setembro 14, 2013

[ebook] The Casual Vacancy - J. K. Rowling

Título original: The Casual Vacancy
Ano da edição original: 2012
Autor: J. K. Rowling

"When Barry Fairbrother dies unexpectedly in his early forties, the little town of Pagford is left in shock. Pagford is, seemingly, an English idyll, with a cobbled market square and an ancient abbey, but what lies behind the pretty facade is a town at war. Rich at war with poor, teenagers at war with their parents, wives at war with their husbands, teachers at war with their pupils...Pagford is not what it first seems.
And the empty seat left by Barry on the parish council soon becomes the catalyst for the biggest war the town has yet seen. Who will triumph in an election fraught with passion, duplicity and unexpected revelations? Blackly comic, thought-provoking and constantly surprising, The Casual Vacancy is J.K. Rowling's first novel for adults."

Estava difícil chegar ao fim deste livro não porque não fosse interessante mas porque ler ebooks é definitivamente diferente e mais demorado, especialmente quando sou daquelas cujo tablet não é para andar na mala e fica bem é no sofá. ;) Cuidados à parte com o aparelho em si, acho que é mais o formato digital que ainda não me convenceu... Terei certamente muito tempo para me adaptar a esta nova realidade. :)

The Casual Vacancy tem um ritmo lento, a história é contada permitindo que nos vamos familiarizando com as personagens, que as vamos conhecendo e que o final, imprevisível e trágico, seja inevitável.

Barry Fairbrother morre subitamente, no parque de estacionamento do restaurante onde iria comemorar mais um aniversário de casamento, vítima de um aneurisma. Barry era um membro activo na comunidade de Pagford, uma pequena cidade no interior de Inglaterra, pertencendo ao Conselho da cidade, lugar que fica vago com a sua morte.   
Barry morre numa altura em que a cidade de Pagford se encontra numa guerra para retirar da sua jurisdição um bairro pobre, o Fields, onde vivem os mais pobres, os desempregados, os subsidío-dependentes, os toxicodependentes, aqueles que envergonham os habitantes de Pagford cujas vidas são, aparentemente perfeitas e imaculadas. Barry, nascido e criado no Fields é um acérrimo defensor da inclusão social e um exemplo de como nem tudo o que tem origem no Fields é mau e imprestável. Empresta o rosto e o corpo à luta pela permanência do bairro na fronteira de Pagford, uma cidade que lhe permitiu estudar junto de alunos com posses e adquirir as ferramentas necessárias para sair do Fields e lutar pelos que lá permanecem. Grande parte da comunidade de Pagford preferia ver-se livre dos incómodos pobres e, já que estão numa de "limpeza" das redondezas, acabavam também com a clínica de reabilitação que parece ser o balão de oxigénio daquela gente toda.
Com a morte de Barry tudo isto parece impossível de alcançar, porque mesmos os que estavam do seu lado, parecem lutar pelas razões erradas e o destino daquela gente não parece ser o melhor. 

O livro tem como fio condutor, a necessidade de ocupar o lugar de Barry no Conselho de Pagford, e é através dos candidatos ao lugar que conhecemos a comunidade e os segredos que se escondem dentro  das suas casas perfeitas. O lugar é disputado pelos que são pró Fields e pelos opositores à permanência do bairro em Pagford.

J. K. Rowling aborda diversos temas, como a política local e os seus meandros, fala de adolescentes problemáticos que odeiam os pais e de adultos com graves problemas de personalidade que também não gostam assim muito deles próprios.
Temos violência doméstica, abuso sexual, toxicodependência e a eterna luta de classes entre os pobres e os ricos. Temos adolescentes a tentarem sobreviver a uma época onde quase nada faz sentido, com problemas de aprendizagem e tendências suicidas, sem auto-estima que, curiosamente, são das únicas personagens que evoluem e crescem e acreditamos serão melhores adultos que os pais. Por fim, temos adultos que vivem submersos nas suas vidinhas patéticas, infelizes e a lutarem para dar um significado aos dias que passam. Gente que se perdeu algures nos afazeres diários e que vivem completamente desligados dos problemas dos outros. Temos gente que se interessa pelos outros, desde que esses outros não interfiram na sua vida e gente que um dia acordou e era adulta, sem saber muito bem como chegou ali e como é suposto continuarem. Temos de tudo, portanto.
É um livro onde é difícil gostar das personagens, todas elas possuem uma ou outra característica que nos deixa de pé atrás. Criamos empatia com alguns do miúdos por serem isso mesmo miúdos na adolescência e por isso tipicamente desajustados e desajeitados, mas relativamente aos adultos, todos eles vão sendo riscados da nossa lista de "estou a torcer por ti". :)

