novembro 29, 2012

Quase quase...


...a terminar o "calhamaço" de Ken Follett. :)

O Quero Um Livro está vivo, portanto. 

outubro 29, 2012

A Tormenta de Espadas - George R. R. Martin

Título original: A Storm of Swords (part 1)
Ano da edição original: 2000
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência

"Os Sete Reinos estremecem quando os terríveis selvagens do lado de lá da Muralha se aproximam, numa maré interminável de homens, gigantes e terríveis bestas. Jon Snow, o Bastardo de Winterfell, encontra-se entre eles, debatendo-se com a sua consciência e o papel que é forçado a desempenhar.
Todo o território continua a ferro e fogo. Robb Stark, o Jovem Lobo, vence todas as batalhas, mas será ele capaz de vencer as mais subtis, que não se travam pela espada? A sua irmã Arya continua em fuga e procura chegar a Correrrio, mas mesmo alguém tão desembaraçado como ela terá dificuldade em ultrapassar os obstáculos que se aproximam.
Na corte de Joffrey, em Porto Real, Tyrion luta pela vida, depois de ter sido gravemente ferido na Batalha da Água Negra, e Sansa, livre do compromisso como o rapaz cruel que ocupa o Trono de Ferro, tem de lidar com as consequências de ser segunda na linha de sucessão de Winterfell, uma vez que Bran e Rickon se julgam mortos.
No Leste, Daenerys Targaryen navega na direcção das terras da sua infância, mas antes terá de aportar às cidades dos esclavagistas, que despreza. Mas a menina indefesa transformou-se numa mulher poderosa. Quem sabe quanto tempo falta para se transformar numa conquistadora impiedosa?"

*Pode conter spoilers*

Esta primeira parte do terceiro volume (5º da Saída de Emergência) das Crónicas de Gelo e Fogo, é muito boa! Todas as personagens importantes parecem cada vez mais perdidas, presas a situações para as quais não encontram saída. E começa-se a adivinhar um rumo que me parece promissor, com Daenerys Targaryen, a Mãe dos Dragões, a ganhar importância e com os Selvagens a trazerem um novo ponto de vista sobre os Sete Reinos e sobre as infindáveis batalhas que os assolam. É impressionante a capacidade de George R. R. Martin para conseguir renovar a história e mantê-la empolgante.

Resumindo, neste 5º volume, temos Porto Real a gozar a estrondosa vitória na Batalha da Água Negra que praticamente dizimou o exército de Stannis Baratheon, que recuou para lamber as feridas e congeminar o próximo ataque com a ajuda de Melisandre, a Mulher de Vermelho. Esta é uma das personagens que nos volumes anteriores me pareceu detestável e extremamente perigosa mas que, neste volume, depois de algumas explicações sobre o que a move, embora continue a ser muito dúbia, acabei a simpatizar um pouco com ela. ;) 
Tyrion a recuperar de uma tentativa de assassinato que o deixou desfigurado e às portas da morte, tenta perceber qual será o seu papel agora que o pai, Tywin assumiu o cargo de Mão do Rei. É um Tyrion meio perdido e sem grande capacidade de manter a sua inusitada inteligência ao serviço do reino (seja qual for o rei que acabará por favorecer) que encontramos neste volume. Ele acaba mesmo por ser o protagonista, forçado, de um dos acontecimentos que mais me surpreendeu... O que irá resultar daquela união tão improvável? ;)

Arya continua a sua interminável viagem de regresso a Correrrio, na companhia de Gendry e Tarte-Quente. Mas é mais do que óbvio que nem tudo vai correr como ela esperava. Continua a ser uma miúda surpreendente e muito divertida. Por muito forte que seja, só queremos que volte para junto da mãe, antes que seja tarde demais. É de partir o coração o desgosto de Catelyn que acredita ter perdido Bran e Rickon, que não sabe se Arya está viva ou morta, que tem Robb a arriscar a vida nos campos de batalha e Sansa refém dos Lannister. Queremos muito que descubra de uma vez por todas que, com Arya não tem de se preocupar e que os seus filhos mais novos estão vivos... É tamanho o desespero que surpreende todos quando liberta Jaime Lannister das masmorras de Correrrio, para que Brienne o leve até Porto Real como moeda de troca pelas filhas que os Lannister supostamente mantêm cativas.
Este volume mostra-nos um Jaime Lannister que continua a ser detestável mas, ao mesmo tempos mais digno de pena. Compreendemos melhor algumas das suas atitudes e personalidade. É provável que venha a ser uma peça muito importante no desenrolar dos acontecimentos e pode ser que faça pender a balança para o lado menos provável.

