março 24, 2013

O Caso das Mangas Explosivas - Mohammed Hanif

Título original: A Case of Exploding Mangoes
Ano da edição original: 2008
Autor: Mohammed Hanif
Tradução: Teresa Curvelo
Editora:Porto Editora

"No dia 17 de Agosto de 1988, o presidente paquistanês Zia ul-Haq morreu num acidente aéreo. No avião presidencial viajavam igualmente o chefe dos serviços secretos e o embaixador dos Estados Unidos. Não houve sobreviventes e ainda hoje a razão que levou à queda do avião continua envolta em mistério. O acidente ficou a dever-se a:
Falha mecânica?
Falha humana?
Impaciência da CIA?
Maldição de uma cega?
Generais descontentes com as suas pensões de reforma?
A estação das mangas?
Ou o responsável terá sido o próprio narrador, Ali Shigri, um jovem cadete da Força Aérea, que nos relata a sua participação nos acontecimentos?
Com um humor ácido e um ritmo trepidante, digno dos melhores thrillers políticos, Mohammed Hanif retrata sem contemplações os aspectos mais absurdos da vida militar durante os últimos dias de vida do cruel ditador Zia ul-Haq, expondo as manipulações de todos pois implicados que, com a sua miopia política, contribuíram para o auge do fanatismo radical."

Depois de um livro tão pesado como Autópsia de um Mar de Ruínas do João de Melo (comentado aqui), andava com vontade de ler alguma coisa divertida e leve. Este sobressaiu na estante, pelo título, pela cor, mas essencialmente porque veio como oferta quando comprei O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu do Jonas Jonasson, já lido (e comentado aqui) e que me divertiu imenso, achei que este podia ser na mesma onda. :) É divertido, mas a onda não é a mesma. Este tem um sentido de humor mais negro, o tom é mais satírico e as personagens não são tão facilmente acarinhadas como os idosos de Jonas Jonasson. Deixemos, portanto, de comparar o incomparável. :)

O Caso das Mangas Explosivas leva-nos até ao Paquistão. Em plena ditadura militar liderada pelo General Zia ul-Haq, nos anos de 1978 a 1988, ano em que morreu quando o avião onde seguia se despenhou. É no momento em que Zia entra no avião, acompanhado pelo embaixador dos EUA, Arnold Raphel, pelo general Akhtar Rahman chefe maior das forças armadas paquistanesas e outras altas patentes do país, que a história narrada por Ali Shigri tem início.
Sabemos que todos os que embarcaram no C130 presidencial morreram e Shigri dá a entender que poderá ter tido alguma participação na morte trágica do presidente Zia. Será que teve?

Shigri leva-nos a percorrer os meses que antecederam a queda do avião e a morte de Zia. Foi um acidente? Foi um homicídio? Quem era o alvo e porquê? Vamos descobrindo tudo isso, ao mesmo tempo que vamos conhecendo a ditadura militar de Zia, um homem temido por todos, que aqui surge mais como o rosto da repressão levada a cabo pelos seus subordinados, sem que pareça controlar muito do que se vai passando no seu país. Vive numa espécie de bolha, sem qualquer noção de como vive o povo que tanto diz amar. Paranóico com a sua segurança, vive aterrorizado com a ideia de que um dia o possam matar, o que o afasta ainda mais da realidade que o rodeia. Fanático religioso impõe a todos os que o rodeiam a mesma conduta moralmente irrepreensível. O ditador parece viver numa outra dimensão, rodeado por gente interesseira e ambiciosa e que não o leva muito a sério, conspirando para ocupar o seu lugar à frente dos destinos da jovem nação.

O exército e a comunicação social controlam completamente tudo o que se passa no país, inventam notícias, controlam todo a informação que passa para o exterior, encenando celebrações para que a imagem do presidente seja imaculada.
Junto ao presidente Zia surgem os americanos, representados pelo seu embaixador destacado para o Paquistão, Arnold Raphel, enviado para garantir que a luta contra os comunistas russos se mantém activa e viva, apoiando os afegãos e paquistaneses nessa luta contra os infiéis.

Embora nada do que descrevi até agora pareça particularmente divertido, a verdade é que o tom com que são descritas as situações aligeira o que está subjacente a um período da história paquistanesa que terá sido tudo menos divertida. O tom é de ironia e de gozo, de exagero, para ridicularizar todas estas altas personalidades que se julgam imortais e omnipotentes.

