agosto 17, 2015

Chama Devoradora - John Steinbeck

Título original: Burning Bright
Ano da edição:1950
Autor: John Steinbeck
Tradução: Virgínia Motta
Editora: Editora "Livros do Brasil"

"O tema de Chama Devoradora é chocante e até sensacional. Nas mãos de um escritor menor, poderia tornar-se licencioso, mórbido e obsceno. Mas John Steinbeck, que é um dos maiores escritores da América, trabalhou-o com coragem, audácia, lucidez e compaixão. Esta é, afinal, a história do impulso fundamental, a ânsia de procriar, a necessidade premente de continuar a espécie, conduzindo-a à imortalidade...
As personagens de Steinbeck encontram-se a braços com uma dolorosa situação humana, em que intervêm as mais importantes emoções do homem, tais como o amor, o orgulho, o egoísmo, a lealdade e abnegação."

Chama Devoradora é um livro original na forma como conta a história que Joe Saul, Mordeen, Vítor e Amigo Ed partilham. Estes sãos os nomes que Steinbeck decidiu dar às suas personagens, mas poderiam ter sido outros porque o que eles representam é a espécie humana, as nossas  preocupações, os nossos anseios, os nossos desejos e objectivos. As realidades de onde vimos até podem ser diferentes, mas na essência somos de facto muito semelhantes, programados para preservar a espécie, embora muitas vezes pareça exactamente o oposto.

Em três cenários à primeira vista díspares, um Circo, uma Quinta e no Mar, eles vão ser confrontados com dilemas morais, escolhas difíceis. Vão lutar pelo que acreditam, vão cometer injustiças e provocar angústias em quem amam. Vão percorrer um caminho juntos, aprender, crescer e no fim perceber que estavam errados. :)

Foi bom voltar a Steinbeck numa história deste tipo, muito diferente das que lhe são tão características. Uma espécie de experiência literária, explicada pelo próprio no início do livro e que lhe correu francamente bem.

Steinbeck não se recomenda, os livros dele são uma espécie de inevitabilidade à qual nenhum leitor quererá escapar. ☺

Boas leituras!

Excerto (pág. 111):

"(...) Não passa de um rosto qualquer. Os olhos, o nariz, a forma do queixo... Eu pensava que urgia preservá-los por serem meus. E não é assim. É a raça, a espécie que deve sobreviver sempre, a nossa mesquinha e feia espécie, fraca e feia, dilacerada por mil loucuras, violenta e agressiva, a única que tem consciência do mal e ainda assim o pratica; a única que tem consciência da pureza e continua a ser impura, que reconhece a crueldade e sem mantém intoleravelmente cruel.
(...) A nossa querida espécie, nascida sem coragem e, no entanto, cheia de valentia; nascia com uma inteligência bruxuleante e, contudo, trazendo a beleza nas mãos. Que outro animal, além do homem, se pode gabar de haver criado beleza? Com todos os nossos horrorres e todas as nossas faltas, arde em nós uma chama única. E isso é o mais importante de tudo. Uma chama única."

agosto 04, 2015

A Companhia do Diabo - David Liss

Título original: The Devil's Company
Ano da edição:2009
Autor: David Liss
Tradução: Ana Mendes Lopes
Editora: Saída de Emergência

"1722, Londres. Benjamin Weaver, judeu português, espadachim destemido, antigo pugilista e mestre do disfarce, vê-se aprisionado num jogo mortífero contra uma das figuras mais enigmáticas do seu tempo: Jerome Cobb.

Chantageado a roubar documentos com segredos valiosos da poderosa Companhia Britânica das Índias Orientais, cedo Benjamin se apercebe que esse roubo é apenas o primeiro passo numa audaciosa conspiração. Para salvar os seus amigos das garras de Cobb, Benjamin terá de infiltrar a Companhia, manipular vários dos seus mais influentes membros e desvendar uma trama secreta que envolve rivais, espiões estrangeiros e oficiais do governo.

