dezembro 24, 2013

Feliz Natal!

Neste Natal desejo a todos:
 
1ª Uma mão cheia de sonhos, dos que levam canela e açúcar e dos outros;

2ª As mãos de sempre, enfarinhadas e cheias de tudo;

3º Gargalhadas e cumplicidades.



 Um Feliz Natal para todos!

dezembro 15, 2013

As Memórias de Cleópatra (1º Vol) - A Filha de Ísis - Margaret George

Título original: The Memoirs of Cleopatra
Ano da edição original: 1997
Autor: Margaret George
Tradução: Sérgio Gonçalves
Editora: Saída de Emergência
"A autora do best-seller mundial A Paixão de Maria Madalena está de volta com um convite irrecusável: a visita ao Antigo Egipto e à vida de Cleópatra, a rainha do Nilo. Escritas na primeira pessoa, As Memórias de Cleópatra começam com as suas recordações de infância e vão até ao seu glorioso reinado, quando o Egipto se torna um dos mais deslumbrantes reinos da Antiguidade.
As Memórias de Cleópatra são uma saga fascinante sobre ambição, traição e poder, mas também são uma história de paixão. Depois de ser exilada, a jovem Cleópatra procura a ajuda de Júlio César, o homem mais poderoso do mundo. E mesmo depois do assassinato daquele que se tornou o seu marido, e da morte do segundo que amou, Marco António, Cleópatra continua a lutar, preferindo matar-se a deixar que a humilhem numa parada pelas ruas de Roma.
Na riqueza e autenticidade das personagens, cenários e acção, As Memórias de Cleópatra são um triunfo da ficção. Misturando história, lenda  e a sua prodigiosa imaginação, Margaret George dá-nos a conhecer uma vida e uma heroína tão magníficas que viverão para sempre."

Não me vou alongar muito nesta opinião, uma vez que, A Filha de Ísis é apenas o primeiro volume das Memórias de Cleópatra.

Este é o volume onde a própria Cleópatra relata os primeiros anos do seu reinado, como Rainha do Egipto. Começa por falar um pouco da sua infância e da família, do pai e dos irmãos e da relação com eles. Sem este enquadramento da história e tradição dos Ptolomeu, descendentes de Alexandre, muitas das decisões e acções futuras seriam questionáveis.

Cleópatra conta como conheceu e se apaixonou por César, na altura o mais destemível e temido general das forças romanas à conquista do mundo. Um homem muito mais velho, com enorme carisma, um poder imensurável, enfim... um homem irresistível e que, quando está junto de Cleópatra, demonstra ser apenas um homem.
Grande parte deste primeiro volume concentra-se na aliança política e pessoal que Cleópatra vai manter com o homem mais poderoso do mundo. Com o apoio dele recupera o trono do Egipto e, é também por ele que é mantida a independência do seu reino, não sendo o Egipto anexado como parte do Império Romano.

Cleópatra é apresentada como uma mulher moderna, com ideias e ambições próprias e uma boa estadista, com capacidade para gerar consenso. Não é dona de uma beleza estonteante, é sim, exótica e carismática. Aposta tudo na sua relação com César, principalmente por amor, genuíno e desinteressado, mas também porque sabe que é, naquele momento, a única forma que tem de continuar a ser a Rainha do Egipto.
Este primeiro volume termina pouco depois da morte de César, assassinado às mãos do seus supostos aliados. Termina com Cleópatra a regressar a Alexandria depois de uma prolongada temporada em Roma onde cimentou a sua aliança a César, agora morto.

Gostei deste primeiro volume, mas não fui de todo arrebatada por ele. Acho a escrita de Margaret George pueril, demasiado próxima da de um romance de cordel. Num romance histórico, deixam-me um pouco desconfortável, os suspiros e os devaneios de adolescente de Cleópatra. Faz-me confusão, uma rainha, deixar tanto tempo o seu reino para estar junto do seu grande amor, embora tenha sido importante para vincar a sua posição, achei despropositado. No entanto, como não faço ideia do que, nesta história, é real ou ficcionado, para além dos grandes acontecimentos, é claro, até pode ter-se passado assim... :)

Achei-o por vezes cansativo, ela prolonga demasiado o relato dos acontecimentos e, embora seja claro para mim que vou ler os outros dois volumes, também foi claro, desde muito cedo que não iria lê-los de seguida. Sinto necessidade de espaçar a leitura e mudar de tema...

