novembro 27, 2009

Bem Me Quer, Mal Me Quer - Pearl S. Buck

"A jovem Peony é vendida como serva a uma rica casa chinesa - um papel estranho, pois é mais do que uma criada, mas menos do que uma filha. Ao crescer, desabrocha numa mulher encantadora e provocante, e apaixona-se pelo filho único da família, Contudo, a tradição impede-os de casar. Esta história profunda, baseada em factos verídicos ocorridos na China, evolui para o confronto entre o amor de Peony pelo rapaz e a sua devoção à família adoptiva."

A Pearl S. Buck é uma Danielle Steel ou uma Nora Roberts (agora tão na moda) com personalidade e com estilo. Escreve romances, puros e duros, onde existem grandes paixões, olhares embevecidos e onde o amor dói de verdade. Então porque gosto dos livros dela? Simplesmente porque não são romances previsíveis, a menina nem sempre fica com o príncipe encantado, pelo menos não da forma arrebatadoramente típica de outros romances. As personagens são interessantes e cheias de particularidades. No fundo são mais reais com histórias de vida mais próximas do comum dos mortais. Acho que gosto deles por não serem romances que apelem à lamechice (existe esta palavra?!) gratuita. Além disso a autora, já falecida, é de outra época e por isso, os livros dela têm um "cheirinho" antigo e gostoso, para além de exóticos, uma vez que a autora viveu muitos anos na China e, transporta para as suas histórias um pouco dessa vivência.

Bem Me Quer, Mal Me Quer, narra a história de uma família de judeus a viver na China há algumas gerações. Ezra, um comerciante próspero, é descende de judeus por parte do pai, mas a mãe era chinesa, uma concubina. É casado com Naomi, uma judia orgulhosa de ser uma judia pura. Sempre se sentiu, ou fez questão de se sentir, estrangeira na China. Sonha regressar à terra prometida, na Palestina, de onde o seu povo foi expulso. É boa pessoa, apenas muito zelosa dos seus deveres religiosos e do dever que sente em manter as tradições judaicas vivas na sua família e comunidade. Tem receio de que, se nada fizer, o seu povo seja completamente assimilado pela alegria e tolerância dos chineses. Toda a sua esperança reside no seu único filho David, rapaz alegre e despreocupado. Quando a mãe decide casá-lo com a filha do rabino, este apercebe-se de que tem uma escolha a fazer; ceder à vontade da mãe e, com isso abraçar a religião do seu povo assumindo a responsabilidade de a manter viva, ou casar com a filha de um importante comerciante chinês, por quem se encantou e, esquecer as suas raízes judaicas. No meio disto tudo existe, Peónia, a rapariguita que foi comprada ainda criança para fazer companhia a David e para o servir. Como é natural Peónia apaixona-se perdidamente por David. Sabendo que não poderá nunca ser sua esposa, pois os pais deste nunca o permitiriam, tudo faz para se manter na sua vida , tornando-se indispensável para ele e o pilar da família. Embora seja apenas uma criada, é uma mulher muito inteligente, culta e sábia. Para poder ficar junto de David, anula-se como mulher e como pessoa, existindo apenas para servir o homem que ama.

Em Bem Me Quer, Mal Me Quer, Pearl S. Buck fala-nos da posição das mulheres na sociedade chinesa, submissas e pouco instruídas, mas essenciais nos seus papéis. No livro, as mulheres são as responsáveis por quase todos os acontecimentos. Os homens são manipulados, sem o saberem, por elas.

Embora tenha gostado mais do Há Sempre Um Amanhã, da mesma autora, o Bem Me Quer, Mal Me Quer é, também ele, muito bom. Por não ser uma pessoa religiosa, não me identifiquei com as dúvidas que assombravam as personagens e, por não ser uma mulher chinesa, ou de outra nacionalidade, de outros tempos, também tenho dificuldade em assimilar a forma de amar de Peónia. Mas na história tudo isto faz sentido e o livro também é bom por nos mostrar como são diferentes as mulheres do nosso século, e como nos devemos sentir agradecidas a todas as nossas antecessoras por terem lutado pelos direitos das mulheres que nos permitem, hoje em dia, tomar decisões sobre tudo nas nossas vidas.

