julho 17, 2013

O Desfile da Primavera - Richard Yates

Título original: The Easter Parade
Ano da edição original: 1976
Autor: Richard Yates
Tradução: Nuno Guerreiro Josué
Editora: Quetzal

"Considerado o grande romance de Richard Yates, a par de Revolutionary Road, O Desfile da Primavera conta a história de duas irmãs, Sarah e Emily Grimes. Conhecêmo-las ainda crianças, com os pais recém-divorciados. E ao longo de quarenta anos, acompanhamos os caminhos que as tornam mulheres muito diferentes, embora tentando ambas lidar com um mesmo passado difícil. Sarah, a estável, a determinada, vai para Long Island, vive um casamento infeliz, e acaba por sucumbir ao seu desespero silencioso; Emily, a precoce, a independente, fica em Nova Iorque, percorre vários empregos sem interesse, dorme com vários homens, perde a carreira e perde-se no álcool. Neste sombrio e magistral romance, e com a mestria que caracteriza toda a sua obra, Richard Yates reforça a ideia de que não existe aquilo a que se chama uma vida normal."

Não é novidade que gosto de Richard Yates, mesmo com todas as desgraças de que são vítimas praticamente todas as suas personagens. O melhor é que, mesmo sabendo de antemão que com Richard Yates não há contemplações, quando está mau, das duas uma, ou o livro acaba ou então vai piorar, mesmo sabendo isso, a esperança é algo que nunca me abandona ao longo da leitura. O Desfile da Primavera não é excepção, é antes a confirmação da regra, Richard Yates é bom e as suas histórias são desconcertantes... Nem sei se devia gostar tanto delas... :)

Sarah e Emily são irmãs, filhas de pais separados. A mãe, Pookie é alguém que não sabe muito bem o que fazer da vida. Depois do divórcio, arrasta as filhas de casa em casa, sem conseguir ficar muito tempo num sítio. Dá muita importância às aparências e deposita todas as esperanças na filha mais velha, Sarah, bonita e inteligente, que de certeza casará bem e lhe abrirá as portas para a vida com que sempre sonhou. Não é má pessoa, é notório o amor que tem pelas filhas. Vejo-a mais como uma das muitas pessoas que deabulam pelo mundo sem orientação, sem ferramentas para vingar e para se integrarem, para viver todos os sonhos que têm. Sem nada que as destaque, acabam a viver num comprimento de onda distinto do dos que a rodeiam. E, embora não seja má pessoa acaba por afastar as filhas, que se tornaram o seu único projecto de vida. Projecto que infelizmente não lhe correu tão bem como esperava.
O pai trabalha como revisor num diário importante em Nova Iorque e, vai mantendo contacto com as filhas da forma que pode, acompanhando as incessantes mudanças da ex-mulher. É um homem que paira sobre a infância destas duas miúdas, marcando-a de forma positiva, mas sem fazer efectivamente a diferença na vida disfuncional que levam com mãe. É uma espécie de porto de abrigo, algo que as mantém ancoradas a alguma normalidade. E embora a hipótese de irem viver com ele, aparentemente nunca tenha sido considerada, sentimos enquanto leitores que é algo que só não acontece, porque pai e filhas sabem que isso seria o fim da frágil saúde mental da mãe.

E assim vão crescendo Sarah e Emily. Sarah, a mais velha, é bonita, encantadora e genuinamente boa pessoa. É inteligente e bem humorada, podemos dizer que é a normal da família. É um espírito simples, que apenas deseja ser feliz, sem grandes ambições para além de casar e ter filhos. Emily, uns anos mais nova, parece ter nascido já velha, preocupada com tudo, cheia de medos e inseguranças e com terror de ficar sozinha, é instável e egocêntrica. A sua personalidade é mais complexa, mais densa que a da irmã.
Quando crescem, a segura e divertida Sarah torna-se mais insegura e dependente, após anos de um casamento infeliz, que parecia ter tudo para ser um sucesso, a lutar para manter as aparências, a achar que o amor é apenas aquilo que a vida lhe deu a conhecer, fiel até à última estalada.
Emily, a menina que se recusava a ficar sozinha em casa, torna-se uma mulher independente, procurando colmatar as ansiedades com relações fugazes e através da bebida. Aliás a bebida é o que estas três mulheres acabam por ter em comum, bebem para esquecer. São sem qualquer dúvida alcoólicas e é, no fim, o álcool a única constante das suas vidas.
Emily parece incapaz de amar e de criar uma ligação verdadeira com alguém, embora goste da irmã, quando a oportunidade surge, nada faz para a ajudar, e mantém uma relação muito distante com a mãe. Tem tendência para se aproximar de homens com baixa auto-estima. Estes são os que ela acaba por deixar um dia, os que ela realmente gostaria de manter na sua vida, acabam por sair da dela. Emily não é, no entender destes homens, para casar.

