março 19, 2023

[Ebook] MaddAddam- Margaret Atwood

Título original: 
MaddAddam
Ano da edição original: 2013
Autor: Margaret Atwood
Editora: Virago (Ebook ISBN: 9780748130191)

"By the author of The Handmaid's Tale and Alias GraceToby, a survivor of the man-made plague that has swept the earth, is telling stories.Stories left over from the old world, and stories that will determine a new one. Listening hard is young Blackbeard, one of the innocent Crakers, the species designed to replace humanity. Their reluctant prophet, Jimmy-the-Snowman, is in a coma, so they've chosen a new hero - Zeb, the street-smart man Toby loves. As clever Pigoons attack their fragile garden and malevolent Painballers scheme, the small band of survivors will need more than stories."

MaddAddam é o terceiro e último livro da trilogia composta por Oryx and Crake e The Year of the Flood (opiniões aqui e aqui), de Margaret Atwood.

O livro começa exatamente onde o anterior acabou e, como não quero inadvertidamente, contar algo que possa estragar a vossa leitura, digamos que... Zeb e o seu pequeno grupo estão a reorganizar-se e continuam à procura de Adam One. Toby e mais uns quantos nossos conhecidos, que incluem um Jimmy doente, entre a vida e a morte, acabam por se juntar ao grupo de Zeb. Com Toby, ou melhor com Jimmy, vêm os Filhos de Crake, incapazes de se afastarem de Jimmy.

Como Jimmy não está em condições de manter a tradição de contar histórias ao Filhos de Crake e porque estes são muito ciosos das suas rotinas e rituais, acaba por ser Toby a escolhida por eles para manter a tradição.
Toby conta-lhes histórias de Crake, de Oryx, de Jimmy e do próprio Zeb que parece estar a tornar-se para eles uma espécie de Deus.

As histórias são inspiradas nas próprias memórias que Zeb partilha com Toby. Ficamos a conhecer a sua relação com Adam One, como chegou até ali e qual foi o seu papel em tudo o que aconteceu. Através dele conhecemos também o papel e a história de Adam One.

Os Filhos de Crake são criaturas curiosas, em particular uma das crianças do grupo, a quem Toby ensina a escrever e a ler.
É curiosa a forma como esta criança, que não tem qualquer passado e que desconhece muitos dos conceitos que para Toby e os outros humanos são dados adquiridos, começa a apreender tudo. A ironia para eles é desconhecida, não percebem o que é ler ou escrever, não têm maldade e a violência é-lhes dolorosa e incompreensível. 
É esta criança que mais tarde vai continuar a contar as histórias de Zeb, Crake, Oryx e Fuck (têm de ler para perceber) aos outros, quando Toby e Zeb já não estiverem entre eles. É é assim que a vida continua. E é assim que começa a nascer uma nova "humanidade", talvez melhor que a anterior, talvez apenas diferente da anterior. 

MaddAddam é o livro que cola todas a pontas soltas e que tece um fio entre as vidas de todas as personagens que conhecemos nos livros anteriores.
É o livro de Toby e Zeb. É o livro dos Filhos de Crake, como nova espécie senciente no planeta Terra. Os que vão herdar o planeta e toda a história da humanidade que existiu antes deles.
É o livro da esperança e da continuidade.

Esta é uma trilogia que vale muito a pena ler. Para além de estar muito bem escrita e de ter personagens que ficam connosco por algum tempo, levanta questões pertinentes e que nos fazem refletir. 
Refletir sobre o percurso da humanidade, o que nos torna naquilo que somos, a necessidade quase inata de sabermos de onde viemos, de termos um passado, algo que nos ligue a este mundo e aos nossos semelhantes, a idolatria e a necessidade de nos sentirmos protegidos por algo superior a nós e que não conseguimos compreender completamente.

Mais um que recomendo sem qualquer reserva. Leiam os três, não são livros que valham por si só.

Boas leituras!

Excerto:
"They're preternaturally beautiful, thinks Toby. Unlike us. We must seem subhuman to them, with our flapping extra skins, our aging faces, our warped bodies, too thin, too fat, too hairy, too knobbly. Perfection exacts a price, but it's the imperfect who pay it.
Each of the Crakers has one hand on Jimmy. They're purring; the hum gets louder as Toby walks over to them.
'Greetings, Oh Toby', say's the taller of the two women. How do they know her name? They must have listened more carefully than she'd thought last night. And how should she reply? What are their own names, and is it polite to ask?
'Greetings', she says. 'How is Snowman-the-Jimmy today?'
'He is growing stronger, Oh Toby', says the shorter woman. The others smile. (...)
'Snowman-the-Jimmy is coming closer to us', says the short woman. 'Then he will tell us the stories of Crake, as he always did when he was living in his tree. But today you must tell them to us.'
'Me?' says Toby. 'But I don't know the stories of Crake!'
'You will learn them', says the man. 'It will happen. Because Snowman-the-Jimmy is the helper of Crake, and you are the helper of Snowman-the-Jimmy, That is why.'
'You must put on this red thing', says the shorter woman, 'It is called a Hat.'
'Yes, a hat', says the tall woman. 'In the evening, when it is moth time. You will put this hat of Snowman-the-Jimmy on your head, and listen to this shiny round thing that you put on your arm.'
'Yes', says the other woman, nodding. 'And then the words of Crake will come out of your mouth. That is how Snowman-the-Jimmy would do it.'
'See?' says the man. He points to the lettering ond the hat: Red Sox. 'Crake made this. He will help you. Oryx will help too, if the story has an animal in it.'
'We will bring the fish, when it is getting dark. Snowman-the-Jimmy always eats a fish, because Crake says he must eat it. Then you will put on the hat and listen to this Crake thing, and say the stories of Crake.'
'Yes, how Crake made us in the Egg, and cleared away the chaos of bad men. How we left the Egg and walked here with Snowman-the-Jimmy, because there were more leaves for us to eat.'
'You will eat the fish, and then you will say the stories of Crake, as Snowman-the-Jimmy always did', says the shorter woman. They look at her with their uncanny green eyes and smile reassuringly. They seem entirely confident of her abilities.
What are my choices? thinks Toby. I can´t say no. They may get disappointed, and go away by themselves, back to the beach, wheres the Painballers can grab them. They'd be easy prey, especially the children. How can I let that happen?
'All right', she says. 'I will come in the evening. I will put on the hat of Jimmy, I mean Snowman-the-Jimmy, and tell you the stories of Crake.'
'And listen to the shiny thing', says the man. 'And eat the fish.' It seems to be the ritual.
'Yes, all of that', says Toby.
Shit, she thinks. I hope they cook the fish."