Gostei porque é um livro bem escrito com uma história que prende, com personagens bem desenvolvidas e com quem criamos empatia. Gostei do General Zia, que deve ser o estereótipo que se aplica a quase todos os ditadores passados, presentes e futuros, a viver num auto-deslumbramento e a pensar que manda realmente alguma coisa, quando na realidade é apenas um fantoche, facilmente manobrável até que um dia é posto de parte, quer por outro ditador quer pelo povo que julgava complemente domesticado. :)

Gostei. Não é uma obra-prima mas é bom o suficiente para que o recomende sem qualquer hesitação.

Boas leituras!

Excerto:
"Quando Zia lhe ordenou que arranjasse um buraco no horário de maior audiência para o Programa de Reabilitação das Viúvas do Presidente, o ministro começou por se mostrar relutante.
- É o que fazemos sempre no Ramadão, sir - murmurou o ministro da Informação em tom de desculpa. Não sabia muito bem como reunir um tal número de viúvas nessa época do ano.
- Existe alguma lei neste país que me proíba de ajudar os pobres no mês de Julho? - volveu, irritado, o general Zia. - Foi feito algum estudo económico que diga que as nossas viúvas necessitam de ajuda durante o Ramadão mas não amanhã de manhã?
O ministro da Informação cruzou as mãos na braguilha e assentiu com entusiasmo.
- É uma ideia brilhante, sir. Seria uma excelente alternativa para a agenda noticiosa. As pessoas começam a perder o interesse por toda essa embrulhada de os soviéticos se irem embora e os nossos mujahideen afegãos se andarem a matar aos tiros uns aos outros.
- Certifique-se de que as notas de cem rupias são novas. Essas velhas adoram o cheiro do dinheiro fresco."

março 15, 2013

El Príncipe de Parnaso - Carlos Ruiz Zafón


El Príncipe de Parnaso é um pequeno conto inédito de Carlos Ruiz Zafón que está a ser oferecido (não sei se com todas as edições) na compra do último romance do escritor, El Prisionero del Cielo (O Prisioneiro do Céu na edição portuguesa).
É neste pequeno livro que se faz, pela primeira vez, referência ao Cemitério dos Livros Esquecidos, lugar mítico referido em todos os livros de CRZ.

Na Barcelona do século XVII, António Sempere trava conhecimento com aquele que viria a ser um dos escritores mais importantes de Espanha, de seu nome Miguel de Cervantes Saavedra. Reza a história que o escritor, na altura apenas aspirante a escritor, teria passado uns tempos em Barcelona com a sua grande paixão, a italiana Francesca, dona de uma beleza singular e cobiçada pelos mais diversos artistas para ser a sua musa inspiradora. Cervantes chega a Barcelona, preso a um pacto selado com uma personagem sinistra, Andreas Corelli, o mesmo editor que fez a vida negra a David Martín, o protagonista de O Jogo do Anjo e, não parece trazer nada de melhor para Cervantes e a sua amada.  Segundo este conto é durante esta estadia que o escritor trava conhecimento com Sancho, fiel amigo até aos seus últimos dias.

É um pequeno conto que, à semelhança dos outros livros de CRZ se lê muito bem. Por ser um conto e por isso uma história mais pequena não há tanto espaço para as descrições tenebrosas e fascinantes de Barcelona e talvez por isso não me tenha prendido particularmente. :) Foi um regresso gostoso a um autor que não me enchendo as medidas me vai mantendo interessada no que escreve. Além disso é óptimo para treinar o espanhol! Não sei se esta oferta também esta a ser aplicada na edição portuguesa (este pertence ao meu professor de espanhol), se for esse o caso as horinhas dispensadas na sua leitura não serão, por certo dadas como perdidas.

Boas leituras!

março 05, 2013

Autópsia de um Mar de Ruínas - João de Melo

Título original: Autópsia de um Mar em Ruínas
Ano da edição original: 1984
Autor: João de Melo
Editora: Círculo de Leitores

