setembro 19, 2012

O Despertar da Magia - George R. R. Martin

Título original: A Clash of Kings (part 2)
Ano da edição original: 1998
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência
"A guerra pelos Sete Reinos continua e a batalha pela capital de Porto Real é a mais sanguinária de sempre. A frota de Stannis Baratheon vê-se encurralada em frente à cidade enquanto barcos carregados de fogo-vivo são enviados contra ela. Mas os sobreviventes conseguem levar o combate até às muralhas da cidade e todos os sitiados terão de lutar pela vida. Só quando os exércitos de Tywin e dos Tyrell chegam, se percebe que um dos lados será definitivamente esmagado. Mas num mundo de traições constantes, quem será que eles irão apoiar?

No Norte, os Stark estão entre a espada e a parede. Várias das suas fortalezas são atacadas pelos temíveis homens de ferro e até o castelo de Winterfell é conquistado pelo traidor Theon Greyjoy. Bran e Rickon conseguem fugir, acompanhados por Hodor e alguns companheiros, mas que futuro terão duas crianças numa terra ameaçada pelo Inverno?

Para lá da Muralha, Jon oferece-se para acompanhar um grupo de baterdores enviado para encontrar os selvagens, enquanto a principal força da Patrulha da Noite se fortifica junto às montanhas. Mas as coisas correm mal e Jon terá de escolher entre a morte... ou a traição aos seus irmãos.

Mais uma vez, George R. R. Martin consegue manter-nos agarrados até à última página. Personagens que amamos são mortas sem dó nem piedade, personagens que odiamos conseguem conquistar o nosso coração. De Arya a Sansa, de Robb a Daenerys, todas terão um papel fulcral neste fabuloso quarto volume de As Crónicas de Gelo."

Terminado mais um volume da gigantesca obra de George R. R. Martin, As Crónicas de Gelo e Fogo
Nesta segunda parte do 2º volume da edição original, a luta pelo trono torna-se verdadeiramente épica, com muitas batalhas a serem travadas por todos os Sete Reinos, cabeças a serem cortadas sem piedade, com alianças que se forjam e se desfazem ao sabor dos ventos frios do Inverno que se aproxima.

Em Porto Real, os Lannister tentam a todo o custo sobreviver à crescente revolta do povo esfomeado, enquanto esperam que os exército de Tywin Lannister chegue a tempo de os salvar do mais que certo ataque de Stannis Baratheon, que se dirige para a cidade real suportado por milhares de homens e navios. 
Tyrion, a Mão do rei, procura atenuar a infantilidade e brutalidade do sobrinho Joffrey e da inconsequente irmã, Cersei, ao mesmo tempo que prepara a defesa do castelo real, esperançado de que seja desta que o pai se vai orgulhar do seu "filho monstruoso". A importância de Tyrion continua a crescer mas, confesso que neste volume, senti que o autor esteve bem perto de o matar... :) Espero que não, gosto dele, gosto da sua ambiguidade, sabemos que não é mau mas a lealdade que tem à família e a inteligência que possui torna-o capaz de tudo. O desejo que tem de agradar ao pai sobrepõe-se a praticamente tudo, o que o torna imprevisível. Nada de bom o espera neste volume...

Em Winterfell, os Stark são alvo de uma investida traiçoeira de Theon Greyjoy, também ele com um desejo enorme de agradar ao pai, o senhor das Ilhas de Ferro e com sede de vingança contra os Stark. Theon consegue tomar o castelo de Winterfell e autoproclama-se Príncipe de Winterfell, no entanto o apoio que recebe do pai e da irmã é nulo e está longe de ser amado em Winterfell que o vêem como o  traidor que na realidade é, que tomou o castelo das mãos de duas crianças, uma delas aleijada. Quanto tempo durará o reinado de Theon?

