janeiro 15, 2022

A Noite Em que o Verão Acabou - João Tordo

Título: A Noite em que o Verão Acabou
Ano da edição original: 2019
Autor: João Tordo
Editora: Companhia das Letras

"14 de Setembro de 1998. O dia em que Chatlam, uma pequena vila americana, acordou em choque com o homicídio de Noah Walsh. O principal suspeito: a sua filha de dezasseis anos.

No Verão de 1987, o adolescente Pedro Taborda apaixona-se por Laura Walsh, a filha mais velha de um magnata nova-iorquino. Ela e Levi - uma criança misteriosa - passam férias com os pais no Lagoeiro, uma pacata cidade algarvia. Rica e moderna, a família Walsh tem tudo para dar muito nas vistas no sul de Portugal. Inebriado pelas formas perfeitas e pelos modos ousados de Laura, Pedro encontra na rapariga americana o seu primeiro amor. Mas quando o Verão acaba, a família Walsh regressa aos Estados Unidos e o destino fica por cumprir.
Dez anos depois, Pedro, decidido a tornar-se escritor, vai estudar para Nova-Iorque. Fascinado com Gary List, antigo prodígio das letras americanas, chega aos Estados Unidos determinado a perseguir os sonhos da juventude. Ao reencontrar Laura, está longe de suspeitar que esse acaso o mergulhará no crime mais falado dos anos noventa, o homicídio do milionário Noah Walsh.
Com um segundo homicídio a atrapalhar a investigação e uma corrida para salvar Levi, de apenas dezasseis anos, acusada de matar o pai, Pedro e Laura enredam-se irremediavelmente na teia de segredos que envolve a família Walsh, desde os anos quarenta do século XX até ao impensável desfecho nas primeiras décadas do novo milénio.

Porque em Chatlam - e neste thriller imparável - nada é o que parece."

A sinopse é clara quanto à história. Pedro Taborda, em 1987, é um adolescente a passar férias no Algarve com a família. Laura é uma adolescente americana que também está de férias no Algarve.
As duas famílias acabam por criar laços durante aqueles dias intermináveis de verão e a entrada de Laura na vida de Pedro vai marcá-lo para a vida, não só porque o primeiro amor é algo que dificilmente se esquece, mas também porque os Walsh são exuberantes e pouco convencionais.
Após as férias de verão, os dois mantém contacto durante algum tempo, até que a vida acaba por espaçar as cartas que, um dia, findam de vez. 

Anos mais tarde, Pedro vai estudar para os Estados Unidos e reencontra Laura. Pouco tempo depois do reencontro, o pai de Laura é encontrado morto em casa e tudo indica que terá sido assassinado pela irmã mais nova de Laura, a estranha Levi. Laura não acredita que a irmã seja culpada e enquanto decorrem as investigações oficiais, Laura "arrasta" Pedro numa corrida contra o tempo para encontrar o verdadeiro culpado e provar a inocência de Levi.
Como seria de esperar, a investigação desenterra histórias do pai, algumas antigas, outras mais recentes. Nenhuma delas muito abonatória para o pai.

Basicamente, em termos de fio condutor do livro, é isto - a relação de Pedro com Laura, a investigação que iniciam os dois e que nos leva a conhecer melhor a história dos Walsh e, por fim, o desvendar do mistério que envolve a morte de Noah Walsh.

Pessoalmente não acho que seja este o género em que João Tordo mais brilhe, embora a forma como ele aborda o género também não seja a mais convencional.
O mistério dos assassinatos até está bem conseguido e a forma como se vão desvendando as coisas é interessante. É engraçado não ser uma investigação policial típica, tem uma velocidade diferente e o foco acaba, até por ser outro. O livro é muito mais do que uma investigação desenfreada ou uma corrida contra o tempo. Talvez por isso tenha alguma dificuldade em classificá-lo como policial e menos ainda como um thriller. O que não é uma coisa má, apenas pode ser enganadora para quem vai ler o livro.

Achei que o livro poderia ser bem mais pequeno. Dispensava, a maioria das páginas dedicadas à vida de Pedro. Não sinto que tenham acrescentado alguma coisa à história e eram, muitas vezes, completamente irrelevantes para a mesma. Sou sincera, não achei o Pedro uma personagem muito interessante e tudo o que o envolvia apenas a ele era só aborrecido... Desculpa João Tordo. :)

Não amei mas também não detestei. Só não me vai ficar na memória por muito tempo. 