Gostei dos ambientes criados, tanto os egípcios como os romanos. As festas e as celebrações, a forma como se comportavam foram das partes mais interessantes do livro. Gostei muito da personagem de César, mais até do que da Cleópatra. Talvez a Cleópatra mais velha e experiente me cative mais nos volumes que se seguem.

Resumindo, gostei. Vou ler de certeza os dois volumes que faltam - O Signo de Afrodite e O Beijo da Serpente - mas estou a fazer figas para que estes dois sejam mais arrebatadores.

Recomendo. A época é só por si cheia de acontecimentos e as personagens tem potencial para serem muito boas de acompanhar. :)

Boas leituras!


Excerto:
"Na  parede de trás da sala, vi primeiro a estátua, maior do que um homem normal e orgulhosa no seu pedestal. E aos seus pés... um monte de roupas manchadas de sangue, com os pés à mostra, pés que pareciam muito pequenos para serem os de César.
Imediatamente o alívio: não era ele.
Aproximei-me do monte de roupa inerte, retendo a respiração, certa de me deparar com outra pessoa. Ajoelhei-me e com a mão tão trémula que mal conseguiu segurar o tecido, levantei a toga e vi o rosto de César.
Gritei quando o vi e soltei o tecido. Os seus olhos estavam fechados, mas ele não parecia dormir. Estava de uma forma que nunca o vira antes. Mentem aqueles que dizem que um morto parece dormir. Depois, quando me controlei, levantei o tecido de novo e afaguei o seu rosto: frio, como se a frieza do chão de mármore tivesse passado para dentro dele, tomando conta do seu ser."

novembro 17, 2013

No Meu Peito Não Cabem Pássaros - Nuno Camarneiro

Título original: No Meu Peito Não Cabem Pássaros
Ano da edição original: 2011
Autor: Nuno Camarneiro
Editora: Publicações Dom Quixote

"Que linhas unem um imigrante que lava vidros num dos primeiros arranha-céus de nova iorque a um rapaz misantropo que chega a Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros. 
Em 1910, a passagem de dois cometas pela Terra semeou uma onda de pânico. Em todo o mundo, pessoas enlouqueceram, suicidaram-se, crucificaram-se, ou simplesmente aguardaram, caladas e vencidas, aquilo que acreditavam ser o fim do mundo.
Nos dias em que o céu pegou fogo, estavam vivos os protagonistas deste romance - três homens demasiado sensíveis e inteligentes para poderem viver uma vida normal, com mais dentro de si do que podiam carregar.
Apesar de separados por milhares de quilómetros, as suas vidas revelam curiosas afinidades e estão marcadas, de forma decisiva, pelo ambiente em que cresceram e pelos lugares, nem sempre reais, onde se fizeram homens. Mas, enquanto os seus contemporâneos se deixaram atravessar pela visão trágica dos cometas, estes foram tocados pelo génio e condenados, por isso, a transformar o mundo. Cem anos depois, ainda não esquecemos nenhum deles.
Escrito numa linguagem bela e poderosa, que é a melhor homenagem que se pode fazer à literatura, No Meu Peito não Cabem Pássaros é um romance de estreia invulgar e fulgurante sobre as circunstâncias, quase sempre dramáticas, que influenciam o nascimento de um autor e a construção das suas personagens."

Nuno Camareiro é o vencedor do Prémio Leya de 2012, o que me deixou simultaneamente curiosa e de pé atrás. Os critérios para a atribuição de um prémio literário são, naturalmente, muito racionais. Dá-se mais importância à técnica e menos aos sentimentos, subjectivos e pessoais, que uma história pode despertar no leitor. As críticas positivas que li a este autor acabaram por me convencer de que valeria a penas dar uma espreitadela aos livros dele. Além disso, acho o título deste No meu Peito Não Cabem Pássaros bonito e às vezes é tão fútil quanto isso, um livro ter um título bonito pode ser a razão pela qual vem connosco para casa... ;)

No Meu Peito Não Cabem Pássaros é um livro repleto de imagens bonitas, de frases que transmitem mais do que aquilo que está escrito no papel. A escrita de Nuno Camarneiro é poética, sem ser etérea. É palpável e próxima. É um livro construído de suspiros, sobressaltos, de olhares, de pensamentos, de interrogações, de imaginação. Uma reinvenção do mundo como o vemos no nosso dia-a-dia. Num livro cujos três protagonistas foram inspirados em três dos escritores menos óbvios do século passado não é de se esperar outra coisa.

