fevereiro 23, 2014

[Livro novo] Joanne Harris - Um Gato, um Chapéu e um Pedaço de Cordel

Já não será novidade, uma vez que já está à venda pelas livrarias desse país, mas a Joanne Harris tem livro novo e, mais uma vez, com uma capa deliciosa!

Sinopse (retirada do site da Wook)
«As histórias são como bonecas russas: abrem-se e em cada uma encontra-se uma nova.
As histórias neste livro são um pouco assim. Embora ao princípio não pareçam estar relacionadas, os leitores descobrirão que elas estão ligadas de várias maneiras, umas com as outras e também com os meus romances.
Para mim, as histórias são como mapas de mundos ainda por descobrir. Espero que estas vos levem a avançar um pouco mais por esse território inexplorado.»

Joanne Harris


"Crianças de vida difícil e coração vibrante, fantasmas domésticos, velhas senhoras em busca de aventura, uma paixão impossível sob os céus de Nova Iorque, a improvável magia de uma sanduíche, as extravagâncias a que a saudade obriga…
O universo romântico, místico e sempre especial de Joanne Harris está de volta em dezasseis histórias que são como bombons: deliciosas, tentadoras e irresistíveis."
Toca a comprar e a ler! :)
Boas leituras!

Ritual - Mo Hayder

Título original: Ritual
Ano da edição original: 2008
Autor: Mo Hayder
Tradução: Rosário Morais da Silva, Liliana Santos, Maria do Rosário Heitor, Lucília Tibério e Catarina Fonseca
Editora: Publicações Europa-América

"Nas águas do porto de Bristol, uma mergulhadora encontra a mão de um cadáver. Mais perturbante do que a ausência de um corpo é a descoberta, alguns dias depois, de uma mão. E todas as provas apontam para que o corpo tenha sido decepado ainda com vida.
Transferido de Londres, o agente Jack Caffery pertence à unidade de investigação criminal de Bristol e as suas buscas levam-no aos meandros de um submundo sinistro: o lugar mais terrível que já conheceu."

Já tinha saudades de ler um livro da Mo Hayder, autora cujos livros tanto me impressionaram e surpreenderam. Este Ritual, é o primeiro de três livros, série à qual a autora chama "The Walking Man" e onde "ressuscita" o inspector Jack Caffery, personagem que conheci no Os Pássaros da Morte, mais um livro a não perder desta autora de policiais verdadeiramente assustadores. :)

Ritual junta, Phoebe Marley, mais conhecida por Flea, e Jack Caffery. Flea pertence à equipa de mergulhadores da polícia e a sua missão é encontrar cadáveres no fundo de qualquer "poça" de água, tarefa na qual é muito boa. Flea é uma jovem insegura, que só se sente bem com o fato de mergulho vestido, no silêncio e escuridão das águas profundas. Perdeu os pais, também eles mergulhadores experientes, em Boesmansgat (Bushman's Hole - África do Sul), um dos lagos mais profundos do mundo e um dos sítios mais perigosos para mergulhar. Os seus corpos nunca foram recuperados e Flea vive atormentada pela culpa de não ter mergulhado com eles no dia em que morreram e obcecada com a recuperação dos corpos dos pais. Tem um irmão que sobreviveu ao mergulho em Bushman's Hole, mas que nunca recuperou psicologicamente do trauma daquele dia.

Flea e Caffery conhecem-se quando esta e a sua equipa de mergulho encontram no porto de Bristol uma mão, sem corpo, apenas uma mão. Uns dias depois, encontram a outra mão e continua a não existir um corpo e tudo leva a crer que as mãos foram decepadas de um corpo ainda com vida. A investigação torna-se então numa luta contra o tempo para que se encontre a vítima ainda com vida.
No decorrer da investigação a suspeita de que o crime poderá estar relacionado com rituais africanos muti torna-se cada vez menos uma suspeita e mais uma certeza. Como seria de esperar, fazer com que alguém fale sobre este assunto não será tarefa fácil e enquanto todos negam qualquer envolvimento com rituais Muti, vamos seguindo a espiral de loucura e depravação do responsável pelas mãos decepadas e assistimos ao sofrimento que este inflige à sua vítima.

E sobre a história terei de ficar por aqui para que nenhum dos leitores do Quero Um Livro sintam que acabei de lhes estragar a leitura do livro.

