junho 29, 2015

Sombras Queimadas - Kamila Shamsie

Título original: Burnt Shadows
Ano da edição:2009
Autor: Kamila Shamsie
Tradução: Helena Lopes
Editora: Civilização Editora

"9 de Agosto de 1945. Nagasáqui. Hiroko Tanaka, de 21 anos, embrulhada num quimono com três grous pretos estampados nas costas, esta apaixonada pelo homem com quem vão casar, Konrad Weiss. Num milésimo de segundo, o mundo fica branco. No entorpecimento consequente ao explodir a bomba que oblitera tudo o que ela conheceu, apenas restam as queimaduras em forma de ave nas suas costas, uma memória indelével do mundo que perdeu.
Dois anos depois, procurando recomeçar, Hiroko viaja para Deli. Vai conhecer a meia-irmã de Konrad, Elizabeth, o marido desta, James Burton, e o empregado deles, Sajjad Ashraf. Com o passar dos anos, outros lares substituem os que ficaram para trás e as velhas guerras são ultrapassadas perante os novos conflitos. Mas as sombras da história - pessoais, políticas - alongam-se sobre os mundos entrelaçados dos Burton, dos Ashraf e dos Tanaka quando são transportados do Paquistão para Nova Iorque e, no espantoso clímax da história, para o Afeganistão no pós-11 de Setembro."

 
Este livro chamou-me a atenção primeiro pelo nome e depois pelo tema, o lançamento da bomba atómica em Nagasáqui, na 2° guerra mundial. O livro acabou por ser uma óptima surpresa e Kamila Shamsie uma escritora a manter debaixo de olho. 

Hiroko Tanaka é a personagem que nos acompanha em todo o livro, testemunha de acontecimentos que mudarem o mundo e a forma como o vemos, hoje em dia. Viveu o lançamento da bomba atómica em Nagasáqui, durante a 2ª guerra mundial. Assistiu da janela do seu quarto ao clarão branco que eclipsou da face da terra tudo aquilo e todos aqueles que conhecia, a cidade, o pai, e Konrad Weiss, o noivo.
Depois de recuperar fisicamente, e sem nada nem ninguém que a prenda a Nagasáqui e ao Japão, Hiroko decide partir. Konrad, filho de pais alemães, tinha uma irmã a viver na Índia, ainda pertença da coroa britânica. É para lá que Hiroko decide partir, numa tentativa de encontrar em Elizabeth, uma réstia de Konrad. Encontra pouco de Konrad na meia-irmã, mas reencontra o amor e cria com Elizabeth uma amizade que durará uma vida.
Hiroko chega a Deli, uns meses antes da saída da Grã-Bretanha da Índia (1947) e da divisão do território até então ocupado pelos britânicos, com o vizinho Paquistão. Espera-se que a saída dos britânicos seja pacífica, no entanto, as relações entre o Paquistão e a Índia estão longe de ser amigáveis. Hiroko vê-se mais uma vez envolvida num conflito, obrigada a fugir, e a viver novamente sob a ameaça do lançamento da bomba atómica.

Hiroko, vai viver para o Paquistão, casada e com um filho, ela assiste, ao longo das décadas que ali viveu,  à crescente intolerância religiosa, com a radicalização dos muçulmanos no país e a crescente importância dos campos dos talibans no Afeganistão. Numa sequência desastrosa de acontecimentos e de mal-entendidos, Hiroko acaba por ir parar a Nova Iorque. Lá assiste, em 2001, à queda das Torres Gémeas, no ataque perpetrado pela Al-Qaeda.

Numa teia bem construída de acontecimentos que ligam as personagens e factos históricos, a ideia que permanece ao longo de todo o livro é a da 3ª Lei de Newton, não existem acções sem reacções. Aparentemente nada do que fazemos na nossa vidinha é inconsequente. A reacção até pode não ser imediata, mas que as nossas acções têm um impacto no mundo que nos rodeia é inegável.

Gostei muito deste livro. Não tinha grandes expectativas, não conhecia a escritora e acabou por ser uma boa surpresa. Lê-se muito bem, a escrita é fluída e envolvente, o tema e a forma como Kamila Shamsie o aborda é muito interessante.