março 11, 2023

[Ebook] The Year of the Flood - Margaret Atwood

Título original: The Year of the Flood
Ano da edição original: 2009
Autor: Margaret Atwood
Editora: Hachette Digital (Ebook ISBN: 9780748113378)

"By the author of The Handmaid's Tale and Alias Grace. The sun brightens in the east, reddening the blue-grey haze that marks the distant ocean. The vultures roosting on the hydro poles fan out their wings to dry them. the air smells faintly of burning. The waterless flood - a man-made plague - has ended the world. But two young women have survived: Ren, a young dancer trapped where she worked, in an upmarket sex club (the cleanest dirty girls in town); and Toby, who watches and waits from her rooftop garden. Is anyone else out there?"

Este é o segundo livro da trilogia de Margaret Atwood, o que se segue a Oryx and Crake (a minha opinião aqui) e que nos leva para o ano 25, o ano do dilúvio seco, o ano da praga que dizimou quase toda a humanidade.

Passa-se no mesmo período de tempo que Oryx and Crake, dando-nos a perspetiva do lado de fora dos muros dos complexos tecnológicos. Mostra-nos como era a vida de quem estava de fora antes da misteriosa praga que parece ter poupado apenas duas mulheres, Toby e Ren.

Vamos conhecer os God's Gardeners, uma comunidade fundada por Adam One, cujos princípios assentam no respeito pela natureza e por todos os animais. Eram uma espécie de ativistas do clima e que lutavam para que todos percebessem que a terra não iria aguentar muito mais tempo se os humanos continuassem a comportar-se de forma predatória.
Plantavam os próprios alimentos, não comiam carne e peixe. Na sua maioria eram cientistas, que trabalhavam nos Complexos, para os Corps e, que fugiram por não concordarem com os projetos e com as experiências que lá se faziam.
Esta era, pelo menos, a face visível do grupo. Como em tudo, nem tudo é apenas aquilo que conseguimos ver e ouvir com os nossos olhos e ouvidos.
Nesta comunidade todos eram bem-vindos, desde que respeitassem as regras e todos tinham um papel ou trabalho na comunidade em prol de todos. 

Conhecemos Toby que trabalhava no SecretBurger, para Blanko, um homem asqueroso de quem não conseguia fugir, até que é salva por Adam One que a leva para os God's Gradeners.
É lá que conhece Zeb, o homem que passa a amar secretamente, e Pilar, que lhe ensina tudo sobre abelhas e sobre as propriedades das plantas e das ervas.

Ren é apenas uma pré-adolescente quando a mãe, Lucerne, abandona o pai e a arrasta com ela para ir atrás de Zeb, completamente apaixonada por ele. Juntam-se aos God's Gradeners, mas não são verdadeiras crentes nos ensinamentos de Adam One.
Nos God's Gardner, Ren conhece Amanda, uma miúda divertida, segura de si, uma sobrevivente. As duas tornam-se inseparáveis no tempo que partilham no Edencliff Rooftop. 

Ao longo do livro vamos viajando entre o passado e o ano 25 e ficar a conhecer o que levou cada uma destas personagens a estarem onde estavam quando a história começa.

Quando a praga ataca, e todos começam a morrer, os God's Gardeners já quase não existem. Depois de Zeb se ter afastado de Adam One, em desacordo com a atitude pacifista do líder, o grupo acabou por se dividir e seguir caminhos distintos. 
Toby também acaba por se afastar e, quando tudo começa, está a trabalhar num salão de beleza, que oferece tratamentos estéticos. É lá que fica barricada, convencida que é a única sobrevivente. Os seus dias passam-se a dormir e a vigiar a sua horta para impedir que seja atacada pelos piggons e outras espécies, criadas nos Complexos e, que agora circulam livremente.

Ren, depois de ter regressado com a mãe para o Complexo de onde tinha fugido, e depois de terminar os estudos, está a trabalhar como bailarina exótica num bar de reputação duvidosa. Quando todos começam a morrer, Ren está fechada numa espécie de sala de pânico de onde não consegue sair, depois de todos lá fora terem morrido. 

Não quero contar-vos tudo e retirar-vos o prazer da descoberta, por isso, termino dizendo que Jimmy, o Snowman de Oryx and Crake, o guru dos Filhos de Crake, vai perceber que afinal não é o último Homem à face da Terra.

É um livro que se lê bem, embora tenha gostado mais do primeiro.
Como o terceiro livro, Maddaddam, começa onde este acabou, sem grandes preâmbulos, aconselho-vos a ler os três livros de seguida, como se fossem um só.

Gosto dos livros de Margaret Atwood. São assustadoramente reais e realistas sendo ao mesmo tempo pura ficção. 
A escrita é boa, as personagens bem construídas e as histórias originais e interessantes. 

Recomendo Margaret Atwood sem qualquer hesitação. 

Boas leituras!

