dezembro 28, 2015

O Rebate - J. Rentes de Carvalho

Título original: O Rebate
Ano da edição original: 1971
Autor: J. Rentes de Carvalho
Editora: Quetzal Editores

"Numa aldeia de Trás-os-Montes a chegada de um dos seus filhos emigrados para França, que vem endinheirado e casado com uma francesa, provoca um verdadeiro cataclismo.
Em França o Valadares, trabalhando na terra como um mouro, é premiado com a fortuna do patrão desde que case com a filha - moça doidivanas e descontrolada.
Valadares e a mulher vêm a Portugal quando das tradicionais festas da aldeia. A partir desse momento a perturbação causada pelo comportamento de ambos - ele, através do dinheiro, buscando uma ingénua e primitiva glória no seu burgo; ela usando a sedução e a provocação erótica na fauna masculina aldeã - desencadeia um rol de acontecimentos desgraçados que o rebate final expressa eloquentemente."

Tinha saudades de J. Rentes de Carvalho mas ainda não foi este livro que me encheu o coraçãozinho de fã. Tendo em conta a minha opinião sobre o livro de David Soares - Lisboa Triunfante (post anterior), tenho algum pudor em dizer que tive, novamente, muita dificuldade em entrar na história, embora neste por razões diferentes e menos esotéricas. Se na próxima leitura voltar a acontecer, apago estes dois posts e faço uma pausa nas leituras, porque o problema é claramente meu! :) 
O que é que não resultou em O Rebate? Muitas das vezes não fazia ideia de quem estava a falar. As vozes de todos na aldeia confundem-se, e ao não se distinguirem uns dos outros (talvez seja mesmo essa a intenção), a leitura torna-se confusa e algumas vezes frustrante, mas passemos ao que interessa. :)
Numa aldeia em Trás-os-Montes, todos aguardam com alguma ansiedade o regresso de um filho da terra, o Valadares, emigrado em França. Diz-se que enriqueceu por lá e que vem casado com uma francesa.


O livro acaba por ser um retalho de pequenas histórias individuais, que se vão tocando, mas sem alterarem muito o comportamento da comunidade. Um dos habitantes suicida-se e a mulher perde o filho que carrega na barriga. Seria o seu sexto filho e a vida na aldeia segue como dantes. Uma mulher, vítima de violência doméstica, sai de casa à procura do marido que a engana com outra e é encontrada no fundo de um penhasco. O marido, agora viúvo, torna-se obcecado por uma miúda mais nova, com idade para ser filha dele. A comunidade segue inalterada. O jovem padre da aldeia, que vive atormentado, não se sabe muito bem com o quê, tenta suicidar-se e o seu rebanho nem pestaneja.
A única pessoa que parece capaz de agitar as águas é mesmo a francesa, a mulher do Valadares, que foi obrigada a casar com o português. Incapaz de se adaptar à vida da aldeia, lança a confusão entre os homens da aldeia, apenas para provocar o marido ou apenas porque é divertido.
O Valadares, que vinha convicto de vir impressionar os seus compatriotas, com o seu sucesso em França, encontra uma inesperada resistência aos seus encantos e ao seu dinheiro.
Por fim, em toda a aldeia existe uma tensão sexual quase palpável, com origem em desejos reprimidos e recalcados e que parece ser a única coisa que une todos os homens da aldeia.

A aldeia transmontana retratada em O Rebate não vai de encontro à imagem bucólica e virtuosa da vida no campo, alimentada na altura pelo Estado Novo (o livro foi escrito em 1971). Nesta aldeia transmontana habitam homens embrutecidos pelo álcool, pelas dificuldades da vida e pela falta de moral. Habitam mulheres embrutecidas pelos brutos dos maridos, pela falta de oportunidades e incapacidade de fazer melhor.
É uma aldeia habitada por gente pobre e remediada, mas essencialmente é uma aldeia cujos habitantes são, na sua essência amorais, oportunistas, mesquinhos e tacanhos. Curiosamente a pessoa mais sã da aldeia é mesmo o bêbado da aldeia.
 
Não fosse o facto de não me ter adaptado à forma como a história é contada, sem que se consiga perceber, a maior parte das vezes, a que personagem o autor se está a referir, e este livro teria tudo para me encher as medidas. A história é interessante e o retrato de época, carregado de crítica social está muito bem conseguido, juntando o facto de ser um livro de J. Rentes de Carvalho poderia ter sido memorável. Mas infelizmente, o que me ficou desta leitura foi a memória da frustração por não estar a conseguir entrar no ritmo da história...

Não posso não recomendar J. Rentes de Carvalho. Este recomendo, mas para uma altura em que se sintam com maior capacidade de concentração.

Boas leituras!