Parece-me óbvio que só posso recomendar.

Boas leituras!

Excerto (pág. 36):
"Hiroko sai para a varanda. O seu corpo, do pescoço para baixo, uma coluna de seda branca, com três grous pretos a precipitarem-se  sobre as suas costas. Ela olha na direcção das montanhas, e tudo está mais belo para ela do que estava de manhã cedo. Nagasáqui está mais bela do que nunca. Volta a cabeça e vê as flechas da Catedral de Urakami, para as quais Konrad está a olhar quando repara numa frecha entre as nuvens. A luz do Sol jorra através dela, empurrando as nuvens ainda mais longe.
Hiroko.
E depois o mundo fica branco. (...)
A luz é física. Ela atira Hiroko para a frente, estendendo-se ao comprido. Entra-lhe poeira na boca, no nariz, na altura em que bate no chão, e queima. A sua primeira reacção é de medo que a queda tenha rasgado o quimono de seda da mãe. Ela levanta-se do chão, olha para baixo. Há sujidade no quimono, mas não rasgões. Todavia algo está errado. Está de pé. O ar está subitamente quente e sente-o na pele. Sente-o nas costas. Desliza a mão por cima do ombro, toca carne onde deveria  haver seda. Move a mão mais para baixo das costas, toca no que não é carne nem seda mas ambas."

junho 10, 2015

O Diabo e Outros Contos - Lev Tolstói

Título original: O Diabo e Outros Contos
Ano da edição:2008
Autor: Lev Tolstói
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editora: Relógio d'Água

"Reúnem-se aqui seis dos melhores contos de Tolstoi. Os dois primeiros são sombrias parábolas sobre as tentações carnais. Em O Diabo (1889-90), um jovem não consegue resistir a uma bela camponesa com quem tivera um caso antes de se casar. Por sua vez, O Padre Sérgui retrata a vida de um soldado que, para resistir às tentações, se torna monge e, mais tarde, pedinte.
Dos restantes contos, destaca-se Depois do Baile que é, nas palavras de George Steine, um cinto formidável, um exemplo em que a técnica e a metafísica ser tornaram inseparáveis, pois no vocabulário de Tolstoi, tem ressonâncias ambíguas, é ao mesmo tempo uma ocasião de graça e elegância e um símbolo de consumada artificialidade."

É sempre bom regressar aos clássicos e ao formato conto que gosto especialmente nos escritores russos. Este O Diabo e Outros Contos lê-se muito bem e os contos são dos bons. Vou apenas destacar os três de que mais gostei.

O Diabo:
É como a sinopse descreve, uma sombria parábola sobre tentações carnais. Um jovem, de boa educação, após morte do pai que os deixou, a ele e à mãe, cheios de dívidas, decide mudar-se para a propriedade da família na aldeia, onde pretende resgatar a economia familiar da falência.
É um homem correcto, bem amado por todos os que com ele se cruzam. No seu afastamento da vida da cidade, a única coisa de que sente falta, e porque ainda não encontrou a mulher com quem quer casar, é do sexo casual, sem compromisso. Entende isto como uma necessidade física e é por isso que o que mais o atormenta é não haver na aldeia, por ser um sítio pequeno, forma de o fazer sem que todos o saibam e o julguem como mais um senhor que se aproveita dos mais pobres. Acaba por encontrar em Stepanida, uma mulher da aldeia cujo marido trabalha na capital, aquilo que procura, e com a discrição possível, arruma o assunto e vive verdadeiramente feliz na aldeia. 
Mais tarde conhece Lisa e apaixona-se. Casa com ela e nunca mais pensa em Stepanida, porque havia de o fazer, se agora tem em Lisa tudo aquilo com que sonhou? Um dia cruza-se com Stepanida... e todas as suas certezas deixam de as ser. :)

Gostei muito desta pequena história.

