dezembro 28, 2012

o remorso de baltazar serapião - valter hugo mãe

Título original: o remorso de baltazar serapião
Ano da edição original: 2006
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara Portugal

"A aventura de baltazar serapião em reboliço com os seus amores pela formosa Ermesinda, moça com quem vem a casar e por quem se atormenta de ciúmes. Este é um romance de família e de viagem, em que o estigma de se ter um nome parece explicar à sociedade quem se é e que intenções se tem.
Um romance que é também uma aventura da linguagem, friccionando um português antigo que, não o sendo de facto, cria a ilusão de estarmos ao tempo de uma idade média tardia, feita de alçapões morais e de uma brutalidade primária, sobretudo cometida contra as mulheres.
Este livro ostenta a violência a que historicamente a mulher foi sendo sujeita por uma mentalidade machista dominante. Uma violência ainda sem redenção."

Depois de ter gostado tanto do a máquina de fazer espanhóis, as expectativas para o próximo livro a ler do valter hugo mãe eram elevadas. o remorso de baltazar serapião é muito diferente e por isso, as comparações naturais com o livro anterior desapareceram na primeira página, o que foi bom. :) Gosto de escritores que não ficam presos a uma única forma de escrever, que parecem conseguir reinventar-se a cada livro que escrevem, conseguindo manter a identidade.

o remorso de baltazar serapião - escrever sem maiúsculas é, ao mesmo tempo estranhamente libertador e anti-natural - é um livro, à falta de melhor palavra que o adjective, perturbador. 
Numa espécie de caricatura, exagerando as personagens, tornando-as menos credíveis, valter hugo mãe consegue, mais uma vez, entrar numa realidade que, à partida não lhe é familiar, e descreve-la como se fosse. Neste, pelos olhos de baltazar serapião, entra na vida sofrida e deprimente de uma mulher, da idade média. baltazar serapião casa por amor com Ermesinda, a rapariga mais bonita e recatada da aldeia. Ermesinda parece gostar dele e todos têm esperança que baltazar não siga as pisadas do pai, que mutilou a mãe, para lhe ensinar a ser uma melhor esposa e mãe.Por ignorância e machismo (serão sinónimos?) o pai de baltazar serapião deixou a mulher para sempre coxa, com os pés irremediavelmente torcidos e retorcidos. Que seria se não tivesse, também ele casado por amor... Provavelmente não teria posto tanto afinco na "educação" da mulher. Porque as mulheres são malignas, a sua voz é perigosa e os homens não devem dar-lhes ouvidos. As mulheres são burras, menos que nada, com a cabeça cheia de ideias estranhas e perigosas, que servem apenas para satisfazer todos os desejos dos homens. A mulher ideal é submissa e calada.
É com pena que percebemos que Ermesinda, a rapariga mais bonita e recatada da aldeia não terá sorte diferente quando se casa com baltazar serapião. Este louco de ciúmes, que até podem ter razão de ser, nunca o sabemos ao certo, vai aos poucos mutilando fisica e psicologicamente a rapariga.

Toda a família serapião é estranha, com comportamentos bestiais - adj bestial [bəʃti'al] próprio de animal - ou não fossem eles conhecidos por sargas, porque tratavam a velha vaca como se fosse da família. Alguns acreditavam inclusive que era a vaca a progenitora das crias serapião e não a desgraçada com os pés tortos. E, também neste caso, nunca sabemos com certeza...

Não é um livro fácil de ler, é muitas vezes revoltante e apenas o tom mais caricatural permite aliviar um pouco o que lá se conta. Por ser tão próximo à realidade de muitas mulheres, ainda nos dias de hoje, torna-se ainda mais desconfortável. Os homens do livro são quase todos uns animais, e as mulheres são quase todas pouco mais que bichinhos assustados. Dá vontade de gritar de estupefacção!
Todas as mortes na família serapião são trágicas. O que leva à morte da mãe é, indescritívelmente repugnante e chocante.
A relação de dependência que existe entre baltazar e Ermesinda é revoltante e incómoda. O comportamento de cachorrinho que ela demonstra é difícil de ler e a inexistência de remorsos em baltazar é ofensiva.
O que acaba por ser mais incómodo é a inevitabilidade dos comportamentos de cada uma das personagens. baltazar aparece-nos sempre como alguém simpático, como alguém de quem até poderíamos vir a gostar, cujos comportamentos surgem como inevitáveis. É inato ao homem e por isso impossível de condenar, como doença incurável com a qual todos teríamos de aprender a viver.
valter hugo mãe a fazer bem o papel de advogado do diabo. :)

É impossível dizer que gostei deste livro, como posso gostar? É demasiado gráfico, demasiado chocante e demasiado certeiro. Só por isso não posso dizer que gostei mas a verdade é que gostei, como posso não gostar? :)

Gostei e só não recomendo sem reservas porque é preciso ter algum estômago e ter a capacidade de nos distanciar-mos.