Excerto:
"New people kept arriving among the Gardeners. Some were genuine converts, but other's didn´t stay long. They'd be there for a while, wearing the same baggy, concealing clothes as everyone else, working at the most menial tasks, and, if they were women, weeping from time to time. Then they´d be gone. They were shadow people, and Adam One was moving them around in the shadows. As he'd moved Toby herself.
This was guesswork: it hadn´t taken Toby long to realize that the Gardeners did not welcome personal questions. Where you´d come from, what you'd done before - all of that was irrelevant, their manner implied. Only the Now counted. Say about others as you would have them say about you. In other words, notihing. (...)
Then there was Zeb. Adam Seven. Toby didn´t believe Zeb was a true Gardener, any more than she was. She´d seen a lot of men of that general shape and hairiness during her SecretBurger days, and she´d bet that he had some game going; he had that kind of alertness. Now what was a man like that doing at the Edencliff Rooftop?"

dezembro 26, 2022

[Ebook] A Filha das Flores - Vanessa da Mata

Título: 
A Filha das Flores
Ano da edição original: 2013
Autor: Vanessa da Mata
Editora: Quetzal Editores

"Neste romance de estreia, Vanessa da Mata demonstra uma incrível destreza linguística e a capacidade de criar uma história atmosférica e magnética.
Giza cresce numa pequena cidade brasileira e ajuda, com o seu trabalho, num negócio de flores muito especial gerido por Florinda e Margarida que a tratam como irmã.
Aos 18 anos, Giza apaixona-se por Tito, mas Florinda apressa-se a pôr um fim à sua paixão.
À medida que Giza vai crescendo, a vila parece ir diminuindo, o que faz com que ela comece a procurar novos territórios e encontre a "Vila" - um bairro periférico, detestado pela população em geral. Aí faz novos amigos que a iniciam na história secreta daquele lugar que se revela estar ligada à sua própria origem."

Da Vanessa da Mata conhecia apenas a música e tinha alguma curiosidade em ler A Filha das Flores, o primeiro, e acho que até à data o único, livro que escreveu.

A sinopse resume bem a história. Giza é uma menina, pré-adolescente, que cresce numa cidade pequena, e vive com duas irmãs, Florinda e Margarida, a quem trata por Titias, embora não saiba o verdadeiro grau de parentesco que tem com elas. Giza é desajeitada, tem pouca auto-estima, acha-se feia e pouco interessante. Embora não saiba explicar porquê, sente que há qualquer coisa na vida dela e na sua história que não consegue encaixar. Sente-se deslocada, olhada de lado por toda a gente na cidade, como se todos lhes escondessem alguma coisa e sente-se pouco amada pelas duas irmãs com quem vive, algo que se vai tornando cada vez mais evidente, à medida que Giza vai crescendo e começa a despertar a atenção do sexo oposto.

As pessoas na pequena cidade, começa a reparar Giza, são invejosas, mentirosas e maldosas, escondendo o que verdadeiramente sentem. Em público são simpáticas e sorridentes, como se tudo estivesse bem, mas revelam-se no que fazem e dizem quando pensam que ninguém as está a ver ou a ouvir.

Tudo se precipita na vida de Giza quando, no dia em que faz 18 anos, conhece e se apaixona perdidamente por Tito. E quando vai, pela primeira vez à "Vila", um bairro nos arredores da pequena cidade e que é o oposto da cidade. Na "Vila" as pessoas são francas e alegres, não escondem os seus defeitos e vivem como querem sem qualquer preconceito. São afáveis e acolhedoras.
A cidade e a "Vila" vivem de costas voltadas uma para a outra. Os habitantes da "Vila" não descem à cidade e os habitantes da cidade não sobem à "Vila", pelo menos, não de forma a que todos saibam. 
Giza, que não sabia da existência da "Vila", não percebe como é possível que, em toda a sua vida nunca ninguém lhe tenha falado daquele local? Sem que consiga perceber porquê sente-se em casa na "Vila", algo que nunca sentiu na cidade onde sempre viveu.
Giza vai perceber que sempre esteve ligada aquele lugar, que todos os seus desconfortos, todas as suas impressões tinham um fundo de verdade. Giza vai descobrir quem é e de onde veio e, sabendo tudo isso, está preparada para conhecer o mundo.

Gostei do início e do meio da história, para o fim achei que ela se perdeu um bocadinho e depois acabou por se encontrar novamente. Acho que se nota que a Vanessa da Mata não é uma escritora profissional. Percebe-se em alguns diálogos e em alguns acontecimentos menos interligados, no entanto, acho que acabou por resultar num livro interessante, com passagens muito bonitas e bem escritas e, com uma história diferente, que se lê muito bem. Gostei especialmente das personagens que me pareceram todas muito bem desenvolvidas e com quem conseguimos criar empatia.

Gostei e recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excerto:
"Havias duas buganvílias entrelaçadas que cruzavam a casa, foram plantadas de modo a agradar as vistas das titias. Cada uma de uma cor, ordenadas desde filhotes a passar de um lado ao outro e acimas das janelas dos quartos, eram de copas cheias e, quando floriam, pintavam a casa inteira de pequeninas formas. Infinitos pontos avermelhados e alaranjados causando nos olhos um furta-cor, como se fossem flores de papel - o começo de uma no final da outra, origamis de seda que se misturavam.
Percebi então, com os rasgos da parte nova da minha maioridade que quebrou, o que eu nunca quis tornar consciente: jamais tive uma grama da atenção delas. Antes achando que era pelo motivo da ignorância da infância, mas depois, crescida, vendo que era porque o que elas podiam me dar era, somente ou o bastante, um comportamento educado. Nada de dar beijo suado, exagerado e abraço demorado. Conversar o desnecessário ou chorar perto delas - isso era coisa de fracos, de impulsivos, mas entre elas havia o insuportável, elas estavam dispostas a essas manifestações humanas dentro de ambientes fechados, cuidadosamente controláveis.
Fui tomada por uma dor no peito que nem na época em que os meus seios irromperam sobre as costelas eu havia sentido, jamais achei que existia algum problema físico sério - a não ser a morte, é claro - que trouxesse uma dor tão insuportável. Pensei que poderia com todas elas, que era maior, e as dominaria se fosse necessário, mas entendi que aquela era a dor mais imponente, impiedosa, severa, indigesta e impossível de lidar para mim. Desnorteou toda a minha base, deixando descomandado o meu pensamento, desmantelado o resto do meu corpo. A dor que eu sentia não dava trégua, era permanente e me tomava da fronte aos pés, me envolvendo em um manto de chumbo de todos os sem-rumo e trazendo à tona os tristes e as tristezas do mundo inteiro. Tudo deitado em mim, como se ser adulto fosse isso: se encontrar, dentro de um feioso caixão, com a perda da infância e com o disparate da sua morte. A decepção é mesmo senhora do demônio, ainda mais quando o demônio está do nosso lado e se revela dissimulado durante tantos anos, dentro de um vestido bordado de bondade e amizade. Era muito tempo me construindo dentro de uma casa onde eu me inventava amada e querida e tudo se desmoronava, eu não me tinha mais. Me mastigava compulsivamente e, mesmo assim, não sentia um ínfimo gosto agradável depois de tidas as unhas arruinadas, restava apenas o fel no fundo do paladar.
Era possível ser de alguém, não sendo?"

