Título original: Slow Man
Ano da edição original: 2005
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote
"Neste romance, Coetzee oferece-nos uma profunda meditação sobre o que faz de nos humanos e o que significa envelhecer, reflectindo no modo como vivemos as nossas vidas.
Como todas as grandes obras literárias, O Homem Lento levanta questões mas raramente oferece respostas. Em consequência de um acidente, Paul Rayment altera a perspectiva que tem da vida e começa a dedicar-se ao género de preocupações universais que nos definem a todos: O que significa fazer o bem? O que é que nas nossas vidas é, em última análise significativo? É mais importante que alguém nos ame ou que alguém se interesse por nós? Como definimos o local a que chamamos "casa"?
Na sua voz lúcida e firme, Coetzee debate-se com estas problemáticas. O resultado é uma história profundamente comovedora, sobre o amor e a mortalidade, que deslumbra o leitor a cada página."
Agora que a Feira do Livro deste ano se aproxima a passos largos, chegou a altura de ler os livros que foram comprados o ano passado. O Homem Lento do Coetzee foi um dos que veio para casa comigo, deixando para trás tantos e tantos livros por ler...
Gosto de Coetzee, gosto da forma como conta uma história e de como constrói as personagens.
Deste, O Homem Lento, não gostei tanto... A verdade é que até estava a gostar, mas a "aparição" de Elizabeth Costello deixou-me um pouco confusa e o livro tornou-se estranho. Achei a personagem pouco credível e a forma com foi introduzida na história despropositada. O livro acabou por não ser bem aquilo que eu estava à espera, no entanto, não dei o meu tempo por desperdiçado, porque, tirando Elizabeth Costello, com quem confesso ter embirrado um pouco, as restantes personagens são interessantes e, à semelhança do que aconteceu com outros livros que li do mesmo autor (No Coração desta Terra e A Idade do Ferro, já comentados aqui e aqui), a personagem principal, Paul Rayment, está muito bem construída.
Rayment é um sexagenário divorciado e sem filhos, que num dos seus passeios diários de bicicleta vê a sua vida mudar por completo ao ser abalroado por um carro. O acidente não o mata, mas como consequência do mesmo é-lhe amputada uma perna e alguma da sua vontade de viver desaparece.
Sem família que o possa ajudar nesta fase da sua vida, Paul começa a questionar até que ponto, ao longo da sua vida, fez as melhores escolhas e se ainda vai a tempo de corrigir algumas delas.
O Homem Lento conta a história de Paul Raymen, mas poderia ser a história de outro idoso qualquer, dos muitos que chegam à terceira idade sozinhos, porque nunca lhes passou pela cabeça poderem vir a precisar de alguém para além deles próprios.
É a história de um homem que, com mais de sessenta anos se vê obrigado a aprender a viver com limitações físicas, dependente dos outros, de estranhos condescendentes que o tratam como um mentecapto. O ajustamento a um mundo que aparentemente já não lhe reconhece utilidade possível é difícil e doloroso. A resistência à mudança por parte dele é grande o que dificulta, e muito, a convivência dos outros com ele. A ideia de se suicidar ronda-o permanentemente, até ao dia em que conhece Marijana, a enfermeira croata, contratada para o ajudar na adaptação deste à sua nova vida. Marijana é a primeira pessoa, depois do acidente a tratá-lo com respeito, sem condescendência, de forma profissional. Esta mulher dos balcãs, para além da ansiada dignidade, traz a Rayment e à sua vida empoeirada, uma lufada de ar fresco.
O Homem Lento é, literalmente Paul Rayment, que lentamente vai procurar encontrar o seu lugar no mundo, tentando deixar para a história mais do que uma invejável colecção de velhas fotografias, a serem expostas, depois da sua morte. Rayment quer ser recordado com carinho, quer que alguém lhe sinta a falta. Quem não deseja o mesmo? :)
Este é um livro, como muito bem diz a sinopse, que levanta uma série de questões, relacionadas com o envelhecimento, com a solidão na terceira idade, com o amor interessado ou desinteressado, com o sentimento de pertença a um sítio ou a alguém, com a vontade de fazer o bem, de sentir que toda a nossa vida teve significado, não tendo sido uma mera passagem.
Gostei da história, gostei das ideias e das reflexões que levanta, gostei das personagens, mas de uma forma geral, se este tivesse sido o meu primeiro livro de Coetzee talvez não tivesse ficado tão impressionada com o escritor, como fiquei depois de ler No Coração desta Terra.
Conhecendo um pouco o escritor, consigo apreciar até as suas obras menos inspiradas e por isso, este foi um livro que me fez companhia e que me deu gozo ler. Desta forma só o posso recomendar!