Emily é uma espécie de narradora da história da família Grimes, porque é através dos olhos dela que conhecemos a mãe, o pai, a irmã, o cunhado e os sobrinhos. A última das Grimes, acaba sozinha como sempre temeu, consciente o suficiente para perceber que está a enlouquecer e que afinal é capaz de sentir, pelo menos remorso...

Gostei bastante, gosto muito da escrita e da ténue linha que Yates cria, com mestria, entre a dura realidade e o absurdo, a pura ficção, aqueles elementos que nos fazem manter os pés no chão, conscientes de que se trata de um livro. Gosto das personagens bem desenvolvidas e complexas, sem serem indecifráveis. Gosto da forma como nos aproxima dos sentimentos das personagens, sentimos os desconfortos, os dilemas morais que atravessam, a pontinha de felicidade que vislumbram e perseguem ou que deixam simplesmente passar, porque perseguir o que se quer exige muito mais do que aquilo que se está disposto a dar.

É triste? É.
É bom? É.
Recomendo? Claro!

Boas leituras!

Excerto:
"Mas parou de chorar abruptamente quando se apercebeu que até isso era mentira: aquelas lágrimas, tal como todas as outras que derramara durante toda a sua vida, eram apenas para ela - para a pobre e sensível Emily Grimes, que ninguém compreendia, e que não compreendia nada."

julho 10, 2013

A Letra Encarnada - Nathaniel Hawthorne

Título original: The Scarlet Letter
Ano da edição original: 1850
Autor: Nathaniel Hawthorne
Tradução: Fernando Pessoa
Editora: Publições Dom Quixote
"Um romance dramático e intenso, uma obra-prima.

«Embora eu prefira os seus inumeráveis rascunhos, apontamentos, esboços e pequenos textos de toda a ordem, "A Letra Encarnada" é um livro admirável daquele que foi, a par de Melville, o grande escritor americano do século dezanove. Aliás amigos íntimos (alguns insinuam que mais do que isso) professavam admiração recíproca. Hawthorne era um homem estranho. De beleza física invulgar foi um puritano toda a vida, sujeito a crises de desânimo e insegurança constantes. Valia-lhe o apoio da mulher, muito mais forte psicologicamente do que ele e que se manteve a seu lado numa dedicação inalterável. Este romance dramático e intenso é uma obra- -prima, como praticamente tudo o que o autor deixou. Curioso o facto de uma novela tão americana na sua trama essencial tocar o leitor de cultura muito diferente pelo jogo de emoções e temas. Apesar de, no fundo da alma, Hawthorne ser um moralista severo, é capaz de flagelar com arrebatamento a severidade essa parte de si mesmo, na autocrítica arrepiante a que procedeu toda a sua vida.»"

Este foi um livro muito difícil de ler, de continuar a ler, de acabar sem o deixar de parte... Logo no início, antes de o autor entrar na história de Hester Prynne, do reverendo Dimmsdale e da letra encarnada, há um prelúdio enfadonho sobre a vida numa alfândega algures no nenhures onde o autor foi parar e onde tropeça na letra encarnada de Hester. São páginas e páginas de uma escrita nada fluída, difícil de acompanhar e cujo tema pouco ou nada acrescenta ao que se vai contar. Confesso que não desisti de o ler porque não desisto de um livro com tão poucas páginas lidas e porque queria muito gostar dele... :-) 

Quando finalmente chegamos à história da letra encarnada de Hester o livro continua a não funcionar para mim. Percebe-se desde logo quem é o pai da pequena Pearl, filha do pecado, fruto de uma paixão proibida. Não havendo grandes revelações para contar, torna-se até irritante quando as coisas não são ditas abertamente, como se o leitor fosse burro... O ritmo da história é lento, e o livro poderia ter apenas dez páginas. Senti alguma dificuldade em situar-me na linha temporal da história, medida principalmente pela idade de Pearl que é uma criança estranha com comportamentos e pensamentos desadequados à idade que dizem ter

Enfim, pessoalmente estava à espera de algo mais inspirado, não me identifiquei com a escrita nem com a forma como a história é contada. As personagens até têm potencial mas perdem-se um pouco na história e acabam por ser todas muito bidimensionais e sem profundidade.

