maio 31, 2024

A Mulher Comestível - Margaret Atwood

Título original: The Edible Woman
Ano da edição original: 1969
Autor: Margaret Atwood
Tradução: Paulo Moreira
Editora: Edições Livros do Brasil

"Marian é uma mulher deliberadamente vulgar, que espera casar-se mais dia menos dia. Gosta do seu trabalho, da amiga quase ninfomaníaca com quem partilha o apartamento, do seu noivo excessivamente fleumático. Ao princípio tudo parece correr bem. Mas Marian não contou consigo mesma, com aquilo que é na realidade: uma mulher que deseja um pouco mais do que aquilo que tem, que inconscientemente vai sabotando os seus próprios planos, a sua rotina, a sua digestão. E Marian descobre, por fim, que há coisas que não suporta.
A Mulher Comestível foi publicado em 1969, coincidentemente com a ascensão do feminismo na América do Norte. Muita gente pensou de imediato que o livro era, pois, um produto desse movimento. Ora o romance fora escrito, na verdade, quatro anos antes. Como diz a própria autora: «Eu encaro o livro mais como protofeminista do que como feminista, Não existia qualquer movimento feminista quando o escrevi, em 1965, e eu não tenho o dom da clarividência apesar de, a exemplo de muitas mulheres dessa época, ler Betty Friedan e Simone de Beauvoir à porta fechada. Vale a pena realçar que as opções da minha heroína se mantêm praticamente inalteradas ao longo de todo o livro: ou uma carreira que não conduz a parte alguma, ou um casamento para escapar à carreira. Mas estas eram as opções de qualquer jovem, ainda que instruída, no Canadá dos anos 60. E seria aliás um erro acreditar que as coisas mudaram verdadeiramente.»"

A Mulher Comestível foi o primeiro livro que Margaret Atwood publicou. Foi escrito nos anos 60 e foi publicado durante os anos 70.

Marian é uma jovem mulher que trabalha numa empresa de inquéritos, partilha casa com Ainsley e namora Peter, um advogado júnior.
Marian, tirou um curso superior, não gosta particularmente do trabalho que faz e não se identifica com as colegas de trabalho. 

Conhece e namora Peter há algum tempo e Peter é uma espécie de Peter Pan, não quer casar tão cedo, quer continuar a viver a vida de um jovem sem responsabilidades e sem compromissos. Gosta de Marian porque acha que ela o compreende e é sensivel às suas necessidades. 
Marian parece conviver bem com esta espécie de acordo entre os dois. Não sabe se quer casar, ou se o quer fazer com Peter. Por outro lado, sente que gostaria que ele o quisesse.

Na verdade Marian não sabe muito bem quem é e o que quer para ela. Não se sente enquadrada com o que esperam dela, como mulher mas, ao mesmo tempo também não sabe o que fazer senão o que esperam dela: casar, deixar de trabalhar, ter filhos e cuidar da casa e do marido. Que alternativa tem?

Por outro lado Ainsley a amiga com que partilha casa, é aparentemente mais moderna, não quer casar mas quer ter um filho porque acha que a maternidade é o ponto alto da feminilidade. Inicia, por isso, uma busca incessante do pai ideal para o seu futuro bebé. Vale tudo para conseguir um progenitor que seja bonito, inteligente e saudável. 

Os dias vão passando sem grandes sobressaltos até que Marian conhece Duncan um rapaz estranho que a intriga e desafia. Não percebe porquê mas acaba sempre por gravitar para ele. Na mesma altura, Peter lá se decide que está na altura de dar o passo seguinte e pede Marian em casamento, numa noite de grande confusão e de desorientação para Marian. Esta aceita. Que outra resposta possível poderia existir?

A partir dessa altura algo muda em Marian. Começa de forma gradual a rejeitar todo o tipo de alimentos. É incapaz de comer carne ou peixe porque sente que está a matar os animais. Acaba por deixar de comer até os vegetais porque começa a olhar para eles como seres vivos capazes de sentir dor.

Nada disto a faz parar para pensar no que se passa com ela. Não relaciona o seu distúrbio alimentar com estes novos acontecimentos na sua vida, no entanto, Marian parece estar, de forma inconsciente a gritar por ajuda. Quer mesmo casar com Peter? Quer ter filhos e deixar de trabalhar? O que significa Duncan na meio de toda a confusão em que se transformou a sua vida, até então, previsível?

A Mulher Comestível é um livro muito bem conseguido e divertido  que fala sobre o papel da mulher na sociedade e no quão pernicioso pode ser contrariarmos constantemente aquilo que somos, a nossa verdadeira essência.

Gostei muito, como tem sido habitual, Margaret Atwood não desilude, nem com o seu primeiro livro. :)

Recomendo sem qualquer hesitação. 

Boas leituras. 


Excerto (pág. 88):
"Queria que Peter se voltasse para mim e falasse comigo, queria ouvir a sua voz normal, mas ele não o fez; estudei os reflexos dos meus três companheiros no tampo preto da mesa, à medida que eles se moviam no que parecia uma espécie de piscina localizada por baixo do mesmo; exceção feita aos olhos de Ainsley, gentilmente pousados no seu copo, só via queixos. Passado algum tempo, notei com ligeira curiosidade que uma enorme gota de qualquer coisa molhada se tinha materializado perto da minha mão. Tacteei-a com a ponta do dedo e brinquei um pouco com ela antes de perceber, horrorizada, que se tratava de uma lágrima. Sendo assim, eu devia estar a chorar! Dentro de mim, algo se transformou num labirinto de trémulo pânico, como se tivesse engolido um enorme sapo. Estava prestes a soçobrar e a fazer uma cena, mas não podia.
Deslizei para fora da cadeira, tentando parecer o mais natural possível, atravessei a sala tendo todo o cuidado para evitar as outras mesas e dirigi-me para a casa de banho das senhoras. Certifiquei-me de que não estava lá mais ninguém - não podia ter testemunhas -, tranquei-me num dos pequenos cubículos cor-de-rosa e chorei durante vários minutos. Não conseguia perceber o que me estava a acontecer e porque estava a chorar daquela maneira; nunca me tinha acontecido nada assim e parecia-me tudo o mais completo absurdo.
 - Vê se te controlas - murmurei. - Não faças figuras parvas.
Indefeso, branco e macio, o rolo de papel higiénico era a minha única companhia, que esperava pacientemente pelo seu próprio fim. Arranquei-lhe algumas folhas e assoei o nariz."

março 29, 2024

A Louca da Casa - Rosa Montero

Título original: 
La Loca de la Casa
Ano da edição original: 2003
Autor: Rosa Montero
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

"Um romance? Um ensaio? Uma autobiografia? A Louca Da Casa é, em qualquer dos casos, a obra mais pessoal de Rosa Montero: uma viagem através do misterioso universo da fantasia, da criação artística e das recordações mais secretas da própria autora, que neste livro empreende uma viagem ao mais profundo do seu ser através de um jogo narrativo pleno de surpresas, onde literatura e vida se misturam num cocktail afrodisíaco de biografias alheias e de autobiografia romanceada. E assim descobrimos, por exemplo, que Goethe adulava os poderosos, que Tolstoi era um energúmero, que Rosa, ela própria, em criança, se julgava anã, e que, com vinte e três anos, manteve um extravagante e arrebatador romance com um ator famoso. Todavia, não devemos fiar-nos por completo em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as recordações não são sempre o parecem."

A Louca da Casa é um livro sobre escritores e sobre o processo da escrita, a imaginação e a criatividade mas, acima de tudo, fala sobre a loucura e as perturbações mentais que, muitas vezes, convivem com a genialidade dos grandes escritores. É um livro pequeno, mas está cheio de histórias e de curiosidades sobre alguns escritores bem nossos conhecidos, como Herman Melville ou Rudyard Kipling.

Rosa Montero, ao mesmo tempo que parece ensaiar uma autobiografia, envolve-nos, de forma ardilosa, em factos e em histórias verdadeiras sobre outros escritores e, no que lhe diz respeito a ela, estamos até ao fim, na dúvida sobre a veracidade do que conta sobre si própria.

Gosto da escrita de Rosa Montero. É limpa, clara, despretensiosa e bem-humorada. Não perde muito tempo com frivolidades, sem deixar de, no entanto, nos fazer sentir próximos dela e do que conta.
Acho curioso que nenhum dos livros que já li dela sejam estereotipados, ela parece conseguir escrever sobre qualquer coisa, qualquer tema, sendo que, a única constante é a qualidade.  

Gostei muito e recomendo sem qualquer reservas. Rosa Montero é uma escritora a não perder. Se nunca leram, experimentem, sem medos.