O livro é um pouco deprimente, é certo, mas lê-se muito bem, com um final trágico, não inesperado, mas mesmo assim triste e frustrante. Não deixa de ser divertido, de uma forma distorcida e gostei da forma como a autora nos conta a história. Podia ser mais expedito, tornando-se, por vezes, repetitivo. Tirando estes aspectos, o único verdadeiro defeito que lhe encontro é ser o ingrato livro que se seguiu à saga Harry Potter sofrendo, naturalmente com isso. 
J. K. Rowling fez muito bem em cortar completamente com a saga Harry Potter se não tinha como objectivo continuar a escrever para um público mais jovem. Se tivermos isto em mente quando iniciamos a leitura, esta corre bem, muito bem até. No entanto, não deixa de ser difícil dissociar as duas coisas e existem momentos em que senti alguma pena pela normalidade de J. K. Rowling fora do universo Harry Potter.

Gostei e recomendo. A ver como se saí J. K. Rowling daqui para a frente.

Boas leituras!

Excerto:
"Then pain such as he had never experienced sliced through his brain like a demolition ball. He barely noticed the smarting of his knees as they smacked onto the cold tarmac; his skull was awash with fire and blood; the agony was excruciating beyond endurance, except that endure it he must, for oblivion was still a minute away."

setembro 01, 2013

A Luz é mais Antiga que o Amor - Ricardo Menéndez Salmón


Título original: La Luz es más Antigua que el Amor
Ano da edição original: 2010
Autor: Ricardo Menéndez Salmón
Tradução do inglês: Helena Pitta
Editora: Assírio & Alvim

"Numa segunda-feira de 1350, quando a Europa recupera da Peste Negra, o futuro papa Gregório XI visita o pintor toscano Adriano de Robertis para destruir a sua última obra, a blasfema Virgem Barbuda. A 25 de fevereiro de 1970, o pintor norte-americano Mark Rothko corta as veias no seu estúdio de Nova Iorque. A 11 de setembro de 2001, enquanto o mundo penetra na Era do Desconsolo, o pintor russo Vsévolod Semiasin redige uma carta onde revela as razões da sua loucura.

A história destes três mestres, baseada num enigma (o destino insuspeito da Virgem Barbuda de Adriano de Robertis) e gravitando em torno de uma ideia central (o compromisso do pintor com a sua arte face ao poder encarnado pela Igreja, Mercado ou Estado), é o eixo condutor de A Luz é mais Antiga que o Amor, livro de que um romancista chamado Bocanegra nos fala durante três momentos cruciais da sua vida: o nascimento da sua vocação, a morte da mulher e a sua consagração em 2040 como glória da literatura universal.

Depois da aplaudida Trilogia do Mal, Ricardo Menéndez Salmón regressa com um texto audacioso que pode ser lido como um ensaio sobre o génio artístico, como um romance de aprendizagem e até como uma obra de mistério." 

Esta opinião está a sair a ferros... Isto porque não me sinto, relativamente a este livro capaz de o comentar ou de estruturar uma opinião. É provável que a dificuldade esteja associada ao facto de não ser propriamente um romance, mas antes uma espécie de ensaio. Portanto a dificuldade começa logo por não o conseguir categorizar... :)
Enfim, rótulos à parte, A Luz é Mais Antiga que o Amor é, primeiro que tudo um livro que só pelo título vale a pena comprar, ou no mínimo merece uma espreitadela à sinopse. A frase é linda! Depois, é um livro do genial Ricardo Menéndez Salmón (RMS), o autor da surpreendente Trilogia do Mal (já aqui comentada). Estas foram as razões que me levaram a comprá-lo e agora que foi lido, não me parece que tenha corrido mal. :)

A Luz é Mais Antiga que o Amor, é um livro sobre pintura, sobre pintores e sobre a arte de criar, cuja narrativa chega até nós através de um escritor, Bocanegra que se parece muitas vezes com o próprio RMS.
Nele RMS percorre três períodos da história, cada um dedicado a um pintor distinto. Conhecemos Adriano de Robertis, no século XIV, em 1350, a defender a sua obra mais polémica, a Virgem Barbuda contra a censura da Igreja. Dá-se um salto no tempo e já no século XX é-nos apresentada a obra e vida de Mark Rothko (a única personagem não ficcionada), que em 1970 pôs termo à própria vida no seu estúdio e, terminamos, já com um pé no século XXI, com Vsévolod Semiasin, que numa série de cartas ao cunhado, descreve a sua delirante e tortuosa caminhada para a loucura. Nos entretantos vamos também conhecendo a vida e o percurso de Bocanegra, o narrador. 

