setembro 22, 2019

Bem-Vindos a Joyland - Stephen King

Título original: Joyland
Ano da edição original: 2012
Autor: Stephen King
Tradução: Ana Lourenço
Editora: 11x17

"Carolina do Norte, 1973. Na esperança de conseguir esquecer a namorada que lhe despedaçou o coração, Devin Jones, um estudante universitário, vai trabalhar na Joyland, um parque de diversões. Contudo, acaba por se ver confrontado com algo muito mais terrível: uma rapariga, Linda Gray, vítima de um perverso homicídio, cujo espírito assombra o comboio-fantasma. O assassino ainda está à solta e Devin decide encontrá-lo.
Com todo o impacto emocional das grandes obras de Stephen King, Bem-Vindos a Joyland é ao mesmo tempo um policial, uma história de terror e um romance agridoce que nos agarra até ao fim. "

Já não é novidade que gosto muito de Stephen King. Sabendo que é praticamente impossível estar a par de tudo o que ele vai escrevendo, de vez em quando vou vendo o que de novo está a ser editado por cá. Com a saída dos filmes IT e IT Chapter Two (se ainda não viram, não deixem de o fazer) desta vez dei por mim com algumas opções, recentemente editadas em Portugal. Aproveitando a Feira do Livro de Lisboa, este foi o escolhido para satisfazer e minha ocasional necessidade de voltar a Stephen King. :)

Devin Jones, um jovem universitário a precisar de trabalhar, decide passar as férias em Joyland, um parque de diversões numa pequena localidade. Em Joyland é surpreendido pelas pessoas que vivem e trabalham no parque, pela forma como o acolhem e pela forma como o parque acaba por ser algo tão importante para a comunidade.
Nesse Verão, Devin, no caminho que faz todos os dias entre a pensão e o parque, trava amizade com Mike, um rapaz, com vários problemas de saúde, e com a sua jovem mãe Annie, que toma conta dele. Os dois vivem num casarão velho, sozinhos e Devin sente uma enorme curiosidade pelos dois, até que surge a oportunidade de os conhecer. Nessa altura, o destino de Devin parece começar a cumprir-se e o que quer que o tenha levado a Joyland e a ter permanecido para além do inicialmente previsto começa a revelar-se.

Basicamente é isto. É um livro com um ritmo muito próprio, sem grandes acontecimentos. Temos tempo para conhecer as personagens, criar empatia com elas e temos vontade de os acompanhar, da mesma forma que gostamos de saber que alguém com quem já não falamos há anos, está bem e é feliz. É o tipo de ligação que criei com Devin e todas as pessoas que  conheceu naquelas férias em Joyland.

Confesso que estava à espera de uma história mais assustadora e aterradora e, por se passar num parque de diversões, que este lado fosse mais explorado. Acabei por achar que, na verdade, não acontece muita coisa. Não deixou, no entanto, de ser um livro de leitura fácil e divertida. Gostei da história e das personagens.

Recomendo (quase) sempre Stephen King, este não será a exceção. :)

Boas leituras!

Exerto (pág. 9):
"No início de Setembro, a praia de Heaven estava quase deserta, o que combinava com o meu estado de espírito. Aquele foi o Outono mais bonito da minha vida. Posso dizê-lo mesmo quarenta anos depois. É também posso dizer que nunca fui tão infeliz. As pessoas acham que o primeiro amor é doce, e mais ainda quando essa primeira relação acaba. Ouvimos milhares e canções pop e country que provam isso; um tolo ficou com o coração destroçado. No entanto, esse primeiro coração destroçado é sempre o mais doloroso, o mais lento a sarar, é o que deixa cicatrizes mais visíveis. O que há de tão doce nisso?"

setembro 21, 2019

[Ebook] As Viúvas de Dom Rufia - Carlos Campaniço

Título original: As Viúvas de Dom Rufia
Ano da edição original: 2016
Autor: Carlos Campaniço
Editora: Casa das Letras

