fevereiro 10, 2013

O Cemitério de Praga - Umberto Eco

Título original: Il Cimitero di Praga
Ano da edição original: 2011
Autor: Umberto Eco
Tradução: Jorge Vaz de Carvalho
Editora: Gradiva

"Durante o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres num esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades de Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, a disseminação gradual daquela falsificação conhecida como «Os Protocolos dos Sábios de Sião» (que inspirará a Hitler os campos de extermínio), jesuítas que tramam contra maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam padres com as suas próprias tripas, um Garibaldi artrítico, com as pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemontenses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem os ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que, entre vapores de absinto, planeiam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras. Óptimo material para um romance-folhetim de estilo oitocentista, para mais, ilustrado como os feuilletons daquela época. Há aqui com que contentar o pior dos leitores. Salvo um pormenor. Excepto o protagonista, todos os outros personagens deste romance existiram realmente e fizeram aquilo que fazem. E até o protagonista faz coisas que foram verdadeiramente feitas, salvo que faz muitas que provavelmente tiveram autores diferentes. Mas quando alguém se movimenta entre serviços secretos, agentes duplos, oficiais traidores e eclesiásticos pecadores, tudo pode acontecer. Até o único personagem inventado desta história ser o mais verdadeiro de todos, e se assemelhar muitíssimo a outros que estão ainda entre nós."

Julgo que ainda não tinha comentado aqui nenhum dos livros que li do Umberto Eco, acho que os li todos antes da criação do Quero Um Livro. Ficam, no entanto a saber que Umberto Eco é um dos meus autores preferidos e só não o leio mais porque... bem porque os livros dele são tão cheios de cultura, de história e de conhecimento que devem ser "tomados" em doses controladas! ;) Com isto não quero dizer que os seus livros são pretensiosos e intelectuais, nada disso. Não conheço nenhum escritor que faça o que Umberto Eco faz com tanta eficácia, a linha que separa o que realmente aconteceu daquilo que é puramente ficcionado é tão ténue mas tão magistralmente mantida que as lições de história transformam-se em puro prazer e alimento para o cérebro. :)

Feito o elogio a quem de direito, passemos ao que realmente interessa, o livro, O Cemitério de Praga.
Começo por dizer que não é um livro fácil de seguir, acho que nunca senti tanta necessidade de tomar notas, de escrever uns lembretes, para conseguir manter todas as personagens e o seu papel na história, bem vivas na memória. Tem imensas referências literárias e históricas e, como é dito na sinopse e no fim do livro, todas as personagens são reais, excepto Simone Simonini o nosso protagonista rabugento, o que torna o livro ainda mais envolvente. 
Como desconhecia a grande maioria dos nomes referidos e sei muito pouco sobre a história europeia do século XIX, para mim, o livro foi sempre encarado como um romance, embora algumas das referências e personagens não me fossem totalmente desconhecidas, não sou assim tão ignorante. :p No fim senti-me na obrigação de pesquisar todos aqueles nomes e redescobrir a história que tinha acabado de ler.

E de que história estamos a falar? Os Protocolos dos Sábios de Sião são uma obra, publicada nos finais do século XIX, por Serge Nilus, na Rússia onde, supostamente é denunciada uma mega conspiração dos Judeus para acabarem com os cristãos e tomarem conta do mundo. Este livro, foi durante uns anos tido como autêntico, tendo sido revelada a sua verdadeira natureza uns anos antes de Hitler começar a sua longa caminhada na conquista do mundo, facto que não o impediu de o usar como justificação para o horror que levou a cabo nos anos que se seguiram.
O Cemitério de Praga tem como fio condutor este livro, desde a sua invenção até à sua publicação. Paralelamente vamos acompanhando, na primeira fila, acontecimentos importantes na história da Europa.
É Simone Simonini quem nos empresta os olhos para assistir a tudo isto, ou não fosse ele o nosso protagonista, um italiano que se muda para Paris e que ao longo de toda a história colabora com os serviços secretos de Itália, França, Rússia e Alemanha. A sua espantosa capacidade para falsificar todo o tipo de documentos, associada a uma prodigiosa imaginação para conspirar, chamou naturalmente a atenção destas entidades.