Nada parece ligar estes três pintores, viveram em épocas distintas e nenhum deles atingiu a tão procurada imortalidade através das suas obras. No entanto, são os três atormentados pelos mesmos medos, pelas mesmas dúvidas e todos eles são de certa forma loucos ou donos de uma sanidade mental precária.
Os três lutam contra a rotina e contra aquilo que os outros acham correcto. Tentam de uma forma ou de outra ser únicos, originais, notando-se que excentricidade evolui a par com o passar do tempo, sendo Vsévolod Semiasin o seu expoente máximo. De Robertis apenas descobre a sua capacidade de "pensar fora da caixa" depois do seu único filho morrer, vítima da peste negra. Até aí fazia aquilo que esperavam dele, não sentido necessidade de criar algo diferente, até que o filho o incentiva a utilizar a criatividade sem amarras. A Virgem Barbuda nasce da dor de perder o filho e desejo de lhe prestar homenagem. É uma obra de tal forma surpreendente que temos sérias dúvidas que Beaufort tenha tido coragem de a destruir. A Virgem Barbuda embora apenas seja mencionada no início do livro quando Pierre Roger Beaufort (futuro papa Gregório XI) é encarregue de a destruir por a considerar uma obra demoníaca, é uma referência que parece estar sempre presente em todo o livro, a rondar as vidas de Rothko e depois de Vsévolod Semiasin.

"O oval que Beaufort contempla é de uma beleza insultuosa, apesar da encrespada barba  cor de cinza que esconde a sua parte inferior. Beaufort treme de raiva embora ao mesmo tempo se interrogue de que corpo nascido para a corrupção e para a tumba conseguiu De Robertis extrair semelhante explosão de beleza."

Embora seja um livro um pouco diferente dos que estou habituada a ler e, mesmo considerando a dificuldade que tive em acompanhar alguns temas, nunca pus a hipótese de o deixar de lado e não o acabar. :) A verdade é que gosto mesmo muito da forma com o RMS conta as suas histórias e, A Luz é Mais Antiga que o Amor, não é uma excepção. Ele consegue manter-nos interessados não só no destino das personagens como nas considerações que vai fazendo, neste caso, sobre o processo criativo, quer de pintores quer de escritores, sendo os dilemas muitas vezes comuns, e sobre o amor e a luz.

Gostei e recomendo com a reserva de ser um livro um pouco diferente que, mais do que não ser para todos, é um livro que tem um tempo próprio e uma altura certa para se ler.

Boas leituras!

Excerto:
"Quando conheceu Matilde, Bocanegra era um homem satisfeito. Não feliz. Satisfeito. A sua vida era aprazível, estava saciada até onde a razão tinha imposto o seu império. As superfícies do mundo não eram brilhantes, é verdade, mas eram nítidas. Embora não tivessem relevo, os objectos possuíam substância. As suas mãos apertavam, tocavam, apalpavam. E, apesar de nem sempre serem capazes de reconhecer o que apertavam, o que tocavam, o que apalpavam, dava-se por satisfeito.
Não feliz. Satisfeito.
Então apareceu Matilde e tudo mudou.
Desmoronou-se. Ardeu. Ficou laminado. Transformado em lava. Dissolveu-se como açúcar num tanque de água. Não há metáforas que possam expressar semelhante descoberta. Porque Matilde era, e o que é não precisa de nenhum crédito fora do seu ser. O que é, é a sua própria evidência."

agosto 03, 2013

Gritos do Passado - Camilla Läckberg

Título original: Predikanten
Ano da edição original: 2004
Autor: Camilla Läckberg
Tradução do inglês: Ricardo Gonçalves
Editora: Publicações Dom Quixote