É por causa de Arya que vamos conhecer um grupo de foras-da-lei, uma espécie de exército rebelde, que luta, não por nenhum dos candidatos ao Trono de Ferro, mas pela união do reino, pelo povo a morrer de fome e violentado, e por um reino mais justo. E é esta ideia de uma alternativa à lei estabelecida, da sucessão de reis e de batalhas pelo poder, que parece insinuar-se em mais do que uma das vertentes da história, que torna este livro intrigante e abre uma série de possibilidades para o futuro da história.

Para lá da Muralha, a Patrulha da Noite enfrenta um dos seus maiores desafios. Irão conseguir travar a marcha dos Selvagens até à Muralha de Gelo? Serão os Selvagens a verdadeira ameaça? As respostas que obtêm não terão tido um custo demasiado elevado?
Jon Snow, infiltrado entre os Selvagens, dá-nos a conhecer um lado que nos outros livros sempre foi tocado muito ao de leve. O Povo Livre pode até ser selvagem e violento, mas tem uma forma de pensar que faz Snow questionar a sua fidelidade para com a Patrulha da Noite e os Sete Reinos.
Gostei particularmente dos capítulos de Jon Snow por me permitir conhecer a perspectiva dos Selvagens, os que ficaram do outro da Muralha de Gelo, quando foram instituídos os Sete Reinos.

Por último, a história de Daenerys começa finalmente a desenvolver-se. A Mãe dos Dragões inicia o seu tão ansiado regresso a Westeros para reconquistar um trono que acredita ser seu por direito. Daenerys não é uma mulher normal e só George R. R. Martin sabe (ou não) o que o futuro lhe reserva. Adivinha-se um caminho difícil na sua ascensão ao Trono de Ferro, que acredito vai ser seu. Conto que a sua luta seja épica e gloriosa! Gosto dela... ;)

Enfim, acho que até agora este foi o volume que mais gostei de ler. Só não vou pegar no 6º volume porque, para além de ter de o reservar na biblioteca, queria mesmo retomar a leitura do Pillars of the Earth que tive de interromper. Uma grande obra de cada vez... É melhor não dispersar mais a minha, cada vez menor capacidade de concentração! :)

Recomendo este e toda a saga até ao momento! Boas leituras!


Excerto:
"Mas se parasse, morria. Sabia-o. Todos o sabiam, os poucos que restavam. Tinham sido cinquenta quando fugiram do Punho, talvez mais, mas alguns haviam.se perdido na neve, alguns dos feridos tinham sangrado até à morte... e por vezes Sam ouvia gritos atrás de si, vindos da retaguarda, e uma vez ouvira um berro horrível. Quando ouvira aquilo, correra, vinte ou trinta metros, tanto e tão depressa como fora capaz, levantando neve com os pés meio congelados. Ainda estaria a correr se as suas pernas fossem mais fortes. Eles estão atrás de nós, eles ainda estão atrás de nós, estão a levar-nos um por um."

outubro 21, 2012

Hotel Memória - João Tordo


Título original: Hotel Memória
Ano da edição original: 2007
Autor: João Tordo
Editora: Quidnovi

"Onde termina a culpa e começa a expiação? Em Nova Iorque, um estudante apaixona-se por uma rapariga enigmática com quem vive uma intensa relação. Mas a morte desta, inesperada e violenta, enche o protagonista de culpa e remorso, lançando-o numa espiral descendente até o transformar num vagabundo, sem dinheiro e sem posses. Prisioneiro do Memory Hotel, um pardieiro na baixa de Manhattan que parece destinado a albergar criaturas perdidas como ele próprio, é contratado por Samuel, um milionário excêntrico, para procurar um fadista português emigrado para os Estados Unidos quarenta anos antes.
Tendo Nova Iorque como pano de fundo, dos anos sessenta até ao presente, e criando a figura inesquecível de Daniel Silva, o fadista que conquista Manhattan com o seu talento, Hotel Memória é, ao mesmo tempo um romance de mistério e uma aventura nos meandros da condição humana - uma história simultaneamente intrigante e comovente, que lida com os fantasmas da memória, da culpa e da redenção."