O Prisioneiro do Céu - Carlos Ruiz Zafón

Título original: El Prisionero del Cielo
Ano da edição original: 2011
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Sérgio Coelho
Editora: Editorial Planeta

"Barcelona, 1957, Daniel Sempere e o amigo Fermín, os heróis de A Sombra do Vento, regressam à aventura, para enfrentar o maior desafio das suas vidas.

Quando tudo lhes começava a sorrir, uma inquietante personagem visita a livraria Sempere e ameaça revelar um terrível segredo, enterrado há duas décadas na obscura memória da cidade. Ao conhecer a verdade, Daniel vai concluir que o seu destino o arrasta inexoravelmente a confrontar-se com a maior das sombras: a que está a crescer dentro de si.

Transbordante de intriga e de emoção, O Prisioneiro do Céu é um romance magistral, que o vai emocionar como da primeira vez, onde os fios de A Sombra do Vento e de O Jogo do Anjo convergem através do feitiço da literatura e nos conduzem ao enigma que se esconde no coração do Cemitério dos Livros Esquecidos. Este romance de Carlos Ruiz Zafón é um verdadeira promessa de felicidade."

Livro lido nas férias de Verão de há uns dois anos atrás. Os pormenores já se desvaneceram na memória, é certo mas, conservo a mística de Barcelona e as personagens que Carlos Ruiz Zafón tão bem sabia criar. Misteriosas e assustadoras.

O Prisioneiro do Céu, traz-nos Daniel Sempere, à frente da livraria, casado, com um filho e feliz. Os dias passam sem grandes sobressaltos, para além dos que atormentam todos os donos de livrarias. Não serão os negócios mais rentáveis e estáveis do mundo. :)
Um dia, um estranho homem, entra na vida do casal e, com ele traz a dúvida e o medo. Daniel Sempere descobre dentro dele sentimentos que não sabia serem possíveis. Torna-se um homem inseguro, desconfiado e agressivo. Fica obcecado por este homem que de repente tornou a sua vida num inferno.

E quem será este homem misterioso que parece trazer a desgraça para os Sempere? O que vamos conhecendo desta personagem e a sua história foi o que mais me cativou no livro. As descrições, o mistério, a dualidade - será bom? será mau?, foi o que mais me manteve interessada na leitura.
Julgo que não é novidade que a personagem do Daniel Sempere, sempre me irritou um bocadinho. Essa impressão não se alterou, agora que é um homem adulto. :)
Com a ajuda de Fermín, o amigo de sempre, e que parece estar, de alguma forma envolvido na história que o homem misterioso está a querer desenterrar, Daniel vai percorrendo as ruas e ruelas de Barcelona para tentar descobrir o que trouxe aquela personagem para a sua vida.

A história está bem escrita, outra coisa não seria de esperar do Carlos Ruiz Zafón. Consegue manter uma aura de mistério, quase terror, que nos mantém em suspenso até ao fim. Foi muto bom voltar a estar com Fermín. Acho que é uma das personagens mais bem conseguidas deste universo do Cemitério dos Livros Esquecidos.
Para quem gosta de Carlos Ruiz Zafón e deste universo, O Prisioneiro do Céu é um livro que não podem não ler. 

Recomendo sem reservas.

Boas leituras!

Excerto (pág. 95):

"A cela era um rectângulo escuro e húmido, com um pequeno orifício aberto na rocha, por onde entrava ar frio. As paredes estavam cobertas de mossas e marcas gravadas pelos inquilinos anteriores. Alguns gravavam os seu nomes, datas ou deixavam algum indício de que haviam existido. (...)
Fermín estava ali há meio hora, quando reparou, no outro extremo da cela, num vulto na sombra. Levantou-se e aproximou-se devagar, acabando por descobrir tratar-se de uma saca de serapilheira suja. O frio e a humidade haviam começado a penetrar-lhe nos ossos e, por mais que o cheiro emanado daquele fardo salpicado de manchas escuras não augurasse agradáveis conjecturas, Fermín pensou que talvez a saca tivesse uma farda de prisioneiro, que ninguém se dera ao trabalho de lhe entregar e, com um pouco de sorte, um cobertor para se aquecer. Ajoelhou-se em frente à saca e desatou o nó que atava uma das extremidades.
Ao abri-la, a iluminação das candeias que cintilavam trémulas no corredor revelou o que, por momentos, julgou tratar-se do rosto de um boneco, de um manequim como os que os alfaiates colocavam nas montras para exporem os fatos. O fedor e a náusea fizeram-no compreender que não se tratava de um boneco. Cobrindo o nariz e a boca com uma das mãos, retirou o resto do tecido e atirou-se para trás, contra a parede da cela.
O cadáver parecia ser de um adulto de idade indeterminada, entre os quarenta e os setenta e cinco anos, que não deveria pesar mais do que cinquenta quilos. Os cabelos compridos e a barba branca cobriam-lhe uma boa parte do tronco esquelético. As mãos ossudas, de unhas compridas e retorcidas, assemelhavam-se às garras de uma ave. Tinhas os olhos abertos e as córneas pareciam ter-se-lhe enrugado, como frutos maduros. A boca estava entreaberta e a língua, inchada e enegrecida, ficara presa entre os dentes apodrecidos.
- Tire-lhe a roupa antes que o levem - entoou uma voz de uma cela do outro lado do corredor. - A si, ninguém lhe vai dar outras roupas até ao próximo mês."