Excerto (pág. 23):
"Faziam duas terras de pão, ao terço, mas paga a semente e o adubo, que fica? Cada colheita trazia a ameaça da venda do palheiro, porque casa meeira ninguém queria e a horta não prestava, plantavam lá meia saca de batatas e um cesto de nabos, o resto do ano iam à jeira ou abalava ele com os resineiros pela serra fora, aos meses. Lágrimas que vinham da aflição de agora e dos males sem cura, do filho nascido morto, e deste por nascer, lágrimas de tudo. A fazer gastos e tinham tantas necessidades, cheios de dívidas! O Marques ameaçava, guardava o dinheiro das jeiras por conta do adubo, ou do que teriam de comprar - «lá recebes!» mas nunca o viam, sempre com fome, sempre a dever, só a roupa do corpo. Um dia nem os remendo teriam onde pegar.
Parou, a não acreditar nos olhos, uma burra presa à argola do palheiro e a outra, solta, a focinhar nas silvas do muro. Correu aos tropeções, tomada de um pressentimento, sem cautelas, insensível às topadas, sem ar.
 - Ó Chico!
As burras, despertas, levantaram a cabeça. Abrandou a corrida, sem poder mais, o ventre despegado, encostou-se à porta, incapaz de chamar outra vez."

dezembro 25, 2015

Lisboa Triunfante - David Soares


Título original: Lisboa Triunfante
Ano da edição original: 2008
Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência

"Lisboa Triunfante é um romance épico sobre a rivalidade entre duas figuras misteriosas, cuja contenda milenária se cruza com a história da capital portuguesa. Desde as origens pré-históricas de Lisboa até aos anos turbulentos que antecederam a implantação da República, passando pela elevação da cidade a capital do a Reino por Afonso III e pela construção enigmática do Mosteiro dos Jerónimos, a galeria de personagens que dão vida a Lisboa Triunfante contém figuras como Frei Gil de Santarém, D. João V e Aquilino Ribeiro. Reunindo elementos de romance histórico e fantástico, este é um livro definitivo sobre uma Lisboa mágica, que possui tanto de reconhecível quanto de maravilhoso. Lisboa Triunfante é um triunfo da imaginação."

De David Soares apenas tinha lido O Evangelho do Enforcado de que gostei bastante (a minha opinião aqui). Não sei se a minha opinião sobre este Lisboa Triunfante sofreu por ser o meu segundo livro de um autor que me deixou com expectativas elevadas... A verdade é que tive muita dificuldade em entrar na história, não me identifiquei com a escrita que achei, principalmente no início, forçada na utilização de termos e expressões que, duvido alguém saiba o que querem dizer. Achei a história confusa. Tenho pena de não ter conseguido apreciar o livro porque ao ler outras opiniões fico com a sensação que me escapou qualquer coisa. :/

De uma forma muito resumida, porque confesso que tenho alguma dificuldade em opinar sobre este livro, Lisboa Triunfante, tendo como palco a cidade de Lisboa, conta a história da própria cidade e de sua construção. Lisboa é o fruto de uma luta intemporal entre duas forças poderosas, a raposa, trapaceira, imaginativa e criativa - adorada pelas mulheres - e o lagarto, símbolo da razão e da lógica - seguido pelos homens - acredita na destruição como catalisador da evolução e do desenvolvimento, o que resulta da destruição e sempre melhor do que aquilo que existia.
No início, numa Lisboa por inventar, era a raposa quem reinava, as mulheres eram as líderes numa incipiente sociedade pré-histórica até que os homens, orientados pelo lagarto, as derrotam e assistimos, através da escrita de David Soares ao aparecimento dos primeiros alicerces de Lisboa até aos dias de hoje. Lisboa é o resultado desta luta entre estas duas figuras poderosas, que lutam entre si, deixando as suas marcas na majestosa arquitectura da cidade.

A parte mais interessante são mesmo as descrições, que acredito serem próximas da realidade, de Lisboa em tempos idos. Os cheiros, as pessoas e os costumes.

E é isto. Não sei que mais dizer, a não ser que, embora não tenha adorado o livro, também não o odiei. Acho que não o entendi ou não me apanhou numa fase boa. Estes rodeios todos para vos dizer, que se o tivesse odiado não o recomendaria, no entanto recomendo. Recomendo porque embora não tenha sido leitura para mim, sinto que é definitivamente leitura para muitos, tendo em conta as opiniões que li sobre ele. Talvez numa outra vida venha a ser leitura para mim. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 25):
"A morte não era uma realidade desgostosa. Eles acreditavam que cada indivíduo tinha duas almas: uma que ascendia ao céu e outra que permanecia com as ossadas. Era esse espírito que urgia satisfazer para que não abandonasse a sepultura em busca dos vivos. O protocolo lúgubre era respeitado desde a descarnação. O cadáver era  desbastado com gumes de pedra até os ossos ficarem límpidos; em seguida, o estômago, morada dos espíritos, era queimado com frutas e flores para, consoante a forma do fumo, serem hierarquizados aqueles que iriam consumir a carne. A prática não condicionava o apetite das matriarcas que comiam sempre primeiro: os retalhos mais tenros, assim como o fígado, eram para elas. Naquela noite, o menino só tivera direito a um pedaço do músculo tibial porque tinha sido o último a comer: fora o fumo a falar. A chefe comera a coxa da mulher e dividira o fígado dela com as irmãs. Ele sabia que a chefe precisava de comer melhor que os outros para liderar, para se manter forte à frente do grupo, mas... A mãe dele tinha morrido e ele só tinha comido um bocado da canela?!
Matutou sobre isso durante a viagem enquanto tentou tirar a bolinha de carne dentro do buraco no dente."