Boas leituras!

Excertos:
"a minha mãe deixava de falar comigo e com o aldegundes, porque lhe saíam coisas de mulher pela boca fora, e barafustar, como fazia, era encher os ouvidos dos homens com ignorâncias perigosas. uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros."

"a minha mãe roubou-a dos nossos olhos, furiosa com o destino, e todos soubemos que se cobriram uma à outra de segredos, semelhantes e porcas de corpo, condenadas à inferioridade, à fraqueza. um corpo que as obrigava, sem falta, a uma maleita reiterada, como um inimigo habitando dentro delas, era o pior que se podia esperar, um empecilho de toda a perfeição, e tão belas se deixavam quanto doloridas e acossadas. por isso eram instáveis, temperamentais, aflitas de coisas secretas e imaginárias, a prepararem vidas só delas sem sentido à lógica. tinham artefactos e maneiras de parecer gente sem quererem perder tudo o que deviam perder. eram, como sabíamos tão bem, perigosas."

dezembro 25, 2012

Feliz Natal!!!!!

Embora ligeiramente atrasado, não podia deixar de passar por aqui e desejar-vos um Feliz Natal!

Espero que ainda não estejam enjoados dos doces de Natal (eu não estou) e que tenha havido espaço para muitos abraços e risadas!

Que o Pai Natal, tenha o merecido descanso numa praia paradisíaca depois de ter carregado com todos os vossos presentes. Espero que todos os livros que pedimos no sapatinho não tenham dado cabo das costas do simpático velhinho de barbas!

Boas leituras!!!!!!

dezembro 12, 2012

A Montanha da Água Lilás - Pepetela

Título original: A Montanha da Água Lilás
Ano da edição original: 2000
Autor: Pepetela
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"«O avô Bento, em noites de cacimbo à volta da fogueira, nos contou, fumando o seu cachimbo que ele próprio esculpiu em pau especial. Dizia a estória se passou aqui mesmo, nas serras ao lado, mas pode ser que fosse trazida de qualquer parte de África. Até mesmo do Oriente, onde dizem também há água lilás. Se virmos bem, em muitos lados pode ter uma montanha semelhante. Eu só escrevi aquilo que o avô nos contou, não inventei nada.»"

Que livro delicioso... Pepetela não pára de me surpreender e é cada vez mais um daqueles escritores que acreditamos não consegue escrever um livro mau. :)
A Montanha da Água Lilás é uma pequena fábula, um livro de "faz de de conta" com uma história que surpreende por ser tão certeira, tão séria e ao mesmo tempo tão divertida.