Em Itália, terra natal de Simonini, este vive de perto os conflitos que levaram à unificação de Itália, privando com Giuseppe Garibaldi e Giuseppe Mazzini, membros da Carbonária e acérrimos defensores de uma República Italiana com todos os seus territórios unificados. É neste período conturbado que Simonini inicia os seus trabalhos para Bianco, um agente dos serviços secretos italianos e que introduz o nosso protagonista no fantástico mundo dos espiões. E é durante estes anos que surge a suposta acta de um encontro secreto num Cemitério em Praga, onde um grupo de judeus, de forma conspiratória, planeiam tomar as rédeas do mundo. Este encontro nunca existiu (que o saibamos) e o autor da magnífica falsificação só podia ser Simonini. Uns anos mais tarde quando, a criatividade, por vezes demasiado independente, começa a incomodar os italianos, e este é enviado para França, onde inicia uma estreita colaboração com Lagrange, um importante membro dos serviços secretos franceses. França torna-se a sua pátria e é com os serviços secretos franceses que ganha a sua fama de espião e faz a sua fortuna. França é caracterizada, por Umberto Eco, como um país que não se envolvia directamente nos conflitos e nas tensões que estalavam junto às suas fronteiras. Era o país da igualdade e fraternidade, no entanto os serviços secretos franceses trabalhavam que se fartavam para influenciar e garantir alguns acontecimentos políticos. O único desgosto de Simonini em França era o facto de estes não estarem interessados em diminuir a influência dos judeus, são demasiado importantes para que possam ser tocados. Depressa Simonini descobre que, fora das fronteiras francesas e sem o apoio oficial da equipa de Lagrange, nada o impede de prosseguir com a sua missão, uma vez que os russos e, mais tarde os alemães, começam a sentir-se incomodados com os hebreus. Durante todo  livro, a sua história sobre o Cemitério de Praga é reinventada e transforma-se naquilo que Simonini chamava carinhosamente os seus Protocolos do Cemitério de Praga, que para o fim deixam de ser seus e são renomeados como Os Protocolos dos Sábios de Sião.

É impossível referir tudo aquilo de que fala o livro, porque paralelamente a tudo isto, conhecemos de perto uma personagem infame, Léo Taxil o rosto de um dos maiores embustes da época, por ter escrito e publicado como verdadeiros, os relatos de Diana Vaughan, uma satanista que participava em reuniões maçónicas. Com o pretexto de descredibilizar os maçons, algo que interessava muito à igreja católica, Taxil, tendo como mentor Simonini, leva a cabo uma das farsas mais bem conseguidas da época.
Simonini cruza-se ainda com Drumont, Dumas e outras figuras mais ou menos conhecidas e mais ou menos importantes para a história.

A forma como a história nos é contada é muito original, pois chega-nos em forma de diário, escrito a duas mãos. A grande maioria é escrita por um Simonini confuso que parece ter apagado da memória alguns acontecimentos importantes. É neste estado de confusão mental que Simonini decide escrever, com o objectivo de recuperar pedaços da sua vida que desapareceram. No meio dos escritos de Simonini, surge de quando em vez um intruso, Dalla Picolla que, funciona um pouco como a voz da consciência de Simonini. Se não fossem as intrusões de Dalla Picolla, talvez nunca conhecessemos o lado mais negro do nosso protagonista.
Mas quem é Dalla Picolla? Dalla Picolla e Simonini são vizinhos mas nenhum dos dois se recorda de alguma vez se terem cruzado, no entanto partilham alguns conhecimentos e segredos... Como é que isto é possível? É a pergunta que nos acompanha todo o livro.

Enfim, não é um livro muito fácil de ler, mas que vale cada segundo que se gasta com ele. Vale pelo que acabamos por aprender com ele, vale pela lição de história e por nos recordar que, como sociedade temos de facto uma memória muito curta e extremamente selectiva. Somos perigosamente tendenciosos relativamente ao que, e em quem escolhemos acreditar e seguir. Só assim se percebe que textos republicados em diversas alturas, como sendo originais e actuais, nunca tenham sido postos em causa. E não o foram porque se limitavam a expressar aquilo que, secretamente ou não, a maioria pensava.
É um livro que vale a pena pelo que conta mas também porque Umberto Eco é divertido e os seus protagonistas tendem a ser inesquecíveis! O Baudolino, depois de estes anos todos, ainda me desenha um sorriso nos lábios. :)

Gostei muito e recomendo, ressalvando que pessoas religiosamente menos tolerantes podem sentir-se de alguma forma, atacadas.

Boas leituras!