A leitura deste livro do João Tordo, autor que tanto gozo me tem dado descobrir, apanhou-me numa altura mais atribulada e por isso de menor disponibilidade mental para a leitura em geral. Senti que o li um pouco distraída da história que me estava a ser contada e não me consegui "entregar" à leitura como acho que o livro merecia. Com isto quero dizer que embora tenha gostado do livro fiquei com uma ideia demasiado vaga do mesmo e fui passando pelas páginas sem permitir que estas me marcassem de alguma forma. Este merecia uma leitura diferente e voltará a ser lido, estou certa disso.

Feita a ressalva, passemos à história. 
O protagonista da história é, mais uma vez, uma personagem sem nome. Neste livro o protagonista é um estudante, oriundo de uma pequena cidade europeia que deixou, rumo aos Estados Unidos, mais precisamente ruma à Big Apple, para prosseguir os estudos em Literatura. Este homem, surge-nos, desde logo, como alguém inseguro, tímido, com uma personalidade pouco vincada, que parece ter encontrado nos livros e na bolsa de estudo que conseguiu, uma forma de escapar a uma família aparentemente sufocante, que raramente é mencionada. Mesmo nos seus piores momentos a possibilidade de recorrer à família nunca é equacionada.
Tudo parece correr bem e, embora não seja a pessoa mais sociável do mundo, encontra em Manuel e em Kim, a rapariga por quem se apaixona, toda a companhia de que precisa.
A imagem que é passada dele é a de uma pessoa um pouco vazia de ideias próprias, sem grandes vivências próprias para além das que encontra nos livros. Kim, por outro lado surge-nos como uma miúda cheia de mistérios, de ar distante, que parece já ter percorrido um grande caminho para estar onde está. O nosso protagonista apaixona-se por ela logo no primeiro momento em que se cruzam e é uma paixão breve mas intensa, que acabam por viver.
Quando Kim morre de forma inesperada e violenta, a vida deste homem muda, literalmente da noite para o dia, iniciando-se aí uma espiral crescente de loucura, alheamento e solidão. Destroçado pela perda da mulher que amava, corroído pela culpa que não consegue evitar sentir pela sua morte, soterrado em memórias do que viveram juntos e do que esperava viver ainda com ela, torna-se um homem muito só, tristemente só... A solidão é, aliás, um sentimento ou uma condição, da qual sofrem muitas das personagens criadas por João Tordo.
Sem força anímica para dar uma volta à sua vida depois de Kim morrer, vira-se para a bebida e quando é obrigado a sair da residência universitária, por ter perdido a bolsa, chega a dormir na rua. Vai trabalhar em locais e para pessoas de índole duvidosa e acaba a viver no Hotel Memória, o único abrigo que consegue pagar. É no Hotel Memória que muitos dos acontecimentos têm origem e é para lá que tudo parecer tender. É lá que conhece Samuel e ouve falar pela primeira vez do fadista português Daniel Silva, um mito da cultura nova iorquina que, reza a lenda era dono de uma voz prodigiosa mas que nunca chegou aos ouvidos do grande público porque a única cópia da sua única gravação em estúdio desapareceu sem deixar rastro, tal como o seu autor.
Samuel é um multimilionário, mecenas da cultura, e procura o protagonista para que este o ajude a encontrar Daniel Silva. O que o levou a ele, quem é Daniel Silva e qual e o interesse de Samuel no mesmo, são apenas algumas das questões que vão sendo respondidas ao longo do livro e que ajudam o nosso protagonista a sair do estado de apatia em que se encontrava. 