"«(...) João de Melo oferece-nos um romance cuidadosamente elaborado, o arado da sua escrita revolve bem fundo no chão onde pisamos as palavras do quotidiano, a autópsia proposta talvez não se circunscreva ao cadáver de uma guerra morta à nascença, mais morta que a maior parte das guerras, porquanto até para matar, trucidar, exterminar é preciso ter objectivos e motivações - por egoístas ou irracionais que sejam (são-no sempre) uns e outros - não se chacina pelo simples prazer de sentir o cheiro do sangue ou verificar se a cor do plasma vital que corre nas veias dos Negros é igual à do que circula  nas artérias dos Brancos. Ora, ao povo português faltava, felizmente, essa sanha de ferocidade mórbida que só a irracionalidade «justifica», cabendo-nos viver no limiar de um misterioso ritual selvático de que desconhecíamos as fórmulas litúrgicas e as palavras mágicas despoletadas do transe exaltador. (...)» João de Melo pega-nos pela mão e põe-nos «a andar às arrecuas no lodo que o nosso imaginário acumulou, numa regressão psicológica até às vísceras de nós mesmos, porquanto esse pesadelo de vinte e três anos nos salpicou a todos de dor, e sangue, e vergonha. Quem se atreverá a invocar a neutralidade para não ser engolido pela mancha da desonra colectiva? (...)»"

Esta é uma obra incontornável sobre a guerra colonial. É um relato emocionado e fortíssimo sobre o que foram, para os militares portugueses e para o povo angolano, os duros tempos de uma guerra que uns se viram obrigados a fazer e os outros obrigados a viver. João de Melo conheceu de perto o que de forma tão dura relata nesta autópsia de um mar em ruínas. Cumpriu o serviço militar em Angola, em Calambata uma zona do interior, experiência essa que por certo serviu para que este seja um livro de cortar a respiração de tão realista, de tão sujo, de tão duro e feio, de tão vergonhosamente real e genuíno. Aliada a esta dureza, está a escrita poética de João de Melo que nos permite afastar um pouco do que é descrito.

Autópsia de um Mar em Ruínas é contado a muitas vozes, mas duas destacam-se claramente, a do alferes Renato e a da negra Natália, uma das muitas mulheres que vivem na Sanzala da Paz. A história é, portanto contada sob dois pontos de vista que, ao contrário do que poderíamos achar, são muito mais coincidente que divergentes. 
Do lado dos militares portugueses conhecemos homens de olhar perdido, de corpos exaustos, afectados física e psicologicamente pelo que já viveram na guerra, pelos companheiros mortos e pela certeza de que a sua hora não tardará a chegar. Não compreendem a guerra, não a querem fazer, não querem matar ninguém, só não querem morrer sem poderem abraçar uma última vez as namoradas, as mulheres, os filhos ou os pais. Acreditam que a forma mais rápida de acabar com a guerra é a apatia, é miná-la por dentro. Afinal não existe guerra se ninguém estiver disposto a combater. Na messe do quartel de Calambata mantinha-se a seguinte frase escrita numa das paredes: 

É PROIBIDO DIZER QUE HÁ GUERRA.

Em Calambata os militares seguem convictamente esta máxima, vivem os dias em contagem decrescente para o fim da comissão em Angola, passando os dias a beber, a jogar às cartas, ou a pensar nas namoradas que deixaram em Portugal. Até que uma emboscada os põe frente a frente com os horrores de uma guerra que ainda não tinham conhecido e a partir desse dia nada mais pode voltar a ser o que era.

Do lado dos negros, que vivem na sanzala da paz, assistimos à miséria a que estavam sujeitos. Deslocados da sua terra natal, viviam como prisioneiros, trabalhando praticamente de graça para os colonos da região. Tratados como animais e brutalizados pelos brancos, são homens e mulheres resignados à miséria, sem força ou armas para lutar. Desejam secretamente que os seus patrícios na mata acabem de vez com a presença dos brancos em Angola. As crianças são a única referência positiva naquele lugar. Mesmo mal-nutridas, são inúmeras as vezes que se referem as barrigas arredondadas com o umbigo pontiagudo destes meninos (curiosamente não falam das meninas, apenas dos meninos), é nas crianças que surge o sorriso da esperança, da alegria de viver. As mulheres surgem como o pilar da pequena comunidade, desesperadas pela resignação dos maridos que gastam tudo em bebida, todos eles precocemente envelhecidos e derrotados.
Quando João de Melo refere os maus-tratos por parte dos brancos, estes quase nunca envolviam os militares, que desempenhavam, neste caso, um papel mais neutro. Convém também referir que os colonos da região não aceitavam muito bem a presença militar na zona. Diziam-se capazes de dar caça aos "turras" e ensinar-lhes uma lição que os ia colocar nos seus devidos lugares e terminarem com o conflito num piscar de olhos.