Deste não consigo dizer que gostei, será que toda a sua obra é assim? Espero que não... Se bem que, ao equipararem-no a Melville, não sei se Nathaniel Hawthorne é escritor para mim..

Boas leituras!

Excerto:
"O espaço em frente da cadeia, na travessa do mesmo nome, estava ocupado, em certa manhã de Verão, há não menos de duzentos anos, por um número razoavelmente grande de habitantes de Boston,todos eles com os olhos fitos na porta ferrada de carvalho. Entre qualquer outra população, ou em qualquer período posterior na história da Nova Inglaterra, a rigidez austera que petrificava os rostos barbados desta boa gente anunciaria que se tratava de qualquer assunto terrível. O menos que indicaria seria a antecipação da morte de qualquer criminoso célebre, a quem a sentença de  um tribunal legítimo não tinha senão confirmado a da opinião pública. Mas, naquela primitiva severidade do carácter puritano,uma conclusão desta ordem não podia ser tirada com segurança. Podia tratar-se de um servo mandrião, ou de uma criança desobediente, que os pais tivessem entregado às autoridades civis, para ser fustigada no pelourinho. Podia ser que o Antinomiano, um Quaker, ou qualquer outro membro de uma seita heterodoxa, estivesse para ser corrido às vergastadas para fora da cidade, ou que um índio vadio e vagabundo, que a aguardente do branco tivesse tornado turbulento, estivesse para ser devolvido pelo mesmo processo aos seio e à sombra das florestas.

junho 08, 2013

Feira do Livro de Lisboa - 2013

E acabou, para mim, mais uma Feira do Livro de Lisboa.
Este ano não consegui visitá-la tantas vezes como gostaria mas posso dizer que aproveitei bem as visitas que consegui fazer.

Estes foram os eleitos do ano (todos livros do dia):

 - A Letra Encarnada de Nathaniel Hawthrone: Tinha alguma curiosidade relativamente a este escritor desde que li uma pequena história nesta colectânea: Ultimate Short Stories. Vi o livro a um preço bom e decidi comprá-lo. Aliás, já o estou a ler, e não estou a dar o dinheiro por mal gasto;

 - Gritos do Passado de Camilla Läckberg: Andava com vontade de ler um policial e tenho ouvido coisas muito boas acerca desta escritora nórdica. 

 - O Diabo e Outros Contos de Lev Tolstói: Gosto dos escritores russos e não gosto muito de contos. Curiosamente os contos que me têm feito mudar de opinião sobre contos, têm sido os escritos por escritores russos. Só pode ser bom este livro, certo?

 - O Apocalipse dos Trabalhadores de valter hugo mãe: Este não precisa de explicação. É valter hugo mãe e eu gosto. Começa a ser tradição todos os anos comprar um dele na Feira do Livro. :)

Poderiam ter sido mais se eu tivesse tido oportunidade de lá voltar a semana que passou, mas entre o ter ficado doente e o trabalho, não tive tempo para mais nenhuma visita, e o fim de semana é para outros passeios! :)

Comprei ainda umas coisinhas para as minhas pipocas. Parece-me que este ano havia mais barraquinhas dedicadas às crianças, fartei-me de andar antes conseguir decidir o que comprar para elas. O difícil era mesmo escolher e conter-me, porque com elas a entrar na idade de desgraçar a carteira da tia, o controlo é cada vez mais complicado. :) Tudo compensado com o sorriso rasgado que nos devolvem, claro! :)


Este ano fiquei com melhor impressão da feira. Os alfarrabistas tinham livros diversificados, não tão baratos quanto isso, mas pelo menos eram variados. À hora de almoço via-se imensa gente a passear pelo Parque, não sei se a comprar, mas pelo menos compunham o ambiente. Os preços não foram, à semelhança dos outros anos, nada de especial, principalmente nas grandes editoras (Leya e Porto Editora), mas as restantes compensam com livros do dia que valem mesmo a pena. Ainda continuo chocada com os preços que a Bertrand colocou nos livros de oportunidade, colocados à parte, como se fossem mesmo muito baratos... Não percebo qual foi a ideia. Enfim, estranhezas à parte, foi uma boa edição!