Do outro lado do mar Daenerys, luta para reunir o apoio necessário para a sua causa, a reivindicação ao trono de ferro, que o regicida usurpou ao seu pai. Mas, parece que nem os três pequenos dragões que está a criar parecem ser suficientes para que a queriam ajudar a cumprir o seu destino. Será que no próximo volume teremos mais Daenerys e os seus improváveis dragões? Acredito que sim... ;)

Para lá da Muralha de Gelo, Jon Snow continua a sua patrulha pelas terras selvagens com o lobo gigante Fantasma a ter comportamentos estranhos que deixam Jon apreensivo quanto ao que aguarda a Patrulha da Noite naquelas terras sem lei e de como serão capazes de proteger os Sete Reinos de todo o mal que parece pairar sobre eles.

E assim continua a vida nos Sete Reinos. Achei este volume bem mais violento que o anterior, com muitas mortes e muito sangue. Confesso que a descrição das batalhas me aborreceu um pouco, são muitas e parece que cada vez há mais personagens secundárias. É muito Lord e muito Senhor... Demasiados nomes que me deixam baralhada quanto à sua posição na história... É impossível não nos perdermos com tanta gente... Preferia que o autor desse menos importância à árvore genealógica dos Sete Reinos. :) Daí este volume me ter custado mais a ler, no entanto gostei. Acho que foi um livro importante no desenvolvimento da história e no qual muitas personagens cresceram e deixam no ar a importância que poderão vir a ter nesta luta pelo poder, uma delas é de Arya. Esta rapariga ainda vai cortar muitas cabeças! :)
Para além da importância das personagens a história todo o volume deixa no ar referências a poderes antigos e poderosos. O título da edição portuguesa é muito assertivo nesse aspecto, uma vez que é neste volume que a magia começa a ressurgir. O que mudou para que poderes perdidos há séculos estejam a ganhar força?

Gostei muito e recomendo, como já seria de esperar. Que venha o próximo volume! :)

Boas leituras!

Excerto:
"Deu por si fora da cidade, a caminhar por um mundo sem cor. Corvos atravessavam um céu cinzento apoiados em grandes asas negras, enquanto gralhas pretas saltavam de cima dos seus banquetes em nuvens furiosas onde quer que os seus passos o levassem. Larvas brancas escavavam túneis em putrefacção negra. Os lobos era cinzentos, e as irmãs silenciosas também; juntos arrancavam a carne aos caídos. Havia cadáveres espalhados por todo o terreno dos torneios. O Sol era uma moeda quente e branca, brilhando sobre o rio cinzento que corria em torno dos ossos carbonizados de navios afundados. Das piras dos mortos erguiam-se colunas negras de fumo e cinza incandescentes e brancas. Obra minha, pensou Tyrion Lannister. Morreram às minhas ordens."

setembro 11, 2012

As 5 estrelas do Goodreads

Apercebo-me que este ano ainda não classifiquei, o Goodreads, nenhuma das minhas leituras com 5 estrelas. Tenho lido livros muito bons, mas ainda não senti por nenhum deles um "arrebatamento" de 5 estrelas que a plataforma designa como "it was amazing".

Olho para os livros que tenho na estante por ler e sei que alguns serão candidatos quase certos à classificação de "amazing"... Será que já sou a feliz proprietária de um livro 5 estrelas ou ainda está para chegar às minhas mãos o livro que estreará esta classificação em 2012? A vida é cheia de perguntas, ao menos esta terá uma resposta mais cedo ou mais tarde. :)

Ora vejam lá o que aqui anda por casa:

1 - The Pillars of the Earth - Ken Follett (acho que ainda não vai ser este ano que o vou ler)
2 - Norwegian Wood - Haruki Murakami
3 - A Ilha do Dia Antes - Umberto Eco
4 - A Paixão de Maria Madalena (1º Vol) - Margaret George
5 - Os Anões - Harold Pinter
6 - A Última Noite em Twisted River - John Irving
7 - Esaú e Jacó - Machado de Assis
8 - Autópsia de um Mar de Ruínas - João de Melo
9 - A Boa Terra - Pearl S. Buck
10 - Crime e Castigo - Fiódor Dostiévski
11 - Herzog - Saul Bellow
12 - O Homem Lento - J. M. Coetzee
13 - O Remorso de Baltazar Serapião - valter hugo mãe
14 - A Maldição (Duma Key) - Stephen King
15 - Os Malaquias - Andréa del Fuego
16 - O Caso das Mangas Explosivas - Mohammed Hanif
17 - A Montanha da Água Lilás - Pepetela
18 - Hotel Memória - João Tordo
19 - O Aroma das Especiarias - Joanne Harris (há-de chegar antes do fim do ano!)