Nuno Camarneiro pegou no Checo Kafka, no nosso Pessoa e no Argentino Borges, e contou-nos um pouco da vida dos três, a infância, a passagem para a vida adulta e a descoberta da escrita como forma de entenderem o mundo.

Não é um livro fácil, embora a escrita não seja complicada, por não ser o típico romance, com uma narrativa estruturada de forma clássica, exige alguma concentração extra. Os capítulos pequenos permitem que se seja uma leitura dinâmica e que consigamos imprimir o ritmo mais pausado que a escrita impõe. 
Gostei, essencialmente porque a escrita é refrescante e achei curioso que as três personagens sejam tão diferentes uns dos outros, embora sejam mais ou menos contemporâneos. A única característica que os une é mesmo a imaginação e a vontade de escrever, por razões diferentes, como forma de recriar a própria vida. Os três muito marcados por episódios da infância, pela educação e costumes de cada país. 

Gostei! É um escritor a manter debaixo de olho.

Recomendo!

Boas leituras!

Excerto:
De Karl - "Sente-se um silêncio impossível, um silêncio que desafia a cidade inteira. Há eléctricos parados no meio da rua e os passageiros espalhados à volta de cabeça no ar. Durante alguns minutos ninguém se mexe, a cidade está parada. De repente um miúdo remendado decide romper o impasse com um salto e despudor, a bolsa de uma senhora desatenta é um pretexto como outro qualquer, ela desce o olhar e grita desapossada, mas o rapaz já vai longe. Gritos, comentários, alguém que chama a Polícia. A cena dessacraliza os olhares e há agora quem descubra que é tarde e faz frio, que não é a primeira vez que o céu arde e a humanidade ainda por cá anda, com a fome de sempre e outras coisas em que pensar."

De Fernando - "Os homens multiplicam-se a cada cruzamento, os homens são assim. Caminho para aqui, caminho por ali, uma direcção na vida e outra no pensar. Quatro cruzamentos são dezasseis homens, vinte são um milhão, quarenta e oito mil, quinhentos e setenta e seis homens. Gabardine ou sobretudo, café curto ou cheio, a pé ou de eléctrico, almoço no escritório ou no Alves, dezasseis homens. Passou um meio dia e é já difícil encontrar mesa onde sentar tanta gente, acabe o dia, venha outro, uma semana, um mês, um ano, e nem na China cabem os homens que saem de um homem."

De Jorge - "Por fim, lá se chega à idade de ver a vida pelo que não chegou a ser. O presente é terrivelmente condicionado pelo passado e por tantas leviandades cometidas sobre o tempo. Tudo a que um dia se brincou acaba por ser só memória e caminho, degrau de uma escada sempre a estreitar. Depois um homem senta-se à mesa e escreve por vingança contra si mesmo - para viver outras vidas, como dizem alguns."

outubro 12, 2013

The Walking Dead , A Ascensão do Governador - Robert Kirkman & Jay Bonansinga

Título original: The Walking Dead: Rise of the Governor
Ano da edição original: 2011
Autor: Robert Kirkman & Jay Bonansinga
Tradução do inglês: Casimiro da Piedade
Editora: Saída de Emergência

"No universo de "The Walking Dead" (uma admirável BD agora transformada numa premiada série de TV) não há maior vilão do que o Governador. Ele é o déspota que governa a cidade isolada de Woodbury e tem doentias noções de justiça: seja a forçar prisioneiros a combater zombies na arena para divertimento dos locais, seja a destroçar violentamente aqueles que o confrontam. O Governador é um vilão que tão cedo não se esquece e a sua história é uma das mais controversas que Robert Kirkman, criador de "The Walking Dead", alguma vez concebeu. Pela primeira vez, os fãs irão descobrir como é que o Governador se tornou neste homem implacável e aquilo que o levou a tais extremos." 

The Walking Dead é, originalmente uma BD extraordinária, cujo fim ainda está por escrever. A BD deu origem à série de televisão de que todos já ouvimos falar e que provavelmente muitos de nós segue. É uma série visualmente poderosa, com uma história que, não sendo sempre fiel à BD, mantém o espírito da mesma. 