É um bom livro. :)

novembro 17, 2009

A Casa da Rússia - John Le Carré


"John Le Carré arrasta-nos, uma vez mais, para o seu mundo secreto e faz dele o nosso mundo. Em Moscovo, Leninegrado, Londres e Lisboa, numa ilha da costa do Maine que pertence à CIA, e no coração do próprio Barley Blair, Carré desenvolve não apenas uma história de espionagem, mas uma alegoria do amor individual confrontado com atitudes colectivas de beligerância."

Já li uns quantos livros do John Le Carré mas quando começo um livro novo dele, nunca sei se vai ser dos bons ou dos mais ou menos bons. Gostei muito do Amigos Até ao Fim e do Espião que Veio do Frio. O Fiel Jardineiro tem uma história interessante, sobre o aproveitamento, por parte das grandes farmacêuticas, da pobreza dos países africanos para experimentarem medicamentos antes de os comercializarem. A história, embora seja boa, não prende muito, acaba por ser até um pouco óbvia e, no fim fiquei com a sensação de que a montanha tinha parido um rato. Não gostei de O Canto da Missão, não só porque neste também a montanha pare um rato, mas porque a história é confusa e achei as personagens pouco reais, exageradas, mesmo. Quanto ao A Casa da Rússia, é uma história típica de espionagem e contra-espionagem, bem ao jeito do autor.

Barley Blair vê-se envolvido com os Serviços Secretos Britânicos e Americanos quando um físico russo, Goethe, o incube de publicar o livro que escreveu. No livro são expostas algumas das fragilidades existentes no programa de defesa russo. Goethe é um idealista que quer libertar a Rússia da opressão em que vive e, de certa forma, redimir-se por ter posto os seus conhecimentos, como físico, ao serviço dos propósitos bélicos da Rússia. Barley por seu lado é um editor inglês, sendo descrito como um homem misterioso, amistoso, um bom-vivant, que aceita tornar-se espião com o objectivo de saber até que ponto é verdade o que Goethe escreveu nos cadernos que lhe entregou. Os Serviços Secretos Britânicos são retratados como sendo um serviço formado por pessoas normais, é verdade que são espiões, mas não deixam de ser normais. Têm dúvidas e têm medos, como todos nós. John Le Carré, coloca os Serviços Secretos Britânicos como sendo subservientes dos Americanos e os Americanos como sendo... Americanos. Poderosos e com muito dinheiro. Basicamente os Ingleses são bonzinhos e os Americanos menos bonzinhos. A Rússia é descrita como sendo um país onde não existe liberdade, mas onde o povo é culto, corajoso e muito leal.

Mais uma vez acho os livros do John Le Carré um bocado óbvios, sem grandes surpresas, onde ao longo das páginas vamos confirmando o que já desconfiávamos. Neste A Casa da Rússia, incomodou-me a exaltação exagerada da beleza da personagem feminina, Katya. Esta adoração e idolatração da mulher amada, da maneira como foi feita, é mais comum em escritores do século XIX, num livro de espionagem do século XX fica de certa forma deslocado. Se calhar foi propositado por parte do Le Carré, homenageando desta forma os grandes escritores russos do século XIX, mas não me pareceu adequado.

