junho 13, 2024

O Outono em Pequim - Boris Vian

Título original: L'Automne a Pékin
Ano da edição original: 1947
Autor: Boris Vian
Tradução: Luiza Neto Jorge
Editora: Editora Ulisseia (Edições de Bolso)

"O romance O Outono em Pequim é de 1947, o mesmo ano em que Vian escreveu A Espuma dos Dias. Publicado pela primeira vez nas Éditions du Scorpion, o livro contém elementos surrealistas. A Pequim que surge no título não é literal. Os protagonistas têm em comum dirigirem-se a um deserto imaginário chamado Exopotâmia, onde está em construção uma estação de comboios.
A narrativa começa com as peripécias de Amadis Dudu, que, não tendo conseguido apanhar o autocarro para ir trabalhar, acaba a bordo do 975, que o leva a esse deserto. Esse acaso revela-se frutuoso para Amadis. O Outono em Pequim é uma narrativa de desilusão do mundo adulto, construído sobre o absurdo da sociedade industrial. Mas é também, tal como A Espuma dos Dias, uma história de amor sem esperança.
O narrador detém por vezes deliberadamente o desenrolar da história para comentar o que se está a passar. E é esse seu olhar irónico que evidencia os aspectos absurdos do romance." 

Em O Outono em Pequim, temos um grupo de pessoas, que acabam pelos mais diversos motivos, no deserto da Exopotâmia, envolvidos num projeto de construção de uma linha férrea.
 
Ângelo, Ana e Rochela vão lá parar porque atropelam o engenheiro que estava contratado para o projeto e, naturalmente alguém tem de o substituir e só poderiam ser eles. Ângelo e Ana são amigos. Ângelo é apaixonado por Rochela mas esta é a namorada do amigo Ana. 

Amadis Dudu é um simples funcionário de escritório que se levanta todos os dias para ir trabalhar, até que um dia não consegue apanhar o autocarro para o escritório onde trabalha. Acaba por apanhar o 975 que o deixa no deserto. No deserto acaba por ser nomeado diretor e responsável pela construção da linha e transforma-se numa espécie de tirano.

O doutor Manjamanga e um interno vão parar ao deserto porque o engenheiro que foi atropelado dá entrada no hospital onde trabalham e, enfim, porque não haveriam de ir? Para além disso, o deserto é o sítio ideal para o doutor Manjamanga testar um novo avião de aeromodelismo, com um novo motor italiano que não é a combustão e que é super potente. O aeromodelismo é a verdadeira paixão do doutor.

No deserto encontram um restaurante-pensão gerido pelo Barrizana e uma exploração arqueológica cujo responsável, Atanágoras parece ser o mais racional de todos os que se juntam no deserto.

Temos também um auto denominado padre, três irmãos mineiros e um eremita, condenado a ser eremita no deserto da Exopotâmia, por ter morto um ciclista.
 
Para além disto tudo, convém deixar claro que a linha férrea não terá qualquer utilidade porque não vai ligar nenhuma localidade a outra, mas tem de ser construída e todos trabalham para que isso aconteça. :) 

Há nos livros de Boris Vian, que já li (opinião sobre A Espuma dos Dias aqui), alguma coisa que ressoa em mim. Não sei explicar porquê mas, todo o absurdo e a toda a irrealidade, têm a capacidade de me prender e divirto-me a ler. Gosto dos ambientes que cria, dos diálogos, da espécie de história que se vai desvendando e gosto das personagens, gosto muito das personagens e das dinâmicas entre elas.

Não será uma leitura para todos. Eu própria não sei muito bem porque gosto mas, não posso deixar de recomendar. É daquele tipo de escritor que só lendo e por isso força, avancem sem medos. ;) 

Boas leituras! 