O Patrão e o Moço da Estrebaria:
O patrão, Vassilí Andreitch, é um homem ambicioso, egocêntrico e explorador. Homem de família, sai de casa numa noite fria e de tempestade, com uma quantia de dinheiro considerável, para fechar um negócio da compra de um terreno. Com ele leva um empregado, Nikita, o homem que lhe trata dos cavalos, o moço de estrebaria, que com cinquenta anos, de moço já nada tinha. Sóbrio há anos é um pobre diabo, que encontra em Vassilí um patrão menos mau, que ao menos não deixa que ele e a família passem fome.
Partem os dois, o patrão bem agasalhado, Nikita nem tanto. Com o tempo a ficar cada vez mais agreste, os dois perdem-se e desviam-se do caminho que levavam. Chegam a uma aldeia vizinha, onde conhecidos os acolhem e orientam para o caminho certo, não sem antes insistirem para que passem a noite resguardados e que partam de manhã, quando a tempestade tiver passado. Vassilí insiste em partir e na urgência de fechar o negócio dos terrenos antes que outro lhe passe à frente e faça subir o preço. Partem os dois novamente, e novamente se desorientam na noite cerrada e na estrada cheia de neve. Quando achamos que nesta história todas as persoangens são aquilo que esperamos delas, somos supreendidos. :)

Temos tendência, como seres humanos a catalogar as pessoas que se cruazm connosco. Nem sempre, aquilo que aparentam ser é o que acabam por ser nas alturas mais importantes.  Gostei muito deste conto.

Albert:
Albert é um músico talentoso, alcoólico e de rosto celestial. Quando toca todos se rendem ao seu talento, e a forma como o faz deixa todos à sua volta estarrecidos e sensibilizados. 
Num dos bailes dados por Anna Ivánovna, e onde Albert costuma aparecer para tocar, Deléssov depois de o ouvir decide ajudá-lo. Tem de o fazer, um talento daqueles não pode continuar a ser desperdiçado em salões de baile. Deléssov quer tirá-lo da vida desgraçada que leva, da rua, quer potenciar o seu talento, torná-lo num homem diferente e leva-o para sua casa. O que acontece nesta tentativa de reabilitar Albert terão de ser vocês a descobrir.


Estes são apenas três dos contos incluídos nesta colectânea de textos de Tolstói. Vale a pena lê-los a todos e à qualidade intemporal de Lev Tolstói.

Boas leituras!

Excerto (pág. 145):
"Acham então os senhores que, depois daquilo, eu concluí que a cena era um acto mau? Nada disso. «Se aquilo era feito com tanta convicção e reconhecido por todos como necessário, significa que eles sabiam alguma coisa que eu não sei», pensava eu, tentanto compreender. Pois bem, por mais que tentasse, não consegui compreender, nem sequer mais tarde, até hoje. E como não compreendi, fui incapaz de entrar para o serviço militar, como desejava antes dessa cena, e mais: não prestei serviço militar nem prestei serviço nenhum. Mas, como é evidente, eu também não prestava para nada."

maio 29, 2015

[ebook] O Mistério da Estrada de Sintra - Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Título original: O Mistério da Estrada de Sintra
Ano da edição original: 1884
Autores: Eça de Queirós e Ramalho Ortigão
Revisão: Bernardo de Brito e Cunha (Projeto Adamastor)

"Naquele que é justamente considerado o primeiro romance policial português, conta-se a história de um médico que regressa de Sintra acompanhado por um amigo. A meio do caminho, ambos são raptados por um grupo de mascarados, que os levam para um prédio isolado onde aparecera um homem morto. A partir daí, os acontecimentos sucedem-se em catadupa. Quem é o morto e quem o matou? E porquê? Quem era a mulher com quem ele se encontrava, e quem são os mascarados que pretendem proteger a sua honra? A história foi publicada no Diário de Notícias entre Julho e Setembro de 1870 sob a forma de cartas anónimas, e foram muitos os que se assustaram com os acontecimentos narrados. Só no final é que Eça de Queirós e Ramalho Ortigão admitiram tratar-se de uma brincadeira e que eram eles os autores das cartas. O Mistério da Estrada de Sintra foi publicado em forma de livro nesse mesmo ano. Em 1885, houve uma segunda edição revista por Eça de Queirós, que é a utilizada na presente edição."