No tempo em que os animais falavam existia uma montanha onde habitavam os lupis. Os lupis viviam separados dos outros animais da planície e alimentavam-se dos frutos que colhiam das muitas árvores da montanha. Eram umas criaturas pequenas e reconchudas, com o corpo coberto de pêlo cor de laranja. Uma espécie de macacos, com características que nos levam a pensar neles como os antepassados longínquos dos Homens.
Os lupis distinguiam-se uns dos outros pela inteligência e pelo tamanho. Os mais inteligentes eram os cambutinhas, os mais pequenos dos lupis, era deles que partiam todas as ideias. Os mais trabalhadores eram os Lupões, maiores e menos dados às coisas do pensamento, eram fisicamente mais capazes do que os cambutinhas.
Os lupis viviam felizes, comiam a muita fruta da montanha e viviam pacificamente, sem motivos para discutir. Por um acaso da evolução, algumas das crias lupis começam a crescer mais do que os seus progenitores. Estes novos lupis para além de serem fisicamente maiores eram também muito preguiçosos e violentos. Eram completamente incapazes de sobreviver sozinhos, porque não conseguiam subir às árvores para colher fruta e aproveitavam-se da boa vontade dos seus semelhantes (parece-vos familiar?), para se alimentarem. Não contribuíam em nada para a vida na montanha, a única coisa que sabiam fazer era perturbar a paz na montanha. Por serem tão diferentes dos restantes lupis começaram a ser chamados de jacalupis, porque até na maneira como expressavam o seu estado de espírito eram diferentes dos outros lupis.
Embora os jacalupis tenham vindo complicar um pouco a vida simples que até aí se vivia na montanha, os lupis foram-se adaptando às novas circunstâncias e aceitaram, estes seus semelhantes de forma pacífica.
A vida seguia sem percalços, comiam a fruta das árvores e, os momentos de lazer continuavam a ser passados no vale da poesia em contemplação da natureza.
Um dia, para surpresa de todos, da montanha que habitavam desde que se lembravam, começa a brotar uma espécie de água, de cor lilás e com um perfume inebriante que deixa quem se aproxima dela mais feliz. Os lupis ficam, naturalmente, muito intrigados com a água lilás e os lupis cientistas começam logo a investigar as potencialidades de tão extraordinário líquido. Será que se pode beber? Será que se pode tomar banho nela? Se apenas cheirá-la os deixa tão felizes... O aparecimento de um bem a que mais nenhum animal tem acesso e, ainda por cima, um que parece ter potencialidades infinitas, vai alterar a vida dos lupis para sempre. O lupão comerciante começa logo a conceber planos para rentabilizar o precioso líquido, os jacalupis tornam-se ainda mais violentos e preguiçosos, e o cambutinhas começam a parecer-se cada vez mais com escravos, embora estejam em maioria.
Acho que não é difícil perceber onde esta fábula de Pepetela quer chegar. :)

Depois de um livro tão extenso como Os Pilares da Terra, do Ken Follett, que embora me tenha dado muito gozo ler, quando comparado com este pequeno livro de Pepela, acaba por parecer tão pretensioso...

Soube-me mesmo muito bem voltar a Pepetela com este A Montanha da Água Lilás e é óbvio que o recomendo!

Boas leituras! :)

Excerto:

"De repente do sítio de onde saiu a pedra, brotou muito timidamente um líquido escuro. O lupi-poeta inclinou-se para ver melhor e sentiu então o perfume que saía daquele líquido lilás. Era um perfume muito doce. Pôs o dedo no líquido e levou-o ao nariz. Que maravilha! Os odores de todas as flores estavam reunidos naquele cheiro único que logo o encheu de enorme alegria, ele que momentos antes quase explodia de irritação. Ajoelhou no chão e cavou à volta, alargando o buraquinho. O líquido começou a brotar em maior quantidade e o perfume intensificou-se. A alegria também. Ficou ali sentado no chão, ao lado da fonte, aspirando o perfume, todo feliz, esquecido mesmo de fazer o poema à Lua."

The Pillars of the Earth - Ken Follett

Título original: The Pillars of the Earth
Ano da edição original: 1989
Autor: Ken Follett
Editora: Pan Books

"Set in the turbulent times of twelfth-century England when civil war, famine, religious strife and battles over royal succession tore lives and families apart, The Pillars of the Earth tells the story of the building of a magnificent cathedral.
Against this richly imagined backdrop, filled with intrigue and treachery, en Follett draws the reader irressistibly into a wonderful epic of family drama, violent conflict and unswerving ambition. From humble stonemason to imperious monarch, the dreams, labours and loves of his characters come vividly to life. The Pillars of the Earth is, without doubt, a masterpiece - and has proved to be one of the most popular books of our time."

E finalmente cheguei ao fim deste primeiro calhamaço de Ken Follett. E é por ser um dos livros mais lidos de sempre, que praticamente já toda a gente leu, que não sei bem que mais há a acrescentar às inúmeras opiniões/críticas já escritas sobre ele. Provavelmente já foi tudo dito e, como não tenho qualquer pretensão de reinventar a roda, vou ser o mais breve possível, tendo em conta a dimensão do livro (1075 páginas nesta edição da Pan Books). ;)