A minha opinião sobre o talento de João Tordo, não ficou, em nada, beslicada. Acho até saudável ele não ter problemas em experimentar novas abordagens e, no fundo, escrever o que lhe apetece, sem se sentir na obrigação de seguir uma cartilha. 

Recomendo, porque dentro do género é um livro que pode ser interessante. 

Se nunca leram João Tordo, não comecem por este ou outros do género. O primeiro que li dele foi o As Três Vidas (opinião aqui) e fiquei fã.  No entanto, de todos os que já li dele, aqueles que mais me dizem são os da "Trilogia dos lugares sem nome" - O Luto de Elias Gro (opinião aqui); O Paraíso Segundo Lars D. (opinião aqui) e O Deslumbre de Cecília Fuss, que ainda não li. Têm muito por onde escolher. :)

Boas leituras!


Excerto (pág.14):

"Na tarde em que comecei a chorar, a cadela trazia a boneca na boca, mordendo-a com a força dos seus caninos de bicho ainda jovem.
Chorei todas as noites durante uma semana, a boneca caída no relvado da casa de férias dos meus pais. Tornou-se o brinquedo de Niki até o meu pai a guardar na garagem. Era a única memória física que me restava de Laura e de Levi, que regressaram aos Estados Unidos no final de Agosto; uma coisa velha feita de trapos, com dois botões a servirem de olhos, cabelo ruivo e uma boca infeliz. A seguir - porque aos treze anos recuperamos com facilidade dos choques emocionais - , distraí-me com o ténis, a exploração do terreno dos lagartos e as parvoíces da minha irmã e esqueci-me temporariamente da ausência das raparigas americanos no Lagoeiro.
No anos seguinte, Laura e Levi não voltaram como prometido (...)"

janeiro 03, 2022

A História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar - Luís Sepúlveda

Título original: 
Historia de una Gaviota Y del Gato que le Enseño a Volar
Ano da edição original: 1996
Autor: Luís Sepúlveda
Traduzido do espanhol (Chile): Pedro Tamen
Editora: Edições ASA

"Esta é a história de Zorbas, um gato grande, preto e gordo. Um dia, uma formosa gaivota apanhada por uma maré negra de petróleo deixa ao cuidado dele, momentos antes de morrer, o ovo que acabara de pôr.

Zorbas, que é um gato de palavra, cumprirá as duas promessas que nesse momento dramático lhe é obrigado a fazer: não só criará a pequena gaivota, como também a ensinará a voar. Tudo isto com a ajuda dos seus amigos Secretário, Sabetudo, Barlavento e Colonello, dado que, como se verá, a tarefa não é fácil, sobretudo para um bando de gatos mais habituados a fazer frente à vida dura de um porto como o de Hamburgo do que a fazer de pais de uma cria de gaivota…

Com a graça de uma fábula e a força de uma parábola, Luis Sepúlveda oferece-nos neste seu livro já clássico uma mensagem de esperança de altíssimo valor literário e poético."

Uma bonita história de amizades improváveis e de aceitação do que não conhecemos ou que é diferente de nós. 

Uma história de compromissos e promessas, onde a palavra tem valor.

A bonita utopia de que não existem impossíveis quando todos remamos para o mesmo lado. 

Uma triste história de atentados ambientais que, eram já uma preocupação de Sepúlveda, nos anos 90.

Foi muito bom voltar a ele com um clássico que ainda não tinha tido a oportunidade de ler.

Esta edição, mais antiga, comprei-a na Livraria Solidária de Carnide, um espaço muito giro e acolhedor. Fui lá para entregar alguns livros que já não faziam muito sentido nas minhas estantes. O objetivo era ganhar algum espaço nas estantes, mas saí de lá com mais alguns debaixo do braço. Não me lembro se o saldo foi positivo para as estantes, mas para mim foi de certeza! ;) 
Se tiverem oportunidade de passar por lá não deixem de o fazer. Vale muito a pena.