Na mata escondem-se autênticos fantasmas, um pesadelo para os militares portugueses, incapazes de se protegerem de um inimigo que simplesmente não conseguiam vislumbrar. Expostos às inúmeras emboscadas, os militares faziam o melhor que sabiam para sobreviver, para adiar o dia em que iriam morrer.
As descrições dos ataques é tremenda, no sentido em que, por diversas vezes, quis fechar os olhos e não ler... Tamanha violência e irracionalidade é muito difícil de conceber para quem, felizmente, nunca a sentiu de perto, mas julgo que o relato de João de Melo nos consegue fazer chegar bem perto. O mesmo se aplica à violência física sobre os negros, essa sim, completamente irracional e arbitrária, que me fez sentir vergonha. Como é que sentimentos destes se continuam a perpetuar pelas gerações mais novas?

É um livro imenso, imensamente triste, violento, real e um documento que não pode nunca ser esquecido. Este é daqueles que deveria ter lugar no "Cemitério dos Livros Esquecidos" de Carlos Ruiz Zafón. :)
Todos nós sabemos o final desta história. O que gostaria de frisar é que Autópsia de um Mar de Ruínas não é só mais um livro sobre a guerra colonial, é muito mais do que isso. João de Melo é sem dúvida um escritor extraordinário, com uma enorme capacidade de expor as emoções e deixa-nos, enquanto leitores, completamente desprotegidos.

Recomendo sem qualquer hesitação! Mesmo os mais sensíveis deveriam fazer um esforço... :)

Boas leituras!

Excerto:
" Agora, pensei, tem de haver um músculo. Vai ter de abrir-se um músculo no meu olhar. A memória fechar-se-á logo de seguida sobre tudo isto, fechar-se-á de fora para dentro e talvez para sempre - e então eu jamais esquecerei aquele dia. (...) O músculo da minha memória estava-me devolvendo agora um cheiro a chamusco de porco, porque toalhas de fumo se agitavam ao longo da picada e havia tudo: havia nela o tal solo de emboscada com crateras de sonhos mortos à granada, havia o silêncio translúcido dos cemitérios da minha noite de toda a vida; havia tudo, tudo, desde o espanto daqueles náufragos cujo olhar acreditava ainda na possibilidade de uma ilha deserta, até à completa destruição dos olhos gelados onde o sol dava de chapa e também morria. Nenhuma respiração agitava a lâmina daquele dia, nem sopro algum faria estremecer a manhã sem horas da sua eternidade."

fevereiro 24, 2013

[Filme] A Vida de Pi

Título Original: Life of Pi
Realização: Ang Lee
Duração: 127 min
Origem: EUA

Finalmente arranjei um tempinho para ver a adaptação ao grande ecrã da inesquecível obra de Yann Martel e gostei bastante. Está muito fiel ao livro e as cenas com os animais estão assustadoramente realistas. Embora possa parecer estranho, acho que posso dizer que os actores foram bem escolhidos, porque embora o grande protagonista seja de facto Pi, se houvesse um óscar para os "actores" animais, Richard Parker teria que estar na lista de nomeados.
Ang Lee conseguiu transmitir a beleza visual descrita por Yann Martel sem esquecer o que realmente impressiona no livro, a história e o que a faz tão surpreendente.

Confesso que tinha algum receio que viesse a ser um filme "pipoca" mas, felizmente não foi esse o caso. É um bom filme, visualmente impressionante, com boas actuações e a história de Pi é algo que vale mesmo a pena conhecer. 
Espero que, para quem nunca leu o livro, A Vida de Pí seja tão surpreendente como foi o livro para mim. Para quem já leu o livro, talvez o filme, por ser tão tão fiel à obra, seja mais um regresso a um local que nos deixou muitas e boas recordações. :)

Qualquer que seja o caso, vejam!

fevereiro 17, 2013

A Passageira - Andrea Blanqué

Título original: La Pasajera
Ano da edição original: 2003
Autor: Andrea Blanqué
Tradução: Margarida Amado Acosta
Editora: Quetzal

"A professora Mann é uma mulher de trinta e tal anos que vive sozinha com os seus dois filhos, ensina Geografia num liceu nocturno e está divorciada de um homem que vive num país turbulento - Israel. Mais do que sentir ou pensar, prefere observar o mundo na qualidade de testemunha, fragmentando-o em detalhes de maneira incisiva, implacável, muitas vezes mordaz.
Viajante impenitente - como o fora anos antes, de mochila às costas, percorrendo o mundo sozinha, vivendo a espontaneidade, o exotismo, deitando-se com desconhecidos -, escreve a sua passagem pela vida «como se tudo se tratasse de uma longa viagem que há que registar», repleta de aventuras, juventude, amor e sexo, acidentes e atentados. O passado e o presente, e o mundo exterior e o interior, interagem e dão lugar a uma grande imprevisibilidade.
A Passageira é um romance diferente e cativante. Num registo coloquial, a autora mostra uma realidade em que o quotidiano é permanentemente comovido pelo insólito, pela diferença, levando-nos por caminhos pouco trilhados, no termo dos quais há sempre uma reviravolta que surpreende o leitor, confundindo-o e sugerindo-lhe um novo rumo para a imaginação."

