de Óscar. Todos os seus tempos livres são passados a vaguear por ali até que um dia, entra num desses palacetes, aparentemente abandonado. Aparentemente, porque é lá que ele vai encontrar a doce e inteligente Marina e o seu pai, Gérman, um pintor famoso, destroçado pela perda da sua musa, a mãe de Marina.

Óscar e Marina iniciam uma amizade que muda a vida dos dois para sempre. Juntos tropeçam num dos maiores segredos da cidade de Barcelona, que envolve uma das personagens mais misteriosas e perturbadoras da cidade, Mikail Kolvenik, um milionário, morto há mais de trinta anos, que parece ter voltado do mundo dos mortos... e mais não digo.

Gostei deste pequeno livro, da história, muito por causa da dinâmica que o autor conseguiu criar entre Óscar e Marina. Conseguiu criar uma coisa boa com estas duas personagens, o sentimento que os une é descrito de uma forma muito bonita e, sabendo nós que alguma coisa correu mal, embora só saibamos o quê no fim, torna tudo mais envolvente. Mais uma vez gostei da personagem masculina, que é o pai das personagens adolescentes que o autor cria para protagonistas dos seus romances. Germán é muito curioso, à semelhança de Daniel Sempere, de A Sombra do Vento.
A história está repleta de personagens misteriosas e assustadoras, criaturas estranhas e monstruosas e, embora não seja um livro propriamente assustador, é um livro que cria alguma tensão e que nos faz temer pela vida dos nossos protagonistas e com alguma razão, posso acrescentar... :p

Embora seja um livro claramente mais direccionado para os mais novos, como o li em castelhano, acabei por não sentir muito isso e, dentro do género, gostei bastante e recomendo, em qualquer língua!

Boas leituras!

Excerto:
"A finales de la década de los setenta, Barcelona era un espejismo de avenidas y callejones donde uno podía viajar treinta o cuarenta años hacia el pasado con sólo cruzar el umbral de una portería o un café. El tiempo y la memoria, historia y ficción, se fundían en aquella ciudad hechicera como acuarelas en la lluvia. Fue allí, al eco de calles que ya no existen, donde catedrales y edificios fugados de fábulas tramaron el decorado de esta historia."

agosto 31, 2012

[Pré-Venda] O Aroma das Especiarias - Joanne Harris

E vem aí um novo livro da Joanne Harris, O Aroma das Especiarias, que pouco ou nada tem a ver com o título original - Peaches for Monsieur Le Curé
Este é o terceiro livro da "saga" Vianne Rocher, a personagem que surgiu em Chocolate e voltou a ser protagonista em Sapatos de Rebuçado.

Não é novidade que gosto muito de Joanne Harris e, embora as histórias de Vianne Rocher não sejam as que mais gosto da autora, não podia deixar de o comprar. 
Ele já está em pré-venda nas livrarias. Acabei por encomendá-lo na Wook, aproveitando a oferta dos portes e um vale de desconto que tinha para utilizar. E, surpresa das surpresas, no check-out adicionaram-me, como oferta, o Maligna da mesma autora. Já o tenho (devidamente comentado aqui), mas sendo oferecido, não vou ser esquisita. Como não anunciam a oferta, nem sei se oferecem sempre o mesmo livro... Se calhar é uma espécie de roda da sorte com os livros da Joanne Harris! :)

Na Fnac online anunciam a oferta do Cinco Quartos de Laranja, que adoro (a minha opinião aqui)! 

E de repente tenho vontade de ler qualquer coisa dela... :p

Boas leituras!

agosto 19, 2012

A Idade do Ferro - J. M. Coetzee

Título original: Age of Iron
Ano da edição original: 1990
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: Ana Luísa Faria
Editora: Publicações Dom Quixote

"Na Cidade do Cabo, uma mulher, idosa e só, está a morrer de cancro. Durante toda a sua vida, conseguiu distanciar-se dos horrores e da violência do apartheid. No final dos dias, porém, é obrigada a confrontar-se com as dramáticas brutalidades forjadas por um regime a que sempre se opôs. A Idade do Ferro retrata a situação de muitos sul-africanos que se viram mergulhados num clima de tensão social a que não estavam habituados nem previam; mas, ao mesmo tempo, é uma perturbante metáfora sobre um regime político que se sustentou pela injustiça até provocar uma irrupção de revolta que a todos atingiu."