"Conhecido por Dom Rufia desde moço, Firmino António Pote, criado sem recursos numa vila alentejana, promete a si mesmo tornar-se rico. Negando-se à dureza do trabalho do campo, divide durante anos a sua sobrevivência entre o ócio e alguns negócios frugais. Mas, já nos trinta, munido de assombrosa imaginação, bonito como poucos e gozando de uma enorme capacidade de persuasão, sobretudo entre as mulheres, lobriga várias maneiras de alcançar o seu objectivo, fingindo continuamente ser quem não é. Para isso, porém, é obrigado a viver em vários lugares ao mesmo tempo, dando a Juan de los Fenómenos, um velho chileno em busca de proezas sobre-humanas, a ilusão da ubiquidade.
Quando o corpo sem vida de Dom Rufia é encontrado no meio do campo, a recém-empossada Guarda Republicana não imagina as surpresas que o funeral reserva. O aparecimento de uma estranha carta assinada pelo tio do morto é só o princípio da desconfiança de que ali há mão criminosa.
Depois do muito aplaudido Mal Nascer, finalista do Prémio LeYa em 2013, Carlos Campaniço regressa à ficção com um romance irresistível e cheio de humor, cuja acção decorre no início do século XX, num Alentejo onde pululam personagens fascinantes e inesquecíveis."

Dom Rufia é o protagonista desta história que se vai desenrolando no velório do próprio, onde todas as suas viúvas vão contando a sua história com Firmino, como o conheceram e como é que ele mudou as suas vidas. 
Dom Rufia é, entre muitas outras coisas, um sedutor nato e, aquilo a que se pode chamar de vendedor de banha da cobra. Bem parecido e bem falante, o engano é algo que lhe é natural.
Não se pode dizer que Dom Rufia seja má pessoa, Firmino nasceu pobre, criado pelos tios, e um dia meteu na cabeça que haveria de ser rico. Pareceu-lhe que a forma mais rápida e fácil de isso acontecer seria casar-se com uma mulher rica. Agora, só lhe falta encontrar a sua futura esposa. Tendo apenas esse objetivo em mente, nada do que ele faz é particularmente maldoso ou errado, apenas moralmente duvidoso, mais nada. :)
Nem mesmo as suas muitas Viúvas parecem ter por ele outro sentimento que não, amor, carinho e, após descobrirem a verdade, alguma frustração por não terem conseguido que Dom Rufia lhes fosse dedicado de forma exclusiva. :)

Gosto de conhecer novos autores, principalmente portugueses ou de língua portuguesa. Gosto que as referências me sejam familiares e que façam parte da nossa memória colectiva.
Carlos Campaniço foi uma estreia. Li qualquer coisa sobre este livro, As Viúvas de Dom Rufia, há anos. O que li deixou-me suficientemente curiosa porque o coloquei na minha lista de livros a ler.
É muito difícil iniciarmos um livro sem qualquer expectativa, sem ideias preconcebidas. Eu, sobre este, tinha algumas expectativas.
A verdade é que, embora tenha achado a escrita de Carlos Campaniço cativante, não achei a história particularmente bem conseguida. Achei-a um pouco repetitiva, previsível e, ao contrário de algumas opiniões que li, não dei nenhuma gargalhada.

É uma leitura leve, boa para ler na praia, à beira da piscina ou numa esplanada de Lisboa à beira do Tejo.

Boas leituras!

maio 26, 2019

Bairro da Lata - John Steinbeck


Título original: Cannery Row
Ano da edição original: 1945
Autor: John Steinbeck
Tradução: Luiza Maria de Eça Leal
Editora: Livros do Brasil

"Cannery Row, em Monterey, na Califórnia, é um pobre bairro costeiro, de poucos quarteirões, onde se acumulam fábricas de enlatar sardinhas, restaurantes de má qualidade, bordéis e mercearias atravancadas. Os seus habitantes, dependendo da frincha pela qual se espreita, são prostitutas e batoteiros, mártires e homens bons, cujas histórias encerram lições de sobrevivência. É entre eles que se encontra o jovem biólogo marinho que todos tratam por Doutor, que aí conjuga o trabalho de recolha e análise dos animais da baía com o melancólico acompanhamento das almas infelizes - e que inesperadamente acabará por encontrar a verdadeira felicidade. Publicado pela primeira vez em 1945 e inspirado pelos habitantes reais de Monterey, Bairro da Lata é um romance onde John Steinbeck recupera o cenário do seu primeiro grande êxito, O Milagre de São Francisco, escrevendo com um misto de humor e comoção sobre a aceitação da vida como ela é, no seu jogo entre um sentido de comunidade e a solidão da existência, entre a tragédia e a generosidade."

