março 14, 2015

Sangue Asteca (vol. 2) - Gary Jennings

Título original: Aztec
Ano da edição original: 1980
Autor: Gary Jennings
Tradução do inglês: Carlos Romão
Editora: Saída de Emergência

"Este é considerado pela crítica como o melhor romance sobre a desaparecida civilização Asteca e um dos melhores romances históricos do século XX. Gary Jennings mudou-se para o México e durante 12 anos investigou e viveu apenas para a sua criação: Asteca, deixando-nos uma obra inesquecível. Gary era famoso por ser um dos escritores mais rigorosos e com mais trabalho de pesquisa por trás dos seus romances.
Em 1530, depois de quase extinguir o povo asteca pelas mãos de Hernán Cosrtés, o Imperador Carlos, Rei de Espanha, pede ao bispo do México que lhe faculte inofrmação acerca da vida e dos costumes desse povo. O bispo Juan de Zumárraga decide redigir um documento baseado no testemunho de um ancião, um homem humilde que vai chocar a moral e os preconceitos do mundo civilizado. O seu nome é Mixtli - Nuvem Obscura.
Mixtli, um dos mais robustos e memoráveis astecas, relata com detalhe toda uma vida: a sua infância, a mentalidade e os costumes do seu povo, o sexo, a religião, a sua formação e os seus amores, sempre tormentosos e trágicos. Esta é a sua empolgante e maravilhosa história, que representa também o choque entre civilizações com formas inconciliáveis de ver o mundo."

E passados 3 anos (opinião sobre o Orgulho Asteca aqui) volto à obra-prima de Gary Jennings e conheço finalmente toda a história de Mixtli, o ancião que conta, a pedido do próprio Rei D. Carlos, a religiosos espanhóis a história da civilização Asteca, as origens, os costumes e a forma como foram conquistados pela frota de Hernán Cortés.
Neste segundo volume, Mixtli, agora um homem casado e feliz, com Zyanya, a única mulher que alguma vez amou, continua o relato das suas aventuras pelo Mundo Único e mais além. Conhecidas as suas extraordinárias habilidades linguísticas e diplomáticas, é enviado em missão, pelo Uey-Tlatoáni - o Venerado Orador, aos mais variados sítios. Neste segundo volume a vida de Mixtli, à semelhança de todo o seu povo, é feita essencialmente de perdas e de cedências. Tudo aquilo que foi conquistando, a mulher, a filha, uma família, as viagens que lhe permitiram conhecer outros povos, maneiras diferentes de pensar, tudo isso acaba por desaparecer. De forma trágica, perde a mulher, mais tarde a filha e por fim toda uma civilização desaparece perante os seus olhos. No fim, resta Mixtli para testemunhar e contar, para que não sejam esquecidos.

Sangue Asteca é, como também o é o primeiro volume, um impressionante documento histórico, com personagens tão próximas e ricas que a leitura é tudo menos maçuda. Embora seja um volume mais triste, com momentos verdadeiramente trágicos, está também cheio de momentos divertidos, onde o melhor da personalidade de Mixtli sobressai. E por isso, levarei algum tempo a esquecer a morte da filha de Mixtli, mas não será só isso que levo deste livro. Levo comigo o primeiro contacto de Mixtli com os espanhóis, hilariante. Levo ainda a viagem nunca feita até Aztlan, a terra de onde os Astecas que conhecemos terão partido para fundar o Mundo Único. Ficará, sobretudo, a sensação de se ter exterminado, em nome de Deus e da ganância, uma civilização com a qual nada se quis aprender, e não estou a falar, obviamente, dos rituais onde eram sacrificadas vidas humanas.
Fiquei com a sensação incómoda de que nós, a maioria, temos sobre a nossa vida e sobre o nosso futuro tão pouco a dizer, porque somos, a maioria, governados por uma minoria, que se tem mostrado desde sempre incapaz de ver para além de si, incapaz de pensar e planear para além da sua legislatura.

Aztec, no original, de Gary Jennings é um livro a não perder, pela história, pela escrita, pelas personagens e sobretudo pelo que podemos aprender com ele.

Gostei muito e recomendo, como é óbvio!

Boas leituras!