Um regresso aos clássicos portugueses, com este O Mistério da Estrada de Sintra, escrito a duas mãos por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Este tem sido, ao longo dos anos, um daqueles livros que de vez em quando me vinha à cabeça como que a relembrar-me de que gostaria de o ler. Foi desta que me veio parar às mãos.

O Mistério da Estrada de Sintra é uma história típica da época, embora esteja longe de ser apenas uma história típica e previsível. É típica por ser uma historia de amores impossíveis, dramáticos e fatais e não é apenas uma história típica porque está envolta em mistério, com personagens menos óbvias e cenários inesperados.
O livro começa com a intercepção de dois amigos (muito parecidos com Eça e Ramalho), no caminho de Sintra para Lisboa, por um grupo de homens mascarados que não se identificam e que lhes pedem que os acompanhem. Onde?, não dizem. Os dois são vendados e elevados até uma casa isolada, que não conhecem e onde vão encontrar um homem morto... :) E mais não digo, porque o que mais me prendeu à leitura foi não saber nada sobre a história e todo o ambiente misterioso que os escritores conseguiram criar.
O que se passa com eles naquela casa leva a que um deles, quando sai, sem que tenha conseguido esclarecer o que lhe aconteceu e o porquê, decida escrever para um editor de jornal uma carta onde relata o que lhes aconteceu. A carta é publicada e alguns dos intervenientes na história manifestam-se, também por cartas, que vão sendo publicadas no jornal. É desta forma que vai sendo desvendado o mistério que levou aqueles homens àquela casa e o que os levou à estrada de Sintra para "raptarem" os dois amigos.

Até mais ou menos metade do livro, não fazia ideia do que estava por detrás do acontecimento misterioso que apanhou desprevenidos os nossos escritores na Estrada de Sintra. Gostei muito dessa vertente do livro e achei a história original e as personagens muito bem construídas e interessantes.

Recomendo como é natural!

Boas leituras!

Excerto:
"Demos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos à direita e entrámos na escada. Era de madeira, íngreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superfície e esbatidos e arredondados nas saliências primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar húmido, impregnado de exalações interiores dos prédios desabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomámos à esquerda num patamar, subimos ainda outros degraus e parámos num primeiro andar.
Ninguém tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lúgubre neste silêncio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.
Ouvi então a nossa carruagem que se afastava, e senti uma opressão, uma espécie de sobressalto pueril.
Em seguida rangeu uma fechadura e transpusemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada à chave depois de havermos entrado.
 - Podem tirar os lenços - disse-nos um dos nossos companheiros.
Descobri os olhos. Era noite."

abril 19, 2015

O Falador - Mario Vargas Llosa


Título original: El Hablador
Ano da edição original: 1987
Autor: Mario Vargas Llosa
Tradução: António José Massano
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Romance de dois mundos e duas linguagens, O Falador, de Mario Vargas Llosa, é uma obra que de novo arrasta os leitores para o interior do universo de magia e exotismo próprio do grande escritor peruano. Trata-se de uma ficção que sistematicamente contrapõe os ambientes da selva e da cidade, espelhando desse modo duas atitudes opostas face à vida e aos seus valores. Um narrador moderno e racional e o contador de histórias de uma tribo amazónica asseguram e estruturam em alternância o desenvolvimento do relato."

Quando iniciei este livro, por causa da linguagem, senti que tinha regressado a casa. Aquela sensação que temos quando nos deparamos com algo que nos é familiar e querido. É o que acontece quando leio escritores portugueses, luso-africanos e também com os sul-americanos. Preparei-me para uma leitura compulsiva e para acabar o livro em dois tempos. Infelizmente, ao fim de umas páginas, estava a lutar com a história, ou melhor, com a forma como é contada a história de Mascarita e a sua obsessão por uma tribo amazónica, os Machiguengas. Mario Vargas Llosa é um daqueles escritores que tanto posso adorar como detestar. Não detestei este livro, mas dou por mim a pensar que raios está o homem para aqui a escrever... Nada faz muito sentido e confesso-me irritada com o autor.
A forma como ele complica o relato da vida de gente, aparentemente tão simples, tão próximos da natureza e afins, transcende-me.