"Numa manhã de um Verão particularmente quente, um rapazinho brinca nas rochas em Fjällbacka - o pequeno porto turístico onde decorreu a acção de A Princesa do Gelo - quando se depara com o cadáver de uma mulher. A polícia confirma rapidamente que se tratou de um crime, mas o caso complica-se com a descoberta, no mesmo sítio, de dos esqueletos.
O inspector Hedström é encarregado da investigação naquele período estival em que o incidente poderia fazer fugir os turistas mas, sem testemunhas, sem elementos determinantes, a polícia não pode fazer mais do que esperar os resultados das análises dos serviços especiais.
Entretanto, Erica Falk, nas últimas semanas de gravidez, decide ajudar Patrick pesquisando informações na biblioteca local e novas revelações começam a dar forma ao quadro: os esqueletos são certamente de duas jovens desaparecidas há mais de vinte anos, Mona e Siv. Volta assim à ribalta a família Hult, cujo patriarca, Ephraim, magnetizava as multidões acompanhado dos dois filhos, os pequenos Gabriel e Johannes, dotados poderes curativos. Depois dessa época, e de um estranho suicídio, a família dividiu-se em dois ramos que agora se odeiam.
Ao mesmo tempo que Patrick reúne as peças puzzle, sabe-se que Jenny, uma adolescente de férias num parque de campismo, desapareceu. A lista cresce..."

Camilla Läckberg é uma escritora de quem tenho ouvido falar muito e na maioria coisas positivas. Não sendo uma leitora assídua de policiais, tenho sempre alguma curiosidade com o que se anda a ler por aí, dentro do género. E percebo o sucesso que tem encontrado junto dos leitores. Gostei bastante, é uma leitura leve, essencialmente porque a escrita é acessível, sem ser simplista ou básica, e porque as personagens são bem-humoradas e a atmosfera, psicopatas e miúdas mortas à parte, que emana do livro é muito "boa onda", à falta de melhor definição. :)

A forma como a escritora nos conta a história, mantém-nos curiosos, embora o desfecho seja mais ou menos esperado, a curiosidade por saber o que levou aquela pessoa a optar por um caminho tão desviante, é o que mantém o livro aberto quando já deveríamos estar a dormir. ;)

Não sei se devo entrar muito na história em si, até porque a sinopse já diz praticamente tudo, só não diz quem é o assassino! :p
Basicamente o enredo gira em torno da investigação da morte de uma turista alemã, cujo corpo foi encontrado por uma criança. Junto dela, encontraram-se mais dois esqueletos, que se vem a descobrir pertencerem a duas adolescentes, filhas da terra, desaparecidas há mais de vinte anos e que nunca tinham sido encontradas.
Fjällbacka é uma pequena vila turística, sem qualquer historial de crimes violentos. A polícia local vai ter de fazer o melhor que sabe para resolver estes crimes macabros, com a pressão adicional de haver mais uma adolescente que desaparece durante as investigações e que todos querem encontrar antes que pereça às mãos do tresloucado que cometeu tamanhas atrocidades com as outras três miúdas.
A investigação vai permitir um ajuste de contas com o passado, vai desvendar segredos há muito escondidos e vai revelar valor onde menos se esperava.

E mais não digo acerca da história, acrescento apenas que a religião, mais uma vez, pode ser uma coisa perigosa, mesmo que as intenções sejam as melhores do mundo. Nunca sabemos o resultado de se mexer com a crença e a fé das pessoas... Principalmente quando essas pessoas, mentalmente não estão preparadas para ilusões fantásticas!

De uma forma geral, gostei bastante do livro, gostei das personagens e da forma como o novelo vai sendo desenlaçado. Normalmente o que me leva a não ler muitos policiais é o facto de os achar pouco credíveis. Este Gritos do Passado talvez peque por ser credível demais. :) Não sei, por vezes achei que lhe faltou alguma emoção, algum suspense... As personagens que foram sendo consideradas suspeitas ao longo do livro foram sempre tão bem educadas. Será por ser um livro sueco? Não sei, mas sinto que lhe faltou uma pitadinha de sal. :) Não deixa de ser um bom livro mas, acho que tinha potencial para ser bem melhor.

Embora tenha gostado de Erica e Patrick, como personagens estão bem desenvolvidas, não lhes achei muita piada como casal. A relação pareceu-me forçada, por serem demasiado... fofinhos e simpáticos e bem-educados. Como dupla não me conquistaram completamente. Acredito que com a continuação dos livros a empatia vá surgindo naturalmente.
Não posso deixar de referir o exagero e o deslocado que me pareceram as histórias com os hóspedes indesejados. Foram partes da história que me desviaram do que realmente interessava, cujo propósito pareceu ser apenas e só, dar alguma visibilidade à gravidissíma Erica.