Excerto (pág. 289):

"-«E como lhe prestam homenagem? - perguntei, olhando ao redor da sala, que, obviamente, estava vazia, com excepção de um forte cheiro a peixe -. Não vejo sinais de sacrifício.»
 - «Queres dizer que não vês sangue - disse o velho - . Os teus antepassados também procuravam sangue e por isso saíram daqui. Coyolxaúqui nunca exigiu sacrifícios humanos. (...)
Num tempo muito distante, nós, os Azteca, não estávamos confinados apenas a esta simples cidade. Esta era a capital de um domínio considerável, que se estendia desde a costa às montanhas. Os Azteca estavam constituídos em muitas tribos, divididas em numerosos clãs, capúltin, todos sob o governo de um só Tlatocapíli, que não era - como o meu neto por casamento - um chefe apenas de nome. Eram gente forte, mas pacífica, contente com o que tinha e sentia-se satisfeita com os cuidados que a deusa lhes proporcionava.»
 - «Até que alguns se mostraram mais ambiciosos» - sugeri.
 - «Até que alguns mostraram debilidade! - emendou o ancião, com voz cortante -. As histórias narram como, um dia alguns deles, que andavam a caçar nas altas montanhas, se encontraram com um forasteiro vindo de terras distantes. Este riu-se, zombeteiro, ao saber da vida simples que levavam e daquela religião que nada exigia. O forasteiro disse: "De toda uma infinidade de deuses que há, porque escolheram a mais fraca, a deusa que mereceu ser humilhada e degolada? Porque não venerais aquele que se apoderou dela, o forte, o bravo, o viril deus Huitzilopóchtli?» (...) 
Eu estava tão horrorizado pelo que ouvia que apenas pude exclamar:
 - «Uma mulher?! Então foi uma mulher sem nome e sem importância que concebeu a ideia do sacrifício humano? A cerimónia que agora se pratica em todo o lado?»
 - «Não é praticada aqui - recordou-me Canaútli -. E a nossa suposição pode não ser correcta. Afinal, isto aconteceu há muito tempo, mas tem todas as características de uma ideia feminina de vingança, não +e verdade? E pelos vistos deu resultado, pois, como referiste, no mundo exterior, o homem contiunou a matar o próximo, em nome de um deus ou de outro, durante todos estes feixes de anos que decorreram a partir daí.»
Eu não disse nada. Nem conseguia pensar no que dizer.
 - «Assim, como podes ver - continuou o ancião -, os Azteca que se foram embora de Aztlan não eram os melhores nem os de mais valor. Eram os piores e os mais desprezíveis, e foram-se embora porque os expulsaram daqui à força.»"

janeiro 11, 2015

Os da minha rua - Ondjaki

Título original: Os da Minha Rua
Ano da edição original: 2007
Autor: Ondjaki 
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Há espaços que são sempre nossos. E quem os habita, habita também em nós.  Falamos da nossa rua,  desse lugar que nos acompanha pela vida. A rua como espaço de descoberta,  alegria, tristeza e amizade. Os da minha rua tem nas suas páginas tudo isso. "

Quem nunca leu um livro de um escritor africano lusófono não faz ideia do que anda a perder. A musicalidade que colocam nas palavras, a forma como transformam o nosso português numa língua mais doce, mais alegre, quase uma nova língua, é do melhor que podemos encontrar. Apercebo-me do quão afortunados somos porque os podemos ler sem traduções pelo meio, porque por mais diferente que sejam as palavras, as expressões, o que partilhámos e continuamos a partilhar está lá, no idioma e na história que, para o mal e para o bem, temos em comum. 

Os da Minha Rua é um hino à infância, às crianças, às brincadeiras, aos risos e gargalhadas, aos primeiros amores, à constante descoberta de um mundo imenso e maravilhoso, que à medida que crescemos se vai tornando cada vez mais pequeno e previsível. É um hino à amizade, à família, aos pais, aos irmãos, aos avós e aos tios e primos. :)
Ondjaki, neste pequeno livro de pequenas histórias consegue colocar tudo isto, com uma escrita divertida, emocionante e envolvente que nos transporta a todos para a rua da nossa infância, para a inocência dos tempos simples e aconchegantes. 

