setembro 27, 2014

O Teu Rosto Será o Último - João Ricardo Pedro

Título original: O Teu Rosto Será o Último 
Ano da edição original: 2012
Autor: João Ricardo Pedro 
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu.
Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial.
Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?"

O Teu Rosto Será o Último é a história de Duarte e da sua família, do avô Augusto Mendes, médico numa pequena aldeia com nome de mamífero, do interior e do pai António, um ex-combatente na guerra colonial. 
Conhecemos a família de Duarte através das memórias que ele tem das histórias que foi ouvindo ao longo do tempo.
Duarte fala-nos do avô Augusto, de como foi a vida dele, o que o levou  mudar-se para o interior para praticar medicina e de como conheceu a avó.
Sobre o pai António acaba por não falar tanto, é mais o que se intui do que aquilo que é dito. Ex-combatente na guerra colonial, após a segunda comissão regressou diferente, igual a muitos que de lá regressaram diferentes. Só o conhecemos um pouco melhor mais para o fim, até lá parece-nos uma personagem distante, com conversas um pouco estranhas, alguém que ama a família, sem dúvidas, mas um pouco alheado do que se passa. 
A mãe é uma personagem praticamente inexistente, até que, quase no fim, adquire dimensão e revela-se essencial para o equilíbrio mental do marido e do filho.
A Duarte não sei muito bem como defini-lo. É um miúdo diferente, filho único numa família marcada pelos anos da ditadura, pouco sociável e com um talento imenso e inesperado para tocar piano. Vive num mundo muito dele. É uma personagem difícil de resumir... :)

E da história julgo que não vale a pena dizer mais nada, até porque ela não é propriamente linear e é contada em pequenos capítulos, algumas vezes sem grande ligação entre si. É um daqueles livros que só lendo.

Parece que esta minha "maratona" (não planeada) de autores portugueses me está a correr muito bem. :)
João Ricardo Pedro foi o vencedor do prémio Leya de 2011 e só por isso valeria a pena dar uma espreitadela ao livro deste Engenheiro Electrotécnico. Felizmente as razões que fazem valer a pena conhecer a escrita de João Ricardo Pedro, nada tem a ver com o ter ganho um prémio com o seu primeiro livro. Vale a pena ler O Teu Rosto Será o Último porque a história e a forma como é contada são interessantes. Pode até haver no livro deste estreante algumas "orientações" editoriais que tenham tornado o livro mais "premiável", mas na verdade a qualidade de JRP, como escritor está lá, as personagens estão lá e, por isso será um escritor a manter debaixo de olho.

Gostei e recomendo.

Excerto:
"Para que, do altifalante, se ouvisse algum som, o órgão precisava de uma pilha de nove volts, mas pilhas de nove volts era coisa que não existia à venda na pequena aldeia com nome de mamífero.
Estranhamente, Duarte parecia não se importar com essa suposta contrariedade. Tratou de arranjar um assento apropriado, arregaçou as mangas do pulôver, baixou o rosto e, sobre as teclas mudas, começou a desenhar inesperados acordes e arpejos. Os dedos, silenciosos como as patas de uma aranha, movimentavam-se ora em lânguidos adágios, outra em rápidas semifusas, conforme as instruções inscritas na partitura que só Duarte parecia vislumbrar."

setembro 14, 2014

[ebook] A Confissão de Lúcio - Mário de Sá-Carneiro

Título original: A Confissão de Lúcio
Ano da edição original: 1914
Autor: Mário de Sá-Carneiro
Revisão: Ricardo Lourenço (com base na digitalização disponível na Biblioteca Digital da Casa Fernando Pessoa)

"A Confissão de Lúcio, considerada a mais importante obra de Mário de Sá-Carneiro, tem como base o triângulo amoroso entre Lúcio, o seu amigo Ricardo de Loureiro e a mulher deste, Marta.
Nesta novela escrita em forma de policial, o narrador, Lúcio, confessa a sua inocência, depois de ter passado dez anos na prisão acusado da morte de Ricardo, ocorrida em circunstâncias misteriosas e da qual a única testemunha é o próprio Lúcio.
Obra vanguardista, nela se encontram algumas das obsessões do autor: o amor pervertido, o suicídio, o sentimento de incompletude e de alienação do eu que lhe conferiram uma aura de poeta maldito."                                                                                                             Retirado do site da Wook


Não sendo adepta de poesia, nunca me tinha cruzado com nada escrito por Mário de Sá-Carneiro. E quando comecei a ler A Confissão de Lúcio não estava à espera de encontrar a escrita que encontrei. Contava encontrar um típico escritor e história dos finais do século XIX inícios do XX e na realidade, a história poderia ter sido contada por um escritor dos nossos dias e a escrita, embora com alguns traços da época é bem mais fluída e "desempoeirada", em parte porque a versão que li sofreu uma revisão, segundo o Acordo Ortográfico de 1945, pelo que a grafia é mais actual. :)
No entanto, não terá sido por isso que este livro foi uma agradável surpresa.