Com milhões de libras e a segurança da nação em jogo, Benjamin enfrentará conspirações secretas, inimigos formidáveis e aliados inesperados. Numa pesquisa histórica escrupulosa de David Liss, A Companhia do Diabo retrata o nascimento das corporações modernas, numa narrativa de grande suspense."

Os livros do David Liss foram dos primeiros, da então nova editora Saída Emergência, a captar a minha atenção. A Saída de Emergência na altura veio trazer uma lufada de ar fresco ao mundo editorial, com as capas diferentes de todas as que até aí existiam, autores desconhecidos (muitos deles portugueses) e mais direccionada para a literatura Fantástica e o Romance Histórico, onde se encaixavam os do David Liss - A Conspiração de Papel, O Mercador Português e O Grande Conspirador. A verdade é que acabei por ficar com um carinho especial pelos livros do David Liss e pela sua personagem fetiche, Benjamim Weaver, um ex-pugilista judeu, descendente de portugueses a viver na Londres do século XVIII. :)
Já lá vão uns anos desde que li o último dele, e ao pegar neste A Companhia do Diabo, foi como reencontrar um velho conhecido e gostar do que encontramos porque ele envelheceu bem.
Isto tudo para dizer que, para mim David Liss, é um daqueles autores a quem reconheço falhas, mas do qual gosto muito. É um daqueles autores, sobre os quais a minha opinião será sempre mais baseada em emoções e menos racional. Porque que é que gosto? Olhem, porque sim! :)
Com isto não quero menosprezar os livros, ou dizer que são maus, longe disso. Quero antes dizer que não são obras-primas mas também não são apenas entretenimento. Para além de nos deixarem bem-dispostos, aprendemos algumas coisas e estão relativamente bem escritos (avaliando apenas as obras traduzidas). Acho que são, acima de tudo despretensiosos.

Relativamente ao A Companhia do Diabo, é um livro que se lê muito bem e onde reencontrei um Benjamin Weaver aparentemente mais maduro, a trabalhar como detective privado e com fama de ser muito bom naquilo que faz. Tão bom que chama a atenção de Jerome Cobb, um homem misterioso que ninguém parece conhecer. Cobb arrasta Weaver para uma missão perigosa, envolvendo a Companhia das Índias Orientais, o comércio de tecidos e algumas das figuras mais importantes da sociedade londrina, ameaçando-o, caso não colabore, prejudicar o tio e dois amigos.
Pouco habituado a seguir regras e a ser obrigado a fazer o que quer que seja, Benjamin irá, como é natural, lutar com todos os meios ao seu alcance para reverter a situação em que se encontra a seu favor. Algumas coisas correm-lhe de feição, outras nem tanto.

O livro lê-se muito bem, embora às vezes se possa tornar um pouco maçudo. Não sei se maçudo é o termo correcto, às vezes parece que Weaver verbaliza demasiado o que lhe passa pela cabeça, a escrita pode parecer, por vezes, menos polida, menos madura ou trabalhada. No entanto, nada que estrague o ritmo da história e que impeça o envolvimento e o interesse em descobrir e desvendar o mistério. A descrição da época e o ambiente criado, estão bem conseguidos, bem como as personagens. Acho-lhes piada e gosto da forma como a história se vai desenrolando.
O tema também nos prende ao livro e é interessante perceber como é que as grandes companhias, financeiras ou comerciais, neste caso, nasceram. O comportamento e a influência que tinham na altura e que permanece, nos dias de hoje, praticamente inalterado. A forma abusiva com que tratavam os concorrentes e os meios que utilizavam para sabotar todo e qualquer acontecimento que pudesse vir a ser uma ameaça ao lugar que ocupavam e ao poder que adquiriram e não pretendiam perder. Valia tudo, no século XVIII e continua a valer tudo no século XXI. Os meios utilizados até podem não ser os mesmos, mas os fins continuam a justificá-los.

Resumindo e baralhando, recomendo por diversas razões:
1ª É um livro do David Liss e, já o disse, acho-lhe piada;
2ª A história é boa e está bem escrita;
3ª O tema é interessante;
4ª Não sei se é por Benjamin ser descendente de judeus portugueses, mas sente-se alguma lusofonia no livro o que é curioso porque David Liss, até onde sei, não tem qualquer ligação com Portugal.