A acção de The Pillars of the Earth percorre quase todo o século XII. Começa com o fim do reinado de Henry I, passa pelo de Stephen e termina com o de Henry II. Tendo como pano de fundo o sonho de construir uma catedral, a maior e mais bela catedral de Inglaterra, Ken Follett leva-nos a viajar por uma época difícil, onde a guerra pelo trono é uma constante, a tirania dos grandes senhores é lei e onde o poder da Igreja, embora muitas vezes ameaçado e posto em causa, é inegável e muitas vezes nefasto. Na luta do bem contra o mal, o bem não parece ter grandes hipóteses contra adversários tão determinados.
Podemos considerar que existem, neste livro, três grandes núcleos - o núcleo do povo, constituído pela gente trabalhadora e/ou pobre, o núcleo dos nobres ou donos de cargos de poder na sociedade e dos religiosos.
Do lado do povo temos Ellen, Jack, juntamente com Tom Builder e a família.
Ellen e Jack, são mãe e filho e viviam numa gruta na floresta, afastados do mundo, até se cruzarem com a família de Tom Builder. Ellen é filha de um nobre, demasiado "avançada" para a época em que nasceu, por ser tudo menos uma mulher submissa. É, pelo contrário, independente, sem papas na língua e incute algum receio nos outros por acharem que é uma bruxa com acesso a poderes ocultos. É uma mulher que ama a vida e o filho, acima de tudo, e que encontra novamente o amor junto de Tom Builder, que acabará por ser o único pai que Jack alguma vez conhecerá.
Tom Builder é-nos apresentado como um homem muito inteligente, com uma mente aberta à mudança. É um homem fisicamente possante que amou sem reservas a mulher, Agnes, que morre durante o parto, e os filhos. O seu maior sonho é construir uma catedral. Quer desenhá-la e construi-la à medida da sua imaginação. É trabalhador e determinado nos objectivos que traçou para a sua vida.


Aliena e Richard fazem parte do núcleo dos nobres, embora vivam, ao longo de toda a história, momentos de verdadeira penúria. Aliena e Richard são irmãos e assistiram impotentes à invasão do castelo onde viviam com o pai, o Conde de Shiring. Preso por conspirar contra o rei, deixa os filhos, ainda adolescentes, abandonados e arruinados. Aliena é uma personagem extraordinária que vale a pena conhecer. Uma mulher de armas que não baixa nunca os braços perante as inúmeras adversidades e contratempos que vai encontrando ao logo da história. Dona de uma beleza extraordinária e de uma não menos extraordinária personalidade, é protagonista de uma das cenas mais chocantes do livro, quando é  violada por William Hamleigh e os seus homens, em frente ao irmão Richard. A vida das mulheres neste livro é tudo menos glamorosa...
William Hameleigh, é a personificação de todo o mal. Conhecemo-lo quando invade o Castelo de Shiring, um rapaz inseguro que encontra na violência um escape para os seus demónios interiores. Seguimos o seu percurso errático, pertubamo-nos com os seus desejos irracionais, por Aliena, pelo poder, pelo reconhecimento público e por sangue. O seu fim não poderia ser diferente daquele que Ken Follett lhe reservou. :)

Do lado da Igreja, temos Philip e Waleran. Os dois representam o melhor e o pior que a Igreja pode criar.
Philip é o prior de Kingsbridge quando Tom Builder chega à vila e depressa embarca no sonho do construtor. Em criança assistiu ao assassinato dos pais tendo sido salvo, juntamente com o irmão mais novo, por um religioso que os acolheu num mosteiro e os educou como filhos. Extremamente inteligente e determinado, o seu calcanhar de Aquiles é o orgulho, o único pecado mortal de que pode ser acusado. Orgulho por ter transformado Kingsbridge numa cidade cada vez maior e mais próspera, e por estar a construir a maior e mais bela catedral do mundo. Comete alguns erros e toma decisões que podemos considerar menos cristãs, tudo para salvaguardar a obra que quer deixar feita. Mas é, na sua essência, um homem bom, um verdadeiro cristão, por vezes inocente, moralmente muito rígido e justo que acredita piamente estar a cumprir a vontade de Deus.
Waleran é a antitese de Philip, dono de uma ambição sem limite, utiliza a sua posição como Bispo para satisfazer os seu desejos pessoais, não olhando a meios para atingir os seus fins. Tem por Philip um ódio de morte e chega a ser frustrante ver o esforço que faz para acabar com Philip e que este consiga sempre dar a volta por cima. :)

