setembro 24, 2010

O Físico - Noah Gordon

"No século XI, Rob Cole abandona com apenas onze anos a pobre e doente cidade de Londres para vaguear pela Inglaterra. Durante as suas deambulações, fazendo malabarismos e vendendo curas para os doentes, vai descobrindo a dimensão mística da sanação. E é através dessa peregrinação que descobre o seu verdadeiro dom, que o levará a converter-se em médico num mundo violento, cheio de superstições e preconceitos. Tão forte é o seu sonho que decide empreender uma insólita e perigosa viagem à Pérsia, onde estudará na prestigiada escola de Avicena. Aí dar-se-à uma transformação que modificará para sempre a sua vida e o seu destino..."

Andava a adiar a leitura deste livro porque precisava de baixar as expectativas. Afinal de contas as opiniões que circulam consideram-no uma obra-prima. :) Agora que o li, acho que o li na altura certa, com calma e sem as expectativas demasiado elevadas. Gostei bastante, não o considero uma obra-prima, mas é uma leitura que se faz de forma fluída, com uma história muito bem delineada e bem contada e onde aprendi umas quantas coisas. Gostei! :)

O Físico relata a história de Rob Cole, desde o momento em que fica orfão, com 9 anos , na Londres medieval do séc. XI. Rob e os seus irmãos mais novos são distribuídos, como mercadorias, por diversas pessoas. Rob parte com Henry Croft, um barbeiro-cirurgião que o contratou como aprendiz. O Barbeiro, homem rude mas honesto, afeiçoa-se a Rob e, como a um filho, ensina-lhe tudo o que sabe sobre a arte de fazer espectáculos de aldeia em aldeia com o objectivo de vender o Específico Universal, a solução para todos os males possíveis e imagináveis do corpo humano. Mas acima de tudo, o que o Barbeiro transmite a Rob é o amor pela medicina, o prazer de ajudar quem necessita e a responsabilidade que esse dom acarreta. Rob fica fascinado e ao mesmo tempo frustrado pela limitação dos seus conhecimentos, por haver tanta gente por quem ele não pode fazer nada. Quando o Barbeiro morre, Rob decide partir para a Pérsia onde há uma escola de físicos, o Maristan, dirigida pelo lendário e conceituado físico, Ibn Sina. Convencido de que para conseguir ser aceite no maristan tem de ser judeu (todos os bons físicos que encontrou em Inglaterra eram judeus) Rob assume a identidade de Jesse ben Benjamin, um judeu inglês, e parte numa viagem que lhe vai mudar a vida. Atravessa meio mundo, passando por dificuldades mas também conhecendo pessoas honestas e solidárias. Apaixona-se, toma decisões difíceis e chega a Ispahan sedento de começar a sua aprendizagem. Lá impressiona todos, com a sua persistência, inteligência e competência. Impressiona o próprio Xá Ala, o Rei dos Reis, um homem violento e caprichoso e, o não menos importante Rei dos Físicos, Ibn Sina, homem dedicado ao conhecimento mas muito condicionado pelas regras e superstições impostas pela religião. Rob, ajuda uma povoação vizinha na luta contra a peste, faz amigos para a vida, torna-se físico, casa-se, perde amigos e sai de Ispahan, com destino a Londres, pela calada da noite, com a mulher e os filhos antes da cidade ser invadida por um exército inimigo. O homem que regressa a casa já não é mesmo que partiu da cidade com 9 anos, receoso do futuro. Aprendeu e cresceu, mas a coragem e determinação que sempre o caracterizou não se perderam. :)