Como vêem, nada de muito grave a apontar a este policial sueco, género tão em voga nos dias de hoje. Aos pontos menos bons acho que os posso "classificar" como sendo consequência do choque cultural, nada mais! ;) 

Resumindo e baralhando, fiquei com muito boa impressão da escritora e certamente que irei ler mais livros dela. Gostei e recomendo!

Boas leituras!

Excerto:
"A mão continuou o seu caminho ao longo do seu corpo, e ela estremeceu na escuridão. Por um segundo, ocorreu-lhe que deveria oferecer alguma resistência ao estranho sem rosto. O pensamento desvaneceu-se tão depressa como tinha surgido. A escuridão era demasiado esmagadora, e a força da mão que a acariciava penetrava-lhe a pele, os nervos, a alma. A submissão era a única opção, soube-o com um discernimento aterrorizador.
Quando a mão deixou de a acariciar para começar a forçar e a torcer, a puxar e a arrancar, ela não ficou nada surpreendida. De certa forma agradeceu a dor. Era mais fácil lidar com a certeza da dor que com o terror do desconhecido."

julho 17, 2013

O Desfile da Primavera - Richard Yates

Título original: The Easter Parade
Ano da edição original: 1976
Autor: Richard Yates
Tradução: Nuno Guerreiro Josué
Editora: Quetzal

"Considerado o grande romance de Richard Yates, a par de Revolutionary Road, O Desfile da Primavera conta a história de duas irmãs, Sarah e Emily Grimes. Conhecêmo-las ainda crianças, com os pais recém-divorciados. E ao longo de quarenta anos, acompanhamos os caminhos que as tornam mulheres muito diferentes, embora tentando ambas lidar com um mesmo passado difícil. Sarah, a estável, a determinada, vai para Long Island, vive um casamento infeliz, e acaba por sucumbir ao seu desespero silencioso; Emily, a precoce, a independente, fica em Nova Iorque, percorre vários empregos sem interesse, dorme com vários homens, perde a carreira e perde-se no álcool. Neste sombrio e magistral romance, e com a mestria que caracteriza toda a sua obra, Richard Yates reforça a ideia de que não existe aquilo a que se chama uma vida normal."

Não é novidade que gosto de Richard Yates, mesmo com todas as desgraças de que são vítimas praticamente todas as suas personagens. O melhor é que, mesmo sabendo de antemão que com Richard Yates não há contemplações, quando está mau, das duas uma, ou o livro acaba ou então vai piorar, mesmo sabendo isso, a esperança é algo que nunca me abandona ao longo da leitura. O Desfile da Primavera não é excepção, é antes a confirmação da regra, Richard Yates é bom e as suas histórias são desconcertantes... Nem sei se devia gostar tanto delas... :)

Sarah e Emily são irmãs, filhas de pais separados. A mãe, Pookie é alguém que não sabe muito bem o que fazer da vida. Depois do divórcio, arrasta as filhas de casa em casa, sem conseguir ficar muito tempo num sítio. Dá muita importância às aparências e deposita todas as esperanças na filha mais velha, Sarah, bonita e inteligente, que de certeza casará bem e lhe abrirá as portas para a vida com que sempre sonhou. Não é má pessoa, é notório o amor que tem pelas filhas. Vejo-a mais como uma das muitas pessoas que deabulam pelo mundo sem orientação, sem ferramentas para vingar e para se integrarem, para viver todos os sonhos que têm. Sem nada que as destaque, acabam a viver num comprimento de onda distinto do dos que a rodeiam. E, embora não seja má pessoa acaba por afastar as filhas, que se tornaram o seu único projecto de vida. Projecto que infelizmente não lhe correu tão bem como esperava.
O pai trabalha como revisor num diário importante em Nova Iorque e, vai mantendo contacto com as filhas da forma que pode, acompanhando as incessantes mudanças da ex-mulher. É um homem que paira sobre a infância destas duas miúdas, marcando-a de forma positiva, mas sem fazer efectivamente a diferença na vida disfuncional que levam com mãe. É uma espécie de porto de abrigo, algo que as mantém ancoradas a alguma normalidade. E embora a hipótese de irem viver com ele, aparentemente nunca tenha sido considerada, sentimos enquanto leitores que é algo que só não acontece, porque pai e filhas sabem que isso seria o fim da frágil saúde mental da mãe.