Mo Hayder cria um ambiente pesado, com personagens perturbadoras e perturbadas. As que são perturbadoras, andam cheias de ódio e as que são perturbadas, são pessoas cheias de traumas e vícios, ao ponto de se tornarem elas próprias perturbadoras e assustadoras.
A escritora põe a descoberto uma realidade feia, suja e perigosa que é a do mundo das drogas e do que se é capaz de fazer por mais um dose. Os prédios são escuros, cheiram mal e estão em avançado estado de degradação. Não muito diferentes das pessoas que por lá vagueiam.

Toca também o tema da emigração ilegal e legal, vinda do continente Africano, onde estes imigrantes se recusam a abandonar crenças ancestrais e trazem consigo costumes e maneiras de encarar o mundo completamente diferentes das existentes no Ocidente.

Se a estes dois temas juntarmos ainda a pedofilia... temos um livro que não será para todas as pessoas. Acho que é um livro pesado e sujo, mas nunca deixa de ser isso mesmo, um livro, uma história, embrulhada em realidades feias, mas sem deixar nunca de ser ficção.

Gosto de Mo Hayder e de Caffery, mesmo que neste Ritual ele esteja extremamente perturbado. Gosto da personagem fetiche da autora, mas até agora gostei mais dos dois livros em que ela foge ao mundo de Caffery. Isto para dizer que gostei muito deste Ritual, tal como gostei bastante do Os Pássaros da Morte, mas o que me fez voltar a ler Mo Hayder foram livros como Tóquio e A Ilha dos Porcos.

Posto isto, recomendo para quem gosta deste género de livros, com descrições mais realistas e com menos cuidados para com o leitor menos avisado. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Para começar a rotina é a mesma - uma pancada na parte de trás do carro, depois a venda e a viagem aos solavancos. As portas abrem-se e fecham-se; depois a sensação áspera e quebradiça do sofá quando se senta, agora tem uma mola solta que lhe pressiona a parte de trás das coxas até se desviar um pouco. Mas, quando a venda é retirada, Skinny chora.
- O que é? - Mossy sente um nó de ansiedade na garganta. - Que se passa?
Skinny desvia o olhar dele. Passa o polegar e o indicador ao longo da comprida coluna que é a sua garganta e Mossy recorda a forma como, última vez sentiu o músculo a mover-se naquela garganta. Sente os nervos no estômago.
- Que é? - pergunta novamente. - Vá lá, homem, que é? Que querem eles desta vez?
Skinny olha para ele com os olhos rasos de água.
- Desculpa - diz ele, em voz sumida. - Desculpa, desculpa mesmo."

Nota para a edição: É má, tendo em conta o preço que a Europa-América pratica, exigia-se pelos menos uma revisão final para eliminar gralhas. Nesta edição são mais que muitas. Eu que nem sou de me chatear com isso, neste fez-me confusão.

janeiro 26, 2014

Desgraça - J. M. Coetzee

Título original: Disgrace
Ano da edição original: 1999
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: José Remelhe
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Com cinquenta e dois anos, o professor David Lurie perde o emprego e os amigos depois de um romance com uma das suas alunas, refugiando-se na quinta da filha, Lucy. As tentativas de David para se relacionar com Lucy e com uma sociedade feita de novas complexidades raciais são perturbadas por uma tarde de violência que os vai modificar, a ele e à filha, de uma forma que ele jamais poderia prever." 

J. M. Coetzee é um autor para o qual não devemos partir de ânimo leve. As suas histórias têm uma espécie de força para a qual temos de estar preparados . A violência, não apenas física, que lá vamos encontrar é, à falta de melhor palavra, desconcertante e toda a dinâmica que ele cria chega a ser desconfortável. 
Quando o título do livro é Desgraça, não podemos dizer que fomos apanhados desprevenidos.

(pode conter spoilers)