Como disse, gostei bastante deste livro. Gostei muito do Rob, da sua honestidade e, de certa forma, da sua ingenuidade. Gostei, principalmente que Noah Gordon tenha criado Rob com uma personalidade curiosa e inquisitiva, o que me permitiu, como leitora, reflectir e aprender com ele. Torci sempre para que as coisas lhe corressem bem, que encontrasse os irmãos, de quem perdeu o rasto quando os pais morreram, e que a sua falsa identidade não fosse descoberta, pois Rob poderia ser condenado à morte. Torci para que todos os seus desejos fossem realizados porque, era verdadeiramente uma boa pessoa, um espírito livre, sem preconceitos, cujo único interesse era o desenvolvimento da ciência em prol do bem comum. Foram homens como Rob Cole que levaram o conhecimento da humanidade àquilo que hoje temos.
Um dos temas fortes do livro é a religião, pois Rob sendo cristão, fingiu ser judeu para poder tornar-se Hakim (físico). Nos judeus encontrou o rigor dos rituais e o cumprimento escrupuloso das proibições mas, ao mesmo tempo, encontrou um povo afectuoso e solidário, com um forte espírito de inter-ajuda entre eles. Na Pérsia, Rob conviveu com muçulmanos e os seus radicalismos, a sua violência latente e as suas contradições relativamente à maneira como vivem os ensinamentos do profeta. Eram no entanto um povo caloroso e alegre. A parte cristã de Rob, não é muito aprofundada por Noah Gordon, este apenas se refere aos cristãos como intolerantes, principalmente na forma como tratam os judeus. Não sei se Noah Gordon é judeu ou sequer se é religioso, mas tem uma predilecção pela judaísmo, isso é notório.
No entanto, Rob é indiferente às religiões, usa-as para adquirir conhecimentos. O que realmente move Rob não é Deus, mas a sede de conhecer, a curiosidade e a vontade de romper barreiras, características que têm sido transversais a todos os avanços científicos e tecnológicos que a humanidade já experimentou. A ciência e a religião não podem nem devem andar juntas, é isso que Rob percebe quando ignora a proibição, de todas as religiões, de dissecar cadáveres humanos. É transgredindo que Rob se apercebe que o porco não é igual ao Homem e descobre coisas importantes acerca do funcionamento do corpo humano. Mesmo correndo o risco de ser condenado à morte, Rob assume o risco porque lhe parece que a medicina e, consequentemente a humanidade só têm a ganhar com isso. Rob é uma personagem inspiradora. :)
Aliás todas as personagens neste livro estão muito bem conseguidas. É um dos seus pontos fortes. Outro ponto forte é a própria história que nos dá a conhecer um pouco da história da medicina. É fascinante ler sobre os procedimentos arcaicos e sobre as teorias baseadas mais na crença e na religião do que na ciência (afinal estava-se no séc. XI). Não deixa de ser surpreendente que com tantas limitações já tanto se conseguisse fazer. Gostei muito desta vertente do livro. :)
Por ser um livro que atravessa diversos países permite-nos conhecer muitas culturas e costumes, o que só torna o livro ainda mais rico. Noah Gordon descreve-nos um mundo de uma diversidade estonteante.

Pontos menos favoráveis: a minha dificuldade em acreditar que a história se passava no séc. XI. O comportamento das personagens e os próprios acontecimentos eram descritos de uma forma que não me transportava para a época em questão. Provavelmente é defeito meu e não do escritor, mas a verdade é que me fez ler de uma forma menos envolvente por achar algumas passagens, atitudes ou diálogos pouco credíveis. Para além disso achei o desenrolar dos acontecimentos previsível e a narração por vezes era um pouco desapaixonada, um mero relato de acontecimentos (talvez porque Noah Gordon é um jornalista de formação).
Continuo a achar que a escrita de Noah Gordon não é especialmente inspirada mas com uma boa história, que é o caso, isso deixa de ser muito relevante. De salientar ainda o salto qualitativo gigantesco que aconteceu entre o O Rabi, primeiro romance do autor e já comentado aqui, e este o O Físico.

Gostei do livro, vou querer ler os restantes livros da trilogia, Xamã e a A Doutora Cole e recomendo-o sem reservas! :)

Boas leituras! :)

Uma nota positiva para as escolhas de autores e obras que a revista Sábado tem vindo a disponibilizar e, para as excelentes edições que têm constituído a Biblioteca Sábado.

setembro 08, 2010

A Festa do Chibo - Mario Vargas Llosa

"Em A Festa do Chibo, Mario Vargas Llosa recupera uma tradição na literatura latino-americana, a do romance sobre ditadores, e retratando a ditadura de Trujillo, na República Dominicana, recupera também a força das suas melhores obras. O inegável talento do autor para manejar conflitos, criar tensões, descrever situações, revelar as razões humanas que se ocultam por detrás dos factos históricos, para poder criar personagens que inspiram repugnância e compaixão, resulta num romance magistral e surpreendente."

A Festa do Chibo é uma viagem ao passado violento e repressor vivido pelos dominicanos durante a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo, que decorreu de 1930 a 1961, ano em que o ditador foi assassinado.

