junho 18, 2023

O Peso do Coração - Rosa Montero

Título: El Peso del Corazón
Ano da edição original: 2015
Autor: Rosa Montero
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

"Três anos, dez meses e vinte e um dias.

É o tempo que resta a Bruna Husky. A detetive replicante, que é uma sobrevivente capaz de tudo, continua a debater-se com a independência total e a necessidade desesperada de carinho, como uma fera aprisionada na jaula de uma existência a prazo.

Contratada para resolver um caso aparentemente simples e lucrativo, Bruna vê-se envolvida numa trama de corrupção internacional de tal forma sinistra e ameaçadora que pode comprometer a existência da própria Terra. Num futuro no qual os direitos, outrora considerados essenciais, se tornaram reféns do dinheiro, a replicante revela-se uma guerreira empenhada na luta contra esquemas de organização social baseados em preconceitos, regras rígidas e fanatismo, que põem em causa a existência de todos os seres.

O Peso do Coração é um romance distópico que, a partir do debate claro e atual das consequências das opções do presente, reflete de forma madura sobre as condições de vida e da morte, e sobre aquilo que é, na essência, a própria definição de humanidade, constituindo um regresso extraordinário ao mundo fascinante de Lágrimas na Chuva."

Tenho a estranha sensação de que cada vez mais as distopias me parecem mais realistas, menos improváveis e, por isso, mais perturbadoras. É o caso deste O Peso do Coração de Rosa Montero, que se passa num futuro não tão longínquo, onde o Homem quase destruiu a Terra, conquistou o espaço, inventou Tecno-Humanos, batizou-os de Replicantes e, estes conquistaram direitos.

A Terra ainda existe, mas é um lugar diferente do que conhecemos e está em pleno processo de renascimento. A sociedade parece continuar assente numa lógica de dinheiro: quem o tem pode pagar qualidade de vida, quem não o tem, é como se não existisse. Pensando bem, afinal a Terra não é assim um lugar tão diferente. Talvez a diferença esteja no descaramento com que tudo é feito, sem dilemas morais porque, as coisas são como são. Uma questão de sobrevivência, a normalização da lei do mais forte, talvez.

Os replicantes são uma espécie de androides muito evoluídos que coabitam com os humanos, convivem com os humanos e relacionam-se com os humanos. Parecem humanos, agem como humanos, parecem sentir como os humanos mas não são humanos. Tem um tempo predeterminado de vida e "morrem" de uma forma feia e humana. Quando se aproxima a data em que são desativados, as suas partes orgânicas começam a degradar-se, até que deixam de funcionar por completo na data que estava programada desde a sua criação.

Bruna Husky é um replicante e, restam-lhe três anos, dez meses e vinte e um dias de vida e ela não consegue deixar de pensar nisso. Sente a toda a hora a sua finitude e o aproximar do seu fim.  Bruna é um Replicante de combate e, desde que foi dispensada do serviço militar, é detetive.
Bruna sempre foi diferente dos outros porque quem a criou, colocou em Bruna algumas das suas memórias pessoais, o que a tornou, se assim se pode dizer, mais humana, porque as memórias, para todos os efeitos, são reais. Não são dela, ela sabe que não lhe pertencem, mas a memória dos sentimentos que lhe foi implantada é real. Isto torna Bruna mais sensível, empática e até capaz de amar, romanticamente, os humanos.

O Peso do Coração é o segundo livro que Rosa Montero escreveu com Bruna Husky, o primeiro é Lágrimas na Chuva. Não tendo lido o primeiro, não me senti deslocada no mundo de Bruna. Parece-me que podem perfeitamente funcionar de forma independente.

Neste, Bruna vê-se envolvida numa investigação que coloca em risco os três anos, dez meses e vinte e um dias que lhe restam. Vê-se de volta às Zonas Zero, é mordida por uma miúda meio selvagem e, para lhe salvar a vida, aceita ficar responsável por ela, trazendo-a de volta consigo e, volta a trabalhar com Lizard, o polícia com quem tem um relação complicada, a todos os níveis.

Tendo como pano de fundo a investigação de Bruna, vamos vendo, através dos seus olhos, o estado da humanidade, as consequências de todas as decisões de humanos pouco escrupulosos, baseadas no dinheiro, no poder efémero mas, também as decisões de humanos bem intencionados que não souberam fazer de outra forma. 
São interessantes os dilemas de Bruna, que vive torturada, sabendo que não é humana mas sentindo-se como uma. Capaz de amar, de sentir prazer e dor, de questionar as suas ações e as dos outros, de tomar decisões que vão para além do seu bem-estar. Não deixa, no entanto, de pensar até que ponto tudo o que sente não está programado e, por isso, Bruna é tão Replicante como os seus semelhantes?
Até que ponto, nós humanos, não estamos também pré-programados? Até que ponto não somos apenas química e o que sentimos, não são apenas reações químicas, balanços energéticos que podem ser replicados num laboratório?
É um livro que é mais do que a investigação, o entretenimento e a ação. Levanta algumas questões sobre as quais devemos todos refletir, que nos assustam, mas das quais não devemos fugir. 