É um livro para ler e reler sempre que tivermos necessidade de recordar que a vida já foi bem mais simples e o riso bem mais fácil. 

Recomendo, como é óbvio!

Boas leituras!

Excerto (pág. 113):
"Deixei os braços pousarem na madeira inchada e húmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar a chuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá em baixo, na varanda, os passos da avó Agnette que se ia sentar na cadeira da varanda a apanhar fresco, senti que despedir-me da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua, senti que a rua não era um conjunto de casas mas uma multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância. "

O Sino da Islândia - Halldór Laxness

Título original: Íslandsklukkan
Ano da edição original: 1943
Autor: Halldór Laxness
Tradução do islandês: João Reis
Editora: Cavalo de Ferro

"No final do século XVII, o emissário e carrasco do rei da Dinamarca recebe ordens para confiscar o sino de Þingvellir, o velho símbolo da independência islandesa, e para o levar desmantelado em peças até Copenhaga. Jón Hreggviðsson, um agricultor pobre e rude, a braços com a lei pelo roubo de corda, é acusado do seu homicídio e condenado à morte. A sua atribulado fuga e o longo processo que se seguirá ocupará a justiça durante mais de 30 anos.
Arnas Arnæus, assessor do rei dinamarquês e reputado erudito islandês, envolve-se num caso amoroso com Snæfriður, a filha do magistrado que virá a condenar Jón.
Como os caminhos destas personagens se cruzarão é o que nos conta Halldór Laxness que, com mão de mestre, transforma a história do Sino da Islândia numa homenagem à tradição heróica islandesa, usando como cenários reais conflitos políticos e sociais ocorridos de 1650 a 1790 entre a potência dinamarquesa e a oprimida colónia islandesa.

O Sino da Islândia, pela primeira vez aqui traduzido para português, foi aclamado como uma das obras maiores do prémio Nobel islandês, tendo sido adaptado pelo próprio autor ao teatro, numa peça de clamoroso sucesso."

Não sei muito bem como é que acabei a ler este livro. Acho que fui "apanhada" numa daquelas promoções para prémios Nobel e a verdade é que ao ler  a sinopse pensei: porque não?, não sei nada sobre a Islândia... :)

O Sino da Islândia conta-nos a história da Islândia e dos islandeses no século XVII/XVIII. Os anos em que foram uma colónia da coroa dinamarquesa.
A história começa com a ordem do rei da Dinamarca para que todo o cobre e estanho da Islândia seja enviado para a reconstrução de Copenhaga. Conhecemos Jón Hreggviðsson e o carrasco do rei, que Hreggviðsson há-de matar, quando este participa na retirada e destruição do Sino de Þingvellir, um símbolo da justiça, da lei e da independência da Islândia.
Jón Hreggviðsson é um agricultor, a cumprir pena por ter roubado corda, utensílio essencial, e escasso na ilha, para a sobrevivência de um povo empobrecido, esfomeado e doente, que vivia com dificuldades devido às restrições comerciais que eram impostas pelo reino da Dinamarca. Mais tarde é preso por ter difamado o rei, mas o que se arrasta na justiça durante mais de trinta anos é o julgamento onde é acusado de ter assassinado o carrasco do rei, o mesmo que o obrigou a retirar e destruir o sino da Islândia, em Þingvellir.
O julgamento, e todas as personagens que nele participam, directa ou indirectamente, vai servir de pretexto para conhecermos as condições de vida dos islandeses, a forma como viviam, o que pensavam e o que ansiavam. A forma como eram tratados pelo dinamarqueses e pela coroa, como se não passassem de animais sarnentos e fedorentos que não mereciam mais do que tinham. Ver todo um povo, orgulhoso da sua história e dos seu heróis, ser subjugado desta forma, durante tanto tempo que acabam por acreditar, eles próprios, que não merecem melhor, é angustiante.