Excerto (pág. 26)
"Os romancistas, escrevedores incontinentes, disparam sem cessar palavras contra a morte, como arqueiros empoleirados nas ameias de um castelo em ruínas. Mas o tempo é um dragão de pele impenetrável que tudo devora. Ninguém se lembrará da maior parte de nós dentro de alguns séculos, para todos os efeitos será como se nunca tivéssemos existido. O esquecimento total de quem nos precedeu é um manto pesado, é a derrota com que nascemos e em direção à qual nos dirigimos. É o nosso pecado original."

março 26, 2024

[Ebook] Gente Ansiosa - Fredrik Backman

Título original: Folk Med Angest
Ano da edição original: 2019
Autor: Fredrik Backman
Tradução: Elsa T. S. Vieira
Editora: Porto Editora (ISBN: 978-972-0-67364-0)

"Visitar um apartamento que está à venda não costuma redundar numa situação de perigo. A menos que seja antevéspera de Ano Novo, e um ladrão inexperiente tenha decidido assaltar um banco onde não há dinheiro. Quando assim é, torna-se inevitável que não haja sequer um plano de fuga, e se acabe com uma data de reféns acidentais.
Felizmente, podemos confiar na pronta intervenção das autoridades. A menos que os dois polícias responsáveis pelo caso não se entendam nem saibam o que fazer.
Ainda assim, acreditamos que tudo correrá bem, em particular se os reféns permanecerem calmos. A menos que sejam os reféns mais idiotas de todos os tempos: uma analista bancária com ideias suicidas, uma adorável velhinha com motivações pouco transparentes, um casal reformado com uma paixão enorme pelo IKEA, duas recém-casadas, prestes a serem mães, que andam sempre às turras, uma agente imobiliária com entusiasmo a mais e talento a menos, e uma pessoa vestida de coelho.
Com um sentido de humor excecional, que cativou milhões de leitores em todo o mundo, e personagens tão imperfeitas quanto tocantes, Fredrik Backman volta a surpreender com esta história sobre gente idiota e ansiosa e os laços invisíveis que (n)os unem."

De regresso a Fredrik Backman e às suas personagens estranhas, inadaptadas e inesquecíveis. É o regresso às histórias reais e ao mesmo tempo tão fora do normal que me fazem sentir, sempre um pouco estranha. :)

Gente Ansiosa, como o título acaba por indicar, fala sobre ansiedade.
Ansiedade por sermos adultos, por termos  responsabilidades e sentirmos que deveríamos saber todas as respostas para todas as perguntas. 
Ansiedade porque vivemos com culpa. Culpa porque as nossas ações, mais ou menos inconscientes, provocam reações nos outros, reações essas, que nem sempre são as que esperávamos.
Ansiedade porque queremos ajudar a pessoa que está ao nosso lado, que sempre esteve ao nosso lado, e não sabemos como fazê-lo sem que o outro se sinta diminuído.
Ansiedade porque um pai não sabe como falar com o filho e o filho não sabe como lidar com o pai. Ansiedade porque nem um nem o outro sabem como avançar depois da morte da pessoa que os mantinha unidos.
Ansiedade porque o mundo, por vezes, parece avançar a uma velocidade vertiginosa e temos medo de não conseguir acompanhar e de perdermos o comboio.
Ansiedade porque a vida é difícil e a relação com os outros é complexa e nem todos viemos equipados com as mesmas ferramentas. Viemos de sítios diferentes, vivemos coisas diferentes, fomos moldados por muitas mãos diferentes.
Ansiedades que, no limite, podem levar ao suicídio.

Tudo isto numa história que começa com uma tentativa de assalto a um banco, que não corre como o esperado e, com um grupo de pessoas presas num apartamento à venda e, que não se conhecem de lado nenhum.
Estão lançados os dados para mais uma viagem desconcertante, intrigante, divertida, angustiante mas, acima de tudo, uma viagem onde ninguém está sozinho. Aos livros de Fredrik Backman não se aplica o ditado ou expressão: "Quando pensas que bateste no fundo descobres que existe uma cave" , porque, nas histórias de Fredrik Backman, quando se pensa que bateram no fundo, descobrem que estão rodeados de gente boa e, juntos encontram uma pequena janela por onde podem sair e começar a subir.

Embora estranhe sempre a escrita simples e o sentido de humor quase infantil de Fredrik Backman, a verdade é que acabo sempre por gostar muito das histórias dele e da forma como consegue que as personagens que cria sejam tão vivas e reais e irreais ao mesmo tempo.
 
