maio 17, 2012

A Trilogia de Nova Iorque - Paul Auster

Título original: The New York Trilogy
Ano da edição original: 1985 e 1986
Autor: Paul Auster
Tradução: Alberto Gomes
Editora: Edições ASA

"A Trilogia de Nova Iorque continua a ser, tantos anos depois, o livro mais emblemático de Paul Auster. São três fascinantes histórias de mistério, centradas no submundo da grande cidade norte-americana, em que o leitor, tal como as personagens, se torna prisioneiro dos irresistíveis enredos, dos puzzles alucinantes, dos quais o autor é mestre incontestado.
Cidade de Vidro, Fantasmas e O Quarto Fechado constituem os três andamentos de uma sinfonia única, em que Paul Auster demonstra, mais uma vez, porque é hoje considerado um dos grandes nomes da literatura mundial."

Este livro de Paul Auster não é um livro fácil de se ler. As três histórias que o constituem estão cheias de coisas e acontecimentos que não fazem muito sentido, as personagens têm comportamentos difíceis de aceitar, inesperados e auto-destrutivos. Nada de muito novo no que diz respeito aos livros de Paul Auster. :)

A Trilogia de Nova Iorque é um livro ainda mais estranho e irreal que os restantes que já li do autor. As três histórias aparentemente nada têm a ver umas com as outras, a não ser o tom e o facto de todas serem sobre homens, solitários, perdidos e esquecidos numa cidade gigante, alienados do que os rodeia, ignorados e extremamente infelizes. Nada mais parece ligar estes homens que desistem da vida que levam, para vigiarem a vida de outros homens e serem completamente absorvidos pelas vidas e rotinas da pessoa que vigiam obsessivamente.

Na primeira história, A Cidade de Vidro, conhecemos Daniel Quinn, um escritor de policiais bem sucedido, que deixou de escrever poemas no dia em que perdeu a mulher e o filho pequeno. Quinn vive sozinho, ocupa o seu tempo entre um livro e outro, a vaguear por Nova Iorque, sem destino pré-definido, gosta de andar e deixar de se sentir na sua pele, ser absorvido pela multidão e conseguir não pensar. Uma noite a sua rotina é interrompida por um estranho telefonema de um homem que lhe pede ajuda, julgando que Quinn é Paul Auster, um detective privado. :)A partir deste telefonema a vida de Quinn muda e nunca mais será como era.
Gostei muito desta história e da forma como Auster nos conta a crescente loucura e alienação de Quinn. À medida que este se vai perdendo, a sua história torna-se cada vez menos credível e temos dificuldade em distinguir o que é real e o que não será bem o que aparenta.

A segunda história, Fantasmas, é uma história estranha sobre um detective privado, Blue, que é contratado por White para vigiar um outro homem, Black. Estranho? Sim, mas não são apenas os nomes das personagens que são diferentes. Blue, instala-se num apartamento em frente ao apartamento de Black e passa os dias em frente à janela a vigiar os movimentos de Black. Depois de um tempo, está de tal forma sintonizado com as rotinas de Black, que já nem precisa de vigiar, simplesmente sabe o que o outro está a fazer. Será mesmo assim? É o que nos vai sendo contando ao longo desta história, mais uma vez cheia de solidão e infelicidade.
Embora existam semelhanças entre esta e a primeira história, não tive a sensação de que estava a ler mais do mesmo. Gostei, mais uma vez, da forma como Auster parece conhecer o que é ser umas destas personagens, sozinhas e desligadas do resto do mundo.

A terceira e última história, O Quarto Fechado, é talvez a mais confusa das três. Um crítico literário, escritor frustrado, de quem não sabemos o nome, recebe notícias de um amigo de infância, Fanshawe que, aparentemente desapareceu sem deixar rasto.
Fanshawe é uma personagem completamente atípica, um homem extremamente inteligente e escritor talentoso, embora nunca tenha publicado uma única obra. É admirado por todos os que o conhecem e o narrador foi o seu melhor amigo na infância. Antes de desaparecer, Fanshawe deixou indicações precisas sobre o que deveria ser feito às suas obras por publicar, caso algo lhe acontecesse. O narrador, por razões que este não entende, foi o escolhido para ser o depositário da obra deixada pelo amigo. Vê-se de um dia para o outro na posse de um espólio de valor incalculável e com a responsabilidade de a publicar.
Durante este percurso vão-se dando algumas mudanças no carácter do narrador, que numa espécie de insanidade temporária, subverte as suas noções de moralidade e honestidade.
Mais uma de que gostei. :)