Embora não conhecesse o autor, Hálldor Laxness, é natural que por ser um Nobel existissem algumas expectativas, que não foram, infelizmente, totalmente satisfeitas. Achei o ritmo da história um pouco lento, as personagens pouco desenvolvidas e a escrita pouco envolvente. Não sei se se perde algum do encanto na tradução. O islandês é tão diferente do português, que de certeza alguma da alma acaba por se perder na tradução. Este livro vale pela história e pelo que nos dá a conhecer da Islândia e dos Islandeses. É muito interessante nesse aspecto. Conhecemos tão pouco sobre este nosso parceiro do continente europeu, com uma história tão rica e interessante, que é impossível acabarmos o livro e não irmos pesquisar mais um pouco sobre ele. Eu tive de ir, logo no início, para perceber como ler as letras "estranhas" que surgem ao longo do livro. :) Não fazia ideia de como pronunciar Þingvellir, por exemplo ou mesmo o nome de Hreggviðsson... Difícil, muito difícil o islandês. ;)

Recomendo por isso, pelo interesse histórico que tem. Se a escrita fosse mais cativante, tenho a certeza de que voltaria a este escritor, porque gostei muito do universo por onde se move, mas não o sendo, tenho dúvidas se voltarei a ele.

Boas leituras!

Excerto (pág. 391/392):
"Faça como quiser,  fique com a prata dos meus antepassados - ao dizer isto,  soltou o broche de prata e a sua capa preta caiu-lhe dos ombros,  mostrando que estava vestida de azul,  com uma faixa dourada à cintura. - Fique com tudo.  Venda-nos como se fôssemos gado. Enviem-nos para a Jutlândia,  onde há charnecas. Ou, se preferir,  continuem a bater-nos com os vossos chicotes no nosso próprio país.  Façamos de conta que o merecemos.  O bispo Jón Aranson terá um machado dinamarquês no pescoço para toda a eternidade,  e isso estará bem. Deus seja louvado por ele ter feito o suficiente para merecer todos os sete golpes que foram precisos para separar a sua cabeça grisalha do tronco e do pescoço curto e largo que nunca se dobrava.  Perdoe-me por falar, perdoe-nos por sermos uma nação de historiadores que nada esquecem.  Mas não me interprete mal: não me arrependo de nada do que aconteceu, nem em palavras, nem em pensamentos.  Pode ser que a nação mais vitoriosa seja aquela que é exterminada: não suplicarei misericórdia pelos islandeses.  Nós, islandeses, não somos, de facto, demasiado bons para morrermos. E há muito que, para nós, a vida não significa nada. "

dezembro 04, 2014

O Festim dos Corvos - George R. R. Martin

Título original: A Feast for Crows (part 1)
Ano da edição original: 2005
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência

"Continuando a saga mais ambiciosa e imaginativa desde O Senhor dos Anéis, As Crónicas de Gelo e Fogo prosseguem após o violento triunfo dos traidores.
Enquanto os senhores do Norte lutam incessantemente uns contra os outros e os Homens de Ferro estão prestes a emergir como uma força implacável, a rainha regente Cersei tenta manter intacta a força dos leões em Porto Real.
Os jovens lobos, sedentos por vingança, estado dispersos pela terra, cada um envolvido no perigoso jogo dos tronos. Arya abandonou Westeros rumo a Bravos, Bran desapareceu na vastidão enigmática para além da Muralha, Sansa está nas mãos do ambicioso e maquiavélico Mindinho, Jon Show foi proclamado comandante da Muralha mas tem que enfrentar a vontade férrea do rei Stannis e, no meio de toda a intriga, começam a surgir histórias do outro lado do mar sobre dragões vivos e fogo...
Numa terra onde muitos se proclamam como reis e rainhas, todos estado convidados para o Festim dos Corvos. Venha descobrir quem serão os sobreviventes!"

*Só pode conter spoilers*

Mais um passinho em frente na saga de George R. R. Martin. Este volume pouco mais é do que um passinho. Cheira-me que um passinho importante mas sem que se avance muito na história.

Este é um volume essencialmente de mulheres. A única excepção será Samwell, o resto da história gira em torno de Cersei, Brienne, Arya, Sansa e Asha Greyjoy. Parece que o autor está com vontade de dar os sete reinos a uma mulher... :)

Cersei, após a morte do pai tenta manter o poder nas suas mãos. Vê na desgraça que caiu sobre os Lannister a oportunidade de nunca mais depender de um homem. Sem deixar de procurar o irmão Tyrion que odeia para além do que é compreensível.