dezembro 18, 2022

[Ebook] Um Detalhe Menor - Adania Shibli

Título original: تفصيل ثانوي
Ano da edição original: 2020
Autor: Adania Shibli
Tradução: Hugo Maia
Editora: Publicações D, Quixote

"No verão de 1949 - um ano depois da Nakba, a catástrofe que expulsou mais de 700 mil palestinianos das suas terras, e que os israelitas celebram como a Guerra da Independência -, uma unidade de soldados israelitas, ataca um grupo de beduínos no deserto do Negueve, dizimando-o. Entre as vítimas encontra-se uma adolescente que sobrevive ao massacre. É capturada e violada, e depois assassinada e enterrada na areia. É a manhã de 13 de agosto de 1949.
Muitos anos mais tarde, quase na atualidade, uma jovem mulher em Ramallah descobre acidentalmente uma breve menção a esse crime brutal. Obcecada com o assunto, não só devido à natureza macabra do caso, mas também devido ao detalhe menor de ter acontecido precisamente vinte e cinco anos antes de ela nascer, irá embarcar numa viagem para tentar desvendar alguns dos detalhes que envolvem o crime.
Adania Shibli sobrepõe magistralmente estas duas narrativas translúcidas para evocar um presente para sempre assombrado pelo passado. Com uma prosa inquietante e precisa, Um Detalhe Menor evoca a experiência palestiniana do apagamento, da expropriação e da vida sob a ocupação, ao mesmo tempo que revela a complexidade permanente de se juntar as peças de uma narrativa ocultada por fragmentos de linguagem."

O livro está dividido em duas partes. A primeira parte passa-se em 1949, quando uma unidade de soldados israelitas ataca um grupo de beduínos no deserto do Negueve. Uma adolescente sobrevive e é trazida pelos soldados para o acampamento, onde é violada por praticamente todos os soldados daquela unidade. A rapariga nunca baixa os braços, grita e luta até ao fim. Talvez por isso, porque percebem que ela nunca vai ser submissa e vergar-se às suas vontades, acaba por ser levada de volta para o deserto, onde é abatida e enterrada, sem qualquer demonstração de compaixão por parte dos seus carrascos.

O relato destes dois, três dias é de certa forma sufocante e ao mesmo tempo entediante. Adania Shibli centra o relato na personagem do comandante da unidade e descreve, julgo que de forma propositada, de forma repetitiva, as rotinas do comandante, desde a higiene às saídas para patrulhar as áreas circundantes. Pelo meio, uma jovem é violada, o cão que nunca a deixou sozinha ladra incessantemente, a rapariga é arrastada para o deserto, é abatida a tiro e o comandante regressa para a sua tenda, lava o rosto, desinfeta a ferida que tem na perna, muda de camisa e segue com os seus deveres. 
Esta forma de nos contar o que se passou tem um efeito entorpecedor, como se o que é relatado não devesse afetar-nos. De certa forma desumaniza o que aconteceu e isso foi algo que me deixou, naturalmente desconfortável, porque eu deveria estar horrorizada mas, na verdade o que eu sentia era alguma indiferença. Aquela espécie de cantilena deixou-me adormecida. Faz sentido?

A segunda parte, passa-se muitos anos depois. Em Ramallah, no Estado da Palestina, uma jovem mulher lê uma referência ao que aconteceu a esta rapariga em 1949 e, quando percebe que a rapariga foi morta no dia do seu aniversário, precisamente 25 anos antes de ela nascer, fica obcecada com o assunto. Sem conseguir esquecer a rapariga e com a certeza de que o que leu não é o mais fiel retrato do que se passou, porque foi escrito por um jornalista israelita, decide investigar ela própria o que aconteceu. Para isso tem de entrar em território de Israel. Não tem os documentos necessários para o fazer mas, acaba por ser ajudada por colegas de trabalho. Uma colega entrega-lhe o seu passe pessoal que lhe permite circular pelos territórios ocupados por Israel e um outro colega aluga-lhe o carro para a viagem.

Nesta segunda parte, mantém-se o mesmo ritmo de escrita, embora a cantilena seja menos evidente. 

Impressiona a referência aos dois mapas que ela utiliza para se orientar, um pré-ocupação e o oficial de Israel. No primeiro faz-se referência a localidades, aldeias inteiras, que no segundo mapa pura e simplesmente não existem ou que foram destruídas e substituídas por colonatos. Embora as aldeias já não existam de facto, porque foram forçadas a deixar de existir, o não serem sequer mencionadas, é como se nunca tivessem existido. É como se todas as pessoas que lá nasceram, viveram e morreram, nunca tivessem existido.

Impressiona a paisagem que parece sempre igual, deserta, sem gente. Locais de onde as pessoas foram forçadas a sair mas que não foram reocupados, apenas destruídos e, todo e qualquer vestígio dos anteriores habitantes foi eliminado, literalmente eclipsado do mapa.

E porquê? É a pergunta que me vai passando pela cabeça. Porquê?
Não tenho reposta, nem capacidade para procurar a resposta.

Impressiona o carrossel emocional desta mulher, entre o medo de ser apanhada e a vontade, incompreensível, que tem de conhecer melhor a rapariga e as circunstâncias que levaram à sua morte em 1949.

Impressiona toda esta viagem, e o seu fim é, infelizmente, o único fim que fazia sentido. 