The Walking Dead, A Ascensão do Governador é um dos muitos livros satélites que irão surgir relacionados com a história. O Governador é uma das personagens mais sinistras e assustadoras da BD, e é a história dele que o livro vai contar. Vamos conhecer-lhe as frustrações, as perdas, os medos e, infelizmente não lhe conhecemos vitórias. Talvez se existissem vitórias no mundo pós-apocalíptico onde todos lutam para sobreviver, o Governador pura e simplesmente não existisse. Bastava uma pequena vitória, e este livro não teria sido escrito ou teria outro nome no título. 

The Walking Dead , A Ascensão do Governador só faz sentido para quem, no mínimo, segue a série de televisão, porque sem conhecer o Governador não vejo qual o interesse em querer conhecer o Phillip. Não vou falar da história que este livro conta, seria fácil contar-vos o percurso de Phillip em duas ou três frases, o que seria obviamente redutor. 
O livro em si, é normalíssimo, com uma escrita simples, sem floreados e com muitas descrições agoniantes, como seria de esperar num cenário onde os mortos teimam e regressar à vida e insistem em pôr o dente em tudo que vive. É por isso um livro que se lê bem, mas sem grandes entusiasmos. Pessoalmente só queria saber quando é que Penny, a filha que o Governador mantinha "viva", iria tornar-se uma mordedora e qual iria ser o papel de Phillip. 
Não creio que o livro acrescente muito à história original e também não torna o Governador mais humano. Acho até que o twist final acaba por não fazer sentido face ao que conhecemos do comportamento do Governador. 

Vale a pena ler? Vale, se tiverem numa fase mais no-brainer, porque o livro é bem linear, puro entretenimento. E, se este tipo de histórias com zombies e afins for algo que gostem de ler é de certeza um livro de que vão gostar. 
É essencial para os fãs de The Walking Dead? Não acredito que seja. O que vale mesmo a pena é seguirem a BD. Essa sim, aconselho a todos, mesmo aos que não vão muito à bola com histórias de zombies e, para os que são mais sensíveis à questão do sangue e vísceras expostas, informo que a BD é a preto e branco. :-) 
A história de Robert Kirkman é muito mais do que isso, acreditem. 

Boas leituras! 

Excerto:
"Baixa a arma e olha para a sua filha. A menos de dois metros de distância, ataca à árvore, a Penny rosna com a filme animalesca de um cão raivoso. O seu rosto de porcelana encolheu até se transformar numa cabaça esbranquiçada e apodrecida, e os olhos que outrora foram tão suaves parecem agora pequenas moedas de prata. Os seus lábios inocentes em forma de túlipa estão agora enegrecidos e encurvados para fora, revelando dentes escuros e lodosos. Ela não reconhece o pai."

setembro 22, 2013

A Última Noite em Twisted River - John Irving

Título original: Last Night in Twisted River
Ano da edição original: 2009
Autor: John Irving
Tradução do inglês: Fátima Vieira
Editora: Civilização Editora

"Em 1954, no pavilhão de refeições da serração de um acampamento de lenhadores, no Norte do New Hampshire, um ansioso rapaz de doze anos confunde a namorada do chefe da polícia local com um urso. Tanto o rapaz de doze anos como o pai são forçados a fugir de Coos County para Boston, Vermont e Toronto, perseguidos pelo implacável polícia. O seu único protector é um lenhador libertário, antigo condutor de toros, e um velho amigo deles.
Numa história que abrange cinco décadas, A Última Noite em Twisted River retrata o último meio século nos Estados Unidos."

É sempre um prazer voltar às histórias de John Irving, e A Última Noite em Twisted River não foi a excepção, felizmente, mais que não seja porque o livro é grandote e porque foi a companhia escolhida para as férias deste Verão. :)

Mais uma grande história de um escritor que é tudo menos comum e cujas histórias são sempre mirabolantes e estranhas, à falta de melhor palavra que descreva os livros de John Irving.
Já o disse numa outra opinião que os livros de John Irving mais parecem uma novela televisiva por não se limitarem a um período da vida das personagens. Parece impensável não se conhecer a infância, explicação para tantas escolhas, atitudes e comportamentos. E deixar de fora a velhice ou mesmo a morte não fecharia o círculo. Com John Irving não existem finais dúbios ou em aberto e nós acompanhamos as personagens quase como se estas fossem nossos familiares. Gosto muito desta característica nas histórias dele. :-) 
Não vou sequer arriscar-me a entrar muito em pormenor na história porque, pedaços soltos sem o contexto apropriado são apenas isso, pedaços soltos de um livro que não deixa nada por contar. Vou só dar-vos um "cheirinho" do trio protagonista Dominic e Daniel Baciagalupo, pai e filho, e Ketchum o melhor e mais velho amigo dos dois.