Na terceira história são referidas personagens que são também personagens nas outras duas histórias. A única diferença entre estas parece residir apenas no facto de não se detectar nelas nenhuma da escuridão que vivem na histórias respectivas, como personagens principais.
Fazendo uma ligação entre a cidade de Nova Iorque e os temas transversais às três histórias, a sensação como que fiquei foi a da indiferença que todos sentimos nos outros e em nós próprios, principalmente se vivemos em grandes cidades, como Nova Iorque. É como se as personagens, absorvidas pelos seus dilemas pessoais não se apercebessem de quão normais podem parecer para o vizinho do lado, absorvido pelos seus próprios problemas. Não sabemos, nem queremos saber, dos problemas das pessoas que se cruzam connosco na rua e se sentam ao nosso lado nos transportes. Nem nos passa pela cabeça a possibilidade de os nossos medos poderem ser comuns e, portanto, partilhados, divididos e esvaziados de algum do drama. :)

Paul Auster é um escritor genial! Numa escrita leve, na forma e não no conteúdo, fala de desilusão, abandono, loucura, alienação, solidão, perda e de tristeza com uma propriedade e conhecimento que assusta. As personagens são complexas e credíveis ao mesmo tempo, com as quais nos conseguimos identificar, de alguma forma. E não poderia ser um livro de Paul Auster se não estivesse repleto de histórias dentro da história e cheio de referências a outros livros. :)

Gostei mesmo muito e, por isso, recomendo sem quaisquer reservas!

Boas leituras!

Excerto: Este livro não é dado a excertos, além disso... a opinião já vai longa! ;)

maio 13, 2012

Feira do Livro de Lisboa 2012


Mais uma Feira do Livro que chega ao fim, pelo menos para mim, pois não prevejo passar por lá amanhã. 
Este ano os felizes contemplados num mundo de escolhas infinitas foram:

- O Milagre de São Francisco - John Steinbeck
- O Remorso de Baltazar Serapião - Valter Hugo Mãe
- O Homem Lento - J. M. Coetzee
- A Maldição (Duma Key) - Stephen King
- O Desejo de Kianda - Pepetela

Embora tenha achado a Feira menos diversificada na oferta, com os Alfarrabistas a terem todos os mesmo livros (pelo menos fiquei com essa sensação das vezes que lá fui) e os grandes grupos editoriais, principalmente a Leya, a tornarem cada vez mais notada a sua presença. Parecem lojas dentro da Feira, um evento à parte... Este ano senti mais essa "imposição", talvez porque fiquei com a impressão de que havia menos barraquinhas fora dos espaços delimitados pelos alarmes. Não tenho nada contra estes grupos editoriais, os preços que praticam são, muitas vezes apelativos e a individualidade de cada editora que os constituem parece-me que continua presente, no entanto os preços de Feira não eram muito diferentes dos praticados ao longo do ano, daí ter sentido a Feira menos Feira, este ano. O lado positivo foi não ter sofrido de muita ansiedade quanto ao que queria comprar agora. :)

Conversetas à parte, estou muito contente com os livros que comprei. O de Steinbeck não precisa de justificação, tinha saudades de ler alguma coisa dele, o mesmo se aplica ao do Pepetela e ao do Stephen King, do qual me tenho mantido afastada por causa do preço destas novas edições todas catitas. :) Desde o No Coração desta Terra do Coetzee que fiquei com vontade de voltar a este escritor e, como livro do dia, pareceu-me uma boa escolha. valter hugo mãe, para além de darem um saco de pano todo giro, foi das melhores surpresas do ano de 2011, pelo que, não pensei duas vezes em trazer este para casa.

A cereja em cima do bolo foi ter quebrado o enguiço e ter comprado umas coisinhas para as minhas sobrinhas! :)

Acho que a Feira não devia sair do Parque Eduardo VII. É excelente para dar uma volta à hora de almoço, para comer um gelado ou uma fartura... Onde é que vou fazer isso agora? :p

Boas leituras e bom último dia de Feira!!!

maio 01, 2012

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia - J. Rentes de Carvalho

Título original: Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia
Ano de edição: 2011
Autor: J. Rentes de Carvalho
Editora: Quetzal Editores

"Uma paixão tórrida em Sevilha; a crueldade de um filantropo inglês; o crime passional de Bebé Almeida; uma fria manhã de Paris de 1955; o afamado bordel de Madame Blanche enquadram algumas das extraordinárias histórias que compõem Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, o mais recente livro de ficção de J. Rentes de Carvalho."


Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia estava nas minhas estantes, quieto e silencioso desde a Feira do Livro de Lisboa do ano passado. Finalmente pediu para ser lido e em boa hora o fez. Numa altura em que o tempo para ler não abunda, o melhor é mesmo ficar-me por escritores que já conheço e que tenho a certeza serem uma boa companhia. J. Rentes de Carvalho é assim, embora dele só tenha lido dois livros, A Amante Holandesa e Ernestina, já aqui comentados, a afinidade foi imediata e irreversível. É para mim um velho conhecido. :)

Os Lindos braços da Júlia da Farmácia é uma colectânea de pequenas histórias sobre os mais variados temas que, na maioria delas, o que têm em comum é o narrador, a familiaridade e a proximidade que transmitem. O narrador parece-se muito com J. Rentes de Carvalho, melhor dizendo, a vida do narrador parece-se muito com aquilo que conhecemos ser a vida de J. Rentes de Carvalho. É impossível não associar uma coisa à outra e, embora ficcionadas, muitas das histórias serão baseadas em factos reais.
As histórias falam de amores antigos, falam de encontros e de velhos amigos, falam da infância e das recordações que dela trazemos, falam da família e da terra, falam de aventuras e de histórias do dia-a-dia e falam de coisas tão simples como os lindos braços da Júlia da farmácia. Esta história que dá nome ao livro é a mais curta que nele encontramos e nada mais é do que um pequeno texto acerca dos braços magníficos da Júlia da farmácia e do fascínio que provocava num senhor de certa idade. :)

É-me difícil destacar uma ou outra história porque gostei de todas elas e, como são todas muito diferentes é complicado referir uma e não outra. No entanto, gostei particularmente da "Incêndio no Chiado" onde é notório o carinho que o autor tem por esta zona da capital e achei deliciosa a "No Barbeiro" onde o narrador recorda um episódio da infância.

Gosto muito da forma como J. Rentes de Carvalho escreve, de forma descontraída e bem-humorada, isto aliado ao facto de as histórias que conta serem sempre boas é a combinação perfeita para termos um livro dos bons.

Nunca é demais dizer que gosto de J. Rentes de Carvalho e, a cada livro que leio dele, gosto mais um bocadinho.

Recomendo!

Boas leituras!

Excerto:
"Segunda-feira de manhã, iluminados pelo sol, os escombros parecerem-me ainda mais terríveis e desesperados, ao mesmo tempo símbolo e sinal de mau agouro num país onde, mau grado a democracia recuperada, a vida da maioria continua a ser uma longa espera impotente e triste entre coisas que apodrecem e coisas que ardem."

abril 08, 2012

Inés da Minha Alma - Isabel Allende

Título original: Inés del Alma Mia
Ano da edição original: 2006
Autor: Isabel Allende
Tradução do francês: Ana Mendes Lopes
Editora: Difel
"«Suponho que venham a colocar estátuas da minha pessoa nas praças, e haverá, por certo, ruas e cidades com o meu nome, tal como as haverá também com o nome de Pedro Valdivia e outros conquistadores, mas as centenas de mulheres que tanto se esforçaram por fundar as cidades, enquanto os seus maridos lutavam, serão, quase de certeza, esquecidas.»
Inés Suárez é uma jovem e humilde costureira, oriunda da Extremadura, que embarca em direcção ao Novo Mundo para procurar o marido, extraviado com os seus sonhos de glória do outro lado do Atlântico. Anseia também por viver uma vida de aventuras, vedada às mulheres na pacata sociedade do século XVI. Na América, Inés não encontra o marido, mas sim uma grande paixão: Pedro de Valdivia, mestre-de-campo de Francisco Pizarro, ao lado de quem Inés enfrenta os riscos e as incertezas da conquista e fundação do reino do Chile.
Neste romance épico, a força do amor concede uma trégua à rudeza, à violência e à crueldade de um momento histórico inesquecível. Através da mão de Isabel Allende confirma-se que a realidade pode ser tão ou mais surpreendente que a melhor ficção, e igualmente cativante."