Excertos:
"- Dás-te conta, rapaz - dizia -, de que as leis daquele Siccardi aboliram os denominados privilégios do clero? Porquê abolir  o direito de asilo nos lugares sagrados? Porventura uma igreja tem menos direitos do que uma gendarmaria? Porquê abolir o tribunal eclesiástico para religiosos acusados de delitos comuns? A Igreja não tem porventura direito de julgar os seus? Porquê abolir a censura religiosa preventiva sobre as publicações? Porventura agora cada um pode dizer aquilo que lhe agrada. sem moderação e sem respeito pela fé e pela moral? (...) E agora chegámos à supressão das ordens mendicantes e contemplativas. quase seis mil religiosos. O Estado confisca-lhes os bens e diz que servirão para pagamento das côngruas aos párocos, mas, se juntares todos o bens destas ordens, atinges uma quantia que é dez... que digo eu!... cem vezes mais do que todas as côngruas do reino, e o Governo gastará esse dinheiro na escola pública, onde se ensinará aquilo que não serve aos humildes ou há-de servir-lhes para calcetar os guetos! E tudo sob a divisa do movimento «Igreja livre em Estado livre», lá onde quem é verdadeiramente livre de prevaricar é o Estado. A verdadeira liberdade é o direito do homem de seguir a lei de Deus, de merecer o paraíso ou o inferno. Ora, em vez disso, entende-se por liberdade a possibilidade de escolher as crenças e as opiniões que mais te agradam, em que tanto vale uma como outra; é igual para o Estado que tu sejas maçom, cristão, judeu ou sequaz do Grão-Turco. É desse modo que nos tornamos indiferentes à Verdade."

"Alguém disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais envolve-se habitualmente numa bandeira, e os bastardos remetem-se sempre para a pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Ora, o sentido da identidade funda-se no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É necessário cultivar o ódio como paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. Faz falta sempre alguém a quem odiar para nos sentirmos justificados na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. É o amor que é uma situação anómala. Por isso, Cristo foi morto: falava contra natura. Não se ama alguém para toda a vida; dessa esperança impossível nascem o adultério, o matricídio, a traição do amigo... Por contrário, pode-se odiar alguém durante toda a vida. Desde que esteja sempre lá, para reacender o nosso ódio. O ódio aquece o coração."

janeiro 13, 2013

A Maldição (Duma Key) - Stephen King

Título original: Duma Key
Ano da edição original: 2008
Autor: Stephen King
Tradução: Victor Antunes
Editora: Bertrand Editora

"Um terrível acidente num estaleiro faz com que Edgar Freemantle perca o braço direito e fique profundamente afectado, quer na memória, quer no espírito. Quando inicia a penosa convalescença, o sentimento que o domina é a raiva. O casamento, do qual tem duas filhas maravilhosas, chega bruscamente ao fim. Pensa no suicídio. O doutor Kamen, amigo e psicólogo, sugere uma "cura geográfica", uma vida nova num lugar diferente, longe do negócio da construção imobiliária em que Edgar acabou por se impor a partir do nada. 
Edgar vai viver para uma casa alugada em Duma Key, uma ilha meio selvagem e de uma beleza fascinante, ao largo da costa da Florida. O ocaso sobre o Golfo do México e o murmúrio das conchas fazem-no vibrar, e Edgar sente a necessidade de desenhar. Uma visita de Ilse, a filha que adora, desencadeia um movimento de ruptura com a solidão. Trava conhecimento com Wireman, um homem que, tal como ele, também sofreu muito e se mostra relutante a expor as suas feridas, e com Elizabeth Eastlake, uma senhora idosa e doente cujas origens se encontram indissoluvelmente associadas a Duma Key. Edgar pinta, por vezes arrebatadamente, e o talento que revela tem tanto de fascinante como de perigoso. Alguns dos seus quadros estão imbuídos de um poder impossível de controlar. Quando o passado de Elizabeth vem a lume e se revelam os fantasmas da sua infância, o seu poder de destruição é devastador."

Depois de um livro tão pesado como o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe, escolhi propositadamente um livro que tinha a certeza ser menos realista. Stephen King pareceu-me uma boa opção! :)

Duma Key é uma ilha na costa do Florida, praticamente desabitada e coberta por uma vegetação assustadoramente densa. E para aqui que Edgar Freemantle decide mudar-se, para recuperar de uma acidente traumático que lhe roubou o braço e quase a vida.
Edgar é casado, tem duas filhas e era um empresário de sucesso no ramo da construção, tudo conquistado com muita esforço e determinação. Quando sobrevive miraculosamente à queda de um grua que praticamente o esmagou, Edgar passa por uma recuperação muito complicada, não apenas a nível físico, mas também a nível psicológico com constantes perdas de memória e ataques de fúria direccionados para aqueles que mais próximos estão dele, principalmente a mulher, Pam. Como resultado, o casamento acaba por não resistir, porque Pam vive apavorada com a raiva e a violência que Edgar parece transportar consigo após o acidente.