Poderia continuar a enumerar as razões pelas quais recomendo os livros de David Liss, mas acho que não iria acrescentar nada ao que já foi dito, portanto, leiam!:)

Boas leituras!

Excerto (pág. 93):
"Vim aqui repetir o aviso do senhor Cobb para que não investigue a natureza dos seus negócios. Ele teve conhecimento de que tanto o seu tio como o seu amigo andaram a fazer perguntas pouco apropriadas sobre a sua pessoa. uma vez que se encontrou com o senhor Gordon e com o seu tio, assim como mais tarde se encontrou com o senhor Franco, não posso deixar de pensar que o senhor continua a prosseguir com as investigações contra as quais foi firmemente avisado.
Não lhe respondi.Como poderiam eles saber? A resposta era óbvia. Estava a ser seguido e não por Westerly, porque um homem daquele tamanho não podia viajar pelas ruas sem ser visto. Havia outras pessoas a seguir-me. Quem era Jerome Cobb para ter tantos homens ao seu serviço?"

agosto 01, 2015

Ferrugem Americana - Philipp Meyer

Título original: American Rust
Ano da edição:2009
Autor: Philipp Meyer
Tradução: Ester Cortegano
Editora: Bertrand Editora (Colecção 11x7)

"Passado num cenário de grande beleza mas economicamente destruído, Ferrugem Americana é um livro sobre o fim do sonho americano, mas é também uma história de amizade, lealdade e amor.
Isaac fica a tomar conta do pai depois do suicídio da mãe e da fuga da irmã para a Universidade de Yale. Quando finalmente decide partir, acompanhado pelo seu melhor amigo, o temperamental Billy Poe, antiga estrela de futebol americano do liceu, são apanhados num terrível acto de violência que muda para sempre as suas vidas. 
Com ecos dos romances de Steinbeck, Ferrugem Americana, leva-nos ao coração da América contemporânea num momento de profunda inquietação e incerteza quanto ao futuro. Um livro negro, lúcido e comovente, onde se trava uma batalha entre o desespero e o desejo de transcendência, entre a destruição e a capacidade redentora do amor e da amizade."

Adorei este livro. Li há uns anos uma crítica sobre ele (Bibliotecário de Babel) e desde aí, nunca mais me saiu da cabeça. 

Gostei muito da forma como a história é contada, de todas as personagens e de toda a envolvência. O ambiente opressivo de cidades fantasmas e indústrias abandonadas. Pessoas que esperam, de certa forma resignadas, talvez adormecidas, sem esperança, por dias melhores, pela prosperidade prometida. Algumas destas pessoas parecem, após anos, ainda espantadas, incrédulas com o que a vida lhes reservou. O que fazer quando tudo aquilo que planeamos para o nosso futuro está longe daquilo que vivemos no presente?
Ferrugem Americana é um livro sobre o sonho americano, sobre a volatilidade da economia, especialmente num mundo globalizado, onde as variáveis são cada vez mais e cada vez menos controláveis, à micro escala do comum dos mortais.
 
Isaac é um jovem extremamente inteligente a quem todos vaticinavam um futuro brilhante, longe da cidade pequena que o viu nascer e crescer. Pouco sociável e com poucos amigos, Isaac é no entanto um miúdo muito leal, com um elevado sentido de dever. 
Tudo parece correr bem, até que a crise do aço se instala e as fábricas começam a fechar. O pai de Isaac é um dos que acaba desempregado e obrigado a procurar trabalho longe de casa. Um dia sofre um acidente e regressa a casa numa cadeira de rodas. Na mesma altura, a mãe de Isaac suicida-se. A partir daqui tudo na vida de Isaac se desmorona, o seu futuro brilhante começa a escapar-se-lhe por entre os dedos e parece totalmente perdido no dia em que a irmã mais velha, também ela uma aluna brilhante, parte para a Universidade e  o deixa sozinho com o pai. Embora a irmã tenha planos para ela e para o irmão, este sente-se abandonado e sente que de certa forma ela lhe roubou o futuro.
Aos 21 anos, Isaac nunca ingressou na universidade, nunca teve coragem de abandonar o pai, embora este não lhe pareça particularmente grato.
 