Pela voz de Urania Cabral, regressada a Santo Domingo depois de ter estado 35 anos afastada do país, única filha do Agustín Cabral, um dos mais leais seguidores de Trujillo e das suas políticas, é-nos dada a conhecer a influência que Trujillo tinha em todas as famílias dominicanas e a relação doentia que os seus seguidores tinham com ele. Uma relação que passava necessariamente pelo medo, mas também pela veneração cega, de humilhação perante um homem que acreditavam estar muito próximo de Deus. No caso de Agustín Cabral, o apoio dado ao regime não passava por ter acesso facilitado ao poder e, consequentemente a dinheiro, mas por convictamente acreditar que Trujilo era o melhor que alguma vez tinha acontecido à República Dominicana. Quando, sem perceber como caiu em desgraça aos olhos do General viu-se na miséria, capaz de tudo para regressar ao círculo restrito dos colaboradores do regime. Como Agustín Cabral existiriam muitos outros dominicanos, que cometeram atrocidades inimagináveis para provar a sua lealdade para com Trujillo.
Paralelamente, Mario Vargas Llosa conta-nos a história do assassinato de Trujillo no dia 30 de Maio de 1961. Acompanhamos o último dia de vida de Trujillo, na perspectiva do próprio. Conhecemos as suas angústias e os seus medos, bem como a sua forma fria e calculista de governar. A frustração que sente por nem todos os dominicanos aceitarem e valorizarem o esforço que sente ter feito pelo país, transformando-o num país próspero e com importância no mundo, pelo menos enquanto teve o apoio dos EUA e da Igreja. O medo que tem de envelhecer e de que o seu corpo deixe de acompanhar a sua agilidade mental. A forma como Mario Vargas Llosa humaniza Trujillo, sem no entanto deixar de expor a sua personalidade violenta e narcisista, torna esta personagem (real) muito interessante. Conhecemos o que o move e o porquê de determinadas acções. Não olhamos para ele apenas como uma figura histórica.
Para além de Trujillo, Mario Vargas Llosa conta-nos o último dia de vida do ditador na perspectiva dos homens que o mataram: Antonio de la Maza, Salvador Estrella Sadhala, Tenente Amado Garcia Guerreiro e Antonio Imbert Barreras, sentados num carro, à beira da estrada enquanto aguardam pelo Chevrolet Bel Air azul-claro do General, que alguns quilómetros à frente crivam de balas, matando-o.
A história vai alternando entre estes três núcleos: a família Cabral, pela voz de Urania, o último dia de Trujillo, narrado pelo próprio e, os quatro homens no carro, onde o autor nos vai, separadamente, dando a conhecer os motivos pessoais que os levaram a estar ali, à beira da estrada no dia 30 de Maio de 1961.
Depois da morte de Trujillo, temos o relato assombroso da perseguição e represálias que sofreram os heróis do 30 de Maio, bem como as suas famílias e amigos próximos. Temos também a parte em que Balaguer, o presidente fantasma do regime, assume as rédeas do país após a morte de Trujillo e dono de muito jogo de cintura encaminha a República Dominicana para uma democracia, com o apoio dos EUA e sem melindrar em demasia os familiares e seguidores de Trujillo, impedindo o país de cair numa guerra civil e evitando uma invasão por parte dos EUA ou dos vizinhos do Haiti e Cuba, países comunistas. Não é claro, ao longo de todo o livro, se Balaguer era ou não um Trujillista ou se apenas esperava oportunidade de libertar os dominicanos da ditadura que durava há tantos anos. Gostei desta dualidade na personalidade do presidente, um verdadeiro político. :)

A Festa do Chibo foi a minha estreia na escrita de Mario Vargas Llosa e o que posso dizer é que gostei muito. Gostei principalmente da forma como o autor encadeia a acção, alternando entre diferentes narradores à medida que o último dia de Trujillo avança. Gostei da caracterização de todas as personagens, e saber que todas elas, à excepção da família Cabral, foram homens e mulheres reais tornou a narrativa mais emotiva e arrepiante. Entrar na cabeça de Trujillo foi fascinante e assustador, pois é aflitiva a forma como a inteligência humana pode ser usada de forma tão distorcida e doentia. A descrição das torturas e das perseguições, embora desconfortável, é imprescindível para uma verdadeira compreensão do medo e horror vividos na sociedade dominicana.
O único ponto negativo que tenho a apontar foi a minha dificuldade em memorizar tantas personagens, não só porque eram realmente muitas, mas também porque o autor ora os tratava pelo primeiro nome, ora pela alcunha ou então pelo nome completo. Às tantas já não sabia bem de quem se estava a falar... Nada que manche a qualidade inquestionável da obra, a leitura tornou-se foi menos fluída.