Isabel Allende raramente desilude e por isso, quando decido ler mais um livro dela sei que vão ser horas bem passadas. Não existem expectativas a gerir, uma vez que é quase garantido que o livro vai ser bom. Inés da Minha Alma é assim, um livro de Isabel Allende que cumpre em todas as vertentes aquilo que se espera desta escritora. Pode até não ser o seu melhor livro mesmo que a época retratada seja fascinante, as personagens cativantes e a história envolvente, não achei este o seu livro mais inspirado. No entanto, é sem qualquer dúvida, um livro que valeu cada segundo que lhe foi dedicado.

O livro relata a história de Inés Suárez, a conquistadora do Chile. Inés Suárez nasceu na Extremadura, em Espanha, de origens humildes, nunca poderia adivinhar que a vida lhe reservava muito mais do que a costura e um casamento mais ou menos feliz.
Quando o marido parte na aventura da descoberta do Novo Mundo, as novas terras conquistadas pelos espanhóis, no outro lado do atlântico, Inés fica, como qualquer esposa da época, à espera do seu regresso ou do anúncio da sua morte. Cansada de esperar por uma coisa ou pela outra, Inés decide aproveitar a oportunidade de cortar com a vida que leva, parte em busca de notícias do marido e embarca num navio que a leva até ao Peru, a mais recente jóia da coroa espanhola. No entanto, não é tanto a busca do marido que a move, e sim a oportunidade de ser mais do que uma humilde costureira, ao recomeçar uma nova vida numa sociedade em construção onde, até as mulheres tem a possibilidade de se sentirem úteis.

Seguindo o rasto do marido, acaba por conhecer o homem que lhe vai mudar a vida, Pedro de Valdivia, com quem parte na conquista do Chile, terra até então inconquistável devido à tenacidade das tribos Mapuche que lá habitavam. Os mapuche eram considerados uma das tribos mais combativas e menos "domesticáveis" de todo o Novo Mundo. Juntos, Inés e Pedro, fundam a primeira cidade do Chile, Santiago e nela iniciam o sonho de construir uma sociedade justa (para os padrões da época), onde os seus habitantes dessem mais importância à fertilidade da terra, ao clima ameno e à beleza da paisagem, em vez de correrem, como loucas atrás do ouro e da prata, abundantes nas regiões conquistadas e muito procurados por aquelas bandas.

Para além da ambição do ouro e da prata, a única coisa que impedia o sonho dos dois de se tornar realidade eram os índios Mapuche, que se recusavam a render, a ser colonizados, recusavam entregar as suas terras e ser evangelizados, e que eram incapazes de perceber como é que os homens barbudos davam mais importância ao ouro e à prata e tão pouca importância à liberdade. Lutaram de forma feroz, suicida, com armas incapazes de derrotar o metal dos europeus, lutaram de forma instintiva, sem qualquer estratégia. Não fossem eles tantos e, provavelmente deles não rezaria a história.

São impressionantes as descrições das batalhas e da forma como os índios, não só os mapuche do Chile, mas todos os colonos das terras conquistadas, eram tratados. A forma como "nós", os Europeus entrámos pelas terras deles, e lhes alterámos a forma de vida, impondo regras e crenças que não conseguiam compreender e das quais não precisavam.
Foi muitas vezes desconfortável ler algumas opiniões, algumas formas de pensar da época, mesmo contextualizado e tentando não ver à luz dos nossos dias, foi muitas vezes revoltante a forma como exaltamos algo que tanto sofrimento trouxe a outros seres humanos. Este livro acaba por ser um misto de sentimentos, porque se por um lado sentimos um grande orgulho na mulher que ajudou a fundar o Chile, que lutou ao lado dos homens e que teve um papel tão ou mais importante que estes, por outro, não deixamos de nos sentir chocados pelo preço que foi infligido aos índios. Se por um lado reconhecemos em Inés e em Pedro, um bom coração, inteligência e muita coragem, por serem duas pessoas que tinham uma forma de pensar diferente da maioria, não podemos, por outro lado, deixar de sentir uma impotência grande porque, em abono da verdade, não havia outra forma de conquistar novos mundos, sem ser com sangue e sacrifício de vidas humanas. Que mundo seria o nosso se todos os povos conquistadores não tivessem aniquilado a cultura e a história dos povos conquistados? É impossível saber...