Excerto (pág.29):

"O gato grande, preto e gordo estava a apanhar sol na varanda, ronronando e meditando acerca de como se estava bem ali, recebendo os cálidos raios pela barriga acima, com as quatro patas muito encolhidas e o rabo estendido.
No preciso momento em que rodava preguiçosamente o corpo para que o sol lhe aquecesse o lombo ouviu o zumbido provocado por um objecto voador que não foi capaz de identificar e que se aproximava a grande velocidade. Atento, deu um salto, pôs-se de pé nas quatro patas e mal conseguiu atirar-se para um lado para se esquivar à gaivota que caiu na varanda.
Era uma ave muito suja. Tinha o corpo impregnado de uma substância escura e malcheirosa. (...)
 - Vou pôr um ovo. Com as últimas forças que me restam vou pôr um ovo. Amigo gato, vê-se que és um animal bom e de nobres sentimentos. Por isso, vou pedir-te que me faças três promessas-~. Fazes? - grasnou ela, sacudindo desajeitadamente as patas numa tentativa falhada de se pôr de pé.
Zorbas pensou que a pobre gaivota estava a delirar e que com um pássaro em estado tão lastimoso nunguém podia deixar de ser generoso.
 - Prometo-te o que quiseres. Mas agora descansa - miou ele compassivo.
 - Não tenho tempo para descansar. Promete-me que não comes o ovo - grasnou ela abrindo os olhos.
 - Prometo que não te como o ovo - repetiu Zorbas.
 - Promete-me que cuidas dele até que nasça a gaivotinha.
 - Prometo que cuido do ovo até nascer a gaivotinha.
 - E promete-me que a ensinas a voar - grasnou ela fitando o gato nos olhos.
Então Zorbas achou que aquela infeliz gaivota não só estava a delirar, como estava completamente louca.
 - Prometo ensiná-la a voar. E agora descansa, que vou em busca de auxílio - miou Zorbas trepando de um salto para o telhado.
Kengah olhou para o céu, agradeceu a todos os bons ventos que a haviam acompanhado, e justamente ao exalar o último suspiro, um ovito branco com pintinhas azuis rolou junto do seu corpo impregnado de petróleo."

[Kindle] Pátria - Fernando Aramburu

Título original: 
Patria
Ano da edição original: 2016
Autor: Fernando Aramburu
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Publicações Dom Quixote

"O retábulo definitivo sobre mais de 30 anos da vida no País Basco sob o terrorismo.

No dia em que a ETA anuncia o abandono das armas, Bittori dirige-se ao cemitério para, na sepultura do marido, Txato, assassinado pelos terroristas, lhe contar que decidira voltar à casa onde tinham vivido os dois. Mas poderá ela conviver com aqueles que a perseguiram antes e depois do atentado que transtornou a sua vida e a da família? Poderá saber quem foi o encapuzado que num dia chuvoso matou o marido, quando este regressava da sua empresa de transportes?
Por mais que chegue às escondidas, a presença de Bittori alterará a falsa tranquilidade da terra, sobretudo a da vizinha Miren, amiga íntima noutros tempos, e mãe de Joxe Mari, um terrorista encarcerado e suspeito dos piores receios de Bittori. O que aconteceu entre essas duas mulheres? O que envenenou a vida dos filhos e dos respetivos maridos, tão unidos no passado? Com lágrimas escondidas e convicções inabaláveis, com feridas e coragem, a história arrebatadora das suas vidas, antes e depois da tormenta que foi a morte de Txato, fala-nos da impossibilidade de esquecer e da necessidade de perdoar numa comunidade fragmentada pelo fanatismo político."

Pátria leva-nos numa viagem atribulada ao mundo da ETA e da luta armada no País Basco, através do olhar de duas mulheres, Miren e Bittori. 
Miren é mãe de Joxe Mari, um rapaz que foi recrutado pela ETA e um  membro convicto da organização, que acaba a cumprir pena de prisão por atentados terroristas. 
Bittori é a viúva de Txato, uma das muitas vítimas da ETA, assassinado à porta de casa.

Antes da ETA, Miren e Bittori eram amigas e as famílias muito próximas. Depois, tudo se extremou, ou se está com a ETA e portanto a favor de um País Basco independente de Espanha ou se está contra a ETA e, dessa forma a favor de uma Espanha unificada. Não existe espaço para zonas cinzentas, não existe tolerância para se ser a favor da independência e simultaneamente contra a forma de luta levada a cabo pela ETA.