É um livro muito bem escrito, com uma aura de mistério que João Tordo consegue transmitir muito bem. A história, à semelhança dos outros dois livros que li dele, é um pouco absurda, no sentido de não ser, de todo, uma história linear e que respeite uma estrutura narrativa típica dos livros de mistério ou mesmo dos policiais. As personagens são estranhas, inadaptadas e cheias de conflitos interiores. O protagonista vai sofrer, e muito até conseguir encontrar a paz interior necessária para prosseguir com a sua vida. Esta não é uma personagem particularmente simpática, é fraco, como se costuma dizer "não tem espinha dorsal", mas acaba por crescer, ao longo de livro, tornando-se mais merecedor da nossa empatia. Aliás, com excepção de Kim e Manuel, com quem foi fácil criar alguma empatia, nenhuma das outras personagens são simpáticas. Não quero dizer com isto que são más personagens, ou mal concebidas, antes pelo contrário, são antes seres humanos cheios de vícios, egoístas, que se movimentam num mundo cheio de tudo e ao mesmo tempo cheio de nada. 

É um livro relativamente pequeno, em número de páginas, mas é um que exige uma leitura mais cuidada, mais atenta para poder saborear e apreender tudo aquilo que está para além das palavras.

Gostei e recomendo!

Boas leituras!

Excertos:
"Acordado, concluía que a solidão não era um estado de espírito, mas a ausência dele - agora que não sentia nada, que não estava em estado nenhum, nem aqui nem ali, mas num mundo entre dois mundos, estava mais sozinho do que alguma vez estivera. Não era eu, nem era outrem; era um casulo disposto a ser preenchido, um espírito vazio ansiando por uma chegada."

"Deitado sobre a cama, esperando que Manuel regressasse, começava a entender o poder fascinante da memória sobre a minha vida - sobre qualquer vida. Tudo era memória. O presente era a memória de si próprio, e era possível existir apenas se pudéssemos conservar as recordações de momentos que nunca se repetiriam. E, no entanto, paradoxalmente, a memória era aquilo que de mais falível um homem possuía: nomes esquecidos ou trocados, caras que se confundiam com outras, lugares onde julgávamos já ter estado, um lápis desaparecido para sempre, os constantes deslizes que tornavam a realidade o lugar de um romance, de uma história, encantadora pela sua falibilidade, e não pela sua certeza."

setembro 30, 2012

O Aroma das Especiarias - Joanne Harris

Título original: Peaches for Monsieur Le Curé
Ano da edição original: 2012
Autor: Joanne Harris
Tradução do Inglês: Ana Saldanha
Editora: Edições Asa

"Alguém me disse uma vez que, só em França. duzentas e cinquenta mil cartas são enviadas todos os anos aos mortos. O que ela não me disse foi que, por vezes, os mortos respondem...

Quando Vianne Rocher recebe uma dessas cartas, ela sente que a mão do destino está a empurrá-la de volta a Lansquenet-sur-Tannes, a aldeia de Chocolate, onde decidira nunca mais voltar. Passaram já oito anos, mas as memórias da sua mágica chocolataria La Céleste Praline são ainda intensas. A viver tranquilamente em Paris com o seu grande amor, Roux, e as duas filhas, Vianne quebra a promessa que fizera a si própria e decide visitar a aldeia no sul de França.
À primeira vista, tudo parece igual. As ruas de calçada, as pequenas lojas e casinhas pitorescas... Mas Vianne pressente que algo se agita por detrás daquela aparente serenidade. O ar está impregnado dos aromas exóticos das especiarias e do chá de menta. Mulheres vestidas de negro passam fugazes nas vielas. Os ventos do Ramadão trouxeram consigo uma comunidade muçulmana e, com ela, a tão temida mudança. Mas é com a chegada de uma misteriosa mulher, velada e acompanhada pela filha que as tensões no seio da comunidade aumentam. E Vianne percebe que a sua estadia não vai ser tão curta quanto pensava. A sua magia é mais necessária do que nunca!"

Vianne Rocher encontra-se a viver em Paris, com Roux e as duas filhas, Anouk e Rosette, num período de acalmia depois da grande tempestade que Zozie de l'Alba (Sapatos de Rebuçado) provocou na vida de Vianne e daqueles que ama. Provavelmente nunca esteve tanto tempo no mesmo sítio, sem que o vento da mudança a fizesse partir novamente, deixando tudo e todos para trás. Quando recebe um carta do passado, do seu passado em Lansquenet-sur-Tannes, de Armande, morta há já alguns anos, Vianne apercebe-se que sempre quis regressar à pitoresca aldeia e que a carta de Armande é a desculpa que necessitava para revisitar o único lugar no mundo que chegou a pensar ser a sua "casa". Pega nas filhas, desejosas de acompanhar a mãe, e parte, apenas para uma curta visita. Será assim tão curta a visita de Vianne? Regresserá a Paris? É o que veremos...