A Confissão de Lúcio é, literalmente a confissão de Lúcio, um escritor que acabou de sair da prisão e sente necessidade de colocar em papel o que o levou à prisão. Mais do que uma confissão é um relato do que se passou, não para se justificar aos outros mas para que toda a história de certa forma se torne mais real, em toda a estranheza que a envolve.
Lúcio vai estudar Direito para Paris, onde muitos intelectuais da época acabavam por fazer os seus estudos, e onde voltavam amiúde para estar em contacto com uma sociedade menos repressiva que a portuguesa. Na realidade, e à semelhança de muitos dos seus colegas, Lúcio gosta é de escrever e tem já alguns textos publicados.
Lá conhece Ricardo, um poeta, e a afinidade que nasce entre os dois é imediata, tornando-se inseparáveis, sendo raros os dias em que não estão juntos.
Ricardo revela-se uma pessoa amargurada, obcecado pelo facto de não ser capaz de sentir pelos outros mais do que ternura, incapaz de parar de pensar, de racionalizar. Incapaz, nas próprias palavras, de amar, de se apaixonar, de ser amigo de alguém. Para ser amigo de alguém, uma vez que apenas sente ternuras - "uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar... de estreitar... Enfim: de possuir!" - teria de "possuir, quem eu estimasse, ou mulher ou homem.". Lúcio, embora estranhe a confissão do amigo, nada diz que possa perturbar ainda mais o amigo.
E é desta relação que vive o livro, da dinâmica entre os dois. Ricardo está nitidamente apaixonado por Lúcio e tenta encontrar uma razão para o que sente bem como procurar um caminho que lhe permita "sentir" de facto a sua amizade por Lúcio. E é aí que surge Marta, supostamente a mulher de Ricardo, mas que acaba por seduzir Lúcio, tornando-se sua amante. 

E sobre a história não vale a pena dizer mais nada.

A personagem de Lúcio fez-me lembrar Raskólnikov, do recém lido Crime e Castigo (opinião aqui). Pela crescente loucura e constante perda de noção da realidade. Não sabemos o que realmente se passou ou não passou. Com Lúcio passa-se mais ou menos o mesmo. Vê-se envolvido numa espécie de sonho, envolto numa neblina que não lhe permite distinguir a realidade. E é dessa forma que descreve os seus dias em Lisboa, como os lembra, envoltos numa neblina e em confusão mental.

Foi uma boa surpresa este livro, pelo tema e pela forma como este é abordado. Recomendo.

Boas leituras!

Excerto:
"Antes, não quis porém deixar de escrever sinceramente, com a maior simplicidade, a minha estranha aventura. Ela prova como factos que se nos afiguram bem claros são muitas vezes os mais emaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverosímil — embora verdadeira.
Assim eu para que lograsse ser acreditado, tive primeiro que expiar, em silêncio, durante dez anos, um crime que não cometi…
A vida…"

Nota:
Ebook retirado do site do Projecto Adamastor - http://projectoadamastor.org/. Podem encontrar lá outras obras de autores lusófonos, de domínio público, em formato digital com edições de muita qualidade.

setembro 11, 2014

Por Este Mundo Acima - Patrícia Reis


Título original: Por Este Mundo Acima
Ano da edição original: 2011 
Autor: Patrícia Reis 
Editora: Publicações D. Quixote

"Um cenário de terrível desastre assola Lisboa.
Entre os sobreviventes há um velho editor procurando amigos e amores desaparecidos. Encontra um manuscrito e um rapaz e, neles, a porta para uma outra dimensão na vida.
Por Este Mundo Acima é a consagração dessa melhor forma de amor a que chamamos amizade. Uma história sobre a importância redentora dos livros."