Excerto (pág. 84):
"Não muito distante havia um metro boquiaberto, atraindo grupos de imprudentes para dentro da goela negra. De tempos a tempos produzia-se o movimento inverso e ele lá vomitava, muito a custo, um molho de indivíduos pálidos e enfezados, com o fato a cheirar às entranhas do monstro, que fediam.
Rochela virava a cabeça de um lado para o outro à procura de um táxi, porque só a ideia do metro a assustava. À sua vista foram tragadas, com um ruído de sucção, cinco pessoas, três delas do campo, pois traziam cabazes com gansos dentro, e ela não teve outro remédio senão ficar de olhos baixos, primeiro que se recompusesse. Não havia um único táxi nas imediações. A vaga de automóveis e autocarros que desciam a rua inclinada causava-lhe uma vertigem movediça. O irmãozinho é que surgiu no momento preciso em que, já sem forças para mais, ia deixar-se tragar pelo insidioso tapete rolante, e conseguiu retê-la, agarrando-a pela ponta do vestido, gesto este que desvendou as encantadoras coxas de Rochela. Houve homens que caíram desmaiados, Rochela subiu o degrau fatal e beijou o maninho, para lhe agradecer. Felizmente que o corpo de uma das pessoas que se sentira mal veio cair precisamente diante das rodas de um táxi livre, o que fez empalidecer os pneus e, por conseguinte, parar o carro."

junho 05, 2024

Tanta Gente, Mariana / As Palavras Poupadas - Obras Completas vol. 1 - Maria Judite de Carvalho

Título: Tanta Gente, Mariana / As Palavras Poupadas
Ano da edição original: 1959 / 1961
Autor: Maria Judite de Carvalho
Editora: Minotauro

"A presente coleção reúne a obra completa de Maria Judite de Carvalho, considerada uma das escritoras mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Herdeira do existencialismo e do nouveau roman, a sua voz é intemporal, tratando com mestria e um sentido de humor único temas fundamentais, como a solidão da vida na cidade e a angústia e o desespero espelhados no seu quotidiano anónimo.

Observadora exímia, as suas personagens convivem com o ritmo fervilhante de uma vida avassalada por multidões, permanecendo reclusas em si mesmas, separadas por um monólogo da alma infinito.

Este primeiro volume inclui as duas primeiras coletâneas de contos de Maria Judite de Carvalho: Tanta Gente, Mariana (1959) e As Palavras Poupadas (1961), Prémio Camilo Castelo Branco."

Primeiro contacto com a escrita de Maria Judite de Carvalho e sinto que já deveria ter sido exposta a ela há muito mais tempo. 
Gostei de tudo. Gosto da escrita, da forma leve e irónica como nos transporta para dentro das vidas das mulheres, essencialmente mulheres, que habitam as suas histórias.

São mulheres sozinhas, por vezes sós, solteiras ou viúvas, na meia idade, que suponho seja, para a altura em que foram escritas, uns quarenta anos e cujos pensamentos, angustias e reflexões sobre as suas vidas e sobre o que as rodeia vamos conhecendo de forma muito natural. Impressiona que sejam, à primeira vista histórias sobre nada, onde nada acontece mas, que sejam afinal de conta histórias profundas sobre o ser humano, sobre a mulher, sobre o amor e sobre a vida.

Recomendo sem qualquer hesitação. Desconfio de escritores ou obras que são consensuais e das quais todos gostam mas, na verdade, não sei o que levaria alguém a não gostar de Maria Judite de Carvalho.

Além disso as edições da Minotauro têm uma qualidade extraordinária e com capas lindíssimas. Dá vontade de andar com eles para todo o lado. :)

Boas leituras!

Fica também o link para um documentário que passou na RTP e que continua disponível na RTP Play - A Vida é Um Autocarro Vazio - sobre a vida e obra de Maria Judite de Carvalho. Não deixem de ver.

Excerto (pág. 34)
"Não quero deixar nada atrás de mim. Levei hoje a tarde a rasgar papéis. Entre eles achei o meu retrato de braços pendentes, encostada a uma árvore... Porque o guardei? Não sei, já não me lembro. Pu-lo em cima da cómoda, sabe-me bem olhar para ele.
Tantos papéis, tantas folhas que tenho escrito! Diários, cartas que não seguiram o seu destino porque afinal, pensando bem, não valia a pena mandá-las... Papéis bordados a letra miúda que eu desconheço. Mais firme, mais igual, mais redonda. A minha letra de agora engelhou e amoleceu com a minha cara e as minhas mãos, com o meu próprio corpo de seios flácidos, de carne desbotada e só.
O cesto está cheio da minha vida. Pedaços rasgados, fragmentos, frases que alguém me dirigiu e eu já mão me recordo de ter ouvido, palavras que eu disse a alguém e já esqueci. Tudo tão baralhado como as minhas recordações. Postais do Luís Gonzaga com selos de Itália e vistas de catedrais. Palavras de um desconhecido dirigidas a alguém que já não sou eu. O tempo tem estado muito agradável... Roma que é uma maravilha... e a terminar muitos desejos de felicidades. Já nem rir me sinto capaz."

                                                                                                                        "Tanta Gente, Mariana"


Excerto (Pág. 190)
"Libertei-me do círculo magnético e pus-me a subir a rua. Não fui dar aulas, não podia. Voltei para a minha casa sem calor, onde nada me esperava. Uma casa vazia, sem objetos de mau gosto, sem sentimentos de mau gosto. E pensei muito nela.
«Talvez fizesse alguma coisa louca...» Que pensarão os homens que a vão julgar? Uma mulher velha e feia, que talvez se apresente no tribunal vestida de verde e amarelo,  a matar por amor... Se não é repugnante! E ridículo, acima de tudo. Mas eles os dois, creio que já o disse, nunca tinham tido a noção do ridículo."

                                                                                                                        "Uma História de Amor"

maio 31, 2024

O Hotel New Hampshire - John Irving

Título original: The Hotel New Hampshire
Ano da edição original: 1981
Autor: John Irving
Tradução: Ana Falcão Bastos
Editora: Distri Editora - Círculo de Leitores

"Um romance imaginativo, original e encantador. 
No centro da história está uma família, uma família muito especial, extraordinária: um pai sonhador, sem qualquer espírito prático; uma mãe meiga e carinhosa; três rapazes e duas raparigas, quatro dos quais veremos crescer e o outro que, juntamente com um dos progenitores, morrerá novo, de maneira trágica."

O Hotel New Hampshire acompanha a vida dos Berry, o pai Winslow, a mãe Mary Bates e os cinco filhos, Frank, Franny, John, Lilly e Egg. E a vida deles passa por New Hampshire, pelo Maine, pela Áustria e por Nova Iorque. 

Como é habitual nas histórias de John Irving, tem ursos, prostitutas vienenses, comunistas e artistas de circo e anões. Tem personagens complexas, sexualidades complicadas e acontecimentos que não nos deixam indiferentes. 
Fala de violação, de incesto, de morte, de fatalidades e de sonhos. Mas, acima de tudo, O Hotel New Hampshire é sobre o amor e sobre lealdade. O amor que nos liga, de forma por vezes irracional, à nossa família, em particular aos nossos irmãos. Quem tem irmãos conseguirá perceber que o amor que nos une aos nossos irmãos é incondicional. Com esquisitices e defeitos incluídos. São as pessoas que sempre estiveram lá e que sempre estarão, mesmo quando não estão. E os irmãos Berry não são diferentes, são apenas mais estranhos que o comum dos mortais. 

Dentro de toda a típica estranheza nos livros de Irving, este é talvez o mais estranho que já li. A história é absurda. Talvez a maior parte do tempo seja mesmo absurda e inverosímil. Mas é divertida e é difícil parar de ler. 

Gostei porque dificilmente não gosto de Irving mas, sinto que não devia gostar, principalmente pela excessivas referências sexuais, que incomodam e são confrangedoras por envolver adolescentes. 

Talvez não seja o melhor livro para primeira leitura de Irving mas, para quem conhece o escritor o livro é incontornável. 

Recomendo a quem já leu Irving. 

Boas leituras. 

Excerto (pág. 165):
"Recordo-me que sobre as nossas cabeças pairava algo mais pronunciado do que a habitual mistura de patetice e tristeza, como se, de quando em quando, tivéssemos consciência de quase não nos lembrarmos da morte do Iowa Bob - e, noutros momentos, consciência de que a nossa maior responsabilidade (não apesar da morte do Iowa Bob, mas por causa dele) era divertimo-nos. Foi talvez o nosso primeiro teste de uma máxima que havia sido transmitida ao meu pai pelo próprio Iowa Bob; era uma máxima que o Pai nos repetia vezes sem conta. Era-nos tão familiar que nem sonhávamos comportar-nos como se não acreditássemos nela, embora provavelmente nunca tivéssemos sabido - até muito mais tarde - se aceditávanos ou não. 
A máxima estava ligada à teoria do Iwoa Bob de que estávamos todos num grande barco - num grande cruzeiro à volta do mundo. E apesar do perigo de sermos varridos pela tempestade a qualquer momento, ou talvez devido a esse mesmo perigo, não nos era permitido sentirmo-nos deprimidos ou infelizes. O modo como o mundo funcionava não justificava qualquer tipo de distanciamento cénico ou de desespero imaturo. Segundo o meu pai e o Iowa Bob, o modo como o mundo funcionava - e funcionava mal - era justamente um forte incentivo para se viver com determinação e para ter por objetivo saber viver."

Existe um filme, de 1984, baseado no livro - The Hotel New Hampshire, com uns novíssimos Jodie Foster e Rob Lowe

 

A Mulher Comestível - Margaret Atwood

Título original: The Edible Woman
Ano da edição original: 1969
Autor: Margaret Atwood
Tradução: Paulo Moreira
Editora: Edições Livros do Brasil

"Marian é uma mulher deliberadamente vulgar, que espera casar-se mais dia menos dia. Gosta do seu trabalho, da amiga quase ninfomaníaca com quem partilha o apartamento, do seu noivo excessivamente fleumático. Ao princípio tudo parece correr bem. Mas Marian não contou consigo mesma, com aquilo que é na realidade: uma mulher que deseja um pouco mais do que aquilo que tem, que inconscientemente vai sabotando os seus próprios planos, a sua rotina, a sua digestão. E Marian descobre, por fim, que há coisas que não suporta.
A Mulher Comestível foi publicado em 1969, coincidentemente com a ascensão do feminismo na América do Norte. Muita gente pensou de imediato que o livro era, pois, um produto desse movimento. Ora o romance fora escrito, na verdade, quatro anos antes. Como diz a própria autora: «Eu encaro o livro mais como protofeminista do que como feminista, Não existia qualquer movimento feminista quando o escrevi, em 1965, e eu não tenho o dom da clarividência apesar de, a exemplo de muitas mulheres dessa época, ler Betty Friedan e Simone de Beauvoir à porta fechada. Vale a pena realçar que as opções da minha heroína se mantêm praticamente inalteradas ao longo de todo o livro: ou uma carreira que não conduz a parte alguma, ou um casamento para escapar à carreira. Mas estas eram as opções de qualquer jovem, ainda que instruída, no Canadá dos anos 60. E seria aliás um erro acreditar que as coisas mudaram verdadeiramente.»"

A Mulher Comestível foi o primeiro livro que Margaret Atwood publicou. Foi escrito nos anos 60 e foi publicado durante os anos 70.

Marian é uma jovem mulher que trabalha numa empresa de inquéritos, partilha casa com Ainsley e namora Peter, um advogado júnior.
Marian, tirou um curso superior, não gosta particularmente do trabalho que faz e não se identifica com as colegas de trabalho. 

Conhece e namora Peter há algum tempo e Peter é uma espécie de Peter Pan, não quer casar tão cedo, quer continuar a viver a vida de um jovem sem responsabilidades e sem compromissos. Gosta de Marian porque acha que ela o compreende e é sensivel às suas necessidades. 
Marian parece conviver bem com esta espécie de acordo entre os dois. Não sabe se quer casar, ou se o quer fazer com Peter. Por outro lado, sente que gostaria que ele o quisesse.