Vianne encontra Lansquenet praticamente na mesma, as mesmas pessoas, as que a fizeram querer voltar e as que a fizeram partir, há oito anos atrás. As únicas novidades parecem estar em Les Marauds onde se instalou uma comunidade muçulmana, inicialmente bem recebida e tolerada e que agora parece ser a causa de tensões e agitações no seio da comunidade de Lansquenet.
Contente com a recepção que encontrou Vianne vai ficando, decidida a ajudar, com a sua magia, na criação de pontes entre as duas comunidades para que possam coexistir de forma pacífica. Mas até Vianne Rocher com os seus chocolates vai encontrar dificuldades imprevistas, porque nem tudo o que parece é. 

A história vai-se desenrolando à volta da cultura muçulmana e debruça-se sobre as diferentes formas de se viver a religião, uns são mais tolerantes outros mais radicais, no fim, a religião não é importante, o que sobressai são as loucuras individuais de cada um projectadas na forma como gostaríamos de ver o mundo que nos rodeia. Quando os loucos são carismáticos, bonitos e dissimulados, podemos estar metidos num grande sarilho. ;) Mais uma vez, nem sempre o que parece é...

Tenho sempre alguma dificuldade em escrever sobre autores de que gosto muito. Tenho dificuldade em tornar a minha opinião mais racional e objectiva. O mais recente livro da Joanne Harris coloca-me numa posição desconfortável, por um lado o meu coração diz-me que gostei do livro e a impressão que me deixou foi maioritariamente positiva, por outro, o meu lado racional não pode deixar de dizer que o coração nem sempre é o melhor critério! É bom, mas não tão bom como eu gostaria! ;) 
Gostei da escrita, como seria de esperar, nada de novo aí e gostei de revisitar as personagens de Chocolate, que para mim estarão sempre associadas mais ao filme, que vi antes de ler o livro. Para mim Roux será sempre o Johnny Depp e por isso estranho de cada vez que Joanne Harris se refere e ele como ruivo... :p 
Achei a história interessante sobre a intolerância religiosa, mas não só, é também sobre o medo da mudança e de tudo o que não é familiar e as diferentes formas como cada um reage fora da zona de conforto.

A minha opinião é positiva, recomendo-o sem hesitação, especialmente aos amantes do livro Chocolate. No entanto não pude evitar algum tédio aquando da leitura, achei-o um pouco repetitivo com Vianne a repetir as suas dúvidas acerca do que ali estava a fazer e se queria ficar ou ir embora e com o Curé Reynaud a ter crises existenciais. Confesso que a minha opinião melhorou apenas mais para o fim do livro e grande parte da boa memória que ficou, deveu-se às últimas 100 páginas do livro, onde ocorre o desenvolvimento de toda a história. Para além de ter achado o livro menos dinâmico, houve personagens, como a de Inès Bencharki, cujas acções e atitudes não achei coerentes, mesmo com as justificações dadas no final.
Em defesa da minha posição de fã da Joanne Harris, quero apenas acrescentar que a Vianne Rocher nunca foi das minhas personagens femininas favoritas. Sempre a achei muito tonta... É crédula e demasiado ingénua e neste livro o seu papel no desenrolar da história é praticamente nulo, sendo mais uma espectadora. Há muito poucos chocolates e outros cozinhados cujas descrições nos deixam com água na boca. Já no Sapatos de Rebuçado a achei desligada, nunca acertava com as suas "previsões", o que acho estranho para alguém que se quer tão "sensível" aos outros. Enfim... Não sou grande fã de Vianne Rocher, mas gostei muito de reencontrar Roux, Rosette (acho-a maravilhosa), e o tenso Curé Francis Reynaud que tem neste livro uma autêntica lição de vida! Gostei muito dos Djerba, a família muçulmana mais descontraída relativamente à religião e o vilão da história é verdadeiramente perturbador.