O nome Patrícia Reis ficou-me na memória depois de ter lido Morder-te o Coração de que gostei muito (opinião aqui). A forma como escreve deixou-me curiosa para outros livros dela. Na feira do livro deste ano aproveitei e comprei. Para além do título, que acho lindo, fiquei curiosa para descobrir como seria um livro num cenário pós-apocalíptico escrito por ela. :)

Eduardo é a personagem principal da história. Conhecemo-lo já depois do "acidente", como um dos poucos sobreviventes de um desastre natural qualquer que empurrou de volta para a idade da pedra a humanidade. Sem tecnologia, electricidade, água canalizada ou saneamento básico. Coisas que todos consideramos básicas para sobrevivermos... No entanto Eduardo sente, acima de tudo falta dos amigos, Sofia, Lourenço e Jaime. Sente falta de ter com quem conversar, das risadas e da música. Aterrorizado com o que possa encontrar para lá da porta de casa, vai ficando, fechado em casa, com os seus livros, as suas memórias e o medo. No dia em que finalmente ganha coragem para sair, encontra um cenário desolador, de destruição total. Pensa em procurar os amigos, mas não sabe se o conseguirá fazer. Vislumbra outras pessoas na rua mas, tal como Eduardo, todos sentem receio de falar uns com os outros e seguem caminho sem trocarem uma palavra. A necessidade altera o comportamento das pessoas, nunca se sabe se nos querem fazer mal. As ruas estão cheias de corpos, toda a ordem social eclipsou-se. Não existem autoridades, não existe um governo não existe nada, apenas o caos. Eduardo sente-se deslocado, não é novo, não sabe se conseguirá sobreviver - ter de pilhar, de lutar pela última lata de atum... Regressa a casa cansado e triste e a sentir cada vez mais a falta dos amigos, que acredita estarem mortos. Que outra razão existiria para que não tivessem ido até ele?
Aos poucos Eduardo começa a adaptar-se à nova vida, os corpos nas ruas já nem os vê, aventura-se pelas redondezas e vai sobrevivendo. Em casa tem a companhia dos livros, a preciosa biblioteca da avó repleta de histórias que nunca o deixam só.
Redescobre um sentido para a vida quando lê um manuscrito que lhe tinha sido entregue, Eduardo era editor antes do "acidente", para publicar - A Noiva Chegou de Autocarro, e que ainda não tivera oportunidade de ler. O livro, escrito por um jovem escritor desconhecido, deixa Eduardo fascinado e, ao mesmo tempo, angustiado por não ser possível partilhá-lo com ninguém, de não ser possível publicá-lo. Queria gritar ao mundo que no meio de todo aquele caos, tinha encontrado vida, que ainda era possível criar e progredir. Os anos passam e nada muda na vida de Eduardo, até ao dia em que encontra Pedro, uma criança de 8 anos, que tinha acabado de perder a mãe. A partir desse dia, Eduardo acredita que é possível fazer alguma coisa pelo mundo. Que não pode deixar que toda a história da humanidade se perca para as crianças que como Pedro, não têm memória de outra realidade. Eduardo acolhe Pedro em sua casa e, como um pai, educa-o, mostra-lhe todo um novo mundo através dos livros da avó e partilha com ele todas as suas memórias e as memórias dos seus amigos, para que, de alguma forma não sejam esquecidos. O livro acaba com Pedro já crescido, Eduardo acaba de morrer, mas o mundo que é descrito por Pedro já não é um mundo de medo e sim de esperança. As pessoas organizaram-se, de certa forma, e vivem em comunidades pequenas onde partilham aquilo que têm e o que sabem fazer. Toda a comunidade agradece a Eduardo o seu papel no restabelecimento da ordem e, A Noiva Chegou de Autocarro, foi o primeiro livro a ser publicado depois do "acidente", publicado por Pedro.

É um livro muito interessante. A escrita de Patrícia Reis é muito clara, muito fluída que facilmente nos transporta para a realidade que descreve. Gostei muito de Eduardo e dos amigos que conhecemos apenas através da sua memória deles. A história é, às vezes angustiante, nem sempre os piores momentos são os que ocorrem após o acidente, mas acima de tudo é uma história que homenageia a amizade e os livros.

Gostei e recomendo!

Boas leituras!