Este é o segundo livro que leio de J. M. Coetzee e é com este pequeno livro que Coetzee confirma que merece um lugar de destaque nas minhas estantes. Em No Coração Desta Terra (já comentado aqui), fui surpreendida por uma personagem feminina extraordinária e difícil de esquecer. Neste A Idade do Ferro, temos novamente uma mulher que me vai acompanhar durante uns tempos. :) Coetzee é bom com as personagens femininas, estou a ver. Aliando a isto histórias muitíssimo bem contadas, a leitura dos seus livros só pode acabar por ser uma experiência muito intensa.

Em A Idade do Ferro, Coetzee leva-nos até à África do Sul do Apartheid. Um país que, à semelhança de muitos outros países africanos, tem tudo para ser líder mas, quando escolhem o caminho da ignorância, da injustiça e da desigualdade, perpetuando atitudes racistas e desumanas, geram violência, medo e morte e zero de liderança e desenvolvimento.
Na Cidade do Cabo vive Mrs Curren, uma senhora idosa, que está a morrer com cancro. No dia em que o médico que lhe diz que não irá sobreviver à doença, conhece Vercueil, um sem-abrigo que escolheu o seu jardim para se abrigar. A idosa vive sozinha, a filha emigrou para os EUA, amargurada e desiludida com o país que deixou de reconhecer como seu. Partiu e nunca mais regressou. Quando Mrs Curren encontra o desconhecido no seu jardim, a primeira atitude é expulsá-lo da sua propriedade, no entanto a reacção do homem é de total indiferença e apatia, o que deixa a velha senhora sem reacção.
Sem que ninguém o pudesse prever, inicia-se ali uma relação estranha entre os dois a que só podemos chamar de amizade mais para o fim do livro. Ela vê nele uma companhia para a sua solidão, despertando nela curiosidade. Vercueil intriga-a e mantêm-a interessada na vida. Acredita, até ao fim que Vercueil foi enviado para a ajudar a morrer, para tornar a sua despedida do mundo menos dolorosa. No que a ele diz respeito, não se percebe muito bem o que ele quer. Inicialmente, talvez tenha visto nela segurança, no entanto, à sua maneira, acaba por gostar dela e da sua crescente loucura. Talvez vá ficando porque se sente útil na cada vez maior fragilidade da senhora. Na realidade é muito difícil não gostar dela... :)

Numa longa carta que decide escrever à filha, onde relata os seus últimos meses?, semanas? de vida, vamos descobrindo o estado a que o país chegou. A crescente revolta dos negros com a natural violência que isso acarreta. Os jovens negros que lutam, com as armas que têm e conhecem, por uma vida melhor para todos e que, à conta disso não têm infância, crescem demasiado rápido, tornam-se frios e distantes, perdendo valores como o respeito pelos mais velhos. São quase orfãos todos eles... São no entanto o orgulho dos pais que vêem neles a esperança de dias melhores, mesmo que isso signifique perde-los na luta. São heróis para a comunidade negra e uns arruaceiros para a comunidade branca que governa o país. Mrs Curren é confrontada com esta realidade, da qual se conseguiu manter afastada quase toda a sua vida, quando Florence, a sua empregada, traz para sua casa o filho adolescente, Bheki, com o intuito de o afastar das zonas de maior violência.

Paralelamente a isto, Mrs Curren vai descrevendo à filha a sua crescente degradação física e mental, com momentos de pura confusão e alheamento, devido à medicação forte que toma para deixar de sentir dor. Esta é uma mulher extraordinária que vale a pena conhecer. Só nos seus piores momentos perde a vontade de viver, numa luta perdida à partida, contra a morte.
É  um relato apaixonado e muitas vezes incómodo, do caminho que é feito até ao dia em que a morte a decide levar. E é, também, um relato impressionante de uma luta desigual que condenou à morte muita gente, que permitiu conquistas que são, ainda hoje, tão frágeis. Um relato contado na perspectiva de alguém que, vivendo ali nunca se tinha apercebido da dimensão do problema.

Gostei imenso deste livro que, sendo tão pequeno consegue falar de coisas tão grandes e importantes. Gosto muito da escrita de Coetzee, gosto muito das histórias que conta e gosto muito das personagens que cria, principalmente das personagens femininas.