Billy Poe, a estrela de futebol da escola e da cidade, único amigo de Isaac, é um dos poucos que poderia ter partido da cidade e que, por diversos motivos, nunca o fez. De temperamento difícil e explosivo, é no entanto um bom rapaz que viveu toda a vida com a sensação de que todos estão à espera que falhe. Acha que não merece mais do que aquilo que tem. Vive sem perspectivas, num limbo entre a inércia e a vontade de concretizar os seus sonhos.

A amizade entre os dois e o que os une acaba por ser o fio condutor de toda a história, o elemento aglutinador das vidas de todos os que os rodeiam.
Isaac, Billy Poe, a família de ambos, a cidade onde vivem, toda a região são os destroços de políticas desconexas, de decisões irresponsáveis, do cada vez maior distanciamento entre os governos e a vida das pessoas que governam. São uma visão de desespero, de inércia e de resignação, mas ao mesmo tempo, uma visão de esperança, que nos lembra a todos nós que aquilo que realmente importa nas nossas vidas está muito para além do dinheiro e da economia e que o que realmente importa é das poucas coisas que está nas nossas mãos manter.

Só posso recomendar, sem reservas! Philipp Meyer passou a constar na minha lista de escritores a seguir. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 454):
"Estava no fim da sua linha, ela não fora muito longa. Não sabia o que esperava. Mais avisos, como um cancro, só que houvera avisos, houvera muitos avisos, ele não fora capaz de os ver. E assim, ali estava ele, era inevitável, não poderia ter sido de outra maneira."

junho 29, 2015

Sombras Queimadas - Kamila Shamsie

Título original: Burnt Shadows
Ano da edição:2009
Autor: Kamila Shamsie
Tradução: Helena Lopes
Editora: Civilização Editora

"9 de Agosto de 1945. Nagasáqui. Hiroko Tanaka, de 21 anos, embrulhada num quimono com três grous pretos estampados nas costas, esta apaixonada pelo homem com quem vão casar, Konrad Weiss. Num milésimo de segundo, o mundo fica branco. No entorpecimento consequente ao explodir a bomba que oblitera tudo o que ela conheceu, apenas restam as queimaduras em forma de ave nas suas costas, uma memória indelével do mundo que perdeu.
Dois anos depois, procurando recomeçar, Hiroko viaja para Deli. Vai conhecer a meia-irmã de Konrad, Elizabeth, o marido desta, James Burton, e o empregado deles, Sajjad Ashraf. Com o passar dos anos, outros lares substituem os que ficaram para trás e as velhas guerras são ultrapassadas perante os novos conflitos. Mas as sombras da história - pessoais, políticas - alongam-se sobre os mundos entrelaçados dos Burton, dos Ashraf e dos Tanaka quando são transportados do Paquistão para Nova Iorque e, no espantoso clímax da história, para o Afeganistão no pós-11 de Setembro."

 
Este livro chamou-me a atenção primeiro pelo nome e depois pelo tema, o lançamento da bomba atómica em Nagasáqui, na 2° guerra mundial. O livro acabou por ser uma óptima surpresa e Kamila Shamsie uma escritora a manter debaixo de olho. 

Hiroko Tanaka é a personagem que nos acompanha em todo o livro, testemunha de acontecimentos que mudarem o mundo e a forma como o vemos, hoje em dia. Viveu o lançamento da bomba atómica em Nagasáqui, durante a 2ª guerra mundial. Assistiu da janela do seu quarto ao clarão branco que eclipsou da face da terra tudo aquilo e todos aqueles que conhecia, a cidade, o pai, e Konrad Weiss, o noivo.
Depois de recuperar fisicamente, e sem nada nem ninguém que a prenda a Nagasáqui e ao Japão, Hiroko decide partir. Konrad, filho de pais alemães, tinha uma irmã a viver na Índia, ainda pertença da coroa britânica. É para lá que Hiroko decide partir, numa tentativa de encontrar em Elizabeth, uma réstia de Konrad. Encontra pouco de Konrad na meia-irmã, mas reencontra o amor e cria com Elizabeth uma amizade que durará uma vida.
Hiroko chega a Deli, uns meses antes da saída da Grã-Bretanha da Índia (1947) e da divisão do território até então ocupado pelos britânicos, com o vizinho Paquistão. Espera-se que a saída dos britânicos seja pacífica, no entanto, as relações entre o Paquistão e a Índia estão longe de ser amigáveis. Hiroko vê-se mais uma vez envolvida num conflito, obrigada a fugir, e a viver novamente sob a ameaça do lançamento da bomba atómica.