É um livro muito interessante, sobre a luta basca pela independência, sobre as pessoas que fazem parte dessa luta e das consequências que isso traz para a vida de cada uma delas.
Tenho alguma dificuldade em perceber fanatismos e o amor irracional a causas. Não percebo os mecanismos, não conheço ninguém assim e sinto quase sempre que é um problema mental, de distorção da realidade, ou de solidão e da procura desesperada por sentir que se pertence a algo, que não estamos sozinhos e fomos aceites pela comunidade.

Gosto de descobrir novos escritores e tenho gostado muito dos espanhóis. Fernando Aramburu não foi exceção.
Gostei da escrita e da forma como Aramburu nos conta a história. Confesso que o achei, por vezes,  repetitivo e dei por mim, algumas (poucas) vezes, a pensar que "já acabavas o livro, não vale a pena continuarmos a bater no ceguinho". A verdade é que vamos revivendo todos os acontecimentos de acordo com a perspetiva de cada um dos intervenientes e por vezes não existem assim tantas diferenças e o ritmo da história acaba por ser afetado.

Recomendo sem hesitações. É um livro muito interessante e bem escrito.

Boas leituras!

Excerto:
"Eu com pena do filho da minha melhor amiga, que tinha deixado o trabalho, a equipa de andebol e a namorada ou a meio namorada, para entrar como pistoleiro numa organização que se dedica ao assassínio em série.
E Miren? Olha, Ikatza, agora que me perguntas, vou dizer-te o que penso. No fundo, e que o Txato me perdoe, compreendo-a. Compreendo a sua transformação, embora não a aprove. Entre aquele lanche no café da Avenida e o seguinte na churrería da Parte Velha, a minha amiga Miren mudou. De repente era outra pessoa. Numa palavra, tinha tomado partido pelo seu filho. Não tenho a  menor dúvida que ficou fanática por instinto materno. No lugar dela, talvez eu me tivesse comportado de igual modo. Como é que se pode virar as costas ao nosso próprio filho ainda que saibamos que está a cometer maldades? Até então, Miren não se tinha interessado nem um pouco pela política"

Existe uma mini-série, da HBO, Patria:

janeiro 02, 2022

A Espuma dos Dias - Boris Vian

Título original: L'Écume des Jours
Ano da edição original: 1946
Autor: Boris Vian
Tradução: Aníbal Fernandes
Editora: Relógio d'Água

"«Chamaram-lhe, alguns, a obra-prima do autor. E num prefácio que andou durante muito tempo colado ao seu Arranca-Corações, Raymond Queneau não hesitava perante um rótulo hierarquizante e audacioso: "o mais pungente dos romances de amor contemporâneos". Nos anos sessenta, A Espuma dos Dias circulou com estas difíceis responsabilidades.
Enfrentou-as mostrando a singularidade de um universo ainda não conhecido com tanto talento na literatura; que se comprazia a impor aos homens e aos objectos leis novas, interdependentes. De facto, os objectos que lá existiam tinham um comportamento emotivo e implacavelmente ligado aos estados de alma de quem os utilizava. O que já antes parecia sugerido por Edgar Allan Poe em A Queda da Casa Usher assumia ali uma evidência despudorada que corria em dois sentidos, de sol e sombra, e nos informava muito mais sobre o interior das personagens do que qualquer alusão directa que o texto chegasse a fazer.»" [Da Apresentação de Aníbal Fernandes]

Não sei muito bem o que li, quem são as personagens e em que universo se movimentam. 
Confesso que, durante uma parte da história, estive quase certa de que eram gatos. 😀

Apesar da estranheza, e apesar de não ter achado uma leitura fácil (questionei-me muitas vezes porque é que o estava a ler), a verdade é que gostei.

Colin é um jovem homem, muito rico e que vive sozinho numa grande casa.
Tem por companhia Nicolas, um cozinheiro excêntrico e um amigo, Chick, que anda sempre sem dinheiro porque gasta tudo em tudo o que existe feito pelo Jean-Sol Partre.

Um dia Colin conhece Chloé, apaixonam-se e casam-se.
Chick, por seu lado, mantém uma relação desequilibrada com Alise, a bonita sobrinha do excêntrico cozinheiro.