Há uma pergunta que não me deixa em paz desde que li este livro. Não consigo entender a relação que os Israelitas, povo que já habitava o território que acabou por ser oficialmente reconhecido como Estado de Israel, depois do fim da 2ª Guerra Mundial, têm ou tinham com os Judeus perseguidos pelos Nazis? Tenho dificuldade em aceitar que estão relacionados. Como é que, um povo que passou pelo que passou, que foi dizimado e perseguido, consegue ocupar, de forma ilegal, território que não lhe pertence, e continuar, há décadas, a alimentar um conflito desigual, injusto e desumano. Não consigo perceber...
Sei que tudo isto não é simples e que as coisas não são pretas ou brancas. Sei, no entanto que, muitas vezes as coisas são tão complexas quanto nós, ou alguém, por nós, quer que sejam. Simples, complexas é tudo uma questão de perspetiva.

Gostei muito. É um livro pequeno que se lê muito rápido e que, julgo que vai ficar na minha cabeça por algum tempo.

Recomendo sem hesitações.

Boas leituras!

Excerto:
"Não sei se já terei percorrido esta estrada anteriormente, como me pareceu ao início, ou não. A estrada que me era familiar até há uns anos era estreita e repleta de curvas, enquanto está é demasiado larga e reta. Além disso, o muro com cinco metros de altura que emerge de ambos os lados, é sucedido por imensos novos edifícios agrupados em colonatos, que não existiam antigamente ou quase que não se viam, enquanto a maioria das aldeias palestinianas que aqui havia desapareceram. 
De cabeça erguida e olhos bem abertos, procuro quaisquer vestígios dessas aldeias e das suas casas que se enxameavam espontaneamente, à semelhança das rochas sobre as colinas, ligadas entre si por estreitos caminhos que vagarosamente serpenteavam. Mas em vão. Já não é possível avistar nenhuma. E quanto mais avanço, menos sei onde estou! Até que vislumbro, à esquerda da estrada, um outro caminho bloqueado, e é aí então que tenho a certeza de que já passei nesta estrada dezenas de vezes, pois este caminho secundário, que agora está barrado por uma pilha de terra e alguns vultos os blocos de betão, conduz até às aldeias de al-Jib. Paro o carro no entroncamento desse caminho, apeio-me e aproximo-me do monte de terra e betão que o bloqueia para me certificar que ele existe mesmo e que é impossível movê-lo, assim como é também impossível atravessá-lo com o meu carro ou com outro qualquer. É belo este caminho, que ziguezagueia ora para a direita, ora para a esquerda, passando por entre as colinas pontilhadas com oliveiras e pequenas aldeias envoltas em silêncio, até Beit Iksa. (...) Examino a zona junto à autoestrada n°1, que parece, de acordo com o que o mapa mostra, povoada principalmente de colonatos. As únicas duas  aldeias palestinianas que aparecem são Abu Ghosh e Ein Rafá. Abro o mapa que reproduz a Palestina antes de 1948 e deixo o meu olhar percorrê-lo, movendo-se entre os numerosos nomes de aldeias palestinianas, que foram destruídas depois da expulsão dos seus habitantes nesse ano. Reconheço o nome de algumas, de onde alguns colegas meus e conhecidos são provinientes, como, por exemplo, Lifta, al-Qastal, Ein Kárim, al-Maliha, Jimzu e Deir Tarif. Mas a maioria são nomes que me parecem desconhecidos, a ponto de me causarem um estranho sentimento de melancolia. (...) Olho de novo para o mapa israelita. Um enorme parque, chamado Parque Canadá, cobre agora a área de todas estas aldeias. Fecho o mapa, ligo o motor do carro, e arranco pela autoestrada n°50, desta vez sem encontrar nenhum obstáculo, até que acabo por chegar à longa autoestrada."

dezembro 17, 2022

Essa Puta Tão Distinta - Juan Marsé

Título original: Esa Puta tan Distinguida
Ano da edição original: 2015
Autor: Juan Marsé
Tradução: Maria Manuel Viana
Editora: Publicações D. Quixote

"Embora deteste a filmografia do realizador e produtor que contrata os seus serviços, um escritor célebre por retratar nos seus romances a ruína moral dos anos do pós-guerra aceita com relutância a encomenda para escrever um guião cinematográfico sobre um caso real da Barcelona dos anos 40. Trata-se de um crime que teve lugar no cinema Delícias, em cuja sala de projeção foi assassinada  uma prostituta, estrangulada com uma tira de película de filme enquanto o público assistia à estreia de Gilda. Durante o processo de pesquisa o escritor irá verificar como, por vezes, na vida real os crimes carecem de sentido e os seus protagonistas nem sempre são heróis ou anti-heróis, algo que, na ficção, nem todos parecem dispostos a tolerar.
Neste magnífico romance, Juan Marsé, transmutado num escritor descrente e incapaz de se levar a sério, reflete sobre as armadilhas da memória e os limites da ficção, enquanto ajusta contas com aqueles que manipulam o nosso passado para gerar produtos de simples entretenimento, que pervertem a memoria histórica e banalizam a dor e a miséria de toda uma geração."

Um escritor é contratado para escrever uma espécie de guião tendo como base a história real de um assassinato que ocorreu na cabine de projeção do cinema Delícias, nos anos 40.
Uma prostituta, Carol, foi assassinada pelo projeccionista, Sicart, enquanto na tela passa Gilda, com a sensual Rita Hayworth, um filme polémico devido a algumas cenas mais quentes, pelo menos para a época. 
Sicart, confessou o crime e cumpriu a pena que lhe foi imposta,  mas nunca conseguiu explicar porque é que o fez. Não se lembra do motivo.

Para tentar perceber melhor o que se passou, conhecer as pessoas envolvidas para além do que consta na documentação de investigação, da impressa da altura e do processo judicial, decide contratar o próprio Sicart. 
Sicart já saiu da prisão e vive agora como um homem livre, e aceita contar a sua história, ou, pelo menos aquilo de que se lembra.