Este livro é, com as devidas ressalvas para o facto de ser uma história que ficciona alguns acontecimentos reais, uma autêntica lição de história. O meu conhecimento acerca da República Dominicana e da sua história era praticamente nulo, pelo que gostei mesmo muito de ler este livro. Aprendi imenso e está muitíssimo bem escrito, com uma estrutura narrativa muito eficaz. Fiquei muito curiosa para ler outros livros do Vargas Llosa, num outro registo que não o romance histórico.

Recomendo sem reservas.

Boas leituras! :)

Nota: Trailer do filme La Fiesta del Chibo, realizado por Luis Llosa com Paul Freeman e Isabella Rossellini, entre outros:


setembro 06, 2010

Brevemente...

Achei que devia dar sinal de vida, o Quero Um Livro não morreu nem hibernou. Eu é que ando com menos tempo livre e as leituras começam a ressentir-se.

Estou quase a acabar o "A Festa do Chibo" do Mario Vargas Llosa e brevemente podem contar com a minha humilde opinião sobre o livro. :)

Boas leituras e até breve! ;)

agosto 22, 2010

Kikia Matcho - Filinto de Barros


"Kikia Matcho, o desalento do combantente, sua primeira obra literária, é, nas palavras do autor, um pequeno exercício de ficção. Nem história, nem sociologia, nem etnologia, nem política, tão-somente uma abordagem que se pretende dinâmica e existencial do porcesso de síntese sociocultural de um Povo."

O licenciado António Benaf sabe da morte do tio através da rádio. Benaf regressou há pouco tempo da Europa, onde foi estudar com o incentivo do tio que acabou de morrer e nunca mais falou com ele. 'N Dingui era um dos muitos ex-combatentes que deambula por Bissau, homens que vivem amargurados com o resultado da revolução que encabeçaram, que não compreendem porque estão ainda mais miseráveis e que encontram refúgio na bebida. 'N Dingui era mais um, entre muitos. Convicto dos ideais pelos quais lutou e nos quais nunca deixou de acreditar.
Joana, sobrinha de 'N Dingui e prima de Benaf, é uma enfermeira que veio para Portugal a seguir à independência porque acreditou na propaganda do antigo colonizador de que, quem viesse seria recompensado. Joana veio contra a vontade do tio que considerou o desejo dela como uma traição e falta de respeito pela luta que ele travou juntamente com os seus companheiros. Joana parte mesmo assim porque a miséria que viu na Guiné-Bissau independente assustou-a e acreditou que, como enfermeira, em Portugal teria mais oportunidades.
Papai e 'N Dingui foram companheiros de luta e eram parceiros de bebida na tasca de Mana Tchambú.
No dia em que 'N Dingui morre, encontramos Joana em Lisboa, a "viver" num apartamento sem portas de um prédio abandonado, com um filho resultado da promiscuidade em que todos vivem. Nesse prédio vivem, para além dela, muitos dos retornados das ex-colónias, em condições deploráveis, que apenas sonham com o dia em que o estado português lhes vai atribuir a casa prometida quando desembarcaram em Portugal. Temos Benaf, formado na Europa a viver num pequeno apartamento em Bissau com o desejo de ser grande e cujo lema é: "comer e deixar os outros comerem." Veio ocidentalizado, viver numa sociedade ainda muito ligada aos seus Irãs, cheia de contradições e que ele não percebe. Encontramos Papai triste por já ninguém se lembrar dos que lutaram ao lado de Amílcar Cabral, por os Comandantes não comparecerem no funeral do amigo, angustiado com o país que resultou da independência. No entanto, é um homem que continua convicto daquilo por que lutou e a esperança de que um dia ele e os seus companheiros de luta irão ser reconhecidos pelo que fizeram pelo país continua bem viva. Benaf refere-se a ele como um velho interessante, simpático, mas os temas eram sempre os mesmos, a fazer lembrar o outro lado da consciência, precisamente o lado que ele estava interessado em eliminar.
Kikia Matcho significa Mocho Macho e dá título ao livro porque no dia em que 'N Dingui morre, o sobrinho Benaf vê um kikia matcho na janela, a sobrinha Joana, em Lisboa sonha com um kikia matcho com o rosto do tio e o amigo Papai vê um kikia matcho com o rosto do amigo. Segundo as crenças locais, um kikia e ainda por cima matcho é ave de mau agoiro e ter este animal associado a um defunto não pode significar coisa boa. Aparentemente a alma de 'N Dingui está com problemas em atravessar para o outro lado, está preso num limbo e precisa da ajuda dos companheiros de armas para evitar ser mandado de volta, juntamente com outros que se encontram na mesma situação, para a terra como kassissas (espíritos malignos). Parece que Cabral e todos os que morreram antes da luta terminar estão a impedir os antigos combatentes de passarem e exigem que seja feita uma cerimónia. Mas que cerimónia é essa? Ninguém sabe... O que Papai não vai permitir é que o país que já salvou antes da mãos dos tugas seja agora invadido por kassissas. Não o permitirá, por lealdade a Cabral, mesmo que na tasca de Mana Tchambú todos lhe digam que kassissas já eles são todos, despojos de uma sociedade que os quer esquecer, autênticos mortos vivos.