Resumindo e baralhando, gostei, não tanto como gostaria, mas gostei e recomendo. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Sozinha, regressei ao boulevard. O sol do fim da manhã já ia alto, mas, afastada da claustrofobia do pequeno beco com os seus cheiros de cloro e de kif e de suor, tomei consciência de uma sensação bem-vinda de frescura. Era apenas uma brisa que vinha do rio, mas cheirava a outros lugares, à sálvia silvestre da encosta da montanha e ao aroma apimentado do rabo-de-lebre que cresce ao longo das dunas e dança loucamente ao vento - e apercebi-me do que estava diferente. 
Por fim, a calmaria interrompera-se.
O Autan tinha começado a soprar."

setembro 19, 2012

O Despertar da Magia - George R. R. Martin

Título original: A Clash of Kings (part 2)
Ano da edição original: 1998
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência
"A guerra pelos Sete Reinos continua e a batalha pela capital de Porto Real é a mais sanguinária de sempre. A frota de Stannis Baratheon vê-se encurralada em frente à cidade enquanto barcos carregados de fogo-vivo são enviados contra ela. Mas os sobreviventes conseguem levar o combate até às muralhas da cidade e todos os sitiados terão de lutar pela vida. Só quando os exércitos de Tywin e dos Tyrell chegam, se percebe que um dos lados será definitivamente esmagado. Mas num mundo de traições constantes, quem será que eles irão apoiar?

No Norte, os Stark estão entre a espada e a parede. Várias das suas fortalezas são atacadas pelos temíveis homens de ferro e até o castelo de Winterfell é conquistado pelo traidor Theon Greyjoy. Bran e Rickon conseguem fugir, acompanhados por Hodor e alguns companheiros, mas que futuro terão duas crianças numa terra ameaçada pelo Inverno?

Para lá da Muralha, Jon oferece-se para acompanhar um grupo de baterdores enviado para encontrar os selvagens, enquanto a principal força da Patrulha da Noite se fortifica junto às montanhas. Mas as coisas correm mal e Jon terá de escolher entre a morte... ou a traição aos seus irmãos.

Mais uma vez, George R. R. Martin consegue manter-nos agarrados até à última página. Personagens que amamos são mortas sem dó nem piedade, personagens que odiamos conseguem conquistar o nosso coração. De Arya a Sansa, de Robb a Daenerys, todas terão um papel fulcral neste fabuloso quarto volume de As Crónicas de Gelo."

Terminado mais um volume da gigantesca obra de George R. R. Martin, As Crónicas de Gelo e Fogo
Nesta segunda parte do 2º volume da edição original, a luta pelo trono torna-se verdadeiramente épica, com muitas batalhas a serem travadas por todos os Sete Reinos, cabeças a serem cortadas sem piedade, com alianças que se forjam e se desfazem ao sabor dos ventos frios do Inverno que se aproxima.

Em Porto Real, os Lannister tentam a todo o custo sobreviver à crescente revolta do povo esfomeado, enquanto esperam que os exército de Tywin Lannister chegue a tempo de os salvar do mais que certo ataque de Stannis Baratheon, que se dirige para a cidade real suportado por milhares de homens e navios. 
Tyrion, a Mão do rei, procura atenuar a infantilidade e brutalidade do sobrinho Joffrey e da inconsequente irmã, Cersei, ao mesmo tempo que prepara a defesa do castelo real, esperançado de que seja desta que o pai se vai orgulhar do seu "filho monstruoso". A importância de Tyrion continua a crescer mas, confesso que neste volume, senti que o autor esteve bem perto de o matar... :) Espero que não, gosto dele, gosto da sua ambiguidade, sabemos que não é mau mas a lealdade que tem à família e a inteligência que possui torna-o capaz de tudo. O desejo que tem de agradar ao pai sobrepõe-se a praticamente tudo, o que o torna imprevisível. Nada de bom o espera neste volume...

