maio 17, 2026

[Ebook] Levarei o Fogo Comigo - Leïla Slimani

Título original: J'emporterai la feu (Le Pays des Autres, 3)
Ano da edição original: 2015
Autor: Leïla Slimani
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara

Mia e Inès formam a terceira geração da família Belhaj, que conhecemos nas páginas de O País dos Outros. Nasceram em Marrocos, na década de 1980, num país dividido entre o desejo de modernidade e o medo de perder a alma e as tradições. É todo um novo mundo, e as duas irmãs terão de encontrar nele o seu lugar, cada uma à sua maneira, na solidão ou no exílio, no excesso ou na contenção, enfrentando o preconceito e o desprezo enquanto abraçam todas as promessas.
O fôlego que as move é a ânsia de liberdade, que tem as suas raízes nas mulheres cujo sangue lhes corre nas veias: a avó Mathilde, a mãe Aïcha e a tia Selma. É nessa busca pela liberdade que Mia parte para Paris, levando consigo o fogo e a escrita. Caberá a Mia contar a história do seu povo.
Levarei o Fogo Comigo completa um tríptico magistral, retrato dos heróis e heroínas deste e de outros tempos. Uma saga inspirada na família da escritora, eivada de um impressionante vigor poético, que chega ao fim, mas permanecerá com os milhões de leitores que se apaixonaram por estas vidas.

Levarei o Fogo Comigo é o livro que fecha a trilogia O País dos Outros de Leïla Slimani. Uma saga familiar que acompanha os Belhaj e os Daoud, desde o dia em que Marthilde e Amine chegam a Marrocos, recém-casados e muito jovens até à velhice de ambos.

Neste terceiro e último volume, os anos passaram e Aïcha é agora uma respeitada ginecologista em Marrocos, Selim foi para os EUA e tornou-se fotógrafo e nunca mais regressou a Marrocos.

Mehdi, marido de Aïcha, trabalha para o governo no sector bancário. Continua idealista mas a proximidade do poder e do dinheiro tornaram-no mais flexível e menos radical. Tenta fazer o que é correto e justo estando dentro do sistema.

Mia é a filha mais velha de Aïcha e Mehdi e, é uma miúda curiosa, gosta de ler e começa, desde muito cedo a questionar o papel da mulher. Na verdade queria ser um rapaz, porque acha que o pai iria gostar mais dela se ela fosse um menino. Mais tarde acaba por perceber que o que sente não está só relacionado com pai. A verdade é que gosta de meninas de forma diferente. Ao contrário das amigas gostava de namorar com uma menina e não com um menino. Desde cedo percebe que é gay.
Acha que quer seguir os passos do pai, vai estudar para França, começa a trabalhar numa consultora financeira e até se sente de certa forma feliz. Vive longe de Marrocos, é livre, vive a vida como quer e com quem quer. Embora pareça que tem tudo para ser feliz, o desconforto que sempre sentiu, de não pertencer a lado nenhum, de nunca se sentir suficientemente boa e de ansiar pela aprovação do pai ao mesmo tempo que evita regressar a casa. Sente que Marrocos nunca a iria compreender e aceitar, o pai dificilmente a iria aceitar e compreender. Talvez estivesse enganada quanto ao pai mas, infelizmente nunca o saberá.
Quando percebe que a vida de escritório não é para ela e, depois de andar à deriva, sem saber que rumo tomar, acaba por se tornar uma escritora relativamente bem sucedida.

Inês é a filha mais nova de Aïcha e Mehdi. Bonita, simpática, é uma miúda de quem todos gostam. É fácil gostar de Inês, ao contrário da irmã, que é carrancuda e turbulenta. Inês adora a irmã, enquanto criança tem-lhe uma verdadeira devoção. Perdoa-lhe tudo, as respostas ríspidas, as mentiras, a violência. Parece que Inês consegue ver para além da fachada dura de Mia, percebe que a irmã vive num furacão de emoções que não consegue exteriorizar de outra forma. Adora a irmã e não há nada nem ninguém que a consiga afastar de Mia. Mia, por se lado, tem ciúmes de Inês, a menina perfeita, a filha querida e amada. Com quem se compara e sente que sairá sempre a perder. Não percebe de imediato que a irmã será a sua mais acérrima defensora e a sua melhor amiga.
Inês, como a mãe, vai para França estudar medicina e, é em Paris que as duas se vão mantendo o contacto.

Mathilde, já com alguma idade, é quem cuida da quinta, agora que Amine está com demência e não é capaz de trabalhar. Continua igual a si própria. Não mantem uma relação próxima com os filhos nem com ninguém. 
Na verdade, o livro não aprofunda muito mais a vida destes dois. Amine está demente e, naturalmente um dia, acaba por morrer. A família junta-se pela primeira vez depois de muitos anos, por causa do funeral de Amine e, nem nesse dia, parece existir vontade de estarem uns com os outros. Tudo naquele dia é confrangedor. Aïcha e Selim nem na casa onde nasceram e cresceram se sentem em casa. É um local que lhes provoca ansiedade, a mãe provoca-lhes ansiedade, tudo naquele sítio lhes parece estranho e, ao mesmo tempo, intimidante.

Voltei a não sentir tanta ligação com a história e com a forma como é contada. Sinto que Leïla Slimani quis colocar tudo no livro, tocar todos os temas mais ou menos polémicos, a homossexualidade de Mia, a libertinagem dos costumes, a questão política em Marrocos, o 11 de setembro, a luta de Mehdi por alguma coisa em que ele próprio já não acreditava verdadeiramente. Parece que acaba por não aprofundar nada e dispersa a atenção.

Mais uma vez, gostei de conhecer mais um pouco da história de Marrocos.

Com este Levarei o Fogo Comigo acentua-se ainda mais a divisão da sociedade marroquina e o impacto dos franceses no país com a procura de uma identidade própria.

É muito estranho que toda a família Belhaj e depois os Daoud tenham nascido e crescido em Marrocos e conheçam tão mal o próprio país. A cultura, a língua, tudo.
Como crescem em guetos franceses, estudam em colégios franceses e vão estudar para França assim que podem, a vivência que têm de Marrocos é completamente enviesada. É triste crescer num sítio sem se deixar tocar por ele.

Gosto da escrita de Leïla Slimani mas sinto falta de qualquer coisa nas histórias que ainda não consegui identificar o que será. 
No entanto gosto mesmo da escrita e gostei bastante desta trilogia. Talvez por retratar a vida de uma família ao longo de três gerações, tenha sentido falta de os conhecer a todos melhor. Nas sagas familiares talvez tenhamos de perder mais tempo a conhecer cada uma das personagens. 
Mas, gostei. Gostei e recomendo.

Boas leituras!

Excerto:
"Ele está sempre presente na minha mente, o tremor da sua mão quando fumava os seus cigarros, a maneira como esmagava a beata, a sua forma de se sentar, o barulhinho de quando virava as páginas de um livro. O seu sorriso. O meu pai tão ingénuo que acreditava que todos os muros cairia e que construiríamos túneis. Esse túnel não existe ou, se existe, é um lugar soturno e frio onde não parei de rastejar como um animal cego e obstinado. Uma vez que ele morreu, este jogo não serve para nada e não tirarei dele nenhuma alegria. Para quando servia tentar saber qual era o meu lugar, qual era o meu país, quando eu nem sequer sabia quem era? Que quer dizer «identidade» quando perdemos a memória? Não a dos povos, não, essa pouco me importa, mas as histórias que a minha avó me contava, as fábulas que o meu pai inventava, esses íntimos <era uma vez> que constituem quem sou e com os quais cubro as paredes. Quando me perguntam de onde sou, nunca sei o que dizer, como o balbuciar de um gago tentando pronunciar uma palavra e que, exausto, acaba por desistir. O meu pai, «the great pretender», adorava fazer-se passar pelo que não era e, tal como ele, tornei-me a minha própria falsária, cópia de má qualidade de um quadro de mestre, falso bilhete que nada vale, a não ser para os ingénuos que merecem ser roubados."

maio 10, 2026

[Ebook] Vejam Como Dançamos - Leïla Slimani

Título original: Regardez-nous danser (Le Pays des Autres, 2)
Ano da edição original: 2015
Autor: Leïla Slimani
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara

1968, Marrocos: Mathilde, alsaciana, e Amine, oficial do Exército marroquino, são um casal com uma longa história atrás de si e um incerto futuro pela frente, à imagem do país onde vivem. Esta é a história de uma família hesitante entre a tradição e a modernidade, protagonizada por uma mulher enredada entre duas culturas, sufocada pelo conservadorismo do país onde escolheu viver e dividida entre a dedicação à família e o amor à liberdade. É também a história de um país que acabou de conquistar a independência e que procura o seu lugar, entre o espartilho religioso e o fascínio pelo Ocidente, entre a repressão e o hedonismo.

Leïla Slimani, uma das vozes mais importantes da literatura francesa, regressa à história da própria família para construir um romance cheio de personagens inesquecíveis e imagens fortes. Retratando um tempo e um lugar em que ressoam os ecos do Maio de 68 e as mulheres encetam o pedregoso caminho da emancipação, a escritora reafirma a sua impressionante destreza narrativa e o olhar clínico sobre a intimidade.