Quando pegamos num livro sobre o qual pouco sabemos, de um autor, neste caso autora, para nós completamente desconhecida, não deixa de haver uma certa expectativa relativamente ao que vamos encontrar. Estamos na presença de uma escritora que passará a constar na lista de autores a seguir, ou será apenas mais um entre os muitos que já lemos e iremos ler? Andrea Blanqué, felizmente faz parte do primeiro grupo. A escrita é fluída e despretensiosa e a autora soube contar uma história com a qual os leitores se conseguem identificar. 

A professora Mann é uma mulher com mais de trinta anos, que vive no Uruguai com os dois filhos, frutos de um casamento que termina no dia em que o marido, David, parte para Israel, e ela lhe diz que "Já não quero ser tua mulher", recusando regressar com ele ao país onde se conheceram. Ensina Geografia num liceu nocturno, a alunos que, pelas mais diversas razões, não puderam terminar os seus estudos no ensino regular.
A mulher que conhecemos, com trinta e muitos anos, parece-se pouco com a rapariga de vinte anos que vemos descrita nos cadernos de capa dura que passaram a desempenhar um papel tão importante na vida desta mulher. Com vinte anos largou tudo e iniciou uma aventura, sozinha, com o objectivo de conhecer o mundo e as pessoas que nele se movem. Aos trinta e muitos anos, com dois filhos, um ex-marido em Israel, a sua única aventura pelo mundo não foi esquecida, mas faz definitivamente parte do passado. Não é uma mulher amargurada aquela que decide começar a escrever, não um diário ou mesmo uma auto-biografia, mas pensamentos e coisas que acontecem aos outros, aos que a rodeiam. Não é uma mulher cheia de arrependimentos a que conhecemos, no entanto sentimos nas suas palavras uma certa nostalgia pela vida e pelas aventuras que não chegou  viver depois de ter engravidado da filha mais velha e de ter casado com David, o homem que anos mais tarde a deixa sozinha com os dois filhos ao decidir partir para Israel, por razões que não são muito claras para nós. O que não sentimos na sua escrita é que, se pudesse, mudasse algo. Sentimos que voltaria a repetir cada passo que deu e decisão que tomou para estar precisamente no mesmo lugar, essencialmente pelos filhos.

Mann é uma observadora, demitiu-se um pouco de viver a sua vida e de procurar a felicidade, gosta de desconhecidos e parece ter alguma dificuldade em aprofundar as suas relações com os colegas de trabalho ou mesmo com as amigas, que refere muito amiúde. Quando se apaixona novamente é de forma tão inesperada e avassaladora que sente alguma dificuldade em lidar com a situação.  A escrita é, para ela, uma forma de se organizar mentalmente, de recordar quem era e de se mentalizar para o que é agora. Não escreve nada de comprometedor ou que não possa ser lido por estranhos, no entanto, vive com medo que um dia alguém leia o que escreveu. Não é por isso que deixa de o fazer, não pode, não enquanto tiver algo para dizer.

O livro está estruturado em pequenas secções numeradas, uma por cada entrada nova nos cadernos de capa dura da professora Mann. São "capítulos" pequenos o que permite que a leitura acabe por se fazer de forma rápida e fluída. Para além de escrever um pouco sobre si, sobre a sua família e sobre a viagem que fez quando tinha vinte anos, o livro aborda outros temas, como o suicídio, o amor e de como é importante sabermos crescer, envelhecer, adaptando-nos aos diferentes desafios que surgem com a idade. A aventura é permitida em todas as idades, mas cada idade tem necessariamente de proporcionar aventuras diferentes. :)

Gostei do livro e, embora tenha achado que por vezes ela se repetia um pouco nas ideias, também acho que essa repetição tornou o relato mais realista.

Vou ter de me manter atenta à obra de Andrea Blanqué, parece-me promissora.

Obrigada pela sugestão, Dona-Redonda. :)

Boas leituras!

Excerto:
" Sou uma mulher que escreve num caderno quando os filhos não estão. Não sei se amanhã voltarei a escrever, ou na semana que vem. Talvez abandone o caderno neste preciso instante ou dentro de algumas páginas. Talvez chegue até ao fim e precise de ir comprar outro.
Não releio o que escrevo, mas sei que falei demasiado sobre o David. Tenho de render-me perante a humilde realidade de que tenho trinta e sete anos e um divórcio, e que estou a escrever num caderno de capas duras sobre um marido inexistente."

fevereiro 10, 2013

[Filme] Django Libertado

Título Original: Django Unchained
Realização: Quentin Tarantino
Duração: 165 min
Origem: EUA

Sinopse:
Passado no sul dos Estados Unidos dois anos antes da Guerra Civil, Django Unchained conta a história de Django, um escravo com vendido a um caçador de recompensas alemão para ajudar na captura dos irmãos assassinos Brittle. O seu sucesso leva Schultz a libertar Django, mas os dois homens decidem permanecer juntos. Assim, Schultz persegue os criminosos mais procurados do Sul com Django a seu lado. Apesar de aperfeiçoar as suas capacidades de caça, Django mantém-se focado num objectivo: encontrar e resgatar Broomhilda, a sua mulher que perdeu no comércio de escravos há muitos anos atrás. A procura de Schultz e Django leva-os até Calvin Candie, o proprietário de "Candyland", uma plantação infame onde os escravos são preparados pelo treinador Ace Woody a lutarem entre si por desporto. Ao explorar a plantação sob um falso pretexto Django e Schultz despertam a atenção de Stephen, um escravo da confiança de Candie. Os seus movimentos são seguidos e uma organização traiçoeira acaba por os cercar. Django e Schultz, ao tentarem escapar com Broomhilda, terão que escolher entre a independência e a solidariedade, entre o sacrifício e a sobrevivência...

Embora nada a tenha a ver com livros, acho que posso quebrar a regra quando se trata de um filme tão bem conseguido como é o caso da mais recente obra de Tarantino, Django Libertado. Este é dos melhores que já vi, dentro do género, nos últimos anos. 

Gostei de tudo, dos actores, da história e da moral da história, da banda sonora... de tudo! Não percam a oportunidade de o verem no cinema porque é mesmo muito bom!

Trailer:

O Cemitério de Praga - Umberto Eco

Título original: Il Cimitero di Praga
Ano da edição original: 2011
Autor: Umberto Eco
Tradução: Jorge Vaz de Carvalho
Editora: Gradiva

"Durante o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres num esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades de Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, a disseminação gradual daquela falsificação conhecida como «Os Protocolos dos Sábios de Sião» (que inspirará a Hitler os campos de extermínio), jesuítas que tramam contra maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam padres com as suas próprias tripas, um Garibaldi artrítico, com as pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemontenses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem os ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que, entre vapores de absinto, planeiam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras. Óptimo material para um romance-folhetim de estilo oitocentista, para mais, ilustrado como os feuilletons daquela época. Há aqui com que contentar o pior dos leitores. Salvo um pormenor. Excepto o protagonista, todos os outros personagens deste romance existiram realmente e fizeram aquilo que fazem. E até o protagonista faz coisas que foram verdadeiramente feitas, salvo que faz muitas que provavelmente tiveram autores diferentes. Mas quando alguém se movimenta entre serviços secretos, agentes duplos, oficiais traidores e eclesiásticos pecadores, tudo pode acontecer. Até o único personagem inventado desta história ser o mais verdadeiro de todos, e se assemelhar muitíssimo a outros que estão ainda entre nós."

Julgo que ainda não tinha comentado aqui nenhum dos livros que li do Umberto Eco, acho que os li todos antes da criação do Quero Um Livro. Ficam, no entanto a saber que Umberto Eco é um dos meus autores preferidos e só não o leio mais porque... bem porque os livros dele são tão cheios de cultura, de história e de conhecimento que devem ser "tomados" em doses controladas! ;) Com isto não quero dizer que os seus livros são pretensiosos e intelectuais, nada disso. Não conheço nenhum escritor que faça o que Umberto Eco faz com tanta eficácia, a linha que separa o que realmente aconteceu daquilo que é puramente ficcionado é tão ténue mas tão magistralmente mantida que as lições de história transformam-se em puro prazer e alimento para o cérebro. :)