A história tem início em 1954 em Coos County, junto ao Twisted River, onde o viúvo Dominic é o cozinheiro da serração da região. Dominic é um homem difícil de descrever. Casou cedo com a sua "quase não prima" Rose, a mãe de Daniel, com quem chegou a Coos County, em busca de um recomeço, onde ninguém os conhecesse e julgasse. Nem tudo corre como planeado, e o agora viúvo Dominic, tornou-se num homem solitário, cauteloso e prudente, quase como se não quisesse provocar novos acontecimentos nefastos à sua volta. Para além do filho, Dominic, vive para cozinhar, gosta de mulheres com excesso de peso (Rose foi a sua única mulher pequena e delicada) e de Ketchum, embora não existam no mundo duas pessoas mais diferentes. 
Conhecemos Daniel Baciagalupo com 12 anos, a única criança a viver na serração. É um miúdo solitário, inseguro mas inteligente com uma imaginação fértil que acaba por despoletar os acontecimentos que levaram à fuga dele e do pai, a meio da noite, de Coos County. É nessa última noite em Twisted River que Daniel começa a desenhar na sua cabeça as histórias que o vão tornar num escritor de sucesso uns anos mais tarde. Herda do pai a constante sensação de que algo de terrível lhe está reservado e vive angustiado com a certeza de que sobreviverá a Joe, o filho que tem anos mais tarde e que o manteve longe da guerra do Vietname. 
Finalmente, Ketchum é um dos condutores de toros da serração. É um homem rude, que se afastou, por razões nunca explicadas dos filhos que sabemos ter. É violento, amargurado, anda sempre armado e é contra todo e qualquer sinal de progresso. É, no entanto, uma personagem de quem é fácil gostar. Gosta verdadeiramente dos Baciagalupo e leva muito a sério a promessa que fez a Rose de que cuidaria deles. É muitas vezes desconcertante, mas é das personagens mais interessantes do livro.

Em A Última Noite em Twisted River, John Irving atravessa cinco décadas da história dos EUA. No interior do país, encontramos homens e mulheres rudes, sem papas na língua que viveram e trabalharam em lugares inóspitos e agressivos, muitos deles descendentes de índios. Nas grandes cidades como Boston, temos os imigrantes, os que vieram em busca do sonho americano. 
São estas as pessoas que construíram o país e o transformaram na potência que é hoje em dia. 
Os Baciagalupo e Ketchum vivem a guerra do Vietname, a guerra em que os EUA perderam mais do que aquilo que poderiam ter ganho. Uma geração inteira de jovens, os que tiveram de a combater e os que tudo fizeram para não participar nela. Assistem ao 11 de Setembro, quase como algo inevitável devido à política externa do país e ao crescente anti-americanismo.
É, também por isso, um livro interessante, por nos apresentar várias perspectivas do chamado sonho americano. O EUA são um país enorme, com muitas assimetria, composto por pessoas tão diferentes e culturalmente tão diversas. 

Para além do tema EUA, onde a visão é, provavelmente a do próprio John Irving, este não deixa de lado todos os seus elementos fetiche: o sexo apresentado como algo estranho e bizarro, os ursos, a perda e a solidão. As personagens de John Irving são sempre um pouco estranhas, mas acima de tudo são solitárias, inadaptadas ou, de certa forma, deslocadas da realidade que as rodeia.
John Irving partilha, ainda connosco um pouco do processo criativo, de como nascem as histórias, de como muitas vezes o ponto de partida é algo do próprio escritor, que depois envolve tudo em muita ficção. De como, nem o próprio escritor se apercebe de quão autobiográficos podem ser os seus livros. Em A Última Noite em Twisted River, Daniel Baciagalupo, torna-se um escritor de sucesso e é ele o autor de A Última Noite em Twisted River, a obra que levou uma vida inteira a ser escrita e que só conseguiu escrever depois de ter vivido tudo o que viveu.
 
Não sendo o melhor livro que já li dele, é mesmo assim um livro que a meu ver vale muito a pena ler. 

Gostei e recomendo, claro!

Boas leituras!