John Steinbeck é de longe um dos meus autores favoritos. Já li quase tudo o que está publicado e traduzido e, acho que todos os que li foram surpreendentes. Naturalmente uns são extraordinários outros são mais banais, mas nenhum deles foi só "mais um livro" e, Bairro da Lata não foi a exceção que confirma a regra.

Num universo muito próximo do que encontramos em O Milagre de São Francisco (a minha opinião aqui), Bairro da Lata é mais um relato comovente, sem deixar de ser de certa forma divertido, da vida num bairro de Cannery Row, uma comunidade pobre da Califórnia, que vive da indústria da conserva.

Cannery Row é habitado por todo o tipo de pessoas, uns são honestos e trabalhadores, outros honestos sem trabalho. Outros são mandriões que vivem de esquemas, mais ou menos bem intencionados. Existe uma casa de prostitutas que é muitas vezes apenas um refúgio e escape à vida real do dia-a-dia. Existe um bazar, cujo proprietário é Lee Chong, um chinês avaro que acaba por vender tudo fiado. E existe o Doutor, um jovem biólogo marinho, a única pessoa com estudos em toda a comunidade e que parece ser o elo que os liga a todos. Todos, sem exceção, o respeitam e acarinham. 
Numa comunidade onde ninguém tem nada e vivem todos os dias sem saber como vai ser o dia seguinte, o doutor acaba por ser uma das poucas constantes do bairro.

A comunidade de Cannery Row, surpreende pela qualidade dos sentimentos, pela forma como lida com as dificuldades, pela  capacidade de união em torno de um objetivo comum, e por conseguir com tão pouco fazer tanto. 

A vida é cheia de surpresas e de desafios. Conseguir tirar algo de bom de uma situação complicada, é tarefa difícil mas não é de todo impossível. E o que Bairro de Lata nos diz, é que devemos olhar mais à nossa volta e para as pessoas que nos rodeiam. E não é uma questão de olhar para a miséria dos outros e sentir-mo-nos melhor com a nossa. É olhar para além da nossa miséria e da dos outros e juntos construirmos algo que seja melhor para todos.
E sem que fosse esse o objetivo, em dia de eleições para o Parlamento Europeu, a mensagem que retirei da minha leitura de Bairro da Lata deveria estar na mente de todos os eleitores.

Recomendo sempre John Steinbeck.

Boas leituras!

Excerto:

"Cannery Row, em Monterey, na Califórnia, é um poema, um fedor, uma estridência, uma gradação de luz, uma tonalidade, um vício, uma nostalgia, um sonho. Cannery Row é acumulação e desperdício; lata, ferro, ferrugem e gravetos; pavimentos escavacados, terrenos de urtigas e amontoados de cordame; fábricas de enlatar sardinhas de chapa ondulada, cabarés reles, restaurantes, bordéis e pequenas mercearias atravancadas; laboratórios e albergues. Os seus habitantes s
ao, como disse o homem certa vez, «pegas, alcoviteiras, batoteiros e filhos da mãe», com o que pretendia dizer «toda a gente». Tivesse o homem espreitado por outra frincha e talvez dissesse: «Santos e anjos, mártires e homens bons», e significaria a mesma coisa."

março 31, 2019

[Kindle] As Mãos Desaparecidas - Robert Wilson

Título original: The Silent and the Damned
Ano da edição original: 2004
Autor: Robert Wilson
Editora: Publicações Dom Quixote

"Um detective torturado, três perturbadores suicídios, um mundo de terror.
Mario Vega tem sete anos e a sua vida vai mudar para sempre. Numa casa de um subúrbio rico de Sevilha, o pai jaz morto no chão da cozinha e a mãe foi sufocada na sua própria cama. Inicialmente parece ser um suicídio, mas o inspector-chefe Javier Falcón tem as suas dúvidas quando encontra um enigmático bilhete amarrotado na mão do morto.
Sob o calor brutal do Verão, Falcón inicia a investigação à obscura vida de Rafael Vega e começa a receber ameaças da máfia russa que opera na cidade há algum tempo. A sua investigação aos vizinhos de Vega levam-no a um casal americano com um passado devastador e ao tormento de um actor famoso, cujo único filho se encontra na prisão por um crime terrível.
Seguem-se mais dois suicídios - um deles o de um polícia graduado - e um incêndio florestal que alastra pelas colinas de Sevilha. Falcón tem agora de desvendar a verdade, revelando que está tudo ligado e que há mais um segredo na vida sinistra de Rafael Vega."