A mudança geográfica é uma sugestão do amigo e psicólogo Kamen que lhe sugere começar uma nova vida e dedicar-se àquilo de sempre gostou mas nunca teve oportunidade de o fazer. Para Edgar era a pintura, paixão antiga que nunca conseguiu desenvolver. E é assim que Edgar vai parar a Duma Key a ilha misteriosa, cuja única habitante permanente é Elizabeth Eastlake e o seu ajudante Wireman.
Em Duma Key, Edgar encontra o cenário perfeito para extravasar todo o seu talento adormecido. Passa horas a pintar o horizonte que vê da janela de Big Pink, a casa que alugou. No entanto os seus quadros parecem resultar de algo mais do que apenas o inegável talento de Edgar. Os seu quadros são perturbadores e parecem ter um efeito sobre o mundo real que Edgar nunca procurou. Resistir à tentação de utilizar tamanho poder pode ser difícil... Que consequências trará? Edgar não poderia imaginar tamanha tragédia, a única que o poderia ter alertado era Elizabeth mas a lutar contra o Alzheimer, a simpática senhora pouco pôde fazer para travar os acontecimentos que se aproximavam.

E é este o ponto de partida para mais um livro à Stephen King, repleto de criaturas mais ou menos vivas, de poderes antigos e inexplicáveis e de personagens que preferiam esquecer coisas do seu passado.

Não é definitivamente o melhor livro de Stephen King, achei-o até pouco inspirado e um pouco repetitivo. Principalmente achei que, mesmo dentro do género, as personagens e acontecimentos eram pouco credíveis. No entanto, para mim ler Stephen King é, salvo raríssimas excepções, sempre um prazer e Duma Key não foi uma excpeção.Vai ficar-me na memória muito tempo? Não. Mas nem todos os livros podem estar nessa categoria... Stephen King entretém sempre e, muitas vezes não se limita a entreter, pelo que, embora não sendo um livro memorável é um livro que se lê bem e que não hesito em recomendar. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Soltei um grito, tanto de surpresa como de dor, e ao coçar freneticamente o que não existia, caí no chão, atirando abaixo o comando da televisão e a minha sanduíche, que rolou pela alcatifa. O que não existia, ou o que não conseguia alcançar? Ouvi-me gritar para mim próprio, Pára com isso, pára. Mas só havia uma maneira de parar. Pus-me de joelhos e gatinhei até à escada, registei o estalido do comando da televisão a ser esmagado por um joelho, não sem antes ter mudado de canal. Para a CMT, Country Music Television. Alan Jacson cantava Crime na Ribalta. Ao subir a escada, por duas vezes procurei agarrar o corrimão com a mão que não tinha, mas tive a sensação da palma suada a atravessar a madeira polida como fumo."

dezembro 31, 2012

[Mini-série] Great Expectations - Charles Dickens

Ando a descobrir as potencialidades da Irís, a box da Zon (passe a publicidade) com a capacidade de rever toda a programação que deu nos últimos 7 dias e tenho tido a oportunidade de ver coisas que de outra forma talvez acabasse por não ver.

É o caso de Great Expectations, uma mini-série de 3 episódios que passou num qualquer canal da grelha (não me recordo de qual), baseada no livro homónimo de Charles Dickens. 
Nunca li o livro, embora faça parte da lista de aquisições desde sempre, e achei que esta seria a oportunidade perfeita para conhecer a história.
Não faço ideia se é fiel ou não à história de Charles Dickens, o que sei é que gostei muito da série. Acho que os actores foram bem escolhidos, a imagem e caracterização são extraordinárias e gostei muito da história, que vou querer ler na mesma. :)

Vejam que vale a pena e, conhecendo a escrita de Charles Dickens, leiam que deve valer a pena.

Fica o trailer para poderem "espreitar":

Boas leituras!

dezembro 28, 2012

o remorso de baltazar serapião - valter hugo mãe

Título original: o remorso de baltazar serapião
Ano da edição original: 2006
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara Portugal

"A aventura de baltazar serapião em reboliço com os seus amores pela formosa Ermesinda, moça com quem vem a casar e por quem se atormenta de ciúmes. Este é um romance de família e de viagem, em que o estigma de se ter um nome parece explicar à sociedade quem se é e que intenções se tem.
Um romance que é também uma aventura da linguagem, friccionando um português antigo que, não o sendo de facto, cria a ilusão de estarmos ao tempo de uma idade média tardia, feita de alçapões morais e de uma brutalidade primária, sobretudo cometida contra as mulheres.
Este livro ostenta a violência a que historicamente a mulher foi sendo sujeita por uma mentalidade machista dominante. Uma violência ainda sem redenção."