Gostei deste livro, principalmente porque gostei de ler sobre a Guiné-Bissau. Quando falamos da guerra colonial acabamos sempre por falar de Angola, as pessoas que retornaram com a independência das ex-colónias vinham maioritariamente de Angola e Moçambique e a verdade é que pouco se sabe (falo por mim) do como foram as coisas na Guiné e em Cabo Verde, por exemplo.
A história em si, não chega a ser uma história, é mais, como o autor diz uma "abordagem sociocultural de um povo", onde ele nos vai falando da cultura africana, da absorção e integração nos seus rituais da cultura ocidental, do povo guineense e da relação tensa entre estes e os cabo-verdianos, considerados uma elite por serem mais claros e mais instruídos.
Fala das desilusões, tanto de quem ficou como de quem partiu para Portugal à procura de uma vida melhor. Quem ficou, viu-se ficar ainda mais miserável, vendo muitas das chefias aproveitarem-se do poder recém-adquirido e deixando o povo continuar mal. Os que partiram, como Joana, não ficaram melhor.
Fala da pobreza, não só material mas também de espírito e de como a necessidade pode esbater barreiras e preconceitos. Joana, na Guiné era instruída, tinha um lugar na sociedade guineense, olhava de lado os cabo-verdianos. Em Portugal obrigada pela necessidade a viver com todo o tipo de gente deixou de olhar para cores e origens e passou a ver apenas pessoas que estavam na mesma situação que ela. Em Portugal ela era mais uma entre muitas.
O livro, embora não seja especialmente inspirado, porque a escrita de Filinto de Barros é repetitiva, quase amadora mas, fala de assuntos pertinentes e para quem gosta de ler sobre estes assuntos acho que poderá ser um livro a considerar.

Recomendo, porque no meu caso, me deixou culturalmente mais rica. Aprendi umas quantas coisas que, se já as sabia, não estavam suficientemente cimentadas na minha cabeça para as considerar como sabidas! :)

agosto 13, 2010

Os Homens Que Odeiam As Mulheres (Millennium I) - Stieg Larsson

"O jornalista de economia Mikael Blomkvist precisa de uma pausa. Acabou de ser julgado por difamação ao financeiro Hans-Erik Wennerström e condenado a três meses de prisão. Decide afastar-se temporariamente das suas funções na revista Millennium. Na mesma altura, é encarregado de uma missão invulgar. Henrik Vanger, em tempos um dos mais importantes industriais da Suécia, quer que Mikael Blomkvist escreva a história da família Vanger. Mas é óbvio que a história da família é apenas uma capa para a verdadeira missão de Blomkvist: descobrir o que aconteceu à sobrinha-neta de Vanger, que desapareceu sem deixar rasto há quase quarenta anos. Algo que Henrik Vanger nunca pôde esquecer. Blomkvist aceita a missão com relutância e recorre à ajuda da jovem Lisbeth Salander. Uma rapariga complicada, com tatuagens e piercings, mas também uma hacker de excepção. Juntos, Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander mergulham no passado profundo da família Vanger e encontram uma história mais sombria e sangrenta do que jamais poderiam imaginar."