Feito o elogio a quem de direito, passemos ao que realmente interessa, o livro, O Cemitério de Praga.
Começo por dizer que não é um livro fácil de seguir, acho que nunca senti tanta necessidade de tomar notas, de escrever uns lembretes, para conseguir manter todas as personagens e o seu papel na história, bem vivas na memória. Tem imensas referências literárias e históricas e, como é dito na sinopse e no fim do livro, todas as personagens são reais, excepto Simone Simonini o nosso protagonista rabugento, o que torna o livro ainda mais envolvente. 
Como desconhecia a grande maioria dos nomes referidos e sei muito pouco sobre a história europeia do século XIX, para mim, o livro foi sempre encarado como um romance, embora algumas das referências e personagens não me fossem totalmente desconhecidas, não sou assim tão ignorante. :p No fim senti-me na obrigação de pesquisar todos aqueles nomes e redescobrir a história que tinha acabado de ler.

E de que história estamos a falar? Os Protocolos dos Sábios de Sião são uma obra, publicada nos finais do século XIX, por Serge Nilus, na Rússia onde, supostamente é denunciada uma mega conspiração dos Judeus para acabarem com os cristãos e tomarem conta do mundo. Este livro, foi durante uns anos tido como autêntico, tendo sido revelada a sua verdadeira natureza uns anos antes de Hitler começar a sua longa caminhada na conquista do mundo, facto que não o impediu de o usar como justificação para o horror que levou a cabo nos anos que se seguiram.
O Cemitério de Praga tem como fio condutor este livro, desde a sua invenção até à sua publicação. Paralelamente vamos acompanhando, na primeira fila, acontecimentos importantes na história da Europa.
É Simone Simonini quem nos empresta os olhos para assistir a tudo isto, ou não fosse ele o nosso protagonista, um italiano que se muda para Paris e que ao longo de toda a história colabora com os serviços secretos de Itália, França, Rússia e Alemanha. A sua espantosa capacidade para falsificar todo o tipo de documentos, associada a uma prodigiosa imaginação para conspirar, chamou naturalmente a atenção destas entidades.

Em Itália, terra natal de Simonini, este vive de perto os conflitos que levaram à unificação de Itália, privando com Giuseppe Garibaldi e Giuseppe Mazzini, membros da Carbonária e acérrimos defensores de uma República Italiana com todos os seus territórios unificados. É neste período conturbado que Simonini inicia os seus trabalhos para Bianco, um agente dos serviços secretos italianos e que introduz o nosso protagonista no fantástico mundo dos espiões. E é durante estes anos que surge a suposta acta de um encontro secreto num Cemitério em Praga, onde um grupo de judeus, de forma conspiratória, planeiam tomar as rédeas do mundo. Este encontro nunca existiu (que o saibamos) e o autor da magnífica falsificação só podia ser Simonini. Uns anos mais tarde quando, a criatividade, por vezes demasiado independente, começa a incomodar os italianos, e este é enviado para França, onde inicia uma estreita colaboração com Lagrange, um importante membro dos serviços secretos franceses. França torna-se a sua pátria e é com os serviços secretos franceses que ganha a sua fama de espião e faz a sua fortuna. França é caracterizada, por Umberto Eco, como um país que não se envolvia directamente nos conflitos e nas tensões que estalavam junto às suas fronteiras. Era o país da igualdade e fraternidade, no entanto os serviços secretos franceses trabalhavam que se fartavam para influenciar e garantir alguns acontecimentos políticos. O único desgosto de Simonini em França era o facto de estes não estarem interessados em diminuir a influência dos judeus, são demasiado importantes para que possam ser tocados. Depressa Simonini descobre que, fora das fronteiras francesas e sem o apoio oficial da equipa de Lagrange, nada o impede de prosseguir com a sua missão, uma vez que os russos e, mais tarde os alemães, começam a sentir-se incomodados com os hebreus. Durante todo  livro, a sua história sobre o Cemitério de Praga é reinventada e transforma-se naquilo que Simonini chamava carinhosamente os seus Protocolos do Cemitério de Praga, que para o fim deixam de ser seus e são renomeados como Os Protocolos dos Sábios de Sião.

É impossível referir tudo aquilo de que fala o livro, porque paralelamente a tudo isto, conhecemos de perto uma personagem infame, Léo Taxil o rosto de um dos maiores embustes da época, por ter escrito e publicado como verdadeiros, os relatos de Diana Vaughan, uma satanista que participava em reuniões maçónicas. Com o pretexto de descredibilizar os maçons, algo que interessava muito à igreja católica, Taxil, tendo como mentor Simonini, leva a cabo uma das farsas mais bem conseguidas da época.
Simonini cruza-se ainda com Drumont, Dumas e outras figuras mais ou menos conhecidas e mais ou menos importantes para a história.