Excerto:
"Estava uma noite quente, sem vento. Danny sabia que ouviria facilmente o disparo de uma arma mesmo a alguns quilómetros de distância numa noite como aquela. O que não sabia de início era: o que queria ele realmente ouvir? E qual seria o significado de ouvir ou não ouvir o disparo? Era mais do que a sobrevivência do raçado de husky-pastor-que-atacava-pelas-costas que o escritor esperava escutar. (...) Foi então que o escritor se apercebeu do que estava à escuta: de nada. Era nada que ele esperava ouvir. Era um não-disparo que significaria que o pai estaria a salvo - que o cowboy, tal como Paul Polcari, poderia nunca vir a premir o gatilho."

setembro 14, 2013

[ebook] The Casual Vacancy - J. K. Rowling

Título original: The Casual Vacancy
Ano da edição original: 2012
Autor: J. K. Rowling

"When Barry Fairbrother dies unexpectedly in his early forties, the little town of Pagford is left in shock. Pagford is, seemingly, an English idyll, with a cobbled market square and an ancient abbey, but what lies behind the pretty facade is a town at war. Rich at war with poor, teenagers at war with their parents, wives at war with their husbands, teachers at war with their pupils...Pagford is not what it first seems.
And the empty seat left by Barry on the parish council soon becomes the catalyst for the biggest war the town has yet seen. Who will triumph in an election fraught with passion, duplicity and unexpected revelations? Blackly comic, thought-provoking and constantly surprising, The Casual Vacancy is J.K. Rowling's first novel for adults."

Estava difícil chegar ao fim deste livro não porque não fosse interessante mas porque ler ebooks é definitivamente diferente e mais demorado, especialmente quando sou daquelas cujo tablet não é para andar na mala e fica bem é no sofá. ;) Cuidados à parte com o aparelho em si, acho que é mais o formato digital que ainda não me convenceu... Terei certamente muito tempo para me adaptar a esta nova realidade. :)

The Casual Vacancy tem um ritmo lento, a história é contada permitindo que nos vamos familiarizando com as personagens, que as vamos conhecendo e que o final, imprevisível e trágico, seja inevitável.

Barry Fairbrother morre subitamente, no parque de estacionamento do restaurante onde iria comemorar mais um aniversário de casamento, vítima de um aneurisma. Barry era um membro activo na comunidade de Pagford, uma pequena cidade no interior de Inglaterra, pertencendo ao Conselho da cidade, lugar que fica vago com a sua morte.   
Barry morre numa altura em que a cidade de Pagford se encontra numa guerra para retirar da sua jurisdição um bairro pobre, o Fields, onde vivem os mais pobres, os desempregados, os subsidío-dependentes, os toxicodependentes, aqueles que envergonham os habitantes de Pagford cujas vidas são, aparentemente perfeitas e imaculadas. Barry, nascido e criado no Fields é um acérrimo defensor da inclusão social e um exemplo de como nem tudo o que tem origem no Fields é mau e imprestável. Empresta o rosto e o corpo à luta pela permanência do bairro na fronteira de Pagford, uma cidade que lhe permitiu estudar junto de alunos com posses e adquirir as ferramentas necessárias para sair do Fields e lutar pelos que lá permanecem. Grande parte da comunidade de Pagford preferia ver-se livre dos incómodos pobres e, já que estão numa de "limpeza" das redondezas, acabavam também com a clínica de reabilitação que parece ser o balão de oxigénio daquela gente toda.
Com a morte de Barry tudo isto parece impossível de alcançar, porque mesmos os que estavam do seu lado, parecem lutar pelas razões erradas e o destino daquela gente não parece ser o melhor. 

O livro tem como fio condutor, a necessidade de ocupar o lugar de Barry no Conselho de Pagford, e é através dos candidatos ao lugar que conhecemos a comunidade e os segredos que se escondem dentro  das suas casas perfeitas. O lugar é disputado pelos que são pró Fields e pelos opositores à permanência do bairro em Pagford.