Excerto (pág. 88):
"Vi o meu primeiro cadáver três semanas depois de tudo ter mudado. Tinha-me aventurado. Sair à rua era um passo gigante. Ver da janela o estado da rua, deserta, os carros parados, a ausência de militares a marchar pelas ruas e as nuvens pretas foram suficiente. Até que a necessidade me fez sair. Na minha decisão de deixar a casa, estava também o sentimento de abandono, de quase indiferença. Queria morrer. A exactidão desse sentimento de morte que ansiei, ainda a consigo sentir. Não valia a pena continuar. Estava condenado, barricado em casa a abrir latas de atum que me feriam os dedos de pele seca. Estar vivo, apenas por estar vivo, não era suficiente. Por isso, quando saí à rua, fi-lo com a coragem dos soldados na linha da frente, pronto para qualquer coisa, orações ditas, a cabeça vazia, o coração pronto para o fim."

setembro 01, 2014

A Estrela do Diabo - Jo Nesbø

Título original: Marekors
Ano da edição original: 2003
Autor: Jo Nesbø
Tradução do inglês: Maria João Freire de Andrade
Editora: Publicações Dom Quixote

"Oslo sufoca no calor de verão, quando uma jovem é assassinada no seu apartamento. Um dedo é-lhe cortado, e um minúsculo diamante vermelho com o formato de um pentagrama - uma estrela de cinco pontas - é encontrado debaixo da sua pálpebra. O detetive Harry Hole é designado para investigar o caso com Tom Waaler, um colega de quem ele não gosta e em quem não confia. Tom trabalha para um bando de traficantes de armas - e é o assassino da sua antiga parceira. Mas Harry, um alcoólico inveterado, mal consegue aguentar o seu emprego, e a sua única hipótese é aceitar o caso. Cinco dias depois, outra mulher é dada como desaparecida. Quando o seu dedo cortado é encontrado enfeitado com um diamante vermelho com a forma de uma estrela, Harry receia que haja um serial killer à solta. Determinado a encontrar o assassino e a expor o corrupto Tom Waaler, Harry descobre que as duas investigações se fundem de um modo inesperado. Mas perseguir a verdade tem um preço, e em breve Harry dá por si em fuga e forçado a tomar decisões difíceis acerca de um futuro que pode nem viver para ver. Jo Nesbø já foi comparado a Ian Rankin, Michael Connelly e Henning Mankell. Os seus romances são best sellers por toda a Europa"

Não conhecia este autor nórdico, Jo Nesbø mas fiquei agradada. Embora os policiais não sejam o meu género de eleição, gosto de os ler e tenho gostado especialmente dos que nos chegam vindos do norte. Não sei se é da escrita mais crua, a menor fantasia, não sei, mas identifico-me mais com estes do que com os americanos, por exemplo. :)
Este não foi a excepção, bem escrito com uma história bem estruturada e suportada.

Senti o típico desconforto causado pelo facto de, de certa forma, estar a entrar a meio da história, uma vez que Harry Hole é o protagonista da série de livros de Jo Nesbø e este A Estrela do Diabo é já o 5º volume da série. O desconforto de haver coisas que tenho a sensação de não estar a perceber completamente porque estará relacionado com o passado da personagem contado nos volumes anteriores.
Outra dificuldade típica nos livros de autores nórdicos é a questão dos nomes... São mulheres ou são homens? Por mais "tacanha" que seja a divisão que naturalmente fazemos entre géneros para organizar o mundo em que vivemos, a verdade é que me faz confusão como conseguem viver com uma linguagem que não distingue os géneros... Ainda por cima quando os nomes são todos tão parecidos... :)

Ultrapassadas as dificuldades iniciais, A Estrela do Diabo é, aparentemente apenas mais um caso na vida de Harry Hole - uma mulher é encontrada morta na banheira do seu apartamento, sem um dos dedos da mão e junto dela é encontrado um diamante vermelho, conhecido nalguns meios como a Estrela do Diabo.
Com o decorrer da leitura, vamo-nos apercebendo de que, na realidade, Harry Hole está a passar por uma fase má na sua vida, aparentemente relacionado com coisas que se passaram nos 4 volumes anteriores. Bebe cada vez mais e anda obcecado por desmascarar a índole duvidosa do colega Tom Waaler, com quem terá de trabalhar neste caso, que acaba por não ser um homicídio isolado e caminha para uma sucessão de assassínios em série. Para ajudar, devido ao seu comportamento inapropriado, esta será muito provavelmente a sua última investigação como detective e, para piorar ainda mais as coisas, a sua relação com Rakel não está a atravessar uma boa fase.
No entanto, nada disto parece perturbar a investigação dos homicídios que, acaba por ser um pouco secundária, sendo que a verdadeira história que acaba por ser contada aqui é a das suspeitas que Harry tem sobre Tom Waaler, o detective estrela lá do sítio, e a história de um Harry Hole que conheço em plena queda e acaba a redescobrir muitas coisas pelas quais ainda vale a pena viver.