Este é o terceiro livro que li de Rosa Montero, e acho-os a todos muito diferentes uns dos outros e todos eles são muito bons e surpreendentes. Gosto muito da escrita dela, da forma como desenvolve as histórias e gosto dos temas. Gosto mesmo muito de Rosa Montero. Para além do conteúdo dos livros, acho que têm dos títulos mais originais e bonitos e, adoro todas as capas que circulam por cá. É o pacote completo! :)

Recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras! :)

Excerto (pág. 9)
"Os humanos são paquidermes, lentos e pesados, ao passo que os Replicantes são tigres rápidos e desesperados, pensou Bruna Husky, consumida pela impaciência de ter de esperar na fila. Recordou uma vez mais a frase de um autor antigo que, um dia, o seu amigo arquivista citara: «As ininterruptas idas e vindas do tigre diante dos barrotes da jaula para que não se lhe e escape o único e brevíssimo instante da salvação.» Impressionada, Bruna decorara-a. Ela era esse tigre, preso no minúsculo cárcere que era a sua vida. Os humanos, com as suas existências longuíssimas e velhice intermináveis, costumavam glorificar com vaidade as vantagens da aprendizagem; até das mas experiências, defendiam, se podiam tirar lições. Husky é que não tinha tempo a perder com tais tontices; como qualquer androide, só vivia uma década, que terminaria dentro de três anos, dez meses e vinte e um dias, e tinha a certeza de que havia saberes que não valia a pena interiorizar. Por exemplo, teria vivido feliz sem conhecer a imundície das Zonas Zero; no entanto ali estava ela no que parecia agora ser uma viagem inútil à miséria."

junho 03, 2023

A Breve Vida das Flores - Valérie Perrin

Título: 
Changer l'eau des Fleurs
Ano da edição original: 2018
Autor: Valérie Perrin
Tradução: Maria de Fátima Carmo
Editora: Editorial Presença

"Íntimo, poético e luminoso.
O romance protagonizado por uma mulher que, contra tudo e contra todos, nunca deixa de acreditar na felicidade.
Violette Toussaint é guarda de cemitério numa pequena vila da Borgonha. A sua vida é preenchida pelas confidências - comoventes, trágicas, cómicas - dos visitantes do cemitério e pelos seus colegas: três coveiros, três agentes funerários e um padre. E os seus dias pareciam ser assim para sempre. Até à chegada do chefe de polícia Julien Seul, que quer deixar as cinzas da mãe na campa de um desconhecido.
A história de amor clandestino da mãe daquele homem afeta de tal forma Violette, que toda a dor que tentou calar vem ao de cima. É tempo de descobrir o responsável pela tragédia que afetou a sua vida.
Atmosférico, tocante e - tantas vezes - hilariante, este é um romance de vida: dos que partiram e vivem em nós, da luz que se pode revelar mesmo na mais plena escuridão. Porque às vezes basta a simplicidade de um gesto, basta a frescura da água viva para nos devolver ao mundo, a nós mesmos e aos outros."

A Breve Vida das Flores é um livro que tem andado nas bocas do mundo literário e do qual toda a gente fala. 

Não quero alongar-me muito sobre a história porque teria dificuldade em não contar demais. Corro o risco de estragar a vossa viagem pela vida de Violette Toussaint. Por isso, digo apenas que é um romance, cheio de tristezas, desgostos, lágrimas, desespero, de raiva e de dor mas, que ao mesmo tempo, está cheio de esperança, de bondade, amizade, aromas reconfortantes e cor. 
Tudo isto, tendo como pano de fundo, uma passagem de nível e um cemitério. Digamos que são os sítios menos prováveis para servirem de abrigo a todos estes sentimentos e, muito menos para serem os sítios onde há encontros e desencontros e onde se iniciam verdadeiras histórias de amor, que é o que este A Breve Vidas das Flores acaba por ser. Dos vários tipos de amor e não apenas o amor romântico.

O livro está bem escrito, lê-se bem, não obstante ser um livro grande, lê-se rápido porque a escrita é fluida. A história é interessante e foge ao típico romance de mulher conhece homem perfeito, enfrentam desafios pelo meio e depois, vivem felizes para sempre. Achei que ia ser algo deste género e não é de todo esse tipo de romance.
Agora que penso sobre o livro, acho que está mais para o drama, uma daquelas histórias da vida real, ficcionada, para ser mais comercial.
Ou seja, Violette Toussaint, a ser real, poderia ser a convidada, de um qualquer programas das tardes televisivas, onde iria partilhar a sua história de superação e onde todos iríamos chorar muito. E acho que é por isso que, embora reconheça qualidades no livro, até alguma originalidade, não consegui gostar assim tanto dele. 
A verdade é que não me identifico com o género de história e, para além disso achei que às tantas, a história se tornou repetitiva.

Não tinha grandes expectativas, por isso, não me sinto defraudada e não dou por perdido o tempo que passei a lê-lo. De todo. Como disse, lê-se bem, está bem escrito e é suficientemente interessante para que continuasse a passar à página seguinte.
É um livro que me vai ficar na memória? Provavelmente não. Mas se tudo o que lêssemos nos ficasse gravado na memória, não teríamos espaço para mais nada. :)

Recomendo, porque dentro do género me pareceu bastante interessante e original.

Boas leituras!

Excerto (pág.10):

"Chamo-me Violette Toussaint, Era guarda de passagem de nível, agora sou guarda de cemitério.
Saboreio a vida, bebo-a em que pequenos goles como chá de jasmim com mel. E quando chega o final de tarde e os portões do meu cemitério se fecham e a chave se pendura à porta da minha casa de banho, fico no paraíso.
Não o paraíso dos meus vizinhos da frente, Não.
O paraíso dos vivos; um trago de porto - colheita de 1983 -, que me traz José-Luís Fernandez todos os dias 1 de setembro. Um resto de férias vertido num cálice de cristal, uma espécie de verão extemporâneo que desarrolho por volta das sete da tarde, faça chuva, neve ou vento.
Dois dedais de líquido rúbi. O sangue das vinhas do Porto. Fecho os olhos. E saboreio. Um único trago basta para me alegrar o serão. Dois dedais porque adoro a embriaguez, mas não o álcool.
José-Luís Fernandez põe flores na campa de Maria Pinto, nome de casada Fernandez (1956-2007), uma vez por semana, exceto em julho, que é quando faço eu o turno. Daí o porto, para me agradecer.
O meu presente é um presente do céu. É o que digo a mim mesma todas as manhãs, quando abro os olhos.
Eu estava muito infeliz; aniquilada, mesmo. Inexistente. Vazia. Estava como os meus vizinhos, mas para pior. As minhas funções vitais mantinham-se, mas sem que eu estivesse no interior. Sem o peso da alma, que pesa, ao que parece, quer sejamos gordos ou magros, altos ou baixos, jovens ou velhos, vinte e um gramas.
Contudo, como nunca tive gosto pela infelicidade, decidi que isso não iria durar. É necessário que a infelicidade acabe, um dia."

junho 02, 2023

Vinte e Quatro Horas da Vida de uma Mulher - Stefan Zweig

Título: Vierundzwanzig Stunden aus dem Leben einer Frau
Ano da edição original: 1927
Autor: Stefan Zweig
Tradução: Alice Ogando
Editora: Publicações Europa-América

"A rotina de um hotel na Riviera é abalada por uma notícia escandalosa. Uma mulher abandona o marido e as duas filhas, em nome de uma paixão por um jovem que havia acabado de conhecer. Este episódio despoleta uma acesa discussão entre os hóspedes do hotel e leva a Senhora C., uma aristocrata inglesa de sessenta e sete anos, a recordar um episódio secreto da sua vida que a tortura há mais de duas décadas. Vinte e quatro horas na vida de uma mulher é um relato apaixonante e intimista sobre a vida de uma mulher que se liberta das correntes do pudor e do preconceito social em nome de uma paixão avassaladora."

Num hotel na Riveira, quando uma mulher abandona o marido e as filhas para fugir com um homem que tinha acabado de conhecer, todos ficam chocados e todos os hóspedes têm uma opinião sobre o assunto, sendo que a maioria é bastante crítica e intolerante com a mulher fugitiva. Nenhum deles a conhece, no entanto, todos eles não hesitam em classificar como inaceitável e vergonhoso o comportamento desta mulher.
Apenas um jovem homem parece sentir necessidade de, de certa forma, apoiar a mulher fugitiva, tentando trazer para a discussão pontos de vista que vão para além dos argumentos do socialmente aceitável, para uma mulher casada e com filhos.

A Senhora C., sexagenária, e uma das hóspedes, fica impressionada com a atitude deste jovem na defesa da mulher fugitiva. Talvez por isso julga ter encontrado, neste total desconhecido, o ouvinte perfeito para a sua história. Uma história, que aconteceu há vinte anos atrás, e que nunca partilhou com ninguém. Talvez se a partilhar, se a contar em voz alta, a alguém que não a julgue, consiga expurgar todos os sentimentos de culpa e de vergonha que a atormentam desde então.

Há vinte anos atrás, a Senhora C., recentemente enviuvada e devastada por ter perdido o companheiro de uma vida inteira, sente-se perdida, por não saber como viver sem o marido, e solitária, com os filhos crescidos e ocupados nos seus afazeres. Decide, por isso, sair da cidade onde vive e ir até ao casino passar algum tempo entre desconhecidos. Foi algo que sempre gostou de fazer e o objetivo nunca foi jogar. O que a atrai é poder observar os jogadores, mais precisamente as suas mãos. É fascinada por mãos e, é impressionante aquilo que se consegue saber sobre desconhecidos, quando estes não se sabem observados, principalmente quando se encontram mais vulneráveis, como acontece num casino, a apostar muitas vezes tudo o que têm e o que não têm.
É no casino que a Senhora C. repara num par de mãos como nunca tinha visto até então. Umas mãos delicadas, nervosas e agitadas e que espelham o turbilhão de emoções que habitam o homem a quem pertencem.
Fascinada pelo que observa, quando o homem sai do casino, arruinado e claramente perturbado, a Senhora C., é incapaz de não sair atrás dele.