Hiroko, vai viver para o Paquistão, casada e com um filho, ela assiste, ao longo das décadas que ali viveu,  à crescente intolerância religiosa, com a radicalização dos muçulmanos no país e a crescente importância dos campos dos talibans no Afeganistão. Numa sequência desastrosa de acontecimentos e de mal-entendidos, Hiroko acaba por ir parar a Nova Iorque. Lá assiste, em 2001, à queda das Torres Gémeas, no ataque perpetrado pela Al-Qaeda.

Numa teia bem construída de acontecimentos que ligam as personagens e factos históricos, a ideia que permanece ao longo de todo o livro é a da 3ª Lei de Newton, não existem acções sem reacções. Aparentemente nada do que fazemos na nossa vidinha é inconsequente. A reacção até pode não ser imediata, mas que as nossas acções têm um impacto no mundo que nos rodeia é inegável.

Gostei muito deste livro. Não tinha grandes expectativas, não conhecia a escritora e acabou por ser uma boa surpresa. Lê-se muito bem, a escrita é fluída e envolvente, o tema e a forma como Kamila Shamsie o aborda é muito interessante.

Parece-me óbvio que só posso recomendar.

Boas leituras!

Excerto (pág. 36):
"Hiroko sai para a varanda. O seu corpo, do pescoço para baixo, uma coluna de seda branca, com três grous pretos a precipitarem-se  sobre as suas costas. Ela olha na direcção das montanhas, e tudo está mais belo para ela do que estava de manhã cedo. Nagasáqui está mais bela do que nunca. Volta a cabeça e vê as flechas da Catedral de Urakami, para as quais Konrad está a olhar quando repara numa frecha entre as nuvens. A luz do Sol jorra através dela, empurrando as nuvens ainda mais longe.
Hiroko.
E depois o mundo fica branco. (...)
A luz é física. Ela atira Hiroko para a frente, estendendo-se ao comprido. Entra-lhe poeira na boca, no nariz, na altura em que bate no chão, e queima. A sua primeira reacção é de medo que a queda tenha rasgado o quimono de seda da mãe. Ela levanta-se do chão, olha para baixo. Há sujidade no quimono, mas não rasgões. Todavia algo está errado. Está de pé. O ar está subitamente quente e sente-o na pele. Sente-o nas costas. Desliza a mão por cima do ombro, toca carne onde deveria  haver seda. Move a mão mais para baixo das costas, toca no que não é carne nem seda mas ambas."

junho 10, 2015

O Diabo e Outros Contos - Lev Tolstói

Título original: O Diabo e Outros Contos
Ano da edição:2008
Autor: Lev Tolstói
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editora: Relógio d'Água

"Reúnem-se aqui seis dos melhores contos de Tolstoi. Os dois primeiros são sombrias parábolas sobre as tentações carnais. Em O Diabo (1889-90), um jovem não consegue resistir a uma bela camponesa com quem tivera um caso antes de se casar. Por sua vez, O Padre Sérgui retrata a vida de um soldado que, para resistir às tentações, se torna monge e, mais tarde, pedinte.
Dos restantes contos, destaca-se Depois do Baile que é, nas palavras de George Steine, um cinto formidável, um exemplo em que a técnica e a metafísica ser tornaram inseparáveis, pois no vocabulário de Tolstoi, tem ressonâncias ambíguas, é ao mesmo tempo uma ocasião de graça e elegância e um símbolo de consumada artificialidade."