Gosto e recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excertos, de entre os muitos possíveis:
"«Agora a criança está enterrada, e caminhamos por cima dela. Digo-lhe que quando caminho por esta terra, por esta África do Sul, tenho cada vez mais a impressão de caminhar por cima de rostos negros. Estão mortos, mas o espírito que os animava não os abandonou. Jazem na terra, pesados e empedernidos, à espera de que passem os meus pés, à espera de que eu me vá, à espera do dia em que tornarão a erguer-se. Milhões de figuras de ferro fundido, a vogar debaixo da pele da terra. A idade do ferro que se prepara para voltar."

"Filhos de ferro, pensei. A própria Florence, também não muito longe da dureza do ferro. A idade do ferro. Após a qual virá a idade do bronze. Quanto tempo, sim, quanto tempo até que o ciclo regresse às idades mais brandas, a idade do barro, a idade da terra? Uma matrona espartana, um coração de ferro, gerando filhos guerreiros para a nação. «Nós temos orgulho neles.» Nós. Regressa a casa empunhando o teu escudo ou deitado no teu escudo."

agosto 12, 2012

A Fúria dos Reis - George R. R. Martin

Título original: A Clash of Kings (part 1)
Ano da edição original: 1998
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência
 
"Quando um cometa vermelho surge nos céus de Westeros encontra os Sete Reinos em plena guerra civil. Os combates estendem-se pelas terras fluviais e os grandes exércitos dos Stark e dos Lannister preparam-se para o derradeiro embate.
No seu domínio insular, Stannis, irmão do falecido Rei Robert, luta por construir um exército que suporte a sua reivindicação ao trono e alia-se a uma misteriosa religião vinda do oriente. Mas não é o único, pois o seu irmão mais novo também se proclama rei, suportado por uma hoste que reúne quase todas as forças do sul. Para pior as coisas, nas Ilhas de Ferro, os Greyjoy planeiam a vingança contra aqueles que os humilharam dez anos atrás.
O Trono de Ferro é ocupado pelo caprichoso filho de Robert, Joffrey, mas quem de facto governa é a sua cruel e maquiavélica mãe. Com a afluência de refugiados e um fornecimento insuficiente de mantimentos, a cidade transformou-se num lugar perigoso, e a Corte aguarda com medo o momento em que os dois irmãos do falecido rei avancem contra ela. Mas quando finalmente o fazem, não é contra a cidade que investem...
O que os Sete Reinos não sabem é que nada disto se compara ao derradeiro perigo que se avizinha: no distante Leste, os dragões crescem em poder, e não faltará muito para que cheguem com fogo e morte!"

A saga dos Sete Reinos continua, neste 3ª volume da edição portuguesa (2º da edição original), com a luta pelo trono de ferro mais acesa do que nunca.
Embora a descrição das batalhas, nesta parte da história seja praticamente inexistente, achei este volume mais duro e mais opressivo que os anteriores. Com a família Stark espalhada por todos os cantos dos Sete Reinos, cada pedaço da história dedicado a cada um deles é triste e aflitivo. Para além disso as tramas que se vão planeando e aquilo que se vai pressentindo também não augura nada de bom. Pressinto que esta vai ser uma saga cada vez menos bonita de se ler... Mas é, também por isso que é uma saga que todos querem continuar a seguir. É um facto que existem personagens mais importantes do que outras, no entanto, nada impede que a sua importância deixe de existir assim que seja atingindo um propósito. E quem define isso é o autor, mais ninguém.

Joffrey Lannister é aparentemente o legítimo rei dos Sete Reinos a quem todos os outros senhores deveriam ter vindo jurar fidelidade, no entanto, após a morte do pai, vive juntamente com a mãe, Cersei Lannister, exilado por detrás das muralhas de Porto Real.
Aguardam impacientemente que o abastado chefe da casa Lannister, Tywin Lannister, consiga derrotar Robb Stark que se aproxima vindo do norte, a tempo de impedir que Stannis Baratheon e Renly Baratheon invadam Porto Real. Os dois irmãos mais novos de Robert Baratheon têm pretensões a trono de ferro e, lutam cada um deles, um contra o outro, para alcançarem esse objectivo. Apenas um Baratheon poderá chegar ao trono, nunca os dois...

Robb Stark, proclamado Rei do Norte e que não tem qualquer pretensão ao trono de ferro e a reinar nos Sete Reinos, vê o seu objectivo de vingar a morte do pai e libertar Arya e Sansa do cativeiro dos Lannister, comprometido pelas ambições de cada um dos outros pretensos reis. Em vez de juntarem forças contra o mal comum que são os Lannister, estas são divididas e por isso enfranquecidas pelos planos pessoais de cada um deles.

