Título original: Os Malaquias
Ano da edição original: 2010
Autor: Andréa del Fuego
Editora: Porto Editora
Autor: Andréa del Fuego
Editora: Porto Editora
"Serra Morena. Um raio esturrica o casal, em luz e carne. Os filhos ficam órfãos, com destinos diferentes. António, o menino que não cresce. Nico, o patriarca engolido por um bule de café. Júlia, a menina em fuga permanente. Um lugar onde as sombras da terra e da água convivem. Onde a morte e a vida são o mesmo mundo. Um poema seco à humanidade de cada um de nós."
Já não sei muito bem porque é que decidi comprar este livro... Não me lembro de ter lido críticas especialmente elogiosas à obra de Andréa del Fuego. Estava, inclusive, convencida de que a senhora era colombiana ou algo parecido, não fazia ideia de que era brasileira. Isto apenas para reforçar o meu total desconhecimento sobre o livro. Acredito que deve ter sido a capa apelativa e o facto de ter ganho o Prémio Literário José Saramago de 2011 que me convenceu a comprá-lo.
Esforços de memória à parte, a verdade é que veio parar-me às estantes e agora que foi lido... Bem, agora que foi lido, foi lido. :)
Os Malaquias começam por ser pai, mãe e três filhos, Adolfo, Donana, Nico, Antônio e Júlia. Passadas três páginas, os Malaquias são apenas os três filhos. Os pais são atingidos por um raio enquanto dormem descansados na sua cama e morrem "esturricados".
Nico o mais velho é acolhido pelo fazendeiro local que vê nele potencial para trabalhar. Antônio e Júlia são entregues a uma instituição de religiosas francesas que acolhe crianças para adopção. Júlia fica uns anos na instituição a receber educação para depois ser entregue a uma mulher muçulmana que a leva para sua casa como sua empregada/filha adoptiva. Antônio, o menino que não cresce, vai ficando junto das freiras, a quem se afeiçoa.
Os três irmãos crescem separados sem nunca se esquecerem uns dos outros, com Nico a lutar para que se possam voltar a reunir.
Uns anos mais tarde, no dia de casamento de Nico, Antônio vai viver com o jovem casal e Júlia foge de casa da patroa/mãe adoptiva para ir ao casamento do irmão. Júlia nunca chega a Serra Morena. Parece que no seu destino não está escrito o seu regresso à terra onde nasceu. A sua vida nunca mais será a mesma...
Por essa altura a electricidade e a promessa do progresso chegam a Serra Morena, com a entrada em produção de uma barragem. Como consequência, Serra Morena irá ser inundada, e todos o seus habitantes e respectivas habitações têm de ser transferidos para um novo lugar, mais elevado. Um preço que quase todos estão dispostos a pagar. Quem não deseja o progresso e o desenvolvimento? A expectativa de todos é grande.
E sobre a história não sei muito bem que mais dizer. A verdade é que não achei o livro muito interessante... Costumo gostar de livros como este, com frases e capítulos muito curtos, com a presença de algum surrealismo e com personagens que tinham tudo para me cativarem. No entanto, neste caso pareceu não resultar para mim. Nem sei bem dizer porquê. Achei a história pouco desenvolvida, as personagens idem e os acontecimentos pouco interligados... No todo, o livro surgiu-me pouco coeso, demasiado fragmentado. Não sei se captei bem a mensagem que se quis passar, se é que havia alguma...
As muitas reticências que usei ao longo deste post espelham bem o sentimento que o livro me deixou.
O livro lê-se bem, uma vez que os capítulos são pequenos e as personagens são-nos naturalmente simpáticas e, tal como a história, são até certo ponto intrigantes, mantendo-se a curiosidade que nos vai fazendo ler mais uma página.
Não sei se voltarei a ler alguma coisa dela. É provável que não. Tenho a sensação de que Andréa del Fuego é uma candidata a constar na minha lista de escritores que, embora lhes reconheça mérito, simplesmente não consigo criar a química necessária para gostar deles. Nesta lista estão escritores como Ernest Hemingway, Ken Follett, Martin Amis e Agustina Bessa-Luís, entre outros.
Posto isto, recomendo, porque sei que a química que cada leitor cria com o livro que está a ler é muito subjectiva e tão pessoal que a minha opinião vale o que vale. ;)
Boas leituras!
Excerto:
"Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As carga invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão acendeu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo."