Adeus Feira do Livro de Lisboa, cá te espero para o ano!

Boas leituras!

maio 26, 2013

Praça de Londres - Lídia Jorge

Título original: Praça de Londres
Ano da edição original: 2008
Autor: Lídia Jorge
Editora: Publicações Dom Quixote

"Em Praça de Londres, reúnem-se 5 contos de Lídia Jorge.
Além do conto que dá o título à recolha, dela ainda fazem parte Rue du Rhône, Branca de Neve e Viagem para Dois, narrativas já antes publicadas.
O último conto, Perfume, é um inédito que a autora dedica ao realizador turco Yilmaz Güney, autor do filme Yol. Trata-se de uma espécie de réplica à história de amor que esse filme narra, transplantada para uma outra geografia humana.
Praça de Londres tem como subtítulo Cinco Contos Situados, por se tratar de narrativas inscritas em espaços urbanos reconhecíveis e por invocar instantes de vida marcantes, colhidos do quotidiano normal.
De um modo geral, o tom destas cinco narrativas oscila entre o intimista e o irónico. A questão da inocência e da perda é um dos temas que lhes dá unidade."

Lídia Jorge é uma escritora sobre a qual ainda não me consegui decidir. Gosto? Não gosto? É-me indiferente? Não sei... Li, há já alguns anos, O Vento Assobiando nas Gruas, e sou incapaz de dizer sobre o que é. Tenho ideia de uma personagem feminina um pouco estranha mas tudo o resto é uma névoa. Lembro-me que até gostei do livro, que o achei um pouco confuso, ou estranho, mas não fiquei com má impressão. O facto de não ter a certeza se li mais algum dela é a razão pela qual me sinto um pouco baralhada. Quase juro que já li O Vale da Paixão, mas a sinopse não me diz nada, absolutamente nada... Enfim, já passaram muitos anos e já sabemos que a memória nem sempre colabora, pelo que decidi que Praça de Londres vai passar a ser o meu primeiro livro de Lídia Jorge, o passado foi apagado (o pouco que ainda permanecia).

Praça de Londres é uma colectânea de pequenos contos. Cinco contos que têm como fio condutor o desejo e a perda.  O desejo de pertencer, de possuir, de triunfar, de sobressair. A perda da inocência, a perda de alguém e a descoberta de que a esperança é ultima a morrer, porque muitas vezes o que parece nem sempre é.

Gostei das histórias e da capacidade de Lídia Jorge fugir ao óbvio, a escrita não é linear, o que nos conta não é comum e as personagens são diferentes (no bom sentido). Para primeira incursão, consciente,  na obra de Lídia Jorge posso dizer que fiquei com vontade de ler algo mais elaborado, que lhe dê mais espaço para crescer. 

Gostei e recomendo. É uma leitura mais que agradável. :)

Excerto:
"Mínimo, o garoto disse-lhe - «Não tenha medo, dona, vamos aqui, abrigados na sombra do seu casaco...»
Maria da Graça recomeçou a andar.
«Na sombra do meu casaco...» - pensou. Como entre os atletas, no momento das corridas. O que vai na frente corta o ar, abriga os outros do frio ou do calor, facilita a vida aos de trás. Naquele caso, três crianças pouco enroupadas procuravam o cone de protecção criado pela aba do seu casaco para se abrigarem do vento frio. Então ela virou-se e viu que era, quatro. Quatro garotos desciam a Avenida EUA, à sobra do seu casaco. E ela pensou na impropriedade da palavra sombra, tão bem aplicada àquela realidade, pensou também na colorida linguagem das crianças, sempre a fazerem nascer as realidades pela primeira vez." 

maio 22, 2013

A Paixão de Maria Madalena (vol.1) - Margaret George

Título original: Mary Called Magdalene
Ano da edição original: 2002
Autor: Margaret George
Tradução: Paulo G. Silva
Editora: Saída de Emergência 