outubro 16, 2015

Nenhum Olhar - José Luís Peixoto

Título original: Nenhum Olhar
Ano da edição original: 2000
Autor: José Luís Peixoto
Editora: Bertrand Editora

"Numa aldeia do Alentejo, com um pano de fundo de uma severa pobreza, o autor vai tecendo histórias de homens e mulheres, endurecidos pela fome e pelo trabalho, de amor, ciúme e violência: o pastor taciturno que vê o seu mundo desmoronar-se quando o diabo lhe conta que a mulher o engana; o velho e sábio Gabriel, confidente e conselheiro; os gémeos siameses Elias e Moisés, cuja terna comunhão se degrada no momento em que um deles se apaixona; ou o próprio Diabo. As suas personagens são universais, assim como a sua esperança face à dificuldade.«... a partir da segunda ou terceira sequência ficamos seguros de que a inclinação é fatal: vamos embater num limite, num muro, num enigma, na origem do mundo e no desastre final...»"
"«Hoje o tempo não me engana. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um não quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desafiados de nuvens. E o céu, daqui parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.»"

Desde Livro (opinião aqui) que nunca mais tinha lido José Luís Peixoto e depois deste Nenhum Olhar, espero que não passe tanto tempo até ao próximo livro dele.

Nenhum Olhar é um livro imensamente triste, cheio de silêncios e olhares que dizem tudo. Conversa-se pouco na aldeia alentejana que o autor retrata. 
As personagens vivem uma vida desencantada, algumas presas a convenções e ao que se espera deles. Vivem com a consciência de que abdicaram de lutar pela felicidade para cuidarem dos outros, para não romperem com as regras instituídas e estabelecidas. Não perseguiram a felicidade por cobardia ou porque, simplesmente, não saberiam como fazê-lo.
Outros nunca encontraram a felicidade e quando esta aparece não hesitam em agarrá-la com todas as forças que possuem. Outros ainda, tendo nas mãos aquilo que desejaram, estragam tudo por causa de mal-entendidos, da má língua do povo e da maldade de algumas pessoas.

Surpreendeu-me a capacidade de amar em gente que tem tão pouco. A profundidade dos sentimentos em pessoas que quase nunca tiveram razões para sorrir. Surpreendeu-me, ao mesmo tempo, a dormência dos que abdicaram de ser felizes e a dor atroz de quem vê a felicidade escapulir-se por entre os dedos sem que nada possa fazer para mudar o destino. Surpreendeu-me a falta de esperança e a capacidade de amar e de sofrer. Surpreende-me a imutabilidade do tempo, como se a aldeia vivesse presa a um paradoxo temporal, onde geração atrás de geração a história está condenada a repetir-se ad eternum.
Acima de tudo, surpreendeu-me a capacidade de José Luís Peixoto nos fazer sentir toda esta panóplia de sentimentos através de palavras tão simples e com a criação de momentos tão tristes e ao mesmo tempo tão enternecedores.

Nenhum Olhar retrata uma realidade triste com que todos nós nos conseguimos identificar, de certa forma. A vida nas aldeias isoladas, onde o tempo parece seguir outras regras, onde todos se conhecem, ou pensam conhecer e onde o destino parace ser mais certo do que a morte.

E sem nada ter dito sobre a história em si, acho que não preciso dizer mais nada, a não ser que recomendo sem qualquer hesitação. :)

Boas leituras

Excerto (pág. 209):
"A dor: um silêncio de sentido sobre todos os gestos, um abismo a calar o significado de todas as palavras, um véu a tornar o tempo inútil. A mulher que amara mesmo, que amara mesmo, e que não era mais nada no mundo. E a solidão era um céu maior que a noite e onde não havia mais que a noite e frio, era um lugar negro que o olhar vida."

outubro 11, 2015

O Rapaz de Pijama às Riscas - John Boyne

Título original: The Boy in the Striped Pyjamas
Ano da edição original: 2006
Autor: John Boyne
Tradução do castelhano: Cecília Faria e Olívia Santos
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Bruno, de nove anos, nada sabe sobre a Solução Final e o Holocausto. Não tem consciência das terríveis crueldades que são infligidas pelo seu país a vários milhões de pessoas de outros países da Europa. Tudo o que ele sabe é que teve de se mudar de uma confortável mansão em Berlim para uma casa numa zona desértica, onde não há nada para fazer nem ninguém para brincar. Isto até ele conhecer Shmuel, um rapaz que vive do outro lado da vedação de arame que delimita a sua casa e que estranhamente, tal como todas as outras pessoas daquele lado, usa o que parece ser um pijama às riscas."

Bruno é um rapaz de nove anos, filho de um militar importante na estrutura criada por Hitler. Vive em Berlim, sem nunca ter conhecido outra realidade, protegido dos horrores que estão a ser perpetrados mesmo ao seu lado, contra os judeus. Quando o pai é promovido, pelo Führer, e é enviado para dirigir um dos campos de concentração mais infames do Holocausto, Auschwitz, decide levar toda a família, a mulher e os dois filhos, Bruno e Gretel. De um momento para o outro, todo o pequeno mundo de Bruno desaba. Fica perturbado com a ideia de abandonar a sua casa de cinco andares em Berlim e de não poder viver todas as aventuras que tinha planeadas para o Verão que se aproxima com os seus melhores amigos. Angustia-o não saber quanto tempo irá ficar longe de Berlim e nem sequer tem noção da distância que irá percorrer até Auschwitz, nome que nem sabe dizer, julgando todo o tempo que lá permanece que está  em Acho-Vil.