Aceitam-se apostas! :)

Boas leituras!

Danças & Contradanças - Joanne Harris

Título original: Jigs & Reels
Ano da edição original: 2004
Autor: Joanne Harris
Tradução do Inglês: Teresa Curvelo
Editora: Edições Asa

"As sarcásticas histórias de Danças & Contradanças podem ser resumidas em duas palavras: malévolas e maliciosas. Como em muitos dos seus romances, Joanne Harris consegue combinar de uma forma única situações e personagens únicas - e até banais - com o extraordinário e o inesperado. Mais do que nunca, a autora dá largas à sua imaginação e apresenta-nos uma exuberante e prodigiosa caixa de Pandora, que contém tudo quanto é extravagante, estranho, misterioso e perverso. De bruxas suburbanas e velhinhas provocadoras, monstros envelhecidos, vencedores da lotaria suicidas, lobisomens, mulheres-golfinho e fabricantes de adereços eróticos, estas são vinte e duas histórias onde o fantástico anda de mãos dadas com o mundano, o amargo com o doce, e onde o belo, o grotesco, o sedutor e o perturbador estão sempre a um passo de distância."

Com a notícia de que vai ser editado em Portugal o mais recente livro de Joanne Harris, O Aroma das Especiarias, fiquei com vontade de ler qualquer coisa dela, enquanto espero pelo meu exemplar. Tinha há algum tempo este Danças&Contradanças na prateleira que, por ser um livro de contos, não estava no topo da lista de leituras.

Confesso que, se não conhecesse a escritora de muitos outros livros, não sei se teria ficado muito impressionada com ela, intrigada sim, só não sei se suficientemente intrigada para pegar noutro livro dela. Embora ultimamente tenha lido alguns livros de contos que me têm feito mudar de opinião acerca do género, este de Joanne Harris fez-me lembrar porque é que não é o meu género favorito: as histórias são demasiado curtas para que se consigam desenvolver as personagens e criar empatias e, as personagens de Joanne Harris precisam de espaço para serem quem são. Com os contos isso não acontece. O que também precisa de espaço são as histórias e as múltiplas peças do puzzle que a escritora tão bem sabe montar de forma a encaixarem na perfeição.
Definitivamente, o conto é bem o género onde a autora consiga revelar o melhor de si. É muito mais eficaz no romance. :)

No entanto, o livro não deixa de ter muitos dos elementos que marcam a escrita de Joanne Harris, o fantástico, personagens com personalidades distorcidas, a presença da comida e dos cheiros, elementos quase omnipresentes em todas as obras da autora. É Joanne Harris, mas não é o melhor dela!.

Recomendo por ser escrito por quem é e porque é um livro pequeno que pode muito bem ser um bom livro para descontrair de leituras mais complexas.

Boas leituras!

Excerto:
"É possível que no próximo Sábado, ou no seguinte, tenhamos de nos transferir para novos terrenos de caça. Claro que é em parte a incerteza que torna isto tão divertido. Mas sei que o que quer que tenhamos de enfrentar num futuro por enquanto inimaginável, o enfrentaremos juntos, Veldarron, Spider, Titania e eu. As pessoas comuns, com as suas vidas insípidas, mundanas, imaginárias, nunca poderão compreender, apercebo-me com súbita compaixão. E, para minha surpresa, dou comigo a assobiar baixinho ao mesmo tempo que vou buscar a pá e começo a cavar."

setembro 02, 2012

Enquanto Salazar Dormia... - Domingos Amaral

Título original: Enquanto Salazar Dormia...
Ano da edição original: 2006
Autor: Domingos Amaral
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Lisboa, 1941. Um oásis de tranquilidade numa Europa fustigada pelos horrores da II Guerra Mundial. Os refugiados chegam aos milhares e Lisboa enche-se de milionários e actrizes, judeus e espiões. Portugal torna-se palco de uma guerra secreta que Salazar permite, mas vigia à distância.