Depois de ter gostado tanto do a máquina de fazer espanhóis, as expectativas para o próximo livro a ler do valter hugo mãe eram elevadas. o remorso de baltazar serapião é muito diferente e por isso, as comparações naturais com o livro anterior desapareceram na primeira página, o que foi bom. :) Gosto de escritores que não ficam presos a uma única forma de escrever, que parecem conseguir reinventar-se a cada livro que escrevem, conseguindo manter a identidade.

o remorso de baltazar serapião - escrever sem maiúsculas é, ao mesmo tempo estranhamente libertador e anti-natural - é um livro, à falta de melhor palavra que o adjective, perturbador. 
Numa espécie de caricatura, exagerando as personagens, tornando-as menos credíveis, valter hugo mãe consegue, mais uma vez, entrar numa realidade que, à partida não lhe é familiar, e descreve-la como se fosse. Neste, pelos olhos de baltazar serapião, entra na vida sofrida e deprimente de uma mulher, da idade média. baltazar serapião casa por amor com Ermesinda, a rapariga mais bonita e recatada da aldeia. Ermesinda parece gostar dele e todos têm esperança que baltazar não siga as pisadas do pai, que mutilou a mãe, para lhe ensinar a ser uma melhor esposa e mãe.Por ignorância e machismo (serão sinónimos?) o pai de baltazar serapião deixou a mulher para sempre coxa, com os pés irremediavelmente torcidos e retorcidos. Que seria se não tivesse, também ele casado por amor... Provavelmente não teria posto tanto afinco na "educação" da mulher. Porque as mulheres são malignas, a sua voz é perigosa e os homens não devem dar-lhes ouvidos. As mulheres são burras, menos que nada, com a cabeça cheia de ideias estranhas e perigosas, que servem apenas para satisfazer todos os desejos dos homens. A mulher ideal é submissa e calada.
É com pena que percebemos que Ermesinda, a rapariga mais bonita e recatada da aldeia não terá sorte diferente quando se casa com baltazar serapião. Este louco de ciúmes, que até podem ter razão de ser, nunca o sabemos ao certo, vai aos poucos mutilando fisica e psicologicamente a rapariga.

Toda a família serapião é estranha, com comportamentos bestiais - adj bestial [bəʃti'al] próprio de animal - ou não fossem eles conhecidos por sargas, porque tratavam a velha vaca como se fosse da família. Alguns acreditavam inclusive que era a vaca a progenitora das crias serapião e não a desgraçada com os pés tortos. E, também neste caso, nunca sabemos com certeza...

Não é um livro fácil de ler, é muitas vezes revoltante e apenas o tom mais caricatural permite aliviar um pouco o que lá se conta. Por ser tão próximo à realidade de muitas mulheres, ainda nos dias de hoje, torna-se ainda mais desconfortável. Os homens do livro são quase todos uns animais, e as mulheres são quase todas pouco mais que bichinhos assustados. Dá vontade de gritar de estupefacção!
Todas as mortes na família serapião são trágicas. O que leva à morte da mãe é, indescritívelmente repugnante e chocante.
A relação de dependência que existe entre baltazar e Ermesinda é revoltante e incómoda. O comportamento de cachorrinho que ela demonstra é difícil de ler e a inexistência de remorsos em baltazar é ofensiva.
O que acaba por ser mais incómodo é a inevitabilidade dos comportamentos de cada uma das personagens. baltazar aparece-nos sempre como alguém simpático, como alguém de quem até poderíamos vir a gostar, cujos comportamentos surgem como inevitáveis. É inato ao homem e por isso impossível de condenar, como doença incurável com a qual todos teríamos de aprender a viver.
valter hugo mãe a fazer bem o papel de advogado do diabo. :)

É impossível dizer que gostei deste livro, como posso gostar? É demasiado gráfico, demasiado chocante e demasiado certeiro. Só por isso não posso dizer que gostei mas a verdade é que gostei, como posso não gostar? :)

Gostei e só não recomendo sem reservas porque é preciso ter algum estômago e ter a capacidade de nos distanciar-mos.

Boas leituras!

Excertos:
"a minha mãe deixava de falar comigo e com o aldegundes, porque lhe saíam coisas de mulher pela boca fora, e barafustar, como fazia, era encher os ouvidos dos homens com ignorâncias perigosas. uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros."

"a minha mãe roubou-a dos nossos olhos, furiosa com o destino, e todos soubemos que se cobriram uma à outra de segredos, semelhantes e porcas de corpo, condenadas à inferioridade, à fraqueza. um corpo que as obrigava, sem falta, a uma maleita reiterada, como um inimigo habitando dentro delas, era o pior que se podia esperar, um empecilho de toda a perfeição, e tão belas se deixavam quanto doloridas e acossadas. por isso eram instáveis, temperamentais, aflitas de coisas secretas e imaginárias, a prepararem vidas só delas sem sentido à lógica. tinham artefactos e maneiras de parecer gente sem quererem perder tudo o que deviam perder. eram, como sabíamos tão bem, perigosas."

dezembro 25, 2012

Feliz Natal!!!!!