Confesso que tenho partido para os livros dele com esperança de encontrar neles Ove ou o encanto que encontrei em Um Homem Chamado Ove
Ainda não foi desta que Ove foi destronado mas, foi uma boa leitura, com personagens cativantes e uma história bonita com a qual, cada um de nós, facilmente se consegue relacionar.

Recomendo sem qualquer hesitação. 

Boas leituras!

Excerto:
"Esta história é sobre muitas coisas, mas acima de tudo é sobre idiotas. Assim, é preciso dizer desde já que é sempre muito fácil declarar que os outros são idiotas, mas apenas se esquecermos como é difícil sermos humanos. Em particular se tivermos alguém por quem tentamos ser humanos razoavelmente bons.
Porque, hoje em dia, é preciso lidar com uma quantidade inacreditável de coisas. Temos de ter um emprego, um sítio para viver e uma família, e temos de pagar impostos e ter roupa interior lavada e saber de cor o raio éa password do Wi-Fi. Alguns de nós nunca conseguem controlar o caos por completo, por isso as nossas vidas vão simplesmente andando, e o mundo vai girando pelo espaço, a milhões de quilómetros por hora, enquanto saltitamos na sua superfície como peúgas perdidas."

março 10, 2024

O Acontecimento - Annie Ernaux

Título original: 
L'événement
Ano da edição original: 2000
Autor: Annie Ernaux
Tradução: Maria Etelvina Santos
Editora: Livros do Brasil

"Uma jovem de 23 anos, estudante universitária brilhante, descobre que está grávida. Tomada pela vergonha, consciente de que aquela gravidez representará um falhanço social para si e para a sua família, sabe que não poderá ter aquela criança. Mas, na França de 1963, o aborto é ilegal e não existe ninguém a quem possa acorrer. Quarenta anos mais tarde, as memórias daquele acontecimento continuam presentes, num trauma impossível de ultrapassar e cujas sombras se estendem para além da história individual. Escrito com uma clareza acutilante, sem artifícios, este é um romance poderoso sobre sofrimento, justiça e a condição feminina. Escrito por Annie Ernaux em 1999, foi adaptado ao cinema em 2021 por Audrey Diwan, num filme vencedor do Leão de Ouro em Veneza. "

Primeira incursão pela, recentemente, Nobelizada Annie Ernaux e, sem grandes expectativas, confesso.
 
O Acontecimento é um livro duro, onde é relatada a saga dantesca, levada a cabo por uma jovem de 23 anos que, perante a confirmação de uma gravidez não planeada e não desejada, encontra todo o tipo de obstáculos que a impedem de fazer um aborto seguro.
Estamos em 1963, em França e, todos à sua volta encolhem os ombros, os médicos, todos homens, não a ajudam, talvez por medo de represálias, mas também porque acham que é dever das mulheres arcarem com essa responsabilidade. Os colegas e amigos também não lhe estendem a mão e não a acompanham nesta jornada.
Ela, envergonhada pelo que lhe aconteceu, não conta aos pais que está grávida e desespera por tirar de dentro dela algo que não deseja, que vê como sendo um acontecimento que será um retrocesso na sua vida.
Sozinha, em busca de uma solução, bate a todas a portas de que se lembra e, naturalmente, acaba por encontrar uma saída, igual à de tantas outras mulheres que se viram, e vêm, obrigadas a fazê-lo de forma clandestina e pouco segura.

Tinha de ser assim? Hoje, mas também em 1963, sabemos que não, não tinha de ser assim. Hoje em alguns sítios do mundo já não tem de ser assim mas, na maioria do países, a mulher tem de carregar sozinha as consequências da decisão de querer fazer um aborto, seja porque motivo for, correndo todo o tipo de riscos, de saúde e legais.

As liberdades e direitos de todos nós nunca estão garantidos, acho que nos vamos apercebendo cada vez mais disso e, num mundo que parece estar cada vez mais saudosista de tempos cinzentos e bolorentos, os direitos das mulheres serão os primeiros a ser revisitados. Não tenho qualquer dúvida disso. Por isso, no que estiver ao nosso alcance, vamos todos contribuir para uma sociedade mais empática e justa. Pode ser? 