Desgraça passa-se na África do Sul, o país que todos conhecemos pelas piores razões, mesmo que pelo meio surjam coisas boas, quando o nome África de Sul surge, a nossa primeira reacção é, naturalmente, de apreensão. David Lurie é um dos brancos daquele país, tem cinquenta e dois anos, divorciado, com uma filha e professor universitário na Cidade do Cabo. Dá aulas apenas porque precisa da estabilidade financeira, não sente qualquer vocação e não sente por parte dos seus alunos qualquer afeição ou interesse particular pelas suas palestras literárias.
É, ao mesmo tempo, obstinado e fiel aos seus princípios, não pensa no país como sendo preto e branco, vê pessoas e principalmente vê mulheres, miúdas mais novas que lhe despertam interesse. É o que acontece com Melanie, uma das suas alunas com quem acaba por se envolver. Gosta dela, para além do físico, e em plena crise de meia idade, não vê qualquer sinal de perigo na relação que mantém com a rapariga. Naturalmente, nem tudo corre como esperado e David, após uma espécie de julgamento académico, levado a cabo pelos seus pares na universidade, é expulso da instituição, acusado de assédio sexual. Para além da questão moral, que é discutida por alguns colegas de David, principalmente colegas femininas, a sensação que fica é que, David foi expulso porque não entrou no jogo da expiação e remorso que os seus colegas teriam desejado. Não precisavam  de remorso verdadeiro apenas de um pedido de desculpa que David nunca esteve disposto a pedir. Desculpa porquê? Nunca fez nada de mal.

Sem nunca alcançar a gravidade do que lhe aconteceu mas sabendo que o melhor é desaparecer por uns tempos, parte para o interior, para viver uns tempos com a filha Lucy. E é aqui que tudo começa. É engraçado como deste livro de Coetzee as referências que tinha eram apenas a da história inicial, da relação da personagem com uma aluna e dos problemas raciais à volta. Na realidade esta é apenas uma parte da história e que fica mais ou menos resolvida assim que ele parte para junto da filha. A história com Melanie parece servir apenas para nos dar a conhecer David, a forma como vive e o que pensa. Serve também para mostrar dois mundos distintos, o meio urbano onde todos tentam ser o mais civilizados possível, e o meio rural onde a violência é uma realidade e a questão racial é um problema muito mais concreto.

A filha de David, já adulta, vive sozinha numa quinta no interior do país. Cultiva hortaliças, planta flores e tem um canil. É uma mulher branca a viver sozinha numa quinta e David não percebe como a filha não vê os perigos que isso pode trazer. Para Lucy, o pai é um homem da cidade, instruído e que vem para ali cheio de preconceitos e que simplesmente não percebe que a felicidade está nas coisas simples, trabalhar no campo, ajudar animais em perigo e viver de forma a não ofender ninguém. Ela acredita que vivendo de forma honesta, sem tiques de proprietária colonialista, nada de mal lhe pode acontecer. David acaba por se ir adaptando à vida no campo, ao contrário do que a filha pensa, ele não é um pseudo-intelectual preconceituoso. Ambos têm muito a aprender um com outro. Na verdade David gosta da oportunidade que a vida lhe está a dar para conhecer melhor Lucy, a filha independente que sempre fez o que quis, sem precisar de grande orientação por parte dos pais. Acima de tudo, existe em David uma necessidade de encontrar um lugar no mundo onde se possa sentir útil. Para David envelhecer não tem sido pacífico, principalmente por causa das mulheres, o seu calcanhar de Aquiles. :) Por isso pretende aproveitar toda a história com a aluna para recuperar o tempo perdido com a filha e ser um pai mais presente, protegê-la dos perigos e se conseguir sair de todo este processo uma melhor pessoa tanto melhor.

Infelizmente os receios de David acabam por ser concretizar no dia em que os dois são atacados na propriedade de Lucy, por um grupo de homens, quase uns miúdos, que fazem mais do que roubar o carro de David. A violência, mais insinuada do que descrita, é revoltante e as consequências vão muito para além do físico. 
David martiriza-se por não ter conseguido proteger a filha. Lucy após um período de isolamento, encontra uma forma de despersonalizar o que lhe aconteceu e tenta contextualizar, justificar o comportamento dos homens que a atacaram. Ela começa a encarar tudo aquilo como o preço a pagar para poder permanecer ali, como se a violência de que foi vítima estivesse escrita nas condições contratuais que vinham com a compra do seu pedaço de terra. Existe a partir dali uma dinâmica entre as personagens que é desconcertante. Com o pai a não saber lidar com as ideias de uma filha que achava ser mais inteligente, mais livre e evoluída, no seu entender. Sem conseguir perceber a teimosia da filha em querer continuar ali, a viver, lado a lado com um dos miúdos que violou. A lidar com a culpa, completamente incapaz de convencer a filha a sair daquele lugar, a relação entre os dois degrada-se. David regressa à Cidade do Cabo, apreensivo por deixar Lucy sozinha mas consciente de que lhe faz mais mal que bem, naquele momento. Volta para um cidade que já não reconhece e que deixou de o aceitar. Percebe finalmente o que precisa de fazer relativamente a Melanie e à família desta, pede perdão, e volta para junto da filha que, quer ela saiba quer não, precisa mais dele do que imagina. Volta redimido e predisposto a retirar-se da equação e concentrar-se na recuperação física e psicológica da filha.