Embora não seja, na minha opinião, nada de especial é um livro que se lê relativamente bem e, para os fans deste tipo de histórias concerteza será melhor do que o que eu achei. :)

novembro 09, 2009

Leituras (quase) inacabadas

Todos nós temos livros que pura e simplesmente não conseguimos acabar de ler. Uns porque não era a altura certa para pegar neles, ou por serem de difícil leitura ou porque o tema não é o adequado para a altura. Outros, porque simplesmente não gostamos deles.
Quando era mais nova, não me lembro de alguma vez ter deixado um livro a meio. Houve uns que me custaram mais a ler, mas nunca os deixei a meio, fazia um esforço para os acabar. Não sei porque não os abandonava, se não estava a gostar da história... talvez porque livros novos não fossem assim tão frequentes cá em casa. Hoje a minha atitude perante a leitura mudou um pouco. Quando não estou a ter prazer na leitura, ponho de lado, mas não de ânimo leve. Com tanta coisa boa para se ler, sei que não vale a pena perder tempo com coisas que não nos dizem nada, mas resisto sempre mais do que devia. :)

Quando, pela primeira vez, não consegui acabar um livro fiquei aborrecida. Ainda por cima era um clássico sobre o qual tinha ouvido maravilhas, o Moby Dick do Herman Melville. O livro é enorme (o que para mim é sempre um ponto a favor) e começa muito bem, divertido, interessante. A páginas tantas torna-se tão aborrecido que só não parei de o ler mais cedo porque... porque era o Moby Dick e tive algum pudor em não lhe dar uma, duas, três oportunidades! :) Li-o quase todo, mas por pura carolice, até que um dia desisti, não aguentei mais... :p Aconteceu-me o mesmo com o Vale de Abraão da Agustina Bessa-Luís, autora que tinha muita curiosidade de ler. Achei o livro muito chato, não se passava nada... Foi com pena que o pus de lado, talvez um dia mais tarde já o saiba apreciar.

Felizmente a minha lista de livros inacabados não é muito extensa, mas tenho a noção de que deveriam estar lá mais uns quantos que me deram "água pelas barbas", o que só prova a minha teimosia! :) É o caso do Boa Tarde Às Coisa Aqui Em Baixo do António Lobo Antunes. Livro difícil... Nunca me senti tão burra a ler um livro. Foi das experiências mais frustrantes que já me aconteceram na leitura. Foi daqueles livros em que tive de voltar atrás uma data de vezes, a ver se conseguia apanhar o fio à meada. Quando ia para desistir, lá apanhei qualquer coisa, que voltei a perder não muito depois e, sinceramente fiquei com fobia ao senhor desde essa altura! Já tinha lido o Manual dos Inquisidores uns anos antes e, tinha achado o livro interessante, diferente de uma forma positiva por isso, quando encontrei tantas dificuldades para acompanhar o Boa Tarde Às Coisa Aqui Em Baixo fiquei surpreendida. Só de pensar nisso já estou a ficar com "borboletas no estômago". :/
Experiência semelhante tive com Os Versículos Satânicos do Salman Rushdie, que parei de ler, porque tive dificuldades em entrar na história. No entanto, tenciono tentar lê-lo daqui as uns anos, porque acho que foi um problema de timing, mais do que do livro em si. Quanto ao outro senhor, o António Lobo Antunes, não digo nunca, mas... acho que será muito difícil apanharem-me com outro livro dele nas mãos. :)
Outro autor que tenho alguma dificuldade em gostar é do Ernest Hemingway, li O Velho e o Mar, Por Quem os Sinos Dobram e deixei a menos de meio As Verdes Colinas de África, porque o tema da caça incomoda-me... Tenho pena de não conseguir ver nele o que milhões de pessoa vêem mas, não me consigo identificar com a escrita dele.