Do outro lado do mar, Daenerys Targaryen começa a reorganizar-se depois da perda trágica do seu "sol-e-estrelas" tendo consigo três armas poderosas que a torna na mais poderosa candidata ao trono de ferro.
Para lá da Muralha de Gelo as notícias não são nada animadoras. Os rumores acerca do regresso dos Outros parecem ser mais do que rumores.

Em Winterfell, Bran Stark, uma criança do Verão, com todas as limitações que possui e atormentado por pesadelos constantes, tenta ultrapassar a tristeza de nunca vir a ser um cavaleiro e luta a todo o custo para ser digno do nome Stark.

É, como podem adivinhar um livro um pouco triste. Tem descrições bem pesadas e momentos de pura aflição e miséria humana.
Os momentos mais leves são, mais uma vez protagonizados por Tyrion Lannister, o anão, que como Mão do Rei está mais acutilante do que nunca e que confirma, neste volume, a importância que ganhou no anterior. Só espero que George R. R. Martin não o mate porque a personagem dele é genial. :)

Personagens favoritas: 
Mais uma vez o pódio é ocupado por Tyrion e Arya.
Arya continua a ser uma miúda especial e neste volume perde alguma da inocência, deixando de ser uma criança rebelde, uma maria-rapaz, e passa a ser uma sobrevivente. Acredito que, juntamente com Tyrion, Arya é umas das personagens que não vai desaparecer tão cedo. Creio que o autor tem grandes planos para esta miúda. :)
Sendo que no pódio cabem, normalmente três, o terceiro terá de ser Jon Snow. Gosto do "bastardo" e acredito que para ele também estão reservados grandes acontecimentos. :)

Nunca é demais dizer que todas as personagens desta saga são dignas de destaque, sem excepção.

Posto isto e, esquecendo o nó que tanta personagem provoca no meu cérebro, este é um livro a não perder e que mantém as expectativas altas para os que se seguem.

Boas leituras!


Excerto:
"Arya atirou-se de cabeça pelo túnel adentro e caiu metro e meio. Ficou com tera na boca mas não se importou, o sabor era bom, era um sabor de lama, água, minhocas e vida. Debaixo da terra, o ar estva fresco e escuro. Por cima nada havia a não ser sangue, um rugido vermelho, fumo sufocante e os gritos de cavalos moribundos. Rodou o cinto para que a Agulha não se pusesse no seu caminho, e começou a rastejar. Tinha penetrado uns três metros no túnel quando ouviu o som, como o rugido de algum monstruoso animal, e uma nuvem de fumo quente e poeira negra formou uma vaga atrás dela, cheirando ao inferno. Arya susteve a respiração, beijou a lama do chão do túnel e chorou. Por quem, não saberia dizer."

Ao terceiro e quarto volume das edições portugueses corresponderá a 2ª temporada de Game of Thrones, já exibida e que ainda não vi porque queria ler os livros primeiro. Deixo-vos aqui um "cheirinho" desta fantástica série:

agosto 05, 2012

O Desejo de Kianda - Pepetela

Título original: O Desejo de Kianda
Ano da edição original: 1995 
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"«João Evangelista casou no dia em que caiu o primeiro prédio. No Largo do Kinaxixi. Mais tarde procuraram encontrar uma relação de causa a efeito entre os dois notáveis acontecimentos. Mas só muito mais tarde, quando a síndrome de Luanda se tornou notícia de primeira página do New York Times e do Frankfurter Allgemeine. Aliás João Evangelista casou às cinco da tarde, na Conservatória do Kinaxixi, e o prédio caiu às seis. A existir relação, parece claro ser o casamento a causa e nunca o suicídio do prédio. O problema é que as coisas nunca são tão límpidas quanto gostaríamos.»"

Este é um daqueles livros que se lêem de uma assentada. É pequenino, quase um conto a dar para o comprido. Não é o meu Pepetela favorito, aliás este não é o registo que mais aprecio no escritor, no entanto gostei bastante da história.