Sobre o livro, :) não tenho a certeza se gostei da escrita ou da forma como relata os acontecimentos. É muito direta e muito assertiva e como o tema é difícil, parece que lhe falta sensibilidade. Mas, por outro lado pode ser que a ideia seja mesmo essa. Há, ainda, uma repulsa natural pelo que é relatado e que me deixou de certa forma desconfortável.
Posto isto, acho que gostei mas ao mesmo tempo não gostei. Vou ter de ler mais livros dela. Tenho a sensação de que é uma daquelas que primeiro se estranha e depois se entranha. 

Recomendo. 

Boas leituras. 

Excerto (pág. 33)
"As raparigas como eu estragavam os dias aos médicos. Sem dinheiro e sem contactos - de outro modo não iriam, às cegas, desembocar neles -, elas traziam-lhes à memória a lei que os poderia mandar para a prisão e proibi-los de exercer para o resto da vida. Não ousavam dizer a verdade, essa de que não iriam arriscar perder tudo em nome dos belos olhos de uma rapariguinha estúpida ao ponto de ser deixar engravidar. A não ser que, sinceramente, preferissem morrer a infringir uma lei que deixava morrer as mulheres. Mas todos deveriam pensar que, ainda que as impedissem de abortar, elas acabariam por arranjar maneira de o fazer. Em face de uma carreira destruída, uma agulha de tricô na vagina não significava grande coisa. "

dezembro 10, 2023

[Ebook] A Coisa à Volta do teu Pescoço - Chimamanda Ngozi Adichie

Título: The Thing Around Your Neck 
Ano da edição original: 2009
Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
Tradução do Ingês: Ana Saldanha
Editora: Publicações Dom Quixote (ISBN: 9789722054546)

"Depois de Meio Sol Amarelo (Orange Prize 2007) e A Cor do Hibisco (Commonwealth Writers’ Prize 2005), Chimamanda Ngozi Adichie regressa com doze histórias protagonizadas por heroínas memoráveis. Divididas entre dois continentes - África e América -, estas mulheres lutam por um lugar e uma identidade no mundo moderno mas também pela preservação dos valores da sua cultura de origem. Quer vivam no inferno de um país como a Nigéria ou num subúrbio aparentemente calmo dos Estados Unidos, elas não têm uma vida fácil. As ameaças que enfrentam podem ter origem na guerrilha ou no funcionamento de um forno microondas mas os seus dilemas contêm toda a história de um continente."

Primeiro contacto com Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana muito premiada e que tem andado no meu radar por causa de Meio Sol Amarelo, que volta não volta aparece na minha vida e sempre com críticas muito boas. Decidi começar com um livro mais pequeno, para ter uma ideia da escrita e o tipo de histórias e, gostei muito. Gostei muito da escrita e das histórias.
A Coisa à Volta do teu Pescoço, traz-nos doze histórias protagonizadas por mulheres nigerianas. Algumas passam-se nos EUA outras na Nigéria, sendo que a Nigéria está omnipresente em todas  histórias e, acima de tudo na vida destas mulheres. 

As mulheres destas histórias representam, de certa forma, todas as mulheres do mundo mas, acima de tudo, são um retrato da mulher africana, tendo de viver em sociedades patriarcais, muito religiosas e pouco tolerantes à ideia de a mulher ter outras ambições que não sejam as de ser esposa, mãe e cuidadora.
Temos mulheres instruídas e inteligentes e temos mulheres menos instruídas e inteligentes. Temos em todas elas uma vontade de fazer diferente e de quebrar o ciclo de descriminação. Todas elas querem ser donas das suas vidas, quer seja a cuidar da família ou a construir uma carreira. 
Nestas histórias, existem vários tipos de homens, os orgulhosos da sua superioridade, de mente fechada, presos à tradições que apenas os favorecem a eles e, existem os homens que são verdadeiros parceiros e que não vêm na mulher uma ameaça e procuram ir equilibrando a balança. Mais dos primeiros e menos dos segundos mas, o importante é não desistir e, um dia todas, em todo o lado, seremos tratadas com igualdade e teremos as mesmas oportunidades.

Gostei bastante, tanto que já comprei o Meio Sol Amarelo. A escrita é bem-humorada, mesmo quando relata situações que de engraçado não têm nada. O tema é pertinente, hoje e sempre e por isso não hesito em recomendar!

Boas leituras!