E assim vão crescendo Sarah e Emily. Sarah, a mais velha, é bonita, encantadora e genuinamente boa pessoa. É inteligente e bem humorada, podemos dizer que é a normal da família. É um espírito simples, que apenas deseja ser feliz, sem grandes ambições para além de casar e ter filhos. Emily, uns anos mais nova, parece ter nascido já velha, preocupada com tudo, cheia de medos e inseguranças e com terror de ficar sozinha, é instável e egocêntrica. A sua personalidade é mais complexa, mais densa que a da irmã.
Quando crescem, a segura e divertida Sarah torna-se mais insegura e dependente, após anos de um casamento infeliz, que parecia ter tudo para ser um sucesso, a lutar para manter as aparências, a achar que o amor é apenas aquilo que a vida lhe deu a conhecer, fiel até à última estalada.
Emily, a menina que se recusava a ficar sozinha em casa, torna-se uma mulher independente, procurando colmatar as ansiedades com relações fugazes e através da bebida. Aliás a bebida é o que estas três mulheres acabam por ter em comum, bebem para esquecer. São sem qualquer dúvida alcoólicas e é, no fim, o álcool a única constante das suas vidas.
Emily parece incapaz de amar e de criar uma ligação verdadeira com alguém, embora goste da irmã, quando a oportunidade surge, nada faz para a ajudar, e mantém uma relação muito distante com a mãe. Tem tendência para se aproximar de homens com baixa auto-estima. Estes são os que ela acaba por deixar um dia, os que ela realmente gostaria de manter na sua vida, acabam por sair da dela. Emily não é, no entender destes homens, para casar.

Emily é uma espécie de narradora da história da família Grimes, porque é através dos olhos dela que conhecemos a mãe, o pai, a irmã, o cunhado e os sobrinhos. A última das Grimes, acaba sozinha como sempre temeu, consciente o suficiente para perceber que está a enlouquecer e que afinal é capaz de sentir, pelo menos remorso...

Gostei bastante, gosto muito da escrita e da ténue linha que Yates cria, com mestria, entre a dura realidade e o absurdo, a pura ficção, aqueles elementos que nos fazem manter os pés no chão, conscientes de que se trata de um livro. Gosto das personagens bem desenvolvidas e complexas, sem serem indecifráveis. Gosto da forma como nos aproxima dos sentimentos das personagens, sentimos os desconfortos, os dilemas morais que atravessam, a pontinha de felicidade que vislumbram e perseguem ou que deixam simplesmente passar, porque perseguir o que se quer exige muito mais do que aquilo que se está disposto a dar.

É triste? É.
É bom? É.
Recomendo? Claro!

Boas leituras!

Excerto:
"Mas parou de chorar abruptamente quando se apercebeu que até isso era mentira: aquelas lágrimas, tal como todas as outras que derramara durante toda a sua vida, eram apenas para ela - para a pobre e sensível Emily Grimes, que ninguém compreendia, e que não compreendia nada."

julho 10, 2013

A Letra Encarnada - Nathaniel Hawthorne

Título original: The Scarlet Letter
Ano da edição original: 1850
Autor: Nathaniel Hawthorne
Tradução: Fernando Pessoa
Editora: Publições Dom Quixote
"Um romance dramático e intenso, uma obra-prima.

«Embora eu prefira os seus inumeráveis rascunhos, apontamentos, esboços e pequenos textos de toda a ordem, "A Letra Encarnada" é um livro admirável daquele que foi, a par de Melville, o grande escritor americano do século dezanove. Aliás amigos íntimos (alguns insinuam que mais do que isso) professavam admiração recíproca. Hawthorne era um homem estranho. De beleza física invulgar foi um puritano toda a vida, sujeito a crises de desânimo e insegurança constantes. Valia-lhe o apoio da mulher, muito mais forte psicologicamente do que ele e que se manteve a seu lado numa dedicação inalterável. Este romance dramático e intenso é uma obra- -prima, como praticamente tudo o que o autor deixou. Curioso o facto de uma novela tão americana na sua trama essencial tocar o leitor de cultura muito diferente pelo jogo de emoções e temas. Apesar de, no fundo da alma, Hawthorne ser um moralista severo, é capaz de flagelar com arrebatamento a severidade essa parte de si mesmo, na autocrítica arrepiante a que procedeu toda a sua vida.»"