Embora ligeiramente atrasado, não podia deixar de passar por aqui e desejar-vos um Feliz Natal!

Espero que ainda não estejam enjoados dos doces de Natal (eu não estou) e que tenha havido espaço para muitos abraços e risadas!

Que o Pai Natal, tenha o merecido descanso numa praia paradisíaca depois de ter carregado com todos os vossos presentes. Espero que todos os livros que pedimos no sapatinho não tenham dado cabo das costas do simpático velhinho de barbas!

Boas leituras!!!!!!

dezembro 12, 2012

A Montanha da Água Lilás - Pepetela

Título original: A Montanha da Água Lilás
Ano da edição original: 2000
Autor: Pepetela
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"«O avô Bento, em noites de cacimbo à volta da fogueira, nos contou, fumando o seu cachimbo que ele próprio esculpiu em pau especial. Dizia a estória se passou aqui mesmo, nas serras ao lado, mas pode ser que fosse trazida de qualquer parte de África. Até mesmo do Oriente, onde dizem também há água lilás. Se virmos bem, em muitos lados pode ter uma montanha semelhante. Eu só escrevi aquilo que o avô nos contou, não inventei nada.»"

Que livro delicioso... Pepetela não pára de me surpreender e é cada vez mais um daqueles escritores que acreditamos não consegue escrever um livro mau. :)
A Montanha da Água Lilás é uma pequena fábula, um livro de "faz de de conta" com uma história que surpreende por ser tão certeira, tão séria e ao mesmo tempo tão divertida.

No tempo em que os animais falavam existia uma montanha onde habitavam os lupis. Os lupis viviam separados dos outros animais da planície e alimentavam-se dos frutos que colhiam das muitas árvores da montanha. Eram umas criaturas pequenas e reconchudas, com o corpo coberto de pêlo cor de laranja. Uma espécie de macacos, com características que nos levam a pensar neles como os antepassados longínquos dos Homens.
Os lupis distinguiam-se uns dos outros pela inteligência e pelo tamanho. Os mais inteligentes eram os cambutinhas, os mais pequenos dos lupis, era deles que partiam todas as ideias. Os mais trabalhadores eram os Lupões, maiores e menos dados às coisas do pensamento, eram fisicamente mais capazes do que os cambutinhas.
Os lupis viviam felizes, comiam a muita fruta da montanha e viviam pacificamente, sem motivos para discutir. Por um acaso da evolução, algumas das crias lupis começam a crescer mais do que os seus progenitores. Estes novos lupis para além de serem fisicamente maiores eram também muito preguiçosos e violentos. Eram completamente incapazes de sobreviver sozinhos, porque não conseguiam subir às árvores para colher fruta e aproveitavam-se da boa vontade dos seus semelhantes (parece-vos familiar?), para se alimentarem. Não contribuíam em nada para a vida na montanha, a única coisa que sabiam fazer era perturbar a paz na montanha. Por serem tão diferentes dos restantes lupis começaram a ser chamados de jacalupis, porque até na maneira como expressavam o seu estado de espírito eram diferentes dos outros lupis.
Embora os jacalupis tenham vindo complicar um pouco a vida simples que até aí se vivia na montanha, os lupis foram-se adaptando às novas circunstâncias e aceitaram, estes seus semelhantes de forma pacífica.
A vida seguia sem percalços, comiam a fruta das árvores e, os momentos de lazer continuavam a ser passados no vale da poesia em contemplação da natureza.
Um dia, para surpresa de todos, da montanha que habitavam desde que se lembravam, começa a brotar uma espécie de água, de cor lilás e com um perfume inebriante que deixa quem se aproxima dela mais feliz. Os lupis ficam, naturalmente, muito intrigados com a água lilás e os lupis cientistas começam logo a investigar as potencialidades de tão extraordinário líquido. Será que se pode beber? Será que se pode tomar banho nela? Se apenas cheirá-la os deixa tão felizes... O aparecimento de um bem a que mais nenhum animal tem acesso e, ainda por cima, um que parece ter potencialidades infinitas, vai alterar a vida dos lupis para sempre. O lupão comerciante começa logo a conceber planos para rentabilizar o precioso líquido, os jacalupis tornam-se ainda mais violentos e preguiçosos, e o cambutinhas começam a parecer-se cada vez mais com escravos, embora estejam em maioria.
Acho que não é difícil perceber onde esta fábula de Pepetela quer chegar. :)

Depois de um livro tão extenso como Os Pilares da Terra, do Ken Follett, que embora me tenha dado muito gozo ler, quando comparado com este pequeno livro de Pepela, acaba por parecer tão pretensioso...