No dia de casamento de João Evangelista com Carmina, membro do Comité Central, tem início, em Luanda, um fenómeno que ninguém consegue explicar. No dia do casamento cai o primeiro prédio no Largo do Kinaxixi. Cair um prédio, sem razão aparente já seria de estranhar, quando a queda do prédio parece desafiar todas as leis da física o acontecimento torna-se um fenómeno. Como é que é possível que o prédio tenha caído lentamente, com todas as pessoas a chegarem ilesas ao chão? Estranho? Sim, no mínimo. Mais estranho só mesmo se a queda do prédio não for única mas o primeiro prédio do Largo do Kinaxixi que rui daquela forma. Pouco a pouco, todos os prédios do Kinaxixi vão caindo, sem que ninguém consiga encontrar uma razão lógica para o fenómeno que acaba por ser apelidado de Síndrome de Luanda. Um por um, os prédios de um bairro residencial recente, habitado pela classe média de Luanda, vai desaparecendo.
No bairro existe um prédio cuja construção nunca foi terminada e junto a ele existe uma espécie de lago, barrento e putrefacto. Cassandra é uma das muitas crianças que moram nesse prédio e apenas ela parece pressentir a razão do estranho comportamento dos prédios naquele bairro. Cassandra ouve uma voz que apenas ela consegue ouvir. A voz de Kianda, a figura que os angolanos crêem que habita em todos os lagos, rios e mares, uma sereia. O bairro do Kinaxixi foi construído em cima de uma lagoa, onde naturalmente habitava Kianda. A pessoas que assistiram à destruição da lagoa, contam que uma mafumeira, a mafumeira de Kianda, chorou sangue pelo cepo durante uma semana. Será que o Síndrome de Luanda não é apenas Kianda a fazer cumprir o seu desejo de restituir a lagoa ao seu sítio original? Será que a natureza está a reclamar o seu espaço novamente?
Enquanto a natureza reclama o seu direito à terra, ao seu espaço, os homens guerreiam e vivem deslumbrados pelo poder e pelo dinheiro e João Evangelista vive num mundo de fantasia. Alheio ao que se passa à sua volta, passa os dias a jogar jogos de estratégia no computador, construindo civilizações enquanto lá fora se vão destruindo alguns dos pilares da civiliação.

Mais uma história de Pepetela que toca o tema da guerra e da corrupção em Angola. Onde os ideais são facilmente postos de parte se o que está em causa são milhões de dólares. Por milhões de dólares alguém que sempre lutou pelo povo e do lado do povo que tem a oportunidade de servir esse mesmo povo nas mais altas esferas do poder político de Luanda, sucumbe à tentação e fica milionário com o negócio de compra e vendas de armas, que alimentam a guerra civil que estalou na sequência das eleições. As mesmas eleições que legitimam a presença desses representantes do povo permite que estes lucrem com o conflito que se inicia

Fazendo alguma pesquisa na Internet, descobri que o prédio em eterna construção existiu durante mais de trinta anos (http://www.diariodaafrica.com/2008/07/o-prdio-do-kinaxixi.html) tal como o Largo de Kinaxixi e a lenda da lagoa de Kianda.  



Gostei e recomendo!

Boas leituras!


Excerto:
"Era um cântico suave, doloroso, que uma criança um dia ouviu. Disse aos amigos, que riram. Agora a água canta? É tão bonito, mas tão triste, repetiu a criança. Cassandra de seu nome. (...) Cassandra insistia, os pais não quiseram ouvir o cântico. Os amigos riam, Cassandra pirou de vez, diziam. Então não é maluco quem ouve o que mais ninguém ouve, ou quem vê o invisível para os outros? E no entanto, o cântico subia, cada vez mais dorido, das águas escuras onde rãs e cacussos coabitavam no meio de plantas de folhas redondas. Cassandra deixou de falar nisso, por inútil. Mas muitas vezes se punha à beira da lagoa, ouvido atento, o pé ritmando a música. E a sua cara de menina entristecia como as flores ao fim da tarde."

O nome da criança, Cassandra, que ouvia a voz de Kianda, fez-me lembrar esta música do cantor espanhol Ismael Serrano:

julho 29, 2012

[Filme] A Vida de Pi


Entretanto está marcada a estreia do filme baseado na obra de Yann Martel, A Vida de Pi (já comentado aqui), para dia 29 Novembro de 2012, nos EUA. 

Acho este livro muito complicado de adaptar ao cinema, no entanto parece que Ang Lee parece ter conseguido.

O trailer deixa-me algumas reservas, visualmente parece muito bonito, quanto à história... O melhor é esperar para ver! :)

Fica o trailer: