julho 01, 2021

[Kindle] Um Homem Chamado Ove - Fredrik Backman

Título: 
En man som heter Ove
Autor: Fredrik Backman
Ano da edição original: 2012
Tradução: Alberto Gomes
Editora: Editorial Presença

"À primeira vista, Ove é o homem mais rabugento do mundo. Sempre foi assim, mas piorou desde a morte da mulher, que ele adorava. Agora que foi despedido, Ove decide suicidar-se. Mal sabe ele as peripécias em que se vai meter. Um jovem casal recém-chegado destrói-lhe a caixa de correio, o seu amigo mais antigo está prestes a ser internado a contragosto num lar, e um gato vadio dá-se a conhecer.

Ove vê-se obrigado a adiar o fim para ajudar a resolver, muito contrariado, uma série de pequenas e grandes crises. Este livro simultaneamente hilariante e encantador fala-nos de amizades inesperadas e do impacto profundo que podemos ter na vida dos outros."

Começo por dizer que esta é uma história muito bonita, simples e de certa forma, normal. Não acho, no entanto, que seja banal.

Tive alguma dificuldade em classificar este livro porque não lhe reconheço grandes rasgos de originalidade, nem na escrita, nem na história em si.
Não partilho do sentido de humor, algo infantil, de Fredrik Backman, e achei grande parte do que se passava absurdo e pouco credível. No entanto, não fui capaz de lhe dar menos de 4 estrelas no Goodreads. 

Há qualquer coisa em Ove e na história deste homem que nos faz sorrir e nos deixa de coração apertado, sem que haja um apelo desavergonhado ao sentimentalismo, nem nada que se pareça. O facto de ter mexido comigo e de eu ter conseguido criar empatia com Ove e com todos os seus vizinhos, acabou por fazer toda a diferença. 
Não existem assim tantos livros que nos façam sentir tudo isto, sem se tornarem pedantes. E por vezes é o que basta: um livro simples, com uma história que nos faz sorrir, sobre pessoas comuns (ou nem por isso) e que acrescentam qualquer coisa ao nosso mundo. Personagens e histórias que, de alguma forma, nos enriquecem. 

Gostei e recomendo. É um livro que nos deixa com a alma um bocadinho mais cheia. Além disso, adoro histórias de amor como a de Ove e Sonja. Fascina-me o amor na terceira idade. :) Velhinhos apaixonados, de mãos dadas e sorriso no rosto. Acho que é das coisas mais bonitas que existe. :)

Boas leituras!

Excerto:
"No dia seguinte, foi aos escritórios dos caminhos de ferro devolver o salário do pai relativo ao resto do mês. Ao constatar que as senhoras da contabilidade não estavam a compreender, Ove explicou-lhes com impaciência que o pai tinha morrido no dia dezasseis e que, obviamente, não poderia trabalhar os restantes catorze dias desse mês. E como o pai recebia o salário antecipadamente, Ove viera devolver a diferença. 
Perplexas, as senhoras da contabilidade pediram-lhe que se sentasse e aguardasse. 
Cerca de um quarto de hora depois, o diretor apareceu e olhou para aquele estranho rapaz de dezasseis anos sentado numa cadeira de madeira no corredor e segurando na mão o envelope com o salário do falecido pai. O diretor sabia muito bem quem era o rapaz. E depois de se ter convencido de que não havia maneira de persuadir o jovem a ficar com aquele dinheiro que sentia não ser seu por direito, o diretor não viu outra alternativa senão propor-lhe que trabalhasse o resto do mês para ter direito a ele. Ove achou a proposta razoável e notificou a secretaria da sua escola de que estaria ausente durante as duas semanas seguintes. Nunca mais lá voltou. 
Trabalhou cinco anos nos caminhos de ferro.  Certa manhã, embarcou num comboio - e foi aí que a viu pela primeira vez. Foi a primeira vez que riu desde a morte do pai.
E a sua vida nunca mais foi a mesma.
As pessoas diziam que Ove via o mundo a preto-e-branco. Mas ela era cor. Toda a cor que ele tinha."

junho 27, 2021

[Kindle] Oryx and Crake - Margaret Atwood

Título original: 
Oryx and Crake
Ano da edição original: 2003
Autor: Margaret Atwood
Editora: Anchor Books (Ebook ISBN: 9781400078981)

"Pigs might not fly but they are strangely altered. So, for that matter, are wolves and racoons. A man, once named Jimmy, lives in a tree, wrapped in old bedsheets, now calls himself Snowman. The voice of Oryx, the woman he loved, teasingly haunts him. And the green-eyed Children of Crake are, for some reason, his responsibility."

Margaret Atwood tem sido uma das melhores descobertas dos últimos tempos. A capacidade que tem de imaginar um futuro, onde nos coloca enquanto espécie humana, em situações limite e, onde tudo nos parece credível, é muito difícil de fazer e ela faz isso muito bem.
Leva-nos a acreditar que tudo pode, de facto, vir a acontecer como ela descreve. É assustador e fascinante ao mesmo tempo. 

Em Oryx and Crake a autora leva-nos a um tempo onde a humanidade parece ter sido extinta devido a uma praga que nos deixou a todos muito doentes. 
É nessa realidade que conhecemos Snowman, aparentemente o último Homem na Terra. Vive no cimo de uma árvore e é adorado pelos Filhos de Crake, uns seres de olhos verdes, e que são muito parecidos com os humanos. Estes e Snowman parecem ser as últimas criaturas racionais que circulam pela face da Terra. O resto do mundo é habitado por animais, aparentemente inofensivos, mas que possuem uma espécie de inteligência quase humana que, ironia das ironias, os torna particularmente perigosos.

É Snowman, nascido Jimmy, que nos conta o que se passou para que se tenha tornado no último Homem à face da Terra.
Jimmy descreve uma sociedade bastante diferente da que conhecemos, constituída por pequenas comunidades, que mais não são que complexos empresariais detidos por grandes empresas tecnológicas, ligadas à investigação biogenética. Quem lá trabalha tem acesso a casa e escola para os filhos, não existindo qualquer necessidade de saírem do complexo. O que se passa fora das paredes destes complexos não é muito explorado, mas a ideia que se quer fazer passar é a de que, lá fora é perigoso e de que, quem vive dentro de um dos complexos é privilegiado. 

Jimmy nasceu e cresceu numa dessas bolhas protetoras, por ser filho de dois cientistas e investigadores muito respeitados. Apesar de não não poder dizer que teve uma infância feliz, reconhece que fazia parte de uma elite privilegiada. 

Tudo parecia possível naquele tempo. Um tempo em que a engenharia genética estava de tal forma avançada, que as empresas que trabalhavam na área se tornaram muito poderosas.
É possível, por exemplo, criar porcos geneticamente modificados os Pigoons, para recolha de órgãos que serão transplantados em humanos. Autênticas quintas de cultivo de órgãos humanos, onde os porcos já se parecem muito pouco com porcos e são, aos nossos olhos, autênticas aberrações. 

Crake, que Jimmy conheceu na escola, dedicou toda a sua vida e inteligência a tentar criar o ser humano perfeito. Ele acha que as hormonas, o sexo e as ligações emocionais são fraquezas no ser humano, que nos tornam mais agressivos e, por isso, devem ser inibidas.
O ser humano perfeito não questiona, só pensa em sexo para procriar, não se sente emocionalmente ligado a outros seres humanos e não acredita em Deus ou qualquer outra coisa mais espiritual. Só assim, numa forma mais primitiva, o Homem poderá ser verdadeiramente feliz.
Os Filhos de Crake são o resultado dessa investigação.

O que se passou para que Jimmy seja o último homem na Terra e se Crake tinha razão sobre a felicidade dos Homens é o que vamos descobrindo ao longo do livro. 

Gostei muito e vou querer ler os outros dois livros da trilogia - The Year of the Flood e MaddAddam.

Recomendo!

Boas leituras.

Excerto: 
"How long had it taken him to piece her together from the slivers of her he'd gathered and hoarded so carefully? There was Crake's story about her, and Jimmy's story about her as well, a more romantic version; and then there was her own story about herself, which was different from both, and not very romantic at all. 
Snowman riffles through these three stories in his head. There must once have been other versions of her: her mother's story, the story of the man who'd bought her, the story of the man who'd bought her after that, and the third man's story - the worst man of them all, the one in San Francisco, a pious bullshit artist; but Jimmy had never heard those.
Oryx was so delicate. Filigree, he would think, picturing her bones inside her small body. She had a triangular face - big eyes, a small jaw - a Hymenoptera face, a mantid face, the face of a siamese cat. Skin of the palest yellow, smooth and translucent, like old, expensive porcelain. Looking at her, you knew that a woman of such beauty, slightness, and one-time poverty must have Led a difficult life, but that this life would not have consisted in scrubbing floors.
"Did you ever scrub floors?" Jimmy asked her once.
"Floors?" She thought a minute. "We didn't have floors. When I got as far as the floors, it wasn't me scrubbing them." One thing about that early time, she said, the time without floors: the pounded-earth surfaces were swept clean every day. They were used for sitting on while eating,  and for sleeping on, so that was important.  Nobody wanted to get old food on themselves. Nobody wanted fleas."

[Kindle] O Meu Irmão - Afonso Reis Cabral

Título: O Meu Irmão
Ano da edição original: 2014
Autor: Afonso Reis Cabral
Editora: Leya

"A relação entre dois irmãos, um deles com necessidades especiais, que têm de aprender a viver juntos.
Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana.
Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.

O Meu Irmão, vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso."

O Meu Irmão é, como o título sugere, uma história sobre a relação entre dois irmãos, Miguel, com Síndrome de Down, e agora com 40 anos e o narrador, com apenas mais um ano que Miguel, professor universitário e, cujo nome, acho que nunca é referido. Os dois, afastados há muitos anos, reencontram-se, quando os pais morrem.

Foram, enquanto crianças, muito amigos. Ele lembra-se do amor que sentiam um pelo outro e da ternura que Miguel lhe despertava.
A relação entre os dois foi-se deteriorando à medida que ambos cresciam, a adolescência torno-os a ambos… adolescentes. Miguel deixou de vê-lo como o seu ídolo, e ele ressentiu-se com o facto de Miguel já não necessitar dele como dantes. Ambos se tornaram, de certa forma mais agressivos, menos pacientes e menos tolerantes.

Apesar do afastamento, quando os pais morrem e ele as irmãs têm de decidir o que será melhor para Miguel, decide que o irmão ficará à sua responsabilidade. Sente que esta é uma oportunidade para voltar ao que eram enquanto crianças, e de dar algum significado à sua própria vida, acreditando, também, que é o melhor para Miguel.

A verdade é que, talvez esteja a fazer isto mais por ele, para se sentir bem, e não tanto pelo irmão ou pela relação de ambos. A verdade é que, talvez nunca tenha efetivamente conseguido olhar para o irmão para além da Síndrome. Talvez nunca tenha olhado para ele como alguém que, com limitações naturais, tem desejos, sonhos e o direito de os perseguir e tentar concretizar. Nunca terá olhado para o Miguel como alguém que tem personalidade e, esta personalidade pode até ser, muitas vezes, uma merda, mas é um direito que lhe assiste. Não tem de ser bonzinho, obediente e sorridente o dia todo, e tem o direito de se ressentir e de não gostar de toda a gente. Tem direito às suas obsessões e às suas esquisitices.

O Meu Irmão é isto, a relação entre estes dois irmãos. O que lhes aconteceu e o que os espera daqui para a frente.

Afonso Reis Cabral conseguiu falar de Síndrome de Down numa obra de ficção, sem ser condescendente, sem ser ofensivo, tornando todas personagens muito humanas, com todos os seus defeitos e qualidades. 
Não é de todo a história triste de uma família que tem de aprender a lidar com alguém com necessidades especiais. Não é a história triste, mas também não é a história cor-de-rosa que, muitas vezes, tenho a sensação que todos nos querem fazer acreditar, quando falamos de crianças e adultos com Síndrome de Down. É um relato muito realista e muito objetivo, por vezes muito cru, e de certa forma impiedoso, como refere a sinopse.

Afonso Reis Cabral abordou o tema de uma forma que a mim me pareceu muito realista, não tornando esse o tema principal, ou o único tema do livro. Por vezes, parece que o livro é mais sobre o narrador do que sobre Miguel.

Gostei muito e acho que Afonso Reis Cabral é para manter debaixo de olho. Recomendo sem qualquer hesitação. 

Boas leituras!

Excerto: 
"Não estamos muito entusiasmados com esta vinda. Observo-lhe o jeito apreensivo de olhar a paisagem, como um bicho cada vez mais encurralado. O cheiro a eucalipto e o som de galhos a estalar nas rodas, algum azul que se revela quando os montes e as nuvens falham. Coisas assim em volta e nós no meio sem as vermos. É que há o medo de os anos se terem sentado na casa como num banco velho. Está com certeza no mesmo sítio, mas não da mesma forma, tal como as pessoas são as mesmas no tempo, mas nunca iguais.
É melhor pararmos. Travo o carro e pergunto-lhe
- Enjoo?
- Nao Nao... - responde com um sorriso..
Arranco e dou-lhe a mão porque sei que também tem os seus medos e talvez pense o que eu penso e quem sabe sinta as mesmas saudades. Com certeza sente as mesmas saudades. Somos parecidos de modos diferentes e, dadas as circunstâncias, esta parecença é surpreendente. Como o sangue nos pode juntar e afastar no mesmo movimentos."

janeiro 02, 2021

As Leis da Fronteira - Javier Cercas

Título original: Las Leyes de la Frontera
Ano da edição original: 2012 
Autor: Javier Cercas
Tradução: Helena Pitta
Editora: Assírio & Alvim

"Uma impetuosa história de amor e desamor, de enganos e violência, de lealdades e traições, de enigmas por resolver e de vinganças inesperadas.
No verão de 1978, com Espanha a sair ainda do franquismo e sem ter entrado definitivamente na democracia, quando as fronteiras sociais e morais parecem mais porosas do que nunca, um adolescente chamado Ignacio Cañas conhece por acaso Zarco e Tere, dois delinquentes da sua idade, e esse encontro mudará para sempre a sua vida. Trinta anos mais tarde, um escritor recebe o encargo de escrever um livro sobre Zarco, transformado nessa altura num mito da delinquência juvenil da Transição. O que acaba por encontrar não é a verdade concreta de Zarco, mas uma verdade imprevista e universal, que nos diz respeito a todos. Assim, através de um relato que não dá um instante de trégua, escondendo a sua extraordinária complexidade sob uma superfície transparente, o romance transforma-se numa pesquisa apaixonada sobre os limites da nossa liberdade, sobre as motivações impenetráveis dos nossos actos e sobre a natureza inapreensível da verdade. Confirma também Javier Cercas como uma das figuras indispensáveis da narrativa europeia contemporânea."

As Leis da Fronteira, transporta-nos para uma época em que as crianças andavam na rua o dia inteiro. Um tempo em que só lhes era pedido que estivessem em casa à hora de jantar e, que não se metessem em sarilhos. Uma época em que, dificilmente conseguias não te meter em sarilhos. :) 
Ignacio Cañas, é um adolescente, filho da classe média baixa espanhola e vive com os pais e a irmã mais velha. É um adolescente típico que tem feito um percurso que se pode dizer que é normal, até ao dia em que começa a ter alguns problemas na escola, com alguns dos colegas que começam a atormentá-lo. Ignacio não se sente à vontade para falar com os pais sobre isso e vai aguentando, as férias de verão aproximam-se e, brevemente, não terá de se cruzar com eles.
No entanto, com a chegada das férias, percebe que a cidade não é grande o suficiente para não se cruzar com eles e, porque se sente sozinho e sem amigos, Ignacio começa a frequentar o salão de jogos onde passa grande parte dos dias e onde acaba por fazer amizade com o dono, começando a trabalhar para ele.
É no salão de jogos que conhece Zarco, Tere e o resto do grupo, todos mais ou menos da idade de Ignacio. Ignacio fica fascinado com Tere e é ela a a principal razão que o leva a querer pertencer ao grupo de Zarco. É por causa deles que começa a frequentar o outro lado do rio, junto à zona onde reside, e onde todos os membros do grupo moram. O rio é a fronteira entre dois mundos que só se cruzam quando há problemas. Do outro lado do rio existe um bairro social onde moram os emigrantes, os pobres, os ladrões, as prostitutas. Um sítio onde proliferam os traficantes de droga e onde a polícia evita ir.

O resto é história. A história de uma Espanha pós-franquista desigual, pobre, onde muitos eram esquecidos e votados ao abandono. A história de um adolescente que quer pertencer a alguma coisa, que anseia por ser valorizado e estimado por alguém. 
Uma história de actos e consequências, de boas e más escolhas e uma história de crescimento individual e de assumir, ou não, as consequências dos nossos actos. Uma história onde nem todos têm a oportunidade de deixar tudo para trás e avançar. 
O que aconteceu naquelas férias de verão, não foi, para a maioria deles, apenas uma história para contar. Aos que vivem do lado errado da fronteira, não são dadas as mesmas oportunidades de regeneração, não têm sequer acesso às mesmas ferramentas. Nunca é uma luta igual e equilibrada. A única alternativa para essas pessoas é o crime? Claramente que não mas, para a maioria o único caminho é manterem-se, a eles e à descendência, num ciclo vicioso de maus empregos e pobreza. Era a realidade na altura, e é a realidade hoje em dia, na maioria dos países do mundo.

Zarco e os seus feitos, continuam a ser falados passados 30 anos, e é a história de Zarco que Ignacio conta, passados 30 anos ao escritor que quer escrever um livro sobre o lendário Zarco.

Este foi mais um daqueles livros que comprei porque estava em promoção e, porque gostei da capa ou do título. Tenho tido boas surpresas com escritores espanhóis e, posso dizer que foi mais um que correu bem. 
Gostei da escrita, da história, do tema e das personagens e, principalmente, gostei da envolvência, do ambiente e da vivência que Javier Cercas consegue passar para nós, enquanto leitores.

Gostei bastante e recomendo sem quaisquer reservas.

Boas leituras!

Excerto (pág. 13):

" - Diga-me quando conheceu Zarco.
- No início do Verão de 78. Aquela foi uma época estranha. É assim, pelo menos, que me recordo dela. Há três anos que Franco tinha morrido, mas o país continuava a ser governado por leis franquistas e a cheirar exatamente ao que o franquismo cheirava: a merda. Nessa altura eu tinha dezasseis anos e o Zarco também. Nessa altura vivíamos ambos muito perto e muito longe.
- O que quer dizer?
-  Você conhece a cidade?
- Por alto.
- Talvez seja melhor assim. A cidade daquela época parece-se pouco com a de agora. À sua maneira, a Girona de então era ainda uma cidade do pós-guerra, um lugarejo obscuro e clerical, acossado pelo campo e coberto de névoa no inverno; não digo que a Girona de agora seja melhor - em certo sentido é pior -: digo apenas que é diferente. Naquela época, por exemplo, a cidade estava rodeada por uma cintura de bairros onde viviam os charnegos. A palavra caiu em desuso mas, nessa altura, servia para designar os emigrantes que chegavam à Catalunha vindos do resto de Espanha, gente que, em geral, não tinha onde cair morta e que viera para cá tentar fazer pela vida... Embora você já saiba tudo isto. O que talvez não saiba é que, como lhe dizia, no fim dos anos setenta a cidade estava rodeada por bairros de charnegos: Salt, Pont Major, Germans Sàbat, Vilarroja. Era aí que a escória se aglomerava.
- O Zarco vivia aí?
- Não: o Zarco vivia com a escória da escória, nos albergues provisórios, na fronteira nordeste da cidade. E eu vivia a duzentos metros dele. A diferença é que ele vivia do lado de lá da fronteira, mesmo ao cruzar a divisória entre o parque de La Devesa e o rio Ter, e eu, do lado de cá, mesmo antes de a cruzar. A minha casa ficava na calle Caterina Albert, no que é hoje o bairro de La Devesa e que nessa altura não era nada ou quase nada, uma série de hortas e descampados onde a cidade ia morrer; aí, dez anos antes, no fim dos anos sessenta, tinham construído alguns prédios isolados onde os meus pais alugaram um apartamento."

dezembro 22, 2020

O Fim do Homem Soviético - Svetlana Aleksievitch

Título original: Время секонд хэнд
Ano da edição original: 1984 
Autor: Svetlana Aleksievitch
Tradução: António Pescada
Editora: Porto Editora

"Volvidas mais de duas décadas sobre a desagregação da URSS, que permitiu aos russos descobrir o mundo e ao mundo descobrir os russos, e após um breve período de enamoramento, o final feliz tão aguardado pela história mundial tem vindo a ser sucessivamente adiado. O mundo parece voltar ao tempo da Guerra Fria.
Enquanto no Ocidente ainda se recorda a era Gorbatchov com alguma simpatia, na Rússia há quem procure esquecer esse período e o designe por a Catástrofe Russa. E, desde então, emergiu uma nova geração de russos, que anseia pela grandiosidade de outrora, ao mesmo tempo que exalta Estaline como um grande homem.

Com uma acuidade e uma atenção únicas, Svetlana Aleksievitch reinventa neste magnífico requiem uma forma polifónica singular, dando voz a centenas de testemunhas, os humilhados e ofendidos, os desiludidos, o homem e a mulher pós-soviéticos, para assim manter viva a memória da tragédia da URSS e narrar a pequena história que está por trás de uma grande utopia."

Confesso que de início estranhei muito a forma como o livro está escrito. Não estava à espera que fosse uma espécie de manta de retalhos, cuidadosamente cosida, com as palavras das muitas pessoas entrevistadas pela autora.
No entanto, quando consegui apanhar o ritmo certo, o livro acabou por se tornar uma leitura quase compulsiva. Muito, muito interessante e diferente de tudo o que já li até hoje.
Por ser contado da forma que é, senti-me muito próxima do que estava a ser dito e é muito fácil criar empatia com cada uma das pessoas, mesmo quando não concordamos com o que está a ser dito.
É curioso que a forma como cada um perceciona um mesmo acontecimento, e a forma como a expressa pode efetivamente, alterar a realidade. E o que é a realidade quando todos a podemos ver de formas tão distintas?

A União Soviética, descrita por quem a viveu, por quem a construiu e por quem nunca deixou de a viver, mesmo depois de esta ter deixado de existir, é fascinante e assustadora e, a maior parte das vezes, completamente incompreensível e irracional. 
E no meio de tanto sofrimento e dor, e de tanta irracionalidade, há algo de muito bonito e, que é comum a praticamente todos os testemunhos no livro: todos sonhavam, e continuam a sonhar, com um mundo melhor, mais justo e igual. São pessoas que fizeram mais do que sonhar com a utopia e tentaram, ativamente, concretizá-la. Deram as suas vidas, por algo que acreditavam ser pelo bem maior.
Depois de tudo se ter desmoronado, mesmo os que sofreram, os que foram sacrificados, mesmo esses, muitos continuam a acreditar que aquele era o caminho certo e, sentem-se um pouco perdidas porque não resultou.

Todo o livro é verdadeiramente fascinante. Está muito bem escrito. Não é, claramente, um livro pró-soviético, mas também não é anti-soviético. É apenas e só, aquilo que os testemunhos são, pessoas que viveram na época, de todos os quadrantes da sociedade, que assistiram à queda e ao desmembramento da União, que viveram esses tempos conturbados e que vivem na Rússia dos dias de hoje, com Putin.
 
Svetlana Aleksievitch, com O Fim do Homem Soviético, deixa que seja o leitor a formular as suas próprias opiniões. Não se trata de induzir-nos por um determinado caminho, trata-se de dar voz às pessoas que efetivamente têm algo a dizer e, no fim, o que temos é um retrato desassombrado de um povo que muitos de nós continua a não entender e de uma época que, hoje em dia, continua a despertar, tanto ódio como paixão.

Gostei mesmo muito e vou querer ler todos os que ela inclui no ciclo Vozes da Utopia, do qual O Fim do Homem Soviético faz parte. Já tenha na estante As Vozes de Chernobyl para ler.

Recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras!


Excerto (pág.79):
"As pessoas felizes não querem morrer... e aquelas... aquelas que têm quem as ame, também não querem. Querem sempre mais. Mas onde estão as pessoas felizes? Em tempos diziam na rádio que depois da guerra todos seríamos felizes, e o Khruschov, lembro-me, prometeu... que em breve começaria o comunismo. O Gorbartchov jurou, falava tão bem... Corretamente. Agora o Eltsin promete, ameaçou que se deitava nos carris... Toda a vida esperei uma vida boa. Esperava em pequena... e depois de adulta... Agora já sou velha... Resumindo, todos nos enganaram, a vida tornou-se ainda pior. Espera, aguenta e mais espera , aguenta. Espera, aguenta... O meu marido morreu. Saiu à rua, caiu e pronto - o coração falhou. Aquilo que nós passámos não dá para medir com um metro nem pesar com uma balança. Mas estou viva. Vivo. Os meus filhos partiram: o meu filho está em Novossibirsk, a minha filha ficou em Riga com a família, agora é o estrangeiro. Um país diferente. Ali já nem falam russo."

(pág. 97):
"Pergunte-me... Deve perguntar como se conciliava isto: a nossa felicidade e que viessem a meio da noite prender alguém? Alguém desaparecia, alguém soluçava atrás da porta. Por qualquer razão não me lembro disso. Não me lembro! Mas lembro-me de como os lilases floriam na primavera, e das festas de massas nas ruas, dos passeios de madeira aquecidos pelo sol. Do cheiro do sol. Dos deslumbrantes desfiles de ginastas na Praça Vermelha e dos nomes de Lenine e Estaline compostos de flores e corpos humanos vivos entretecidos. Eu fiz essa pergunta à minha mãe...
Que recordação temos nós da Béria? Da Lubianka? A minha mãe ficou calada..."

dezembro 21, 2020

A Construção do Vazio - Patrícia Reis

Título: 
A Construção do Vazio
Ano da edição original: 2017
Autor: Patrícia Reis
Editora: Publicações Dom Quixote

"Sofia é uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo.

Será possível atenuar a dor?
Como se resiste ao fantasma real da infância?
Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida?

Sofia abriga-se na amizade de três homens.
Eduardo, Jaime e Lourenço, e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final.

Esta personagem surge pela primeira vez no livro Por Estes Mundo Acima (2011) e faz parte do território ficcional da autora que, com A Construção do Vazio, termina um ciclo de três narrativas independentes iniciado em 2008, com o romance No Silêncio de Deus."

A Construção do Vazio é um livro difícil de ler. É um livro que, mais uma vez, devido à qualidade da escrita de Patrícia Reis, nos faz sentir muito próximos do que se está a contar e, quando o que se conta é doloroso, difícil e triste, a leitura pode ser, por vezes, incómoda.

Sofia é uma menina que cresce sem amor, numa família onde os abusos são constantes, tanto por parte do pai como da mãe. Cresce, por isso, com a certeza de que não merece ser amada, e de forma quase consciente, afasta tudo o que possa apaziguar a sua dor. Não acredita que algo de bom lhe possa estar reservado e acaba por se autossabotar, optando por caminhos que só validam a opinião que tem sobre si própria. 

Até que ponto aquilo que nos acontece enquanto crescemos, nos limita na vida adulta? Temos consciência dessa limitações e do impacto que têm na nossa vida? Como é que ultrapassamos essas limitações? 
A Construção do Vazio põe-nos a pensar, entre outras coisas, sobre estas questões. Sobre não julgarmos sem conhecer a história das pessoas e o seu percurso. 
Não acredito que o passado sirva de justificação para todas as nossas atitudes no presente, no entanto, acredito que o que fazemos com o que nos acontece, a forma como lidamos com o que nos acontece, de bom e de mau, molda a nossa forma de ser, de viver, de pensar. Conhecer de onde vimos é fundamental para sabermos quem somos, para onde queremos ir e com quem queremos ir. 

Mais um livro certeiro da Patricia Reis.

Recomendo sem qualquer hesitação. 

Boas leituras! 

Excerto (pág. 49):

"O meu pai obrigou-me a um almoço. Combinámos num centro comercial e, ao fim de uma hora constrangedora de duro silêncio e acusações mútuas sem o tiroteio das palavras, recusei-me a entrar no carro. Voltaria para casa de metropolitano. Vi-o em estado de perder as estribeiras, a raiva, a vergonha, a surpresa de saber que eu tinha crescido, já não era o seu animalzinho de estimação. Ficou vermelho, levantou a voz, até a mão subiu da altura da sua anca. Estávamos em público e nada podia fazer. Um homem como ele escusar-se-ia a uma cena. Eu sabia. Sem dizer nada, pagou o almoço e eu fui empinando a camisola para ele ver o meu peito, como tinha crescido, como as minhas unhas pintadas eram um gesto de ser outra e que, apesar de tudo, nunca mais me tocaria. Nem um beijo."

setembro 09, 2020

World Without End - Ken Follett

Título original: World Without End
Ano da edição original: 2007
Autor: Ken Follett
Editora: Penguin Putnam Inc.

“#1 New York Times Bestseller In 1989, Ken Follett astonished the literary world with The Pillars of the Earth, a sweeping epic novel set in twelfth-century England centered on the building of a cathedral and many of the hundreds of lives it affected. Critics were overwhelmed--"it will hold you, fascinate you, surround you" (Chicago Tribune)--and readers everywhere hoped for a sequel. Look out for the prequel to the Kingsbridge series, The Evening and the Morning, coming from Viking in September 2020.
World Without End takes place in the same town of Kingsbridge, two centuries after the townspeople finished building the exquisite Gothic cathedral that was at the heart of The Pillars of the Earth. The cathedral and the priory are again at the center of a web of love and hate, greed and pride, ambition and revenge, but this sequel stands on its own. This time the men and women of an extraordinary cast of characters find themselves at a crossroads of new ideas--about medicine, commerce, architecture, and justice. In a world where proponents of the old ways fiercely battle those with progressive minds, the intrigue and tension quickly reach a boiling point against the devastating backdrop of the greatest natural disaster ever to strike the human race--the Black Death. Three years in the writing and nearly eighteen years since its predecessor, World Without End breathes new life into the epic historical novel and once again shows that Ken Follett is a masterful author writing at the top of his craft.”

Em World Without End, Ken Follett leva-nos de volta a Kingsbridge, no século XIV, cerca de dois séculos depois da construção da catedral que deu o mote ao The Pillars of the Earth e, a receita que Ken Follett aplica é, basicamente a mesma.
Temos a Igreja, o Rei e toda a nobreza que o rodeia, temos os comerciantes e artesãos e, no fim da cadeia, o bom do povo.

Na Igreja, de uma forma geral, todos muito voltados para si mesmos. Preocupados essencialmente em manter ou aumentar o poder que detêm. Neste livro há uma clara distinção entre a Igreja governada pelos homens e pelas mulheres, na figura do convento que coabita com o priorado de Kingsbridge e na gestão partilhada que fazem do único Hospital da região. Mais uma vez as personagens mais odiosas, com exceção de uma, pertencem à Igreja.

Do lado do Rei e de toda a estrutura que depende dele, temos um misto de senhorios que apenas estão preocupados em ganhar o máximo possível às custas dos outros, e senhores que, à luz dos costumes da época, vêem vantagens em melhorar a vida dos trabalhadores. Continua sempre a ser uma questão de dinheiro e poder, quer seja na atribuição de terras a determinado homem, na decisão de se declarar e alimentar uma guerra com outro país, ou até mesmo no julgamento de um crime. Há uma certa tolerância que é diretamente proporcional à quantidade de impostos e taxas que são entregues à coroa.

Os comerciantes e artesãos, naturalmente preocupados em ganhar dinheiro e estatuto, mas com a consciência de que, para prosperarem, necessitam de ajudar a cidade de Kingsbridge a crescer e tornar-se um polo comercial importante na zona. Não receiam investir para recolher os frutos mais tarde.