E é pelas memórias de Sicart que visitamos e conhecemos a Barcelona dos anos 40, a Encarnita, a Puta cega e amiga de Carol Bruil, Ramon Mirt o franquista que as explora e, o próprio Sicart, um jovem de vinte e poucos anos que trabalha na cabine de projeção do Delícias e que gostava de ter companhia na cabine enquanto os filmes eram projetados na sala. 

Paralelamente o escritor vai percebendo que a história que Sicart conta tem interesse apenas para si, porque o produtor e o novo realizador, não estão interessados em histórias mais ou menos profundas sobre política, sobre relações e até sobre o próprio crime e as possíveis motivações de Sicart. Ficam antes fascinados com o facto de Encarnita ser uma puta cega. :)

Gostei muito. A escrita de Juan Marsé é natural e bem-disposta, o que torna a leitura muito fluida. Gosto das personagens e da ironia subjacente em todo o livro.

Recomendo sem quaisquer reservas. Juan Marsé é para continuar a conhecer.

Boas leituras!

Excerto (pág. 112):
" - Foi informadora da polícia, não se esqueça.
 - Ó homem, será que não percebe?! Foi tudo uma invenção daqueles malparidos da Brigada Social! - Acalmou-se, logo a seguir. - Bom, e se alguma vez fez uma coisa desse tipo, foi obrigada por aquele cabrão. Equivocada ou não, tudo o que a Carol fez, primeiro pelo marido, depois pelo filhinho doente e por ela mesma, foi sempre com a melhor das intenções...
 - Eu percebo. Mas diga-me uma coisa. Parece-lhe lógico que depois do que ocorreu mantivesse uma relação com o Mir, um tipo repugnante?
 - Não sei que dizer. Nunca me atrevi a perguntar-lho.
 - Acha que pode tê-lo feito como... uma forma de expiação?
Sicart abanou a cabeça, confuso.
 - O que é que quer dizer? Ouça, eram tempos muito difíceis e era preciso aguentar de qualquer maneira. Se fosse preciso vender a alma para sair da miséria, vendia-se. Se a Carol acabou por ter uma ligação com aquele filho da puta, fê-lo para sair da miséria. E pelo filho. Tenho a certeza. Foi sempre o que pensei.
Eu tinha muitas dúvidas, mas não lhe disse nada, porque percebi que a suspeita também o angustiava. Com toda a certeza, no coração daquela mulher só podia haver restos amargos de sexo e remorso. Quanto a falangista Mir, estaria a viver com ela uma panóplia de amores furtivos e luzeiros apagados..."

novembro 19, 2022

Índice Médio de Felicidade - David Machado

Título: Índice Médio de Felicidade
Ano da edição original: 2013
Autor: David Machado
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Daniel tinha um plano, uma espécie de diário do futuro, escrito num caderno. Às vezes voltava atrás para corrigir pequenas coisas mas, ainda assim, a vida parecia fácil - e a felicidade também.
De repente, porém, tudo se complicou: Portugal entrou em colapso e Daniel perdeu o emprego, deixando de poder pagar a prestação da casa; a mulher, também desempregada, foi-se embora com os filhos à procura de melhores oportunidades; os seus dois melhores amigos encontram-se ausentes: um, Xavier, está trancado em casa há doze anos, obcecado com estatísticas e profundamente deprimido com o facto de o site que criaram para as pessoas se entreajudarem se ter revelado um completo fracasso; o outro, Almodôvar, foi preso numa tentativa desesperada de remendar a vida. Quando pensa nos seus filhos e no filho de Almodôvar, Daniel procura perceber que tipo de esperança resta às gerações que se lhe seguem.
E não quer desistir. Apesar dos escombros em que se transformou a sua vida, a sua vontade de refazer tudo parece inabalável. Porque, sem futuro, o presente não faz sentido.

Índice Médio de Felicidade é um romance admirável e extremamente actual sobre um optimista que luta até ao fim pela sua vida e pela felicidade daqueles que ama. Dramático e realista, mas com momentos hilariantes, confirma o talento de David Machado como um dos melhores ficcionistas da sua geração."

Daniel é um a agente turístico e é muito bom naquilo que faz. É um homem feliz, ama a mulher e os filhos, ama o trabalho e tem um caderno onde escreveu uma espécie de Plano de vida. Nada de megalómano, apenas pequenas coisas que o ajudam a manter o foco naquilo que ele acha importante.
No Plano não existia nada sobre ficar desempregado aos 37 anos, no meio de uma das maiores crises que Portugal já atravessou e, onde arranjar um novo emprego na mesma área parece tarefa impossível.
Em dificuldades, a mulher e os filhos saem de Lisboa, e vão viver para perto dos sogros, onde não pagam casa e ela consegue trabalhar. Ele fica, não está pronto pata desistir do Plano que tinha traçado para todos. Acha que vai conseguir um emprego novamente e, quando isso acontecer voltam a estar todos juntos, e felizes como antes. É o que pensa e é o que lhes diz quando se despede deles. Daniel acha que se partir com eles está a desistir, que nunca mais voltarão a estar juntos na casa de todos e que ele nunca mais trabalhará na área que gosta e na qual sente que é mesmo bom. É só um contratempo, pensa, tudo vai acabar por correr bem.
Tem de se manter focado no Plano, mesmo que já tenha entregue a casa ao banco, viva atualmente no seu carro e não haja qualquer perspetiva de conseguir um emprego nos próximos tempos. Mesmo assim continua otimista. 

Ao mesmo tempo um dos seus melhores amigos, Almodôvar está preso por ter assaltado um estação de serviço e, desde que foi preso que se recusa a falar com toda a gente. Não recebe visitas, não atende as chamadas. Almodôvar deixou a mulher e o filho adolescente completamente desamparados e Daniel acaba por ser arrastado para a vida do miúdo, que começa a envolver-se com as pessoas erradas. Este é,  para Daniel mais um motivo para não poder sair de Lisboa e juntar-se à família. 