Soube-me mesmo muito bem voltar a Pepetela com este A Montanha da Água Lilás e é óbvio que o recomendo!

Boas leituras! :)

Excerto:

"De repente do sítio de onde saiu a pedra, brotou muito timidamente um líquido escuro. O lupi-poeta inclinou-se para ver melhor e sentiu então o perfume que saía daquele líquido lilás. Era um perfume muito doce. Pôs o dedo no líquido e levou-o ao nariz. Que maravilha! Os odores de todas as flores estavam reunidos naquele cheiro único que logo o encheu de enorme alegria, ele que momentos antes quase explodia de irritação. Ajoelhou no chão e cavou à volta, alargando o buraquinho. O líquido começou a brotar em maior quantidade e o perfume intensificou-se. A alegria também. Ficou ali sentado no chão, ao lado da fonte, aspirando o perfume, todo feliz, esquecido mesmo de fazer o poema à Lua."

The Pillars of the Earth - Ken Follett

Título original: The Pillars of the Earth
Ano da edição original: 1989
Autor: Ken Follett
Editora: Pan Books

"Set in the turbulent times of twelfth-century England when civil war, famine, religious strife and battles over royal succession tore lives and families apart, The Pillars of the Earth tells the story of the building of a magnificent cathedral.
Against this richly imagined backdrop, filled with intrigue and treachery, en Follett draws the reader irressistibly into a wonderful epic of family drama, violent conflict and unswerving ambition. From humble stonemason to imperious monarch, the dreams, labours and loves of his characters come vividly to life. The Pillars of the Earth is, without doubt, a masterpiece - and has proved to be one of the most popular books of our time."

E finalmente cheguei ao fim deste primeiro calhamaço de Ken Follett. E é por ser um dos livros mais lidos de sempre, que praticamente já toda a gente leu, que não sei bem que mais há a acrescentar às inúmeras opiniões/críticas já escritas sobre ele. Provavelmente já foi tudo dito e, como não tenho qualquer pretensão de reinventar a roda, vou ser o mais breve possível, tendo em conta a dimensão do livro (1075 páginas nesta edição da Pan Books). ;)

A acção de The Pillars of the Earth percorre quase todo o século XII. Começa com o fim do reinado de Henry I, passa pelo de Stephen e termina com o de Henry II. Tendo como pano de fundo o sonho de construir uma catedral, a maior e mais bela catedral de Inglaterra, Ken Follett leva-nos a viajar por uma época difícil, onde a guerra pelo trono é uma constante, a tirania dos grandes senhores é lei e onde o poder da Igreja, embora muitas vezes ameaçado e posto em causa, é inegável e muitas vezes nefasto. Na luta do bem contra o mal, o bem não parece ter grandes hipóteses contra adversários tão determinados.
Podemos considerar que existem, neste livro, três grandes núcleos - o núcleo do povo, constituído pela gente trabalhadora e/ou pobre, o núcleo dos nobres ou donos de cargos de poder na sociedade e dos religiosos.
Do lado do povo temos Ellen, Jack, juntamente com Tom Builder e a família.
Ellen e Jack, são mãe e filho e viviam numa gruta na floresta, afastados do mundo, até se cruzarem com a família de Tom Builder. Ellen é filha de um nobre, demasiado "avançada" para a época em que nasceu, por ser tudo menos uma mulher submissa. É, pelo contrário, independente, sem papas na língua e incute algum receio nos outros por acharem que é uma bruxa com acesso a poderes ocultos. É uma mulher que ama a vida e o filho, acima de tudo, e que encontra novamente o amor junto de Tom Builder, que acabará por ser o único pai que Jack alguma vez conhecerá.
Tom Builder é-nos apresentado como um homem muito inteligente, com uma mente aberta à mudança. É um homem fisicamente possante que amou sem reservas a mulher, Agnes, que morre durante o parto, e os filhos. O seu maior sonho é construir uma catedral. Quer desenhá-la e construi-la à medida da sua imaginação. É trabalhador e determinado nos objectivos que traçou para a sua vida.