O Falador é um livro que se centra essencialmente na tribo peruana, os Machiguengas, e na sua forma de ver o mundo, cheia de superstições, de realismo mágico e da ligação estreita que têm com a natureza e com os locais que escolhem para viver.
Questiona a presença e o trabalho das diversas instituições e organizações que, mesmo que com boas intenções, se mudam de armas e bagagens para junto destas tribos, para as ajudar. Dão-lhes ferramentas para fazer as coisas de maneira diferente, apresentam-lhes o conceito do trabalho remunerado e as vantagens de fixar as comunidades, deixando ser ser nómadas. Algumas destas organizações aproveitam para espalhar a palavra de Deus entre estas tribos, para que, pouco a pouco, se vão afastando das suas próprias crenças e encontrem o caminho certo, da salvação.
O que é que, como sociedade dita civilizada, lhes podemos ensinar? Queremos que estas tribos, estas comunidades, se tornem iguais a nós? Será que, na nossa boa vontade, não estamos a fazer com que percam a sua identidade e caminhem para a extinção? É possível que continuem fiéis a si próprias, que continuem a andar para impedir que o Sol caía e o mundo fique para sempre na escuridão? No fundo, a grande questão é, para que é que estas pessoas precisam de nós?

Enfim, no geral a mensagem é interessante, mas não posso dizer que tenha gostado do livro. Não me identifiquei com a forma como ele conta a história. Achei o livro confuso e pouco estruturado. Se este tivesse sido o primeiro livro que li do Mario Vargas Llosa, provavelmente não iria ler mais nada dele.

Boas leituras!

Excerto (pág. 35):
"Contou que, poucos dias antes, tinha havido uma discussão no Departamento de Etnologia. Saul Zuratas desconcertou-os a todos proclamando que as consequências do trabalho dos etnólogos eram semelhantes à acção dos seringueiros, madeireiros, recrutadores do Exército e demais mestiços e brancos que estavam a dizimar as tribos.
 - Disse que retomámos o trabalho onde o deixaram os missionários na época da colonização - acrescentou. - Que nós, com o paleio da ciência, como eles com o da evangelização, somos a ponta da lança dos exterminadores de índios."

março 22, 2015

As Regras de Moscovo - Daniel Silva

Título original: Moscow Rules
Ano da edição original: 2008
Autor: Daniel Silva
Tradução do inglês: Vasco Teles de Menezes
Editora: Bertrand Editora (Colecção 11x7)

"A morte de um jornalista leva Allon à Rússia, onde descobre que, no que diz respeito à arte da espionagem, até ele tem alguma coisa a aprender. Agora, está a jogar segundo as regras de Moscovo. E na cidade existe uma nova geração de estalinistas que conspiram para reivindicar um império perdido e desafiar o domínio global de um velho inimigo: os Estados Unidos da América. Um desses homens é Ivan Kharkov, um antigo coronel do KGB que construiu um império de investimento global sobre os escombros da União Soviética. No entanto, escondido no interior desse império, existe um negócio lucrativo e mortífero. Kharkov é um negociante de armas, e está prestes a entregar as mais sofisticadas da Rússia à Al-Qaeda. A não ser que Allon consiga descobrir a hora e o local da entrega, o mundo irá assistir aos ataques terroristas mais mortais desde o 11 de Setembro - e o tempo voa.
Cheio de prosa rica e de reviravoltas na trama de cortar a respiração, o livro As Regras de Moscovo é simultaneamente um entretenimento superior, uma cáustica história exemplar sobre as novas ameaças que estão a aparecer no Leste - e o melhor romance de Silva até ao momento"

Sempre tive curiosidade para ler um dos muitos livros que Daniel Silva tem publicado ao longo dos anos. Não só porque é um dos muitos luso descendentes, bem sucedidos além fronteiras, mas também porque sempre li boas críticas aos seus livros.