Finalmente li o primeiro volume da saga Millennium do Stieg Larsson. Este livro já estava há algum tempo na minha estante, intocável. Fui adiando a leitura porque o burburinho à volta desta trilogia era ensurdecedor e a verdade é que não gosto de ler os livros que toda a gente anda a ler. Gosto de esperar uns meses, às vezes anos para os ler sem a excitação que por vezes acompanha estes fenómenos literários. Com este a oportunidade de o comprar mais barato fez com que chegasse mais cedo cá a casa. :)

Os Homens Que Odeiam As Mulheres não é um policial comum, tem um ritmo mais lento, onde os pormenores e detalhes são importantes e onde as personagens se querem bem desenvolvidas, sem se tornarem transparentes para o leitor. Não sabemos tudo sobre as suas vidas porque, como Lisbeth Salander diz, toda a gente tem segredos. É assim que tem de ser para que as sintamos mais próximas e mais reais e não apenas personagens de uma história grotesca e violenta passada na Suécia. Desta forma criamos empatia com os protagonistas da história, Mikael Blomkvist, um jornalista de economia conhecido pelas suas investigações sobre a corrupção no mundo empresarial e, Lisbeth Salander uma rapariga com uma inteligência muito acima da média, socialmente inadaptada e uma hacker excepcional.
Inicialmente as histórias destas duas personagens correm paralelas. De um lado temos Mikael Blomkvist, um dos sócios de revista Millennium, acabado de ser condenado por difamação e a precisar de uma pausa para se recompor e preparar uma estratégia que lhe permita recuperar a, até então, imaculada reputação jornalística. Quando Henrik Vanger o procura para que este investigue o desaparecimento de Harriet Vanger, sobrinha-neta de Henrik, desaparecida há mais de quarenta anos, Mikael aceita. A proposta é financeiramente tentadora mas o principal incentivo são os factos sobre Weennerström que Henrik alega ter em seu poder e que poderão ser muito úteis a Mikael. Desta forma, Mikael concorda em mudar-se para a ilha de Hedeby, onde o clã Vanger reside. Viverá lá durante um ano, durante o qual deverá investigar as suspeitas de Henrik, de que Harriet terá sido assassinada por um dos membros da família Vanger. Henrik deposita todas as suas esperanças em Mikael, pretende que este traga uma nova visão ao mistério, pois esta será sua derradeira tentativa para desvendar o súbito desaparecimento de Harriet, algo que se tornou numa obsessão e que o atormenta há demasiado tempo.
Quando o livro começa, Mikael nada sabe de Lisbeth Salander, nunca falou ou sequer se cruzou com ela. No entanto, Lisbeth sabe tudo acerca de Mikael. Mais do que ele poderia alguma vez imaginar. Lisbeth trabalha com investigadora freelancer para uma empresa de segurança, a Milton Security, e é a melhor que eles têm. Não há nada que ela não consiga descobrir acerca de uma pessoa. Mikael foi mais um trabalho, encomendado por Henrik Vanger, com o intuito de saber se ele seria de confiança. Lisbeth é uma rapariga com um passado obscuro e doloroso. Tem a mãe no asilo, alheada da realidade e que a confunde constantemente com a irmã. Lisbeth, embora adulta, está sob custódia do estado sueco, por ser considerada violenta e socialmente incapaz de tomar conta da sua vida, tendo-lhe sido designado um tutor. Durante a investigação de Mikael os caminhos dos dois acabam por se cruzar e ela acaba por ajudá-lo na missão que este tomou em mãos. Mikael foi a única pessoa que Lisbeth deixou entrar na sua vida, surpreendendo-se a si própria com a facilidade com que confiou instantaneamente nele. Juntos formam uma dupla improvável, porque Mikael, embora descontraído, é orgulhosamente correcto e honesto e, Lisbeth tem uma noção ligeiramente diferente dos limites legais e morais impostos por uma sociedade a que não sente pertencer. A verdade é que acabam por formar uma dupla imbatível! :)

Não vou esmiuçar o mistério porque seria impossível fazê-lo sem desvendar pormenores que poderiam revelar demais. Apenas digo que a família Vanger é tudo menos convencional e tem uma quantidade generosa de esqueletos cabeludos no armário. E estes esqueletos são fruto de psicopatias assustadoras e muito, muito feias. Mikael não poderia nunca imaginar que se estava a meter com uma gente tão doentia.
Acrescento apenas que o título, Os Homens Que Odeiam As Mulheres, é um título mais do que adequado, pois o livro fala muito de violência contra as mulheres. Com descrições nada agradáveis de ler, mas que fazem parte da história e que são importantes para criar o ambiente de horror que se pretende. Pessoalmente não achei que fossem cenas gratuitas, apenas postas para chocar. Acho que fazem sentido, mas que não são agradáveis de ler, lá isso não são.