Este foi um livro muito difícil de ler, de continuar a ler, de acabar sem o deixar de parte... Logo no início, antes de o autor entrar na história de Hester Prynne, do reverendo Dimmsdale e da letra encarnada, há um prelúdio enfadonho sobre a vida numa alfândega algures no nenhures onde o autor foi parar e onde tropeça na letra encarnada de Hester. São páginas e páginas de uma escrita nada fluída, difícil de acompanhar e cujo tema pouco ou nada acrescenta ao que se vai contar. Confesso que não desisti de o ler porque não desisto de um livro com tão poucas páginas lidas e porque queria muito gostar dele... :-) 

Quando finalmente chegamos à história da letra encarnada de Hester o livro continua a não funcionar para mim. Percebe-se desde logo quem é o pai da pequena Pearl, filha do pecado, fruto de uma paixão proibida. Não havendo grandes revelações para contar, torna-se até irritante quando as coisas não são ditas abertamente, como se o leitor fosse burro... O ritmo da história é lento, e o livro poderia ter apenas dez páginas. Senti alguma dificuldade em situar-me na linha temporal da história, medida principalmente pela idade de Pearl que é uma criança estranha com comportamentos e pensamentos desadequados à idade que dizem ter

Enfim, pessoalmente estava à espera de algo mais inspirado, não me identifiquei com a escrita nem com a forma como a história é contada. As personagens até têm potencial mas perdem-se um pouco na história e acabam por ser todas muito bidimensionais e sem profundidade.

Deste não consigo dizer que gostei, será que toda a sua obra é assim? Espero que não... Se bem que, ao equipararem-no a Melville, não sei se Nathaniel Hawthorne é escritor para mim..

Boas leituras!

Excerto:
"O espaço em frente da cadeia, na travessa do mesmo nome, estava ocupado, em certa manhã de Verão, há não menos de duzentos anos, por um número razoavelmente grande de habitantes de Boston,todos eles com os olhos fitos na porta ferrada de carvalho. Entre qualquer outra população, ou em qualquer período posterior na história da Nova Inglaterra, a rigidez austera que petrificava os rostos barbados desta boa gente anunciaria que se tratava de qualquer assunto terrível. O menos que indicaria seria a antecipação da morte de qualquer criminoso célebre, a quem a sentença de  um tribunal legítimo não tinha senão confirmado a da opinião pública. Mas, naquela primitiva severidade do carácter puritano,uma conclusão desta ordem não podia ser tirada com segurança. Podia tratar-se de um servo mandrião, ou de uma criança desobediente, que os pais tivessem entregado às autoridades civis, para ser fustigada no pelourinho. Podia ser que o Antinomiano, um Quaker, ou qualquer outro membro de uma seita heterodoxa, estivesse para ser corrido às vergastadas para fora da cidade, ou que um índio vadio e vagabundo, que a aguardente do branco tivesse tornado turbulento, estivesse para ser devolvido pelo mesmo processo aos seio e à sombra das florestas.

junho 08, 2013

Feira do Livro de Lisboa - 2013

E acabou, para mim, mais uma Feira do Livro de Lisboa.
Este ano não consegui visitá-la tantas vezes como gostaria mas posso dizer que aproveitei bem as visitas que consegui fazer.

Estes foram os eleitos do ano (todos livros do dia):

 - A Letra Encarnada de Nathaniel Hawthrone: Tinha alguma curiosidade relativamente a este escritor desde que li uma pequena história nesta colectânea: Ultimate Short Stories. Vi o livro a um preço bom e decidi comprá-lo. Aliás, já o estou a ler, e não estou a dar o dinheiro por mal gasto;

 - Gritos do Passado de Camilla Läckberg: Andava com vontade de ler um policial e tenho ouvido coisas muito boas acerca desta escritora nórdica. 

 - O Diabo e Outros Contos de Lev Tolstói: Gosto dos escritores russos e não gosto muito de contos. Curiosamente os contos que me têm feito mudar de opinião sobre contos, têm sido os escritos por escritores russos. Só pode ser bom este livro, certo?

 - O Apocalipse dos Trabalhadores de valter hugo mãe: Este não precisa de explicação. É valter hugo mãe e eu gosto. Começa a ser tradição todos os anos comprar um dele na Feira do Livro. :)

Poderiam ter sido mais se eu tivesse tido oportunidade de lá voltar a semana que passou, mas entre o ter ficado doente e o trabalho, não tive tempo para mais nenhuma visita, e o fim de semana é para outros passeios! :)

Comprei ainda umas coisinhas para as minhas pipocas. Parece-me que este ano havia mais barraquinhas dedicadas às crianças, fartei-me de andar antes conseguir decidir o que comprar para elas. O difícil era mesmo escolher e conter-me, porque com elas a entrar na idade de desgraçar a carteira da tia, o controlo é cada vez mais complicado. :) Tudo compensado com o sorriso rasgado que nos devolvem, claro! :)