Boas leituras!
Nota: Aparentemente Elizabeth Costello, a personagem com quem embirrei, é uma repetente nas obras de Coetzee. Existe um livro intitulado Elizabeth Costello que, a ter sido lido primeiro me poderia ter ajudado a enquadrar a forma intempestiva com que esta invade a vida de Paul Rayment. Talvez um dia o leia...
Excerto:
"Dirá alguma coisa sobre ele, essa preferência nata preto e branco e matizes de cinzento, essa falta de interesse pelo novo? Seria disso que as mulheres sentiam a falta nele, em particular a sua mulher: cor, abertura?
A história que contou a Marijana foi que guardava fotografias antigas por fidelidade aos seus objectos, os homens, mulheres e crianças que ofereciam os seus corpos à lente do estranho. Mas isso não é a verdade integral. Guarda-as por fidelidade às fotografias em si, às reproduções fotográficas, a maioria delas sobreviventes, únicas. Dá-lhes um bom lar e vela, tanto quanto consegue, tanto quanto alguém pode, por que elas tenham um bom lar depois de ele desaparecer. Talvez, por seu turno, algum estranho ainda por nascer vá rebuscar o passado e guarde uma fotografia sua, do extinto Rayment da Doação Rayment."
É a história de um homem que, com mais de sessenta anos se vê obrigado a aprender a viver com limitações físicas, dependente dos outros, de estranhos condescendentes que o tratam como um mentecapto. O ajustamento a um mundo que aparentemente já não lhe reconhece utilidade possível é difícil e doloroso. A resistência à mudança por parte dele é grande o que dificulta, e muito, a convivência dos outros com ele. A ideia de se suicidar ronda-o permanentemente, até ao dia em que conhece Marijana, a enfermeira croata, contratada para o ajudar na adaptação deste à sua nova vida. Marijana é a primeira pessoa, depois do acidente a tratá-lo com respeito, sem condescendência, de forma profissional. Esta mulher dos balcãs, para além da ansiada dignidade, traz a Rayment e à sua vida empoeirada, uma lufada de ar fresco.
O Homem Lento é, literalmente Paul Rayment, que lentamente vai procurar encontrar o seu lugar no mundo, tentando deixar para a história mais do que uma invejável colecção de velhas fotografias, a serem expostas, depois da sua morte. Rayment quer ser recordado com carinho, quer que alguém lhe sinta a falta. Quem não deseja o mesmo? :)
Este é um livro, como muito bem diz a sinopse, que levanta uma série de questões, relacionadas com o envelhecimento, com a solidão na terceira idade, com o amor interessado ou desinteressado, com o sentimento de pertença a um sítio ou a alguém, com a vontade de fazer o bem, de sentir que toda a nossa vida teve significado, não tendo sido uma mera passagem.
Gostei da história, gostei das ideias e das reflexões que levanta, gostei das personagens, mas de uma forma geral, se este tivesse sido o meu primeiro livro de Coetzee talvez não tivesse ficado tão impressionada com o escritor, como fiquei depois de ler No Coração desta Terra.
Conhecendo um pouco o escritor, consigo apreciar até as suas obras menos inspiradas e por isso, este foi um livro que me fez companhia e que me deu gozo ler. Desta forma só o posso recomendar!
Boas leituras!
Nota: Aparentemente Elizabeth Costello, a personagem com quem embirrei, é uma repetente nas obras de Coetzee. Existe um livro intitulado Elizabeth Costello que, a ter sido lido primeiro me poderia ter ajudado a enquadrar a forma intempestiva com que esta invade a vida de Paul Rayment. Talvez um dia o leia...
Excerto:
"Dirá alguma coisa sobre ele, essa preferência nata preto e branco e matizes de cinzento, essa falta de interesse pelo novo? Seria disso que as mulheres sentiam a falta nele, em particular a sua mulher: cor, abertura?
A história que contou a Marijana foi que guardava fotografias antigas por fidelidade aos seus objectos, os homens, mulheres e crianças que ofereciam os seus corpos à lente do estranho. Mas isso não é a verdade integral. Guarda-as por fidelidade às fotografias em si, às reproduções fotográficas, a maioria delas sobreviventes, únicas. Dá-lhes um bom lar e vela, tanto quanto consegue, tanto quanto alguém pode, por que elas tenham um bom lar depois de ele desaparecer. Talvez, por seu turno, algum estranho ainda por nascer vá rebuscar o passado e guarde uma fotografia sua, do extinto Rayment da Doação Rayment."