Brienne ganha neste volume algum protagonismo, na procura de Sansa, desaparecida desde que Joffrey foi envenenado. Parece-me que o autor tem planos para ela. É uma personagem simpática e, de certa forma, divertida por isso ainda bem que não chegou a hora de ficar sem cabeça. ;)
Arya, a fantástica Arya, uma autêntica sobrevivente, depois de abandonar o Cão de Caça à sua sorte, parte para Bravos, terra de Syrio Forel e de Jaqen H'ghar. Em Bravos é acolhida numa espécie de templo, um sítio misterioso sobre o qual não se revela muito. Quem são as pessoas que lá vivem e o que professam não é, ainda claro. Arya, no entanto parece querer ficar ligada a eles e... logo veremos o que a espera. Torço por ela e se a miúda me morre antes do final glorioso que lhe desejo não leio mais nenhum livro!

Sansa continua no ninho de águia com o Mindinho. Ao contrário da irmã, Sansa não parece ter encontrado ainda o seu lugar na história e eu, como leitora continuo sem saber muito bem o que pensar dela. Embora sinta que o seu coração é Stark, não sei como é que tudo aquilo por que passou a mudou. Para que lado irá pender?

Asha Greyjoy ganha algum protagonismo neste volume ao mesmo tempo que a história se concentra na escolha de um novo rei das ilhas de ferro após a morte inesperada do pai de Asha e Theon Greyjoy. Mais uma mulher com pretensões a reinar.

Por fim Samwell, a pedido de Jon Snow, inicia a viagem de regresso a casa,  na companhia de Gilly, Maester Aemon e um irmão de negro, deixando a Muralha e os seus irmãos ajuramentados para trás. Pelo menos neste volume, não me parece que a vida de Samwell vá ser fácil daqui para a frente...

E toda a gente fala dos Dragões de Daeneryes Targaryen, embora poucos acreditem que existam de verdade.:)

Que venha o próximo!

Boas leituras!


Excerto (pág. 343):
" (...) Em que te faz pensar o cheiro das nossas velas a arder, pequena?
Winterfell, podia ter dito. Cheira-me a neve, fumo e agulhas de pinheiro. Cheira-me a estábulos. Cheira-me ao riso de Hodor e à luta de Jon e Robb no pátio, e a Sansa a cantar sobre uma estúpida bela senhora qualquer. Cheira-me às criptas onde estão os reis de pedra, cheira-me a pão quente a cozer, cheira-me ao bosque sagrado. Cheira-me à minha loba, cheira-me ao seu pêlo, quase como se ainda estivesse junto a mim.
- Não me cheira a nada - disse, para ver o que ele diria.
- Mentes - disse ele - mas podes guardar os teus segredos, se quiseres, Arya da Casa Stark."

A Hora do Vampiro - Stephen King

Título original: Salem's Lot
Ano da edição original: 1975
Autor: Stephen King
Tradução: Carlos Pereira
Editora: Bertrand Editora

"Ben Mears, um escritor de sucesso, regressa ao Lote de Jerusalém (também conhecido como Lote de 'Salem), no Maine, para escrever um livro acerca da casa que o assombra desde criança. Ao chegar à sua cidade natal, depara-se com um cenário de pesadelo:  a cidade, isolada, está infestada de vampiros, que espalham o caos e a morte. Na esperança de conseguir travá-los, Ben Mears consegue reunir um pequeno grupo de pessoas para combater o Mal que invadiu a cidade.

Segundo romance de Stephen King, A Hora do Vampiro tornou-se uma referência mundial na literatura de terror."

Não é novidade que gosto de Stephen King, também não é novidade que nem tudo o que ele escreve é do meu agrado e que tendo a gostar mais das suas primeiras obras. Isto para dizer que A Hora do Vampiro (tradução para português que não entendo) é do meu agrado. É um livro bem estruturado, com princípio, meio e fim, principalmente fim, o calcanhar de Aquiles do escritor. :) O ambiente criado é suficientemente realista para quase me fazer levantar e verificar se as janelas e portas estão devidamente fechadas. :) A química criada entre os protagonistas e entre estes e as maléficas criaturas que vieram tomar a cidade pelos dentes (não resisti) é boa e mantem-nos agarrados ao livro.