Li o primeiro livro desta série de Robert Wilson - O Cego de Sevilha, há uns bons anos, em 2010, e deixou-me uma boa impressão. Desde então que fazem parte da minha lista de livros a ler ou de autores a manter debaixo de olho. Por não ser a maior fã de policiais e porque os livros têm estado sempre caros, só agora aproveitei a edição digital, mais em conta, e voltei a encontrar Javier Falcón, em As Mãos Desparecidas, o segundo volume de O Quarteto de Sevilha.

Javier Falcón é chamado para investigar um aparente homicídio seguido de suicídio de Rafael Vega, um empresário de sucesso em Sevilha. Javier tem algumas dúvidas sobre o que aconteceu na casa de Rafael Vega. Entre ameaças da máfia russa, redes de pedofilia e espiões dos tempos modernos, Falcón volta a ser confrontado com o seu passado e com os seus pesadelos. Mais uma vez o passado do pai, Francisco Falcón parece regressar para o atormentar.

Talvez tenham passado demasiados anos desde que li o primeiro, porque tive alguma dificuldade em reentrar na história. Mais ainda porque havia muitas referências ao primeiro livro, do qual já não tenho grandes memórias. Acho que por isso a minha ligação à história foi menos conseguida e a personagem de Javier Falcón pareceu-me menos credível e menos apelativa. Ao reler a minha opinião sobre O Cego de Sevilha (aqui), algumas das coisas que me dificultaram a leitura são comuns aos dois livros. A história começa de forma lenta, existem muitos acontecimentos que parecem desnecessários e que nos afastam da investigação propriamente dita. Só mais para o fim o livro parece ganhar alguma velocidade e as pontas soltas começam a juntar-se e tudo começa a fazer mais sentido.
Desta vez não fiquei muito impressionada com a escrita e com a forma como Robert Wilson conta a história e achei as personagens pouco desenvolvidas. No geral, não fiquei muito impressionada com este segundo livro. Não tenho a certeza se tem a ver com a distância entre o primeiro e o segundo livro ou se com o facto de estar mais velha e de já ter lido muita coisa entretanto. A verdade é que, se este tivesse sido o livro que li em 2010, não tenho a certeza se teria voltado a ler alguma coisa relacionada com Javier Falcón. Não acho que seja mau, só acho que não é o meu tipo de livro.

Por ter lido o primeiro e ter gostado, provavelmente vou ler os restantes da saga, só não sei quando. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Estarei com medo? Não tenho nenhuma razão física para ter medo, aqui deitado na cama, ao pé da Lúcia, com o meu pequeno Mário e os sons do seu sono no quarto ao lado. Mas estou assustado. Os meus sonhos assustaram-me e além disso já não são sonhos. Estão mais vivos do que isso. Os sonhos são de rostos, só de rostos. Não me parece que os conheça, e no entanto há momentos estranhos em que me sinto prestes a reconhecê-los, mas é como se eles não quisessem isso para já. É então que acordo porque… Estou outra vez a ser pouco rigoroso. Não são propriamente rostos. Não são de carne. São mais fantasmagóricos do que reais, mas têm feições. Têm cor, mas não são sólidos. Apenas sentem falta de ser humanos. É isso. Só sentem falta de ser humanos, Será uma pista?"

março 05, 2019

Em Teu Ventre - José Luís Peixoto

Título original: Em Teu Ventre
Ano da edição original: 2015
Autor: José Luís Peixoto
Editora: Quetzal Editores

"A partir de um ponto de vista inteiramente novo, Em Teu Ventre retrata um dos episódios mais marcantes do sécula XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917.