Jack Gil Mascarenhas, um espião luso-britânico, tem por missão desmantelar as redes de espionagem nazis que actuavam por todo o país, do Estoril ao cabo de São Vicente, de Alfama à Ericeira. Estas são as suas memórias, contadas 50 anos mais tarde."

Sentia alguma curiosidade em relação aos livros deste escritor, Domingos Amaral. Parecem retratar épocas interessantes da nossa história e não há assim muitos que escrevam sobre nós, portugueses. Curiosidade satisfeita e... pronto. :) Gostei da história mas a escrita pareceu-me demasiado, como hei-de dizer?, demasiado simples, talvez seja por aí. As personagens são interessantes q.b., mesmo o Jack Mascarenhas, Don Juan de algibeira, não deixa de ser uma personagem simpática. Tive receio que se tornasse mais um Tomás Noronha da literatura portuguesa, mas felizmente as (muitas) investidas sexuais do luso-britânico estão melhor enquadradas na história e este tem muito mais pinta do que o pseudo-garanhão que José Rodrigues dos Santos criou. No entanto, acho que o destaque que o autor dá às proezas sexuais e às conquistas de Jack, acabam por afastar o leitor da história e não são sendo assim tão divertidas, acabam por se tornarem isso mesmo distracções à leitura. :)

Enquanto Salazar Dormia, Lisboa estava repleta de refugiados da II Guerra Mundial. Refugiados ricos e excêntricos, espiões ingleses e alemães, e muitas mulheres deslumbrantes e desinibidas, que viveram numa capital diferente da que hoje conhecemos, onde as conspirações eram mais que muitas, algumas com capacidade para resolverem a guerra.

Conhecemos Jack Gil Mascarenhas (que raio de nome!), um luso-britânico, quando este regressa a Portugal, passados 50 anos, para o casamento do seu neto com uma portuguesa. É no momento em que aterra no aeroporto de Lisboa que todas as recordações da época dourada que viveu em Lisboa, nos anos 40, começam a ressurgir. São essas memórias que ele vai partilhando connosco. Vai-nos falando de uma Lisboa difícil de imaginar, digna de um filme de Hollywood, repleta de uma vida, à primeira vista impossível de conceber em plena ditadura de Salazar. Para manter o país fora do conflito mundial, Salazar acabou por permitir que Portugal se tornasse num ninho de espiões, vigiando as suas acções, mas interferindo o menos possível nas suas missões. Enquanto a grande maioria dos portugueses sofria na pele a mão pesada do regime, cada vez mais pobres e menos livres, estes estrangeiros especiais viviam num autêntico El Dorado, onde tudo era permitido.
E o livro é isto, um livro de memórias de um ex-espião, que viveu em Portugal os melhores anos da sua vida, onde conheceu as mulheres mais bonitas e libertinas de que há memória e onde contribuiu de forma muito concreta para a resolução do conflito mundial.

Do ponto de vista histórico, o livro é muito interessante, retratando uma época fascinante. A história em si também é boa, está bem estruturada e prende o suficiente para se irem virando páginas atrás de páginas. O que torna este livro mais normal, quando poderia ter sido muito bom, é a escrita desinspirada, os clichés e a obsessão pelo sexo, embora se perceba o porquê deste ser tema recorrente, achei exagerado e não muito bem conseguido. Escrever sobre sexo é complicado, existe uma linha muito ténue entre o que tem qualidade e o que é apenas ordinário. Neste caso não é ordinário é apenas óbvio e não acrescentou nada à história.

Não sei se voltarei a ler mais algum livro dele. Não me impressionou mas não ponho de parte voltar a ele.

Recomendo. É um livro que se lê bem.

Boas leituras!

Excerto:
"Nunca esperei regressar a esta rua, e nunca esperei que o meu velho coração sentisse tanta emoção ao pisar os passeios da Lapa. Quando saí do táxi em frente ao hotel foi como se uma bola de demolição tivesse chocado comigo. Fiquei sem respiração por momentos, invadido por sentimentos, memórias de cheiros, imagens e vozes. Não me lembro sequer de ter pago o táxi, nem me recordo das palavras do porteiro, a dirigir-me com cortesia para a recepção. Nada, de repente, existia. A não ser Lisboa, 50 anos atrás. A minha Lisboa, onde amei tanto e tantas vezes."