Acho que não vale a pena entrar em pormenores relativamente ao enredo porque na realidade não é mais do que uma típica história de vampiros. E com típica quero dizer uma história onde os habitantes do Lote de Jerusalém (Salem's Lot) começam a ter comportamentos estranhos, alguns desaparecem, outros morrem e depois os seus corpos desaparecem. Tudo isto começa com a mudança para a cidade de dois homens sinistros, um dos quais nunca ninguém viu, que se mudam para a casa de Marsten, a casa assombrada e obscura da cidade. Juntamos a isto um escritor que passou alguns anos da infância no Lote e que sempre viveu fascinado pela casa de Marsten, e decide regressar para escrever sobre ela, um Professor pragmático, não crente, o padre da cidade, um pouco desiludido com o mundo, uma jovem desejosa de sair da pequena cidade à conquista do mundo e, um miúdo com mais tomates que todos os outros juntos!
Para mim que nem sequer o Drácula li, não há mais típico do que isto. Os vampiros sofrem de todos os males descritos na mitologia - não andam de dia, alimentam-se de sangue, não suportam alhos e fogem da cruz como o próprio diabo faria. São também, de certa forma charmosos, hipnotizantes e persuasivos, difíceis de resistir, portanto.

Tendo dito tudo isto, gostei bastante do livro. Lê-se muito bem e é, para além de assustador qb, bastante divertido.
Recomendo sem reservas aos fãs dos vampiros do século XXI e, em especial para aqueles a quem estes vampiros modernos provocam urticária grave. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 20):
"Dois meses depois do artigo do jornal, o rapaz entrou para a Igreja. Fez a sua primeira confissão, e confessou tudo. (...)
- Ele fez uma confissão estranha. De facto, numa ouvi uma confissão tão estranha em toda a minha vida de padre.
- Não me surpreende.
- Ele chorou - disse o padre sorvendo o seu chá. - Era um choro profundo e terrível. Vinha dos confins da sua alma. Será preciso fazer-lhe a pergunta que esta confissão levanta no meu coração?
- Não - disse o homem alto calmamente. - Não é preciso. Ele esta a dizer a verdade."

novembro 08, 2014

Rebeldes - Sándor Márai

Título original: A Zendülők
Ano da edição original: 1930
Autor: Sándor Márai
Tradução do húngaro: Ernesto Rodrigues
Editora: Publicações Dom Quixote

"Mestre das paixões, neste romance Sándor Márai dedica-se não aos triângulos amorosos mas a outras questões igualmente susceptíveis de despertar emoções fortes: o que une um grupo de jovens revoltados contra tudo e a tudo dispostos.
E arrisca-se a levar o leitor ao centro de um enredo de erros e fúrias, cumplicidades e traições, sofrimento e cobardia - de inconfessáveis atracções e de ambíguas repulsas. Porque trata das vicissitudes e aventuras de um grupo de rapazes, ou melhor, um bando, como se definem a si próprios, no final da Primavera de 1918, numa pequena cidade da Hungria distante da frente e onde a vida, aparentemente calma, é profundamente abalada pela guerra.
Entregues a si próprios enquanto os pais combatem na frente, estes rapazes decidem libertar os demónios da sua revolta impelidos por um ódio ardente contra o mundo, pela sua imaginação e pela sua arrogância - e também por um erotismo, tão mais aceso quanto mais implícito -, deixando a guerra para o mundo dos adultos e inventando jogos demasiado perigosos. Um obscuro actor que se torna o seu mentor oculto, envolvendo-os nas suas perversas tramóias, acabará conduzindo-os a um trágico e inevitável epílogo."