Na verdade Marian não sabe muito bem quem é e o que quer para ela. Não se sente enquadrada com o que esperam dela, como mulher mas, ao mesmo tempo também não sabe o que fazer senão o que esperam dela: casar, deixar de trabalhar, ter filhos e cuidar da casa e do marido. Que alternativa tem?

Por outro lado Ainsley a amiga com que partilha casa, é aparentemente mais moderna, não quer casar mas quer ter um filho porque acha que a maternidade é o ponto alto da feminilidade. Inicia, por isso, uma busca incessante do pai ideal para o seu futuro bebé. Vale tudo para conseguir um progenitor que seja bonito, inteligente e saudável. 

Os dias vão passando sem grandes sobressaltos até que Marian conhece Duncan um rapaz estranho que a intriga e desafia. Não percebe porquê mas acaba sempre por gravitar para ele. Na mesma altura, Peter lá se decide que está na altura de dar o passo seguinte e pede Marian em casamento, numa noite de grande confusão e de desorientação para Marian. Esta aceita. Que outra resposta possível poderia existir?

A partir dessa altura algo muda em Marian. Começa de forma gradual a rejeitar todo o tipo de alimentos. É incapaz de comer carne ou peixe porque sente que está a matar os animais. Acaba por deixar de comer até os vegetais porque começa a olhar para eles como seres vivos capazes de sentir dor.

Nada disto a faz parar para pensar no que se passa com ela. Não relaciona o seu distúrbio alimentar com estes novos acontecimentos na sua vida, no entanto, Marian parece estar, de forma inconsciente a gritar por ajuda. Quer mesmo casar com Peter? Quer ter filhos e deixar de trabalhar? O que significa Duncan na meio de toda a confusão em que se transformou a sua vida, até então, previsível?

A Mulher Comestível é um livro muito bem conseguido e divertido  que fala sobre o papel da mulher na sociedade e no quão pernicioso pode ser contrariarmos constantemente aquilo que somos, a nossa verdadeira essência.

Gostei muito, como tem sido habitual, Margaret Atwood não desilude, nem com o seu primeiro livro. :)

Recomendo sem qualquer hesitação. 

Boas leituras. 


Excerto (pág. 88):
"Queria que Peter se voltasse para mim e falasse comigo, queria ouvir a sua voz normal, mas ele não o fez; estudei os reflexos dos meus três companheiros no tampo preto da mesa, à medida que eles se moviam no que parecia uma espécie de piscina localizada por baixo do mesmo; exceção feita aos olhos de Ainsley, gentilmente pousados no seu copo, só via queixos. Passado algum tempo, notei com ligeira curiosidade que uma enorme gota de qualquer coisa molhada se tinha materializado perto da minha mão. Tacteei-a com a ponta do dedo e brinquei um pouco com ela antes de perceber, horrorizada, que se tratava de uma lágrima. Sendo assim, eu devia estar a chorar! Dentro de mim, algo se transformou num labirinto de trémulo pânico, como se tivesse engolido um enorme sapo. Estava prestes a soçobrar e a fazer uma cena, mas não podia.
Deslizei para fora da cadeira, tentando parecer o mais natural possível, atravessei a sala tendo todo o cuidado para evitar as outras mesas e dirigi-me para a casa de banho das senhoras. Certifiquei-me de que não estava lá mais ninguém - não podia ter testemunhas -, tranquei-me num dos pequenos cubículos cor-de-rosa e chorei durante vários minutos. Não conseguia perceber o que me estava a acontecer e porque estava a chorar daquela maneira; nunca me tinha acontecido nada assim e parecia-me tudo o mais completo absurdo.
 - Vê se te controlas - murmurei. - Não faças figuras parvas.
Indefeso, branco e macio, o rolo de papel higiénico era a minha única companhia, que esperava pacientemente pelo seu próprio fim. Arranquei-lhe algumas folhas e assoei o nariz."

março 29, 2024

A Louca da Casa - Rosa Montero

Título original: 
La Loca de la Casa
Ano da edição original: 2003
Autor: Rosa Montero
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