The Pillars of the Earth é a história de Ellen, de Jack, de Tom Builder, de Aliena, de Philip, de William e Waleran. Estes são os seu nomes mas podiam ser outros, porque as histórias contadas não são exclusivamente suas. Ken Follett junta todas estas personagens, tendo como força motriz a construção da catedral de Kingsbridge e aproveita para nos falar de como era a vida na Inglaterra do século XII. Como viviam as pessoas nessa altura, do que viviam, o que comiam, porque casavam, como nasciam e como morriam. Que papel assumia a Igreja, em que acreditavam as pessoas da época, o que temiam e como rezavam. Que importância tinha o Rei na vida dos seus súbditos, quando decisões tomadas a quilómetros de distância por razões, raramente compreensíveis, podiam virar a vida do comum dos mortais de pernas para o ar.
Neste aspecto o livro é bem sucedido, uma vez que, faz isto integrando os factos históricos na história ficcionada que conta, com pormenores que vamos absorvendo de forma natural.

Os pormenores da construção da catedral são fascinantes, e é engraçado intuir nas preocupações que consumiam Tom Builder e mais tarde Jack, o início de uma nova era para a engenharia civil. Com o acesso ao conhecimento tão limitado, onde os únicos livros disponíveis pertenciam à Igreja, é fascinante como já se sabia tanto, ou como a intuição de Jack estava tão perto da verdade.

Talvez por ter visto a mini-série primeiro, o meu entusiasmo durante a leitura acabou por não ser uma constante, no entanto, não posso deixar de concordar com a maioria das opiniões já escritas sobre esta obra de Ken Follett, é grande e tem momentos verdadeiramente grandiosos.
The Pillars of the Earth é um daqueles livros que vale essencialmente pela história que nos conta e menos pela qualidade da escrita. A genialidade de Ken Follett revela-se na história e não propriamente na forma como a conta. Confesso que não sou grande fã da escrita dele, que acho demasiado linear e, neste livro, acaba por ser até um pouco repetitivo nas ideias. Mas, embirranços à parte foi um livro que me deu muito gozo ler e que me deixou com vontade de ler o The World Without End e a trilogia do século XX, Winter of the World, que ele já começou a escrever.

Ainda não foi este que arrebatou as 5 estrelas na classificação do Goodreads, mas leva umas confortáveis 4 estrelas, sem hesitações.

Recomendo, embora seja um livro grande, em termos de dimensões, é um livro que se lê bastante bem sem grande espaço para nos aborrecermos. Recomendo também a mini-série, embora não seja completamente fiel ao livro vale a pena ver.

Boas leituras!

novembro 29, 2012

Quase quase...


...a terminar o "calhamaço" de Ken Follett. :)

O Quero Um Livro está vivo, portanto. 

outubro 29, 2012

A Tormenta de Espadas - George R. R. Martin

Título original: A Storm of Swords (part 1)
Ano da edição original: 2000
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência

"Os Sete Reinos estremecem quando os terríveis selvagens do lado de lá da Muralha se aproximam, numa maré interminável de homens, gigantes e terríveis bestas. Jon Snow, o Bastardo de Winterfell, encontra-se entre eles, debatendo-se com a sua consciência e o papel que é forçado a desempenhar.
Todo o território continua a ferro e fogo. Robb Stark, o Jovem Lobo, vence todas as batalhas, mas será ele capaz de vencer as mais subtis, que não se travam pela espada? A sua irmã Arya continua em fuga e procura chegar a Correrrio, mas mesmo alguém tão desembaraçado como ela terá dificuldade em ultrapassar os obstáculos que se aproximam.
Na corte de Joffrey, em Porto Real, Tyrion luta pela vida, depois de ter sido gravemente ferido na Batalha da Água Negra, e Sansa, livre do compromisso como o rapaz cruel que ocupa o Trono de Ferro, tem de lidar com as consequências de ser segunda na linha de sucessão de Winterfell, uma vez que Bran e Rickon se julgam mortos.
No Leste, Daenerys Targaryen navega na direcção das terras da sua infância, mas antes terá de aportar às cidades dos esclavagistas, que despreza. Mas a menina indefesa transformou-se numa mulher poderosa. Quem sabe quanto tempo falta para se transformar numa conquistadora impiedosa?"