Vejam como Dançamos é o segundo livro da Trilogia O País dos Outros e, deste gostei bastante. Talvez porque tivesse menos Mathilde e Amine. A relação dos dois não me cativou nada. Não na forma como foi descrita por Slimani.

Neste segundo volume a história centra-se mais nos dois filhos do casal, já crescidos. Aïcha a terminar o curso de medicina em França e o irmão, Selim, ainda a estudar e a viver com os pais.
Os dois são muito diferentes um do outro. Aïcha continua a ser uma miúda tímida, muito inteligente mas sem grandes competências sociais. Insegura, quase pode licença para existir. Estuda, faz amigos com dificuldade e apaixona-se por Mehdi, um jovem marroquino, revolucionário, cheio de ideias de liberdade e de uma sociedade marroquina menos conservadora. Mehdi é uma espécie de intelectual de esquerda. :) É muito interessante ver a evolução de Aïcha ao longo da história. É uma personagem muito bem desenvolvida.
O irmão não sabe o que fazer da vida. Sendo o único rapaz, o pai espera que ele se interesse pela quinta e o ajude. Ele não está interessado e tem medo do pai. Não se sente bem em casa e estranha o próprio país que não conhece de todo.
Fisicamente destaca-se, é loiro de olhos claros e, sente que nunca será realmente aceite no seu país, o único que conhece. Por isso, e porque faria tudo para sair de casa, para longe dos pais que não o compreendem, junta-se a uma comunidade de hippies estrangeiros e parte com eles. Vai conhecer o seu próprio país, para além dos portões da quinta dos pais.

Neste livro seguimos também a vida de Selma e de Omar, irmãos de Amine.
Selam é uma miúda rebelde para a cultura e hábitos marroquinos. É bonita demais e simpática de mais para o conservadorismo dos irmãos, Amine e Omar. Tenta ser feliz, longe deles. Apaixona-se por um piloto americano, que a engravida e abandona. Amine, para esconder a vergonha desta gravidez fora do casamento, obriga a irmã a casar com um ex-companheiro de Amine na guerra, bem mais velho que Selma. É muito triste ver Selma castrada desta forma e sem o apoio da cunhada Mathilde. Lamenta que a cunhada não lhe devolva, agora, a forma como aberta e sincera como recebeu Mathilde, quando esta chegou a Marrocos, completamente perdida e assustada. Achou que a cunhada era sua amiga e sente-se traída por esta não a defender do irmão.

Omar sempre teve ciúmes de Amine, o irmão mais velho a quem todas a oportunidades foram dadas. É um rapaz violento, um pouco desequilibrado, muito revoltado com tudo e com todos, a viver num país que procura desesperadamente encontrar uma identidade própria depois da independência da França que demora a sair, a todos os níveis de Marrocos. Omar tem um fim trágico. É uma daquelas personagens que sabemos à partida que não pode acabar bem tal é a sua atração pelo caos.

Neste segundo volume, aprofunda-se mais ainda a questão da relação tensa com França. Aïcha e Selim nasceram em Marrocos mas como são filhos de uma francesa, estudaram sempre numa escola francesa. Como todos os miúdas da sua idade, Aïcha parte para França para prosseguir os estudos superiores.
Enquanto vivem em Marrocos os únicos marroquinos nas suas vidas são os tios, a avó, o pai e os empregados da quinta. Só se dão com franceses e apenas sabem falar francês. Não conhecem o país onde nasceram e vivem numa bolha que os deixa, à medida que crescem, com crises de identidade e com um sentimento de que não pertencem a lado nenhum. Apenas a quinta dos pais os une e até esse lugar onde cresceram lhes traz memórias que preferiam esquecer.

Gostei mais deste segundo volume do que do primeiro. Achei as personagens mais bem desenvolvidas e achei a história mais coesa.

Gostei e recomendo.

Boas leituras!

Excerto:
"Enquanto a filha estava nos bancos da faculdade, enquanto Selma vivia a sua vida em Rabat, ei-la ali, naquela cozinha, com o rosto por cima de uma toalha a cheirar a pano molhado. Que se aprende dentro de uma cozinha? Século após século, as mulheres criaram na cozinha poções para curar e fazer crescer, para consolar e fazer feliz. Nela, prepararam decocções para os velhos em fim de vida e remédios para as raparigas que já não tinham o período. Aqueceram o óleo para espalhar na barriga de uma criança com cólicas e, com farinha, água e um pouco de gordura, garantiram que famílias inteiras se aguentassem de pé. Tanta coisa não era nada? Elas nada aprenderam?
Nesses momentos, tinha vontade de explicar a vida a Amine. Dizer-lhe que podia parecer descanso, mas quer ele estava enganado. Ele acha que ela faz aquilo tudo por amor e só lhe apetece gritar: «Isto a que chamas amor é trabalho!» Estariam as mulheres assim tão cheias de afecto, de benevolência, que podiam passar uma vida inteira, a cuidar dos outros?"

"No bairro de lata, nada mudava. Nem na paisagem, nem nas casas, nem sequer nas conversas ou nos hábitos. Ruminavam-se os mesmos problemas, sofria-se ainda e sempre dos mesmos males, morria-se das mesmas doenças e reclamava-se das mesmas dores. Fatima percebeu, então, que era isso a miséria: um mundo que não muda. Os burgueses, as pessoas ricas e instruídas, quando se encontram, perguntam sempre pelas novidades. A vida reserva-lhe surpresas. Falam do futuro e até de revolução. Acreditam que é possível mudar."

[Ebook] O País dos Outros - Leïla Slimani

Título original: Le Pays des Autres (première partie - La guerre, la guerre, la guerre)
Ano da edição original: 2015
Autor: Leïla Slimani
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara

Em 1944, Mathilde, uma jovem alsaciana, apaixona-se por Amine, um oficial marroquino que combate no exército francês durante a Segunda Guerra Mundial. Terminada a guerra, o casal muda-se para Marrocos e instala-se perto de Meknés. Amine dedica-se a recuperar a quinta herdada do pai, tentando arrancar frutos de uma terra pedregosa e estéril. Enquanto isso, Mathilde começa a sentir o jugo dos costumes conservadores do novo país, tão sufocante quanto o seu clima. Nem a maternidade apaga a solidão que sente no campo, longe de tudo, num lugar que não é o seu e a verá sempre como estrangeira.
A par e passo do drama familiar, ribombam a tensão e a violência que desembocarão, em 1956, na independência de Marrocos, país onde todos parecem viver no "país dos outros" e onde as mulheres, cercadas no país dos homens, têm de lutar a cada novo dia por um lugar, por uma voz. No centro do fogo cruzado de um país em plena transformação, Mathilde e Amine enfrentam o drama da ruptura dentro da própria família.

Depois do sucesso de Canção Doce, que arrecadou o Prémio Goncourt e conquistou mais de um milhão de leitores em cinquenta países, Leïla Slimani confirma a sua impressionante capacidade narrativa e compreensão da alma humana nesta saga familiar tão devastadora quanto verdadeira, inspirada na história da sua avó.

Amine, marroquino, foi para França combater ao lado dos franceses na 2ª Guerra Mundial, onde acaba por conhecer Mathilde, uma miúda nova cheia de sonhos que se apaixona por ele. 
Amine era um jovem bonito, de pele dourada, que a via e ouvia. Para ele, Mathilde era uma lufada de ar fresco, uma rapariga divertida, leve e descomplicada. Apaixonam-se, casam-se e partem para Marrocos, certos de que a vida lhes reserva coisas boas.
No entanto, quando chegam a Marrocos tudo muda. Mathilde estranha tudo. Estranha as pessoas, os cheiros, a cultura. Sente-se sozinha e ressente-se por ver que Amine se tornou uma homem diferente daquele por quem se apaixonou e por quem deixou tudo para trás.
Amine, agora confrontado com os seus, sente pressão e tudo em Mathilde o envergonha. Começa a duvidar da decisão de casar com uma mulher tão francesa, loira, pálida, claramente não marroquina. Nos primeiros tempos em Marrocos só lhe vê defeitos, acha-a mimada e pouco tolerante. Em França gostava de tudo em Mathilde agora tudo nela o irrita.

O País dos Outros expõe a dificuldade que estes dois sentem. Mathilde num país que não é o dela, com uma cultura muito diferente da sua, onde as mulheres são vistas como propriedade dos maridos, dos irmãos, dos pais. Vai-se adaptando. Não quer desistir e voltar para França derrotada, dando razão à irmã que não apoiou o casamento de Mathilde e Amine.
Não se percebe muito bem porque fica, porque insiste. Não parece estar assim tão apaixonada pelo marido. Mas fica. Adapta-se.

Amine regressa ao seu país depois de ter estado na Europa. Regressa casado com uma europeia e, sente-se de certa forma deslocado na sua terra. Vive angustiado. Deveria ser mais marroquino? Torna-se instável, violento. É um homem perdido, sem saber quem é e onde é o seu lugar e muito menos onde, e como, pode encaixar Mathilde em tudo isto. Ama Mathilde mas sente-se ressentido por ela ser europeia, pouco submissa, obrigando-o a ser cruel e violento.