"Margaret George apresenta-nos o seu romance histórico mais ambicioso e envolvente: a história de Maria Madalena, a discípula e companheira de Jesus. Mas quem foi de facto esta mulher? Uma prostituta? uma representação do sagrado feminino? Uma líder da Igreja? Ou todas elas? Embora as referências bíblicas a Maria Madalena sejam surpreendentemente breves, continuam a provocar controvérsia, curiosidade e veneração. Conhece-se mais sobre ela do que a maioria dos discípulos de Cristo e ainda hoje é reverenciada como a "Apóstola dos Apóstolos". Brilhantemente sustentada em investigações históricas e bíblicas, Margaret George recria a vida de Maria Madalena. Da sua infância e adolescência como uma menina comum - com os seus sonhos, visões, erotismo e o encontro com Jesus - até à sua transformação numa mulher adulta e independente, que vive uma notável transformação espiritual. Em última instância, Maria Madalena transcende a história e a ficção para se transformar num "diário da alma", numa viagem que é pessoal mas também universal. A sua é uma história de fé e, como tal, Maria Madalena é a soma de todas as mulheres." 

Este é apenas o primeiro volume da vida de Maria Madalena que Margaret George se propôs contar. Este é também o primeiro livro que li desta escritora e, embora o tema e a abordagem sejam demasiado religiosas para o meu gosto pessoal, posso dizer que gostei da escrita dela e, fiquei com curiosidade para ler algo menos católico. Na realidade, o nome de Margaret George suscitou-me curiosidade por causa do livro (três volumes na edição portuguesa) As Memórias de Cleópatra que, pretendo ler um destes dias, acredito seja menos religioso que este sobre a vida de Maria Madalena, a mulher que amou Jesus.

O primeiro volume de A Paixão de Maria Madalena acompanha a vida de Maria desde a infância, onde se cruza com Jesus pela primeira vez, conta-nos o seu casamento com Joel, um homem bondoso e tolerante que a ama com sinceridade. Descreve-nos a sua luta contra os demónios que a atormentam e consomem desde miúda e o seu reencontro com Jesus de Nazaré, que havia começado recentemente a cumprir o seu destino. Infelizmente os demónios que atormentam Maria foram também um dos responsáveis pela minha crescente impaciência com a história... Eu sei que naquela época histórias de pessoas possuídas eram comuns e todos acreditavam ser possível um demónio apoderar-se do corpo de alguém e toldar-lhe as vontades e o pensamento. Nesse aspecto não vejo qualquer problema com o facto de se falar nisso. O que me deixou impaciente foi o facto de o corpo de Maria parecer uma pensão barata onde todos os demónios entravam sem pré-aviso e o facto de a história nos ser contada como sendo credível e ninguém encarar o problema de uma outra qualquer perspectiva, como considerar a hipótese de um esgotamento nervoso (conceito talvez demasiado avançado para a época), uma doença mental, sei lá, qualquer coisa menos risível...
Para além das referências demoníacas que achei serem demasiadas, tornando a história, para mim pouco credível, não achei grande piada a Jesus... Estava à espera de uma personagem mais carismática, mais envolvente, mais marcante, não só pela figura histórica que é, mas principalmente pelo inquestionável potencial literário que tem. Acho que não gostei muito do Jesus de Margaret George porque, se fosse conterrânea dele e o ouvisse pregar tenho a certeza de que não seria um dos seus apóstolos... Julgo que Margaret George não conseguiu transmitir para o papel o magnetismo que ele teria. Se nada soubesse sobre a vida de Cristo (e sei apenas o básico) este não teria sido o livro que me teria convertido ao catolicismo porque tudo o que este Jesus sabe fazer é curar os desgraçados e mandar demónios irem pregar para outra freguesia! Impressionante? Sim. É suficiente? Para mim nem por isso.

Estes foram os aspectos menos bons que, para mim me aborreceram, e fizeram distrair da personagem de Maria que essa sim está bem conseguida. Forte, determinada, inteligente e humana que a ter sido enquadrada num outro cenário poderia ter sido uma personagem memorável.