As Regras de Moscovo é um livro sobre terrorismo, sobre relações internacionais, especialmente as que se mantêm com a Rússia, e sobre a venda ilegal de armas. Allon pertence aos Serviços Secretos israelitas, sendo um dos seus mais conceituados espiões. Recentemente casado e a gozar a lua-de-mel em Itália, Allon concorda fazer um pausa para se encontrar com um jornalista russo que diz ter informações importantes sobre uma possível catástrofe a nível mundial que estará a ser planeada e insiste que só fala com Allon. Um pequena pausa na lua-de-mel torna-se numa interrupção sem data para voltar quando o mesmo jornalista russo é assassinado antes de conseguir contar a Allon o que quer que seja.
A partir daqui começa uma corrida contra o tempo. Allon parte para a Rússia para falar com uma outra jornalista russa, colega do que acabou por morrer nos braços de Allon em Itália, para tentar descobrir o que se passa. Lá, descobre que um conceituado empresário russo, cuja fortuna nada tem a ver com  actividades legais e sim com o negócio ilícito de venda de armamento aos países de terceiro mundo e, ao que parece, numa das suas últimas negociatas, terá vendido misseis a uma célula da Al-Qaeda.
É a partir desta premissa que toda a acção se desenrola. Com violência, muita coragem e muita sorte à mistura, Allon vai fazer tudo para que, obviamente as armas nunca sejam utilizadas, mas também para que nenhuma das pessoas envolvidas se morra durante a operação complicada.

Embora não seja o tipo de livro que me costuma encher as medidas, enquanto leitora, porque gosto de policiais, de thrillers e afins que fujam um bocado ao "normal". Que não sejam tão tradicionais, no entanto não dei o meu tempo por perdido. Gostei dos cenários por onde se movem as personagens e das próprias personagens. Embora tenha gostado da história, não sei se gostei muito da forma com a acção se desenrola, porque parece que não se aprofunda muito e, confesso que a visão americana sobre toda a problemática mundial me fez alguma "comichão". 
 
Recomendo, porque embora não seja o meu tipo de livro, sei reconhecer que dentro do género é bom. Para mim, vale sobretudo pelo facto de se passar na Rússia e por levantar a questão da falta de democracia que se vive no país.

Boas leituras!


Excerto (pág. 151/152):

"Os portões de ferro de Lubyanka abriram-se lentamente para o receber. (...) A escadaria encontrava-se localizada a poucos passos do átrio de entrada. Quando se preparava para descer o primeiro degrau, Gabriel levou um forte empurrão no meio das omoplatas, e só parou no patamar seguinte. Um golpe no rim, parecido com uma facada, cegou-o de dor, que se espalhou pelo corpo inteiro. Um pontapé bem medido no abdómen deixou-o sem fala e sem respiração.
Puseram-no em pé outra vez e atiraram-no pelo lanço seguinte abaixo, como um cadáver de guerra. Dessa vez, a própria queda provocou estragos suficientes para que não tivessem de se empenhar ainda mais com pontapés ou murros desnecessários. Depois de o voltarem a levantar, arrastaram-no para um corredor escuro. Para Gabriel, isso pareceu levar uma eternidade. Para os gulags da Sibéria, pensou. Para os campos da morte nos arredores de Moscovo, onde Estaline sentenciava as suas vítimas a sete gramas de chumbo, a sua punição preferida para a deslealdade, real ou imaginária."

março 14, 2015

Sangue Asteca (vol. 2) - Gary Jennings

Título original: Aztec
Ano da edição original: 1980
Autor: Gary Jennings
Tradução do inglês: Carlos Romão
Editora: Saída de Emergência