De uma forma geral, não houve grandes surpresas no desfecho do livro porque todas dicas que foram sendo dadas, apontavam apenas para um caminho. Nesse aspecto, embora não goste de ser enganada, neste tipo de livros uma pequena surpresa no fim é sempre bem-vinda. Parece-me que este volume terá servido um pouco para reabilitar a personagem de Harry Hole e o seu objectivo não era ser apenas mais um policial. No entanto gostei, gostei da escrita, gráfica q.b. e bastante fluída. Gostei das personagens e, embora tenha achado Harry Hole um pouco estranho , a verdade é que é muito fácil gostar dele porque, é claramente um bom rapaz. :)

Por isto e mais algumas razões recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras! :)

Excerto (pág. 11-12):
"A água não demorou muito tempo a encontrar um caminho através do chão, sob o soalho. Para além da infiltração em 1968 - no mesmo ano em que fora colocado o novo telhado sobre a casa -, os soalhos de madeira tinham permanecido imperturbáveis, a secarem e contraírem-se, de modo que a fenda entre as duas tábuas de sustentação interiores do chão tinham agora quase meio centímetro. A água pingava na viga por baixo da fenda, e continuava para oeste até à parede exterior. Aí infiltrava-se no estuque e na argamassa que fora misturada há cem anos, também a meio do verão, por Jacob Andersen, um mestre pedreiro e pai de cinco. Andersen, como muitos pedreiros da época em Oslo, misturava a sua própria argamassa e estuque para as paredes. Para além de ter a sua própria mistura de cal, areia e água, também tinha os seus ingredientes especiais: pêlo de cavalo e sangue de porco. (...) Alguns dos pedreiros consideravam aquilo imoral, outros pensavam que ele estava conluiado com o Diabo, mas a maior parte apenas se ria dele."

agosto 24, 2014

Anatomia dos Mártires - João Tordo


Título original: Anatomia dos Mártires
Ano da edição original: 2011
Autor: João Tordo
Editora: Publicações D. Quixote

“Um jornalista insensato e ambicioso quer provar ao seu editor – um comunista irascível, alcoólico e com bastante desprezo pelos jovens – que não é só mais um na redacção. Escolhido para ir a Berlim entrevistar o biógrafo de um mártir religioso, aproveita a deixa para fazer, no seu artigo, uma analogia com a história de Catarina Eufémia, a camponesa que se tronou um ícone do Partido Comunista, mas de quem, na verdade, pouco ou nada sabe. Quando, porém, o artigo é publicado, as reacções de indignação por parte dos leitores não se fazem esperar, algumas das quais bastante ameaçadoras; e, na noite em que o editor é encontrado na rua em coma, aparentemente brutalizado, o jornalista pergunta-se se não terá sido por defender publicamente o seu artigo e começa a suspeitar de que existe muito mais em jogo do que a simples memória de uma camponesa assassinada pela GNR durante a ditadura. É então que decide investigar obsessivamente a vida de Catarina, desbravando por entre o nevoeiro que paira sobre os mártires e os transforma em mitos de que sempre alguém se apodera. E encontra realidades bem distintas – e mais tenebrosas – do que podia esperar.”

João Tordo tem sido um escritor que me tem dado algum gozo conhecer. Com Anatomia dos Mártires, embora o tema seja muito interessante e as reflexões que faz muito pertinentes, achei-o um pouco repetitivo ao longo de todo o livro, o que me deu uma sensação de estagnação. Ao longo da leitura só me lembrava de uma crítica algures que dizia que João Tordo utilizava demasiadas provocações, referindo-se muito a acontecimentos já passados mas dos quais o leitor nada sabe, ou seja levanta muito a ponta do véu e no fim, debaixo do véu não havia assim nada de muito extraordinário. Confesso que este Anatomia dos Mártires é um pouco assim. Não é que me tenha sentido defraudada nas minhas expectativas, mas esta técnica de prender o leitor à história terá sido utilizada em demasia. :)