Excerto:
"O teu tio na América, que tinha inscrito o nome de todos os membros da tua família na lotaria dos vistos americanos, disse que podias viver com ele até te orientares. (...) 
Ris-te com o teu tio e sentiste-te à vontade na casa dele; a mulher dele chamava-te nwanne, irmã, e os seus dois filhos, em idade escolar, chamavam-te Titi. Falavam igbo e comiam garri ao almoço e era como em casa. Até o teu tio vir à cave atravancada onde dormias com caixotes velhos e embalagens e te apertar à força contra si, apertando-te as nádegas e gemendo. Ele não era verdadeiramente teu tio; na realidade, era irmão do marido da irmã do teu pai; não há laços de sangue. Depois de o empurrares, ele sentou-se na tua cama - ao fim e ao cabo, a casa era dele - e sorriu e disse que aos vinte e dois anos já não eras propriamente uma criança. Se tu deixasses, ele faria muitas coisas por ti. As mulheres espertas era o que faziam. Como é que julgavas que aquelas mulheres em Lagos com empregos bem pagos chegavam lá? Até mesmo as mulheres na cidade de Nova Iorque?
Fechaste-te às chave no quarto de banho até ele voltar lá para cima e na manhã seguinte foste embora, a pé pela longa estrada sinuosa, sentindo o cheiro a peixe que vinha do lago."

novembro 05, 2023

[Ebook] Bichos - Miguel Torga

Título original: Bichos
Ano da edição original: 1940
Autor: Miguel Torga
Editora: Publicações Dom Quixote (Ebook ISBN: 9789722057004)

"Uma nova edição pelos 75 anos de uma obra que tem acompanhado muitas gerações de leitores. Incluído no Plano Nacional de Leitura, Bichos é um dos mais lidos e famosos livros de Miguel Torga. A respeito desta obra dirigia-se ao leitor com as seguintes palavras: «São horas de te receber no portaló da minha pequena Arca de Noé. Tens sido de uma constância tão espontânea e tão pura a visitá-la, que é preciso que me liberte do medo de parecer ufano da obra, e venha delicadamente cumprimentar-te uma vez ao menos. Não se pagam gentilezas com descortesias, e eu sou instintivamente grato e correcto. Este livro teve a boa fortuna de te agradar, e isso encheu-me sempre de júbilo. [...] És, pois, dono como eu deste livro, e, ao cumprimentar-te à entrada dele, nem pretendo sugerir-te que o leias com a luz da imaginação acesa, nem atrair o teu olhar para a penumbra da sua simbologia. Isso não é comigo, porque nenhuma árvore explica os seus frutos, embora goste que lhos comam. Saúdo-te apenas nesta alegria natural, contente por ter construído uma barcaça onde a nossa condição se encontrou, e onde poderemos um dia, se quiseres, atravessar juntos o Letes [...].» "

Nunca tinha lido Miguel Torga. Admito que tenho um desconhecimento enorme sobre escritores portugueses do século XX, principalmente até aos anos 70, 80. E tenho, confesso, uma ideia errada da escrita, dos temas e do tipo de escritores que são. Na minha cabeça são chatos, complicados, cheios de palavras desnecessárias e pesados... Não sei quando e como é que este preconceito se instalou em mim mas acho que o estou a quebrar porque, na verdade, tenho tido grandes, e boas, surpresas quando os leio. 
Desconheço a maioria dos escritores da época e a verdade é que nos muitos anos de escola estes pouco ou nada são mencionados... Como é que só recentemente ouvi falar de Maria Judite de Carvalho?!  Acho, sinceramente, que saímos todos a perder. 

Decidi ler Bichos depois de ter visto na RTP1, o episódio do O Leproso, que faz parte da mini série Histórias da Montanha, onde cada episódio é baseado num conto de Miguel Torga. Gostei imenso do que vi e intuí que muito do que tinha gostado era fruto da qualidade de Miguel Torga e não apenas da qualidade da produção. E não me enganei. 

Em BichosMiguel Torga, presenteia-nos com contos sobre animais, sobre animais de duas patas mas principalmente sobre os outros animais. A maioria dos contos são contados na perspetiva dos próprios animais o que torna tudo mais interessante, curioso e muito divertido. 

Gostei muito da escrita, rica e cheia de vida, muito visual, sem ser excessivamente descritiva e adorei as histórias, muito bem estruturadas e criativas. 

Recomendo sem reservas e, faço questão de ter uma cópia física deste Bichos, e também dos Contos da Montanha. Acho que Miguel Torga merece um espacinho nas minhas estantes. :) 

Vejam a mini série na RTP. São cinco episódios e está disponível na plataforma RTP Play. Vale muito a pena. 