Depois tenho daqueles livros que acabei, mas que não gostei. Não por serem difíceis, mas por serem maus, com histórias absurdas e mal contadas. Foi o caso do A Ruína da Jennifer Egan, do O Autenticador do William Valtos, From a Buick 8 e Tommyknockers do Stephen King, de quem gosto muito, mas estes dois fizeram-me algumas comichões no cérebro... :)



Tendo em conta que já devo ter lido mais de uma centena de livros na minha vida, acho que as coisas não me têm corrido mal. Mesmo quando não estão especialmente bem escritos o que interessa é que o livro nos divirta, nos faça pensar e que nos deixe a pensar depois de acabado, que nos ensine alguma coisa e que nos faça pensar que valeu a pena o tempo que lhe dedicámos.
De certeza que tenho no meu futuro muitos livros que não vou conseguir ler. O que eu gostaria é que fossem daqueles que eu ponho de lado a pensar: "Talvez quando for velhinha já tenha a sabedoria necessária para os entender".

Boas leituras.

novembro 02, 2009

Jesusalém - Mia Couto

"Jesusalém é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor no auge das suas capacidades criativas. Aliando uma narrativa a um tempo complexa e aliciante ao seu estilo poético tão pessoal, Mia Couto confirma o lugar cimeiro de que goza nas literaturas de língua portuguesa. A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado, diz um dos protagonistas deste romance. A prosa mágica do escritor moçambicano ajuda, certamente, a reencantar este mundo"

Gosto muito dos livros do Mia Couto, porque estão cheios de fantasia, parecem fábulas dos tempos modernos, mas com personagens muito reais. Jesusalém não foge a isso, embora ache o livro um pouco mais terra a terra do que os outros que li dele, o que não é necessariamente mau, apenas diferente. Já o Venenos de Deus, Remédios do Diabo, me pareceu diferente nesse sentido.

Jesusalém fala-nos de um pai, Silvestre Vitalício, de dois filhos, Ntunzi e Mwanito (o narrador da história) e de Zacaria Kalash, o militar. Embora existam outras personagens importantes na história, estas constituem o núcleo central da narrativa.
O livro começa com Mwanito a dizer que "A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas", o que nos prende logo desde o início. O pai de Mwanito, Silvestre Vitalício, depois da morte da mulher, Dordalma, pegou nos filhos e no fiel amigo Zacaria Kalash e instalou-se num pedaço de terra, a que chamou de Jesusalém, longe de tudo e de todos. Para ele "o mundo terminara e nós éramos os últimos sobreviventes", tal foi o desgosto de perder a mulher.
Mwanito, o filho mais novo não se lembra de nada do "Lado de lá", para ele o mundo resume-se ao homens que com ele vivem em Jesusalém, e ao Tio Aproximado que lhes leva o necessário para sobreviverem. O irmão mais velho, Ntunzi, pelo contrário, tem memórias claras de como era a vida antes e sente-se, por isso, preso e frustrado.

É uma história bonita, cheia de sentimentos contraditórios, porque embora Mwanito se sinta roubado, por o pai o ter afastado do mundo, tem por ele muito respeito e amor. E quando este mais precisa dele não o abandona porque, por mais mágoas que existam, pai é pai.
É também uma história que fala de culpa e do que somos capazes de fazer para expiar essa culpa, de maneira a podermos seguir em frente.

É sempre complicado descrever e classificar os romances do Mia Couto mas, Jesusalém é a história de um homem ferido e envergonhado de tal forma que se isola do mundo levando com ele aquilo que lhe resta. Um homem que, de tão infeliz, impede a felicidade dos filhos protegendo-os das crueldades da vida e do mundo. Qualquer pai gostaria de o poder fazer, afastar os filhos das brigas, dos desgostos, da infelicidade mas, é virtualmente impossível, porque sem esses dissabores eles nunca aprenderão a ser felizes.