Toda a história começa aqui, na interação desta viúva, nos seus quarentas, com um desconhecido com metade da idade dela, que não consegue abandonar à sua sorte, embora não perceba muito bem porquê. Não percebe, ou não quer perceber, porque teria de admitir que o interesse que o homem desperta nela e parece ir além do instinto maternal. 
A vergonha e a perplexidade não a abandonam ao longo daquelas vinte e quatro horas mas, ao mesmo tempo não a retraem ou impedem de continuar e de não abandonar o homem.
A vergonha e a perplexidade nunca a abandonaram durante os vinte anos que separam aquelas vinte quatro horas e a noite no hotel da Riviera em que decide partilhar a sua história com mais um desconhecido.

É um livro pequeno, que se lê num instante mas que está cheio de conteúdo e, está muito bem escrito, num tom meio irónico e leve. 

Não conhecia Stefan Zweig, não me recordo porque entrou na minha lista de autores a conhecer. O mais provável é ter sido sugerido por alguém cujas opiniões valorizo mas, o que importa é que fiquei agradavelmente surpreendida e vou querer ler mais livros dele.

Recomendo sem qualquer hesitação.

Aproveitem a Feira do Livro de Lisboa para encontrarem os livros dele a preços mais convidativos.

Boas leituras!

Excerto (pág. 63)
"Nunca, até esse momento (não me canso de o repetir), vira um rosto onde a paixão brotasse tanto a descoberto, tão bestial na sua impudica nudez, e fiquei para ali completamente entregue à contemplação fixa desse rosto... tão fascinada, tão hipnotizada pela sua loucura, como estava o seu olhar pelos movimentos palpitantes da bola em rotação.
A partir desse momento, não vi mais nada na sala, tudo me parecia apagado, embaciado, tudo se me afigurava obscuro em comparação com o fogo que brotava daquele rosto; e, sem dar atenção a mais ninguém, observei, talvez durante uma hora, apenas aquele homem e cada um dos seus gestos. Um luz brutal iluminou-lhe os olhos, o novelo convulso das mãos foi bruscamente desfeito como por uma explosão, e os dedos alargaram-se com violência, frementes, mal o croupier empurrou, em sua direcção, vinte moedas de ouro.
Nesse momento, o seu rosto iluminou-se e rejuvenesceu por completo; as rugas desfizeram-se lentamente; os olhos começaram a brilhar; o corpo antes contraído, endireitou-se, tornou-se leve como um cavaleiro impelido pelo entusiasmo do triunfo; os dedos faziam tilintar com amor e vaidade as moedas redondas, obrigando-as a escorregar umas de encontro às outras, fazendo-as dançar e tinir como numa brincadeira. Depois, voltou de novo a cabeça com inquietação, percorreu o pano verde com as narinas dilatadas como um cãozinho de caça farejando a boa pista, e, a seguir, num gesto rápido e nervoso, atirou todas as suas moedas de ouro para um dos quadros.
E logo começou a mesma atitude de expectativa, a mesma hipertensão."

maio 07, 2023

Um Dia Diferente - John Steinbeck

Título original: Sweet Thursday
Ano da edição original: 1954
Autor: John Steinbeck
Tradução: João Belchior Viegas
Editora: Livros do Brasil

"Com o deflagrar da Segunda Guerra Mundial, o biólogo marinho que todos conhecem por Doutor é mobilizado. Não é exatamente o mesmo homem que volta a Cannery Row um par de anos mais tarde, mas Cannery Row não é também o mesmo bairro.

O Laboratório Biológico tem a porta empenada pela humidade e o interior repleto de pó e bolor. Dora, a madame, morreu durante o sono, deixando o bordel nas mãos da sua irmã Fauna. Henri, o pintor, abandonou a cidade intempestivamente, e não foi o único.

Parece que só Mack ficou onde estava, procurando pôr as coisas em ordem. Em Um Dia Diferente, Steinbeck regressa ao Bairro da Lata e aos dramas quotidianos daquelas personagens unidas por um destino sem esperança, no centro das quais se encontra o Doutor. Após o absurdo da guerra, ele procura retomar a normalidade da vida dedicando-se à recolha e venda de animais marinhos. Até que da água lhe surge uma outra imagem de salvação: na figura da linda e impulsiva Suzy."

Regressar a Cannery Row é à comunidade de Bairro da Lata (a minha opinião aqui) é quase como saber notícias de velhos conhecidos dos quais guardamos boas memórias e por quem temos carinho. São assim estes livros de John SteinbeckBairro da Lata e agora este Um Dia Diferente e, que foi companhia certa nas férias de Verão do ano passado. Estes dois são muito parecidos com O Milagre de São Francisco (a minha opinião aqui) que também aconselho a lerem.

Como é dito na sinopse o Doutor é mobilizado para a 2ª Grande Guerra e, quando regressa, todo o bairro lhe parece diferente. A guerra acabou por afetar, mesmo que de forma indireta, todos e, sem o Doutor para os orientar, todos parecem estar meio à deriva.
Não é só o bairro e as suas gentes que lhe parecem diferentes, o próprio Doutor se sente cansado, desiludido com a vida e cada vez mais sozinho.

O regresso do Doutor é festejado por todos mas todos se apercebem que o homem que voltou não é o mesmo que partiu e ficam preocupados com o desalento que sentem ter tomado conta dos dias do homem que tanto admiram. É por isso que Mack e o seu grupo de inadaptados decidem que têm de fazer alguma coisa para animar e ajudar o Doutor.