A forma como a história nos é contada é muito original, pois chega-nos em forma de diário, escrito a duas mãos. A grande maioria é escrita por um Simonini confuso que parece ter apagado da memória alguns acontecimentos importantes. É neste estado de confusão mental que Simonini decide escrever, com o objectivo de recuperar pedaços da sua vida que desapareceram. No meio dos escritos de Simonini, surge de quando em vez um intruso, Dalla Picolla que, funciona um pouco como a voz da consciência de Simonini. Se não fossem as intrusões de Dalla Picolla, talvez nunca conhecessemos o lado mais negro do nosso protagonista.
Mas quem é Dalla Picolla? Dalla Picolla e Simonini são vizinhos mas nenhum dos dois se recorda de alguma vez se terem cruzado, no entanto partilham alguns conhecimentos e segredos... Como é que isto é possível? É a pergunta que nos acompanha todo o livro.

Enfim, não é um livro muito fácil de ler, mas que vale cada segundo que se gasta com ele. Vale pelo que acabamos por aprender com ele, vale pela lição de história e por nos recordar que, como sociedade temos de facto uma memória muito curta e extremamente selectiva. Somos perigosamente tendenciosos relativamente ao que, e em quem escolhemos acreditar e seguir. Só assim se percebe que textos republicados em diversas alturas, como sendo originais e actuais, nunca tenham sido postos em causa. E não o foram porque se limitavam a expressar aquilo que, secretamente ou não, a maioria pensava.
É um livro que vale a pena pelo que conta mas também porque Umberto Eco é divertido e os seus protagonistas tendem a ser inesquecíveis! O Baudolino, depois de estes anos todos, ainda me desenha um sorriso nos lábios. :)

Gostei muito e recomendo, ressalvando que pessoas religiosamente menos tolerantes podem sentir-se de alguma forma, atacadas.

Boas leituras!

Excertos:
"- Dás-te conta, rapaz - dizia -, de que as leis daquele Siccardi aboliram os denominados privilégios do clero? Porquê abolir  o direito de asilo nos lugares sagrados? Porventura uma igreja tem menos direitos do que uma gendarmaria? Porquê abolir o tribunal eclesiástico para religiosos acusados de delitos comuns? A Igreja não tem porventura direito de julgar os seus? Porquê abolir a censura religiosa preventiva sobre as publicações? Porventura agora cada um pode dizer aquilo que lhe agrada. sem moderação e sem respeito pela fé e pela moral? (...) E agora chegámos à supressão das ordens mendicantes e contemplativas. quase seis mil religiosos. O Estado confisca-lhes os bens e diz que servirão para pagamento das côngruas aos párocos, mas, se juntares todos o bens destas ordens, atinges uma quantia que é dez... que digo eu!... cem vezes mais do que todas as côngruas do reino, e o Governo gastará esse dinheiro na escola pública, onde se ensinará aquilo que não serve aos humildes ou há-de servir-lhes para calcetar os guetos! E tudo sob a divisa do movimento «Igreja livre em Estado livre», lá onde quem é verdadeiramente livre de prevaricar é o Estado. A verdadeira liberdade é o direito do homem de seguir a lei de Deus, de merecer o paraíso ou o inferno. Ora, em vez disso, entende-se por liberdade a possibilidade de escolher as crenças e as opiniões que mais te agradam, em que tanto vale uma como outra; é igual para o Estado que tu sejas maçom, cristão, judeu ou sequaz do Grão-Turco. É desse modo que nos tornamos indiferentes à Verdade."

"Alguém disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais envolve-se habitualmente numa bandeira, e os bastardos remetem-se sempre para a pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Ora, o sentido da identidade funda-se no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É necessário cultivar o ódio como paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. Faz falta sempre alguém a quem odiar para nos sentirmos justificados na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. É o amor que é uma situação anómala. Por isso, Cristo foi morto: falava contra natura. Não se ama alguém para toda a vida; dessa esperança impossível nascem o adultério, o matricídio, a traição do amigo... Por contrário, pode-se odiar alguém durante toda a vida. Desde que esteja sempre lá, para reacender o nosso ódio. O ódio aquece o coração."