"Este é considerado pela crítica como o melhor romance sobre a desaparecida civilização Asteca e um dos melhores romances históricos do século XX. Gary Jennings mudou-se para o México e durante 12 anos investigou e viveu apenas para a sua criação: Asteca, deixando-nos uma obra inesquecível. Gary era famoso por ser um dos escritores mais rigorosos e com mais trabalho de pesquisa por trás dos seus romances.
Em 1530, depois de quase extinguir o povo asteca pelas mãos de Hernán Cosrtés, o Imperador Carlos, Rei de Espanha, pede ao bispo do México que lhe faculte inofrmação acerca da vida e dos costumes desse povo. O bispo Juan de Zumárraga decide redigir um documento baseado no testemunho de um ancião, um homem humilde que vai chocar a moral e os preconceitos do mundo civilizado. O seu nome é Mixtli - Nuvem Obscura.
Mixtli, um dos mais robustos e memoráveis astecas, relata com detalhe toda uma vida: a sua infância, a mentalidade e os costumes do seu povo, o sexo, a religião, a sua formação e os seus amores, sempre tormentosos e trágicos. Esta é a sua empolgante e maravilhosa história, que representa também o choque entre civilizações com formas inconciliáveis de ver o mundo."

E passados 3 anos (opinião sobre o Orgulho Asteca aqui) volto à obra-prima de Gary Jennings e conheço finalmente toda a história de Mixtli, o ancião que conta, a pedido do próprio Rei D. Carlos, a religiosos espanhóis a história da civilização Asteca, as origens, os costumes e a forma como foram conquistados pela frota de Hernán Cortés.
Neste segundo volume, Mixtli, agora um homem casado e feliz, com Zyanya, a única mulher que alguma vez amou, continua o relato das suas aventuras pelo Mundo Único e mais além. Conhecidas as suas extraordinárias habilidades linguísticas e diplomáticas, é enviado em missão, pelo Uey-Tlatoáni - o Venerado Orador, aos mais variados sítios. Neste segundo volume a vida de Mixtli, à semelhança de todo o seu povo, é feita essencialmente de perdas e de cedências. Tudo aquilo que foi conquistando, a mulher, a filha, uma família, as viagens que lhe permitiram conhecer outros povos, maneiras diferentes de pensar, tudo isso acaba por desaparecer. De forma trágica, perde a mulher, mais tarde a filha e por fim toda uma civilização desaparece perante os seus olhos. No fim, resta Mixtli para testemunhar e contar, para que não sejam esquecidos.

Sangue Asteca é, como também o é o primeiro volume, um impressionante documento histórico, com personagens tão próximas e ricas que a leitura é tudo menos maçuda. Embora seja um volume mais triste, com momentos verdadeiramente trágicos, está também cheio de momentos divertidos, onde o melhor da personalidade de Mixtli sobressai. E por isso, levarei algum tempo a esquecer a morte da filha de Mixtli, mas não será só isso que levo deste livro. Levo comigo o primeiro contacto de Mixtli com os espanhóis, hilariante. Levo ainda a viagem nunca feita até Aztlan, a terra de onde os Astecas que conhecemos terão partido para fundar o Mundo Único. Ficará, sobretudo, a sensação de se ter exterminado, em nome de Deus e da ganância, uma civilização com a qual nada se quis aprender, e não estou a falar, obviamente, dos rituais onde eram sacrificadas vidas humanas.
Fiquei com a sensação incómoda de que nós, a maioria, temos sobre a nossa vida e sobre o nosso futuro tão pouco a dizer, porque somos, a maioria, governados por uma minoria, que se tem mostrado desde sempre incapaz de ver para além de si, incapaz de pensar e planear para além da sua legislatura.

Aztec, no original, de Gary Jennings é um livro a não perder, pela história, pela escrita, pelas personagens e sobretudo pelo que podemos aprender com ele.

Gostei muito e recomendo, como é óbvio!

Boas leituras!

Excerto (pág. 289):