Suzy é uma jovem mulher que aparece em Cannery Row, sozinha, à procura de algo que a faça feliz. Quer mudar de vida e vem de braços abertos, preparada para abraçar todos os desafios que a possam esperar. É inteligente e aguerrida e é por isso que chama a atenção de todos, sendo unânime para todos que Suzy é a mulher perfeita para acabar com a solidão do Doutor.
Mack e todos em Cannery Row vão fazer tudo para que os dois se apaixonem e vivam felizes para sempre.

E é mais ou menos isto, uma história de amor, de preconceitos e de desencontros e, mais uma vez, uma história de amizades improváveis, com gente boa, cheia de boas intenções.

É um livro divertido e bem escrito, com a qualidade certificada de John Steinbeck. :)

E foi bom voltar a estas personagens e ao ambiente de Cannery Row.

Recomendo sem hesitações. Aconselho, no entanto a que leiam primeiro o Bairro da Lata para conhecerem as personagens melhor e este não vos pareça meio desenquadrado.

Boas leituras!

Excerto (pág. 11)
"Quando a guerra chegou a Monterey e a Cannery Row todos lutaram mais ou menos, duma maneira ou doutra. Quando as hostilidades cessaram todos tinham as suas cicatrizes.
As fábricas de conservas lutaram também a seu modo, desprezando as limitações impostas e pescando todo o peixe possível. Tudo por razões patrióticas, se bem que isso não voltasse a dar vida aos peixes. Exatamente como as ostras da Alice no País das Maravilhas, «comeram tudo». De resto, o mesmo nobre impulso devastou as florestas do Oeste e levou a que hoje em dia  a água seja puxada à bomba das profundezas do subsolo da Califórnia em quantidades nunca comparáveis às que chovem do céu. Se o deserto alastrar, toda a gente ficará triste, tão triste como Cannery Row quando todas as sardinhas foram pescadas, enlatadas e comidas. As fábricas de chapa ondulada de um cinzento-pérola estavam envoltas em silêncio e toda a vida que tinham era a dum pacífico guarda. A rua, que estremecera com camiões, estava sossegada e deserta.
De facto a guerra tocara a todos. O Doutro fora mobilizado. Deixara como encarregado do Laboratório Biológico Ocidental o seu amigo Old Jingleballicks e cumprira o seu serviço como sargento num posto antivenéreo.
O Doutor encarou a situação com filosofia. Entretinhas as horas livres com uma quantidade apreciável de álcool fornecido pelo Governo, arranjou amizades e evitou ser promovido. Quando a guerra acabou foi mantido no serviço por gratidão do Governo a fim de destrinçar certos problemas menos claros de inventário, tarefa que lhe incumbia, aliás, por a ele se dever em grande parte a sua pouca clareza. Dois anos após a vitória, o Doutor foi finalmente desmobilizado com todas as honras."

abril 30, 2023

[Ebook] Born a Crime - Trevor Noah

Título original: 
Born a Crime
Ano da edição original: 2016
Autor: Trevor Noah
Editora: John Murray (Ebook ISBN: 9781473635319)

"The compelling, inspiring, (often comic) coming-of-age story of Trevor Noah, set during the twilight of apartheid and the tumultuous days of freedom that followed.
One of the comedy world's brightest new voices, Trevor Noah is a light-footed but sharp-minded observer of the absurdities of politics, race and identity, sharing jokes and insights drawn from the wealth of experience acquired in his relatively young life. As host of the US hit show The Daily Show with Trevor Noah, he provides viewers around the globe with their nightly dose of biting satire, but here Noah turns his focus inward, giving readers a deeply personal, heartfelt and humorous look at the world that shaped him. 
Noah was born a crime, son of a white Swiss father and a black Xhosa mother, at a time when such a union was punishable by five years in prison. Living proof of his parents' indiscretion, Trevor was kept mostly indoors for the first years of his life, bound by the extreme and often absurd measures his mother took to hide him from a government that could, at any moment, take him away.
A collection of eighteen personal stories, Born a Crime tells the story of a mischievous young boy growing into a restless young man as he struggles to find his place in a world where he was never supposed to exist. Born a Crime is equally the story of that young man's fearless, rebellious and fervently religious mother - a woman determined to save her son from the cycle of poverty, violence and abuse that ultimately threatens her own life.
Whether subsisting on caterpillars for dinner during hard times, being thrown from a moving car during an attempted kidnapping, or just trying to survive the life-and-death pitfalls of dating in high school, Noah illuminates his curious world with an incisive wit and an unflinching honesty. His stories weave together to form a personal portrait of an unlikely childhood in a dangerous time, as moving and unforgettable as the very best memoirs and as funny as Noah's own hilarious stand-up. Born a Crime is a must read."