Acho que este foi o livro de oferta a que tive direito quando mandei vir outros três da Saída de Emergência por isso não tinha grandes expectativas relativamente a ele, principalmente pelo tema religioso. No entanto, não deixei de ter alguma pena que a abordagem não tivesse sido outra, menos literal umas vezes, mais literária outras vezes. Não estava à espera de um Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Saramago, mas nesse caso seria certo que iria ler o segundo volume, coisa que não estou muito certa que venha a acontecer com este. Ainda se não soubesse como acaba... :p

Começo a perceber que livros sobre religião não são para mim, principalmente sobre o judaísmo. Demasiados rituais, proibições e castrações para a minha (in)sensibilidade religiosa. Como não conheço a religião nem nenhum judeu, não a vou julgar pelo que leio em romances, mas a forma como são descritos não é nada favorável...
A escritora conseguiu captar bem o ambiente e a forma como as pessoas viviam na época, o que torna o livro, nesse aspecto, interessante. Não é mau, longe disso, acho que é normal... sem grandes rasgos de criatividade ou originalidade. Aliado ao tema que não me seduz, o livro para mim não resultou.
Recomendo? Não posso recomendar um livro que ainda não li todo, muito menos um que não tenho vontade de continuar a ler. No entanto, acredito que será do agrado de muito boa gente, gente mais iluminada que eu, claro! 

Boas leituras!

Excerto:
"Quase deu um grito, mas conseguiu abafá-lo. Estendeu os braços e olhou para as marcas. Pareciam arranhões feitos por espinhos. Tentou relembrar-se de tudo o que fizera no dia anterior. Seria possível que tivesse chegado perto de cardos? Ou ter-se-ia tornado sonâmbula? Já tinha havido na cidade o caso de um menino que caminhava a dormir; saía a andar, em plena noite, e na manhã seguinte não se lembrava de nada. Os seus pais tiveram de o amarrar à cama para evitar que saísse para a rua. Ficava apavorada só de pensar que poderia ter saído de casa, desprevenida e exposta aos perigos."

maio 02, 2013

O Homem Lento - J. M. Coetzee

Título original: Slow Man
Ano da edição original: 2005
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote

"Neste romance, Coetzee oferece-nos uma profunda meditação sobre o que faz de nos humanos e o que significa envelhecer, reflectindo no modo como vivemos as nossas vidas.
Como todas as grandes obras literárias, O Homem Lento levanta questões mas raramente oferece respostas. Em consequência de um acidente, Paul Rayment altera a perspectiva que tem da vida e começa a dedicar-se ao género de preocupações universais que nos definem a todos: O que significa fazer o bem? O que é que nas nossas vidas é, em última análise significativo? É mais importante que alguém nos ame ou que alguém se interesse por nós? Como definimos o local a que chamamos "casa"?
Na sua voz lúcida e firme, Coetzee debate-se com estas problemáticas. O resultado é uma história profundamente comovedora, sobre o amor e a mortalidade, que deslumbra o leitor a cada página." 

Agora que a Feira do Livro deste ano se aproxima a passos largos, chegou a altura de ler os livros que foram comprados o ano passado. O Homem Lento do Coetzee foi um dos que veio para casa comigo, deixando para trás tantos e tantos livros por ler...

Gosto de Coetzee, gosto da forma como conta uma história e de como constrói as personagens.
Deste, O Homem Lento, não gostei tanto... A verdade é que até estava a gostar, mas a "aparição" de Elizabeth Costello deixou-me um pouco confusa e o livro tornou-se estranho. Achei a personagem pouco credível e a forma com foi introduzida na história despropositada. O livro acabou por não ser bem aquilo que eu estava à espera, no entanto, não dei o meu tempo por desperdiçado, porque, tirando Elizabeth Costello, com quem confesso ter embirrado um pouco, as restantes personagens são interessantes e, à semelhança do que aconteceu com outros livros que li do mesmo autor (No Coração desta Terra e A Idade do Ferro, já comentados aqui e aqui), a personagem principal, Paul Rayment, está muito bem construída.

Rayment é um sexagenário divorciado e sem filhos, que num dos seus passeios diários de bicicleta vê a sua vida mudar por completo ao ser abalroado por um carro. O acidente não o mata, mas como consequência do mesmo é-lhe amputada uma perna e alguma da sua vontade de viver desaparece.
Sem família que o possa ajudar nesta fase da sua vida, Paul começa a questionar até que ponto, ao longo da sua vida, fez as melhores escolhas e se ainda vai a tempo de corrigir algumas delas.
O Homem Lento conta a história de Paul Raymen, mas poderia ser a história de outro idoso qualquer, dos muitos que chegam à terceira idade sozinhos, porque nunca lhes passou pela cabeça poderem vir a precisar de alguém para além deles próprios.
É a história de um homem que, com mais de sessenta anos se vê obrigado a aprender a viver com limitações físicas, dependente dos outros, de estranhos condescendentes que o tratam como um mentecapto. O ajustamento a um mundo que aparentemente já não lhe reconhece utilidade possível é difícil e doloroso. A resistência à mudança por parte dele é grande o que dificulta, e muito, a convivência dos outros com ele. A ideia de se suicidar ronda-o permanentemente, até ao dia em que conhece Marijana, a enfermeira croata, contratada para o ajudar na adaptação deste à sua nova vida. Marijana é a primeira pessoa, depois do acidente a tratá-lo com respeito, sem condescendência, de forma profissional. Esta mulher dos balcãs, para além da ansiada dignidade, traz a Rayment e à sua vida empoeirada, uma lufada de ar fresco.