Aïcha e Selim são filhos de Mathilde e Amine. Aïcha, fisicamente mais parecida com pai, é uma menina insegura, muito inteligente, vai apredendo a viver lado a lado com a disfunção que é casamento dos pais.
Selim, fisicamente muito parecido com a mãe, é neste 1º volume apenas uma criança pequena, não tem muito protagonismo. O que percebemos muito cedo é que é um miúdo muito agarrado à mãe, facto que irrita Amine, porque o seu único filho varão tem de ser um macho exemplar e não um menino que passa os dias agarrado às saias da mãe.

Gostei da história e do ambiente marroquino. Como conheço pouco da história e cultura marroquina achei muito interessante toda a envolvência e dinâmica entre marroquinos e franceses.
Continuo a ter dúvidas sobre a escrita de Leïla Slimani. Já com Canção Doce senti que faltava qualquer coisa. Não sei muito bem o quê. Talvez sinta as personagens pouco profundas, os temas tratados de forma superficial. Estranhei que a questão da violência na relação entre Mathilde e Amine não fosse mais aprofundada. É como se não tivesse muita importância, como se fosse normal quase não afetar as personagens ou as suas ações.
Acho que ao querer falar de tantas coisas, acaba por se perder um pouco o foco. 

Mas gostei, e recomendo sem qualquer hesitação. É um livro que se lê muito bem, a história é interessante e, fora as minhas estranhezas com a forma como Leïla Slimani conta as suas histórias, acho que ela escreve bem.

Boas leituras!

Excerto:
"Amine amava a mulher, amava-a e desejava-a ao ponto de acordar, por vezes, a meio da noite com vontade de a morder, de a devorar, de a possuir de uma maneira absoluta. Mas, de quando em quando, questionava as suas decisões. Que loucura fora aquela que lhe passara pela cabeça? Como é que achara que poderia viver com uma europeia, com uma mulher tão emancipada como Mathilde? Por causa dela, por causa daquelas dolorosas contradições, tinha a sensação de que a sua vida era regida por um movimento de pêndulo descontrolado. Por vezes, sentia uma necessidade violenta e cruel de regressar à sua cultura. de amar de corpo e alma o seu deus, a sua língua e a sua terra, e a incompreensão de Mathilde punha-o fora de si. Queria uma mulher parecida com a mãe, que o compreendesse nas entrelinhas, que tivesse a paciência e a abnegação do seu povo, que falasse pouco e trabalhasse muito. Uma mulher que o esperasse ao final do dia, silenciosa e dedicada, e que o observasse enquanto comia e encontrasse nisso toda a sua felicidade e toda a sua glória. Mathilde fazia dele um traidor e um herege. Por vezes, apetecia-lhe desenrolar um tapete de oração, pousar a testa no chão, escutar no seu coração e na boca dos filhos a língua dos seus antepassados. Sonhava fazer amor em árabe, dizer ao ouvido de uma mulher de pele dourada as palavras doces que se dizem às crianças. Noutras ocasiões, quando chegava a casa e a mulher lhe saltava para o pescoço, quando ouvia a filha cantar na casa de banho, quando Mathilde inventava jogos e fazia brincadeiras, ele deleitava-se, sentia-se superior aos outros. Tinha a sensação de ter sido arrancado da massa informe e, então, admitia que a guerra o mudara e que a modernidade se revestia de certas vantagens. Sentia vergonha de si próprio e da sua inconstância e tinha perfeita noção de que era Mathilde quem pagava por isso."

abril 04, 2026

O Menino - Fernando Aramburu

Título original: El Niño
Ano da edição original: 2024
Autor: Fernando Aramburu
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote

Nicasio, já reformado, costuma ir às quintas-feiras ao cemitério de Ortuella visitar a sepultura do neto. É um dos muitos falecidos na sequência de uma explosão de gás numa escola daquela localidade, um acidente que sacudiu o País Basco e toda a Espanha em 1980. Pelas andanças do avô, uma figura que se afirma até se tornar indelével, pelo testemunho da mãe, muitos anos depois, pela crónica objetiva do que sucedeu à família, descobriremos como aquela  tragédia dilacerante trouxe à baila aspetos desconhecidos das suas personalidades e como transtornou para sempre as suas vidas.

Com a mestria habitual de Aramburu, o leitor ver-se-á imerso numa história de emoções inesperadas, uma exploração psicológica e literária que o manterá preso até à última linha, para entender e se comover com o destino das personagens. Pelo tratamento extremamente humano que lhes é dado, e pelos recursos estilísticos utilizados, O Menino é um romance memorável, um prodígio literário do melhor Aramburu.


Uma história baseada num acontecimento real. Em 1980, em Ortuella uma fuga de gás provocou uma explosão na escola primária da localidade provocando a morte a 50 crianças e dois adultos.

Nuco é filho de Mariaje e José Miguel, e neto de Nicásio, o pai de Mariaje e, foi uma das crianças que morreu naquele dia.