Expectativas à parte, o meu gosto na descoberta de João Tordo em nada foi beliscado por este livro menos ao meu gosto. A escrita dele agrada-me e a forma como ele nos apresenta uma história, como explora as personagens e nos mantém interessados é algo com o qual me identifico. Neste Anatomia dos Mártires gostei sobretudo do tema. Da reflexão que faz sobre a relação das pessoas com a política, das crenças humanas e da religião. Gostei da interpretação que dá as estas personagens que vivem muito para além dos seus feitos, como Catarina Eufémia, nome que não me era estranho, mas não sabia ao certo quem era e qual o papel que lhe coube numa época tão cheia de mártires.
Achei a caracterização da personagem principal, o jornalista, muito bem conseguida. A representar muito bem a soberba dos jovens, o facto de acreditarmos que sabemos tudo e que não existe nada que a geração que nos criou tenha para nos ensinar. A ignorância de toda uma geração sobre um dos, senão mesmo o mais importante acontecimento da nossas vidas, como país e como sociedade, o 25 de Abril de 1974 e toda a luta que o tornou possível.
O jornalista representa a geração daqueles que ficou sem nada por que lutar, uma geração sem ideologias, sem fé, um pouco desenraizada da terra, culturalmente europeu, uniformemente europeu, sem nada que o distinga de um alemão ou francês.
Um jovem adulto, não estou a falar da geração que agora atravessa os 20, mas dos que já entraram há muito nos 30 e se aproximam dos 40, os filhos da revolução dos cravos. Um homem, adulto, egoísta, que não soube lidar com a morte da mãe e não sabe como viver com o envelhecimento do pai, que despreza e praticamente abandona. A forma como este homem lida com o pai é, à falta de melhor expressão, chocante. Um homem que vive obcecado consigo mesmo, até quando pensa que está a fazer coisas pelos outros, é só em si e na sua sanidade mental que pensa.
Este jornalista parece horrível... e na realidade não me ocorre nada de muito positivo sobre ele. É depressivo, centrado em si, incapaz de assumir responsabilidades pelos seus actos.

Resumindo, a história é boa, as personagens estão bem construídas. O que me deixou um travo amargo foi a repetição de ideias que acabam por não ser mais desenvolvidas a cada repetição e o uso excessivo do "se eu soubesse na altura o que ia acontecer...". Tirando isso, gostei. Não é o meu preferido dele, mas acho que tem coisas muito boas que fazem com que o recomende sem hesitações.

Boas leituras!

Excerto (pág. 156):
"«Claro que estás enganado. Olha para o país à tua volta: quem é que grita à porta dos tribunais hoje em dia? São as mulheres. Quem é que vai à frente das manifestações contra o governo? São as mulheres. Historicamente, elas tornam a repressão mais suave. Por um lado, e em certos contextos, são muito mais histriónicas; por outro têm a seu favor o poder da comoção, que lhes permite desafiar a autoridade.» Ouvi-a pigarrear. «Seria impensável que um polícia, hoje, se atrevesse a tocar numa mulher, que carrega um filho ao colo, pelo menos numa sociedade democrática. Ou talvez tenha sido isso que pensou Catarina e as outras mulheres que a acompanhavam: que, apesar de não conhecerem a democracia ou nunca terem ouvido falar nela, que nem uma besta como o tenente Carrajola se atreveria a tocar-lhe mesmo debaixo de um regime que usava a força como modo de repressão. Teoricamente, está correcto: é uma demonstração de força e, ao mesmo tempo, de fragilidade. Faz parte do reportório da resistência, em situações de manifestação, que os mais fracos tomem a liderança.»
«Enganaram-se.» rematei.
«E não nos enganamos todos?» (...) "

agosto 03, 2014

As Memórias de Cleópatra (2º Vol) - O Signo de Afrodite - Margaret George

Título original: The Memoirs of Cleopatra
Ano da edição original: 1997
Autor: Margaret George
Tradução: Sérgio Gonçalves
Editora: Saída de Emergência

"A autora do best-seller mundial A Paixão de Maria Madalena está de volta com o segundo volume de um convite irrecusável: a visita ao Antigo Egipto e à vida de Cleópatra, a rainha do Nilo. Escritas na primeira pessoa, As Memórias de Cleópatra começam com as suas recordações de infância e vão até ao seu glorioso reinado, quando o Egipto se torna um dos mais deslumbrantes reinos da Antiguidade. Mas, mais do que uma saga fascinante sobre ambição, traição e poder, As Memórias de Cleópatra são uma grande história de amor.
Na riqueza e autenticidade das personagens, cenários e acção, As Memórias de Cleópatra são um triunfo da ficção. Misturando história, lenda e a sua prodigiosa imaginação, Margaret George dá-nos a conhecer uma vida e uma heroína tão magníficas que viverão para sempre."