Desgraça é um livro violento, com personagens difíceis de esquecer, complexas e inesperadas, que nos exasperam e nos comovem. Gosto de Coetzee e do que faz com as palavras. Gosto da forma como conta uma história e de como cria em nós, leitores, empatias. 

É um livro que deve ser lido, por toda a carga emocional e humana que transporta e porque Coetzee é realmente um escritor muito bom. 

Boas leituras!

Excerto:
"(...) Na minha opinião, aquilo que me aconteceu só a mim diz respeito. Noutra época, noutro local, talvez pudesse ser considerado um assunto público. Mas, neste local, nesta época, não é. É um assunto meu, apenas meu.
 - E a que local te referes?
 - A África do Sul.
 - Não concordo. Não concordo com o que estás a fazer. Pensas, porventura, que ao aceitares pacificamente o que te aconteceu, conseguirás diferenciar-te de agricultores como o Ettinger? Pensas, porventura, que o que aconteceu aqui foi um teste: se tiveres boa nota, recebes um diploma e um salvo-conduto para o futuro, ou uma tabuleta para colocares por cima da porta que fará com que a praga passe sem te atacar? Não é assim que a vingança funciona, Lucy. A vingança é como um incêndio. Quanto mais devora, mais fome tem."

Fica o trailer do filme inspirado na obra de J. M. Coetzee - "Disgrace" de Steve Jacobs, com John Malkovich no papel de David Lurie:

janeiro 02, 2014

La Coca - J. Rentes de Carvalho

Título original: La Coca
Ano da edição original: 2011
Autor: J. Rentes de Carvalho
Editora: Quetzal Editores

"Manuel Galeano - que sempre tivera "o contrabando no sangue" - desapareceu inesperadamente antes de um segundo encontro. O primeiro, em Amesterdão, fora uma conversa saborosa no bar de um hotel (memórias de juventude e certas confidências sobre o presente), e é o ponto de partida para uma longa evocação e uma viagem sentimental: cinco décadas de história do tráfico entre o Minho e a Galiza. Negócios de cigarros, uísque, barras de ouro, gado, café e, mais recentemente, droga. Com a história seguem também os seus deliciosos protagonistas (Diogo Romano, El Min, Sítio Minanco, o Pardal, o Pepe Mustafá e o Laurestim), que compõem o imaginário pícaro da região que o autor revisita para lembrar a sua primeira idade adulta."

Gosto muito de J. Rentes de Carvalho, não é novidade para ninguém. Mas este La Coca não me encheu as medidas. Achei-o um pouco desligado e a história pouco fluída. Está lá o cunho de J. Rentes de Carvalho, que não existam duvidas em relação a isso, não deixou de ser um livro que se leu muito bem e com gosto, só não será dos mais inspirados dele. :-)

Feita esta parte difícil da opinião, a de dizer que não amamos um livro de um escritor que nos diz muito, passemos ao livro propriamente dito. 

La Coca é, à semelhança de outros livros de J. Rentes de Carvalho, um livro de memórias, nostálgico por natureza e, por isso, muito mais do que um livro sobre os contrabandistas minhotos e galegos do século passado e dos narcotraficantes deste século. A história inicia-se quando o nosso escritor, a viver em Amesterdão, reencontra um amigo de longa data, um daqueles que fazem parte das nossas brincadeiras de infância. Desse encontro inesperado, nasce no narrador (que supomos ser o próprio escritor) uma vontade de revisitar os lugares que o viram crescer. Sob o pretexto de um trabalho de investigação acerca do novo contrabando praticado na fronteira, parte para Portugal. Lá encontra, para além do rastro perdido e incerto dos amigos de outrora, as memórias das paixonetas, as angústias da adolescência e lugares que já não são exactamente como se recorda deles. Mudanças que doem, que quase põem em causa toda uma vida estruturada em função de memórias que sempre acreditou serem concretas e reais. 
J. Rentes de Carvalho vai, desta forma, relatando as vivências dos minhotos y sus hermanos galegos numa época onde quase tudo era proibido. Recorre às suas próprias recordações e às conversas que vai tendo com quem faz, hoje em dia, a história da região.