A história é-nos contada por Mariaje, que muitos anos depois desfia as memórias daquele dia trágico e de como foram todos vivendo depois de tudo o que aconteceu.
 
Relembra a forma como lidou com a morte de Nuco, uma criança amorosa de 6 anos, o seu único filho. A forma como lidou com o luto do marido que, com dificuldade em expressar a sua própria dor, pede-lhe que tenham mais um filho. Não quer substituir o Menino mas acha que uma nova criança lhes vai aliviar a dor.
Tem de lidar também com o luto do pai. A perda do Menino deixa o avô preso a uma fantasia, na qual Nuco continua vivo. Mariaje percebe que é a forma que ele tem de lidar com a perda mas, não deixa de ser doloroso ter o pai a falar-lhe de Nuco como se ele ainda estivesse vivo. 

E Mariaje? Como é que ela consegue fazer o seu próprio luto? A reação à perda do seu Menino, para quem vê de fora, parece fria, sem emoção. Na verdade Mariaje ficou vazia de tudo. Vai sobrevivendo como pode, navegando esta nova realidade conforme acha que é melhor e, na verdade, toda a comunidade parece querer esquecer a tragédia e seguir em frente. Todos fazem o luto em privado, ninguém chora mais alto ou pede mais compaixão. Todos perderam.

É um livro pequeno, escrito com capítulos muito curtos, que incentivam a uma leitura rápida, sem pausas. Está escrito de uma forma muito objetiva, sem qualquer intenção de provocar emoções, sem apelar descaradamente ao coração do leitor. O acontecimento em si não precisa de ser amplificado.
A intenção do autor é narrar factos e, pelo meio, o próprio livro, ganha voz e vai revelando detalhes que o autor deixou de fora, e que complementam a narrativa.

É muito interessante a forma como está escrito.

Gosto da escrita de Fernando Aramburu e, ao contrário de Pátriade que gostei muito mas achei por vezes repetitivo, este O Menino tem o tamanho certo. 

Gostei e recomendo!

 Boas leituras!

Excerto 
(pág.15)
"Passados os anos, verifico que fui menos infeliz do que alguma vez cheguei a pensar, a não ser que o tempo e uma falta de memória que se me tenha ido infiltrando à socapa nos neurónios me estejam a desarrumar os fios da mente. Tudo é possível. O meu projeto de vida desfez-se da noite para o dia pela razão que o senhor conhece e por outras razões que eu não sei se lhe interessará conhecer, mas não estou desfeita, continuo de pé a respirar e a gozar com saúde e tranquilidade a minha reforma, e não declaro tudo isto para armar em dura nem em valente. Se nas minhas piores horas não sucumbi a um transtorno depressivo foi graças ao afeto que o meu marido se esforçou por me proporcionar, tão desajeitado, coitadinho, nos assuntos sentimentais; ao meu pai, por o ser e porque a necessidade que tinha de mim fez com que muitas vezes me esquecesse das minhas mágoas ou as relegasse para outro momento e depois para outro, e também, conquanto ignore até que ponto, ao consolo às revoadas que durante uma época a religião me deu."

(pág.22)
"Mariaje guarda uma viva recordação da manhã de 23 de outubro. Se pudesse, teria aplicado uma borracha na parte do cérebro onde alberga as imagens daquela jornada, que ainda agora, muito tempo depois, não hesita em qualificar de horrível; mas bem sabemos, acrescenta, que a memória funciona por conta própria. Logo a seguir afirma, em franca contradição, que seria injusto esquecer-se de Nuco por completo. Oscila, pois, esquecer e recordar, e no fundo ainda bem que não tem controlo direto sobre as suas recordações. Aprender a viver com elas foi em todos estes anos o seu maior desafio."

outubro 04, 2025

[Ebook] Crónicas Marcianas - Ray Bradbury

Título original: The Martian Chronicles
Ano da edição original: 1950
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Paulo Tavares
Editora: Cavalo de Ferro

«Não precisamos de outros mundos, precisamos de espelhos, não queremos conquistar o cosmo, só queremos estender as fronteiras da Terra até ele», escreveria muitos anos depois destas Crónicas Marcianas Stanislaw Lem, em Solaris, uma das outras grandes obras que ultrapassam em muito as fronteiras da ficção científica e que são, em certa medida, devedoras deste livro fundador de Bradbury, publicado pela primeira vez em 1950, sobre a chegada do Homem a Marte — um território de mares vazios, colunas de cristal e ruínas de cidades axadrezadas, habitado por uma misteriosa civilização — e as suas tentativas de conquistar e colonizar este planeta.
Crónicas Marcianas tornou-se uma das obras mais célebres e traduzidas de Ray Bradbury, oferecendo uma visão da essência contraditória do Homem, dos seus sonhos de infinito e da sua natureza destrutiva. Borges, um dos muitos confessos admiradores desta obra, dedicou-lhe um dos seus famosos Prólogos, no qual se interrogava: «Que fez este homem de Illinois para que, ao fechar as páginas do seu livro, episódios sobre a conquista de outro planeta me povoem de terror e de solidão? Como podem estas fantasias tocar-me de um modo tão íntimo?»