Não sei que mais acrescentar à sinopse porque é um bom resumo do livro. Numa pequena cidade do interior, restam as mulheres, os idosos ou doentes e as crianças. Todos os jovens e homens em condições de lutar encontram-se na frente de guerra. A vida de quem fica, dos miúdos que ainda não têm idade para lutar e que ficam praticamente abandonados, sem supervisão, livres para fazer tudo o que a sua imaginação conceber é aquilo de que fala o livro. A rebeldia típica da idade, o constante desafiar da sorte, o desprezo pelos adultos que ficaram, as relações que se estabelecem entre si, as angústias próprias da idade e a certeza de que não regressarão com vida quando chegar o dia em que se juntarão aos pais para combater.
Os únicos adultos que admitem e incluem nos seus segredos é um agiota e um actor (da companhia de teatro que chegou à cidade).
Nunca é muito claro o que foi que fizeram, no entanto, acabado o liceu, este miúdos, na realidade praticamente adultos, parecem sentir que o dia em que se tornam adultos se aproxima e tentam, de certa forma, resolver alguns dos problemas que criaram na sua fase de rebeldia. Com a aproximação da idade adulta, o que quer que fosse que unia estes miúdos parece estar a desaparecer, o bando parece não fazer mais sentido e o destino diferente que se adivinha para cada um deles parece provocar algum desconforto, alguns segredos são desvendados e, o mais provável é que o mal que foi feito não possa nunca vir a ser remediado.

Gostava tanto de não ter achado este livro esquisito e confuso... Gostava de não ter de gostar menos de um livro do Sándor Márai. Percebo a história, gostei das personagens, mas achei a escrita confusa.

Embora não seja, de longe, o melhor livro que já li, não posso não recomendar um livro de Sándor Márai. Posso é avisar que, se nunca leram Sándor Márai podem sempre começar por um outro livro dele. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 21):
"Inclinou-se e esfregou a cara na cara do rapaz. Ficaram assim um momento. Uma pessoa vive ao lado de outra e não a conhece. Um dia, percebe que nada têm em comum. A tia, os móveis da mãe, o jardim, o pai, o violino, Júlio Verne e a visita ao cemitério, com a tia, no Dia dos Mortos, uma parte do seu mundo estava aqui. E esse mundo era tão poderoso, que nada, vindo do exterior, poderia destruí-lo, nem sequer a guerra. Mas, há um ano, algo inesperado irrompera nele, brutalmente. E soube, então, que existia outro mundo. Tudo se desconjuntou. O que até ali era doce fez-se amargo, o que era agre fez-se fel. A estufa fez-se selva. E a tia, morta, ou pior."

outubro 19, 2014

O Mar de Madrid - João de Melo

Título original: O Mar de Madrid
Ano da edição original: 2006
Autor: João de Melo 
Editora: Publicações Dom Quixote

"A primeira vez em que viajou até ao país vizinho, Francisco Bravo Mamede, o senhor poeta, viu que as cidades de Espanha ficavam no fim de todos os caminhos. Para se ir de uma para a outra, e não havendo passagem para a cidade seguinte, andava-se por ali ao deus-dará, às voltas e mais voltas para não se enredar a gente no fio de orientação que levava para fora do emaranhado urbano, como quem procura e finalmente encontra a porta de saída de uma casa desconhecida. Ia-se então adiante, sem rumo nem certeza alguma sobre a hora de chegada ao destino que se havia traçado (se haciendo el camino al andar, como no verso do querido mestre Antonio Machado) - e logo toda ela se recortava ao longe, muito nítida de luz, como um baixo-relevo que emergisse do fundo da paisagem."

João de Melo é um dos escritores que ultimamente me tem dado mais prazer descobrir. A qualidade da sua escrita, aliada a histórias surpreendentes, tornam os seus livros num autêntico carrossel de emoções.