Aliena e Richard fazem parte do núcleo dos nobres, embora vivam, ao longo de toda a história, momentos de verdadeira penúria. Aliena e Richard são irmãos e assistiram impotentes à invasão do castelo onde viviam com o pai, o Conde de Shiring. Preso por conspirar contra o rei, deixa os filhos, ainda adolescentes, abandonados e arruinados. Aliena é uma personagem extraordinária que vale a pena conhecer. Uma mulher de armas que não baixa nunca os braços perante as inúmeras adversidades e contratempos que vai encontrando ao logo da história. Dona de uma beleza extraordinária e de uma não menos extraordinária personalidade, é protagonista de uma das cenas mais chocantes do livro, quando é  violada por William Hamleigh e os seus homens, em frente ao irmão Richard. A vida das mulheres neste livro é tudo menos glamorosa...
William Hameleigh, é a personificação de todo o mal. Conhecemo-lo quando invade o Castelo de Shiring, um rapaz inseguro que encontra na violência um escape para os seus demónios interiores. Seguimos o seu percurso errático, pertubamo-nos com os seus desejos irracionais, por Aliena, pelo poder, pelo reconhecimento público e por sangue. O seu fim não poderia ser diferente daquele que Ken Follett lhe reservou. :)

Do lado da Igreja, temos Philip e Waleran. Os dois representam o melhor e o pior que a Igreja pode criar.
Philip é o prior de Kingsbridge quando Tom Builder chega à vila e depressa embarca no sonho do construtor. Em criança assistiu ao assassinato dos pais tendo sido salvo, juntamente com o irmão mais novo, por um religioso que os acolheu num mosteiro e os educou como filhos. Extremamente inteligente e determinado, o seu calcanhar de Aquiles é o orgulho, o único pecado mortal de que pode ser acusado. Orgulho por ter transformado Kingsbridge numa cidade cada vez maior e mais próspera, e por estar a construir a maior e mais bela catedral do mundo. Comete alguns erros e toma decisões que podemos considerar menos cristãs, tudo para salvaguardar a obra que quer deixar feita. Mas é, na sua essência, um homem bom, um verdadeiro cristão, por vezes inocente, moralmente muito rígido e justo que acredita piamente estar a cumprir a vontade de Deus.
Waleran é a antitese de Philip, dono de uma ambição sem limite, utiliza a sua posição como Bispo para satisfazer os seu desejos pessoais, não olhando a meios para atingir os seus fins. Tem por Philip um ódio de morte e chega a ser frustrante ver o esforço que faz para acabar com Philip e que este consiga sempre dar a volta por cima. :)

The Pillars of the Earth é a história de Ellen, de Jack, de Tom Builder, de Aliena, de Philip, de William e Waleran. Estes são os seu nomes mas podiam ser outros, porque as histórias contadas não são exclusivamente suas. Ken Follett junta todas estas personagens, tendo como força motriz a construção da catedral de Kingsbridge e aproveita para nos falar de como era a vida na Inglaterra do século XII. Como viviam as pessoas nessa altura, do que viviam, o que comiam, porque casavam, como nasciam e como morriam. Que papel assumia a Igreja, em que acreditavam as pessoas da época, o que temiam e como rezavam. Que importância tinha o Rei na vida dos seus súbditos, quando decisões tomadas a quilómetros de distância por razões, raramente compreensíveis, podiam virar a vida do comum dos mortais de pernas para o ar.
Neste aspecto o livro é bem sucedido, uma vez que, faz isto integrando os factos históricos na história ficcionada que conta, com pormenores que vamos absorvendo de forma natural.

Os pormenores da construção da catedral são fascinantes, e é engraçado intuir nas preocupações que consumiam Tom Builder e mais tarde Jack, o início de uma nova era para a engenharia civil. Com o acesso ao conhecimento tão limitado, onde os únicos livros disponíveis pertenciam à Igreja, é fascinante como já se sabia tanto, ou como a intuição de Jack estava tão perto da verdade.

Talvez por ter visto a mini-série primeiro, o meu entusiasmo durante a leitura acabou por não ser uma constante, no entanto, não posso deixar de concordar com a maioria das opiniões já escritas sobre esta obra de Ken Follett, é grande e tem momentos verdadeiramente grandiosos.
The Pillars of the Earth é um daqueles livros que vale essencialmente pela história que nos conta e menos pela qualidade da escrita. A genialidade de Ken Follett revela-se na história e não propriamente na forma como a conta. Confesso que não sou grande fã da escrita dele, que acho demasiado linear e, neste livro, acaba por ser até um pouco repetitivo nas ideias. Mas, embirranços à parte foi um livro que me deu muito gozo ler e que me deixou com vontade de ler o The World Without End e a trilogia do século XX, Winter of the World, que ele já começou a escrever.

Ainda não foi este que arrebatou as 5 estrelas na classificação do Goodreads, mas leva umas confortáveis 4 estrelas, sem hesitações.

Recomendo, embora seja um livro grande, em termos de dimensões, é um livro que se lê bastante bem sem grande espaço para nos aborrecermos. Recomendo também a mini-série, embora não seja completamente fiel ao livro vale a pena ver.

Boas leituras!