"Um romance? Um ensaio? Uma autobiografia? A Louca Da Casa é, em qualquer dos casos, a obra mais pessoal de Rosa Montero: uma viagem através do misterioso universo da fantasia, da criação artística e das recordações mais secretas da própria autora, que neste livro empreende uma viagem ao mais profundo do seu ser através de um jogo narrativo pleno de surpresas, onde literatura e vida se misturam num cocktail afrodisíaco de biografias alheias e de autobiografia romanceada. E assim descobrimos, por exemplo, que Goethe adulava os poderosos, que Tolstoi era um energúmero, que Rosa, ela própria, em criança, se julgava anã, e que, com vinte e três anos, manteve um extravagante e arrebatador romance com um ator famoso. Todavia, não devemos fiar-nos por completo em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as recordações não são sempre o parecem."

A Louca da Casa é um livro sobre escritores e sobre o processo da escrita, a imaginação e a criatividade mas, acima de tudo, fala sobre a loucura e as perturbações mentais que, muitas vezes, convivem com a genialidade dos grandes escritores. É um livro pequeno, mas está cheio de histórias e de curiosidades sobre alguns escritores bem nossos conhecidos, como Herman Melville ou Rudyard Kipling.

Rosa Montero, ao mesmo tempo que parece ensaiar uma autobiografia, envolve-nos, de forma ardilosa, em factos e em histórias verdadeiras sobre outros escritores e, no que lhe diz respeito a ela, estamos até ao fim, na dúvida sobre a veracidade do que conta sobre si própria.

Gosto da escrita de Rosa Montero. É limpa, clara, despretensiosa e bem-humorada. Não perde muito tempo com frivolidades, sem deixar de, no entanto, nos fazer sentir próximos dela e do que conta.
Acho curioso que nenhum dos livros que já li dela sejam estereotipados, ela parece conseguir escrever sobre qualquer coisa, qualquer tema, sendo que, a única constante é a qualidade.  

Gostei muito e recomendo sem qualquer reservas. Rosa Montero é uma escritora a não perder. Se nunca leram, experimentem, sem medos.

Excerto (pág. 26)
"Os romancistas, escrevedores incontinentes, disparam sem cessar palavras contra a morte, como arqueiros empoleirados nas ameias de um castelo em ruínas. Mas o tempo é um dragão de pele impenetrável que tudo devora. Ninguém se lembrará da maior parte de nós dentro de alguns séculos, para todos os efeitos será como se nunca tivéssemos existido. O esquecimento total de quem nos precedeu é um manto pesado, é a derrota com que nascemos e em direção à qual nos dirigimos. É o nosso pecado original."

março 26, 2024

[Ebook] Gente Ansiosa - Fredrik Backman

Título original: Folk Med Angest
Ano da edição original: 2019
Autor: Fredrik Backman
Tradução: Elsa T. S. Vieira
Editora: Porto Editora (ISBN: 978-972-0-67364-0)

"Visitar um apartamento que está à venda não costuma redundar numa situação de perigo. A menos que seja antevéspera de Ano Novo, e um ladrão inexperiente tenha decidido assaltar um banco onde não há dinheiro. Quando assim é, torna-se inevitável que não haja sequer um plano de fuga, e se acabe com uma data de reféns acidentais.
Felizmente, podemos confiar na pronta intervenção das autoridades. A menos que os dois polícias responsáveis pelo caso não se entendam nem saibam o que fazer.
Ainda assim, acreditamos que tudo correrá bem, em particular se os reféns permanecerem calmos. A menos que sejam os reféns mais idiotas de todos os tempos: uma analista bancária com ideias suicidas, uma adorável velhinha com motivações pouco transparentes, um casal reformado com uma paixão enorme pelo IKEA, duas recém-casadas, prestes a serem mães, que andam sempre às turras, uma agente imobiliária com entusiasmo a mais e talento a menos, e uma pessoa vestida de coelho.
Com um sentido de humor excecional, que cativou milhões de leitores em todo o mundo, e personagens tão imperfeitas quanto tocantes, Fredrik Backman volta a surpreender com esta história sobre gente idiota e ansiosa e os laços invisíveis que (n)os unem."