*Pode conter spoilers*

Esta primeira parte do terceiro volume (5º da Saída de Emergência) das Crónicas de Gelo e Fogo, é muito boa! Todas as personagens importantes parecem cada vez mais perdidas, presas a situações para as quais não encontram saída. E começa-se a adivinhar um rumo que me parece promissor, com Daenerys Targaryen, a Mãe dos Dragões, a ganhar importância e com os Selvagens a trazerem um novo ponto de vista sobre os Sete Reinos e sobre as infindáveis batalhas que os assolam. É impressionante a capacidade de George R. R. Martin para conseguir renovar a história e mantê-la empolgante.

Resumindo, neste 5º volume, temos Porto Real a gozar a estrondosa vitória na Batalha da Água Negra que praticamente dizimou o exército de Stannis Baratheon, que recuou para lamber as feridas e congeminar o próximo ataque com a ajuda de Melisandre, a Mulher de Vermelho. Esta é uma das personagens que nos volumes anteriores me pareceu detestável e extremamente perigosa mas que, neste volume, depois de algumas explicações sobre o que a move, embora continue a ser muito dúbia, acabei a simpatizar um pouco com ela. ;) 
Tyrion a recuperar de uma tentativa de assassinato que o deixou desfigurado e às portas da morte, tenta perceber qual será o seu papel agora que o pai, Tywin assumiu o cargo de Mão do Rei. É um Tyrion meio perdido e sem grande capacidade de manter a sua inusitada inteligência ao serviço do reino (seja qual for o rei que acabará por favorecer) que encontramos neste volume. Ele acaba mesmo por ser o protagonista, forçado, de um dos acontecimentos que mais me surpreendeu... O que irá resultar daquela união tão improvável? ;)

Arya continua a sua interminável viagem de regresso a Correrrio, na companhia de Gendry e Tarte-Quente. Mas é mais do que óbvio que nem tudo vai correr como ela esperava. Continua a ser uma miúda surpreendente e muito divertida. Por muito forte que seja, só queremos que volte para junto da mãe, antes que seja tarde demais. É de partir o coração o desgosto de Catelyn que acredita ter perdido Bran e Rickon, que não sabe se Arya está viva ou morta, que tem Robb a arriscar a vida nos campos de batalha e Sansa refém dos Lannister. Queremos muito que descubra de uma vez por todas que, com Arya não tem de se preocupar e que os seus filhos mais novos estão vivos... É tamanho o desespero que surpreende todos quando liberta Jaime Lannister das masmorras de Correrrio, para que Brienne o leve até Porto Real como moeda de troca pelas filhas que os Lannister supostamente mantêm cativas.
Este volume mostra-nos um Jaime Lannister que continua a ser detestável mas, ao mesmo tempos mais digno de pena. Compreendemos melhor algumas das suas atitudes e personalidade. É provável que venha a ser uma peça muito importante no desenrolar dos acontecimentos e pode ser que faça pender a balança para o lado menos provável.

É por causa de Arya que vamos conhecer um grupo de foras-da-lei, uma espécie de exército rebelde, que luta, não por nenhum dos candidatos ao Trono de Ferro, mas pela união do reino, pelo povo a morrer de fome e violentado, e por um reino mais justo. E é esta ideia de uma alternativa à lei estabelecida, da sucessão de reis e de batalhas pelo poder, que parece insinuar-se em mais do que uma das vertentes da história, que torna este livro intrigante e abre uma série de possibilidades para o futuro da história.

Para lá da Muralha, a Patrulha da Noite enfrenta um dos seus maiores desafios. Irão conseguir travar a marcha dos Selvagens até à Muralha de Gelo? Serão os Selvagens a verdadeira ameaça? As respostas que obtêm não terão tido um custo demasiado elevado?
Jon Snow, infiltrado entre os Selvagens, dá-nos a conhecer um lado que nos outros livros sempre foi tocado muito ao de leve. O Povo Livre pode até ser selvagem e violento, mas tem uma forma de pensar que faz Snow questionar a sua fidelidade para com a Patrulha da Noite e os Sete Reinos.
Gostei particularmente dos capítulos de Jon Snow por me permitir conhecer a perspectiva dos Selvagens, os que ficaram do outro da Muralha de Gelo, quando foram instituídos os Sete Reinos.