Tudo isto é contado ao estilo de Mia Couto, com alguma loucura à mistura. Eu gostei muito! :)

outubro 25, 2009

As Brumas de Avalon - Marion Zimmer Bradley

Excertos do prólogo:
" Fala Morgaine...
No meu tempo chamaram-me muitas coisas: irmã, amante, sacerdotisa, maga, rainha. Agora, em verdade, acabei por me tornar uma maga, e pode vir um tempo em que estas coisas precisem de ser conhecidas. Mas em perfeita verdade, penso que serão os cristãos a ter a última palavra. O mundo das Fadas está a afastar-se definitivamente do mundo em que Cristo governa. Não tenho nada contra Cristo, apenas contra os seus sacerdotes que chamam à Grande Deusa um demónio e negam que ela alguma vez tenha tido poder neste mundo. Dizem que, no máximo, o poder dela era o de Satanás. Ou então vestem-na com o manto azul da Senhora de Nazaré - que, de facto, à sua maneira, também teve poder - e dizem que foi sempre virgem. Mas o que é que uma virgem pode saber da labuta e dos sofrimentos da humanidade?
E agora que o mundo mudou e Arthur - meu irmão, meu amante, rei que foi e rei que será - jaz morto (o povo diz que dorme) na Ilha Sagrada de Avalon, deve-se contar a história de como era antes dos padres de Cristo Branco chegarem e cobrirem tudo com os seus santos e lendas."

"E assim Arthur jazia finalmente com a cabeça no meu colo, vendo em mim não a irmã, não a amante, não a inimiga, mas apenas a maga, a sacerdotisa, a Senhora do Lago; e assim descansou no seio da Grande Mãe de quem veio quando nasceu e para quem, no fim, como todos os homens, terá de ir. E talvez, enquanto eu dirigia a barca que o levava, desta vez não para a Ilha dos Padres, mas para a verdadeira Ilha Sagrada no mundo das trevas por trás do nosso, essa Ilha de Avalon onde agora poucos, exceptuando eu, podem ir, ele se tenha arrependido da inimizade que nascera entre nós."

"Ao contar esta história, falarei por vezes de coisas que aconteceram quando era ainda demasiado jovem para as compreender ou de coisas que aconteceram quando não estava presente, e talvez o meu ouvinte se retraia e diga: Isto é a magia dela. Mas tive sempre o dom da Visão e de ver dentro do espírito dos homens e das mulheres; e durante todo este tempo estive perto de todos eles. E assim, às vezes, de uma forma ou de outra, sabia tudo o que eles pensavam. E assim contarei esta história.
Pois um dia os padres também contarão como a conhecem. Talvez entre as duas se consiga ver qualquer vislumbre da verdade."

"E assim, talvez a verdade gire algures entre a estrada para Glastonbury, Ilha dos Padres, e a estrada para Avalon, perdida para sempre nas brumas do Mar do Verão.
Mas esta é a minha verdade. Eu que sou Morgaine, conto-vos estas coisas, Morgaine a quem mais tarde chamaram Morgan Le Fay."

Quando me falam de As Brumas de Avalon sorrio, porque gosto mesmo muito dos livros. Já os li mais que uma vez e, agora por estar a escrever sobre eles, tenho vontade de reler tudo outra vez! É para verem quão fantástica é a história. :)
Adoro os livros da Marion Zimmer Bradley, uns mais do que outros, como é natural. Quando começo a ler um livro dela tenho a certeza absoluta que vai ser tempo bem gasto, excepto os do Poder Supremo, que sinceramente não me convenceram. As Brumas de Avalon são, no entanto, os meus favoritos.