É sempre bom regressar aos clássicos e ao formato conto que gosto especialmente nos escritores russos. Este O Diabo e Outros Contos lê-se muito bem e os contos são dos bons. Vou apenas destacar os três de que mais gostei.

O Diabo:
É como a sinopse descreve, uma sombria parábola sobre tentações carnais. Um jovem, de boa educação, após morte do pai que os deixou, a ele e à mãe, cheios de dívidas, decide mudar-se para a propriedade da família na aldeia, onde pretende resgatar a economia familiar da falência.
É um homem correcto, bem amado por todos os que com ele se cruzam. No seu afastamento da vida da cidade, a única coisa de que sente falta, e porque ainda não encontrou a mulher com quem quer casar, é do sexo casual, sem compromisso. Entende isto como uma necessidade física e é por isso que o que mais o atormenta é não haver na aldeia, por ser um sítio pequeno, forma de o fazer sem que todos o saibam e o julguem como mais um senhor que se aproveita dos mais pobres. Acaba por encontrar em Stepanida, uma mulher da aldeia cujo marido trabalha na capital, aquilo que procura, e com a discrição possível, arruma o assunto e vive verdadeiramente feliz na aldeia. 
Mais tarde conhece Lisa e apaixona-se. Casa com ela e nunca mais pensa em Stepanida, porque havia de o fazer, se agora tem em Lisa tudo aquilo com que sonhou? Um dia cruza-se com Stepanida... e todas as suas certezas deixam de as ser. :)

Gostei muito desta pequena história.

O Patrão e o Moço da Estrebaria:
O patrão, Vassilí Andreitch, é um homem ambicioso, egocêntrico e explorador. Homem de família, sai de casa numa noite fria e de tempestade, com uma quantia de dinheiro considerável, para fechar um negócio da compra de um terreno. Com ele leva um empregado, Nikita, o homem que lhe trata dos cavalos, o moço de estrebaria, que com cinquenta anos, de moço já nada tinha. Sóbrio há anos é um pobre diabo, que encontra em Vassilí um patrão menos mau, que ao menos não deixa que ele e a família passem fome.
Partem os dois, o patrão bem agasalhado, Nikita nem tanto. Com o tempo a ficar cada vez mais agreste, os dois perdem-se e desviam-se do caminho que levavam. Chegam a uma aldeia vizinha, onde conhecidos os acolhem e orientam para o caminho certo, não sem antes insistirem para que passem a noite resguardados e que partam de manhã, quando a tempestade tiver passado. Vassilí insiste em partir e na urgência de fechar o negócio dos terrenos antes que outro lhe passe à frente e faça subir o preço. Partem os dois novamente, e novamente se desorientam na noite cerrada e na estrada cheia de neve. Quando achamos que nesta história todas as persoangens são aquilo que esperamos delas, somos supreendidos. :)

Temos tendência, como seres humanos a catalogar as pessoas que se cruazm connosco. Nem sempre, aquilo que aparentam ser é o que acabam por ser nas alturas mais importantes.  Gostei muito deste conto.

Albert:
Albert é um músico talentoso, alcoólico e de rosto celestial. Quando toca todos se rendem ao seu talento, e a forma como o faz deixa todos à sua volta estarrecidos e sensibilizados. 
Num dos bailes dados por Anna Ivánovna, e onde Albert costuma aparecer para tocar, Deléssov depois de o ouvir decide ajudá-lo. Tem de o fazer, um talento daqueles não pode continuar a ser desperdiçado em salões de baile. Deléssov quer tirá-lo da vida desgraçada que leva, da rua, quer potenciar o seu talento, torná-lo num homem diferente e leva-o para sua casa. O que acontece nesta tentativa de reabilitar Albert terão de ser vocês a descobrir.


Estes são apenas três dos contos incluídos nesta colectânea de textos de Tolstói. Vale a pena lê-los a todos e à qualidade intemporal de Lev Tolstói.

Boas leituras!