E tudo corre bem, até ao dia em que Chloé desenvolve uma doença estranha, nos pulmões, que lhe provoca dores e dificuldades em respirar. 
A única coisa que a alivia é estar rodeada de flores e por isso Colin gasta tudo o que tem em manter a mulher rodeada de flores.
Não é assim tão fácil arranjar a quantidade de flores de que Chloé precisa e, por muito que Colin se esforce, ela acaba por ir definhando lentamente. 
À medida que Chloé definha, o dinheiro de Colin vai desaparecendo, e a bonita mansão onde vivem vai encolhendo. A casa vai ficando, literalmente mais pequena.

Há qualquer coisa de mágico neste livro e na forma como está escrito. Como disse no início, não sei muito bem o que li, mas a verdade é que gostei da estranheza e do tom meio irónico de toda a história. Não sei se todos os livros de Boris Vian são assim, mas fiquei curiosa e vou querer ler mais livros dele. 

Recomendo, mesmo que não seja uma leitura fácil, mal não vai fazer. 

Boas leituras! 

Excerto (pág.23):

"- Este pâté de enguias é notável - disse Chick. - Quem te deu a ideia de o fazeres?
- Foi o Nicolas quem teve a ideia - disse Colin - Há (ou antes, havia) uma enguia que aparecia todos os dias, saída do cano da água fria, no seu lavatório.
- É curioso - disse Chick. - E porque é que isso acontecia?
- Punha a cabeça de fora e, fazendo pressão com os dentes, esvaziava o tubo de pasta dentífrica. Como Nicolas só usa pasta americana, de ananás, isso deve tê-la tentado.
- Como é que ele conseguiu apanhá-la? - perguntou Chick.
- Pôs um ananás inteiro no lugar do tubo. Quando ela engolia a pasta, conseguia deglutir e recolher depois a cabeça; mas com o ananás não conseguiu o mesmo resultado e, quanto mais ela puxava, mais os dentes de enterravam no ananás. O Nicolas...
Colin deteve-se.
- O Nicolas o quê? - perguntou Chick.
- Não sei se deva dizê-lo, talvez vá tirar-te o apetite.
- Continua - disse Chick -, já não tenho quase nenhum.
- Nesse momento o Nicolas apareceu e seccionou-lhe a cabeça com uma lâmina de barbear. Depois, abriu a torneira e o resto saiu.
- É tudo? - disse Chick. - Dá-me mais pâté. Espero que haja uma família numerosa dentro do cano.
- Agora o Nicolas pôs lá pasta de framboesa, para ver... - explicou Colin. - Mas diz-me uma coisa: essa tal Alise, de quem falavas..."


Existe, pelo menos uma adaptação para o cinema - L'Écume des Jours (Mood Indigo em inglês), que pelo trailer me parece bem divertido e uma boa adaptação:

janeiro 01, 2022

[Kindle] Se Esta Rua Falasse - James Baldwin

Título original: If Beale Street Could Talk
Ano da edição original: 1974
Autor: James Baldwin
Tradução: José Mário Silva
Editora: Penguin Random House - Grupo Editorial Portugal


“Se esta rua falasse, esta seria a história que contaria: Tish, 19 anos, apaixona-se por Fonny, que conhece desde criança. Fazem juras de amor e conjuram sonhos para a vida a dois. Sensual, violento e profundamente comovente, este romance é uma bela canção de blues, de toada doce-amarga, com notas de raiva e ainda assim cheia de esperança. Publicado pela primeira vez em 1974, Se esta rua falasse é o quinto romance de James Baldwin, um dos nomes maiores da literatura americana do século XX e uma das vozes mais influentes do activismo pelos direitos civis.

Um romance manifesto contra a injustiça da justiça e uma história de amor intemporal, é hoje tão pertinente e tão comovente quanto no dia da sua publicação.”

Se Esta Rua Falasse passa-se nos anos 70, nos Estados Unidos e conta a história de Fonny, acusado e condenado, por ter abusado sexualmente de uma mulher, e da luta da sua namorada, Tish, e da família desta para provar a sua inocência. Um pequeno grande pormenor, Fonny e Tish são negros, o que faz toda a diferença nesta história. 