J. K. Rowling aborda diversos temas, como a política local e os seus meandros, fala de adolescentes problemáticos que odeiam os pais e de adultos com graves problemas de personalidade que também não gostam assim muito deles próprios.
Temos violência doméstica, abuso sexual, toxicodependência e a eterna luta de classes entre os pobres e os ricos. Temos adolescentes a tentarem sobreviver a uma época onde quase nada faz sentido, com problemas de aprendizagem e tendências suicidas, sem auto-estima que, curiosamente, são das únicas personagens que evoluem e crescem e acreditamos serão melhores adultos que os pais. Por fim, temos adultos que vivem submersos nas suas vidinhas patéticas, infelizes e a lutarem para dar um significado aos dias que passam. Gente que se perdeu algures nos afazeres diários e que vivem completamente desligados dos problemas dos outros. Temos gente que se interessa pelos outros, desde que esses outros não interfiram na sua vida e gente que um dia acordou e era adulta, sem saber muito bem como chegou ali e como é suposto continuarem. Temos de tudo, portanto.
É um livro onde é difícil gostar das personagens, todas elas possuem uma ou outra característica que nos deixa de pé atrás. Criamos empatia com alguns do miúdos por serem isso mesmo miúdos na adolescência e por isso tipicamente desajustados e desajeitados, mas relativamente aos adultos, todos eles vão sendo riscados da nossa lista de "estou a torcer por ti". :)

O livro é um pouco deprimente, é certo, mas lê-se muito bem, com um final trágico, não inesperado, mas mesmo assim triste e frustrante. Não deixa de ser divertido, de uma forma distorcida e gostei da forma como a autora nos conta a história. Podia ser mais expedito, tornando-se, por vezes, repetitivo. Tirando estes aspectos, o único verdadeiro defeito que lhe encontro é ser o ingrato livro que se seguiu à saga Harry Potter sofrendo, naturalmente com isso. 
J. K. Rowling fez muito bem em cortar completamente com a saga Harry Potter se não tinha como objectivo continuar a escrever para um público mais jovem. Se tivermos isto em mente quando iniciamos a leitura, esta corre bem, muito bem até. No entanto, não deixa de ser difícil dissociar as duas coisas e existem momentos em que senti alguma pena pela normalidade de J. K. Rowling fora do universo Harry Potter.

Gostei e recomendo. A ver como se saí J. K. Rowling daqui para a frente.

Boas leituras!

Excerto:
"Then pain such as he had never experienced sliced through his brain like a demolition ball. He barely noticed the smarting of his knees as they smacked onto the cold tarmac; his skull was awash with fire and blood; the agony was excruciating beyond endurance, except that endure it he must, for oblivion was still a minute away."

setembro 01, 2013

A Luz é mais Antiga que o Amor - Ricardo Menéndez Salmón


Título original: La Luz es más Antigua que el Amor
Ano da edição original: 2010
Autor: Ricardo Menéndez Salmón
Tradução do inglês: Helena Pitta
Editora: Assírio & Alvim

"Numa segunda-feira de 1350, quando a Europa recupera da Peste Negra, o futuro papa Gregório XI visita o pintor toscano Adriano de Robertis para destruir a sua última obra, a blasfema Virgem Barbuda. A 25 de fevereiro de 1970, o pintor norte-americano Mark Rothko corta as veias no seu estúdio de Nova Iorque. A 11 de setembro de 2001, enquanto o mundo penetra na Era do Desconsolo, o pintor russo Vsévolod Semiasin redige uma carta onde revela as razões da sua loucura.

A história destes três mestres, baseada num enigma (o destino insuspeito da Virgem Barbuda de Adriano de Robertis) e gravitando em torno de uma ideia central (o compromisso do pintor com a sua arte face ao poder encarnado pela Igreja, Mercado ou Estado), é o eixo condutor de A Luz é mais Antiga que o Amor, livro de que um romancista chamado Bocanegra nos fala durante três momentos cruciais da sua vida: o nascimento da sua vocação, a morte da mulher e a sua consagração em 2040 como glória da literatura universal.

Depois da aplaudida Trilogia do Mal, Ricardo Menéndez Salmón regressa com um texto audacioso que pode ser lido como um ensaio sobre o génio artístico, como um romance de aprendizagem e até como uma obra de mistério." 

Esta opinião está a sair a ferros... Isto porque não me sinto, relativamente a este livro capaz de o comentar ou de estruturar uma opinião. É provável que a dificuldade esteja associada ao facto de não ser propriamente um romance, mas antes uma espécie de ensaio. Portanto a dificuldade começa logo por não o conseguir categorizar... :)
Enfim, rótulos à parte, A Luz é Mais Antiga que o Amor é, primeiro que tudo um livro que só pelo título vale a pena comprar, ou no mínimo merece uma espreitadela à sinopse. A frase é linda! Depois, é um livro do genial Ricardo Menéndez Salmón (RMS), o autor da surpreendente Trilogia do Mal (já aqui comentada). Estas foram as razões que me levaram a comprá-lo e agora que foi lido, não me parece que tenha corrido mal. :)