Nos quatro volumes que constituem esta saga, a autora dá-nos uma versão diferente da Lenda do Rei Artur. A história é contada sempre na perspectiva das mulheres, são elas quem tem o poder, são elas as responsáveis por muitos dos acontecimentos, provocado-os deliberadamente ou não. É uma história cheia de magia, de misticismo e de beleza. Conta um pouco da história da mítica Ilha Sagrada de Avalon, onde as mulheres são iniciadas nos segredos da vida e da Deusa. Do aparecimento dos primeiros cristãos com o seu Deus Único, castigador e castrador. Nessa altura, as mulheres começam a ser vistas como figuras secundárias da sociedade, servindo para pouco mais que procriar. As sacerdotisas de Avalon começam a ser consideradas feiticeiras, bruxas que servem Satanás.
É evidente uma crítica ao cristianismo, no entanto a imagem que se passa da Deusa, suposta Mãe de todos nós é também ela de uma entidade vingativa, intolerante, segregadora que não olha a meios para atingir objectivos e que, para continuar a ser adorada é capaz de tudo. Não vejo grandes diferenças entre o Deus dos padres e a Deusa da sacerdotisas. Embora a figura da Deusa seja muito mais apelativa por invocar a beleza da mulher, a harmonia e o respeito pela natureza. Existe magia, existe liberdade, não é castradora dos desejos humanos. Talvez por isso a ideia de uma Deusa em vez de um Deus seja mais simpática e enquanto lemos, torcemos sempre pelas mulheres de Avalon. :)

Muito bem escrito, como seria de esperar, é sem dúvida daqueles livros que se têm que ler antes de morrer e, reler sempre que nos apetecer. Li, emprestados pela minha prima linda, mas quando os apanhei aos quatro nesta edição especial da Difel, tive de os comprar e valeram cada cêntimo que custaram (e não foram assim tão poucos como isso).

Se tivesse que os classificar, dar-lhes-ia cinco estrelas! :)

outubro 19, 2009

O Deus Das Moscas - William Golding

"Um grupo de rapazes abandonados numa ilha deserta desfruta da liberdade total festejando a ausência de adultos. Porém, à medida que o frágil sentido de ordem dos jovens começa a colapsar, também os seus medos começam a tomar sinistras e primitivas formas. De repente, o mundo dos jogos, dos trabalhos de casa e dos livros de aventuras perde-se no tempo. Agora, os rapazes confrontam-se com uma realidade muito mais urgente - a sobrevivência - e com o aparecimento de um ser terrível que lhes assombra os sonhos."

Este é um livro perturbador. É a primeira coisa que me ocorre quando penso nele. Já o li há uns meses, mas continuam na minha cabeça imagens dos últimos capítulos do livro. A subtil alteração que vai ocorrendo com estes rapazes, pré-adolescentes, que se vão tornando cada vez mais primitivos, territoriais, guerreiros de palmo e meio que lutam pelo poder como gente grande.

Um avião cheio de rapazes, entre os 6 e 12 anos, ingleses despenha-se numa ilha deserta. Nenhum adulto sobrevive. Temos pois, um bando de rapazes que se vêm livres de qualquer controlo parental e de todas as regras impostas pelos adultos. Com a certeza de que serão salvos mais cedo ou mais tarde, decidem que devem aproveitar e divertirem-se à grande. O que poderá correr mal? Pelos vistos muita coisa...
Corre mal o facto de que o ser humano, quando se encontra livre de regras e de alguém que julgue os seus actos, ser capaz de coisas atrozes.
Corre mal quando na ânsia de acalmar medos primitivos e de encontrar um sentido para as coisas, procuramos ajuda nos sítios errados, procuramos liderança e deixamos de ser indivíduos e passamos a ser ovelhas num rebanho cego e obediente. Entregamos o poder nas mãos de quem não merece e idolatramos as pessoas erradas. Entramos numa histeria de grupo que não é complacente com o que nos distingue dos outros animais, a racionalidade e a consciência.
Isso torna-se ainda mais perturbador quando tudo isso é exemplificado num bando de miúdos que, em pouco mais de uns dias, perde toda e qualquer noção do bem e do mal e do respeito pela vida humana e não humana.
Apenas duas das crianças demonstram bom-senso, uma delas é morta pelos colegas, a outra vive atormentada pelo facto de não ter sido capaz de os manter mentalmente sãos, por ter perdido o controlo e por sentir medo. Medo de perder a pouca sanidade que lhe resta e tornar-se num deles, medo de não ser salvo, medo de morrer.