Apercebo-me, ao reler o que já escrevi, que ainda não disse se gostei do livro ou não. Confesso que tive algumas dificuldade em opinar sobre este Millennium I, exactamente porque tenho sentimentos ambíguos relativamente a ele. Acho que gostei, mas ao mesmo tempo estava à espera de mais. Gostei da escrita, nada de extraordinário, mas eficaz. Gostei da forma como a história foi contada, da maneira como as peças do puzzle se foram juntando e não adivinhei o final, o que é bom. Adorei a personagem da Lisbeth e estou curiosíssima para saber mais sobre ela no próximo livro. Gostei do Mikael, gostei da sua personalidade, é quase impossível não simpatizar com ele porque é muito transparente e muito honesto em todas as coisas que faz e diz e, por isso, faz sentido que seja uma personagem mais estanque, que não evoluiu quase nada ao longo do livro. O Mikael que desce as escadas do tribunal nas primeiras páginas é igual, na sua essência, ao Mikael que temos no fim do livro.
No entanto, houve uma ou outra coisa de que não gostei assim tanto, como a história paralela sobre o Mikael e o Wennerström. Muita finança e conversa empresarial que têm o dom de me desligar o cérebro. :| Foi com algum esforço que li algumas dessas partes. Não sei se esta parte da história será importante para os outros livros, mas neste serviu apenas para nos ajudar a conhecer o carácter do Mikael e para o escritor dar uma alfinetada na alta finança e na corrupção que grassa no meio. Como bom sueco que era, a preocupação com estes assuntos, e outros, está bem patente. :)
O mistério do desaparecimento da Harriet foi relativamente interessante, com reviravoltas e descobertas por vezes rebuscadas, que só são problemáticas se não forem fãs do género policial/horror, que é o meu caso, em que acho tudo sempre pouco verosímil. No entanto neste livro isso nem me incomodou muito, consegui manter um espírito mais aberto relativamente a esses pormenores. Afinal de contas fazem parte do género e se lá não estivessem o livro não teria fim, porque seria impossível resolver o mistério. :)

Concluindo, tinha algumas expectativas para este livro mas, como é raro adorar, venerar ou vibrar com policiais e livros de horror, não seria de esperar que este fosse tão diferente ao ponto de me arrebatar no entanto, gostei bastante, pelo menos o suficiente para querer ler os outros dois e ver o filme e, por isso recomendo. ;)

Notas:Podem ver o trailer do filme, Man Som Hatar Kvinnor, baseado neste livro, aqui:

agosto 11, 2010

O Calor

Eu adoro o calor, mas estou a precisar de uma pausa... Por a casa ser muito quente e porque as janelas abertas com luzes acesas são um convite à bicharada zumbidora (vulgarmente conhecidas como *#"$%#"%& das melgas!), já não acendo as luzes desta casa há semanas e, embora a conta da luz possa sair beneficiada, a verdade é que não consigo ler às escuras...
É que o Stieg Larsson entrou numa fase de leitura compulsiva e as interrupções não são pacíficas. :) Hoje, no metro, tive de fechar o livro numa parte que pedia continuação (e que continuação...). Saí à tarde a pensar na leitura de regresso a casa, mas não me foi possível ler na viagem. Antes de ficar completamente escuro consegui avançar com a leitura, mas quando o nariz começa a tocar nas folhas é porque chegou a altura de parar. :)
Só peço uns dias mais fresquinhos, nada de frio, mas uns dias em que as janelas à noite possam estar fechadas enquanto eu leio confortavelmente com a luz acesa. Pode ser ou está difícil???

Enquanto isso, estou a desenvolver uma visão nocturna espantosa que me poderá vir a ser útil, sei lá eu para quê, mas que pode vir a ser útil, lá isso pode! :/

Boas leituras! (com um leve tom irónico...) :p

agosto 04, 2010

Um Certo Capitão Rodrigo - Erico Veríssimo

"«Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o Capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabe de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas...» E tudo mudou."