Em Winterfell, os Stark são alvo de uma investida traiçoeira de Theon Greyjoy, também ele com um desejo enorme de agradar ao pai, o senhor das Ilhas de Ferro e com sede de vingança contra os Stark. Theon consegue tomar o castelo de Winterfell e autoproclama-se Príncipe de Winterfell, no entanto o apoio que recebe do pai e da irmã é nulo e está longe de ser amado em Winterfell que o vêem como o  traidor que na realidade é, que tomou o castelo das mãos de duas crianças, uma delas aleijada. Quanto tempo durará o reinado de Theon?

Do outro lado do mar Daenerys, luta para reunir o apoio necessário para a sua causa, a reivindicação ao trono de ferro, que o regicida usurpou ao seu pai. Mas, parece que nem os três pequenos dragões que está a criar parecem ser suficientes para que a queriam ajudar a cumprir o seu destino. Será que no próximo volume teremos mais Daenerys e os seus improváveis dragões? Acredito que sim... ;)

Para lá da Muralha de Gelo, Jon Snow continua a sua patrulha pelas terras selvagens com o lobo gigante Fantasma a ter comportamentos estranhos que deixam Jon apreensivo quanto ao que aguarda a Patrulha da Noite naquelas terras sem lei e de como serão capazes de proteger os Sete Reinos de todo o mal que parece pairar sobre eles.

E assim continua a vida nos Sete Reinos. Achei este volume bem mais violento que o anterior, com muitas mortes e muito sangue. Confesso que a descrição das batalhas me aborreceu um pouco, são muitas e parece que cada vez há mais personagens secundárias. É muito Lord e muito Senhor... Demasiados nomes que me deixam baralhada quanto à sua posição na história... É impossível não nos perdermos com tanta gente... Preferia que o autor desse menos importância à árvore genealógica dos Sete Reinos. :) Daí este volume me ter custado mais a ler, no entanto gostei. Acho que foi um livro importante no desenvolvimento da história e no qual muitas personagens cresceram e deixam no ar a importância que poderão vir a ter nesta luta pelo poder, uma delas é de Arya. Esta rapariga ainda vai cortar muitas cabeças! :)
Para além da importância das personagens a história todo o volume deixa no ar referências a poderes antigos e poderosos. O título da edição portuguesa é muito assertivo nesse aspecto, uma vez que é neste volume que a magia começa a ressurgir. O que mudou para que poderes perdidos há séculos estejam a ganhar força?

Gostei muito e recomendo, como já seria de esperar. Que venha o próximo volume! :)

Boas leituras!

Excerto:
"Deu por si fora da cidade, a caminhar por um mundo sem cor. Corvos atravessavam um céu cinzento apoiados em grandes asas negras, enquanto gralhas pretas saltavam de cima dos seus banquetes em nuvens furiosas onde quer que os seus passos o levassem. Larvas brancas escavavam túneis em putrefacção negra. Os lobos era cinzentos, e as irmãs silenciosas também; juntos arrancavam a carne aos caídos. Havia cadáveres espalhados por todo o terreno dos torneios. O Sol era uma moeda quente e branca, brilhando sobre o rio cinzento que corria em torno dos ossos carbonizados de navios afundados. Das piras dos mortos erguiam-se colunas negras de fumo e cinza incandescentes e brancas. Obra minha, pensou Tyrion Lannister. Morreram às minhas ordens."

setembro 11, 2012

As 5 estrelas do Goodreads

Apercebo-me que este ano ainda não classifiquei, o Goodreads, nenhuma das minhas leituras com 5 estrelas. Tenho lido livros muito bons, mas ainda não senti por nenhum deles um "arrebatamento" de 5 estrelas que a plataforma designa como "it was amazing".

Olho para os livros que tenho na estante por ler e sei que alguns serão candidatos quase certos à classificação de "amazing"... Será que já sou a feliz proprietária de um livro 5 estrelas ou ainda está para chegar às minhas mãos o livro que estreará esta classificação em 2012? A vida é cheia de perguntas, ao menos esta terá uma resposta mais cedo ou mais tarde. :)

Ora vejam lá o que aqui anda por casa:

1 - The Pillars of the Earth - Ken Follett (acho que ainda não vai ser este ano que o vou ler)
2 - Norwegian Wood - Haruki Murakami
3 - A Ilha do Dia Antes - Umberto Eco
4 - A Paixão de Maria Madalena (1º Vol) - Margaret George
5 - Os Anões - Harold Pinter
6 - A Última Noite em Twisted River - John Irving
7 - Esaú e Jacó - Machado de Assis
8 - Autópsia de um Mar de Ruínas - João de Melo
9 - A Boa Terra - Pearl S. Buck
10 - Crime e Castigo - Fiódor Dostiévski
11 - Herzog - Saul Bellow
12 - O Homem Lento - J. M. Coetzee
13 - O Remorso de Baltazar Serapião - valter hugo mãe
14 - A Maldição (Duma Key) - Stephen King
15 - Os Malaquias - Andréa del Fuego
16 - O Caso das Mangas Explosivas - Mohammed Hanif
17 - A Montanha da Água Lilás - Pepetela
18 - Hotel Memória - João Tordo
19 - O Aroma das Especiarias - Joanne Harris (há-de chegar antes do fim do ano!)

Aceitam-se apostas! :)

Boas leituras!

Danças & Contradanças - Joanne Harris

Título original: Jigs & Reels
Ano da edição original: 2004
Autor: Joanne Harris
Tradução do Inglês: Teresa Curvelo
Editora: Edições Asa

"As sarcásticas histórias de Danças & Contradanças podem ser resumidas em duas palavras: malévolas e maliciosas. Como em muitos dos seus romances, Joanne Harris consegue combinar de uma forma única situações e personagens únicas - e até banais - com o extraordinário e o inesperado. Mais do que nunca, a autora dá largas à sua imaginação e apresenta-nos uma exuberante e prodigiosa caixa de Pandora, que contém tudo quanto é extravagante, estranho, misterioso e perverso. De bruxas suburbanas e velhinhas provocadoras, monstros envelhecidos, vencedores da lotaria suicidas, lobisomens, mulheres-golfinho e fabricantes de adereços eróticos, estas são vinte e duas histórias onde o fantástico anda de mãos dadas com o mundano, o amargo com o doce, e onde o belo, o grotesco, o sedutor e o perturbador estão sempre a um passo de distância."

Com a notícia de que vai ser editado em Portugal o mais recente livro de Joanne Harris, O Aroma das Especiarias, fiquei com vontade de ler qualquer coisa dela, enquanto espero pelo meu exemplar. Tinha há algum tempo este Danças&Contradanças na prateleira que, por ser um livro de contos, não estava no topo da lista de leituras.

Confesso que, se não conhecesse a escritora de muitos outros livros, não sei se teria ficado muito impressionada com ela, intrigada sim, só não sei se suficientemente intrigada para pegar noutro livro dela. Embora ultimamente tenha lido alguns livros de contos que me têm feito mudar de opinião acerca do género, este de Joanne Harris fez-me lembrar porque é que não é o meu género favorito: as histórias são demasiado curtas para que se consigam desenvolver as personagens e criar empatias e, as personagens de Joanne Harris precisam de espaço para serem quem são. Com os contos isso não acontece. O que também precisa de espaço são as histórias e as múltiplas peças do puzzle que a escritora tão bem sabe montar de forma a encaixarem na perfeição.
Definitivamente, o conto é bem o género onde a autora consiga revelar o melhor de si. É muito mais eficaz no romance. :)

No entanto, o livro não deixa de ter muitos dos elementos que marcam a escrita de Joanne Harris, o fantástico, personagens com personalidades distorcidas, a presença da comida e dos cheiros, elementos quase omnipresentes em todas as obras da autora. É Joanne Harris, mas não é o melhor dela!.

Recomendo por ser escrito por quem é e porque é um livro pequeno que pode muito bem ser um bom livro para descontrair de leituras mais complexas.

Boas leituras!

Excerto:
"É possível que no próximo Sábado, ou no seguinte, tenhamos de nos transferir para novos terrenos de caça. Claro que é em parte a incerteza que torna isto tão divertido. Mas sei que o que quer que tenhamos de enfrentar num futuro por enquanto inimaginável, o enfrentaremos juntos, Veldarron, Spider, Titania e eu. As pessoas comuns, com as suas vidas insípidas, mundanas, imaginárias, nunca poderão compreender, apercebo-me com súbita compaixão. E, para minha surpresa, dou comigo a assobiar baixinho ao mesmo tempo que vou buscar a pá e começo a cavar."