Enfim, gostei mais uma vez da escrita de J. Rentes de Carvalho, da familiaridade que os lugares nos transmitem e da história. Não me identifiquei muito com a forma como é contada, achei-a menos envolvente, talvez porque ele acaba por não aprofundar o tema do narcotráfico e este acaba por ser pouco mais do que o fio condutor das memórias do escritor.

Recomendo por ser um livro de J. Rentes de Carvalho, o que quer dizer que, mesmo menos inspirado, vale a pena ler! ;-)

Boas leituras!

Excerto:
"Seguindo ao longo da margem refaço, pois, o que foi o caminho de casa. Mas chegado ao pequeno jardim fronteiro ao convento de Corpus Christi - o convento das freiras, como ainda se diz - paro num banco, sem vontade de me meter calçada acima e subir a escadaria medieval feita de pedras grosseiras e desiguais. Também, de facto, sem vontade de rever o largo onde nasci, porque todas as vezes que lá volto, e por muito que me esforce por reter a sua imagem actual, por mais atentamente que procure captar os rostos das pessoas, o aspecto das casas, dos armazéns de vinhos, a cor dos muros dos quintais, a amplidão do panorama, mal me vou embora logo essa imagem se desfaz. Como se a memória, ao filtrar as impressões, desdenhe das recentes e prefira aquelas sobre que pesa a recordação."

dezembro 24, 2013

Feliz Natal!

Neste Natal desejo a todos:
 
1ª Uma mão cheia de sonhos, dos que levam canela e açúcar e dos outros;

2ª As mãos de sempre, enfarinhadas e cheias de tudo;

3º Gargalhadas e cumplicidades.



 Um Feliz Natal para todos!

dezembro 15, 2013

As Memórias de Cleópatra (1º Vol) - A Filha de Ísis - Margaret George

Título original: The Memoirs of Cleopatra
Ano da edição original: 1997
Autor: Margaret George
Tradução: Sérgio Gonçalves
Editora: Saída de Emergência
"A autora do best-seller mundial A Paixão de Maria Madalena está de volta com um convite irrecusável: a visita ao Antigo Egipto e à vida de Cleópatra, a rainha do Nilo. Escritas na primeira pessoa, As Memórias de Cleópatra começam com as suas recordações de infância e vão até ao seu glorioso reinado, quando o Egipto se torna um dos mais deslumbrantes reinos da Antiguidade.
As Memórias de Cleópatra são uma saga fascinante sobre ambição, traição e poder, mas também são uma história de paixão. Depois de ser exilada, a jovem Cleópatra procura a ajuda de Júlio César, o homem mais poderoso do mundo. E mesmo depois do assassinato daquele que se tornou o seu marido, e da morte do segundo que amou, Marco António, Cleópatra continua a lutar, preferindo matar-se a deixar que a humilhem numa parada pelas ruas de Roma.
Na riqueza e autenticidade das personagens, cenários e acção, As Memórias de Cleópatra são um triunfo da ficção. Misturando história, lenda  e a sua prodigiosa imaginação, Margaret George dá-nos a conhecer uma vida e uma heroína tão magníficas que viverão para sempre."

Não me vou alongar muito nesta opinião, uma vez que, A Filha de Ísis é apenas o primeiro volume das Memórias de Cleópatra.

Este é o volume onde a própria Cleópatra relata os primeiros anos do seu reinado, como Rainha do Egipto. Começa por falar um pouco da sua infância e da família, do pai e dos irmãos e da relação com eles. Sem este enquadramento da história e tradição dos Ptolomeu, descendentes de Alexandre, muitas das decisões e acções futuras seriam questionáveis.

Cleópatra conta como conheceu e se apaixonou por César, na altura o mais destemível e temido general das forças romanas à conquista do mundo. Um homem muito mais velho, com enorme carisma, um poder imensurável, enfim... um homem irresistível e que, quando está junto de Cleópatra, demonstra ser apenas um homem.
Grande parte deste primeiro volume concentra-se na aliança política e pessoal que Cleópatra vai manter com o homem mais poderoso do mundo. Com o apoio dele recupera o trono do Egipto e, é também por ele que é mantida a independência do seu reino, não sendo o Egipto anexado como parte do Império Romano.