Marina - Carlos Ruiz Zafón

Título original: Marina
Ano da edição original: 1999
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Editorial Planeta - Colección Booket

"«Quince años más tarde, la memoria de aquel día ha vuelto a mí. He visto a aquel muchacho vagando entre las brumas de la estación de Francia y el nombre de Marina se ha encendido de nuevo como una herida fresca.
Todos tenemos un secreto encerrado bajo llave en el ático del alma. Éste es el mío.»
En la Barcelona de 1980 Óscar Drai sueña despierto, deslumbrado por los palacetes modernistas cercanos al internado en el que estudia. En una de sus escapadas conoce a Marina, que comparte com Óscar la aventura de adentrarse en un enigma doloroso del pasado de la ciudad, un desafío de siniestras consecuencias que alguien deberá pagar."

Escolhi este livro de Carlos Ruiz Zafón para ler em castelhano, para ver se não enferrujava enquanto estou de férias das aulas de castelhano. Sabia que a escrita do autor não é muito complicada e, este livro, Marina, é relativamente pequeno, pelo que me pareceu perfeito para treinar o idioma de nuestros hermanos. :)

De Carlos Ruiz Zafón já li os mais que conhecidos e falados A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo (já comentados aqui e aqui). Gostei, sem grandes entusiasmos do primeiro, e achei mais ou menos o segundo. :)
Marina é, segundo o próprio autor, o último livro que escreveu para um público mais juvenil, partindo depois dele para os livros que o tornaram conhecido do grande público.
Este é um livro fácil de ler, mesmo em castelhano não senti grandes dificuldades, embora tivesse parado muitas vezes para ver no dicionário as palavras mais esquisitas, a história não é difícil de acompanhar.

Óscar Drai é um adolescente de 15/16 anos que vive num internato, em Barcelona no anos 80. Barcelona aparece-nos mais uma vez como uma cidade cheia de mistérios, cheia de histórias e recantos para descobrir. O autor volta a descrever a cidade como uma cidade sombria, envolta numa permanente neblina e habitada por seres sinistros que vivem nas sombras. Este continua a ser o ponto forte dos livros de CRZ e, a cada livro que leio aumenta a minha curiosidade para conhecer a cidade.

O nosso protagonista é um rapaz que adora perder-se por essa Barcelona antiga, cheia de becos e palacetes abandonados, os destroços de uma franja da sociedade que perdeu, ao longo dos tempos, o poder económico que lhes permitia viver numa zona privilegiada da cidade e que agora mais não são do que bairros fantasmas e ideais para a imaginação prodigiosa de Óscar. Todos os seus tempos livres são passados a vaguear por ali até que um dia, entra num desses palacetes, aparentemente abandonado. Aparentemente, porque é lá que ele vai encontrar a doce e inteligente Marina e o seu pai, Gérman, um pintor famoso, destroçado pela perda da sua musa, a mãe de Marina.

Óscar e Marina iniciam uma amizade que muda a vida dos dois para sempre. Juntos tropeçam num dos maiores segredos da cidade de Barcelona, que envolve uma das personagens mais misteriosas e perturbadoras da cidade, Mikail Kolvenik, um milionário, morto há mais de trinta anos, que parece ter voltado do mundo dos mortos... e mais não digo.

Gostei deste pequeno livro, da história, muito por causa da dinâmica que o autor conseguiu criar entre Óscar e Marina. Conseguiu criar uma coisa boa com estas duas personagens, o sentimento que os une é descrito de uma forma muito bonita e, sabendo nós que alguma coisa correu mal, embora só saibamos o quê no fim, torna tudo mais envolvente. Mais uma vez gostei da personagem masculina, que é o pai das personagens adolescentes que o autor cria para protagonistas dos seus romances. Germán é muito curioso, à semelhança de Daniel Sempere, de A Sombra do Vento.
A história está repleta de personagens misteriosas e assustadoras, criaturas estranhas e monstruosas e, embora não seja um livro propriamente assustador, é um livro que cria alguma tensão e que nos faz temer pela vida dos nossos protagonistas e com alguma razão, posso acrescentar... :p

Embora seja um livro claramente mais direccionado para os mais novos, como o li em castelhano, acabei por não sentir muito isso e, dentro do género, gostei bastante e recomendo, em qualquer língua!