O povo, é o povo. Gente que trabalha por um punhado de moedas, muitas vezes apenas por um prato de comida que permita alimentar os filhos naquele dia. Os que trabalham no campo, estão presos a senhorios, que são mais seus proprietários do que empregadores. Sem oportunidades de subir na escala social, sem força anímica para lutarem por melhores condições.

Não sou fã da escrita de Ken Follett, já o disse antes e, infelizmente a minha opinião mantém-se. No entanto, gosto bastante destas suas histórias da época medieval, como a que encontramos no The Pillars of the Earth. Mais do que gostar do enredo, ou das personagens, gosto da forma como vamos aprendendo sobre a vida naqueles tempos. World Without End não foi uma desilusão a esse nível. 
Porque parte da história atravessa os anos difíceis da peste negra na Europa, cheguei a essa parte da história, por coincidência, na altura em que começamos todos a ficar confinados em casa, por causa da pandemia, algo que, nenhum de nós alguma vez pensou atravessar nas nossas vidas. 
Foi interessante ler sobre isso e, encontrar algumas semelhanças com o que começávamos a descobrir sobre a COVID-19 e a falta de conhecimento que existia sobre a peste negra. Todos os cuidados que hoje em dia sabemos serem básicos na prevenção da transmissão de doenças e que na altura ninguém tinha forma de saber. O cepticismo da Igreja em aceitar que a religião não tem resposta para tudo e que a ciência não é a inimiga. O papel das mulheres, como cuidadoras, dos doentes e dos enfermos, mas muito pouco toleradas como reformadoras, ou como capacitadas para mais do que cuidar dos outros. A vontade de serem mais, de aprender, acabava sempre por passar pelo convento, onde curiosamente as mulheres tinham a possibilidade de serem mais livres. Todas as outras, se tivessem sorte com o casamento, talvez conseguissem ter uma voz mais ativa na comunidade.

Ken Follett parece-me um daqueles escritores incontornáveis. Não é, para mim, um escritor que me encha as medidas, mas é um escritor ao qual acabo por voltar, essencialmente porque gosto muito das suas histórias e, por vezes, isso basta. :) 

Recomendo!

Boas leituras! 

Excerto (pág. 670):
"A voice in the crowd asked the question that was on everyone´s mind. "Are we all going to die, Brother Joseph?"
Joseph was the most popular of the monk-physicians. Now close to  sixty years old and with no teeth, he was intellectual but had a warm bedside manner. Now he said: "We´re all going to die, friend, bu none of us knows when. That´s why we must always be prepared to meet God."
Betty Baxter spoke up, ever the probing questioner. "What can we do about the plague?" She said. "It is the plague, isnt it?"
"The best protection is prayer," Joseph said. "And, in case God has decided to take you regardless, come to church and confess your sins." (...)
Betty was not easily fobbed off. "Merthin says that in Florence people stayed in their homes to avoid contact with the sick. Is that a good ideia?"
"I don´t think so. Did the Florentines escape the plague?"
Everyone looked at Merthin, standing with Lolla in his arms.
"No, they didn´t escape," he said. "But perhaps even more would have died if they had done otherwise."
Joseph shook his head. "If you stay at home, you can´t go to church. Holiness is the best medicine."
Caris could not remain silent. "The plague spreads from one person to another," she said angrily. "If you stay away from other people, you´ve got a better chance of escaping infection."
Prior Godwyn spoke up. "So the women are the physicians now, are they?"
Caris ignored him. "We should cancel the market," she said. "It would save lifes."
"Cancel the market!" he said scornfully. "And how would we do taht? Send messengers to every village?"
"Shut the city gates," she replied. "Block the bridge. Keep all strangers out of town."
"But there are already sick people in town."
"Close all taverns. Cancel meetings of all guild. Prohibit guests at weddings."
Merthin said: "In Florence they even abandoned meetings of the city council."
Elfric spoke up. "Then how are people to do business?"
"If you do business, you´ll die," Caris said. "And you´ll kill your wife and children, too. So choose."
Betty Baxter said: "I don´t want to close my shop-I´d lose a lot of money. But I´ll do it to save my life." Caris´s hopes lifted at this, but then Betty dashed them again. "What do the doctors say? They know best." Caris groaned aloud.
Prior Godwyn said: "The plague has been sent by God to punish us for our sins. The world has become wicked. Heresy, lasciviousness, and disrespect are rife. Men question authority, women flaunt theis bodies, children disobey theis parents. God is angry, as His rage is fearsome. Don´t try to run from His justice! It will find you, no matter where you hide."