Quando chegam a Acho-Vil, Bruno fica chocado com a sua nova casa, velha, muito mais pequena que a mansão de Berlim. Não tem vizinhos e por isso, aparentemente não tem nenhuma criança com quem brincar. Fica intrigado com a vedação que consegue ver da janela do seu quarto e com o facto de todos, com excepção dos militares, daquele lado da vedação vestirem pijamas às riscas. Não consegue perceber e sente-se pessoalmente atingido por ter de ficar deste lado da vedação sozinho, sem ninguém com quem brincar enquanto do outro lado existem tantas crianças, que de certeza têm imensas coisas para fazer e espaços para explorarem.

Um dia decide explorar a floresta que circunda a casa, caminhando junto à vedação. Nesse dia conhece Shmuel, um menino do outro lado da vedação, com a mesma idade de Bruno e, imagine-se a coincidência, que faz anos no mesmo dia de Bruno. A amizade entre os dois desenvolve-se e Bruno encontra em Shmuel alguém com quem partilhar as suas angústias ao mesmo tempo que tem alguma dificuldade em perceber as do amigo. Um dia surge a oprtunidade de Bruno conhecer o outro lado da vedação, algo que sempre pediu a Shmuel e que foi sempre recusado. O que o espera Bruno do outro lado terão de ser vocês a descobrir lendo o livro.

Há qualquer coisa que falha neste livro e não sei dizer bem o quê. Não sei se é o excesso de ignorância de Bruno sobre o mundo que o rodeia - um miúdo alemão, filho de um proeminente militar alemão - nunca ter ouvido falar em judeus não é credível. Ou em casa ou na escola, é praticamente impossível que não tivesse sido, de uma forma ou de outra, doutrinado nesse sentido. Acho que foi principalmente isso que falhou nesta história. A personagem de Bruno não é credível e como tal, pareceu-me até, algumas vezes ofensiva a falta de conhecimento, a falta de alcance em perceber que, nitidamente Shmuel não era feliz, passava fome e estava ali contra a sua vontade. Achei algumas vezes ofensiva esta falta de sensibilidade de Bruno, mais concentrado nos seus problemas e na sua vida, parecendo que Shmuel nada mais era do que uma distracção e um divertimento que o ajudava a ultrapassar a solidão que foi encontrar em Acho-Vil.
Não esqueço, no entanto, que O Rapaz de Pijama às Riscas é um livro direccionado para um público mais jovem e que assume aqui um carácter mais genérico, não sendo assumidamente uma história sobre o Holocausto. Diria que acaba por ser uma espécie de alegoria aos horrores da intolerância, da discriminação, da violência gratuita, por um lado e, colocando no seu oposto, a inocência de duas crianças que se aproximam independentemente da cor da pele, das crenças religiosas, da educação e das suas vivências actuais. Portanto, a mensagem que passa é muito bonita, é enternecedora. Não acho que a escrita de John Boyne tenha conseguido passar de forma clara esta mensagem, percebemo-la, mas não a sentimos. Não posso deixar de pensar que, esta mesma história escrita por Pepetela ou Mia Couto teria um impacto completamente diferente. Quem leu este e já leu um dos dois que refiro, perceberá o que quero dizer.

Resumindo e baralhando, não é que não tenha gostado, como disse a mensagem subjacente é pertinente e ao envolver duas crianças no contexto em que viveram, teria de ter um coração de pedra para dizer categoricamente que não gostei. No entanto, é por envolver duas crianças, que nunca se deveriam ter conhecido com aquela vedação a separá-los que sinto que faltou alguma coisa a este livro.

Recomendo pelo tema e porque acaba por ser uma leitura interessante.

Boas leituras!