O outro amigo dos tempos de escola, Xavier, não sai de casa há anos e, com a prisão de Almodôvar que era quem acompanhava Xavier e apaziguava as suas tendências suicidas, Daniel sente-se, agora ainda mais responsável por Xavier. Xavier, o amigo que Daniel nunca compreendeu e que de certa forma nunca conheceu realmente.

Com todas estas responsabilidades e enredado numa teia de acontecimentos bizarros, alguns cómicos, Daniel acaba por ir ajudando todos à sua volta. Muitas vezes parece que o faz contrariado, apenas por sentir que é a sua obrigação. Como se o mundo fosse desabar se ele parasse dois segundos para pensar em si, na sua vida e nas suas necessidades. Sente que é indispensável na vida de todas aquelas pessoas que o rodeiam e que não pode abandoná-los e aos seus problemas.

De peripécia em peripécia, Daniel vai descobrindo o seu número que representa o seu grau de satisfação com a sua vida e que é refletido no índice médio de felicidade. Este número começa estranhamento alto, tendo em conta a confusão em que estava a sua vida, e vai descendo para níveis mais baixos, mas de certa forma mais realistas. O que nos parece é que, um nível mais baixo, no caso de Daniel, não é necessariamente pior, só o torna mais sintonizado com a sua realidade e melhor preparado para mudar a sua vida e subir na Índice Médio de Felicidade.

Daniel faz parte daquele grupo de pessoas que são otimistas inveterados. O mundo pode estar a desabar mas ele consegue sempre ver o copo meio cheio. Mas, será que é mesmo assim? Na verdade depois de conhecer Daniel, acho que ele é mais teimoso do que otimista. Acho até que o que ele tem é medo de não saber o que o espera, de não conseguir colocar no seu caderno quais os passos que se seguem. Refazer todos os seus planos de vida é assustador e é por isso que acho que ele resiste tanto em desistir do que estava escrito no seu caderno e começar do zero, junto da mulher e dos filhos. Uma nova carreira, uma nova cidade, um futuro cheio de possibilidades e de imprevistos. Acho que Daniel não é um otimista. Acho que ele é humano e está cheio de medo do desconhecido. Escuda-se nos outros para não ter de pensar na merda em que a sua vida se tornou. Habituado a ser o pilar, o homem que tinha sempre a solução, sente-se perdido por precisar de ajuda, por não estar a conseguir olhar para o Plano no caderno e delinear um caminho alternativo.

David Machado tem uma escrita que é muito empática. É clara, concisa, divertida e muito oral. Gosto muito dos livros que li, até agora dele. São livros que podem ser lidos por quase todos. São histórias para adultos e adolescentes sem que ninguém sinta que está deslocado e, há sempre uma lição subjacente, uma oportunidade para pensarmos no mundo que nos rodeia. No entanto, não é de todo um livro com lições de moral ou condescendente do tipo, já que aqui está, vamos lá ensinar-te alguma coisa. 

Índice Médio de Felicidade não é a exceção que confirma a regra. Tem alguma passagens um pouco inverosímeis, mas que não me fizeram perder o gosto pela leitura. É divertido, está bem escrito e gostei muito da história, das personagens, do Daniel claro, mas de todas as outras.

Recomendo David Machado quase de olhos fechados. Sou capaz de recomendar um livro mesmo sem o ter lido, acho que não é possível odiá-lo porque da escrita e das histórias dele emanam muito boas vibrações e a boa disposição é uma garantia. :)

Boas leituras!

Excerto (pág.23):
"Quero responder ao questionário.
Força, desafiou o Xavier. E acendeu outro cigarro.
Como é que é a pergunta?
Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo? Depois acrescentou: Não sejas precipitado a responder, Daniel.
Eu tentei pensar em tudo: a Marta e os miúdos, o meu desemprego, o dinheiro que se acabava, o meu Plano, a minha imagem refletida no espelho nessa manhã. Por fim, disse: 8.
O Xavier olhou para mim surpreendido. Perguntou:
O que é isso?
A minha resposta. 8.0.
Eu disse para não te precipitares.
Não me precipitei.
Estiveste calado três minutos e depois disparaste um número que, supostamente, representa o teu grau de satisfação com a vida.
É o meu número.
E, em três minutos, passaste em revista toda a tua existência, contabilizaste tudo, ponderaste todas as variáveis?
Sim. Acho que sim. Quanto tempo é que tu demoraste?
Foda-se, Daniel, eu estou nisto há duas semanas e mesmo assim ainda sinto que não estou a pensar em tudo.
Duas semanas, Xavier? Isto não é um problema de matemática.
Na verdade, até é. Mas, antes disso, é a tua vida. Não podes resolvê-la em três minutos. Repito: a maior parte das pessoas não percebe nada de felicidade.
A tua resposta é 4,4 e eu é que não percebo nada de felicidade.
Estás a interpretar-me mal. Eu não disse que não sentias felicidade. Sentes, apenas não a percebes.
E tu percebes?
Eu percebo a minha felicidade. É uma equação como outra qualquer que tive de preencher com variáveis e constantes e ponderadores e depois ligar tudo com os sinais certos.
Variáveis? Quais variáveis?
Amigos. Amor. Tempo. Sonhos. Sede. Dores de barriga. Esperança. Inveja. O sabor da comida. Esse género de merdas.
Eu ri-me.
Não podes quantificar isso, disse-lhe.
Se podes quantificar a felicidade, podes muito bem quantificar as saudades que tens de teres oito anos ou o medo de beijares alguém. Claro que algumas dessa variáveis só poderão ser encontradas resolvendo outras equações primeiro. É um sistema, na verdade. É complicado. Mas a vida é complicada, Daniel.
A sério, Almodôvar, a lata daquele cabrão."