Excerto (pág. 145):
"Acham então os senhores que, depois daquilo, eu concluí que a cena era um acto mau? Nada disso. «Se aquilo era feito com tanta convicção e reconhecido por todos como necessário, significa que eles sabiam alguma coisa que eu não sei», pensava eu, tentanto compreender. Pois bem, por mais que tentasse, não consegui compreender, nem sequer mais tarde, até hoje. E como não compreendi, fui incapaz de entrar para o serviço militar, como desejava antes dessa cena, e mais: não prestei serviço militar nem prestei serviço nenhum. Mas, como é evidente, eu também não prestava para nada."

maio 29, 2015

[ebook] O Mistério da Estrada de Sintra - Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Título original: O Mistério da Estrada de Sintra
Ano da edição original: 1884
Autores: Eça de Queirós e Ramalho Ortigão
Revisão: Bernardo de Brito e Cunha (Projeto Adamastor)

"Naquele que é justamente considerado o primeiro romance policial português, conta-se a história de um médico que regressa de Sintra acompanhado por um amigo. A meio do caminho, ambos são raptados por um grupo de mascarados, que os levam para um prédio isolado onde aparecera um homem morto. A partir daí, os acontecimentos sucedem-se em catadupa. Quem é o morto e quem o matou? E porquê? Quem era a mulher com quem ele se encontrava, e quem são os mascarados que pretendem proteger a sua honra? A história foi publicada no Diário de Notícias entre Julho e Setembro de 1870 sob a forma de cartas anónimas, e foram muitos os que se assustaram com os acontecimentos narrados. Só no final é que Eça de Queirós e Ramalho Ortigão admitiram tratar-se de uma brincadeira e que eram eles os autores das cartas. O Mistério da Estrada de Sintra foi publicado em forma de livro nesse mesmo ano. Em 1885, houve uma segunda edição revista por Eça de Queirós, que é a utilizada na presente edição."

Um regresso aos clássicos portugueses, com este O Mistério da Estrada de Sintra, escrito a duas mãos por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Este tem sido, ao longo dos anos, um daqueles livros que de vez em quando me vinha à cabeça como que a relembrar-me de que gostaria de o ler. Foi desta que me veio parar às mãos.

O Mistério da Estrada de Sintra é uma história típica da época, embora esteja longe de ser apenas uma história típica e previsível. É típica por ser uma historia de amores impossíveis, dramáticos e fatais e não é apenas uma história típica porque está envolta em mistério, com personagens menos óbvias e cenários inesperados.
O livro começa com a intercepção de dois amigos (muito parecidos com Eça e Ramalho), no caminho de Sintra para Lisboa, por um grupo de homens mascarados que não se identificam e que lhes pedem que os acompanhem. Onde?, não dizem. Os dois são vendados e elevados até uma casa isolada, que não conhecem e onde vão encontrar um homem morto... :) E mais não digo, porque o que mais me prendeu à leitura foi não saber nada sobre a história e todo o ambiente misterioso que os escritores conseguiram criar.
O que se passa com eles naquela casa leva a que um deles, quando sai, sem que tenha conseguido esclarecer o que lhe aconteceu e o porquê, decida escrever para um editor de jornal uma carta onde relata o que lhes aconteceu. A carta é publicada e alguns dos intervenientes na história manifestam-se, também por cartas, que vão sendo publicadas no jornal. É desta forma que vai sendo desvendado o mistério que levou aqueles homens àquela casa e o que os levou à estrada de Sintra para "raptarem" os dois amigos.

Até mais ou menos metade do livro, não fazia ideia do que estava por detrás do acontecimento misterioso que apanhou desprevenidos os nossos escritores na Estrada de Sintra. Gostei muito dessa vertente do livro e achei a história original e as personagens muito bem construídas e interessantes.

Recomendo como é natural!

Boas leituras!