Gostei bastante do livro, principalmente da história. Acho que Isabel Allende consegue criar, no leitor, este desconforto por fazermos, quer queiramos quer não, parte dos conquistadores, beneficiando até hoje dessas conquistas, que agora nos parecem tão aberrantes. O livro é lido tendo sempre presente esta ambivalência dos sentimentos e da nossa consciência colectiva.

Gostei das personagens, mais uma vez Isabel Allende apresenta-nos uma personagem feminina muito forte, uma autêntica guerreira, sem ser uma amazona e sem perder aquelas características que nos tornam a nós, mulheres, de uma forma ou de outra, semelhantes. Gostei de Inés Suárez, mais ainda sabendo que é uma personagem real, e das restantes personagens.

Recomendo vivamente, não só por ser Isabel Allende, mas porque é mesmo um livro interessante.

Boas leituras!

Excerto:
"Quando chegámos ao Chile nada sabíamos dos Mapuche, pensado que seria fácil submetê-los, como fizemos com povos mais civilizados, os Astecas e os Incas. Demorámos muitos anos a compreender quão errados estávamos. Não se vislumbra o fim desta guerra, porque quando torturamos um toqui logo aparece outro, e quando exterminamos uma tribo inteira, outra sai do bosque e toma o seu lugar. Nós queremos fundar cidades e prosperar, viver com decência e descanso, enquanto eles só querem a liberdade."
"Para eles quem provê é a Santa Terra, as pessoas ficam com o necessário e agradecem, não exigem mais não acumulam; o trabalho é incompreensível, uma vez que não há futuro. Para que serve o ouro? A terra não é de ninguém, o mar não é de ninguém; a simples ideia de os possuir ou dividir produzia ataques de riso ao normalmente soturno Felipe. As pessoas também não pertencem umas às outras. Como podem os huincas comprar e vender gente que não é sua? Por vezes, o menino passava dois ou três dias mudo, esquivo, sem comer, e quando lhe perguntava o que tinha, a resposta era sempre a mesma: «Há dias alegres e dias tristes. Cada um é dono do seu silêncio.»"

março 30, 2012

82ª Feira do Livro de Lisboa 2012

http://feiradolivrodelisboa.pt/

O Parque Eduardo VII começou esta semana a ser preparado para mais uma Feira do Livro de Lisboa. 

Agora que estou tão perto e posso acompanhar desde o início o evento para o qual ainda faltam tantos dias, sofro com ansiedade... Pela minha saúde, gostaria que as barraquinhas estivessem por lá todo o ano! Pela minha carteira... bem, pela minha carteira é melhor que seja apenas uma vez por ano. ;)

Boas leituras!

março 22, 2012

Uma Cana de Pesca para o Meu Avô - Gao Xingjian

Título original: Gei Wo Laoye Mai Yugan
Ano da edição original: 1990
Autor: Gao Xingjian
Tradução do francês: Carlos Aboim de Brito
Editora: Publicações Dom Quixote

"Com imenso talento, subtileza e inteligência, Gao Xingjian percorre, nestes seis inesquecíveis contos, os lugares da infância, as alegrias simples do amor e da amizade, os dramas da rua e as tragédias vividas pela China. Sorrisos e lágrimas atravessam esta leitura, que nos deixa o belo e suave sabor da emoção. A revelação de um dos maiores escritores chineses da actualidade."

Eis que, no espaço de um mês leio dois prémios Nobel da literatura, Ivo Andrić e agora o Gao Xingjian, escritores dos quais ainda não tinha lido nada. :)

Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, é uma colectânea de contos a transbordar de simplicidade, cultura oriental e poesia.
Ao longo dos cinco contos que compõem este pequeno livro, o escritor dá-nos a conhecer o amor, a amizade, a morte, a saudade e a vida.

No primeiro conto, O Templo, intromete-mo-nos na lua-de-mel de um casal jovem que transmite uma tal serenidade na forma de se amarem e de estarem juntos, não só como casal, mas também como amigos e companheiros que são, que só podemos sorrir durante a sua leitura.

No segundo conto, O Acidente, passamos da vida e do amor para a morte e um outro tipo de amor. Neste conto, um homem é atropelado por um autocarro e morre. No local do acidente junta-se uma multidão perplexa e cheia de opiniões, como só este tipo de desgraças consegue juntar. O fascínio que todos acabamos por sentir, de uma forma ou de outra, por situações como esta é estranhíssimo, inexplicável e, neste caso inconsequente, porque passadas apenas algumas horas após o acidente, já todos seguiram com as suas vidas e no local do acidente já nada nem ninguém recorda a vida que ali se perdeu.