Por último, a história de Daenerys começa finalmente a desenvolver-se. A Mãe dos Dragões inicia o seu tão ansiado regresso a Westeros para reconquistar um trono que acredita ser seu por direito. Daenerys não é uma mulher normal e só George R. R. Martin sabe (ou não) o que o futuro lhe reserva. Adivinha-se um caminho difícil na sua ascensão ao Trono de Ferro, que acredito vai ser seu. Conto que a sua luta seja épica e gloriosa! Gosto dela... ;)

Enfim, acho que até agora este foi o volume que mais gostei de ler. Só não vou pegar no 6º volume porque, para além de ter de o reservar na biblioteca, queria mesmo retomar a leitura do Pillars of the Earth que tive de interromper. Uma grande obra de cada vez... É melhor não dispersar mais a minha, cada vez menor capacidade de concentração! :)

Recomendo este e toda a saga até ao momento! Boas leituras!


Excerto:
"Mas se parasse, morria. Sabia-o. Todos o sabiam, os poucos que restavam. Tinham sido cinquenta quando fugiram do Punho, talvez mais, mas alguns haviam.se perdido na neve, alguns dos feridos tinham sangrado até à morte... e por vezes Sam ouvia gritos atrás de si, vindos da retaguarda, e uma vez ouvira um berro horrível. Quando ouvira aquilo, correra, vinte ou trinta metros, tanto e tão depressa como fora capaz, levantando neve com os pés meio congelados. Ainda estaria a correr se as suas pernas fossem mais fortes. Eles estão atrás de nós, eles ainda estão atrás de nós, estão a levar-nos um por um."

outubro 21, 2012

Hotel Memória - João Tordo


Título original: Hotel Memória
Ano da edição original: 2007
Autor: João Tordo
Editora: Quidnovi

"Onde termina a culpa e começa a expiação? Em Nova Iorque, um estudante apaixona-se por uma rapariga enigmática com quem vive uma intensa relação. Mas a morte desta, inesperada e violenta, enche o protagonista de culpa e remorso, lançando-o numa espiral descendente até o transformar num vagabundo, sem dinheiro e sem posses. Prisioneiro do Memory Hotel, um pardieiro na baixa de Manhattan que parece destinado a albergar criaturas perdidas como ele próprio, é contratado por Samuel, um milionário excêntrico, para procurar um fadista português emigrado para os Estados Unidos quarenta anos antes.
Tendo Nova Iorque como pano de fundo, dos anos sessenta até ao presente, e criando a figura inesquecível de Daniel Silva, o fadista que conquista Manhattan com o seu talento, Hotel Memória é, ao mesmo tempo um romance de mistério e uma aventura nos meandros da condição humana - uma história simultaneamente intrigante e comovente, que lida com os fantasmas da memória, da culpa e da redenção."

A leitura deste livro do João Tordo, autor que tanto gozo me tem dado descobrir, apanhou-me numa altura mais atribulada e por isso de menor disponibilidade mental para a leitura em geral. Senti que o li um pouco distraída da história que me estava a ser contada e não me consegui "entregar" à leitura como acho que o livro merecia. Com isto quero dizer que embora tenha gostado do livro fiquei com uma ideia demasiado vaga do mesmo e fui passando pelas páginas sem permitir que estas me marcassem de alguma forma. Este merecia uma leitura diferente e voltará a ser lido, estou certa disso.