Terminado o 2° volume da trilogia que Margaret George dedicou a Cleópatra - As Memórias de Cleópatra - continuo moderadamente impressionada com a história que nos é contada. Cleópatra é, sem qualquer dúvida uma personagem histórica fascinante, no entanto continuo a sentir alguma estranheza na forma como a autora decidiu abordar a vida de Cleópatra, a Rainha do Egipto. Para mim está demasiado romanceada e, de certa forma, demasiado centrada nos homens da vida dela, Júlio César no 1º volume e, Marco António neste 2° volume. Estranhezas à parte, gostei mais deste volume e da vida de Cleópatra com Marco António. Este romano pareceu-me de longe bem mais interessante do que César! ;)

Neste O Signo de Afrodite, segunda parte das "Memórias de Cleópatra", a ainda Rainha do Egipto encontra-se a recuperar do choque que foi o assassinato de César e, depois da longa temporada que passou em Roma, regressa ao Egipto, para junto dos seus.

Enquanto recupera em Alexandria, o mundo romano movimenta-se para que o lugar de Júlio César não fique por ocupar muito tempo e para que o legado deste não seja usurpado pelos que planearam a sua morte. A ele correm Octávio, Marco António e Lépido. Como nenhum dos três vence, acabam por formar um triúnviro, uma espécie de liderança tripartida do vasto império romano, sendo que uns estão mais dispostos a partilhar que outros.
Depois destes três derrotarem Cássio e Bruto, os assassinos de César, Marco António, ainda no Oriente chama Cleópatra a Tarso, onde está acampado a reunir homens para os triúnviros, para que esta se defenda dos boatos de que teria ajudado Cássio e Bruto, com navios da sua frota. Cleópatra, decidida a não dar parte de fraca e a não perder a independência do Egipto, vai até Tarso, mas quem domina o encontro é ela, não Marco António. :)
A partir deste encontro, Cleópatra redescobre a vontade de viver e de partilhar a sua vida com outro homem, algo que ela não achou possível depois de César. Marco António é completamente diferente de César, mais humano, é um homem divertido que gosta de estar com as pessoas. É um apaixonado pelo Oriente e o seu exotismo. Completamente apaixonado por Cleópatra, vai fazer tudo para que a relação dos dois resulte. Num mundo em guerra, na qual ele é um dos protagonistas, este equilíbrio entre o que se quer e o que efectivamente se pode ter é complicado de conseguir e manter. Mas ele esforça-se. :)

Os dois mantêm uma relação bonita, sincera e intensa, os dois a tentar evitar que a política se intrometa entre os dois, algo que nem sempre conseguem, afinal de contas ela é a Rainha do Egipto e ele um dos mais promissores candidatos ao lugar de César.

Este é um volume onde se explora mais o lado pessoal de Cleópatra, como mulher e como mãe, uma vez que no primeiro ela estava demasiado ligada a César e aos objectivos dele e de Roma, não havendo muito espaço para ela. Neste segundo volume a postura dela é diferente, mais madura, a orientar Marco António, a espicaçar nele a ambição de ser mais. Embora não existam dúvidas de que ama Marco António, provavelmente mais do que amou César, o homem, a realidade é que, sem um Marco António forte Cleópatra teria muita dificuldade em manter a independência do Egipto e, portanto existe obviamente algum interesse político na ligação pessoal que tem com ele e na forma como o influencia.

Neste segundo volume deixamos Roma, a cidade, para trás,e passamos mais tempo em Alexandria e nos territórios conquistados. Apercebemo-nos da riqueza do Egipto, da organização que tinham, da forma como viviam, tão diferente da vida em Roma, e das suas crenças.

Como disse, a escrita de Margaret George não me convence e a forma como conta a história não é a que mais me agradaria, no entanto, de uma forma geral, estou a gostar de conhecer as memórias de Cleópatra. Acho que os livros valem pela história e pela personagens históricas, já de si muito interessantes.

Gostei e, até agora recomendo. :)

Boas leituras!