O terceiro conto, A Cãibra, traz o tema do mar, que se repete nos contos que se seguem. Um rapaz nada no mar e sente uma cãibra, aflito para regressar a terra firme deseja que a rapariga que estava a tentar impressionar o tivesse visto entrar no mar e se aperceba da sua situação.

No quarto conto, Num Parque, conhecemos um rapaz e uma rapariga que se reencontram ao fim de alguns anos. No passado gostaram um do outro mas nunca deram o passo que levaria a relação mais além. A vida separa-os e, agora que se voltaram a encontrar, aquilo que sentiam um pelo outro, embora intacto já não faz muito sentido. Ao longe, no mesmo parque, observam uma rapariga que chora. Não a tentam consolar porque de nada servirá, a dor é algo que faz parte da vida e da qual não se consegue fugir.

O conto que dá nome ao livro, Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, é o mais extenso e aquele em que a escrita de Gao Xingjian se torna mais apelativa e imaginativa. Um conto com um cheirinho oriental e muito bom de se ler, cujo título resume bem aquilo de que trata. Um homem jovem compra uma cana de pesca para o avô que não vê há muitos anos e de quem sente muita falta. O conto narra a infância deste homem junto do avô que lhe ensinou tanto. Uma história de saudade, de esquecimento e lembrança.

O último conto, intitulado Instantâneos, não é bem um conto, mas sim, como o próprio nome indica, instantâneos. A narração de alguns instantes nas vidas de várias personagens sendo possível perceber um fio condutor que os liga uns aos outros. O mar volta a ser uma referência importante. Gostei bastante destes Instantâneos. :)

Gostei desta colecção de pequenas histórias e da escrita de Gao Xingjian, poética e colorida.

Recomendo!

Boas leituras!!! :)

Excerto:
"A bola de sabão aumenta à medida que lhe sopram. À superfície, a água com sabão move-se cada vez mais depressa e, quanto mais a luz do sol se reflecte nela, mais brilhante e multicolor fica. Chegada ao ponto limite, desaparece sem ruído, revelando a cara espantada do rapazinho que a soprava."

março 18, 2012

A Ponte Sobre o Drina - Ivo Andrić

Título original: Na Drini Cuprija
Ano da edição original: 1945
Autor: Ivo Andric
Tradução do servo-croata: Lúcia e Dejan Stankovic
Editora: Cavalo de Ferro
 
"No início o leitor encontra-se em pleno século XVI, em Višegrad, cidade na fronteira entre a Sérvia e a Bósnia. Mehmed-Paxá, Grão-Vizir, sonha ainda com o dia em que, criança, foi separado da sua família cristã, obrigado a atravessar para a outra margem do rio. É essa criança que agora, décadas depois, convertido à fé do Islão, dá a ordem de construção de uma ponte sobre o rio Drina.
Esta é a história épica dessa ponte, e também dos que a cruzam. A sua edificação exigiu anos de trabalho árduo, lágrimas e sangue, sacrifícios e vítimas. Ao longo dos séculos a ponte foi local de passagem, de encontros, de conversas, de conspirações; sofreu inundações, foi encerrada para impedir o alastrar da peste, assistiu a suicídios; sobre ela transitaram exércitos em fuga e desfilaram outros vitoriosos; nela foram executados espiões; acompanhou o desmoronar de impérios e o nascer de novas nações...
Romance histórico, grande épico europeu, «A ponte sobre o Drina» pertence à categoria das obras incontornáveis da literatura mundial."

Este foi um livro que me custou muito a ler... Demorei uma eternidade a acabá-lo porque não tenho tido oportunidade de ler sem ser antes de ir dormir e... invariavelmente acabava por adormecer ao fim de uma ou duas páginas. :) Que fique bem claro que o problema não é do livro, que é sobejamente interessante e envolvente, o problema é mesmo meu. O João Pestana parece ter-se mudado aqui para casa! :p

A Ponte Sobre o Drina é, como o nome indica, uma espécie de crónica acerca de uma ponte sobre o Drina, mandada construir pelo Grão-Vizir, Mehmed-Paxá e que permitiu unir as duas margens da cidade de Višegrad, uma pequena cidade na Bosnia-Herzegovina e vizinha da Sérvia. Em 1571, quando o Grão-Vizir manda construir a ponte sobre o Drina, toda aquela zona fazia parte do Império Otomano e, por isso coabitavam no mesmo território, bósnios, turcos, sérvios e alguns judeus. A coabitação, embora tensa, era cordial e Višegrad sempre foi considerada uma cidade pacífica cujos habitantes eram conhecidos pela diversão e descontração.