Cruzando o rigor da sua dimensão histórica com a riqueza de uma galeria de personagens surpreendentes, este livro propõe uma reflexão acerca de Portugal, naquilo que tem de mais subtil e profundo.

Tanto na aparente simplicidade como no abismo dos seu mistério, a maternidade é também um dos temas marcantes de Em Teu Ventre.

O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e milagre, constrói aqui um mundo que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo."

Tinha alguma curiosidade para ler este livro do José Luís Peixoto, embora soubesse muito pouco sobre o que era, gostava do título e pronto. Por vezes é o que basta. Não fazia ideia que estava relacionado com as aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima. Confesso que quando li a sinopse, torci o nariz. Livros sobre temas religiosos... não estava para aí virada. Depois pensei, é José Luís Peixoto, de certeza que vai ser diferente. E não me enganei. :)

Tendo como ponto de partida a 1ª aparição de Nossa Senhora aos três primos, vamos conhecendo os portugueses do início do século XX. A forma como viviam, fora das grandes cidades, e o que pensavam, em que acreditavam.
É um livro surpreendente, na forma como retrata a família de Lúcia, a mais velha das crianças, e a reação da mãe à história das aparições. Não estava à espera que a resistência desta fosse tão grande, que tivesse tantas dúvidas sobre a veracidade do que as crianças relatavam. Um misto de não acreditar e ser ríspida com a filha enquanto, ao mesmo tempo a tentava proteger das consequências que um acontecimento como aquele iria trazer para a vida de todos. É talvez a personagem mais marcante e que mais me deixou com sentimentos ambíguos, não só pela forma como geriu a questão das aparições, como pela forma como José Luís Peixoto descreve o tratamento dado à órfã que vive com eles.

De forma inconsciente, todos esperamos que as mães nos livros sejam carinhosas, ternurentas e sábias. Perfeitas e sem falhas. É um desejo estranho tendo em conta que nenhum de nós conhece uma mãe assim, perfeita. A única perfeição que lhes conhecemos é a capacidade de amar e perdoar. E, na realidade é a única perfeição de que necessitamos. Em tudo o resto podem e devem ser humanas, o mais possível. :)
Talvez pelo título, Em Teu Ventre, estava à espera de um livro sobre a beleza da maternidade. Estava à espera de uma espécie de poema às mães. Não sei onde fui buscar esta ideia sobre o livro, se li alguma coisa sobre ele ou se foi apenas uma ideia pré-concebida na minha cabeça. De facto, acaba por ser um livro sobre a maternidade, mas num sentido menos poético e mais lato. Não é apenas um livro sobre a mãe de Lúcia, é também sobre a necessidade de termos alguém, superior que não compreendemos totalmente como existe, que olhe por nós, que nos ampare e que, de certa forma, nos perdoe. Será isto que procuramos na religião? Amparo, consolo e, acho eu, também desresponsabilização. A vida é difícil, e viver com a certeza de que não existe um propósito superior é mais difícil do que acreditar que existem forças superiores que nos guiam e nos protegem.

Em Teu Ventre é, à semelhança dos outros que já li de José Luís Peixoto, um livro muito bem escrito, com verdadeiros momentos de beleza literária, com personagens muito bem construídas e verdadeiras na forma como existem de facto.

Recomendo sem hesitações.

Boas leituras!

Excerto (pág. 121):
"(AQUI ESTOU. VISÍVEL OU INVISÍVEL, AQUI ESTOU. Com os erros que não te contei, com os defeitos que fui capaz de esconder, aqui estou. Antes este mistério do que essa ideia impossível que vês em mim. A perfeição que me impuseste desprezou as minhas necessidades. Roubaste-me a lascívia, o prazer, absolveste-me de todos os crimes, até daqueles que me orgulho de ter cometido. Queres que te agradeça por me privares de ser inteira? Não sou essa voz, distorção de dúvidas e de medos. Não sou esse silêncio, essa falta proporcional à distância que te separa de mim. Sim, peguei-te ao colo, consolei-te quando soluçavas, soube alimentar-te com o meu próprio corpo, mereço castigo por te ter conhecido frágil e por ter tomado conta de ti? Na minha vida, fiz muito mais do que isso. Não faltam lugares onde estive e não estiveste, não faltam idades que te excluem. Agora mesmo, continuo a existir quando não te lembras de mim e, até quando passo por ti na sala ou quando estou sentada ao teu lado, só eu sei aquilo em que penso. Visível ou invisível, sou um mistério que sempre te escapará de, no entanto, esta ironia: aqui, nestas páginas, só consigo ser aquela que fores capaz de escrever, que fores capaz de ver.)"