Contam-se pelos dedos de uma mão as biografias que li. Não é um género que me suscite curiosidade e não é o género em que penso quando penso em livros. Porquê então este Born a Crime de Trevor Noah? Porque gosto da pessoa pública Trevor Noah, porque gosto do profissional Trevor Noah, porque fiquei curiosa com a história que ele tinha para contar e porque sou atraída para a temática do racismo. 🙂

Em Born a Crime, Trevor conta-nos a sua história e a história da mãe, que mais não é do que a história do Apartheid na África do Sul. A segregação e a discriminação racial e o que permaneceu, com o fim deste regime. 
Achei curiosa a imagem que ele passa de haver uma série de medidas que eram só muitos estúpidas, levadas a cabo por pessoas pouco inteligentes cuja única qualificação era terem nascido brancas. Temos tendência para pensar nestas coisas como sendo fruto de algo mais organizado e estruturado e por vezes o que acontece é que as coisas se mantêm por inércia, por hábito, por gerações e gerações que cresceram com alguém a dizer quem eram, o que podiam ou não ser ou fazer.

Born a Crime é, entre outras coisas, uma homenagem que Trevor Noah faz à mãe. A mãe de Trevor é fascinante. Pela forma como conseguiu sobreviver e prosperar contra todas as probabilidades. Desde a forma como escolheu quem seria o pai do seu primeiro filho, consciente de que iria dar à luz um mestiço, até à forma disruptiva como o educou. Educou-o para ser o que quisesse, preparando-o para um mundo que não tinha forma de saber que iria ser o mundo do filho, um mundo mais tolerante e justo. Ela só queria que ele estivesse preparado quando as oportunidades chegassem e que ele tivesse as ferramentas para quebrar o ciclo de pobreza e discriminação. 
É uma mulher inteligente e independente, cheia de defeitos e de incoerências. É, de acordo com o que o filho nos conta dela, uma mulher por inteiro com todas as suas qualidades e defeitos e que vive de acordo com todas as suas boas e más decisões.

Gostei muito do livro. Gostei da forma honesta como ele expõe a sua história, não escondendo as coisas más e sem se vangloriar das boas.
Gostei da escrita, simples e direta, do sentido de humor mas, sobretudo gostei da história, contada na perspetiva de uma criança e adolescente, que olha para o mundo à volta e tenta retirar algum sentido de tudo o que vê.

Recomendo sem reservas. 

Boas leituras! 

Excerto:
"During apartheid, one of the worst crimes you could commit was having sexual relations with a person of another race. Needless to say, my parents committed that crime. (...) 
Humans being humans and sex being sex, that prohibition never stopped anyone. There were mixed kids in South Africa nine months after the first Dutch boats hit the beach in Table Bay. Just like in America, the colonists here had their way with the native women, as colonists so often do. Unlike in America, where anyone with one drop of black blood automatically became black, in South Africa mixed people came to be classified as their own separate group, neither black nor white but what we call "colored". Colored people, black people, white people, and Indian people were forced to register their race with the government. Based on those classifications, millions of people were uprooted and relocated. Indian areas were segregated from colored areas, which were segregated from black areas - all of them segregated from white areas and separated from one another by buffer zones of empty land. Laws were passed prohibiting sex between Europeans and native, laws that were later amended to prohibit sex between whites and all nonwhites."

abril 15, 2023

A Célula Adormecida - Nuno Nepomuceno

Título: 
A Célula Adormecida
Ano da edição original: 2016
Autor: Nuno Nepomuceno
Editora: Topbooks

"«Assim queira Deus, o Califado foi estabelecido e iremos invadir-vos como vocês nos invadiram. Iremos capturar as vossas mulheres como vocês capturaram as nossas mulheres. Vamos deixar os vossos filhos órfãos como vocês deixaram órfãos os nossos filhos.»
Daesh, o autoproclamado Estado Islâmico, 2014.

Em plena noite eleitoral, o novo primeiro-ministro português é encontrado morto. Ao mesmo tempo, em Istambul, na Turquia, uma reputada jornalista vive uma experiência transcendente. E em Lisboa, o pânico instala-se quando um autocarro é feito refém no centro da cidade. O autoproclamado Estado Islâmico reivindica o ataque e mostra toda a sua força com uma mensagem arrepiante.
O país desperta para o terror e o medo cresce na sociedade. Um grande evento de dimensão mundial aproxima-se e há claros indícios de que uma célula terrorista se encontra entre nós. Todas as pistas são importantes para o SIS, sobretudo, quando Afonso Catalão, um conhecido especialista em Ciência Política e Estudos Orientais, é implicado.
De antecedentes obscuros, o professor vê-se subitamente envolvido numa estranha sucessão de acontecimentos. E eis que uma modesta família muçulmana refugiada em Portugal surge em cena.
A luta contra o tempo começa e a Afonso só é dada uma hipótese para se ilibar: confrontar o passado e reviver o amor por uma mulher que já antes o conduziu ao limiar da própria destruição.

Com uma escrita elegante e o seu já tão característico estilo intimista e sofisticado, inspirado em acontecimentos verídicos, Nuno Nepomuceno dá-nos a conhecer A Célula Adormecida. Passado durante os 30 dias do mês do Ramadão, este é um romance contemporâneo, onde ficção e realidade se confundem num estranho mundo novo e aterrador que a todos nos perturba. Um thriller psicológico de leitura compulsiva, inquietante, negro e inquestionavelmente atual."

A sinopse diz quase tudo sobre a história e sobre o tema. Acho que não faz muito sentido alongar-me muito mais sobre isso. Para além de já não me lembrar muito bem dos pormenores, porque é uma leitura do tempo dos confinamentos, do início de 2021, posso correr o risco de falar demais e arruinar a leitura para alguns de vocês.