Primeiro livro que leio do Erico Veríssimo e posso dizer que gostei bastante. Todo ele está escrito num tom divertido, ligeiro e as personagens são cativantes e interessantes.

O Capitão Rodrigo Cambará chega a Santa Fé, montado no seu cavalo e com o seu violão a tiracolo. O Capitão, com cerca de 30 anos, é um homem da guerra, lutou em várias batalhas, contra os castelhanos, na defesa das fronteiras. É na guerra que se sente realizado, sentindo orgulho por todos os homens Cambará terem perecido guerreando e não na cama. Dono de uma personalidade explosiva, é divertido, mulherengo, conflituoso, irrequieto e muito charmoso, com um encanto a que poucos resistem. Ele chega a Santa Fé, em 1828, e decide ficar, mesmo contra a vontade da população que vê nele um perigo, sedutor e conflituoso, todos receiam que traga problemas ao lugar. Quanto mais oposição encontra mais vontade ele tem de ficar. Ao conhecer Bibiana Terra, filha de Pedro Terra, o Capitão encontra mais uma razão para ficar e, conquistar o coração daquela "potranquinha arisca" torna-se a sua obsessão.
Bibiana é a moça mais bonita de Santa Fé cobiçada por Bento Amaral filho do homem mais poderoso da vila, Ricardo Amaral, uma espécie de presidente a quem todos temem e obedecem. Rodrigo tem bom coração e descobre que o que sente por Bibiana é mais que desejo sexual, ama-a e deseja casar-se com ela e constituir família. O pai de Bibiana, Pedro Terra, homem experiente, é o único na vila que não sucumbe aos encantos de Rodrigo, sabe que homens como ele não assentam, não casam sem fazer as mulheres infelizes. Amando a filha acima de tudo e de todos, não consegue impedir que esta se case com Rodrigo. No primeiros tempos os dois são felizes, mas quando Bibiana engravida do primeiro filho, Rodrigo começa a sentir o peso da responsabilidade que é ter uma família e começa a sentir-se infeliz com a sua vida rotineira, atrás de um balcão a vender cebolas, sentindo falta das suas aventuras e de se deitar com todas as mulheres que deseja. Dando razão aos receios do sogro, Rodrigo começa a jogar, a beber e a ser negligente com a família.

Passam-se alguns anos e a situação política no Brasil torna-se cada vez mais instável. Após a independência do Reino de Portugal, declarada por D. Pedro I em 1822, existiam no Brasil algumas facções que eram contra o Império Brasileiro e queriam uma verdadeira separação entre o Brasil e Portugal. Não sendo inicialmente um movimento separatista, o conflito a que se chamou a Revolução Farroupilha, ocorreu na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e terminou na criação de um estado republicano e independente, a República Rio-Grandense.
O Capitão Rodrigo envolveu-se nesta batalha, lutando ao lado de Bento Gonçalves um dos líderes dos Farroupilhos. Liderou a invasão de Santa Fé e acaba morto quando decide tomar pela força o casarão de Ricardo Amaral, fiel ao Império. O Capitão Rodrigo Cambará tem em Santa Fé a sua derradeira batalha e morre como sempre desejou: a combater. No entanto, como Bibiana diz, um homem como o Capitão Rodrigo nunca morre e a verdade é que, contra todas as expectativas ele nunca a abandonou, a não ser para combater e regressou a casa, para morrer, mas regressou.

Descobri, depois de ter lido este livro, que ele faz parte de uma obra maior, O Tempo e o Vento, uma trilogia composta por: O Continente, O Retrato e O Arquipélago. Obra maior da literatura brasileira que conta a história do Estado do Rio Grande do Sul. Este Um Certo Capitão Rodrigo é, pelo que percebi, um capítulo ou uma parte do primeiro romance, O Continente. Fiquei muito curiosa para ler a restante obra. Quero muito conhecer a história da família Terra, principalmente a de Ana Terra, a mãe e avó de Pedro e Bibiana Terra, respectivamente. E gostaria de continuar a seguir a história dos filhos do Capitão Rodrigo. Além disso gosto muito desta parte da história do Brasil. :) Não sei é se vai ser muito fácil comprar os livros por cá... :)

Recomendo este livro, sem reservas!

Boas leituras! :)

Nota: Existe, pelo menos uma adaptação desta obra, O Tempo e o Vento (ver excerto aqui), produzida pela Tv Globo e estreada em 1985.