Excerto:
"Demos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos à direita e entrámos na escada. Era de madeira, íngreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superfície e esbatidos e arredondados nas saliências primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar húmido, impregnado de exalações interiores dos prédios desabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomámos à esquerda num patamar, subimos ainda outros degraus e parámos num primeiro andar.
Ninguém tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lúgubre neste silêncio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.
Ouvi então a nossa carruagem que se afastava, e senti uma opressão, uma espécie de sobressalto pueril.
Em seguida rangeu uma fechadura e transpusemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada à chave depois de havermos entrado.
 - Podem tirar os lenços - disse-nos um dos nossos companheiros.
Descobri os olhos. Era noite."

abril 19, 2015

O Falador - Mario Vargas Llosa


Título original: El Hablador
Ano da edição original: 1987
Autor: Mario Vargas Llosa
Tradução: António José Massano
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Romance de dois mundos e duas linguagens, O Falador, de Mario Vargas Llosa, é uma obra que de novo arrasta os leitores para o interior do universo de magia e exotismo próprio do grande escritor peruano. Trata-se de uma ficção que sistematicamente contrapõe os ambientes da selva e da cidade, espelhando desse modo duas atitudes opostas face à vida e aos seus valores. Um narrador moderno e racional e o contador de histórias de uma tribo amazónica asseguram e estruturam em alternância o desenvolvimento do relato."

Quando iniciei este livro, por causa da linguagem, senti que tinha regressado a casa. Aquela sensação que temos quando nos deparamos com algo que nos é familiar e querido. É o que acontece quando leio escritores portugueses, luso-africanos e também com os sul-americanos. Preparei-me para uma leitura compulsiva e para acabar o livro em dois tempos. Infelizmente, ao fim de umas páginas, estava a lutar com a história, ou melhor, com a forma como é contada a história de Mascarita e a sua obsessão por uma tribo amazónica, os Machiguengas. Mario Vargas Llosa é um daqueles escritores que tanto posso adorar como detestar. Não detestei este livro, mas dou por mim a pensar que raios está o homem para aqui a escrever... Nada faz muito sentido e confesso-me irritada com o autor.
A forma como ele complica o relato da vida de gente, aparentemente tão simples, tão próximos da natureza e afins, transcende-me.

O Falador é um livro que se centra essencialmente na tribo peruana, os Machiguengas, e na sua forma de ver o mundo, cheia de superstições, de realismo mágico e da ligação estreita que têm com a natureza e com os locais que escolhem para viver.
Questiona a presença e o trabalho das diversas instituições e organizações que, mesmo que com boas intenções, se mudam de armas e bagagens para junto destas tribos, para as ajudar. Dão-lhes ferramentas para fazer as coisas de maneira diferente, apresentam-lhes o conceito do trabalho remunerado e as vantagens de fixar as comunidades, deixando ser ser nómadas. Algumas destas organizações aproveitam para espalhar a palavra de Deus entre estas tribos, para que, pouco a pouco, se vão afastando das suas próprias crenças e encontrem o caminho certo, da salvação.
O que é que, como sociedade dita civilizada, lhes podemos ensinar? Queremos que estas tribos, estas comunidades, se tornem iguais a nós? Será que, na nossa boa vontade, não estamos a fazer com que percam a sua identidade e caminhem para a extinção? É possível que continuem fiéis a si próprias, que continuem a andar para impedir que o Sol caía e o mundo fique para sempre na escuridão? No fundo, a grande questão é, para que é que estas pessoas precisam de nós?

Enfim, no geral a mensagem é interessante, mas não posso dizer que tenha gostado do livro. Não me identifiquei com a forma como ele conta a história. Achei o livro confuso e pouco estruturado. Se este tivesse sido o primeiro livro que li do Mario Vargas Llosa, provavelmente não iria ler mais nada dele.

Boas leituras!

Excerto (pág. 35):
"Contou que, poucos dias antes, tinha havido uma discussão no Departamento de Etnologia. Saul Zuratas desconcertou-os a todos proclamando que as consequências do trabalho dos etnólogos eram semelhantes à acção dos seringueiros, madeireiros, recrutadores do Exército e demais mestiços e brancos que estavam a dizimar as tribos.
 - Disse que retomámos o trabalho onde o deixaram os missionários na época da colonização - acrescentou. - Que nós, com o paleio da ciência, como eles com o da evangelização, somos a ponta da lança dos exterminadores de índios."