Portugal, na sua pacatez de espectador dos acontecimentos mundiais acorda, após uma noite de eleições legislativas, com a notícia de que o seu novo primeiro ministro, acabado de eleger, foi encontrado morto na sede de campanha do partido.
Mais ou menos na mesma altura, um autocarro de passageiros é sequestrado por um rapaz, de origem islâmica e que estava em Portugal, e a estudar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa. O ataque é considerado terrorista e é reivindicado pelo Autoproclamado Estado Islâmico.

Com o país num turbilhão, sem governo eleito e em choque com a presença do ISIS no seu território, Afonso Catalão, um especialista em Ciência Política e Estudos Orientais e, professor do rapaz que sequestrou o autocarro, acaba por se ver envolvido numa série de acontecimentos que colocam a sua vida, mas principalmente a vida de quem o rodeia em perigo.

O livro aborda o tema do terrorismo islâmico que, embora continue muito presente nas nossas vidas, nos tempos que correm, parece ser uma coisa do passado. Hoje em dia, até aquilo que nos assusta tem um ciclo de vida muito curto, há sempre qualquer nova a querer estar no topo das nossas preocupações e a competir para nos tirar o sono à noite... 
Naturalmente, fazem parte da história o preconceito e a islamofobia, que encontram nestes acontecimentos a desculpa perfeita para saírem do armário de muito boa gente.

De uma forma muito resumida é isto. 

Depois de ler O Espião Português (opinião aqui), de que gostei bastante, estava, naturalmente expectante quando comecei a ler A Célula Adormecida. Confesso que fiquei um pouco desiludida e que ficou aquém das minhas expectativas.
Achei a escrita um pouco forçada e o desenrolar da história pouco credível, cheio de clichés. Tudo acontecia às pessoas que Afonso Catalão conhecia. Nada lhe acontecia a ele, era sempre "salvo" por um golpe de sorte, pelo destino... E ele seguia com a sua vida, quase indiferente. 
Houve um ou outro acontecimento em que Nuno Nepomuceno poderia ter arriscado em fazer diferente e dar outra dimensão à história e às personagens. Assim, todo o livro acabou por não ser particularmente original.

Irritou-me um pouco a divisão desnecessária dos capítulos, que tornou o ritmo da leitura estranho. Muitas vezes o capítulo seguinte era equivalente a um parágrafo.

Sinceramente estava à espera de mais depois de ter ficado tão bem impressionada com O Espião Português e, não consegui ultrapassar a sensação de que tudo era muito parecido com os livros do José Rodrigues do Santos, os da saga Tomás Noronha (é um trauma assumido por mim). Acho, no entanto, que é melhor em termos de diálogos e de construção das personagens.

Como disse, A Célula Adormecida é uma leitura dos confinamentos COVID, de 2021 e já não tenho muito presente os pormenores da história. Também não dá para reler porque foi um livro da biblioteca. O que mais me ficou na memória foram as ruas de Lisboa onde se desenrola a maior parte da história, porque conheço bem a zona. Digamos que tornou a história um pouco mais real para mim. Por outro lado, essa proximidade fez com que opções narrativas menos credíveis me causassem maior estranheza.

Não é um livro mau, de longe, mas foi suficientemente normal para que, até à data, não tenha voltado a ler mais nada dele. Confesso que, com tantos livros em fila de espera, esta leitura me deixou relutante e não tenho sentido o apelo de voltar ao Nuno Nepomuceno. Talvez um dia. ;)

Recomendo se vos interessa o tema. Para primeiro livro do autor, arriscaria a começar por um outro qualquer.

Boas leituras!

março 19, 2023

[Ebook] MaddAddam- Margaret Atwood

Título original: 
MaddAddam
Ano da edição original: 2013
Autor: Margaret Atwood
Editora: Virago (Ebook ISBN: 9780748130191)

"By the author of The Handmaid's Tale and Alias GraceToby, a survivor of the man-made plague that has swept the earth, is telling stories.Stories left over from the old world, and stories that will determine a new one. Listening hard is young Blackbeard, one of the innocent Crakers, the species designed to replace humanity. Their reluctant prophet, Jimmy-the-Snowman, is in a coma, so they've chosen a new hero - Zeb, the street-smart man Toby loves. As clever Pigoons attack their fragile garden and malevolent Painballers scheme, the small band of survivors will need more than stories."

MaddAddam é o terceiro e último livro da trilogia composta por Oryx and Crake e The Year of the Flood (opiniões aqui e aqui), de Margaret Atwood.

O livro começa exatamente onde o anterior acabou e, como não quero inadvertidamente, contar algo que possa estragar a vossa leitura, digamos que... Zeb e o seu pequeno grupo estão a reorganizar-se e continuam à procura de Adam One. Toby e mais uns quantos nossos conhecidos, que incluem um Jimmy doente, entre a vida e a morte, acabam por se juntar ao grupo de Zeb. Com Toby, ou melhor com Jimmy, vêm os Filhos de Crake, incapazes de se afastarem de Jimmy.