Boas leituras. 

Excerto:
"É difícil. Isto de começar num monturo, e só parar na crista dum castanheiro, tem que se lhe diga. É preciso percorrer um longo caminho. Embrião, larva, crisálida... Todas as estações do íngreme calvário da organização. Animada pelo sopro da vida, a matéria necessita do calor dum ventre. Antes dessa íntima comunhão, desse limbo purificador, não poderá ter forma definitiva. Custa. Mas a lei natural é inexorável. Exige consciência de cosmos antes da consciência de ser. O calor dá no ovo. Aquece-o e amadurece-o. A casca quebra. Depois... Ah, depois é essa descida ao húmus, essa existência amorfa, nem germe, nem bicho, nem coisa configurada. Largos dias assim. Até que finalmente em cada esperança de perna nasce uma perna, e cada ânsia de claridade é premiada com dois olhos iluminados. Cresce também uma boca onde a fome a reclama, e surgem as asas que o sonho deseja...
É difícil, mas vai. Desde que haja coragem dentro de nós, tudo se consegue. Até fazer parte do coro universal.
- Já hoje ouvi a cigarra...
- É tempo dela.
Nenhuma palavra de apreço pela dureza do caminho andado. Paciência. O teatro do mundo tem palco e bastidores. As palmas da plateia festejam somente os dramas encenados. Que remédio, pois, senão a gente resignar-se e aceitar as sínteses leviana. Nascia do tempo. Muito bem. Ninguém mais ficaria a conhecer a fundura dos abismos em que se debatera.  Protoplasma, lagarta, ninfa..."

[Ebook] Afirma Pereira - Antonio Tabucchi

Título original: 
Sostiene Pereira
Ano da edição original: 2013
Autor: Antonio Tabucchi
Tradução: José Lima
Editora: Leya (Ebook ISBN: 9789896603243)

"Tendo por pano de fundo o salazarismo português, o fascismo italiano e a guerra civil espanhola, Afirma Pereira é a história atormentada da tomada de consciência de um velho jornalista solitário e infeliz. Antonio Tabucchi nasceu em Pisa (1943-2012), onde fez os seus estudos, primeiro na Faculdade de Letras e depois na Scuola Normale Superiore. Ensinou nas Universidades de Bolonha, Roma, Génova e Siena. Foi Visiting Professor no Bard College de Nova Iorque, na École de Hautes Études de Paris e no Collège de France. Publicou 27 livros, entre romances, contos, ensaios e textos teatrais. As suas obras estão traduzidas em mais de 40 países. Recebeu numerosos prémios nacionais e internacionais. Sozinho, ou com Maria José de Lancastre, traduziu para italiano a obra de Fernando Pessoa. Considerando que a sua pátria é também a língua portuguesa, escreveu um romance em português, Requiem, 1991. O seu teatro foi levado ao palco, entre outros, por Giorgio Strehler e Didier Bezace. O Fio do Horizonte, Nocturno Indiano, Afirma Pereira e Requiem foram adaptados ao cinema respectivamente por Fernando Lopes, Alain Corneau, Roberto Faenza e Alain Tanner."

Pereira é um jornalista que, na verdade, já pouco faz de jornalismo.
É responsável pela nova página Cultural do Lisboa, um jornal "apolítico e independente" o que, na verdade, significa que está completamente alinhado com a propaganda do Governo.
Trabalha sozinho, num escritório só para si e o seu único contacto regular é com o Diretor do jornal, que parece estar sempre na termas em Cascais, e com a porteira do prédio onde tem o escritório, com quem Pereira não simpatiza e que acha que é uma informante da PIDE.

Pereira é um homem solitário, com excesso de peso e que perdeu a mulher há uns anos. Nunca perdeu muito tempo a pensar sobre o mundo que o rodeia, não se interessa por política e os seus dias são passados entre idas ao escritório e os almoços no Café Orquídea, onde tenta resistir às omeletes, por indicação médica, e passa os dias a beber limonadas com açúcar, porque acha que assim vai perder peso.

Ultimamente pensa muito na morte e, é por isso que o artigo de um jovem filósofo, Monteiro Rossi, sobre o tema, lhe desperta a atenção. Num impulso que não consegue explicar, procura o nome dele na lista telefónica, liga-lhe e oferece-lhe trabalho. Pede-lhe que escreva o obituário de alguém conhecido, culturalmente relevante, e que ainda não tenha morrido, para que esteja pronto a publicar na nova página cultural quando a pessoa morrer.
Para sua surpresa Rossi aceita de imediato, embora não seja escritor e a morte não o interesse por aí além. Está a passar por dificuldades e precisa de dinheiro.
 