Gostei muito deste livro de pequenas histórias, com relação entre si, sobre a conquista e a colonização de Marte pelos humanos.

As primeiras histórias descrevem a vida dos marcianos antes da primeira expedição humana, a Marte, que foi bem sucedida. Depois é descrita a primeira expedição que aterra com sucesso, todos sobrevivem, mas nenhum contacto é feito com a Terra e ninguém regressa a casa para contar como correu e o que encontraram os primeiros humanos ao aterrar em Marte. 
O aparente falhanço da primeira expedição não parece diminuir a vontade de voltar a tentar. E é isso que vai acontecendo ao longo de anos e décadas a fio, algumas são bem sucedidas, outras nem por isso mas, o contacto começa a ser feito com a Terra e, as viagens entre os dois planetas tornam-se seguras.
 
E os marcianos das primeiras histórias? Como é a vida em Marte entre humanos e marcianos? Os humanos começam a colonizar Marte e, não é precisa muita imaginação para perceber que, a determinada altura, os marcianos passam a ser uma espécie extinta. Os humanos foram para Marte para fugir de uma Terra destruída por guerras contínuas, espoliada até ao limite. Porque seria diferente com Marte? Porque é que os humanos seriam diferentes? Porque é que deixariam de se comportar como a espécie dominante e respeitar a civilização existente?

Gostei muito. De Ray Bradbury apenas li Fahrenheit 451, de que gostei (opinião aqui) não tendo ficado impressionada com a escrita. Deste Crónicas Marcianas, gostei muito, da escrita e da forma como o mundo marciano é construído. Tem sentido de humor e é muito imaginativo. Gostei bastante.

Recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excerto:
"Trouxeram quinze mil pés de tábua de pinho do Oregon e setenta e nove mil de sequóia da Califórnia para construírem a Décima Cidade, uma pequena povoação limpa e bonita junto aos canais de pedra. Nas noites de domingo, era possível ver a luz vermelha, azul e verde dos vitrais das igrejas e ouvir as vozes que cantavam os hinos numerados: «Cantemos agora o setenta e nove»; «Cantemos agora o noventa e quatro.» E, em certas casas, ouvia-se a batida forte de uma máquina de escrever, o romancista a trabalhar; ou o arranhar de uma caneta, o poeta a trabalhar; ou nenhum som, o antigo vagabundo a trabalhar. Em muitos aspectos, era como se um grande terramoto tivesse arrancado as raízes e os alicerces de uma cidade de Iowa e depois, num abrir e fechar de olhos, um tornado de proporções dignas de Oz tivesse transportado a cidade inteira para Marte, pousando-a sem um único solavanco..."

Acolher - Claire Keegan

Título original: Foster
Ano da edição original: 2010
Autor: Claire Keegan
Tradução: Marta Mendonça
Editora: Relógio d'Água

Uma menina vai viver com pais adotivos numa quinta na zona rural da Irlanda sem saber quando regressará. Numa casa desconhecida, de gente estranha, encontra um calor e uma afeição que não sabia existirem e começa lentamente a florescer. Até que a revelação de um segredo a faz compreender a fragilidade da sua vida.

É um livro muito curto, que se lê numa tarde. Neste livro pequeno, vamos encontrar uma história bonita, daquelas que, não apelando à lágrima, nos deixam sensibilizados. Temos vontade de abraçar a menina que é enviada, temporariamente para casa de um casal para que tomem conta dela. A mãe está novamente grávida e, menos uma criança com que se preocupar é uma ajuda que é bem-vinda. 
A menina não sabe quanto tempo irá ficar, mas depressa percebe que a vida pode ser diferente. Que pode viver sem ter medo, que pode errar e que é possível ser amada pelo que é, sem que do outro lado esperem algo em troca. 
No início sente-se mal por sentir uma espécie de felicidade junto dos Kensilla, um casal só mas não amargurado, que tem uma atitude positiva perante a vida. Cuidam da menina com carinho, envolvem-na na vida familiar, são compreensivos e bem-humorados. Querem que a rapariga se sinta bem e que não sinta que foi abandonada pela família.
A menina sente-se acolhida, como nunca se sentiu na sua própria casa. Em nenhum momento a mãe da menina é criticada, é até alvo de compreensão pelo casal Kensilla. A verdade é que a mãe da menina leva a vida à qual muitas mulheres não conseguem escapar, casadas com homens que só sabem fazer-lhes filhos e reclamar. Mulheres que se tornam insensíveis ao que as rodeia. Só trabalham, sobrevivem, e fazem o melhor que sabem para ir criando os filhos que vão nascendo.