"-«E como lhe prestam homenagem? - perguntei, olhando ao redor da sala, que, obviamente, estava vazia, com excepção de um forte cheiro a peixe -. Não vejo sinais de sacrifício.»
 - «Queres dizer que não vês sangue - disse o velho - . Os teus antepassados também procuravam sangue e por isso saíram daqui. Coyolxaúqui nunca exigiu sacrifícios humanos. (...)
Num tempo muito distante, nós, os Azteca, não estávamos confinados apenas a esta simples cidade. Esta era a capital de um domínio considerável, que se estendia desde a costa às montanhas. Os Azteca estavam constituídos em muitas tribos, divididas em numerosos clãs, capúltin, todos sob o governo de um só Tlatocapíli, que não era - como o meu neto por casamento - um chefe apenas de nome. Eram gente forte, mas pacífica, contente com o que tinha e sentia-se satisfeita com os cuidados que a deusa lhes proporcionava.»
 - «Até que alguns se mostraram mais ambiciosos» - sugeri.
 - «Até que alguns mostraram debilidade! - emendou o ancião, com voz cortante -. As histórias narram como, um dia alguns deles, que andavam a caçar nas altas montanhas, se encontraram com um forasteiro vindo de terras distantes. Este riu-se, zombeteiro, ao saber da vida simples que levavam e daquela religião que nada exigia. O forasteiro disse: "De toda uma infinidade de deuses que há, porque escolheram a mais fraca, a deusa que mereceu ser humilhada e degolada? Porque não venerais aquele que se apoderou dela, o forte, o bravo, o viril deus Huitzilopóchtli?» (...) 
Eu estava tão horrorizado pelo que ouvia que apenas pude exclamar:
 - «Uma mulher?! Então foi uma mulher sem nome e sem importância que concebeu a ideia do sacrifício humano? A cerimónia que agora se pratica em todo o lado?»
 - «Não é praticada aqui - recordou-me Canaútli -. E a nossa suposição pode não ser correcta. Afinal, isto aconteceu há muito tempo, mas tem todas as características de uma ideia feminina de vingança, não +e verdade? E pelos vistos deu resultado, pois, como referiste, no mundo exterior, o homem contiunou a matar o próximo, em nome de um deus ou de outro, durante todos estes feixes de anos que decorreram a partir daí.»
Eu não disse nada. Nem conseguia pensar no que dizer.
 - «Assim, como podes ver - continuou o ancião -, os Azteca que se foram embora de Aztlan não eram os melhores nem os de mais valor. Eram os piores e os mais desprezíveis, e foram-se embora porque os expulsaram daqui à força.»"

janeiro 11, 2015

Os da minha rua - Ondjaki

Título original: Os da Minha Rua
Ano da edição original: 2007
Autor: Ondjaki 
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Há espaços que são sempre nossos. E quem os habita, habita também em nós.  Falamos da nossa rua,  desse lugar que nos acompanha pela vida. A rua como espaço de descoberta,  alegria, tristeza e amizade. Os da minha rua tem nas suas páginas tudo isso. "

Quem nunca leu um livro de um escritor africano lusófono não faz ideia do que anda a perder. A musicalidade que colocam nas palavras, a forma como transformam o nosso português numa língua mais doce, mais alegre, quase uma nova língua, é do melhor que podemos encontrar. Apercebo-me do quão afortunados somos porque os podemos ler sem traduções pelo meio, porque por mais diferente que sejam as palavras, as expressões, o que partilhámos e continuamos a partilhar está lá, no idioma e na história que, para o mal e para o bem, temos em comum. 

Os da Minha Rua é um hino à infância, às crianças, às brincadeiras, aos risos e gargalhadas, aos primeiros amores, à constante descoberta de um mundo imenso e maravilhoso, que à medida que crescemos se vai tornando cada vez mais pequeno e previsível. É um hino à amizade, à família, aos pais, aos irmãos, aos avós e aos tios e primos. :)
Ondjaki, neste pequeno livro de pequenas histórias consegue colocar tudo isto, com uma escrita divertida, emocionante e envolvente que nos transporta a todos para a rua da nossa infância, para a inocência dos tempos simples e aconchegantes. 

É um livro para ler e reler sempre que tivermos necessidade de recordar que a vida já foi bem mais simples e o riso bem mais fácil. 

Recomendo, como é óbvio!

Boas leituras!

Excerto (pág. 113):
"Deixei os braços pousarem na madeira inchada e húmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar a chuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá em baixo, na varanda, os passos da avó Agnette que se ia sentar na cadeira da varanda a apanhar fresco, senti que despedir-me da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua, senti que a rua não era um conjunto de casas mas uma multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância. "