Pereira é confrontado, pela primeira vez, em anos, com alguém que o obriga a estar atento ao mundo que o rodeia. Monteiro Rossi entrega-lhe um obituário que nada tem a ver com o que Pereira lhe pediu. Rossi recusa-se a escrever sobre figuras simpatizantes do regime e debate-se contra a neutralidade no conteúdo que Pereira lhe pede. E é nestas trocas que Pereira se vê, de repente, confrontado com alguém que se movimenta num meio que até então lhe era completamente desconhecido e, sem que perceba muito bem porquê, não consegue afastar-se. Sente, pelo contrário, uma atração pela agitação que Rossi e a namorada trazem à sua pacata vida. 
E é assim que Pereira se torna numa pessoa que, no verão quente de 1938, entra no radar da polícia política portuguesa. :) 

Embora não tenha sido propositado, li Afirma Pereira, em Abril do ano passado, durante as comemorações do 25 de Abril. Antonio Tabucchi, um estrangeiro, com  uma forte ligação a Portugal, que não viveu na ditadura, cujas referências são necessariamente diferentes, parece ter acertado na descrição da época e dos portugueses. 

Gostei muito da escrita bem humorada, do ritmo, da história e das personagens, que me pareceram muito credíveis, ao mesmo tempo que provocam uma certa estranheza.

Afirma Pereira é um livro pequeno que se lê muito bem. 

Recomendo sem qualquer hesitação e Antonio Tabucchi é, de certeza, um autor a repetir.

Boas leituras.


Excerto:
"Pereira afirma que naquela noite a cidade parecia nas mãos da polícia. Estavam em todo o lado. Tomou um táxi até ao Terreiro do Paço e debaixo das arcadas viam-se camionetas e guardas com espingardas. Talvez temessem manifestações ou concentrações na rua, e por isso controlavam os pontos estratégicos da cidade. (...) Aqui desceu, afirma, e encontrou mais polícia. Desta vez teve de passar diante do pelotão, o que lhe provocou um ligeiro mal-estar. Ao passar ouviu um oficial dizer aos soldados: E lembrem-se rapazes que os subversivos estão sempre emboscadas, é melhor estar de olhos abertos. Pereira olhou à sua volta, como se aquele conselho lhe fosse dirigido, e não lhe pareceu que fosse preciso estar de olhos abertos. A Avenida da Liberdade estava tranquila, o quiosque dos gelados estava aberto e havia pessoas nas mesas a tomar o fresco. Seguiu num passo tranquilo pelo passeio do meio e nessa altura, afirma, começou a ouvir música. Era uma música suave e melancólica, de guitarras de Coimbra, e achou estranha aquela combinação de música e polícia. Pensou que vinha da Praça da Alegria e realmente assim era, pois à medida que se aproximava a música aumentava de intensidade. 
Não parecia nada uma praça de uma cidade em estado de sítio, afirma Pereira, pois não se viam polícias, ou antes, viu apenas um guarda-nocturno que lhe pareceu ébrio e que dormitava num banco. A praça estava enfeitada com grinaldas de papel, com lâmpadas coloridas amarelas e verdes que pendiam de fios estendidos de uma janelas para outras. Havia umas quantas mesas ao ar livre e alguns pares dançavam. Reparou então numa larga tira de pano esticada entre duas árvores da praça com uma enorme inscrição: Viva Francisco Franco. E por baixo, em letras mais pequenas: Vivam os militares portugueses em Espanha. 
Afirma Pereira que só nesse momento compreendeu que se tratava de uma festa salazarista, e por isso não precisava de ser vigiada pela polícia. Mas só então reparou que muitas pessoas vestiam a camisa verde e traziam um lenço ao pescoço. Deteve-se apavorado, e num segundo pensou em várias coisas diferentes. Pensou que talvez Monteiro Rossi fosse um deles, pensou no carroceiro alentejano que tinha manchado de sangue os seus melões, pensou no que diria o Padre António se o visse naquele sítio. Pensou em tudo isto e sentou-se no banco onde o guarda-nocturno dormitava, e deixou-se embalar pelos seus pensamentos."