James Baldwin conta-nos a história destes dois, como se conheceram e se apaixonaram e tudo o que os levou a estarem naquela situação desesperada. 

Acho que poderia ser um livro mais longo, acabou por ser tudo contado de uma forma um pouco atabalhoada e acabou sem que existisse grande propósito para toda aquela jornada.

Foi o meu primeiro livro de James Baldwin e não sei o que estava à espera de encontrar, mas achei que me iria sentir mais ligada à história e às personagens e isso não aconteceu. 

Não fiquei fã da escrita, que me pareceu muito simples e que não me conseguiu transmitir grande emoção. Não fiquei fã da forma como a história é contada, sem grande fluidez e onde a passagem do tempo me pareceu pouco coerente.

Tenho pena, porque a história tem muito potencial mas sinto que, apesar da relevância da história e de todo o contexto que a envolve, como obra literária acho que fica muito aquém. Não sei se ele terá livros diferentes, mais bem desenvolvidos, mas não fiquei com muita curiosidade para descobrir a restante obra dele. 

Recomendo? Assumindo que o meu problema com o livro não está relacionado com a edição ou com uma tradução manhosa, se for honesta, de certeza que existem livros muito semelhantes e mais bem conseguidos, por isso tenho alguma dificuldade em recomendar. 

Boas leituras!

Excerto:

O Fonny tinha descoberto algo que era capaz de fazer, que queria fazer, e isso salvou-o da morte que se preparava para colher tantos da nossa geração. Embora a morte assumisse muitas formas, embora as pessoas morressem jovens de maneiras diferentes, a morte propriamente dita era muito simples e a causa igualmente simples: tão simples como uma praga: diziam aos miúdos que não valiam nada e tudo o que viam à sua volta confirmava a ideia. Esforçavam-se, esforçavam-se, mas caíam como moscas, e juntavam-se nos montes e lixo das suas vidas, como moscas. E talvez eu me tenha agarrado ao Fonny, talvez o Fonny me tenha salvado, porque ele era provavelmente o único rapaz meu conhecido que não andava a drogar-se ou a beber vinho a martelo ou a roubar pessoas ou a fazer assaltos à mão armada em lojas – e nunca domava o cabelo: estava sempre em pé.

Existe uma adaptação do livro para o cinema - If Beale Street Could Talk:

novembro 18, 2021

A Menina que Roubava Morangos - Joanne Harris

Título original: The Strawberry Thief
Ano da edição original: 2019 
Autor: Joanne Harris
Tradução: Ana Saldanha
Editora: Porto Editora

"O coração de Vianne Rocher, a encantadora e inquieta maga do chocolate, parece ter finalmente serenado. A vila de Lansquenet-sous-Tannes, que em tempos a rejeitou, é agora o seu lar. Com a filha mais velha, Anouk, a viver em Paris, Vianne dedica-se por inteiro à chocolaterie e a Rosette, a filha mais nova, a sua menina "especial". A acompanhá-las estão os seus amigos do rio, os extravagantes vizinhos, e o circunspecto padre Reynaud. Mas o vento, quando sopra, traz sempre mudanças… E estas começam com a morte de Narcisse, o temperamental florista. A vila fica em alvoroço pois Narcisse deixa não só uma surpreendente herança a Rosette, mas também uma inesperada confissão.
Nada voltará a ser como dantes. E quando uma loja nova abre onde antes se dispunham as magníficas flores de Narcisse, tudo parece um prenúncio de algo: um confronto, alguma turbulência, ou talvez até… um crime? Conseguirá Vianne impedir que o vento leve tudo o que lhe é mais querido?
Há magia no ar. Há luz e sombra. Vingança e amor. Vinte anos depois da publicação de Chocolate, Joanne Harris regressa à pitoresca vila francesa num romance sobre a força do passado, o poder da memória e a aceitação das marcas que a vida deixa em nós."

Sinto saudades de um livro de Joanne Harris que me encha as medidas. Não consigo sentir muito interesse pelo que se passa na vida de Vianne porque sempre a achei uma chata, mascarada de excêntrica. É chata, é aborrecida e desinteressante.