De regresso a Fredrik Backman e às suas personagens estranhas, inadaptadas e inesquecíveis. É o regresso às histórias reais e ao mesmo tempo tão fora do normal que me fazem sentir, sempre um pouco estranha. :)

Gente Ansiosa, como o título acaba por indicar, fala sobre ansiedade.
Ansiedade por sermos adultos, por termos  responsabilidades e sentirmos que deveríamos saber todas as respostas para todas as perguntas. 
Ansiedade porque vivemos com culpa. Culpa porque as nossas ações, mais ou menos inconscientes, provocam reações nos outros, reações essas, que nem sempre são as que esperávamos.
Ansiedade porque queremos ajudar a pessoa que está ao nosso lado, que sempre esteve ao nosso lado, e não sabemos como fazê-lo sem que o outro se sinta diminuído.
Ansiedade porque um pai não sabe como falar com o filho e o filho não sabe como lidar com o pai. Ansiedade porque nem um nem o outro sabem como avançar depois da morte da pessoa que os mantinha unidos.
Ansiedade porque o mundo, por vezes, parece avançar a uma velocidade vertiginosa e temos medo de não conseguir acompanhar e de perdermos o comboio.
Ansiedade porque a vida é difícil e a relação com os outros é complexa e nem todos viemos equipados com as mesmas ferramentas. Viemos de sítios diferentes, vivemos coisas diferentes, fomos moldados por muitas mãos diferentes.
Ansiedades que, no limite, podem levar ao suicídio.

Tudo isto numa história que começa com uma tentativa de assalto a um banco, que não corre como o esperado e, com um grupo de pessoas presas num apartamento à venda e, que não se conhecem de lado nenhum.
Estão lançados os dados para mais uma viagem desconcertante, intrigante, divertida, angustiante mas, acima de tudo, uma viagem onde ninguém está sozinho. Aos livros de Fredrik Backman não se aplica o ditado ou expressão: "Quando pensas que bateste no fundo descobres que existe uma cave" , porque, nas histórias de Fredrik Backman, quando se pensa que bateram no fundo, descobrem que estão rodeados de gente boa e, juntos encontram uma pequena janela por onde podem sair e começar a subir.

Embora estranhe sempre a escrita simples e o sentido de humor quase infantil de Fredrik Backman, a verdade é que acabo sempre por gostar muito das histórias dele e da forma como consegue que as personagens que cria sejam tão vivas e reais e irreais ao mesmo tempo.
 
Confesso que tenho partido para os livros dele com esperança de encontrar neles Ove ou o encanto que encontrei em Um Homem Chamado Ove
Ainda não foi desta que Ove foi destronado mas, foi uma boa leitura, com personagens cativantes e uma história bonita com a qual, cada um de nós, facilmente se consegue relacionar.

Recomendo sem qualquer hesitação. 

Boas leituras!

Excerto:
"Esta história é sobre muitas coisas, mas acima de tudo é sobre idiotas. Assim, é preciso dizer desde já que é sempre muito fácil declarar que os outros são idiotas, mas apenas se esquecermos como é difícil sermos humanos. Em particular se tivermos alguém por quem tentamos ser humanos razoavelmente bons.
Porque, hoje em dia, é preciso lidar com uma quantidade inacreditável de coisas. Temos de ter um emprego, um sítio para viver e uma família, e temos de pagar impostos e ter roupa interior lavada e saber de cor o raio éa password do Wi-Fi. Alguns de nós nunca conseguem controlar o caos por completo, por isso as nossas vidas vão simplesmente andando, e o mundo vai girando pelo espaço, a milhões de quilómetros por hora, enquanto saltitamos na sua superfície como peúgas perdidas."

março 10, 2024

O Acontecimento - Annie Ernaux

Título original: 
L'événement
Ano da edição original: 2000
Autor: Annie Ernaux
Tradução: Maria Etelvina Santos
Editora: Livros do Brasil