O Homem Lento é, literalmente Paul Rayment, que lentamente vai procurar encontrar o seu lugar no mundo, tentando deixar para a história mais do que uma invejável colecção de velhas fotografias, a serem expostas, depois da sua morte. Rayment quer ser recordado com carinho, quer que alguém lhe sinta a falta. Quem não deseja o mesmo? :)

Este é um livro, como muito bem diz a sinopse, que levanta uma série de questões, relacionadas com o envelhecimento, com a solidão na terceira idade, com o amor interessado ou desinteressado, com o sentimento de pertença a um sítio ou a alguém, com a vontade de fazer o bem, de sentir que toda a nossa vida teve significado, não tendo sido uma mera passagem.

Gostei da história, gostei das ideias e das reflexões que levanta, gostei das personagens, mas de uma forma geral, se este tivesse sido o meu primeiro livro de Coetzee talvez não tivesse ficado tão impressionada com o escritor, como fiquei depois de ler No Coração desta Terra.
Conhecendo um pouco o escritor, consigo apreciar até as suas obras menos inspiradas e por isso, este foi um livro que me fez companhia e que me deu gozo ler. Desta forma só o posso recomendar!

Boas leituras!

Nota: Aparentemente Elizabeth Costello, a personagem com quem embirrei, é uma repetente nas obras de Coetzee. Existe um livro intitulado Elizabeth Costello que, a ter sido lido primeiro me poderia ter ajudado a enquadrar a forma intempestiva com que esta invade a vida de Paul Rayment. Talvez um dia o leia...

Excerto:
"Dirá alguma coisa sobre ele, essa preferência nata preto e branco e matizes de cinzento, essa falta de interesse pelo novo? Seria disso que as mulheres sentiam a falta nele, em particular a sua mulher: cor, abertura?
A história que contou a Marijana foi que guardava fotografias antigas por fidelidade aos seus objectos, os homens, mulheres e crianças que ofereciam os seus corpos à lente do estranho. Mas isso não é a verdade integral. Guarda-as por fidelidade às fotografias em si, às reproduções fotográficas, a maioria delas sobreviventes, únicas. Dá-lhes um bom lar e vela, tanto quanto consegue, tanto quanto alguém pode, por que elas tenham um bom lar depois de ele desaparecer. Talvez, por seu turno, algum estranho ainda por nascer vá rebuscar o passado e guarde uma fotografia sua, do extinto Rayment da Doação Rayment."

abril 21, 2013

Norwegian Wood - Haruki Murakami

Título original: ノルウェイの森 (Noruwei no mori)
Ano da edição original: 1987
Autor: Haruki Murakami
Tradução do Inglês: Alberto Gomes
Editora: Civilização Editora

"Ao ouvir a sua música preferida Beatles, Norwegian Wood, Toru Watanabe recorda-se do seu primeiro amor, Naoko, a namorada do seu melhor amigo Kizuki. Imediatamente regressa aos seus anos de estudante em Tóquio, à deriva num mundo de amizades inquietas, sexo casual, paixão, perda e desejo – quando uma impetuosa jovem chamada Midori entra na sua vida e ele tem de escolher entre o futuro e o passado."

Norwegian Wood é uma música do Beatles, uma das preferidas de Naoko e que despoleta a torrente de memórias em Toru Watanabe, anos mais tarde, sempre que a ouve. São essas memórias e a história que envolve estes dois adolescentes, na altura, que Haruki Murakami se propõe partilhar connosco.