Antes de Ser Feliz - Patrícia Reis


Título original: Antes de Ser Feliz
Ano de edição: 2009 
Autor: Patrícia Reis
Editora: Publicações Dom Quixote

"O princípio possível começa na Figueira da Foz, uma cidade que é uma espécie de décor, guardiã de memórias de Verão e outras vivências. Um miúdo apaixona-se na idade em que os sentimentos são voláteis e sem importância. O objecto do seu amor é uma rapariga difícil, esquiva e perturbada. Há a morte da mãe dela, as tardes de praia no areal imenso, as idas a Buarcos, as festas do Casino. E ainda um pai tímido e um tio criativo atrelado a um cão chamado Tejo. O amor não se desfaz com o tempo. O miúdo chega a rapaz e depois faz-se homem. Parte para Lisboa mas regressa sempre, como uma fatalidade. Espera que ela, a mulher que o obriga a parar no tempo, volte também à cidade, tome conta da sua herança e lhe dê outra vida. Enquanto espera, acompanha o pai dela na doença, organiza papéis e pensamentos, vai a funerais, pendura um Canaletto precioso. Herda a casa que, em tempos, foi chão sagrado para ela; ela, que finge que não está."

Tenho sempre alguma dificuldade em escrever sobre os livros de Patrícia Reis. E não é por não gostar deles ou por não ter o que dizer sobre eles, é mesmo porque sinto, e sentir é se calhar a palavra certa, que os livros de Patrícia Reis são feitos de sentimentos, de impressões, de sensações, mais do que de histórias e personagens.
Acho que é isto que dificulta, para mim, a tradução para palavras das sensações que me provocam os livros dela. Provavelmente, também é por isso, que me limito ser leitora e deixo esta coisa da escrita a sério para quem sabe o que faz. E Patrícia Reis sabe, definitivamente o que faz. :) Pode deixar-me sem palavras, mas deixa-me cheia de "bons feelings", como a música da Sara Tavares, independentemente de ser um livro feliz ou não.

Antes de Ser Feliz é, para além de muitas outras coisas, um livro sobre o amor, a amizade, a paciência, a certeza de que, no fim, tudo terá valido a pena.
Não encontro em mim, mais nada para dizer sobre este livro, a não ser que vale a pena ler, tal como tudo o que me tem passado pelas mãos (as minhas opiniões aqui) da Patrícia Reis.

Boas leituras! :)

Excerto:

"Vim aqui para morrer. Cheguei hoje.
A Figueira da Foz surgiu-me sem rasto de fim de mar, abismo de antigos pescadores e outras almas de fortuna e fé. É um décor, tinhas dito a rir, um dia num pequeno restaurante, a depenicar peixinhos da horta, os dentes brancos numa aparição quase obscena. Pareceu-me, então. Nada do que aqui se passa é real. A terra que não existe. Os tempos dos espanhóis em férias, os que fugiam da guerra, as famílias importantes, os passeios a Tavarede e todas as outras. Nada disso existe realmente. Percorrer a marginal no deslumbramento marítimo até Buarcos. O que é que tudo isto interessa? E quando é que deixou de interessar? Saberás dizer com exactidão, por seres esse tipo de criatura, a pessoa das datas, aniversários, horas certas para tudo."

fevereiro 03, 2019

A Ridícula Ideia de não Voltar a Ver-te - Rosa Montero

Título original: La ridícula ideia de no volver a verte
Ano da edição original: 2013
Autor:Rosa Montero
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

"Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A rídicula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.
Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de a Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros."

À semelhança do único livro que li de Rosa Montero, já comentado aqui, fui atraída pelo título e pela capa. Este com a vantagem de já conhecer a escritora e ter vontade de voltar a ela.