Como Jimmy não está em condições de manter a tradição de contar histórias ao Filhos de Crake e porque estes são muito ciosos das suas rotinas e rituais, acaba por ser Toby a escolhida por eles para manter a tradição.
Toby conta-lhes histórias de Crake, de Oryx, de Jimmy e do próprio Zeb que parece estar a tornar-se para eles uma espécie de Deus.

As histórias são inspiradas nas próprias memórias que Zeb partilha com Toby. Ficamos a conhecer a sua relação com Adam One, como chegou até ali e qual foi o seu papel em tudo o que aconteceu. Através dele conhecemos também o papel e a história de Adam One.

Os Filhos de Crake são criaturas curiosas, em particular uma das crianças do grupo, a quem Toby ensina a escrever e a ler.
É curiosa a forma como esta criança, que não tem qualquer passado e que desconhece muitos dos conceitos que para Toby e os outros humanos são dados adquiridos, começa a apreender tudo. A ironia para eles é desconhecida, não percebem o que é ler ou escrever, não têm maldade e a violência é-lhes dolorosa e incompreensível. 
É esta criança que mais tarde vai continuar a contar as histórias de Zeb, Crake, Oryx e Fuck (têm de ler para perceber) aos outros, quando Toby e Zeb já não estiverem entre eles. É é assim que a vida continua. E é assim que começa a nascer uma nova "humanidade", talvez melhor que a anterior, talvez apenas diferente da anterior. 

MaddAddam é o livro que cola todas a pontas soltas e que tece um fio entre as vidas de todas as personagens que conhecemos nos livros anteriores.
É o livro de Toby e Zeb. É o livro dos Filhos de Crake, como nova espécie senciente no planeta Terra. Os que vão herdar o planeta e toda a história da humanidade que existiu antes deles.
É o livro da esperança e da continuidade.

Esta é uma trilogia que vale muito a pena ler. Para além de estar muito bem escrita e de ter personagens que ficam connosco por algum tempo, levanta questões pertinentes e que nos fazem refletir. 
Refletir sobre o percurso da humanidade, o que nos torna naquilo que somos, a necessidade quase inata de sabermos de onde viemos, de termos um passado, algo que nos ligue a este mundo e aos nossos semelhantes, a idolatria e a necessidade de nos sentirmos protegidos por algo superior a nós e que não conseguimos compreender completamente.

Mais um que recomendo sem qualquer reserva. Leiam os três, não são livros que valham por si só.

Boas leituras!

Excerto:
"They're preternaturally beautiful, thinks Toby. Unlike us. We must seem subhuman to them, with our flapping extra skins, our aging faces, our warped bodies, too thin, too fat, too hairy, too knobbly. Perfection exacts a price, but it's the imperfect who pay it.
Each of the Crakers has one hand on Jimmy. They're purring; the hum gets louder as Toby walks over to them.
'Greetings, Oh Toby', say's the taller of the two women. How do they know her name? They must have listened more carefully than she'd thought last night. And how should she reply? What are their own names, and is it polite to ask?
'Greetings', she says. 'How is Snowman-the-Jimmy today?'
'He is growing stronger, Oh Toby', says the shorter woman. The others smile. (...)
'Snowman-the-Jimmy is coming closer to us', says the short woman. 'Then he will tell us the stories of Crake, as he always did when he was living in his tree. But today you must tell them to us.'
'Me?' says Toby. 'But I don't know the stories of Crake!'
'You will learn them', says the man. 'It will happen. Because Snowman-the-Jimmy is the helper of Crake, and you are the helper of Snowman-the-Jimmy, That is why.'
'You must put on this red thing', says the shorter woman, 'It is called a Hat.'
'Yes, a hat', says the tall woman. 'In the evening, when it is moth time. You will put this hat of Snowman-the-Jimmy on your head, and listen to this shiny round thing that you put on your arm.'
'Yes', says the other woman, nodding. 'And then the words of Crake will come out of your mouth. That is how Snowman-the-Jimmy would do it.'
'See?' says the man. He points to the lettering ond the hat: Red Sox. 'Crake made this. He will help you. Oryx will help too, if the story has an animal in it.'
'We will bring the fish, when it is getting dark. Snowman-the-Jimmy always eats a fish, because Crake says he must eat it. Then you will put on the hat and listen to this Crake thing, and say the stories of Crake.'
'Yes, how Crake made us in the Egg, and cleared away the chaos of bad men. How we left the Egg and walked here with Snowman-the-Jimmy, because there were more leaves for us to eat.'
'You will eat the fish, and then you will say the stories of Crake, as Snowman-the-Jimmy always did', says the shorter woman. They look at her with their uncanny green eyes and smile reassuringly. They seem entirely confident of her abilities.
What are my choices? thinks Toby. I can´t say no. They may get disappointed, and go away by themselves, back to the beach, wheres the Painballers can grab them. They'd be easy prey, especially the children. How can I let that happen?
'All right', she says. 'I will come in the evening. I will put on the hat of Jimmy, I mean Snowman-the-Jimmy, and tell you the stories of Crake.'
'And listen to the shiny thing', says the man. 'And eat the fish.' It seems to be the ritual.
'Yes, all of that', says Toby.
Shit, she thinks. I hope they cook the fish."