Excerto (pág. 157):
"- Quer dizer que não sabes? - perguntou ela.
 - Não - disse Bruno. - Não percebo porque é que não podemos passar para o outro lado. Que mal é que nós fizemos para não podermos ir para o outro lado brincar?
Gretel olhou-o e, de repente, desatou a rir, só parando quando reparou que Bruno estava a falar a sério.
 - Bruno - disse ela num tom de voz infantil, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo -, a vedação não está ali para nos impedir de passar para o outro lado. É para os impedir a eles de passarem para este.
Bruno pôs-se a pensar naquilo, mas continuava a não perceber.
 - Mas porquê? - insistiu.
 - Porque eles têm de os manter juntos - explicou Gretel.
 - Com as suas famílias, queres tu dizer?
 - Bem, sim, com as sua famílias. Mas também com os da sua espécie.
 - O que queres dizer com «os da sua espécie»?
Gretel suspirou e abanou a cabeça.
 - Com os outros judeus, Bruno. Não sabias? É por isso que eles têm de os manter todos juntos. Eles não se podem misturar connosco.
 - Judeus - disse Bruno, experimentando a palavra. Gostava bastante da maneira como soava. - Judeus - repetiu ele. - Todos os que vivem daquele lado da vedação são judeus.
 - Sim, é isso - disse Gretel.
 - E nós, somos judeus?
Gretel ficou boquiaberta, como se tivesse acabado de levar um estalo na cara.
 - Não, Bruno - disse ela. - Não, claro que não somos. E tu nem sequer devias dizer uma coisa dessas.
 - Mas porquê? Então, o que é que nós somos?
 - Somos... - começou Gretel, mas depois teve de parar e pensar antes de responder: - Somos... - repetiu ela, mas não estava muito certa de qual seria a resposta a esta pergunta. - Bem, nós não somos judeus - disse ela por fim.
 - Eu sei que não - disse Bruno frustrado. - O que eu quero saber é: se não somos judeus, então o que é que somos?
 - Somos o oposto - respondeu Gretel muito depressa, parecendo bem mais satisfeita com esta resposta. - Sim, é isso mesmo. Somos o oposto.
 - Está bem - disse Bruno, satisfeito por ter finalmente tudo esclarecido na sua cabeça. - Os opostos vivem desta lado da vedação e os judeus vivem daquele.
 - Isso mesmo, Bruno.
 - Então os judeus não gostam dos opostos?
 - Não, estúpido, somos nós que não gostamos deles. (...)
 - Então, porque é que nós não gostamos deles? - perguntou ele.
 - Porque eles são judeus - disse Gretel.
 - Estou a ver. E os opostos e os judeus não se dão muito bem.
 - Não, Bruno - disse Gretel."

outubro 04, 2015

Casa de Campo - José Donoso

Título original: Casa de Campo
Ano da edição original: 1978
Autor: José Donoso
Tradução do castelhano: Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu
Editora: Cavalo de Ferro

"Romance escrito, segundo a crítica «com mão de mestre e cabeça de génio», Casa de Campo é um dos livros fundamentais na Obra de José Donoso e na literatura sul-americana.
A história narra os acontecimentos vividos durante alguns dias numa grande casa senhorial. A ausência temporária dos proprietários adultos origina que as crianças assumam o controlo da casa e a transformem, juntamente com os servos, em domínio erótico e febril.
Construída pela rica família Ventura, a casa, com os seus salões, quartos e caves labirínticas é um lugar de magnificência, mas também de convite à transgressão. Esta festiva irrupção de pulsões reprimidas propiciará durante alguns dias uma ruptura radical com a ordem social e a instauração de um novo mundo mágico, anárquico, exuberante, mas igualmente doloroso."

Não me recordo como foi que este livro acabou nas estantes aqui de casa. Gostei da capa, do preço mas principalmente acho que gostei da comparação com a obra máxima de William Golding, O Deus das Moscas (opinião aqui), e com o facto de ser um autor sul-americano. :)

Casa de Campo é uma metáfora ao Chile de Pinochet e Salvador Allende. José Donoso, procurou de forma metafórica, recriar nesta história uma parte da história do Chile, da sociedade chilena e da forma como se viveram os anos da ditadura de Pinochet.

Os Venturas, são uma família antiga, tradicional e muito rica. Fizeram e fortuna com a exploração de minas de ouro num lugar isolado, com mão de obra nativa. É para controlar a exploração e recolher os dividendos das minas, que todos os anos passam os três meses de Verão em Marulanda, na Casa de Campo. Reúnem toda a família, os adultos e os filhos, mais de trinta crianças e adolescentes, e um séquito impressionante de criados.
Os Ventura são um grupo estranho... Vivem numa espécie de mundo alternativo, afastados da realidade, condicionando todas as conversas e acontecimentos às suas próprias interpretações, por mais absurdas que estas sejam. Vivem uma farsa, que se transmite às crianças Ventura, praticamente ignoradas pelos pais durante os três meses que permanecem na Casa de Campo. São controlados pelos criados, um grupo comandado pelo Mordomo, escolhido todos os anos pelos Ventura de forma criteriosa. Este tem autorização para castigar todas as crianças que quebrarem as regras impostas pelos adultos, embora não seja incorruptível, é uma figura que todos aprendem a temer desde muito cedo. As crianças surgem, no príncipio, como um grupo mais ou menos homogéneo, sendo difícil muitas vezes distinguirem-se-lhes traços particulares. Tal como o núcleo dos adultos, são todos de certa forma iguais e formatados.

Quando os adultos decidem passar um dia inteiro fora, deixando as trinta e três crianças entregues a si próprias o dia inteiro, muitas das crianças vêem a oportunidade de se rebelarem contra as regras rígidas da família e pôr em marcha planos antigos de fuga. Alguns acreditam que os adultos nunca mais voltarão e por isso vão tentar criar uma sociedade mais justa na Casa de Campo, com a ajuda dos nativos, os temidos antropófagos, com quem estavam proibidos de falar, por serem selvagens perigosos e cheios de doenças.
O único adulto que fica na casa é o tio Adriano, um Ventura por casamento, que há anos vive fechado e sedado num quarto da casa, fazendo a viagem para a Casa de Campo, todos os anos, fechado numa espécie de jaula, como se fosse um animal. Adriano teve a ousadia de questionar as regras dos Venturas. Médico de profissão, preocupava-se com os nativos e tinha por hábito visitá-los para cuidar deles. Depois de uma tragédia se abater sobre ele, foi enclausurado pelos restantes familiares. Quando os adultos partem para seu passeio, Wenceslau liberta o pai e é sobre a orientação débil de Adriano que alguns dos miúdos Ventura tentam criar uma nova ordem na Casa de Campo.
Nesta sociedade, como é natural, existem os que nada querem modificar, que são forças de bloqueio, que conspiram para manterem as regalias que acreditam ser suas apenas e só porque nasceram na família Ventura.
Sem querer entrar em pormenores para não contar demais sobre o desenvolvimento da história, um dia transforma-se num ano e os criados, sob o comando do Mordomo, regressam para a Casa de Campo, com o objectivo de colocar tudo nos eixos. Preparar o regresso dos patrões, não se sabe bem quando, e receber as boas das palmadinhas nas costas pelo bom serviço prestado à família Ventura. Com o Mordomo e os serviçais, vem o medo, a repressão e a violência gratuita. Algumas das crianças resistem, mas no fim de contas, não passam de crianças que apenas querem os pais de volta, por mais negligentes que estes tenham sido, por piores que sejam e mesmo que o amor que recebam de volta seja apenas uma ilusão. 
Estas crianças são como um povo que procura num pai protector, conforto e alimento, sem questionar como é que isso lhes é entregue. Cresceram castradas, sem qualquer liberdade e tornam-se adultos com dificuldade em decidir, em pensar, em fazer diferente. Adultos com pouca empatia pelos outros e pelo bem-estar dos que os rodeiam. Não sabem como fazer melhor ou fazer diferente, sem consultar o pai, a entidade protectora que, ilusoriamente os mantém aquecidos e alimentados. 
E, no fim, nada disso importa, porque por mais que o homem faça, por mais que tente controlar os acontecimentos e o seu semelhante, será a natureza a vencer. Só ela permanecerá, milhões de anos após a nossa extinção, sem qualquer lembrança da nossa existência, indiferente à nossa passagem pela terra. :)

Confesso que tinha algumas expectativas relativamente a este livro e foi por isso que o escolhi para companhia nas férias. Infelizmente não me senti muito sintonizada com a história e com a forma como é contada por José Donoso. Percebo onde ele quer chegar, consigo perceber as metáforas e o paralelismo com a história recente do Chile. Percebo isso, gosto do que tenta fazer, mas pessoalmente não me senti envolvida. Estranhei a forma como tudo aquilo se desenrola, não senti que o que se passava era credível e, eu que até gosto de narradores metediços e que nos provoquem ao longo da leitura, achei o narrador aborrecido e inconveniente, cortando o ritmo da narrativa, já de si, lento e estranho. Depois disto tudo, não posso dizer que tenha gostado. Não me deixo de sentir frustrada por não ter gostado... Não odiei, não amei... preferia que tivesse sido diferente.

Independentemente da minha opinião menos boa, acho que posso recomendar. A verdade é que só li críticas boas ao livro e por isso acho que lhe podem dar uma oportunidade. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 30):
"A biblioteca dos Venturas não podia satisfazer os empenhos de aprendizagem de ninguém, como tambén não o podiam as declarações dos grandes a respeitos dos livros: «Ler só serve para estragar a vista»; «os livros são coisas de revolucionários e de professorzecos pretensiosos»; «Através dos livros ninguém consegue adquirir a cultura que o nosso exaltado berço nos proporcionou». Por estas razões, proibiam o acesso das crianças à extensa sala de quatro pisos guarnecidos com balaustradas e remates de pau-santo. Esta proibição, no entanto, não passava de uma das muitas proibições retóricas que eram utilizadas para domar as crianças: sabiam que por trás daqueles milhares de lombadas de peles soberbas não existiam uma só letra de forma. O bisavô mandou construí-los quando, num debate do Senado, um liberal de meia-tigela e muito resplendor lhe chamou «ignorante, como todos os da sua casta»."

setembro 01, 2015

o apocalipse dos trabalhadores - valter hugo mãe

Título original: o apocalipse dos trabalhadores
Ano da edição original: 2008
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara Portugal
 
"A resistência de maria da graça e de quitéria, duas mulheres-a-dias e carpideiras profissionais que, a braços com desilusões e desconfianças várias acerca dos homens, acabam por cair de amores quando menos esperam. Com isso, mudam radicalmente o que pensam e querem da vida. Este é um romance sobre a força do amor e como ela se impõe igual a uma inteligência para salvar as personagens das suas condições de desfavor social e laboral.
Passado na recôndita cidade de Bragança, este livro é um elogio à força dos que sobrevivem, dos que trabalham no limiar da dignidade e, ainda assim, descobrem caminhos menos óbvios para a mais pura felicidade."

Maria da Graça é uma mulher nos seus quarentas, casada com o único pescador de Bragança, cidade sem mar, pelo que o marido passa a maior parte do ano fora, embarcado. É uma mulher frustrada, confusa, trabalhadora e sem nunca ter conhecido o amor, nem do marido nem de ninguém, vive na ilusão de que o que sente pelo patrão é amor. No entanto, não deixa de o odiar. O patrão é um homem mais velho e culto que se acha no direito de a "atacar" sempre que quer e pode. O Sr. Ferreira parece ter o necessário para ser feliz mas vive ele próprio com os seus fantasmas que o impedem de olhar a vida de frente. Maria da Graça vive atormentada por esta relação e todas as noites sonha que está às portas do céu, onde vai parar depois de o patrão a ter morto e onde São Pedro lhe recusa a entrada, noite após noite.
Maria da Graça aparece-nos como uma mulher inteligente e dividida. Dividida entre o que gostaria de ser o que lhe permitem ser. Dividida entre o amor e o ódio pelo patrão. Dividida entre o desespero e a esperança de dias melhores. Dividida entre as lágrimas e a gargalhada.
Quitéria é a melhor amiga, e vizinha, de Maria da Graça. É uma mulher livre, despreocupada e de certa forma feliz. Não é casada e tem uma verdadeira obsessão por homens mais novos. Não procura o amor, apenas a satisfação sexual. Sem saber como vê-se enamorada de Andryi, um dos seus jovens amantes, imigrante ucraniano, trabalhador da construção civil, com uma história familiar difícil. Quitéria surge aqui como a protectora de Maria da Graça e também de Andryi. É efectivamente uma mulher de bem com a vida, despudorada e imensamente bem disposta. Segue à risca o ditado "se vida te dá limões faz limonada".
Andryi é um jovem de vinte e tal anos, que veio para Portugal, como tantos dos seus compatriotas à procura de uma vida melhor. Deixa na Ucrânia os pais e vive em Portugal angustiado com o destino dos dois. Sem se conseguir adaptar ao nosso país e a nós, vive calado, fechado sobre si mesmo. Tenta ser um robot, uma máquina de trabalho que nada sente e nada vê. Quer apenas ganhar dinheiro para enviar aos pais. Com Quitéria inicia uma relação, ao princípio meramente física, depois desconfiada e magoada, que acaba por se transformar numa espécie de amor. Encontra em Quitéria compreensão e alguma da ternura deixada na Ucrânia.

Há qualquer coisa que me incomoda neste livro e não consigo dizer o quê. Não senti grande empatia com as personagens, nem com os seus problemas. Não achei credíveis as vidas de Maria da Graça e Quitéria, talvez porque não as consegui encaixar nas vidas das empregadas domésticas que conheço, que também nada têm a ver com os estereótipos que muitas vezes lhes estão associados. Consigo identificar-me com o tema, com a vida dura e sem grande perspectiva que muitas destas mulheres têm, uma vida de trabalho fisicamente desgastante e pouco valorizado. 
Acho interessante e valorizo a escolha dos protagonistas improváveis, mulheres a dias e imigrantes do leste, não sei é se valter hugo mãe os terá conseguido caracterizar da melhor forma. Neste sentido o livro acabou por não estar à altura do que esperava, porque uma das características mais interessantes de valter hugo mãe é a capacidade que tem de encarnar as vivências das suas personagens, como se tivesse efectivamente passado pelas mesmas experiências, e transmitir na escrita todas as emoções e sensações vividas.

Embora esteja longe de ser um livro mau, não foi, para mim, uma leitura marcante. Esperava mais, ou diferente, de valter hugo mãe e é por ser de valter hugo mãe que o recomendo sem reservas.

Boas leituras!

Excerto (pág. 56):
"áquela hora, a maria da graça levava as mãos ao pescoço e começava a perceber que morreria. a vida não lhe duraria interminavelmente e aos quarenta anos, era verdade, estaria quase no fim. o senhor ferreira, vindo-lhe ao de cima todo o suspeitado lado obscuro, atirava-se a ela com um punhal longo e afiado. abria-lhe o corpo de cima a baixo enquanto ela pedia ao são pedro que visse tal acto e medisse tal fúria para se apiedar da sua alma. o santo homem, preocupado com as admissões à porta do céu, ouvia pouco o que a mulher lhe gritava, ou não fazia caso, e o senhor ferreira investia mais e mais, até impossivelmente o corpo dela resistir. até que a sua própria consciência percebesse que o sonho exagerava no efeito cruel, porque ninguém sobreviveria tanto tempo a tantos e tão duros golpes. sentido-se ser morta, a maria da graça sabia não estar a morrer, mas garantia-se de que o aviso estava feito e, de olhos abertos na escuridão, o suor no rosto por tão grande susto, decidia mais uma vez depositar-se nos braços do maldito, o seu amado futuro assassino. não sorria, começava a chorar por acreditar que o amor era sempre igual à morte."

agosto 24, 2015

O Mar de Ferro - George R. R. Martin

Título original: A Feast for Crows (part 2)
Ano da edição original: 2005
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência

"Quando Euron Greyjoy consegue ser escolhido como rei das Ilhas de Ferro não são só as ilhas que tremem. O Olho de Corvo tem o objectivo declarado de conquistar Westeros. E o seu povo parece acreditar nele. Mas será ele capaz?

Em Porto Real, Cersei enreda-se cada vez mais nas teias da corte. Desprovida do apoio da família, e rodeada por um conselho que ela própria considera incapaz, é ainda confrontada com a presença ameaçadora de uma nova corrente militante da Fé. Como se desenvencilhará de um tal enredo?

A guerra está prestes a terminar mas as terras fluviais continuam assoladas por bandos de salteadores. Apesar da morte do Jovem Lobo, Correrrio ainda resiste ao poderio dos Lannister, e Jaime parte para conquistar o baluarte dos Tully. O mesmo Jaime que jurara solenemente a Catelyn Stark não voltar a pegar em armas contra os Tully ou os Stark. Mas todos sabem que o Regicida é um homem sem honra. Ou não será bem assim?"

Termino assim o 4º volume (8º na edição portuguesa, da Saída de Emergência) da saga As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin e, à semelhança do O Festim dos Corvos, não se avança muito na história, o que não quer dizer que não se passe nada. :)
À semelhança dos outros livros, algumas personagens morrem, alguns mistérios vão sendo revelados, muitas das personagens continuam a ser dúbias nas suas intenções e a luta pelo Trono de Ferro continua.

*Só pode conter spoilers*

Arya Stark, continua em Bravos, a trabalhar para se tornar uma discípula do Deus das Muitas Caras e a lutar para ser ninguém. Esquecer que foi Arya Stark não é tarefa fácil e esquecer a vontade de vingar os Stark parece ser ainda mais complicado. É uma miúda inteligente, mas não passa de uma miúda. Torço por ela, e gostava que ela não se transformasse numa espécie de monstro. Vamos ver o que o autor lhe reserva.

Vamos encontrar Sansa, agora Alayne, apresentada como filha do Mindinho, ainda no Ninho de Águia, junto do primo Robert. O Mindinho tem planos para ela. Vamos ver se se concretizam.
Um aparte e uma referência à série televisiva, George R. R. Martin, tem sido bem mais simpático com Sansa no livro do que na série, particularmente desde que esta fugiu de Porto Real. E mais não digo. ;)


Cersei parece estar perto de conseguir tudo aquilo com que sempre sonhou, ser Rainha e reinar, sem que nenhum homem mande nela. Parece, mas na realidade nem tudo lhe corre como planeado. Numa tentativa de afastar os Tyrell de Porto Real e do trono, tenta prejudicar Margaery, a jovem rainha do Rei Tommen. Consegue prejudicá-la mas não sem que alguns dos estilhaços a atinjam também. Como irá ela conseguir libertar-se da teia que ela própria criou?

Jaime é enviado, pela irmã, para Correrrio, com a missão de acabar com o cerco já longo ao castelo de Correrrio onde Brynden Tully, tio de Catelyn Stark, recusa render-se e ajoelhar ao Rei Tommen. Irá Jaime quebrar mais uma promessa, a que fez a Catelyn Stark, de nunca mais levantar uma arma contra um Tully ou um Stark? Estará sequer preocupado com isso?

Sobre Brienne não me vou alongar, para não estragar a história a quem ainda não leu, mas neste volume  continua a sua busca por Sansa e é protagonista de uma das cenas mais chocantes do livro. E mais não digo.

Neste volume passamos ainda pela viagem de Samwell até casa, por Dorne onde se insinuam planos de vingança há muito em andamento, e pela ascensão dos Homens de Ferro e toda a devastação que trazem com eles.
Não voltámos à Muralha e a Jon Snow, não se fala de Stannis e Melisandre, não sabemos mais nada de Daenerys Targaryen, Tyrion e Varys não mais são referidos. Bran Stark e os seu companheiros estão esquecidos desde que encontraram aquela personagem arrepiante e foram ajudados por Samwell.
George R. R. Martin promete, no fim deste 4º livro da saga, que o próximo - A Dance With Dragons - será dedicado a algumas destas personagens.
Gostei deste volume, embora não tenha avançado muito na história, fechou alguns assuntos e algumas das personagens tiveram desenvolvimentos potencialmente interessantes. :) 
Desta vez vi a série televisiva antes de terminar a leitura deste O Mar de Ferro, o que fez com muitas das coisas que li não fossem novidade. Aliás a season 5 avançou de tal maneira na história de algumas das personagens, que julgo que a leitura do 5º volume - A Dance With Dragons - não trará muitas surpresas... :/ 
Como algumas das personagens têm rumos diferentes do que aconteceu na série, acredito que ao virar de cada página poderá haver uma surpresa. :)

Boas leituras!


Excerto (pág. 259):
"Isto é um sonho terrível, pensou. Mas se estava a sonhar, porque doía tanto?
A chuva parara de cair, mas o mundo inteiro estava molhado. Sentia o manto tão pesado como a cota de malha. As cordas que lhe prendiam os pulsos estavam empapadas, mas isso só as apertara mais. Virasse as mãos como virasse, não conseguia libertar-se. Não compreendia quem a atara ou porquê. Tentou perguntar às sombras, mas elas não responderam. Talvez não a ouvissem. Talvez não fossem reais. Sob as camadas de lã húmida e cota de malha enferrujada, tinha a pele corada e febril. Perguntou a si própria se tudo aquilo seria apenas um sonho de febre."