Boas leituras!

Excerto:
"A finales de la década de los setenta, Barcelona era un espejismo de avenidas y callejones donde uno podía viajar treinta o cuarenta años hacia el pasado con sólo cruzar el umbral de una portería o un café. El tiempo y la memoria, historia y ficción, se fundían en aquella ciudad hechicera como acuarelas en la lluvia. Fue allí, al eco de calles que ya no existen, donde catedrales y edificios fugados de fábulas tramaron el decorado de esta historia."

agosto 31, 2012

[Pré-Venda] O Aroma das Especiarias - Joanne Harris

E vem aí um novo livro da Joanne Harris, O Aroma das Especiarias, que pouco ou nada tem a ver com o título original - Peaches for Monsieur Le Curé
Este é o terceiro livro da "saga" Vianne Rocher, a personagem que surgiu em Chocolate e voltou a ser protagonista em Sapatos de Rebuçado.

Não é novidade que gosto muito de Joanne Harris e, embora as histórias de Vianne Rocher não sejam as que mais gosto da autora, não podia deixar de o comprar. 
Ele já está em pré-venda nas livrarias. Acabei por encomendá-lo na Wook, aproveitando a oferta dos portes e um vale de desconto que tinha para utilizar. E, surpresa das surpresas, no check-out adicionaram-me, como oferta, o Maligna da mesma autora. Já o tenho (devidamente comentado aqui), mas sendo oferecido, não vou ser esquisita. Como não anunciam a oferta, nem sei se oferecem sempre o mesmo livro... Se calhar é uma espécie de roda da sorte com os livros da Joanne Harris! :)

Na Fnac online anunciam a oferta do Cinco Quartos de Laranja, que adoro (a minha opinião aqui)! 

E de repente tenho vontade de ler qualquer coisa dela... :p

Boas leituras!

agosto 19, 2012

A Idade do Ferro - J. M. Coetzee

Título original: Age of Iron
Ano da edição original: 1990
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: Ana Luísa Faria
Editora: Publicações Dom Quixote

"Na Cidade do Cabo, uma mulher, idosa e só, está a morrer de cancro. Durante toda a sua vida, conseguiu distanciar-se dos horrores e da violência do apartheid. No final dos dias, porém, é obrigada a confrontar-se com as dramáticas brutalidades forjadas por um regime a que sempre se opôs. A Idade do Ferro retrata a situação de muitos sul-africanos que se viram mergulhados num clima de tensão social a que não estavam habituados nem previam; mas, ao mesmo tempo, é uma perturbante metáfora sobre um regime político que se sustentou pela injustiça até provocar uma irrupção de revolta que a todos atingiu."

Este é o segundo livro que leio de J. M. Coetzee e é com este pequeno livro que Coetzee confirma que merece um lugar de destaque nas minhas estantes. Em No Coração Desta Terra (já comentado aqui), fui surpreendida por uma personagem feminina extraordinária e difícil de esquecer. Neste A Idade do Ferro, temos novamente uma mulher que me vai acompanhar durante uns tempos. :) Coetzee é bom com as personagens femininas, estou a ver. Aliando a isto histórias muitíssimo bem contadas, a leitura dos seus livros só pode acabar por ser uma experiência muito intensa.