O Mar de Madrid é um pouco diferente dos outros livros que já li dele - Gente Feliz Com Lágrimas e Autópsia de um Mar de Ruínas (opinião aqui e aqui) - não só pela contemporaneidade como pelo tema em si. Em O Mar de Madrid, João de Melo leva-nos numa viagem entre Portugal e Espanha, através dos olhos de um poeta e uma escritora de novelas negras. Português o poeta, espanhola a escritora. :) Conhecem-se numa convenção de escritores em Madrid. Ele deslumbrado com a atenção que nuestros hermanos dispensam à sua genialidade como poeta e, ela perdida numa relação destrutiva e que descobriu Portugal e os portugueses há muito pouco tempo.
A história vive das ideias pré-concebidas destes dois, Francisco Bravo Mamede e Dolors Claret, sobre os portugueses e os espanhóis, sobre a poesia, sobre os escritores e sobre as relações.
Francisco é um funcionário público que escreve poesia, tendo alguns livros publicados. É fascinado por Espanha e os espanhóis, por achar que são culturalmente superiores aos portugueses, por entenderem e valorizarem a sua poesia, reconhecimento que não encontra em Portugal. É casado com Branca, com quem mantém uma relação por pura rotina, por lealdade e, de certa forma, por pena. É engraçado ver, mais à frente no livro como tudo aquilo que o prende a Branca é uma ilusão, um engano, porque nada sabe sobre a mulher com quem casou. Conhece Dolors na conferência de escritores em Madrid e inicia uma relação conturbada com ela. Dolores parece louca, desequilibrada e ele não faz ideia de como lidar com ela.
Dolors chega à conferência uma mulher insegura e deprimida, após anos de um casamento pouco feliz com Victor, um advogado bem sucedido e um mulherengo incurável, retratado como um típico macho latino. O fascínio que Dolors sente por Francisco quando o vê a discursar na conferência é algo inesperado e que não entende. Francisco vai acabar por ser o factor que faltava para que a Dolors ganhe coragem para mudar de vida. Não será fácil, vai chorar muito, vai passar por crises de ansiedade, mas no fim... No fim pode ser que finalmente aprenda a estar sozinha e a gostar de si mesma.

Para além da relação destes dois, João de Melo fala muito no que nos distingue dos espanhóis e naquilo que nos une. É duro nas comparações e na caracterização que faz dos portugueses, na sua grande maioria exactas, ou pelo menos é assim que a maioria de nós nos vemos. E Francisco, a voz destas comparações, é um português, como todos nós um pouco provinciano na ideia de que tudo e todos são melhores que os portugueses. Para ele a única excepção é a poesia, que só os portugueses sabem fazer bem. :)

É também duro na caracterização que faz dos escritores, todos eles uns deslumbrados, a viverem num mundo à parte, seres superiores e injustiçados pelos leitores que não têm capacidade de abarcar toda a sua genialidade.

O Mar de Madrid é diferente dos outros que já li de João de Melo, talvez menos poético, menos certeiro nas emoções que pretende transmitir mas, não deixa de ser um livro cheio de humor, mordaz na crítica que faz e muito bem escrito. Achei um pouco cansativa a dinâmica de Francisco e Dolors, ela demasiado histérica e desequilibrada e ele, demasiado confuso. No entanto, confesso que, após ter escrito este post, dou por mim a gostar e a compreender melhor o livro. Aparentemente é um desses livros cuja distância permitirá vê-los com novos olhos.
Recomendo!

Boas leituras!

Excerto (pág. 41):
"O silêncio provinha não das vozes que não falavam - ao contrário das contínuas vozes de Espanha - mas dos olhos, da pele, dos ossos secretos das pessoas. Estava no corpo. existia nas mãos e na linguagem. Como um modo de ser e de pensar. Se se estivesse em Espanha, e numa cidade assim, tão breve como Elvas, as mãos seriam como tochas acesas que riscavam o ar, por cima dos gestos, sobre o ruído ensurdecedor doas vozes, e haveria em todas elas um tumulto de palavras. Dolors sabia que nenhum povo no mundo falava tanto, tão alto, tão depressa como os espanhóis. Falavam freneticamente, cheios do universo absoluto das palavras, sendo corpo e alma no acto de comer de pé ao balcão dos bares e restaurantes, paixão de falar, arte e vício de viver ao som das próprias vozes. As vozes de Espanha juntam-se todas no ar, expandem-se pelo tempo fora, vogam no espaço desse império da língua, como se a universalidade espanhola dependesse do hábito de falar mais alto do que o vizinho, e de não permitir que alguém lhe replicasse. Ao invés, o silêncio português conversava a meia-voz, com pausas e suspiros. Sorria com moderação e timidez, abria muito os olhos para escutar e entender, mas ainda assim sua compostura não era isenta de orgulho, nem denotava resignação."