No fim são salvos mas a inocência e a infância ficam na ilha, agora meio destruída, onde descobriram a capacidade de matar, para alguns até o gosto de matar.

O livro vale sobretudo pela história. O que parece inicialmente um livro para adolescentes ao estilo de Robinson Crusoé ou A Ilha do Tesouro, torna-se em algo completamente diferente. Está cheio de cenas arrepiantes e bem conseguidas. Não está especialmente bem escrito, principalmente quando o autor tenta descrever os vários sítios da ilha, torna-se confuso e é difícil situar geograficamente a acção. Mas é definitivamente um daqueles livros que se devem ler. Foi-me sugerido pelo meu mais que tudo, que embora não o tivesse lido, ouviu falar dele e, como sempre foi uma óptima sugestão! Gostei muito de o ler.

outubro 17, 2009

Shalimar O Palhaço - Salman Rushdie

"Los Angeles, 1993. Maximilian Ophuls é brutalmente assassinado pelo seu motorista muçulmano, Noman Sher Noman, também conhecido por Shalimar o Palhaço. O que à primeira vista parece ser um crime político - Ophuls tinha sido embaixador dos Estado Unidos na Índia e depois chefe do contraterrorismo americano - é afinal um caso passional. Shalimar o Palhaço é uma obra profundamente humana que junta as paixões mais ferozes e os conflitos mais graves do nosso tempo. Uma história de amor. Uma fábula mágica onde os mortos falam."

Não sei bem o que pensar deste novo romance do Salman Rushdie. Li-o com algum prazer, a história é interessante e prende. Temos sempre vontade de passar ao capítulo seguinte para sabermos mais um pouco das vidas de Max Ophuls, India Ophuls e do Shalimar. De que forma as vidas deles se entrelaçaram para que o desfecho, indicado no próprio prólogo, seja a trágica morte de Max, um homem nos seus oitentas e aparentemente inofensivo.

Para além destas personagens, consideradas principais, somos também levados a conhecer a vida de duas aldeias e dos seus habitantes, Pachigan e Shirmal, em Caxemira. O vale de Caxemira surge aqui como um paraíso onde muçulmanos e hindus convivem num ambiente de verdadeira interajuda, onde a religião não é o mais importante. Prova disso é o casamento celebrado entre os protagonistas da história de amor que se conta no livro, segundo os rituais das duas religiões e com a aprovação de todos. No entanto, Caxemira com toda a sua tradição de tolerância e humanidade, torna-se pouco a pouco um osbtáculo para os interesses de dois países, Índia e Paquistão, bem como para os interesses ocultos de alguns, que tudo fazem para quebrar a paz no lugar. Salman Rushdie acaba por nos dar a visão dele sobre o conflito que dura há anos entre a Índia e o Paquistão.
É, como diz o prólogo, uma obra muito humana, sobre o que de melhor e pior o ser humano é capaz. De como o mais profundo amor se pode tornar no mais profundo ódio, sem no entanto deixar de ser amor... De como muitas vezes, debaixo da capa do pretenso bem maior, se escondem apenas e só os interesses e ódios pessoais.

Deu-me gozo ler este livro e cheguei ao fim com a sensação de que tinha lido um bom livro. Mais que não seja porque já tinha tentado ler Os Versículos Satânicos, do mesmo autor, e não o consegui acabar... Por isso foi a medo que comecei este. Acabá-lo foi uma vitória pessoal. :)
Senti alguma dificuldade porque o livro faz muitas referências à cultura indiana, com muitos termos indianos, nomes indianos que, por estarem tão afastados da nossa própria cultura e quotidiano me pareceram sempre complicados quebrando um pouco o ritmo da história. Mas pronto, isso é defeito meu e não do autor. :)

Depois de ter lido este livro, não ponho completamente de parte a possibilidade de voltar a ler outro livro dele. Quem sabe, tentar ler novamente Os Versículos Satânicos dando-lhe uma nova oportunidade.