A Luz é Mais Antiga que o Amor, é um livro sobre pintura, sobre pintores e sobre a arte de criar, cuja narrativa chega até nós através de um escritor, Bocanegra que se parece muitas vezes com o próprio RMS.
Nele RMS percorre três períodos da história, cada um dedicado a um pintor distinto. Conhecemos Adriano de Robertis, no século XIV, em 1350, a defender a sua obra mais polémica, a Virgem Barbuda contra a censura da Igreja. Dá-se um salto no tempo e já no século XX é-nos apresentada a obra e vida de Mark Rothko (a única personagem não ficcionada), que em 1970 pôs termo à própria vida no seu estúdio e, terminamos, já com um pé no século XXI, com Vsévolod Semiasin, que numa série de cartas ao cunhado, descreve a sua delirante e tortuosa caminhada para a loucura. Nos entretantos vamos também conhecendo a vida e o percurso de Bocanegra, o narrador. 

Nada parece ligar estes três pintores, viveram em épocas distintas e nenhum deles atingiu a tão procurada imortalidade através das suas obras. No entanto, são os três atormentados pelos mesmos medos, pelas mesmas dúvidas e todos eles são de certa forma loucos ou donos de uma sanidade mental precária.
Os três lutam contra a rotina e contra aquilo que os outros acham correcto. Tentam de uma forma ou de outra ser únicos, originais, notando-se que excentricidade evolui a par com o passar do tempo, sendo Vsévolod Semiasin o seu expoente máximo. De Robertis apenas descobre a sua capacidade de "pensar fora da caixa" depois do seu único filho morrer, vítima da peste negra. Até aí fazia aquilo que esperavam dele, não sentido necessidade de criar algo diferente, até que o filho o incentiva a utilizar a criatividade sem amarras. A Virgem Barbuda nasce da dor de perder o filho e desejo de lhe prestar homenagem. É uma obra de tal forma surpreendente que temos sérias dúvidas que Beaufort tenha tido coragem de a destruir. A Virgem Barbuda embora apenas seja mencionada no início do livro quando Pierre Roger Beaufort (futuro papa Gregório XI) é encarregue de a destruir por a considerar uma obra demoníaca, é uma referência que parece estar sempre presente em todo o livro, a rondar as vidas de Rothko e depois de Vsévolod Semiasin.

"O oval que Beaufort contempla é de uma beleza insultuosa, apesar da encrespada barba  cor de cinza que esconde a sua parte inferior. Beaufort treme de raiva embora ao mesmo tempo se interrogue de que corpo nascido para a corrupção e para a tumba conseguiu De Robertis extrair semelhante explosão de beleza."

Embora seja um livro um pouco diferente dos que estou habituada a ler e, mesmo considerando a dificuldade que tive em acompanhar alguns temas, nunca pus a hipótese de o deixar de lado e não o acabar. :) A verdade é que gosto mesmo muito da forma com o RMS conta as suas histórias e, A Luz é Mais Antiga que o Amor, não é uma excepção. Ele consegue manter-nos interessados não só no destino das personagens como nas considerações que vai fazendo, neste caso, sobre o processo criativo, quer de pintores quer de escritores, sendo os dilemas muitas vezes comuns, e sobre o amor e a luz.

Gostei e recomendo com a reserva de ser um livro um pouco diferente que, mais do que não ser para todos, é um livro que tem um tempo próprio e uma altura certa para se ler.

Boas leituras!

Excerto:
"Quando conheceu Matilde, Bocanegra era um homem satisfeito. Não feliz. Satisfeito. A sua vida era aprazível, estava saciada até onde a razão tinha imposto o seu império. As superfícies do mundo não eram brilhantes, é verdade, mas eram nítidas. Embora não tivessem relevo, os objectos possuíam substância. As suas mãos apertavam, tocavam, apalpavam. E, apesar de nem sempre serem capazes de reconhecer o que apertavam, o que tocavam, o que apalpavam, dava-se por satisfeito.
Não feliz. Satisfeito.
Então apareceu Matilde e tudo mudou.
Desmoronou-se. Ardeu. Ficou laminado. Transformado em lava. Dissolveu-se como açúcar num tanque de água. Não há metáforas que possam expressar semelhante descoberta. Porque Matilde era, e o que é não precisa de nenhum crédito fora do seu ser. O que é, é a sua própria evidência."