A história que Ivo Andrić conta é a história da ponte mas, na realidade a história que se conta é a da Bósnia Herzegovina e da zona dos Balcãs, zona conflituosa, desejada e continuamente conquistada pelos diferentes líderes do mundo. Fizeram parte do Império Otomano, foram ocupados pelo Império Austro-Húngaro e, quando o herdeiro ao trono Austro-Húngaro, Franz Ferdinand é assassinado por um membro do movimento nacionalista Young Bosnia, que lutava pela unificação dos países eslavos, inicia-se uma guerra que acaba por levar à I Guerra Mundial. 
Conhecemos uma parte da história do mundo, até 1914, ano em que a crónica termina, com a destruição de um dos pilares centrais da ponte sobre o Drina, através dos olhos dos habitantes de Višegrad, dos naturais da cidade e daqueles que a adoptaram como sendo a sua casa. É através das histórias de vidas destas pessoas, histórias simples quase do quotidiano, que Ivo Andrić nos vai dando a conhecer um povo, uma cultura e o que este contribuiu para a história da humanidade. Entrelaçadas em histórias de amor, de desencanto ou de luta por uma vida melhor, encontramos o nascimento da política como a conhecemos hoje em dia e, é-nos permitido observar de perto como é que uma força estrangeira consegue, com organização e implementação de leis rígidas, que resultam em progresso e em enriquecimento aparente, ocupar um país durante décadas e de forma relativamente pacífica. Vemos de perto a alteração de formas de viver, quando em Višegrad os habitantes começam a ganhar gosto pelo consumismo não se sentindo inibidos naquilo que desejam possuir e fazer. Višegrad é-nos apresentada quase como um tubo de ensaio da sociedade em que vivemos hoje.

A ponte sobre o Drina "assiste" a todas estas mudanças e movimentações, serve de forma isenta cada um dos protagonistas e resiste a todas as provações - "A sua vida, ainda que em si finita, assemelha-se à eternidade, pois o seu termo não é previsível", sobrevive aos Homens e às suas acções - "Assim, as gerações sucederam-se ao redor da ponte e a ponte sacudia de si, como quem sacode o pó, todos os traços que nela deixavam os caprichos humanos ou os acontecimentos efémeros e permanecia, depois de tudo passar, inalterada e inalterável." e resiste ao passar dos séculos, continuando a existir e a ser a ponte sobre o rio Drina, ponto de referência para os seus habitantes e para os que se deslocam a Višegrad, de propósito para a verem.

Gostei bastante do livro, tive alguma dificuldade com os nomes e a geografia da região, no entanto, isso não afectou a minha capacidade de apreciar o livro. Achei a escrita de Ivo Andrić interessante e dinâmica, pois enquanto que nalgumas páginas o tom era mais documental, mais próxima da crónica que pretende ser, noutras o tom é puramente ficcional, a escrita é bonita, poética e extremamente eficaz visualmente.

Recomendo como não poderia deixar de ser. É realmente um documento que permite conhecer um pouco mais da história mundial, em particular de uma região culturalmente tão rica.

Boas leituras!

Excerto:
"Como tantas vezes acontece na história humana, a violência, a pilhagem, e mesmo o assassínio, eram tacitamente permitidos desde que fossem cometidos em nome de interesses superiores, em conformidade com regra estabelecidas e contra um número limitado de pessoas de uma determinada espécie ou credo.
Um homem de espírito puro e de olhos abertos que então vivesse poderia testemunhar como é que se dá esse milagre e como uma sociedade inteira se podia transformar num único dia. Em poucos minutos a tradição secular da cidade foi devastada. É certo que sempre tinham havido secretos ódios e despeitos, intolerância religiosa, infâmia e crueldade, mas também sempre houvera amizade e magnanimidade, e um sentimento de decência e de ordem, que mantinham todos os instintos vis dentro dos limites do suportável, e que, ao fim e ao cabo, os acalmavam e os submetiam ao interesse geral da vida em comum"