Em A Idade do Ferro, Coetzee leva-nos até à África do Sul do Apartheid. Um país que, à semelhança de muitos outros países africanos, tem tudo para ser líder mas, quando escolhem o caminho da ignorância, da injustiça e da desigualdade, perpetuando atitudes racistas e desumanas, geram violência, medo e morte e zero de liderança e desenvolvimento.
Na Cidade do Cabo vive Mrs Curren, uma senhora idosa, que está a morrer com cancro. No dia em que o médico que lhe diz que não irá sobreviver à doença, conhece Vercueil, um sem-abrigo que escolheu o seu jardim para se abrigar. A idosa vive sozinha, a filha emigrou para os EUA, amargurada e desiludida com o país que deixou de reconhecer como seu. Partiu e nunca mais regressou. Quando Mrs Curren encontra o desconhecido no seu jardim, a primeira atitude é expulsá-lo da sua propriedade, no entanto a reacção do homem é de total indiferença e apatia, o que deixa a velha senhora sem reacção.
Sem que ninguém o pudesse prever, inicia-se ali uma relação estranha entre os dois a que só podemos chamar de amizade mais para o fim do livro. Ela vê nele uma companhia para a sua solidão, despertando nela curiosidade. Vercueil intriga-a e mantêm-a interessada na vida. Acredita, até ao fim que Vercueil foi enviado para a ajudar a morrer, para tornar a sua despedida do mundo menos dolorosa. No que a ele diz respeito, não se percebe muito bem o que ele quer. Inicialmente, talvez tenha visto nela segurança, no entanto, à sua maneira, acaba por gostar dela e da sua crescente loucura. Talvez vá ficando porque se sente útil na cada vez maior fragilidade da senhora. Na realidade é muito difícil não gostar dela... :)

Numa longa carta que decide escrever à filha, onde relata os seus últimos meses?, semanas? de vida, vamos descobrindo o estado a que o país chegou. A crescente revolta dos negros com a natural violência que isso acarreta. Os jovens negros que lutam, com as armas que têm e conhecem, por uma vida melhor para todos e que, à conta disso não têm infância, crescem demasiado rápido, tornam-se frios e distantes, perdendo valores como o respeito pelos mais velhos. São quase orfãos todos eles... São no entanto o orgulho dos pais que vêem neles a esperança de dias melhores, mesmo que isso signifique perde-los na luta. São heróis para a comunidade negra e uns arruaceiros para a comunidade branca que governa o país. Mrs Curren é confrontada com esta realidade, da qual se conseguiu manter afastada quase toda a sua vida, quando Florence, a sua empregada, traz para sua casa o filho adolescente, Bheki, com o intuito de o afastar das zonas de maior violência.

Paralelamente a isto, Mrs Curren vai descrevendo à filha a sua crescente degradação física e mental, com momentos de pura confusão e alheamento, devido à medicação forte que toma para deixar de sentir dor. Esta é uma mulher extraordinária que vale a pena conhecer. Só nos seus piores momentos perde a vontade de viver, numa luta perdida à partida, contra a morte.
É  um relato apaixonado e muitas vezes incómodo, do caminho que é feito até ao dia em que a morte a decide levar. E é, também, um relato impressionante de uma luta desigual que condenou à morte muita gente, que permitiu conquistas que são, ainda hoje, tão frágeis. Um relato contado na perspectiva de alguém que, vivendo ali nunca se tinha apercebido da dimensão do problema.

Gostei imenso deste livro que, sendo tão pequeno consegue falar de coisas tão grandes e importantes. Gosto muito da escrita de Coetzee, gosto muito das histórias que conta e gosto muito das personagens que cria, principalmente das personagens femininas.

Gosto e recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excertos, de entre os muitos possíveis:
"«Agora a criança está enterrada, e caminhamos por cima dela. Digo-lhe que quando caminho por esta terra, por esta África do Sul, tenho cada vez mais a impressão de caminhar por cima de rostos negros. Estão mortos, mas o espírito que os animava não os abandonou. Jazem na terra, pesados e empedernidos, à espera de que passem os meus pés, à espera de que eu me vá, à espera do dia em que tornarão a erguer-se. Milhões de figuras de ferro fundido, a vogar debaixo da pele da terra. A idade do ferro que se prepara para voltar."

"Filhos de ferro, pensei. A própria Florence, também não muito longe da dureza do ferro. A idade do ferro. Após a qual virá a idade do bronze. Quanto tempo, sim, quanto tempo até que o ciclo regresse às idades mais brandas, a idade do barro, a idade da terra? Uma matrona espartana, um coração de ferro, gerando filhos guerreiros para a nação. «Nós temos orgulho neles.» Nós. Regressa a casa empunhando o teu escudo ou deitado no teu escudo."