Exerto (pág. 132):
"Ser-se estadista significa ser-se mestre em  muitas áreas - até nas mais improváveis. Enquanto adormecia, eu sabia que tinha aprendido aquilo com César, e que ele teria orgulho de mim. Tinha orgulho de mim. Talvez António estivesse certo. Ele sabia que eu podia travar as minhas próprias batalhas."

julho 06, 2014

Feira do Livro de Lisboa - 2014

Embora a Feira já tenha acabado há umas semanas, a verdade é que não tenho tido oportunidade de actualizar este meu cantinho com a frequência que gostava... E a Feira do Livro este ano foi um pouco como o blogue, estou mesmo lá ao lado e apenas consegui ir lá uma vez para comprar livros. :)

Estes foram os que vieram comigo para casa (curiosamente todos de autores portugueses):

João de Melo - "O Mar de Madrid" -  Para os livros de João de Melo não preciso de justificação. São bons e eu gosto, portanto tenho de os ter aqui por casa.

"A primeira vez em que viajou até ao país vizinho, Francisco Bravo Mamede, o senhor poeta, viu que as cidades de Espanha ficavam no fim de todos os caminhos. Para se ir de uma para a outra, e não havendo passagem para a cidade seguinte, andava-se por ali ao deus-dará, às voltas e mais voltas para não se enredar a gente no fio de orientação que levava para fora do emaranhado urbano, como quem procura e finalmente encontra a porta de saída de uma casa desconhecida. Ia-se então adiante, sem rumo nem certeza alguma sobre a hora de chegada ao destino que se havia traçado (se haciendo el camino al andar, como no verso do querido mestre Antonio Machado) - e logo toda ela se recortava ao longe, muito nítida de luz, como um baixo-relevo que emergisse do fundo da paisagem."

Patrícia Reis - "Por Este Mundo Acima" - Desta autora apenas li um livro "Morder-te o Coração" (opinião aqui) e a verdade é que me deixou uma boa impressão. Achei que estava na altura de voltar a ler alguma coisa dela.

"Um cenário de terrível desastre assola Lisboa. Poderia ser em qualquer outro lugar do mundo. Os escombros passam a ser paisagem, a cidade e as relações humanas transformam-se vertiginosamente. Entre os sobreviventes há um homem, um velho editor. Procurando amigos e amores desaparecidos encontra um manuscrito e um rapaz e, neles, a porta para uma outra dimensão da vida.
Por Este Mundo Acima é uma peregrinação futurista e um relato de memória. Consagração dessa melhor forma de amor a que chamamos amizade, é também uma história sobre a importância redentora dos livros."




José Luís Peixoto -  "Nenhum Olhar" - Depois de "Livro" (opinião aqui) de que gostei muito, nunca mais li nada de José Luís Peixoto. A principal razão creio que tem sido o preço dos livros dele... Este, comprei-o num dos alfarrabistas e, para além de estar em excelentes condições, traz como brinde a assinatura do escritor. :)

"Numa aldeia do Alentejo, com um pano de fundo de uma severa pobreza, o autor vai tecendo histórias de homens e mulheres, endurecidos pela fome e pelo trabalho, de amor, ciúme e violência: o pastor taciturno que vê o seu mundo desmoronar-se quando o diabo lhe conta que a mulher o engana; o velho e sábio Gabriel, confidente e conselheiro; os gémeos siameses Elias e Moisés, cuja terna comunhão se degrada no momento em que um deles se apaixona; ou o próprio Diabo. As suas personagens são universais, assim como a sua esperança face à dificuldade. «... a partir da segunda ou terceira sequência ficamos seguros de que a inclinação é fatal: vamos embater num limite, num muro, num enigma, na origem do mundo e no desastre final...»"


Embora só lá tenha ido uma vez para comprar livros para mim, estive lá no dia da criança com as minhas pipocas e este ano já foram elas a escolher os livros para elas. Dentro do que conseguiam ver, dada a multidão que deambulava por lá... :)

Quiseram livros da Dora, A Exploradora e foi isso que levaram para casa. :)




As visitas relâmpagos que fiz ao recinto, depois de sair do trabalho já tarde, sem tempo para uma voltinha a sério, foram para matar a gula de doces, com as Bolas da Praia e as farturas! :p

E foi a Feira do Livro deste ano. Achei-a mais dinamizada, mais atractiva e o facto de terem começado mais tarde foi uma boa ideia. Apanharam a semana dos feriados em Lisboa e o tempo esteve fantástico.


Para o ano há mais! Espero ter mais tempo para gastar dinheiro!

Boas leituras!