A ridícula ideia de não voltar a ver-te não é um romance, é uma espécie de catárse, uma forma de fazer o luto, uma tentativa lembrar as coisas boas e que estas acabem, um dia, por se sobrepor à dor da perda.
Tendo como base o diário que Marie Curie escreveu após a morte do marido, Rosa Montero dá a conhecer uma mulher fascinante, inteligente, trabalhadora, cheia de contradições e estranhamente humana. Uma mulher que é muito mais do que uma breve referência na história das grandes descobertas científicas no século XIX / XX.
Marie Curie era retratada como, extremamente inteligente e competente. Era considerada uma mulher pouco feminina, de certa forma fria e de sorriso difícil. No diário que sente necessidade de escrever após a morte de Pierre, toda essa imagem acaba por ser desmontada, uma vez que nele, Marie põe a nu toda a sua fragilidade, os sentimentos profundos pelo marido e o desespero que sentiu quando ele morreu e a paixão pelo trabalho.
Descobrimos, também, uma mulher cheia de contradições, por um lado uma mulher que lutou desde cedo para fugir ao papel tradicional que a sociedade esperaria que assumisse mas que, ao mesmo tempo, deu sempre prioridade às ambições profissionais de Pierre em detrimento das suas e, não deixava de assumir, em casa todo o trabalho doméstico e a educação das filhas, sem que isso parecesse ser um problema para ela. Era uma mulher de paixões, apaixonada pelo seu trabalho e pelo marido, mas, curiosamente pouco maternal. As filhas pareciam ser, apenas, uma consequência do amor por Pierre.
Rosa Montero diz, no início, que A ridícula ideia de não voltar a ver-te não é um livro sobre a morte e, na realidade não é. Fala muito da morte e é, por vezes, um livro triste e doloroso, mas é, acima de tudo, um livro sobre a vida, sobre sonhar, sobre conquistas e uma homenagem àqueles que nos deixam para sempre e cujo vazio é impossível de preencher.

Gosto de Rosa Montero e gostei muito deste livro. É um livro que descreve de forma comovente e muito realista a dor que a morte de alguém que amamos provoca.
É também um retrato curioso de uma personagem importante na história da ciência mundial e que nos faz refletir, entre outras coisas, sobre o papel da mulher na sociedade, na investigação cientifica em particular.

Recomendo sem reservas.

Boas leituras!

Excerto:
(pág.19)
"A verdadeira dor é indizível. Se conseguirmos falar do que nos angustia estamos com sorte: significa que não é assim tão importante. Porque quando a dor cai sobre nós sem paliativos, a primeira coisa que nos arranca é a #Palavra. É provável que reconheças o que digo: talvez o tenhas sentido, porque o sofrimento (tal como a alegria) é algo comum em todas as vidas. Falo daquela dor que é tão grande que nem sequer parece que nos nasce de dentro, que é como se tivéssemos sido sepultados por uma avalancha. E assim ficamos, tão enterrados sob essas toneladas pedregosas de pena que nem conseguimos falar. Temos a certeza de que ninguém nos vai ouvir."
(...)
"Entro na sala. Dizem-me:«Morreu.» Acaso se pode compreender semelhante palavra? Pierre morreu, ele, que no entanto vira sair de manhã; a ele, que esperava apertar entre os meus braços nessa tarde, já só o voltarei a ver morto, e acabou-se, para sempre.

«Sempre», «nunca», palavras absolutas que não conseguimos compreender sendo, como somos, pequenas criaturas presas no nosso pequeno tempo. Nunca brincaste, na infância, a tentar imaginar a eternidade? O infinito abrindo-se à tua frente como uma fita azul enjoativa e interminável. É a primeira coisa que nos atinge num luto: a incapacidade de pensar nisso e de o admitir. A ideia simplesmente não nos cabe na cabeça. Mas como é possível que não esteja? Essa pessoa que ocupava tanto espaço no mundo, onde se meteu? O cérebro não consegue compreender que tenha desaparecido para sempre. E que diacho é sempre? É um conceito inumano. Isto é, está fora da nossa capacidade de entendimento. Mas como, «não verei mais»? Nem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã, nem dentro de um ano? É uma realidade inconcebível, que a mente rejeita: não o ver nunca mais é uma piada de mau gosto, uma ideia ridícula."