Cleópatra é apresentada como uma mulher moderna, com ideias e ambições próprias e uma boa estadista, com capacidade para gerar consenso. Não é dona de uma beleza estonteante, é sim, exótica e carismática. Aposta tudo na sua relação com César, principalmente por amor, genuíno e desinteressado, mas também porque sabe que é, naquele momento, a única forma que tem de continuar a ser a Rainha do Egipto.
Este primeiro volume termina pouco depois da morte de César, assassinado às mãos do seus supostos aliados. Termina com Cleópatra a regressar a Alexandria depois de uma prolongada temporada em Roma onde cimentou a sua aliança a César, agora morto.

Gostei deste primeiro volume, mas não fui de todo arrebatada por ele. Acho a escrita de Margaret George pueril, demasiado próxima da de um romance de cordel. Num romance histórico, deixam-me um pouco desconfortável, os suspiros e os devaneios de adolescente de Cleópatra. Faz-me confusão, uma rainha, deixar tanto tempo o seu reino para estar junto do seu grande amor, embora tenha sido importante para vincar a sua posição, achei despropositado. No entanto, como não faço ideia do que, nesta história, é real ou ficcionado, para além dos grandes acontecimentos, é claro, até pode ter-se passado assim... :)

Achei-o por vezes cansativo, ela prolonga demasiado o relato dos acontecimentos e, embora seja claro para mim que vou ler os outros dois volumes, também foi claro, desde muito cedo que não iria lê-los de seguida. Sinto necessidade de espaçar a leitura e mudar de tema...

Gostei dos ambientes criados, tanto os egípcios como os romanos. As festas e as celebrações, a forma como se comportavam foram das partes mais interessantes do livro. Gostei muito da personagem de César, mais até do que da Cleópatra. Talvez a Cleópatra mais velha e experiente me cative mais nos volumes que se seguem.

Resumindo, gostei. Vou ler de certeza os dois volumes que faltam - O Signo de Afrodite e O Beijo da Serpente - mas estou a fazer figas para que estes dois sejam mais arrebatadores.

Recomendo. A época é só por si cheia de acontecimentos e as personagens tem potencial para serem muito boas de acompanhar. :)

Boas leituras!


Excerto:
"Na  parede de trás da sala, vi primeiro a estátua, maior do que um homem normal e orgulhosa no seu pedestal. E aos seus pés... um monte de roupas manchadas de sangue, com os pés à mostra, pés que pareciam muito pequenos para serem os de César.
Imediatamente o alívio: não era ele.
Aproximei-me do monte de roupa inerte, retendo a respiração, certa de me deparar com outra pessoa. Ajoelhei-me e com a mão tão trémula que mal conseguiu segurar o tecido, levantei a toga e vi o rosto de César.
Gritei quando o vi e soltei o tecido. Os seus olhos estavam fechados, mas ele não parecia dormir. Estava de uma forma que nunca o vira antes. Mentem aqueles que dizem que um morto parece dormir. Depois, quando me controlei, levantei o tecido de novo e afaguei o seu rosto: frio, como se a frieza do chão de mármore tivesse passado para dentro dele, tomando conta do seu ser."

novembro 17, 2013

No Meu Peito Não Cabem Pássaros - Nuno Camarneiro

Título original: No Meu Peito Não Cabem Pássaros
Ano da edição original: 2011
Autor: Nuno Camarneiro
Editora: Publicações Dom Quixote

"Que linhas unem um imigrante que lava vidros num dos primeiros arranha-céus de nova iorque a um rapaz misantropo que chega a Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros. 
Em 1910, a passagem de dois cometas pela Terra semeou uma onda de pânico. Em todo o mundo, pessoas enlouqueceram, suicidaram-se, crucificaram-se, ou simplesmente aguardaram, caladas e vencidas, aquilo que acreditavam ser o fim do mundo.
Nos dias em que o céu pegou fogo, estavam vivos os protagonistas deste romance - três homens demasiado sensíveis e inteligentes para poderem viver uma vida normal, com mais dentro de si do que podiam carregar.
Apesar de separados por milhares de quilómetros, as suas vidas revelam curiosas afinidades e estão marcadas, de forma decisiva, pelo ambiente em que cresceram e pelos lugares, nem sempre reais, onde se fizeram homens. Mas, enquanto os seus contemporâneos se deixaram atravessar pela visão trágica dos cometas, estes foram tocados pelo génio e condenados, por isso, a transformar o mundo. Cem anos depois, ainda não esquecemos nenhum deles.
Escrito numa linguagem bela e poderosa, que é a melhor homenagem que se pode fazer à literatura, No Meu Peito não Cabem Pássaros é um romance de estreia invulgar e fulgurante sobre as circunstâncias, quase sempre dramáticas, que influenciam o nascimento de um autor e a construção das suas personagens."