"Uma jovem de 23 anos, estudante universitária brilhante, descobre que está grávida. Tomada pela vergonha, consciente de que aquela gravidez representará um falhanço social para si e para a sua família, sabe que não poderá ter aquela criança. Mas, na França de 1963, o aborto é ilegal e não existe ninguém a quem possa acorrer. Quarenta anos mais tarde, as memórias daquele acontecimento continuam presentes, num trauma impossível de ultrapassar e cujas sombras se estendem para além da história individual. Escrito com uma clareza acutilante, sem artifícios, este é um romance poderoso sobre sofrimento, justiça e a condição feminina. Escrito por Annie Ernaux em 1999, foi adaptado ao cinema em 2021 por Audrey Diwan, num filme vencedor do Leão de Ouro em Veneza. "

Primeira incursão pela, recentemente, Nobelizada Annie Ernaux e, sem grandes expectativas, confesso.
 
O Acontecimento é um livro duro, onde é relatada a saga dantesca, levada a cabo por uma jovem de 23 anos que, perante a confirmação de uma gravidez não planeada e não desejada, encontra todo o tipo de obstáculos que a impedem de fazer um aborto seguro.
Estamos em 1963, em França e, todos à sua volta encolhem os ombros, os médicos, todos homens, não a ajudam, talvez por medo de represálias, mas também porque acham que é dever das mulheres arcarem com essa responsabilidade. Os colegas e amigos também não lhe estendem a mão e não a acompanham nesta jornada.
Ela, envergonhada pelo que lhe aconteceu, não conta aos pais que está grávida e desespera por tirar de dentro dela algo que não deseja, que vê como sendo um acontecimento que será um retrocesso na sua vida.
Sozinha, em busca de uma solução, bate a todas a portas de que se lembra e, naturalmente, acaba por encontrar uma saída, igual à de tantas outras mulheres que se viram, e vêm, obrigadas a fazê-lo de forma clandestina e pouco segura.

Tinha de ser assim? Hoje, mas também em 1963, sabemos que não, não tinha de ser assim. Hoje em alguns sítios do mundo já não tem de ser assim mas, na maioria do países, a mulher tem de carregar sozinha as consequências da decisão de querer fazer um aborto, seja porque motivo for, correndo todo o tipo de riscos, de saúde e legais.

As liberdades e direitos de todos nós nunca estão garantidos, acho que nos vamos apercebendo cada vez mais disso e, num mundo que parece estar cada vez mais saudosista de tempos cinzentos e bolorentos, os direitos das mulheres serão os primeiros a ser revisitados. Não tenho qualquer dúvida disso. Por isso, no que estiver ao nosso alcance, vamos todos contribuir para uma sociedade mais empática e justa. Pode ser? 

Sobre o livro, :) não tenho a certeza se gostei da escrita ou da forma como relata os acontecimentos. É muito direta e muito assertiva e como o tema é difícil, parece que lhe falta sensibilidade. Mas, por outro lado pode ser que a ideia seja mesmo essa. Há, ainda, uma repulsa natural pelo que é relatado e que me deixou de certa forma desconfortável.
Posto isto, acho que gostei mas ao mesmo tempo não gostei. Vou ter de ler mais livros dela. Tenho a sensação de que é uma daquelas que primeiro se estranha e depois se entranha. 

Recomendo. 

Boas leituras. 

Excerto (pág. 33)
"As raparigas como eu estragavam os dias aos médicos. Sem dinheiro e sem contactos - de outro modo não iriam, às cegas, desembocar neles -, elas traziam-lhes à memória a lei que os poderia mandar para a prisão e proibi-los de exercer para o resto da vida. Não ousavam dizer a verdade, essa de que não iriam arriscar perder tudo em nome dos belos olhos de uma rapariguinha estúpida ao ponto de ser deixar engravidar. A não ser que, sinceramente, preferissem morrer a infringir uma lei que deixava morrer as mulheres. Mas todos deveriam pensar que, ainda que as impedissem de abortar, elas acabariam por arranjar maneira de o fazer. Em face de uma carreira destruída, uma agulha de tricô na vagina não significava grande coisa. "