Este ano fiquei com melhor impressão da feira. Os alfarrabistas tinham livros diversificados, não tão baratos quanto isso, mas pelo menos eram variados. À hora de almoço via-se imensa gente a passear pelo Parque, não sei se a comprar, mas pelo menos compunham o ambiente. Os preços não foram, à semelhança dos outros anos, nada de especial, principalmente nas grandes editoras (Leya e Porto Editora), mas as restantes compensam com livros do dia que valem mesmo a pena. Ainda continuo chocada com os preços que a Bertrand colocou nos livros de oportunidade, colocados à parte, como se fossem mesmo muito baratos... Não percebo qual foi a ideia. Enfim, estranhezas à parte, foi uma boa edição!

Adeus Feira do Livro de Lisboa, cá te espero para o ano!

Boas leituras!

maio 26, 2013

Praça de Londres - Lídia Jorge

Título original: Praça de Londres
Ano da edição original: 2008
Autor: Lídia Jorge
Editora: Publicações Dom Quixote

"Em Praça de Londres, reúnem-se 5 contos de Lídia Jorge.
Além do conto que dá o título à recolha, dela ainda fazem parte Rue du Rhône, Branca de Neve e Viagem para Dois, narrativas já antes publicadas.
O último conto, Perfume, é um inédito que a autora dedica ao realizador turco Yilmaz Güney, autor do filme Yol. Trata-se de uma espécie de réplica à história de amor que esse filme narra, transplantada para uma outra geografia humana.
Praça de Londres tem como subtítulo Cinco Contos Situados, por se tratar de narrativas inscritas em espaços urbanos reconhecíveis e por invocar instantes de vida marcantes, colhidos do quotidiano normal.
De um modo geral, o tom destas cinco narrativas oscila entre o intimista e o irónico. A questão da inocência e da perda é um dos temas que lhes dá unidade."

Lídia Jorge é uma escritora sobre a qual ainda não me consegui decidir. Gosto? Não gosto? É-me indiferente? Não sei... Li, há já alguns anos, O Vento Assobiando nas Gruas, e sou incapaz de dizer sobre o que é. Tenho ideia de uma personagem feminina um pouco estranha mas tudo o resto é uma névoa. Lembro-me que até gostei do livro, que o achei um pouco confuso, ou estranho, mas não fiquei com má impressão. O facto de não ter a certeza se li mais algum dela é a razão pela qual me sinto um pouco baralhada. Quase juro que já li O Vale da Paixão, mas a sinopse não me diz nada, absolutamente nada... Enfim, já passaram muitos anos e já sabemos que a memória nem sempre colabora, pelo que decidi que Praça de Londres vai passar a ser o meu primeiro livro de Lídia Jorge, o passado foi apagado (o pouco que ainda permanecia).

Praça de Londres é uma colectânea de pequenos contos. Cinco contos que têm como fio condutor o desejo e a perda.  O desejo de pertencer, de possuir, de triunfar, de sobressair. A perda da inocência, a perda de alguém e a descoberta de que a esperança é ultima a morrer, porque muitas vezes o que parece nem sempre é.

Gostei das histórias e da capacidade de Lídia Jorge fugir ao óbvio, a escrita não é linear, o que nos conta não é comum e as personagens são diferentes (no bom sentido). Para primeira incursão, consciente,  na obra de Lídia Jorge posso dizer que fiquei com vontade de ler algo mais elaborado, que lhe dê mais espaço para crescer. 

Gostei e recomendo. É uma leitura mais que agradável. :)

Excerto:
"Mínimo, o garoto disse-lhe - «Não tenha medo, dona, vamos aqui, abrigados na sombra do seu casaco...»
Maria da Graça recomeçou a andar.
«Na sombra do meu casaco...» - pensou. Como entre os atletas, no momento das corridas. O que vai na frente corta o ar, abriga os outros do frio ou do calor, facilita a vida aos de trás. Naquele caso, três crianças pouco enroupadas procuravam o cone de protecção criado pela aba do seu casaco para se abrigarem do vento frio. Então ela virou-se e viu que era, quatro. Quatro garotos desciam a Avenida EUA, à sobra do seu casaco. E ela pensou na impropriedade da palavra sombra, tão bem aplicada àquela realidade, pensou também na colorida linguagem das crianças, sempre a fazerem nascer as realidades pela primeira vez."