março 31, 2018

O Amante Bilingue - Juan Marsé

Título original: El Amante Bilingüe
Ano da edição original: 1990
Autor: Juan Marsé
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora:Publicações Dom Quixote

"O Amante Bilingue é a história de uma esquizofrenia singular e, sobretudo, a história de uma nostalgia: a nostalgia de ser outro, de exibir outra máscara, de enganar o espelho. Uma aventura grotesca e inverosímil que é também uma sátira irónica e feroz à dualidade social e linguística catalã, agravada pelas diferenças de classe."

Gosto de conhecer novos escritores. Gosto de não saber o que vou encontrar. Escolher um livro de um escritor nunca lido para mim é mais uma questão de instinto do que outra coisa. A mim, o que me leva a pegar num livro é capa e o título. E o que faz com que venha para casa com ele é essencialmente a capa, o título e o preço. Confesso que leio na diagonal a sinopse, apanho a ideia geral e decido: sim ou não. É tão superficial quanto isto. E não me tem corrido nada mal.

O Amante Bilingue, de Juan Marsé foi uma boa surpresa. O nome Juan Marsé não me era estranho. Um daqueles autores que ficam no nosso subconsciente e que um dia se sobrepõem a todos os outros.
É um livro escrito num tom divertido e que acaba por ser triste e de certa forma constrangedor que nos faz sentir mal por, ao mesmo tempo, nos querer fazer rir.

Joan Marés é um homem de ideias fixas, que se apaixona por uma mulher mais nova e que vem de um estrato social muito diferente do seu. Marés vai vivendo feliz até ao dia em que apanha a mulher com um engraxador, alguém muito abaixo da sua classe.
Ela sai de casa e nunca mais o procura, sem qualquer arrependimento e sem qualquer remorso. Ele fica e nunca mais é o mesmo.
Passa a viver obcecado por Norma, toda a sua vida passa a girar em torno dela e da ideia que criou dela. Ao longo da história vamos percebendo que Marés ama uma Norma que na realidade não existe, talvez nunca tenha existido a não ser na sua cabeça. Ama a ideia, ama o que ela representa e, acima de tudo, ama a pessoa que gostaria de ter sido com ela.  

Passam-se uns anos desde que Norma saiu da sua vida e vamos encontrar Marés desfigurado, a ganhar a vida a tocar acordeão na rua, como um mendigo. Toca em sítios onde sabe que vai poder ver Norma. Sabe que ela não o vai reconhecer, mudou tanto desde que ela o deixou...
No dia em que Norma o deixou, Marés perdeu qualquer coisa, perdeu-se a ele, perdeu a sua auto-estima, perdeu a vontade de ser ele. Sonha ser outro homem, um que vá de encontro ao gosto de Norma, um homem auto-confiante, vivido e irresistível. Nos seus sonhos começa a surgir uma personagem, a quem deu o nome de Faneca, o nome do seu amigo de infância. Companheiro de misérias e brincadeiras. Marés começa a pensar em Faneca como a sua oportunidade para reconquistar Norma. O Faneca de hoje não é senão o próprio Marés, uma personalidade alternativa que aos poucos vai tomando conta da vida de Marés. Aos poucos a personalidade de Faneca vai empurrando o inseguro Marés para longe. E à medida que Faneca se vai tornando mais dominante, parece que o pequeno mundo de Marés se vai tornando maior. Dá-se uma espécie de regresso às origens, ao sítio onde cresceram e começa a existir vida para além de Norma. A angústia e a confusão permanente de Marés, parece atenuar-se quando coloca a lente de contacto verde e veste o fato das riscas. A vida parece mais fácil quando Marés se esquece dele próprio.

O Amante Bilingue é mais do que a luta de Marés, entre o que se é e o que se gostaria de ser. Esta luta representa a dualidade que se vive em Barcelona. Dualidade linguística, numa cidade dividida entre o catalão e o castelhano. Uma cidade dividida entre duas nacionalidades e duas identidades muito distintas. Onde "something in between" não é aceite, ou és catalão ou és espanhol. E se sentes que não pertences de forma inequívoca a um dos lados corres o risco de enlouquecer ao viveres numa luta constante contigo mesmo, até à exaustão.

Gostei muito da escrita de Juan Marsé e da forma como nos vai contando a história de Marés. Gostei muito das personagens e da envolvência que consegue criar. Este vai ser um escritor a repetir, definitivamente.

Recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excerto (pág. 146):
"Ao atravessar o portão do gradeamento, Marés enfrentou o ruidoso trânsito da avenida e sentiu uma ameaça de vertigem. Durante brevíssimos instantes sofreu a sensação de não ser ninguém e de se encontrar em terra de ninguém. Olhou para trás para ver o parque anoitecido, amodorrado sob uma ténue neblina. As luzes da casa brilhavam serenas e remotas entre as árvores, como na outra margem da vida. Apoiou a mão no dragão alado da grade de ferro e deixou escapar um profundo suspiro. A sua atuação perante Norma não o tinha divertido nada e interrogava-se sobre a razão. Não por ela não ter olhado com bons olhos: a ardente sociolinguista cairia nos braços experientes do murciano, maldita seja, era apenas uma questão de tempo. Mas o que ele se propunha não seria, no fundo, pôr os cornos a si mesmo? A ideia fê-lo extraviar-se um pouco mais naquela terra de ninguém e depois sorriu. E porque não?, disse a si próprio: se outros mos puseram durante anos, eu também o posso fazer, isto é, esse grande fantasma chamado Faneca.
Com a mão procurou atrás de si a língua retorcida na boca do dragão e apoiou-se nela; então, voltou a sentir a cabeça embotada e a alma amarga como se sofresse a ressaca de um sonho mau. De repente recordou a tangerina podre que num dia distante ali esteve enfiada, na língua do dragão, e voltou-lhe à boca o sabor azedo. No entanto, apesar da fome que em criança tinha passado, não se lembrava de ter comido aquela tangerina. Comeu-a Faneca, que ainda tinha mais fome do que eu, disse a si mesmo. Uma borboleta nocturna de asas brancas revoou em torno dele e chocou várias vezes na cabeça do dragão apertada contra o gradeamento de ferro."

janeiro 17, 2018

[Kindle] The Girl on the Train - Paula Hawkins

Título original: The Girl on The Train
Ano da edição original: 2015
Autor: Paula Hawkins
Editora: Riverhead Books

"Rachel catches the same commuter train every morning. She knows it will wait at the same signal each time, overlooking a row of back gardens. She's even started to feel like she knows the people who live in one of the houses. 'Jess and Jason', she calls them. Their life - as she sees it - is perfect. And then she sees something shocking..."

Depois de ter passado a febre que rondava A Rapariga no Comboio, achei que já tinha condições para o ler sem ser influenciada por tudo que se dizia sobre o livro. 

A Rapariga no Comboio é uma espécie de thriller psicológico bastante bem conseguido. 
Rachel é uma jovem mulher que nos é apresentada por todos à sua volta como alcoólica, emocionalmente desequilibrada, obcecada pelo ex-marido, mentirosa e violenta. No entanto, à medida que vamos conhecendo a história que a própria Rachel nos vai contando algo parece  não bater certo.
Rachel tem um problema com a bebida, não há dúvidas quanto à isso. Bebe até perder os sentidos e, quando recupera a consciência, pura e simplesmente não se lembra de nada do que aconteceu. Onde esteve, com quem e o que fez. Horas e horas da sua vida completamente apagadas da sua memória. O pior é que, nessas alturas o mais provável é que tenha regressado à sua antiga casa, onde agora o ex-marido vive com a atual família, a mulher e a filha. A atual mulher de Tom não a suporta e já fez queixa à policia. Tom parece tentar desculpar o comportamento de Rachel, tenta afastá-la mas ao mesmo tempo  parece continuar a preocupar-se com ela. 

Rachel está desempregada mas apanha apanha o comboio, todos os dias, como se fosse trabalhar. Todos os dias o comboio pára durante alguns segundos, às vezes minutos, num sinal, o que lhe permite observar as casas da rua onde morava. Há uma casa em particular que lhe desperta a atenção. Nela, todos os dia, ela observa um jovem casal, cuja vida ela de certa forma inveja. São jovens, bonitos e parecem apaixonados. A vida que ela consegue vislumbrar do seu lugar à janela do comboio parece-lhe perfeita. Não os conhece e por isso baptizou-os. Para ela são a Jess e o Jason e são tudo aquilo que desejou para ela e para Tom e que Anna conseguiu roubar. 
Rachel é uma mulher profundamente triste, sozinha e confusa. Vive entre a vontade de prosseguir com a sua vida e o desejo doentio de se manter perto de Tom.
Um dia, depois de mais uma noite complicada, ouve nas notícias que Jess está desaparecida. Rachel não faz ideia do que aconteceu, mas na noite anterior, a última lembrança que tem é de ter saído na estação de Witney, a estação que a leva à rua da qual parece não conseguir afastar-se. Ela não se lembra de nada, mas tem um mau pressentimento sobre aquele fim de tarde. Acha que não está a conseguir lembrar-se de algo muito importante. 
O que será que incomoda tanto Rachel? Porque é que tudo o que lhe dizem que ela faz quando está alcoolizada lhe parece tão desfasado do que ela sente? Rachel tem dificuldade em reconhecer-se naquela pessoa. A confusão é tanta, as perdas de memória de tal maneira graves que já nem Rachel sabe quem é.

Paula Hawkins conta-nos uma história onde nem tudo o que parece é. Gostei da escrita dela e da forma como nos vai envolvendo na história de Rachel. A confusão e a tristeza desta mulher são quase palpáveis. Mesmo com tudo o que se dizia dela, não deixamos de criar empatia com ela e queria muito que tudo lhe corresse bem.

Gostei bastante. Acho que Paula Hawkins é bem capaz de entrar para a minha lista de escritores a seguir. :) 

Recomendo sem qualquer hesitação e sem qualquer restrição. 

Boas leituras! 

Excerto:
"Something happened, I know it did. I can't picture it, but I can feel it. The inside of my mouth hurts, as though I've bitten my cheek, there's a metallic tang of blood on my tongue. I feel nauseated, dizzy. I run my hands through my hair, over my scalp. I flinch. There's a lump, painful and tender, on the right side of my head. My hair is matted with blood."

janeiro 03, 2018

O Luto de Elias Gro - João Tordo

Título original: O Luto de Elias Gro
Ano da edição original: 2015
Autor: João Tordo
Editora: Companhia das Letras

"Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbért, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios na local que escolheu para se isolar: um farol abandonado; à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passa a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.
O Luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso."

O Luto de Elias Gro é o primeiro livro da "trilogia dos lugares sem nome". O primeiro lugar sem nome é uma pequena ilha no meio do Atlântico onde todos os seus habitantes são de certa forma peculiares. Alguns nasceram na ilha e nela viveram toda a sua vida, outros foram lá parar depois de algum acontecimento trágico nas suas vidas e por lá ficaram, lá viveram e morreram.

O narrador, personagem sem nome, desta história é um dos que foi para a ilha à procura do natural isolamento que um farol desactivado lhe poderia trazer. Procurava um sítio onde não tivesse de falar com outras pessoas, onde ninguém o conhecesse e onde ninguém estivesse interessado em conhecê-lo. Queria liberdade para poder afogar todas as suas mágoas e enfrentar todos os seus demónios sem ser julgado.
No entanto, nem todos os habitantes da ilha estão interessados em respeitar a vontade do novo inquilino do farol. O padre, que não é padre, Elias Gro, faz os possíveis para que ele se sinta acolhido, obrigando-o a participar na vida da pequena comunidade.
É desta forma que conhece Cecília, a filha de Elias Gro. Cecília é uma menina de onze anos, muito perspicaz e inteligente, que cresceu muito sozinha na ilha, sem mais crianças para brincar, embora frequente a escola no continente. É uma miúda sedenta de atenção e parece encarar o mau humor do nosso narrador, que chega a ser ofensivo e violento com a pequena Cecília, como um desafio. Percebemos logo que ele gosta muito da miúda, que a acha peculiar no bom sentido e divertida. A presença de Cecília faz-lhe bem, mas também lhe traz lembranças do seu passado com as quais ainda não consegue lidar.
Ao longo do livro vamos acompanhando o processo de luto do narrador. Vamos conhecendo o que o levou a procurar isolar-se do mundo, num farol perdido numa ilha perdida no meio do Atlântico. Descobrimos um homem que perdeu tudo e que não sabe lidar com isso. Refugia-se na bebida e torna-se uma pessoa desprezível. Quer afastar de si toda e qualquer manifestação de bondade, não se sente merecedor da compaixão dos outros. Quanto mais os habitantes da ilha o tentam incluir,  mais ele os afasta. A única pessoa que parece conseguir, de alguma forma, criar brechas na barreira protectora que criou à sua volta, é Cecília.

Todos naquela ilha têm problemas, todos eles conhecem a perda e vivem com ela e, todos têm diferentes maneiras de fazer o luto. Todos eles encontraram formas de continuar a viver depois da morte. O nosso narrador também vai acabar por sair do buraco escuro e fundo para onde foi quando a vida lhe pregou uma partida. A viagem não será fácil e levará algum tempo até que ele consiga ver para além da sua própria dor.

Já há algum tempo que não lia João Tordo e confesso que me estava a fazer alguma falta. :)
O Luto de Elias Gro é de certa forma diferente do que tenho lido do João Tordo. Os anteriores estavam envoltos em mistério, em segredos por desvendar. Este é definitivamente mais introspectivo. Procura provocar em quem lê, alguma da dor, raiva, tristeza, angústia e impotência que o narrador sente nos diversos estágios do seu luto.
Embora pareça e, de certa forma, seja um livro pesado, está escrito com algum sentido de humor que aligeira um pouco a atmosfera mais negra da história.

Resumindo e baralhando, gostei da história e das personagens e gosto sobretudo da forma como João Tordo nos conta esta história.

Só posso recomendar!

Boas leituras! :)



Excerto (pág.168):
"Eu respirava com dificuldade, alguma coisa parecia ter-se alojado na minha traqueia. A memória das vozes ao telefone e da vigília afrontava-me; dentro de mim, um animal ferido raspava ferozmente o chão de gravilha com unhas retrácteis, e uivava, procurando sair da toca.
Tenho pena é das lesmas, disse Cecília. E das lagartas. Não têm como se proteger.
As lagartas fartam-se de ser lagartas e fazem uma casinha nojenta de baba, disse eu. E depois transformam-se em borboletas, e toda  a gente gosta de borboletas. Nunca vi ninguém fazer mal a uma borboleta. Quando muito, espalmam-nas no meio das páginas de um livro, para sempre. É uma vida bestial. Muito melhor do que a nossa.
As lagartas esvaziam o estômago e segregam uma enzima que forma uma crisálida, disse Cecília, em tom de correcção.
És muito esperta, ripostei. Aposto que te dizem isso na escola. Lembras-te dessas coisas todas, nada te escapa, pois não?
A diferença é que nós, ao contrário das lagartas, somos muito mais como os cães. Vida de cão, é assim que se diz. Sabes porquê? Porque a nós ninguém nos dá nomes em latim nem nos espalma entre as páginas de um livro, para que a nossa beleza fique preservada para sempre. Não existe filatelia humana.
Lepidopterologia.
O quê?
Filatelia é coleccionar selos. Lepidopterologia é como se chama à ciência dos insectos.
E que tal coleccionar borboletas? Serve-te? Ou precisas de saber dezenas de palavras impronunciáveis das quais te irás esquecer assim que começares a crescer?
Cecília desviou o olhar para a janela. Parecia magoada. Irado, eu escutava o meu próprio tom de voz, a roçar a violência, e percebi que estava fora de mim. Aquela versão chegara com a força e imprevisibilidade das tempestades: quanto mais olhava para a rapariga, mais desejava anulá-la. (...) Olhava para Cecília e via uma outra, que não era Cecília, alguém de que ainda não vos falei (porque não consigo, não sou capaz); alguém que não existe e, todavia, é a figura central destas páginas. O fantasma de Banquo sentado à mesa real."

novembro 23, 2017

[Kindle] Pássaros Feridos - Colleen McCullough

Título original: The Thorn Birds
Ano da edição original: 1977
Autor: Colleen McCullough
Tradução: Octávio Mendes Cajado
Editora: Bertrand Editora

"Um dos romances mais lidos e apreciados de todos os tempos, Pássaros Feridos é uma saga de sonhos, paixões negras e amores proibidos. Passada na Austrália, percorre três gerações de um indomável clã de rancheiros cujas vidas vão ganhando contornos numa terra dura mas de grande beleza ao mesmo tempo que vão lidando com a amargura, a fragilidade e os segredos da sua família. Uma apaixonante história de amor, um intenso épico de luta e sacrifício, uma celebração da individualidade e do espírito. É sobretudo a história de Meggie e do padre Ralph de Bricassart - e da intensa ligação de dois corações e duas almas ao longo de uma vida inteira, numa relação que ultrapassa perigosamente as fronteiras sagradas da ética e do dogma."

Pássaros Feridos é um daqueles livros seguem a história de uma família, os Cleary, quase desde o seu nascimento até à morte.
A história começa na Nova Zelândia, com os Cleary, uma família de tosquiadores de carneiros. Paddy e Fee são casados e têm 6 filhos. Meggie é a única menina na família Cleary. Era uma criança curiosa, inteligente e muito bonita, com a cabeça cheia de canudos dourados como o sol. 
Não se pense, no entanto que, por ser bonita e a única menina da família era tratada de maneira muito diferente. Era castigada como os irmãos, principalmente pela mãe, que a tratava de forma mais rude por ser uma menina. As duas tinham uma relação tensa e com muito poucas demonstrações de amor. O pai tinha-lhe um carinho especial e o irmão mais velho, Frank protegia-a, sempre que possível, de todos os contratempos.

Quando a irmã de Paddy, Mary Carson, milionária, viúva e doente, lhe pede que venha com a família viver para junto dela e ajudá-la a cuidar de Drogheda, a fazenda que promete, será deles quando morrer, os Cleary não têm como recusar e mudam-se de malas e bagagens para a Austrália. E aqui começa um novo capítulo na vida desta família.
Drogheda são quilómetros e quilómetros de terra onde Mary é dona de milhares e milhares de carneiros. A fazenda situa-se numa zona inóspita da Austrália, onde a natureza é inclemente, com períodos de seca extrema seguidos de verdadeiros dilúvios. A família, principalmente Meggie e a mãe, sentem alguma dificuldade em ambientar-se ao clima, à humidade, aos insectos e ao pó que parece não ter fim. Estranham o isolamento.
A única visita regular da casa grande é Ralph de Bricassart, o jovem, ambicioso e sedutor padre de Gillanbone, a cidade mais próxima de Drogheda.
Ralph de Bricassart é a primeira pessoa que os Cleary conhecem quando chegam. É ele que os vai receber à estação de comboio de Gillanbone e os leva até à fazenda de Mary Carson.
Dono de uma beleza e carisma irresistíveis, cativa todos com o seu à vontade e disponibilidade.
Simpatiza de imediato com todos os Cleary, mas desenvolve um carinho especial pela surpreendente Meggie, na altura com nove anos. Fascinado com ela desde a primeira vez que a viu, passa a ser o seu melhor, e único, amigo, e o seu mais fervoroso protector.

O tempo passa, a família cresce, uns nascem outros morrem, e a vida continua em Drogheda.
Meggie cresce e torna-se numa mulher encantadora, cobiçada pelos jovens das fazendas vizinhas. Meggie cresceu isolada, sem contacto com outras meninas da sua idade e a mãe não perdeu tempo a prepará-la para a vida adulta. E é por isso que, na cabeça dela, tudo é mais simples do que na vida real. Apaixonada pelo padre Ralph, sabendo-se correspondida, não percebe porque não podem ser felizes os dois. Ralph de Bricassart, vive atormentado, dividido entre a sua vocação e ambições pessoais e o que sente, de forma muito intensa pela sua doce Meggie.

A personagem da Meggie, as suas escolhas, os seus dramas e as suas alegrias, vão servir de motor para o desenvolver da história. Não sei se vale a pena entrar em mais pormenores sobre a vida dela e sobre o que o futuro lhe reservou.

Pássaros Feridos permite-nos conhecer um bocadinho da Austrália, um país imenso, dono de uma natureza dura e implacável, que tornou todos os seus habitantes pessoas mais ou menos rudes, com uma capacidade de resistir às adversidades acima da média. Uma terra bonita, que se entranha nos ossos de cada uma das personagens, que os prende e os define. Não querem, ou não conseguem, viver noutro lado.
Fala também de religião e do impacto que pode ter na vida das pessoas e do mundo. Uma religião feita por homens, que arrasta, por isso, todos os defeitos que nos são, de certa forma, inatos.
Fala de amor, de família, do papel da mulher na sociedade e da importância da educação.
Fala de muitas outras coisas, é um livro grande, havendo espaço para tudo.

Posto isto, não tenho a certeza de ter gostado muito deste livro ou da forma como é contada a história. Não consigo explicar, mas nota-se que é um livro de época, que aborda os temas de forma mais tradicional. Não sei se me fiz entender.
Gostei da história até Meggie se tornar uma jovem adulta, com 16, 17 anos. A seguir todo o livro me pareceu um romance de cordel, de amores proibidos. A história voltou a agarrar-me na fase adulta de Meggie, casada, mulheres independente e cheia de convicções. O interesse voltou a esmorecer na fase adulta dos filhos de Meggie, por ter voltado a sentir que a história era um pouco tonta... Talvez tenha tido alguma dificuldade em identificar-me com as personagens, não sei.

Resumindo e baralhando, não foi a minha leitura do ano, mas é um livro que tem muitas coisas boas que julgo, compensam as que, para mim, foram mais enfadonhas. Gostei especialmente dos cenários e de me permitir conhecer um bocadinho da Austrália.
Por isso, e embora não tenha ficado fã da escrita e não me tenha sentido suficientemente arrebatada para que Colleen McCullough entre para a minha lista de escritoras a descobrir, acho que posso recomendar a leitura de Pássaros Feridos. Não é tempo perdido.

Boas leituras! :)

Excerto
"As palavras foram ditas num tom mais objetivo do que consolador. Meggie fez que sim com a cabeça, sorrindo com insegurança; às vezes, sentia uma grande vontade de ouvir a mãe rir, mas ela nunca o fazia. Pressentia que ambas compartilhavam de algo especial, não comum ao pai nem aos rapazes, mas não não conseguia chegar além daquelas costas rígidas, daqueles pés que nunca paravam.
A mãe acabou por concordar com um gesto ausente de cabeça e, com sacudidelas bruscas e hábeis, volteou as saias volumosas entre o fogão e a mesa, sempre a trabalhar, trabalhar, trabalhar."

As Aventuras de Ngunga - Pepetela

Título original: As Aventuras de Ngunga
Ano da edição original: 1972
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"Escrito em 1972, numa época em que Angola vivia sob o jugo colonial, esta é a história de um jovem guerrilheiro do MPLA, de caráter determinado e reto, que se faz homem aprendendo a pensar pela própria cabeça. Uma história pungente é terna que não deixará nenhum leitor indiferente."


No dia em que Pepetela me desiludir vou ficar perdida.

Este é mais um pequeno grande livro de Pepetela que se lê num instante e nos enche o coração de angústias mas também de esperança no Homem e nas nossas capacidades.
Numa Angola em plena guerra com Portugal, Ngunga é um jovem guerrilheiro do MPLA. Ngunga é orfão,  como muitos naquela época. É querido por todos e é reconhecido pela rectidão, pela honestidade e pela boa-vontade. Não se limita a obedecer e questiona o que se passa à sua volta, sem ter medo da resposta.
As Aventuras de Ngunga é uma espécie de conto que se foca em temas como a importância da educação e da necessidade de todos questionarmos a verdade instituída. A importância do espírito crítico e de pensarmos pela nossa cabeça e não pela cabeça da pessoa com a patente mais elevada. Não devemos nunca perder a vontade de mudar o mundo, mesmo que seja apenas o mundo na nossa "aldeia".

Gostei muito como já seria de esperar e, naturalmente que recomendo.

Boas leituras!

Excerto:

(pág. 102)
"Oh, este Mundo está todo errado! Nunca se pode fazer o que se quer!
- Hei de lutar para acabar com a compra das mulheres - gritou Ngunga, raivoso. - Não são bois!
- Para isso precisas de estudar. Eu não sei sobre o alambamento. Se se faz, os meus avós ensinaram-me isso. Mas, se achas que está mal e que é preciso acabar com ele, então deves estudar. Como aceitarão o que dizes, se fores um ignorante como nós?"

(pág. 110)
"Talvez Ngunga tivesse um poder e esteja agora em todos nós, nós os que recusamos viver no arame farpado, nós os que recusamos o mundo dos patrões e dos criados, nós os que queremos o mel para todos.
Se Ngunga está em todos nós, que esperamos então para o fazer crescer?
Como as árvores, como o massango e o milho, ele crescerá dentro de nós se o regarmos. Não consigo água do rio, mas com ações. Não com água do rio, mas com a que Uassamba em sonhos oferecia a Ngunga: a ternura."

outubro 08, 2017

Os Livros Que Devoraram o Meu Pai - A Estranha e Mágica História de Vivaldo Bonfim - Afonso Cruz

Título original: Os Livros Que Devoraram o Meu Pai - A Estranha e Mágica História de Vivaldo Bonfim
Ano da edição original: 2010
Autor: Afonso Cruz
Editora: Editorial Caminho

"Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo. Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras."

Um livro pequeno mas cheio de grandeza. Um livro que parece ser para os mais pequenos mas que agarra os mais crescidos.

Os Livros que Devoraram o Meu Pai é um livro que se lê numa tarde, no meu caso, de praia. É um livro que me deixou de sorriso no rosto, talvez porque me lembra a infância de cabeça enfiada nos livros, muitas vezes sem me aperceber que estava escuro lá fora e que já mal conseguia vislumbrar as letras nas páginas.
Desenganem-se, no entanto, porque este não é um livro alegre, de todo. É um livro desconcertante mascarado de livro para pequenos leitores.

Fala da confusão que é a adolescência e a luta diária que é procurar o nosso lugar no mundo. Um sítio onde sejamos reconhecidos e amados pelo que somos e nada mais. 
É um livro sobre o passado e as memórias e sobre aprender a viver com os nossos erros e as nossas culpas. Ninguém é só bom e ninguém é só mau. Todos temos áreas cinzentas com as quais lutamos, ou não, todos os dias.

E é isto. É isto e mais uma coisas, o que já é muita coisa para um livro com tão poucas páginas!

Recomendo sem qualquer hesitação. Gostei da escrita do Afonso Cruz.

Boas leituras! :)

Excerto (pág. 125)

"Tenho 72 anos. Reli está história que escrevi já depois de fazer treze anos e que relata, com rigor, aquilo que se passou na minha juventude. Cometi muitos erros ao longo da vida, e agora resta-me, tal como Raskolnikov, rever o meu passado e tentar compreendê-lo como um cego a apalpar um elefante e, quem sabe, perdoar-me e aprender a viver com esse Mr. Hyde que aluga um apartamento na nossa cabeça. Quando penso no Bombo, choro. Mas na altura é difícil saber fazer as coisas certas."

O Pecado de Porto Negro - Norberto Morais

Título original: O Pecado de Porto Negro
Ano de edição: 2014
Autor: Norberto Morais
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Conhecida entre os marinheiros do mundo como a Cidade do Amor Vadio, Porto Negro é um lugar remoto, plantado no coração dos trópicos que durante o dia, dizem, cheira ao suor dos homens e, à noite, ao perfume das mulheres da vida. Em Porto Negro vive Santiago Cardamomo, um jovem estivador que divide o tempo entre os bares do porto e a cama das mulheres, e também Ducélia Trajero, a filha donzela do açougueiro da terra, em quem o pai deposita todas as esperanças mas que sonha com Santiago desde o primeiro dia em que o viu. Só que em Porto Negro vive ainda Rolindo Face, o mesquinho empregado do açougue que jurou a si mesmo que a filha do patrão haveria de ser sua.
Amor, ódio, ciúme e vingança misturam-se numa trama que atravessa mais de meio século e envolve personagens tão distintas quanto uma antiga escrava que aguarda num palacete em ruínas o regresso do seu amo, um foragido da justiça, ou um mulato adamado que nas desertas horas da madrugada se perde pelo porto à procura de afecto."

Não sabia o que esperar deste livro. Tinha lido uma boa crítica, já não sei onde, e o nome ficou na lista de livros a comprar. 
Norberto Morais traz-nos uma história surpreendente com personagens inesperadas e foi, por isso, uma boa surpresa e um autor a manter debaixo de olho. 

Numa cidade costeira de um país da América do Sul, pelo menos assim parece, o calor torna os homens atrevidos e as mulheres disinibidas. Santiago Cardamomo é o solteiro mais cobiçado de Porto Negro. Não por ser rico, mas por ser especialmente habilidoso com as mulheres e o mais bonito de toda a cidade e arredores. :)
É um D. Juan e nenhuma mulher, nova ou velha, lhe consegue dizer que não. 

Ducélia Trajero é a única filha do dono do açougue de Porto Negro. É a menina dos olhos do pai, que a protege de todos o olhares para afastar os menos bem intencionados. Não muito bonita nem muito feia, Ducélia não chama a atenção, paira por Porto Negro sem virar muitas cabeças. É uma miúda tímida, dedicada ao pai, sem nada que a destaque da multidão. 
Vive perto de Santiago, que nunca olhou para ela duas vezes. Ela, no entanto, vive apaixonada por ele, desde que o viu pela primeira vez. Sabe que não é correspondida, e na sua inocência acha que o seu sentimento lhe basta para ser feliz. 

Todos os dias ao fim do dia, quando os trabalhadores do Porto regressam a casa, Ducélia vai varrer para a frente do açougue, de onde consegue ver Santiago chegar todos os dias. Todos os dias Santiago chega e nunca repara nela, até que, um dia, olha e repara. Um dia Santiago repara em Ducélia. E ao reparar nela, não pode deixá-la escapar. Nesse primeiro olhar não existe amor por parte de Santiago. E quando Santiago consegue o que quer, não tem qualquer intenção de continuar a ver Ducélia. Nunca se apaixonou por ninguém e não tem qualquer desejo disso. Ducélia, desiludida, sem perceber o que se passou, não volta a sair para varrer a frente do açougue e não procura mais Santiago. O silêncio de Ducélia começa a perturbar Santiago e quando dá por ela é ele que a procura, é ele que vai atrás dela. E quando dá por ela, está completamente apaixonado por Ducélia, pela ternura, pela paciência, pela compreensão, pelo seu silêncio e pelo amor que ela lhe dedica. 

Um amor assim, improvável, mas sincero e eterno, nunca pode correr bem nos livros. Este não é excepção. Ninguém sabe dos dois, o pai de Ducélia não pode sequer sonhar com o que se passa, é certo que matará Santiago, ou mesmo os dois.
Tudo poderia correr bem, não fosse a existência do ciúme. Rolindo Face é o empregado do açougue e é, desde que se lembra apaixonado pela filha do patrão. Prepara-se para pedi-la em casamento quando se apercebe de que se passa alguma coisa com a doce Ducélia e decide segui-la. O que vê deixa-o completamente louco. E louco de ciúme, por despeito, decide vingar-se dos dois. E é por causa de Rolindo que uma bonita história de amor, se torna num banho de sangue e vingança. 

Gostei muito da escrita de Norberto Morais e da forma como nos vai contando a história. 
Só não me agradou a forma como refere alguma coisa sobre alguma personagem e diz que se houver oportunidade nos conta. É claro que acaba por não contar nada e às tantas torna-se irritante. Tirando a utilização exagerada desta espécie de "bengala", gostei muito da escrita e as personagens estão bem construídas. É fácil criarmos empatia com elas. Senti verdadeiro asco por Rolindo, nada do que foi contado sobre a vida miserável que levava me leva a sentir alguma pena dele, só mesmo asco. 

Norberto Morais é para repetir e recomendo sem qualquer hesitação. Leiam que vale bem a pena. 

Boas leituras! 


Excerto (pág. 179)
"Agora às voltas na enxerga, batia-lhe a raiva em ondas revoltas contra o penhasco do peito. Tinha vontade de espernear, de gritar, de berrar, de esguichar, de se rasgar e sair de dentro de si. Sufocava. A imagem daquele sonho, daquela tarde, corroíam-lhe as entranhas com a violência de um ácido. Odiava-os! Odiava-os tanto! Em especial a ela. Tão recatadinha, tão acanhada, tão púdica... Estava confirmada a saúde, o brilho, a concretude dos gestos. Odiava-a! Odiava-a, odiava-a, odiava-a... Vadia! Fingida! Puta! Mais puta que a puta mestra de um vespeiro de putas! Ah, maldito fosse pela eternidade o Criador das mulheres! Tinha dores, Rolindo Face. Tinha dores. Sofria como um cão desdentado sobre uma montanha de ossos. Queria morrer, queria matar, queria nunca ter nascido; ter-se fingido de morto no dia em que veio à luz e arrefecer, arrefecer até gelar por completo, e apodrecer, como agora, naquela febre húmida e regélida que o queimava e desfazia de tão pantanosa e tão fria. Estragara tudo. Burra! Burra, burra, burra, rangia os dentes Rolindo Face. Odiava-a tanto! Tanto, tanto, tanto... Odiava-a tanto!
E ali, no canto escuro da cozinha - único canto permitido do mundo -, ali, onde a coragem se agigantava agora, que debaixo da estopa qualquer rato pelado é um colosso destemido; ali, onde não haveria de pregar olho até o Sol nascer, jurou a si mesmo que os haveria de matar."

setembro 01, 2017

[Kindle] A Cidade do Medo (Não Matarás vol.I) - Pedro Garcia Rosado


Título original: A Cidade do Medo - Não Matarás vol.I
Ano da edição original: 2010
Autor: Pedro Garcia Rosado
Editora:Edições ASA

"Para a Polícia, a morte violenta de um sem-abrigo cuja identidade é quase impossível de determinar não é uma ocorrência a que se possa dedicar muito tempo. Mas a situação altera-se na manhã seguinte: aparecem mortos, da mesma maneira, mais dois sem-abrigo na Baixa de Lisboa. E, dois dias depois, são três os sem-abrigo atacados. O serial killer começa, porém, a deixar pistas - e estas apontam para um culto satânico, mas também para a maçonaria. Com o medo a instalar-se em Lisboa, onde o assassino vai multiplicando os seus actos de violência, e enquanto Joel Franco começa a descobrir as origens desta vaga de crimes, o presidente da Câmara de Lisboa e um seu discreto aliado na própria PJ percebem quem é o autor das mortes: o homem que quiseram transformar em bode expiatório quando começou a correr mal o comércio ilícito de terrenos na zona do projectado aeroporto da Ota. No qual pontificara o presidente da Câmara quando ainda era ministro do Ambiente… E em breve vão estar frente a frente dois homens que, à sua maneira, procuram justiça: o assassino propriamente dito e Joel Franco, que tenta vingar a morte de um amigo de infância em cada homicida que persegue. É bem provável que ambos desafiem a antiquíssima norma que regula a sociedade humana: «Não matarás.»

«Não Matarás» é uma série de thrillers ambientados em Portugal e com personagens portuguesas. O seu protagonista é Joel Franco, inspector na Secção de Homicídios da Polícia Judiciária que, em todos os crimes que resolve, sabe estar a vingar uma morte a que assistiu na infância."

Depois de muito resistir eis que um ereader me entra pela porta a dentro... :) A resistência tinha muito a ver com o preço dos aparelhos, o preço incompreensível dos ebooks e a pouca variedade de livros em português. Acabei sempre por ir adiando a compra.
O dia acabou por chegar e, para estrear o meu Kindle, um autor português de quem tenho lido boas críticas e que tinha esta série Não Matarás a preços convidativos.
Depois de ultrapassadas as exasperantes dificuldades em tornar o epub compatível com o Kindle, preparei-me para estranhar a leitura. E afinal, não estranhei... assim tanto. Não acho que seja para todo o tipo de livros, mas a verdade é que a leitura é muito cómoda, consegue-se ler em qualquer lado e o dispositivo é leve e de fácil utilização. Do que é que senti falta? Da parte mais emocional que associo ao acto de ler, do toque do papel, do cheiro dos livros e de fechar e ter uma capa pela qual podemos passar a mão. Essas pequenas grandes coisas que facilitam uma espécie de ligação emocional com o livro, com a história e com as personagens. No entanto, gostei da experiência e não estou desiludida com a aquisição. Acho que vou usá-lo muito, mesmo tendo em conta as limitações que ainda existem ao nível do mercado de livros eletrónicos.
Mas falemos do livro porque estamos no Quero um Livro e não no Comprei um Kindle. E agora?!. :)

Já não sei muito bem como é que os livros de Pedro Garcia Rosado entraram no meu radar, mas ainda bem que entraram.
A Cidade do Medo inicia a trilogia Não Matarás, que inclui ainda Vermelho da Cor do Sangue e Triângulo.
A Cidade do Medo é um policial em português passado em Portugal e é bastante bom! E porque é que estou surpreendida? Bem de acordo com recente formação, todos nós somos enviesados e este era definitivamente um caso de enviesamento. Posso estar enganada, uma vez que o género não abunda nas minhas estantes, mas a verdade é que não abundam escritores portugueses de policiais. Não me recordo de alguma vez ter lido um livro do género de um escritor português.

Por se tratar de um policial, para os quais convém partir sem grande informação, tenho sempre algum receio de dizer demais e estragar as surpresas do livro, por isso não me vou alongar.  
A Cidade do Medo é uma história de corrupção, de alienamento social, de vingança e é, também um retrato interessante deste nosso país à beira mar plantado.
Não precisam de saber mais do que já é dito na sinopse e acho que basta dizer-vos que o livro está muito bem escrito, a história prende-nos, as personagens são interessantes e a leitura flui com muita naturalidade.

Recomendo sem quaisquer hesitações. E já tenho os outros dois livros que completam a trilogia na minha nova biblioteca digital. :)

Boas leituras!

Excerto:
"O colega mantém-se imóvel. Joel avança na sua direção. Vê-lhe os pés descalços, as calças do pijama de flanela, os braços estendidos e as mãos de dedos flectidos. E, depois, o rosto. Tem uma expressão de dor e os olhos estão abertos. Muito abertos. Cheira a urina. Da casa de banho ou do corpo de Augusto?
Joel sacode-o, mas o amigo não se mexe. Puxa-lhe por uma mão, mas ele não reage. E não respira. Joel empalidece. Até este momento foi poupado a um contacto directo com a morte. O pai morreu na guerra, mas o corpo ficou em África, desfeito. Augusto é o primeiro morto que vê. Joel aproxima-se mais, vence o medo e a repugnância e fixa o olhar nos olhos baços do amigo.
Todos os dias lhe dizem que a morte é uma passagem para um mundo melhor. Mas o rosto de Augusto não tem a expressão dos crentes."

julho 31, 2017

Serpentina - Mário Zambujal

Título original: Serpentina
Ano de edição: 2014
Autor: Mário Zambujal
Editora: Clube do Autor

"Ingénuo e atrevido, sonhador e realista, pontual e transgressões, o mundo de Bruno D. L. Bracelim leva-nos a situações armadilhadas e a um mundo feminino que mostra o perigo encantador de supostos rostos perfeitos. 
A poucos dias de soprar as sete velas, o seu destino sofreu uma entorse. A família partiu para o Canadá e ele, criança enfermiça, ficou a cargo dos desvelos da madrinha Henriqueta. Chegado à idade adulta, solteiro e bom rapaz, passa as noites no terraço de sua casa, saudando a lua e adivinhando ao longe, noutro terraço, os contornos de uma esguia figura de mulher, enquanto persegue uma obsessão: a demanda do rosto feminino insuperável. 
Mas não há bela sem senão. E o destino prega-lhe outra partida. O que lhe parecia ser um mero encontro profissional acaba por se transformar num estranho caso. Uma avaria no seu mini e uma pancada de um jipe conduzido por uma mulher enigmática é o princípio de uma trama que o levará a situações nunca imaginadas. 
E tudo o que parecia previsível, exacto, perfeito, como um relógio suíço, acaba por se transformar num enredo de acasos em que a realidade ultrapassa a ficção a provar que nada é mais imprevisível do que o passado. 
Com o seu estilo inconfundível, Mário Zambujal oferece-nos páginas de supremo divertimento em que a imaginação e o humor se entrelaçam com a reflexão e a emoção. "

Mário Zambujal é uma estreia na minha estante e, uma agradável surpresa. O livro é ideal para um dia de chuva ou um daqueles dias em que queremos ler mas nada de muito denso. 
Serpentina narra a história de Bruno Bracelim, um argumentista, que tenta sobreviver entre trabalhos. 
Bruno valoriza muito a ordem e a previsibilidade na sua vida. Pessoas que se atrasam tiram-no do sério e procura, desde que se lembra, a mulher com o rosto perfeito e que será a mulher da sua vida. Como é natural nem tudo é previsível e a perfeição é um conceito muito subjectivo e, por isso Bruno acaba por se ver envolvido numa série de acontecimentos estranhos e sobre os quais não tem qualquer tipo de controlo. 

Com muito humor à mistura, Serpentina é um livro que se lê num ápice, bem escrito e com aquele gostinho português que só os nossos autores nos conseguem dar. 
Serpentina tem ainda a particularidade de estar livre de todos os estrangeirismos de que se possam lembrar... Mesmo todos. :) Todas as palavras com origem anglo-saxónica são aportuguesadas e, embora seja estranho e não tenha percebido bem o porquê, acaba por ser divertido. 

Mário Zambujal é para manter na minha lista de autores que quero continuar a explorar. 

Gostei e recomendo! 

Boas leituras! 

Excerto (pág. 130):
"Escanhoo-me com lâmina em estreia, massajo a cara com afetercheive, o tronco, os braços, e as pernas não ficam sem bodimilque. Quanto ao vestir, hesito entre jines e chortes a condizer com a tichârte, mas concluo que indispensável é o blêiser e acompanhado por peças a que se dá os estranhos nomes de calças e camisa. "

julho 23, 2017

A Sentinela - Richar Zimler

Título original: The Night Watchman
Ano da edição original: 2014
Autor: Richard Zimler
Tradução: José Lima
Editora: Porto Editora

"Até que ponto um único assassinato pode iluminar a crise moral em que se encontra o país?
6 de Julho de 2012. Henrique Monroe, inspector-chefe da Polícia Judiciária, é chamado a um luxuoso palacete de Lisboa para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um abastado construtor civil. Depois de interrogar a filha da vítima, Monroe começa a acreditar que Coutinho foi assassinado ao tentar defender a perturbada adolescente do violento assédio sexual de algum amigo da família. Ao mesmo tempo, uma pen que o inspector descobre escondida na biblioteca da casa contém alguns ficheiros com indícios de que a vítima poderá também ter sido silenciada por um dos políticos implicados na rede de corrupção que o industrial montara para conseguir os seus contratos.
Tendo como pano de fundo o Portugal contemporâneo, um país traído por uma elite política corrupta, que sofre sob o peso dos seus próprios erros históricos, Richard Zimler criou um intrigante policial psicológico, com uma figura central que se debate com os seus demónios pessoais ao mesmo tempo que tenta deslindar um caso que irá abalar para sempre os muros da sua própria identidade."

A escrita de Richard Zimler é muito despretensiosa, como se estivesse a escrever para ele próprio e, nos livros que já li dele, sente-se que existe uma necessidade em contar histórias com significado, que acrescentem, que façam pensar, que chamem a atenção para algo.

A Sentinela é um policial que não se limita à investigação de um crime. É, também a história de Henrique Monroe, um inspector-chefe da PJ que vê alguns dos fantasmas do passado regressarem quando é chamado para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um influente construtor civil, com boas relações nas altas esferas da política. Um crime que aparentemente estaria relacionado com negócios menos claros começa aos poucos a revelar algo bem mais perturbador.
Henrique é uma pessoa especial, a todos os níveis. Veio viver para Portugal, com o irmão mais novo, depois do pai de ambos ter morrido? desaparecido? Nunca nos é dito, ao certo, o que se passou com o pai.
Divide a mente e o corpo, com Gabriel, um homem?, uma entidade? que parece saber tudo, e que de vez em quando toma posse do corpo de Henrique e ajuda-o em fases críticas da sua vida e nas investigações. Gabriel surgiu-lhe, pela primeira vez, quando Henrique era ainda uma criança e nesse dia Henrique acredita que a vida do irmão mais novo foi salva.
Vítimas de violência psicológica e física, os dois irmãos só se tinham um ao outro e a relação que têm um com o outro é muito bonita, à falta de melhor expressão. No decorrer desta investigação Henrique vai ser forçado a enfrentar alguns dos seus demónios pessoais, vai ser forçado a tomar decisões sobre a sua vida e sobre aqueles que mais ama.

E é, mais ou menos sobre isto. Não vou estar aqui a esmiuçar muito a história, porque tratando-se de um policial, qualquer coisa que se diga pode já ser demais.

Gostei da história e da forma como nos vai sendo contada. Gostei das personagens, principalmente de Henrique que me pareceu muito bem pensado e realista, mesmo com todas as particularidades, nunca o achei exagerado e pouco credível. Senti, por parte do autor, uma grande sensibilidade e muito cuidado em torná-lo uma personagem forte e credível, o que foi largamente conseguido e foi essencial para que a história se tornasse cativante e ficasse comigo para além do último ponto final e do fechar do livro.

Embora, em termos de história e de importância histórica, A Sentinela não seja um livro tão grande como Os Anagramas de Varsóvia (opinião aqui), não deixa de ser um livro menos bem escrito por isso. É um livro bem escrito, coeso, envolvente e que toca em temas muito importantes e transversais à sociedade.

Gostei bastante e recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras!

Excerto (pág. 69):
"Em miúdo imaginava que o Espetro não tinha as emoções das pessoas vivas. E que era por isso que conseguia concentrar-se na busca de Ernie excluindo tudo o resto. Mas hoje sei que ele entra em pânico. Na verdade, acho que conhece melhor o medo do que qualquer pessoa que eu alguma tenha conhecido, incluindo o meu irmão.
Os miúdos não têm experiência suficiente que lhes permita reconhecer o que é excecional ou único, e eu partia do princípio de que todos eram iguais a mim e recebiam mensagens nas mãos ou noutra qualquer parte do corpo. Só quando falei nelas à minha mãe é que percebi que eu tinha mais sorte do que as outras pessoas. Ela disse-me que nunca recebera mensagens dessas e que não conhecia ninguém que as tivesse recebido. Disse-me para nunca falar nisso - especialmente ao meu pai - porque ninguém iria acreditar ou compreender. Seria o nosso segredo.
«O nosso segredo», disse ela em português, com a mão pousada na minha cabeça (...)"

julho 08, 2017

A Desumanização - valter hugo mãe

Título original: A Desumanização
Ano da edição original: 2013
Autor: valter hugo mãe
Editora:Porto Editora

"«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»
Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza."

valter hugo mãe é, parece-me, um daqueles escritores que, ou se ama ou se odeia. Eu comecei por amar, com a máquina de fazer espanhóis (comentário aqui). Neste momento estou longe, muito longe de odiar, mas também já não estou propriamente a amar. Os últimos livros que tenho lido dele têm sido, menos cativantes, não sinto a espontaneidade dos primeiros que li. E tendo a achar as histórias propositadamente chocantes. Não sei. Confesso que tenho ganho alguns anti-corpos ao valter hugo mãe. :/

A história de A Desumanização passa-se na Islândia, numa vila pequena e isolada. Dá ideia até de se passar num tempo diferente do nosso, talvez num tempo que nunca existiu.
É a história de duas irmãs, Halla e Sigridur, irmãs gémeas, inseparáveis, as melhores amigas uma da outra. Sigridur mais espontânea, mais extrovertida e criativa, Halla mais contida, menos participativa a viver mais na sombra da irmã. Um dia Sigridur morre. Num dia estava tudo bem, no outro começa a ficar doente e passado pouco tempo acaba por morrer. 
Halla vê-se sozinha pela primeira vez, sem conseguir libertar-se da presença da irmã, que imagina viva debaixo da terra onde foi enterrada. Sem a orientação da irmã e atormentada pela mãe que enlouqueceu um bocadinho com a morte da filha. A mãe culpa Halla por não ter morrido com a irmã. Que sentido faz, sendo gémeas, que uma tenha morrido e a outra tenha o descaramento de não morrer a seguir? Halla quase concorda com a mãe.

Para além das gémeas, dos pais destas, temos Einar, um homem com a mente de uma criança, num corpo de adulto. Vive com o pároco da vila e é obcecado pelas irmãs, diz que vai casar com elas. As miúdas não devem ter mais de 10 anos e Einar tem um atraso mental, embora tenha sido uma criança normal. Diz-me na vila que um trauma de infância o deixou assim. As duas sempre resistiram às investidas de Einar. Halla sozinha acaba por encontrar em Einar um bocadinho da irmã, alguém que a compreende e que demonstra uma sensibilidade e sensatez que a surpreendem.

Não vou avançar com mais pormenores da história porque acabaria por contá-la toda.

Acho que A Desumanização é sobre a desumanização de todos. A desumanização dos pais de Halla e Sigridur e a desumanização de toda uma comunidade. Existe, pelo contrário, uma espécie de humanização de Einar e da relação deste com Halla.O isolamento e a solidão que parecem esbater as fronteiras do que é certo ou errado. Crianças que não parecem crianças e que pensam e sentem como adultos. Adultos que se comportam com a imaturidade de uma criança, na forma de sentir e de agir.

É um livro triste, que não é fácil de ler. Não me consegui abstrair da pouca idade de Halla o que tornou algumas partes da história difíceis de ler e acabei por não perceber o propósito de alguns dos acontecimentos. Fiquei com a sensação de que se trata de uma espécie de fábula, no entanto não tive capacidade para me abstrair da realidade que saltava das páginas e isso acabou por tornar o livro, para mim, de certa forma penoso.

É certo que continuo a gostar muito da escrita de valter hugo mãe, continuo a achar impressionante o à vontade que demonstra com personagens femininas, de todas as idades. No entanto parece-me que as histórias deixaram de me impressionar. Não sei se deixaram de se credíveis, não sei se fui eu que deixei de me identificar, não sei. Só sei que não têm sido aquilo de que tanto gostei na máquina de fazer espanhóis.

Estou dividida. Não sei se recomendo ou não este livro. Acho que vale a pena ler valter hugo mãe, que não é um escritor para as massas e tem uma escrita e uma forma de contar histórias que pode ser muito envolvente e realista. A Desumanização não é um livro para todos e não é um livro que se possa recomendar sem reservas.
Reservas feitas, acho que o recomendo. Vai valer a pena, se não for pela história, é por se passar na Islândia. Morro de curiosidade de conhecer o país desde que li O Sino da Islândia de Halldór Laxness (meu comentário aqui).

Boas leituras!

Excerto (pág. 11):
"Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte. 
Ao deitar-me, naquela noite, lentamente senti o formigueiro da terra na pele e o molhado alagando tudo. Comecei a ouvir o ruído em surdina dos passos das ovelhas. Assim o expliquei, assustada. Disseram-me que talvez a criança morta tivesse prosseguido no meu corpo. Prosseguia viva por qualquer forma. E eu acreditei candidamente que, de verdade, a plantaram para que germinasse de novo. Podia ser que brotasse dali uma rara árvore para o nosso canto abandonado nos fiordes. Poderia ser que desse flor. Que desse fruto. A minha mãe, combalida e sempre enferma, tocou-me na mão e disse: tens duas almas para salvar ao céu. Assustei-me tanto que lhe tive ternura. A minha mãe não me perdoaria qualquer falha."

junho 26, 2017

Palácio da Lua - Paul Auster

Título original: Moon Palace
Ano da edição original: 1989
Autor: Paul Auster
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Edições ASA

"Foi no Verão em que o Homem caminhou pela primeira vez na Lua. Eu era muito jovem nessa altura, mas não acreditava que viesse a haver um futuro. Queria viver perigosamente, pegar em mim e levar-me tão longe quanto possível e, depois, quando lá chegasse, logo veria o que me aconteceria.
Assim começa a inesquecível narrativa de Marco Stanley Fogg - órfão e aventureiro por natureza. Palácio da Lua é a sua história - um romance que atravessa três gerações, desde o início do século XX à chegada à Lua, e serpenteia entre os desfiladeiros de betão de Manhattan e a beleza cruel do Oeste Americano.
Como Marco Polo rumo ao Extremo Oriente e Phileas Fogg nos seus 80 dias à descoberta do mundo, Marco enceta uma viagem de etapas essenciais marcada pela exultação e pela tragédia, por estranhas coincidências e maravilhosos rasgos de lirismo e erudição."

Estou com alguma dificuldade em dar a minha opinião sobre este livro de Paul Auster. Não tem a ver com o ter gostado ou não, porque gostei, tem mais a ver com a dificuldade em passar para aqui, aquilo que o livro é, sem deturpar e deixar aqui, uma imagem daquilo que o livro não é.

Marco Fogg é um jovem adulto que toda a vida viveu com a perda, o abandono do pai ou a inexistência de um pai, a morte prematura da mãe, a separação do tio, o homem que o acabou de criar quando a mãe morreu, e a recente morte do mesmo, sem qualquer aviso.
Marco Fogg parece sentir que não merece nada de bom, tem um instinto auto-destrutivo que não conseguimos perceber. Quando o tio morre, algo se quebra nele. Passa a vaguear pela vida, não a vive. Afasta todos, inclusive os poucos que lhe são próximos. Vive anestesiado e sem saber como fazer diferente. Deixa de comer, para poupar dinheiro, mas não lhe passa pela cabeça arranjar um trabalho que lhe permita pagar a renda, as contas e alimentar-se. Para sobreviver vai vendendo a única herança que o tio lhe deixou, os livros, centenas de livros.
Um dia bate no fundo do poço, sem casa, sem comer há dias, é salvo pelo único amigo, que o encontra meio morto em Central Park e o leva para casa.

Aos poucos Fogg recupera e começa a vislumbrar alguma esperança na sua vida. Apaixona-se e começa a trabalhar para o misterioso Effing. Effing é uma personagem estranha e misteriosa. É um senhor idoso e paraplégico, cego e com muito dinheiro, que contrata Fogg, quando o seu criado de muitos anos morre. Precisa de alguém que lhe faça companhia, que o leve a passear e lhe leia. Precisa também de alguém que lhe escreva a história que tem para contar, antes de morrer.

O livro acaba por estar dividido em duas partes, a vida de Fogg antes de Effing entrar na sua vida e a vida de Effing antes de se tornar a pessoa misteriosa que Fogg conhece. E que história de vida Effing tem para contar e que pequeno é o mundo, uma autêntica ervilha. E mais não digo.

Gostei muito deste livro. Como é habitual em Auster, a escrita é natural, sem grandes floreados e subterfúgios. É também um livro que tem uma angústia crescente, em que temos dificuldade em compreender Fogg e a sua forma de pensar. Tememos por ele, por sentirmos que está doente, ao mesmo tempo que o queremos abanar para que desperte do sono pesado onde se encontra.
À medida que a história vai decorrendo, o ambiente pesado vai-se dissipando e, fazemos figas para que tenha um fim à Paul Auster, cheio de esperança de que dias melhores virão!

Recomendo!

Boas leituras! :)

Excerto (pág. 75):
"Com o passar do tempo, comecei a reparar que as coisas boas só me aconteciam quando eu deixava de as desejar. Se isso era verdade, então o inverso teria também de o ser: desejar demasiado determinada coisa impedi-la-ia de acontecer. Essa era a consequência lógica da minha teoria, pois se eu provava a mim mesmo que era capaz de atrair o mundo, então teria forçosamente de concluir que também poderia repeli-lo. Por outras palavras: uma pessoa só alcançava aquilo que desejava não o desejando. Não fazia sentido nenhum, mas o que me agradava nesta ideia era precisamente a sua total incompreensibilidade. Se as minhas necessidades só podiam ser satisfeitas se eu não pensasse nelas, então todos os pensamentos acerca da minha situação eram necessariamente contraproducentes."

maio 16, 2017

No Silêncio de Deus - Patrícia Reis

Título original: No Silêncio de Deus
Ano de edição: 2008
Autor: Patrícia Reis
Editora: Publicações Dom Quixote

"Um escritor descobre que está a morrer.
Uma jornalista tenta desvendá-lo.
Ambos procuram redenção.
Encenam uma fuga à realidade.
Três cidades: Lisboa, Jerusalém, Amesterdão.
E ainda uma prostituta, um barman, um médico homeopata.
A possibilidade da salvação e a procura da humanidade.
As falhas de cada um. O passado como identidade. Um fado.
Vários livros. Dor e consternação.
No fim, sem medo, uma ideia melhor."

Mais um livro de Patrícia Reis que se lê num ápice, na já habitual escrita leve e envolvente que tem caracterizado todos os livros que já li dela.
Mais uma vez uma história triste ou, pensando melhor, uma história que tem tudo para nos deixar tristes e, no entanto, não é essa a imagem que fica quando chegamos à última página e Manuel Guerra pede "Esqueçam-se de mim."
Manuel é um escritor de meia idade, muito respeitado, a quem é diagnosticado um cancro. Viúvo e solitário, afastado do único filho que teve com Ana Luísa, a mulher que tinha como certa, até ao dia em que morreu e se apercebeu do quanto gostava dela e do quanto iria sentir a sua falta. Um dia, numa das suas deambulações pelas ruas de Lisboa é atraído para uma agência de viagens. Entra e pede uma viagem para Amesterdão. Porquê Amesterdão? Porque sim, porque lhe soou bem. Parte, no dia seguinte, sem bilhete de regresso. Sozinho e sem avisar ninguém. Quem iria avisar? Apenas o seu editor parece preocupar-se com ele... mais ninguém dará pela sua falta.

Sara é uma jovem jornalista, filha de uma judia neurótica e cada vez mais embrenhada na loucura, e de um português ternurento que a faz rir. Sara mantém uma relação muito distante com a mãe e foi praticamente criada pelo pai, que viu, recentemente, definhar no IPO de Lisboa.

Sara e Manuel conhecem-se em Lisboa, antes de ele partir para Amesterdão, quando Sara lhe faz uma entrevista. Voltam a cruzar-se em Amesterdão quando Manuel já lá está há uns meses e Sara regressa de uma viagem a Israel onde foi à procura das suas raízes.

O livro é feito por estes dois, Sara e Manuel. Ela procura uma forma de viver sem angústias, menos sozinha e ele procura morrer em paz e sozinho, sem dramas. Ambos questionam e têm questionado, ao longo das suas vidas, o estrondoso silêncio de Deus nas suas vidas.

Gostei do livro. Normalmente tendo a gostar mais das personagens femininas, no entanto, neste gostei muito do Manuel e da forma como parece encarar a vida e a morte. Todas as partes que são narradas por ele transmitem uma certeza sobre o seu passado, presente e futuro. Como se a certeza da morte próxima lhe trouxesse uma nova clarividência e uma nova forma de encarar a vida.

Gostei e recomendo, porque a história é boa, a escrita melhor ainda e vale sempre a pena ler Patrícia Reis.

Boas leituras! 

Excerto (pág. 177):
"No carro, já com o motor a fazer barulho, fechei as portas num gesto de protecção que me pareceu feminino e senti as lágrimas a nascerem no estômago. Pena de mim, do mundo que terá de continua sem mim, da solidão de estar sozinho num carro que não me afaga. Na rádio Tony Bennett canta Put on a Happy Face e Deus tem um sentido de humor infame e deve ser esse lado misterioso e cruel que atrai multidões, não é? A certeza de que todas as dores do mundo nada serão comparadas com a ira de Deus. Ele será, sempre, maior e imprevisível. É reconfortante não ter essa crença, não ter essa bóia. Só sou eu e o meu cancro, a minha próstata que já não é do tamanho de uma avelã, em forma de bolo açucarado, americano. Também a próstata é uma invenção dos americanos. Patente registada a confirmar a solenidade da descoberta. (...) Se Ana Luísa fosse viva está coisa que existe em mim teria uma dimensão de morte em nada comparável com o resto, seja o resto o que for. Agora não faz diferença."

março 26, 2017

O Tempo Entre Costuras - María Dueñas

Título original: El Tiempo Entre Costuras
Ano da edição original: 2009
Autor: María Dueñas
Tradução: Carlos Romão
Editora: Porto Editora

"«O Tempo entre Costuras» é a história de Sira Quiroga, uma jovem modista empurrada pelo destino para um arriscado compromisso; sem aviso, os pespontos e alinhavos do seu ofício convertem-se na fachada para missões obscuras que a enleiam num mundo de glamour e paixões, riqueza e miséria mas também de vitórias e derrotas, de conspirações históricas e políticas, de espias.

Um romance de ritmo imparável, costurado de encontros e desencontros, que nos transporta, em descrições fiéis, pelos cenários de uma Madrid pró-Alemanha, dos enclaves de Tânger e Tetuán e de uma Lisboa cosmopolita repleta de oportunistas e refugiados sem rumo."

O Tempo Entre Costuras narra a história de uma costureira, Sira Quiroga, na Espanha de Franco, que acabou por se ver envolvida na luta contra Franco e Hitler.

Sira parte para Tânger, mesmo antes de rebentar a Guerra Civil Espanhola. Parte para viver um grande amor. Quando esse grande amor se transforma num pesadelo, Sira vê-se sozinha e sem dinheiro. Com a guerra em Espanha, não tem como voltar para junto da mãe e acaba por ficar retida em Tânger. Ferida e doente, Sira abandona Tânger e acaba por encontrar abrigo em Tetuán.
Pouco a pouco e com a ajuda de Candelaria, uma marroquina cujo principal meio de sobrevivência era o contrabando, Sira reergue-se das cinzas e começa a costurar para ganhar algum dinheiro. A costura era o que fazia antes de sair de Madrid. Aprendeu a manejar as agulhas e as linhas com a mãe e era algo a que não dava grande importância. Descobre em Tetuán que é muito boa no que faz e a sua arte é muito valorizada, mais ainda quando, está rodeada de mulheres, da alta sociedade europeia - espanholas, francesas e alemãs que também ficaram retidas em Marrocos por causa da guerra.
Sira começa a criar um nome na alta-costura e no seu atelier em Tetuán, conhece aquela que vai ser a maior responsável pela reviravolta na sua vida, Rosalinda Fox, uma inglesa extrovertida que mantém uma relação com Beigbeder, o alto-comissário de Espanha em Marrocos. É Rosalinda quem mais tarde, consegue tirar a mãe de Sira de Espanha e trazê-la para junto dela, em Tetuán. É também por intermédio de Rosalinda que Sira regressa a Madrid para montar um atelier onde se pretende se fazer muito mais do que vestidos de alta-costura. :)

O Tempo Entre Costuras é um romance histórico? Sim, também é um romance histórico. É um romance cor-de-rosa? Sim, também é um romance cor-de-rosa, mas de um rosa muito levezinho, não é nada lamechas e não é arrebatadoramente romântico. O que O Tempo Entre Costuras é, é um romance bem escrito e com personagens que cativam, bem desenvolvidas. É sobretudo, um romance que sabe conjugar bem a parte histórica com a parte ficcional, e que sabe criar muito bem a envolvência da época e dos diversos sítios por onde Sira passa.

Posto isto, é um livro que se lê bem e que nos mantém interessados no destino das personagens e que nos permite conhecer um pouco mais da história recente da Europa e do Mundo, no entanto, confesso que não fiquei muito impressionada com este livro. Acho que a parte da história que é passada em Marrocos poderia ter sido contada em menos tempo, uma vez que, é quando Sira regressa a Madrid que tudo acontece. O livro ganha outro ritmo e outro interesse e, tudo acaba por acontecer em 250 páginas, num livro que tem mais de 600.

É um livro que recomendo, sem grandes hesitações e sem grandes explicações. Não é de todo tempo perdido.

Boas leituras!

Excerto (pág. 138):
"Desatei a correr. Às cegas, furiosamente. Protegida pelo negrume da noite e arrastando o saco com as armas; surda, insensível, sem saber se me seguiam e sem querer interrogar-me sobre o que teria sido feito do homem de Larache em frente da espingarda do soldado. Perdi uma babucha e uma das últimas pistolas acabou por se desatar do meu corpo, mas não me detive por nenhumas das perdas. Limitei-me a continuar a corrida na escuridão, seguindo o traçado da linha, meio descalça, sem parar, sem pensar. Atravessei um campo plano, hortas, canaviais e pequenas plantações. Tropecei, levantei-me e continuei a correr sem um descanso, sem calcular a distância que as minhas passadas percorriam. Nem um ser vivo saiu ao meu encontro e nada se interpôs no ritmo desengonçado dos meus pés até que, entre as sombras, consegui divisar uma placa cheia de letras. Apeadeiro de Malalien, dizia. Seria aquele o meu destino."