Vianne está, neste livro, particularmente parva e incoerente. No entanto, o maior protagonismo de Rosette acaba por tornar o livro menos aborrecido e menos óbvio, porque Rosette é uma miúda especial, mesmo para os padrões da família Rocher. É mais complexa, mais densa e perspicaz. É uma miúda inteligente e destemida, com vontade de viver a própria vida sem medos e limitações.

A Menina que Roubava Morangos não deixa, no entanto, de ser mais do mesmo. A mudança do vento, a chegada de uma estranha irresistivelmente sedutora, que ameaça a paz e o sossego dos habitantes de Lansquenet-sous-Tannes, e em particular, parece ameaçar tudo o que Vianne conseguiu alcançar e que ama na sua vida.

Por mais que me custe, não sei se voltarei a ler mais algum livro da Joanne Harris que inclua a Vianne Rocher. Conhecendo todos os outros livros dela e todas personagens femininas que já criou, sei do que ela é capaz e, por isso, tenho muita dificuldade em gostar de Vianne e em reconhecer-lhe as qualidades que me levariam a querer saber mais sobre a sua vida.

Recomendo, para quem gosta do universo Vianne Rocher. Para quem nunca leu Joanne Harris, acho que deveriam começar por qualquer outro, fora da saga Vianne. 

Boas leituras! 

Excerto (pág. 144):

"Voltei para a chocolaterie invadida por uma profunda sensação de  inquietude. Morgane ficou a observar-me da porta, com as suas calças pretas largas a esconder aqueles pés perturbadores. O que quer que fosse que os antigos Chineses acreditassem, não tenho razão para pensar que há algo de maléfico em Morgane; e, no entanto, tudo nela me deixa inquieta. A sua chegada, na mudança do vento. As cores à volta da entrada da loja dela. A maneira como Rosette se sentiu atraída para ela apesar dos meus avisos de que devia manter-se afastada. E, agora a conversa dela sobre os Maias parece demasiado a propósito para ser uma coincidência."

novembro 14, 2021

A Infância de Jesus - J. M. Coetzee

Título original: The Childhood of Jesus
Ano da edição original: 2013
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote

"Depois de cruzarem oceanos, um homem é um rapaz chegam a uma nova terra. Recebendo ali um nome e uma idade, são alojados num campo do deserto enquanto aprendem espanhol, a língua do novo país. 
Agora chamados Simón e David, dirigem-se ao centro de realojamento da cidade de Novilla, onde os funcionários são corteses, mas não necessariamente prestáveis. Simón assume então a incumbência de localizar a mãe do rapaz. Embora, como todos os que chegam a este novo país, pareça estar completamente limpo de todos os vestígios de recordações, tem a convicção de que a reconhecerá quando a vir. E , de facto, ao passear pelo campo com o rapaz, Simón vislumbra uma mulher que tem a certeza tratar-se da mãe dele, persuadindo-a a assumir esse papel. E será a nova mãe de David a aperceber-se de que está é uma criança excecional, um rapaz inteligente e sonhador, com ideias muito invulgares sobre o mundo. As autoridades académicas, porém, detestam nele um traço de rebeldia e obstinam-se em que ele seja enviado para uma escola especial distante. A mãe recusa-se a entregá-lo, e é Simón que terá de conduzir o automóvel durante a fuga do trio pelas montanhas. 

A Infância de Jesus é um belo e profundo romance, sempre surpreendente, assinado por um esplêndido escritor. "

Tinha algumas expectativas quando peguei neste livro para ler. Gostei de tudo o que li de J. M. Coetzee e por isso, quando comecei a ler A Infância de Jesus, e a primeira impressão foi de estranheza, fiquei preocupada.
A verdade é que estranhei um pouco a história, as personagens e a dinâmica entre elas. Estranhei o ritmo. Houve momentos em que pensei que não estava a gostar muito, e outros em que me consegui embrenhar em tudo aquilo.
Acabei por ler o livro em muito poucos dias, o que hoje em dia é uma raridade e, terminado o livro, gostei bastante. É um pouco diferente dos outros que li dele, achei-o original, gostei das personagens e da forma como nos permite refletir sobre algumas questões que, enquanto sociedade, devíamos todos refletir.