Feita a ressalva, passemos à história. 
O protagonista da história é, mais uma vez, uma personagem sem nome. Neste livro o protagonista é um estudante, oriundo de uma pequena cidade europeia que deixou, rumo aos Estados Unidos, mais precisamente ruma à Big Apple, para prosseguir os estudos em Literatura. Este homem, surge-nos, desde logo, como alguém inseguro, tímido, com uma personalidade pouco vincada, que parece ter encontrado nos livros e na bolsa de estudo que conseguiu, uma forma de escapar a uma família aparentemente sufocante, que raramente é mencionada. Mesmo nos seus piores momentos a possibilidade de recorrer à família nunca é equacionada.
Tudo parece correr bem e, embora não seja a pessoa mais sociável do mundo, encontra em Manuel e em Kim, a rapariga por quem se apaixona, toda a companhia de que precisa.
A imagem que é passada dele é a de uma pessoa um pouco vazia de ideias próprias, sem grandes vivências próprias para além das que encontra nos livros. Kim, por outro lado surge-nos como uma miúda cheia de mistérios, de ar distante, que parece já ter percorrido um grande caminho para estar onde está. O nosso protagonista apaixona-se por ela logo no primeiro momento em que se cruzam e é uma paixão breve mas intensa, que acabam por viver.
Quando Kim morre de forma inesperada e violenta, a vida deste homem muda, literalmente da noite para o dia, iniciando-se aí uma espiral crescente de loucura, alheamento e solidão. Destroçado pela perda da mulher que amava, corroído pela culpa que não consegue evitar sentir pela sua morte, soterrado em memórias do que viveram juntos e do que esperava viver ainda com ela, torna-se um homem muito só, tristemente só... A solidão é, aliás, um sentimento ou uma condição, da qual sofrem muitas das personagens criadas por João Tordo.
Sem força anímica para dar uma volta à sua vida depois de Kim morrer, vira-se para a bebida e quando é obrigado a sair da residência universitária, por ter perdido a bolsa, chega a dormir na rua. Vai trabalhar em locais e para pessoas de índole duvidosa e acaba a viver no Hotel Memória, o único abrigo que consegue pagar. É no Hotel Memória que muitos dos acontecimentos têm origem e é para lá que tudo parecer tender. É lá que conhece Samuel e ouve falar pela primeira vez do fadista português Daniel Silva, um mito da cultura nova iorquina que, reza a lenda era dono de uma voz prodigiosa mas que nunca chegou aos ouvidos do grande público porque a única cópia da sua única gravação em estúdio desapareceu sem deixar rastro, tal como o seu autor.
Samuel é um multimilionário, mecenas da cultura, e procura o protagonista para que este o ajude a encontrar Daniel Silva. O que o levou a ele, quem é Daniel Silva e qual e o interesse de Samuel no mesmo, são apenas algumas das questões que vão sendo respondidas ao longo do livro e que ajudam o nosso protagonista a sair do estado de apatia em que se encontrava. 

É um livro muito bem escrito, com uma aura de mistério que João Tordo consegue transmitir muito bem. A história, à semelhança dos outros dois livros que li dele, é um pouco absurda, no sentido de não ser, de todo, uma história linear e que respeite uma estrutura narrativa típica dos livros de mistério ou mesmo dos policiais. As personagens são estranhas, inadaptadas e cheias de conflitos interiores. O protagonista vai sofrer, e muito até conseguir encontrar a paz interior necessária para prosseguir com a sua vida. Esta não é uma personagem particularmente simpática, é fraco, como se costuma dizer "não tem espinha dorsal", mas acaba por crescer, ao longo de livro, tornando-se mais merecedor da nossa empatia. Aliás, com excepção de Kim e Manuel, com quem foi fácil criar alguma empatia, nenhuma das outras personagens são simpáticas. Não quero dizer com isto que são más personagens, ou mal concebidas, antes pelo contrário, são antes seres humanos cheios de vícios, egoístas, que se movimentam num mundo cheio de tudo e ao mesmo tempo cheio de nada. 

É um livro relativamente pequeno, em número de páginas, mas é um que exige uma leitura mais cuidada, mais atenta para poder saborear e apreender tudo aquilo que está para além das palavras.

Gostei e recomendo!

Boas leituras!

Excertos:
"Acordado, concluía que a solidão não era um estado de espírito, mas a ausência dele - agora que não sentia nada, que não estava em estado nenhum, nem aqui nem ali, mas num mundo entre dois mundos, estava mais sozinho do que alguma vez estivera. Não era eu, nem era outrem; era um casulo disposto a ser preenchido, um espírito vazio ansiando por uma chegada."

"Deitado sobre a cama, esperando que Manuel regressasse, começava a entender o poder fascinante da memória sobre a minha vida - sobre qualquer vida. Tudo era memória. O presente era a memória de si próprio, e era possível existir apenas se pudéssemos conservar as recordações de momentos que nunca se repetiriam. E, no entanto, paradoxalmente, a memória era aquilo que de mais falível um homem possuía: nomes esquecidos ou trocados, caras que se confundiam com outras, lugares onde julgávamos já ter estado, um lápis desaparecido para sempre, os constantes deslizes que tornavam a realidade o lugar de um romance, de uma história, encantadora pela sua falibilidade, e não pela sua certeza."