Nuno Camareiro é o vencedor do Prémio Leya de 2012, o que me deixou simultaneamente curiosa e de pé atrás. Os critérios para a atribuição de um prémio literário são, naturalmente, muito racionais. Dá-se mais importância à técnica e menos aos sentimentos, subjectivos e pessoais, que uma história pode despertar no leitor. As críticas positivas que li a este autor acabaram por me convencer de que valeria a penas dar uma espreitadela aos livros dele. Além disso, acho o título deste No meu Peito Não Cabem Pássaros bonito e às vezes é tão fútil quanto isso, um livro ter um título bonito pode ser a razão pela qual vem connosco para casa... ;)

No Meu Peito Não Cabem Pássaros é um livro repleto de imagens bonitas, de frases que transmitem mais do que aquilo que está escrito no papel. A escrita de Nuno Camarneiro é poética, sem ser etérea. É palpável e próxima. É um livro construído de suspiros, sobressaltos, de olhares, de pensamentos, de interrogações, de imaginação. Uma reinvenção do mundo como o vemos no nosso dia-a-dia. Num livro cujos três protagonistas foram inspirados em três dos escritores menos óbvios do século passado não é de se esperar outra coisa.

Nuno Camarneiro pegou no Checo Kafka, no nosso Pessoa e no Argentino Borges, e contou-nos um pouco da vida dos três, a infância, a passagem para a vida adulta e a descoberta da escrita como forma de entenderem o mundo.

Não é um livro fácil, embora a escrita não seja complicada, por não ser o típico romance, com uma narrativa estruturada de forma clássica, exige alguma concentração extra. Os capítulos pequenos permitem que se seja uma leitura dinâmica e que consigamos imprimir o ritmo mais pausado que a escrita impõe. 
Gostei, essencialmente porque a escrita é refrescante e achei curioso que as três personagens sejam tão diferentes uns dos outros, embora sejam mais ou menos contemporâneos. A única característica que os une é mesmo a imaginação e a vontade de escrever, por razões diferentes, como forma de recriar a própria vida. Os três muito marcados por episódios da infância, pela educação e costumes de cada país. 

Gostei! É um escritor a manter debaixo de olho.

Recomendo!

Boas leituras!

Excerto:
De Karl - "Sente-se um silêncio impossível, um silêncio que desafia a cidade inteira. Há eléctricos parados no meio da rua e os passageiros espalhados à volta de cabeça no ar. Durante alguns minutos ninguém se mexe, a cidade está parada. De repente um miúdo remendado decide romper o impasse com um salto e despudor, a bolsa de uma senhora desatenta é um pretexto como outro qualquer, ela desce o olhar e grita desapossada, mas o rapaz já vai longe. Gritos, comentários, alguém que chama a Polícia. A cena dessacraliza os olhares e há agora quem descubra que é tarde e faz frio, que não é a primeira vez que o céu arde e a humanidade ainda por cá anda, com a fome de sempre e outras coisas em que pensar."

De Fernando - "Os homens multiplicam-se a cada cruzamento, os homens são assim. Caminho para aqui, caminho por ali, uma direcção na vida e outra no pensar. Quatro cruzamentos são dezasseis homens, vinte são um milhão, quarenta e oito mil, quinhentos e setenta e seis homens. Gabardine ou sobretudo, café curto ou cheio, a pé ou de eléctrico, almoço no escritório ou no Alves, dezasseis homens. Passou um meio dia e é já difícil encontrar mesa onde sentar tanta gente, acabe o dia, venha outro, uma semana, um mês, um ano, e nem na China cabem os homens que saem de um homem."

De Jorge - "Por fim, lá se chega à idade de ver a vida pelo que não chegou a ser. O presente é terrivelmente condicionado pelo passado e por tantas leviandades cometidas sobre o tempo. Tudo a que um dia se brincou acaba por ser só memória e caminho, degrau de uma escada sempre a estreitar. Depois um homem senta-se à mesa e escreve por vingança contra si mesmo - para viver outras vidas, como dizem alguns."