De uma forma muito resumida, não querendo repetir ou acrescentar mais ao muito que já é dito na sinopse, A Infância de Jesus conta-nos a história de um homem e de uma criança, que chegam juntos a Novallis. O homem não é familiar da criança, não o conhecia até há pouco tempo e não sabe o nome dele. Aliás, nenhum dos dois tem memória da sua vida passada, algo que parece ser uma consequência da viagem que todos fazem até ali, uma espécie de preço a pagar para poderem entrar e ficar em Novallis porque, "não há mais nenhum sítio para estar a não ser aqui." Por isso, na verdade, nenhum dos dois sabe como se chama e os seus nomes e idades foram escolhidos no centro de onde vieram antes de poderem avançar para Novallis.
 
Simón fica como responsável por David, a quem prometeu que iria encontrar a mãe, embora não saiba o nome dela, nunca a tenha visto e o rapaz não se lembre dela. No entanto, Simón tem a certeza que quando a vir vai saber que é ela.

Novallis não é uma cidade normal, parece que estamos, de alguma forma, a viver numa espécie de distopia. As pessoas são todas muito simpáticas, mas não são particularmente disponíveis e prestáveis. Não parecem genuinamente interessadas em ninguém ou por nada. São burocráticas, vivem de acordo com as regras e não as questionam. Não parecem precisar de mais nada, não criam novos laços e já perderam a memória dos laços que existiam antes de lhes ser dada a oportunidade de viverem em Novallis.
David é um miúdo inteligente que questiona tudo e todos, principalmente a autoridade e, começa a destacar-se num meio onde todos obedecem.

Não existe propriamente uma autoridade repressiva ou autoritária que incute o medo. É mais uma espécie de apatia que parece estar entranhada em todos os habitantes de Novallis. Não há uma proibição de questionar nem existe violência ou reações extremadas. As crianças vão à escola e os adultos trabalham, em qualquer coisa, para poderem comprar comida e ter um sítio onde morar. Mais nada.

Trabalham sem que exista um objetivo definido no trabalho que desenvolvem. Simón arranja trabalho nas docas na descarga de mercadoria e, passado uns tempos apercebe-se de que tudo o que ele e os colegas descarregam não serve para nada, toda aquela carga é levada, por outros colegas, para um outro sítio nas docas e fica por lá sem qualquer serventia. 
Muita da nossa economia é exatamente isto: Consumir matérias-primas finitas, para produzir coisas que ninguém vai comprar ou que têm uma utilidade muito limitada e que acaba no lixo. Existem milhares, milhões de pessoas que se levantam todos os dias para passarem mais de metade do seu dia a produzirem algo que vai diretamente para o lixo. Trabalho inútil que só serve para dar trabalho, também ele inútil, ao próximo agente na cadeia de valor. E andamos todos, a correr atrás da própria cauda, preocupados em aumentar produtividade, em aumentar lucros, quando na realidade a grande maioria de nós está a trabalhar para produzir lixo... É angustiante... 

Gosto muito de J. M. Coetzee. Para além de falar em assuntos que, de uma forma geral, são pertinentes, há uma leveza na escrita e na forma como nos conta uma história que faz com que tudo nos pareça muito próximo.
A Infância de Jesus não fugiu à regra. Primeiro estranhei, é verdade, mas depois entranhou de tal forma que já comprei o segundo volume, Jesus na Escola, da trilogia, que fecha com A Morte de Jesus.

Recomendo, sem qualquer hesitação.

Boas leituras.

Excerto (pág. 28):

" - Para que é que estamos aqui, Simón? - pergunta baixinho. 
 - Já te disse: estamos aqui só por uma ou duas noites, até encontrarmos um sítio melhor para ficarmos.
 - Não, o que eu quero dizer é porque é que estamos aqui? - o seu gesto abarca o quarto, o Centro, a cidade de Novilla, tudo. 
 - Tu estás aqui para encontrar a tua mãe. E eu estou aqui para te ajudar. 
 - Mas depois de a encontrarmos, para que é que estamos aqui? 
 - Não sei o que dizer. Estamos aqui pela mesma razão pela qual todas as outras pessoas estão. Deram-nos uma possibilidade de viver e nós aceitámos essa possibilidade. É uma grande coisa, viver. É a maior de todas as coisas. 
 - Mas temos de viver aqui? 
 - Aqui em vez de onde? Não há mais nenhum sítio para estar a não ser aqui. Agora fecha os olhos. São horas de dormir. "