Quando Toru conhece Naoko esta é a namorada de Kizuki, o seu melhor e único amigo. Kizuki funciona como o núcleo agregador do trio mantendo-o unido. Quando Kizuki, com dezassete anos e sem que nada o fizesse prever, se suicida, deixa a namorada e o melhor amigo sozinhos e perdidos. Naoko e Toru perdem o contacto, a relação dos dois sem Kizuki não parece fazer muito sentido. Anos mais tarde os dois voltam a encontrar-se, por acaso, e reatam a amizade.
Toru está na faculdade, não é a pessoa mais sociável do mundo, sendo, no entanto uma pessoa extremamente equilibrada e madura. No dia em que Kizuki morreu, houve algo que se quebrou dentro dele, algo que nunca voltou a recuperar, mas conseguiu, de alguma forma, seguir com a  sua vida e, embora não seja um estudante típico vai vivendo o dia  a dia de acordo com aquilo em que acredita.
Naoko conhecia Kizuki quase desde que nasceram, o terem-se tornado namorados foi algo natural e para eles quase inevitável. Quando Kizuki morre, Naoko perde-se para o mundo, e a sua já frágil saúde mental degrada-se, torna-se uma espécie de espectro com dificuldade em comunicar, em falar, escrever ou em expressar-se. Quando reencontra Toru sente, pela primeira vez em anos, reacender-se a vontade de viver, de ser compreendida e amada. É difícil mas parece estar disposta a tentar e Toru parece disposto a ajudá-la. Gosta dela e assume naturalmente a missão de ajudá-la a manter-se ligada à vida e a fortalecer esta ligação. Afinal ambos perderam algo com a morte de Kizuki, só os dois se podem ajudar um ao outro.
Por muito amor que existisse, entre os dois, desde o princípio que temos dificuldade em acreditar num final feliz para estes dois. Por muita boa vontade que exista, não passam de dois jovens, acabados de ser largados no mundo, às portas da idade adulta, e os traumas e as feridas com que têm de lidar são um fardo demasiado grande para qualquer um deles.
Naoko, num dos seus períodos mais negros decide afastar-se e internar-se numa instituição para pessoas que, não sendo loucos, são pessoas que em determinada altura das suas vidas perderam alguma capacidade de se manterem socialmente capazes e integradas. Toru é deixado novamente sozinho e a sofrer com a distância e falta de notícias de Naoko. É nessa altura que conhece Midori, uma rapariga cheia de vida, descontraída também ela com uma história familiar complicada, mas que consegue manter a sanidade. Midori é a antítese de Naoko, as duas são como o dia e a noite. Inicialmente Midori é apenas uma amiga para Toru, alguém com quem gosta de passar o tempo e com quem se identifica. Só se apercebe dos seus verdadeiros sentimentos quando quase a perde. Toru fica destroçado porque não era suposto apaixonar-se por outra pessoa. Encara o que sente por Midori como uma traição a Naoko e aos projectos que tinha traçado para os dois.
É como diz a sinopse, uma escolha entre o passado e o futuro, escolha que acaba por ser facilitada pelo destino...

Este é um livro triste, com muita dor e muitas cicatrizes mal saradas. A morte é uma constante ao longo de todo o livro, mais como uma ameaça que paira sobre todos eles e que, de vez em quando, atinge efectivamente alguém.
Para mim é um livro que capta muito bem alguns dos aspectos mais sombrios da adolescência e do difícil que é crescer. Capta muito bem a confusão, o medo, a tensão sexual (fala muito de sexo) e aquela sensação que todos o adolescentes têm de que o mundo parece conspirar contra eles, seres incompreendidos.
Fala muito de suícidio e de perda. É por isso um livro triste, essencialmente triste.

Haruki Murakami mesmo quando não é genial é muito bom. É o que acontece com este Norwegian Wood, é bom mas a genialidade que Murakami imprime a quase todas as suas obras não é tão evidente.

Gostei e recomendo!

Excerto:
"A voz serena da Midori rompeu por fim o silêncio: - Onde estás agora?
Onde estava eu agora?
Afastei o auscultador, levantei a cabeça e virei-me para ver o que havia para lá da cabina telefónica. Onde estava eu agora? Não fazia ideia. Não fazia a mínima ideia. Que lugar era este? Tudo o que perpassava pelos meus olhos eram os inúmeros vultos de pessoas caminhando para algures. Eu chamava uma e outra vez pela Midori do centro morto deste lugar que não era lugar nenhum."

Gostava de ver o filme - Norwegian Wood - acho que, neste caso é capaz de ser uma mais valia para o livro: