março 05, 2019

Em Teu Ventre - José Luís Peixoto

Título original: Em Teu Ventre
Ano da edição original: 2015
Autor: José Luís Peixoto
Editora: Quetzal Editores

"A partir de um ponto de vista inteiramente novo, Em Teu Ventre retrata um dos episódios mais marcantes do sécula XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917.

Cruzando o rigor da sua dimensão histórica com a riqueza de uma galeria de personagens surpreendentes, este livro propõe uma reflexão acerca de Portugal, naquilo que tem de mais subtil e profundo.

Tanto na aparente simplicidade como no abismo dos seu mistério, a maternidade é também um dos temas marcantes de Em Teu Ventre.

O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e milagre, constrói aqui um mundo que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo."

Tinha alguma curiosidade para ler este livro do José Luís Peixoto, embora soubesse muito pouco sobre o que era, gostava do título e pronto. Por vezes é o que basta. Não fazia ideia que estava relacionado com as aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima. Confesso que quando li a sinopse, torci o nariz. Livros sobre temas religiosos... não estava para aí virada. Depois pensei, é José Luís Peixoto, de certeza que vai ser diferente. E não me enganei. :)

Tendo como ponto de partida a 1ª aparição de Nossa Senhora aos três primos, vamos conhecendo os portugueses do início do século XX. A forma como viviam, fora das grandes cidades, e o que pensavam, em que acreditavam.
É um livro surpreendente, na forma como retrata a família de Lúcia, a mais velha das crianças, e a reação da mãe à história das aparições. Não estava à espera que a resistência desta fosse tão grande, que tivesse tantas dúvidas sobre a veracidade do que as crianças relatavam. Um misto de não acreditar e ser ríspida com a filha enquanto, ao mesmo tempo a tentava proteger das consequências que um acontecimento como aquele iria trazer para a vida de todos. É talvez a personagem mais marcante e que mais me deixou com sentimentos ambíguos, não só pela forma como geriu a questão das aparições, como pela forma como José Luís Peixoto descreve o tratamento dado à órfã que vive com eles.

De forma inconsciente, todos esperamos que as mães nos livros sejam carinhosas, ternurentas e sábias. Perfeitas e sem falhas. É um desejo estranho tendo em conta que nenhum de nós conhece uma mãe assim, perfeita. A única perfeição que lhes conhecemos é a capacidade de amar e perdoar. E, na realidade é a única perfeição de que necessitamos. Em tudo o resto podem e devem ser humanas, o mais possível. :)
Talvez pelo título, Em Teu Ventre, estava à espera de um livro sobre a beleza da maternidade. Estava à espera de uma espécie de poema às mães. Não sei onde fui buscar esta ideia sobre o livro, se li alguma coisa sobre ele ou se foi apenas uma ideia pré-concebida na minha cabeça. De facto, acaba por ser um livro sobre a maternidade, mas num sentido menos poético e mais lato. Não é apenas um livro sobre a mãe de Lúcia, é também sobre a necessidade de termos alguém, superior que não compreendemos totalmente como existe, que olhe por nós, que nos ampare e que, de certa forma, nos perdoe. Será isto que procuramos na religião? Amparo, consolo e, acho eu, também desresponsabilização. A vida é difícil, e viver com a certeza de que não existe um propósito superior é mais difícil do que acreditar que existem forças superiores que nos guiam e nos protegem.

Em Teu Ventre é, à semelhança dos outros que já li de José Luís Peixoto, um livro muito bem escrito, com verdadeiros momentos de beleza literária, com personagens muito bem construídas e verdadeiras na forma como existem de facto.

Recomendo sem hesitações.

Boas leituras!

Excerto (pág. 121):
"(AQUI ESTOU. VISÍVEL OU INVISÍVEL, AQUI ESTOU. Com os erros que não te contei, com os defeitos que fui capaz de esconder, aqui estou. Antes este mistério do que essa ideia impossível que vês em mim. A perfeição que me impuseste desprezou as minhas necessidades. Roubaste-me a lascívia, o prazer, absolveste-me de todos os crimes, até daqueles que me orgulho de ter cometido. Queres que te agradeça por me privares de ser inteira? Não sou essa voz, distorção de dúvidas e de medos. Não sou esse silêncio, essa falta proporcional à distância que te separa de mim. Sim, peguei-te ao colo, consolei-te quando soluçavas, soube alimentar-te com o meu próprio corpo, mereço castigo por te ter conhecido frágil e por ter tomado conta de ti? Na minha vida, fiz muito mais do que isso. Não faltam lugares onde estive e não estiveste, não faltam idades que te excluem. Agora mesmo, continuo a existir quando não te lembras de mim e, até quando passo por ti na sala ou quando estou sentada ao teu lado, só eu sei aquilo em que penso. Visível ou invisível, sou um mistério que sempre te escapará de, no entanto, esta ironia: aqui, nestas páginas, só consigo ser aquela que fores capaz de escrever, que fores capaz de ver.)"

Antes de Ser Feliz - Patrícia Reis


Título original: Antes de Ser Feliz
Ano de edição: 2009 
Autor: Patrícia Reis
Editora: Publicações Dom Quixote

"O princípio possível começa na Figueira da Foz, uma cidade que é uma espécie de décor, guardiã de memórias de Verão e outras vivências. Um miúdo apaixona-se na idade em que os sentimentos são voláteis e sem importância. O objecto do seu amor é uma rapariga difícil, esquiva e perturbada. Há a morte da mãe dela, as tardes de praia no areal imenso, as idas a Buarcos, as festas do Casino. E ainda um pai tímido e um tio criativo atrelado a um cão chamado Tejo. O amor não se desfaz com o tempo. O miúdo chega a rapaz e depois faz-se homem. Parte para Lisboa mas regressa sempre, como uma fatalidade. Espera que ela, a mulher que o obriga a parar no tempo, volte também à cidade, tome conta da sua herança e lhe dê outra vida. Enquanto espera, acompanha o pai dela na doença, organiza papéis e pensamentos, vai a funerais, pendura um Canaletto precioso. Herda a casa que, em tempos, foi chão sagrado para ela; ela, que finge que não está."

Tenho sempre alguma dificuldade em escrever sobre os livros de Patrícia Reis. E não é por não gostar deles ou por não ter o que dizer sobre eles, é mesmo porque sinto, e sentir é se calhar a palavra certa, que os livros de Patrícia Reis são feitos de sentimentos, de impressões, de sensações, mais do que de histórias e personagens.
Acho que é isto que dificulta, para mim, a tradução para palavras das sensações que me provocam os livros dela. Provavelmente, também é por isso, que me limito ser leitora e deixo esta coisa da escrita a sério para quem sabe o que faz. E Patrícia Reis sabe, definitivamente o que faz. :) Pode deixar-me sem palavras, mas deixa-me cheia de "bons feelings", como a música da Sara Tavares, independentemente de ser um livro feliz ou não.

Antes de Ser Feliz é, para além de muitas outras coisas, um livro sobre o amor, a amizade, a paciência, a certeza de que, no fim, tudo terá valido a pena.
Não encontro em mim, mais nada para dizer sobre este livro, a não ser que vale a pena ler, tal como tudo o que me tem passado pelas mãos (as minhas opiniões aqui) da Patrícia Reis.

Boas leituras! :)

Excerto:

"Vim aqui para morrer. Cheguei hoje.
A Figueira da Foz surgiu-me sem rasto de fim de mar, abismo de antigos pescadores e outras almas de fortuna e fé. É um décor, tinhas dito a rir, um dia num pequeno restaurante, a depenicar peixinhos da horta, os dentes brancos numa aparição quase obscena. Pareceu-me, então. Nada do que aqui se passa é real. A terra que não existe. Os tempos dos espanhóis em férias, os que fugiam da guerra, as famílias importantes, os passeios a Tavarede e todas as outras. Nada disso existe realmente. Percorrer a marginal no deslumbramento marítimo até Buarcos. O que é que tudo isto interessa? E quando é que deixou de interessar? Saberás dizer com exactidão, por seres esse tipo de criatura, a pessoa das datas, aniversários, horas certas para tudo."

fevereiro 03, 2019

A Ridícula Ideia de não Voltar a Ver-te - Rosa Montero

Título original: La ridícula ideia de no volver a verte
Ano da edição original: 2013
Autor:Rosa Montero
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

"Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A rídicula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.
Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de a Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros."

À semelhança do único livro que li de Rosa Montero, já comentado aqui, fui atraída pelo título e pela capa. Este com a vantagem de já conhecer a escritora e ter vontade de voltar a ela.

A ridícula ideia de não voltar a ver-te não é um romance, é uma espécie de catárse, uma forma de fazer o luto, uma tentativa lembrar as coisas boas e que estas acabem, um dia, por se sobrepor à dor da perda.
Tendo como base o diário que Marie Curie escreveu após a morte do marido, Rosa Montero dá a conhecer uma mulher fascinante, inteligente, trabalhadora, cheia de contradições e estranhamente humana. Uma mulher que é muito mais do que uma breve referência na história das grandes descobertas científicas no século XIX / XX.
Marie Curie era retratada como, extremamente inteligente e competente. Era considerada uma mulher pouco feminina, de certa forma fria e de sorriso difícil. No diário que sente necessidade de escrever após a morte de Pierre, toda essa imagem acaba por ser desmontada, uma vez que nele, Marie põe a nu toda a sua fragilidade, os sentimentos profundos pelo marido e o desespero que sentiu quando ele morreu e a paixão pelo trabalho.
Descobrimos, também, uma mulher cheia de contradições, por um lado uma mulher que lutou desde cedo para fugir ao papel tradicional que a sociedade esperaria que assumisse mas que, ao mesmo tempo, deu sempre prioridade às ambições profissionais de Pierre em detrimento das suas e, não deixava de assumir, em casa todo o trabalho doméstico e a educação das filhas, sem que isso parecesse ser um problema para ela. Era uma mulher de paixões, apaixonada pelo seu trabalho e pelo marido, mas, curiosamente pouco maternal. As filhas pareciam ser, apenas, uma consequência do amor por Pierre.
Rosa Montero diz, no início, que A ridícula ideia de não voltar a ver-te não é um livro sobre a morte e, na realidade não é. Fala muito da morte e é, por vezes, um livro triste e doloroso, mas é, acima de tudo, um livro sobre a vida, sobre sonhar, sobre conquistas e uma homenagem àqueles que nos deixam para sempre e cujo vazio é impossível de preencher.

Gosto de Rosa Montero e gostei muito deste livro. É um livro que descreve de forma comovente e muito realista a dor que a morte de alguém que amamos provoca.
É também um retrato curioso de uma personagem importante na história da ciência mundial e que nos faz refletir, entre outras coisas, sobre o papel da mulher na sociedade, na investigação cientifica em particular.

Recomendo sem reservas.

Boas leituras!

Excerto:
(pág.19)
"A verdadeira dor é indizível. Se conseguirmos falar do que nos angustia estamos com sorte: significa que não é assim tão importante. Porque quando a dor cai sobre nós sem paliativos, a primeira coisa que nos arranca é a #Palavra. É provável que reconheças o que digo: talvez o tenhas sentido, porque o sofrimento (tal como a alegria) é algo comum em todas as vidas. Falo daquela dor que é tão grande que nem sequer parece que nos nasce de dentro, que é como se tivéssemos sido sepultados por uma avalancha. E assim ficamos, tão enterrados sob essas toneladas pedregosas de pena que nem conseguimos falar. Temos a certeza de que ninguém nos vai ouvir."
(...)
"Entro na sala. Dizem-me:«Morreu.» Acaso se pode compreender semelhante palavra? Pierre morreu, ele, que no entanto vira sair de manhã; a ele, que esperava apertar entre os meus braços nessa tarde, já só o voltarei a ver morto, e acabou-se, para sempre.

«Sempre», «nunca», palavras absolutas que não conseguimos compreender sendo, como somos, pequenas criaturas presas no nosso pequeno tempo. Nunca brincaste, na infância, a tentar imaginar a eternidade? O infinito abrindo-se à tua frente como uma fita azul enjoativa e interminável. É a primeira coisa que nos atinge num luto: a incapacidade de pensar nisso e de o admitir. A ideia simplesmente não nos cabe na cabeça. Mas como é possível que não esteja? Essa pessoa que ocupava tanto espaço no mundo, onde se meteu? O cérebro não consegue compreender que tenha desaparecido para sempre. E que diacho é sempre? É um conceito inumano. Isto é, está fora da nossa capacidade de entendimento. Mas como, «não verei mais»? Nem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã, nem dentro de um ano? É uma realidade inconcebível, que a mente rejeita: não o ver nunca mais é uma piada de mau gosto, uma ideia ridícula."

O Tímido e as Mulheres - Pepetela

Título original: O Tímido e as Mulheres
Ano da edição original: 2013
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"Estamos em Luanda nos dias de hoje.
Acompanhamos Heitor, um escritor em início de carreira, o tímido.
Ouvimos a voz quente de Marisa, responsável por um programa de rádio de grande audiência, que a todos encanta e seduz.
Conhecemos Lucrécio, seu marido, uma mente brilhante aprisionada numa cadeira de rodas.
É este o trio que une as diversas histórias e personagens deste romance. Além dele, encontramos ainda os amigos de Heitor, o Senhor do Dia 13 e os habitantes de um musseque na periferia de Luanda: a grande família de dona Luzilu e, em especial, a bela Orquídea, outra das poderosas mulheres que habitam este livro. Todos eles nos conduzem por uma cidade que fervilha e cresce a um ritmo alucinante, onde os homens se apaixonam, sonham e desesperam, procuram novos caminhos, novas formas de vida e novas soluções.

Com a sua habitual mestria, Pepetela volta a surpreender-nos com este romance, desenhando uma paisagem imparcial e objetiva da atual sociedade angolana, fruto de muitas mutações culturais e políticas derivadas da sua história recente."

O Tímido e as Mulheres leva-nos para uma Luanda atual, cheia de novidades, progresso, uma cidade em franco crescimento. À semelhança de outras cidades que passaram ou estão a passar por processos similares, Luanda cresce a duas velocidades. Existem pessoas que não têm condições para acompanhar todas as mudanças que surgem, umas por razões sócio-económicas outras por estarem presas a um tempo e formas de pensar que deixaram de ser compatíveis com o mundo atual.
Um mundo onde as mulheres trabalham e querem ser igualmente reconhecidas pelo trabalho que fazem, onde assumem o controlo das suas vidas, da sua sexualidade e dos seus corpos. Um mundo onde os homens têm de se adaptar a esta realidade e onde as mulheres tentam conciliar este novo mundo, cheio de oportunidades, com o papel tradicional que sempre lhes esteve atribuído. Embora não tenham de ser necessariamente incompatíveis, a verdade é que se toda a sociedade não estiver estruturada e orientada para a igualdade, continuará a existir uma pressão extra sobre as mulheres que castra o seu futuro, que as mantêm na linha da frente da pobreza, da baixa escolaridade e por isso mais frágeis e dependentes.

Luanda é uma cidade em transformação, onde todos os dias nasce mais um negócio, mais um prédio de escritórios ou de habitação. Está a crescer para a periferia, a alargar as suas fronteiras e a afastar cada vez mais todos os que, não tendo condições para viver na grande cidade, todos os dias têm de deixar as suas casas, apanhar os decrépitos candongueiros para poderem trabalhar e regressar ao fim do dia, nas mesmas condições. Luanda é uma cidade deslumbrada pelas aparências e refém da construção desenfreada, sem planeamento, sem outra estratégia que não seja a do dinheiro rápido, menosprezando as necessidades básicas de todos o que nela vivem ou trabalham.

Esta nova Luanda é-nos apresentada através de Heitor, um jovem escritor em início de carreira. Heitor é o tímido desta história. As mulheres são, Marisa uma mulher inteligente, estrela de um programa de rádio, dona de uma voz quente inconfundível, é extremamente sedutora e muito pouco acessível e Orquídea, uma jovem universitária, determinada, com sentido de humor e, mais uma vez, muito bonita.
É através desta espécie de triângulo amoroso que vamos conhecendo Luanda e as diferentes pessoas que a habitam, os seus medos, os seus sonhos, as suas lutas pessoais, as suas dúvidas e as suas ambições.

Pepetela é um dos meus escritores favoritos. Sei que, quando pego num livro dele a experiência vai ser boa. Às vezes é mesmo muito boa e acabo o livro com a sensação de que li algo que me mudou de alguma forma. Outros não têm esse efeito em mim, não deixando de ser livros que, para mim, são sempre bons! O Tímido e as Mulheres é um destes últimos casos, não me deixou arrebatada, mas é bom, como tudo o que li de Pepetela.

Recomendo, naturalmente.

Boas leituras!

Excerto (pág.213):
" - Pode haver alguma verdade na crítica que os estrangeiros fazem à nossa baixa produtividade, mais-velho. Está explicado, as sociedades camponesas têm outros rítimos de trabalho, embora não seja justo dizer que são imbumbáveis, como já ouvi. Fazem o que têm a fazer, só com o seu tempo definido pela natureza. E são sobretudo as mulheres quem mais trabalha.
Uma vénia em relação às donas, as quais sorriram. As três. Ganhou fôlego para continuar:
 - Os nossos trabalhadores abandonaram o campo há poucas gerações, a maior parte ainda cresceu nele. Também as relações sociais e familiares são vitais nessas sociedades precárias, sempre em risco. Daí a solidariedade forte, o parentesco fundamental, nunca se sabe quando vamos precisar do apoio da família ou do grupo social. Por isso ninguém pode faltar a um óbito de um conhecido para ir trabalhar, é contra as normas da convivência. A razão é portanto cultural. Mas pode ser modificada aos poucos. Se houver incentivos para que se mudem os costumes. Leva tempo. Com bons salários, boas oportunidades de promoção, os costumes começam a ser menos rígidos..."

dezembro 15, 2018

[Kindle] Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Título original: Fahrenheit 451
Ano da edição original: 1954
Autor: Ray Bradbury
Editora: Harper Voyager


"Ray Bradbury’s internationally acclaimed novel Fahrenheit 451 is a masterwork of twentieth-century literature set in a bleak, dystopian future.
Guy Montag is a fireman. In his world, where television rules and literature is on the brink of extinction, firemen start fires rather than put them out. His job is to destroy the most illegal of commodities, the printed book, along with the houses in which they are hidden.
Montag never questions the destruction and ruin his actions produce, returning each day to his bland life and wife, Mildred, who spends all day with her television “family.” But then he meets an eccentric young neighbor, Clarisse, who introduces him to a past where people didn’t live in fear and to a present where one sees the world through the ideas in books instead of the mindless chatter of television.
When Mildred attempts suicide and Clarisse suddenly disappears, Montag begins to question everything he has ever known. He starts hiding books in his home, and when his pilfering is discovered, the fireman has to run for his life."

Este livro surgiu no meu horizonte quando li o livro de Afonso Cruz, Os Livros que Devoraram o Meu Pai (a minha opinião aqui). Fiquei curiosa com a ideia de uma sociedade onde os livros fossem proibidos. Quais os motivos de uma proibição dessas? E porquê todos os livros e não apenas aqueles que poderiam ser de alguma forma polémicos?

Num futuro não muito distante, vivemos numa sociedade onde a felicidade é uma espécie de obrigação. Tudo aquilo que pode, de certa forma, criar desconforto, discórdia ou ansiedade é simplesmente eliminado, proibido. Não existem motivos para não se ser feliz e se não te sentes como é suposto sentires, feliz e realizado, como é que lidas com isso? Como é que resolves algo que, para todos à tua volta, é uma impossibilidade, algo que simplesmente não entendem?
É uma sociedade onde todos os motivos que nos criam desconforto ou ansiedade foram eliminados, onde se pretende que todos sejamos iguais, nem melhores nem piores, simplesmente iguais. Criaturas com as mesmas necessidades, os mesmo gostos, com os mesmos comportamentos. Pessoas que não pensem, que não questionem, que não ambicionem algo diferente e apenas estejam focadas em divertirem-se. 
Numa sociedade assim, os livros são, naturalmente objectos perigosos. A sua existência pode potenciar a imaginação, permitir o acesso fácil ao conhecimento, são uma janela para o passado e uma ponte para o futuro. E é por isso que os livros nesta realidade distópica são proibidos.
Todos os livros que ainda existem são queimados e as pessoas que os escondem são presas, desaparecem e nunca mais são vistas.
Nesta realidade, cabe aos bombeiros, após denúncias, ir a casa das pessoas  e queimar todos os livros que encontrarem.
Guy Montag é um deles e desempenha a função sem questionar se a mesma é justa ou não. Não deixa, no entanto, de se sentir intrigado pelas razões que levam todas estas pessoas a arriscarem o conforto e a vida por causa dos livros. O que é que os livros têm de tão poderoso que faz com que tantas pessoas arrisquem tudo por eles?

Um dia, no regresso de mais um dia de trabalho, Montag conhece Clarisse, uma jovem rapariga que é diferente de todas as pessoas que conhece. É uma miúda sonhadora que, embora muito nova, parece de outro tempo e que lhe fala de como as coisas eram no passado. As conversas com Clarisse começam a despertar em Montag ideias e sentimentos que o levam a questionar tudo e todos à sua volta e levam-no a fazer o que, até então era impensável, esconder alguns dos livros que, supostamente deveria queimar, em sua casa. 

Não quero esmiuçar mais a história para não deixar aqui spoilers desnecessários, mas Montag acaba a lutar pela vida e por um par de livros de forma violenta e aparatosa. 
No fim, fica a esperança de que o mundo volte a ser um espaço de partilha de histórias, onde as pessoas possam ser livres de pensarem e fazerem o que quiserem e, onde possam sentir-se felizes, sem ser por decreto, e tristes quando isso fizer sentido. Um mundo onde não exista medo de sermos quem somos, diferentes, "normais", excêntricos, ambiciosos, resignados, simpáticos ou bestas. :) Existe espaço para todos e todos devem ser respeitados da mesma forma.

Gostei bastante do livro, pela história e pelo tema, mas também pela forma como é contada.

Recomendo sem qualquer reservas. Fiquei curiosa para ler outros livros de Ray Bradbury.

Boas leituras!


Excerto:
"We must all be alike. Not everyone born free and equal,as the Constitution says, but everyone made equal. Each man the image of every other; then all are happy, for there are no mountains to make them cower, to judge themselves against. So! A book is a loaded gun in the house next door. Burn it. Take the shot from the weapon. Breach man's mind. Who knows who might be the target of the well-read man? Me? I won't stomach them for a minute."

"Coloured people don't like Little Black Sambo. Burn it. White people don't feel good about Uncle Tom's Cabin. Burn it. Someone's written a book on tobacco ande cancer of the lungs? The cigarette people are weeping? Burn the book. Serenity, Montag. Peace, Montag. Take your fight outside. Better yet, into the incinerator. Funerals are unhappy and pagan? Eliminate them, too. Five minutes after a person is dead he's on the way to the Big Flue, the Incinerators serviced by helicopters all over the country. Ten minutes later after death a man's a speck of black dust. Let's not quibble over individuals with memoriams, Forget them. Burn them all, burn everything. Fire is bright and fire is clean,"

"Peace, Montag. Give the people contests they win by remembering the words to more popular songs or the names of state capitals or how much corn Iowa grew last year. Cram them full of non-combustible data, chock them so damned full of "facts" they feel stuffed, but absolutely "brilliant" with information. Then they'll feel they're thinking, they'll get a sense of motion without moving."

Entretanto saiu, este ano, um filme - Fahrenheit 451 - baseado neste livro: 

novembro 17, 2018

[Kindle] Vermelho da Cor do Sangue (Não Matarás vol. II) - Pedro Garcia Rosado

Título original: Vermelho da Cor do Sangue - Não Matarás vol.II
Ano da edição original: 2010
Autor: Pedro Garcia Rosado
Editora:Edições ASA

"Quando um mercenário ucraniano conhecido por Gengis Khan assalta a casa do banqueiro Ramiro de Sá, além de um segurança morto e das jóias roubadas, deixa atrás de si um problema inesperado: do cofre do banqueiro foi também levado o passaporte de Valentim Zadenko, um emissário do partido comunista da União Soviética que entrou em Lisboa no dia 24 de Novembro de 1975 e aí desapareceu misteriosamente. Enquanto o inspector Joel Franco, da Polícia Judiciária, investiga o homicídio do vigilante, o passaporte torna-se uma relíquia que muitos querem deitar a mão: não só o próprio Ramiro de Sá, mas também o chefe da máfia russa, um inspector do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, um veterano do PCUS que foi camarada de Zadenko e ainda Svetlana, a filha do operacional desaparecido, que vem para Lisboa à sua procura, alertada por um angolano que estudou em Moscovo e participou no assalto. Na busca do documento, todos os caminhos acabarão, mais tarde ou mais cedo, por ir dar a Ulianov, um ex-KGB especialmente treinado que em Portugal se tornou dirigente de um grupo criminoso. Joel terá de contar com a sua ajuda para desenterrar uma conspiração criminosa que nasceu no PREC e envolveu militares revolucionários, banqueiros, assassinos … e várias garrafas de Barca Velha.
«Não Matarás» é uma série de thrillers ambientados em Portugal e com personagens portuguesas. O seu protagonista é Joel Franco, inspector na Secção de Homicídios da Polícia Judiciária que, em todos os crimes que resolve, sabe estar a vingar uma morte a que assistiu na infância."

Neste segundo volume de Não Matarás, o agente Joel Franco vê-se envolvido num caso com raízes nos tempos tumultuosos do pós 25 de Abril, com as várias facções políticas a extremarem posições. De um lado os simpatizantes (por vezes mais do que simpatizantes) do regime deposto e do outro os grupos de esquerda que começam a despertar o interesse internacional do regime comunista da URSS.
Um veterano do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), entra em Portugal em 1975, e desaparece sem deixar rasto, deixando uma filha na Rússia. A casa de um banqueiro influente é assaltada e, entre outras coisas, um passaporte é roubado. No decorrer do assalto, o segurança do banqueiro é morto e Joel Franco é chamado para investigar.
Aquilo que, à primeira vista, era apenas um segurança a ser uma vítima fortuita de um vulgar assalto à propriedade de um homem rico, acaba por ser tornar em algo mais do que estar no sítio errado à hora errada. Joel vai mergulhar no submundo da máfia russa a operar em Portugal e vai contar com a ajuda de um ex-agente da KGB, afastado da vida de crime, e a viver em Portugal, que devido ao seu passado de ligação à máfia russa, acaba por ser arrastado para o meio disto tudo.

Vermelho Cor de Sangue é o segundo volume da série Não Matarás, do escritor português Pedro Garcia Rosado. Já tinha gostado bastante do primeiro volume, A Cidade do Medo (opinião aqui), e este Vermelho Cor de Sangue veio consolidar a minha boa opinião.
Tenho problemas com policiais, não é um género para o qual esteja sempre disponível, no entanto gosto de descobrir novos escritores e de vez em quando tenho necessidade de enveredar por um bom espécime do género. Pedro Garcia Rosado agrada-me e, ainda por cima é português e, acho que ler autores portugueses que colocam as suas histórias no nosso universo é, para mim enquanto leitora, muito recompensador.

Recomendo sem quaisquer reservas.

Boas leituras!

Excerto:
"O contributo do grande povo da União Soviética dará à nossa revolução um alento que incendiará as ruas do País e levará à vitória os nossos operários, os nossos camponeses e os nossos soldados!"

Número Zero - Umberto Eco

Título original: Numero Zero
Ano da edição original: 2015
Autor: Umberto Eco
Tradução: Jorge Vaz de Carvalho
Editora: Gradiva

"A redacção de um diário reunida à pressa prepara um jornal dirigido, mais do que à informação, à chantagem, à intriga, ao lodo e às reportagens ignóbeis, que a chefia exige para aumentar as vendas.
Um redactor paranóico que, circulando por uma Milão alucinada (ou alucinado por uma Milão normal), reconstrói uma história com cinquenta anos, tendo como pano de fundo um plano diabólico arquitectado em torno do cadáver putrefacto de um pseudo-Mussolini. E, na sombra, o Gladio, a P2, o assassino do Papa Luciani, a CIA, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, vinte anos de massacres e de pistas falsas, um conjunto de factos inexplicáveis que parecem inventados, até que uma transmissão da BBC vem provar que são verdadeiros ou, pelo menos, são agora confessados como tal pelos seus autores. Depois, um cadáver entra subitamente em cena na mais estreita e mal-afamada rua de Milão. E ainda uma frágil história de amor entre dois protagonistas perdedores por natureza: um ghost writer falhado e uma rapariga inquietante que, para ajudar a família, abandona a universidade e se especializa em gossip sobre amizades afectuosas, mas é ainda capaz de chorar no segundo andamento da 7ª de Beethoven. Uma história que se desenrola e, 1992, em que se prefiguram muitos dos mistérios e loucuras dos vinte anos seguintes, precisamente quando os dois protagonistas pensam que o pesadelo terminara. Um caso amargo e grotesco que se desenrola ma Europa desde o fim da Segunda Guerra até aos nossos dias.
Este é o manual perfeito para o mau jornalismo que, gradualmente, nos impossibilita de distinguir uma invenção de um directo.
Um livro que se lê avidamente, de um grande autor que surpreende sempre!"


Número Zero conta a história da criação de um jornal diário, fictício, cujo único objetivo é a chantagear e provocar desconforto em alguns grupos da sociedade italiana. 
Nunca se pretendeu publicar o que quer que seja, no entanto, para além do diretor do jornal, Simei, e de Colonna, um escritor falhado, mais ninguém sabe que Número Zero nunca chegará às bancas dos jornais. Por isso, para todas aquelas pessoas contratadas para participarem na criação deste novo jornal, tudo aquilo é real e o comportamento que observamos é, para todos os efeitos real, independentemente de o jornal nunca vir a ser publicado.

Colonna é um cinquentão, um escritor fantasma que nunca conseguiu escrever nada sem ser em nome de outra pessoa. É contratado por Simei para acompanhar de perto a invenção do Número Zero e no fim escrever um livro sobre o esquema montado, onde seria revelada toda a verdade, a troco de muito dinheiro. O que o leva a participar é apenas e só a necessidade financeira, Colonna é um homem honesto, um pouco desiludido com o rumo que a sua vida parece ter levado. 
Na redação deste jornal inventado conhece Maia Fresia, uma jovem jornalista de revistas cor-de-rosa, que viu neste projecto uma oportunidade para fugir às amizades coloridas dos famosos e crescer como profissional. Os dois, acabam por se aproximar, ele atraído pela sua juventude e aparente fragilidade, ela pela segurança e tranquilidade que ele lhe traz.

Número Zero leva-nos pelos meandros da imprensa, pelo que de pior pode ser e, leva-nos a reflectir sobre a importância da sua existência, como órgão isento e honesto.
Umberto Eco expõe a facilidade com que se manipula a opinião pública com as tão faladas fake news que nos deixam a todos, menos informados e mais desprotegidos. A descredibilização dos órgãos de comunicação social é, talvez um dos maiores perigos que a democracia enfrenta nos dias de hoje. Temos cada vez mais dificuldade em distinguir a verdade da mentira e estamos, como sociedade, menos sensíveis à mentira. Tendemos a desvalorizar estes comportamentos e, quem os pratica sente-se validado e deixa de ser sentir errado e julgado. Passa a ser uma forma de estar tolerada por todos. Somos mais individualistas e se, como individuo, não consigo percepcionar e efectivamente perceber as consequências da corrupção, não me sinto suficientemente interessado para exigir justiça.
 
É um livro pequeno, que se lê muito bem. Aborda o tema quase como uma paródia, como se não se levasse muito a sério, no entanto a mensagem é bastante clara.
 
Não sendo novidade que tenho um carinho especial pelo Umberto Eco, este Número Zero foi uma versão mais levezinha do que costumam ser os livros dele, em termos de bagagem cultural e, foi uma excelente companhia nas férias de verão.
 
 
 
Recomendo sem qualquer hesitação.
 
Boas leituras!
 
Excerto (pág.162)
"Amor, não estás a considerar que, pouco a pouco, também a Itália se está a tornar como os países de sonho para onde te queres exilar. Se somos capazes, em primeiro lugar, de aceitar e, em seguida, de esquecer todas as coisas que nos contou a BBC, isto significa que estamos a habituar-nos a perder a vergonha. Não viste como todos os entrevistados desta noite contavam tranquilamente que tinham feito isto ou aquilo, e que estavam quase à espera de uma medalha? Não mais claros-escuros do barroco, coisas de Contra-Reforma - os tráficos emergirão en plein air, como se os impressionistas os pintassem: a corrupção autorizada, o mafioso oficialmente no parlamento, o evasor fiscal no governo, e na prisão só os pilha-galinhas albaneses. As pessoas de bem continuarão a votar nos patifes, porque não acreditarão na BBC, ou não quererão ver programas como os desta noite, porque terão aderido a qualquer coisa mais trash, provavelmente as televendas de Vimercate acabarão no horário nobre, será morto alguém importante, funerais de Estado."