Acolher mostra-nos o lado da criança, a diferença que faz na vida de uma criança sentir que importa, que é amada, que está segura. Todas as crianças se criam, é verdade, mas também é verdade que criar uma criança vai muito para além de alimentar e dar banho. Não digo que estas crianças não são amadas, porque o são, digo que a vida muita vezes foge ao controlo e, por mais voltas que se dê, se não temos o básico, não há espaço para muito mais. As famílias vão sobrevivendo e, estas crianças, se tiverem sorte, conseguem quebrar o ciclo de pobreza, caso contrário perpetuam a única realidade que conheceram. 

Acolher é um livro com uma história que se pode dizer que é bonita, tem momentos de muita ternura e, embora não tenho um final de conto de fadas, porque a miúda acaba, naturalmente por regressar a casa, fica a esperança de que as semanas que passou com os Kensilla sejam aquilo que lhe vai permitir ter uma vida diferente da mãe. E isso é bom. 

Gostei muito da escrita e da forma com Claire Keegan conta a história. Uma escritora a repetir, certamente.

Recomendo!

Boas leituras. 


Excerto (pág.16):
"Fico a vê-lo fazer marcha-atrás, virar para o caminho de acesso e afastar-se. Ouço as rodas passarem por cima do estrado metálico, seguido do som das mudanças e do ruído do motor a fazer a estrada de onde viemos. Porque é que se foi embora sem se despedir, sem dizer que viria buscar-me mais tarde? A brisa estranha e madura que atravessa o pátio de entrada parece-me mais fresca agora, e uma nuvens brancas e gordas surgiram por cima do celeiro.
- O que se passa, rapariga? - pergunta-me a mulher.
Baixo o olhar para os meus pés, sujos dentro das sandálias.
O Kinsella aproxima-se.
- Seja o que for, podes dizer-nos. Não ficamos chateados.
- Ó santo Deus, mas então não é que ele se foi embora e se esqueceu de deixar os teus cacarecos?! - exclama a mulher. - Não admira que estejas enervada. Enfim, é mesmo uma cabeça oca, aquele homem.
- Acabou-se a conversa - diz o Kinsella. - Nós tratamos de te arranjar o que vestir.
- E não se fala mais nisso - comenta a mulher, imitando o meu pai.
Riem-se às gargalhadas por momentos e depois calam-se."

agosto 31, 2025

[Ebook] Torto Arado - Itamar Vieira Júnior

Título original: Torto Arado
Ano da edição original: 2018
Autor: Itamar Vieira Júnior
Editora: Leya


Bibiana e Belonísia são filhas de trabalhadores de uma fazenda no Sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário. Intrigadas com uma mala misteriosa sob a cama da avó, pagam o atrevimento de lhe pôr a mão com um acidente que mudará para sempre as suas vidas, tornando-as tão dependentes que uma será até a voz da outra.

Porém, com o avançar dos anos, a proximidade vai desfazer-se com a perspectiva que cada uma tem sobre o que as rodeia: enquanto Belonísia parece satisfeita com o trabalho na fazenda e os encantos do pai, Zeca Chapéu Grande, entre velas, incensos e ladainhas, Bibiana percebe desde cedo a injustiça da servidão que há três décadas é imposta à família e decide lutar pelo direito à terra e a emancipação dos trabalhadores. Para isso, porém, é obrigada a partir, separando-se da irmã.

Numa trama tecida de segredos antigos que têm quase sempre mulheres por protagonistas, e à sombra de desigualdades que se estendem até hoje no Brasil, Torto Arado é um romance polifónico belo e comovente que conta uma história de vida e morte, combate e redenção, de personagens que atravessaram o tempo sem nunca conseguirem sair do anonimato.


Bibiana e Belonísia são irmãs, e é através delas que a história vai ser contada. As duas são filhas do curandeiro da fazenda onde a família vive e trabalha desde sempre. O pai. conciliador e ponderado, era respeitado por todos. Fazia partos, curava doenças e dava voz aos Encantados, os espíritos antigos que vagueavam pelo mundo, tão mais poderosos quanto o culto que os humanos lhes faziam.

Depois de um acontecimento trágico, que marca a vidas das duas irmãs, as duas seguem juntas, cada vez mais unidas. A adolescência afasta-as, cada uma com dificuldade em perceber a outra, inseguras e com visões aparentemente diferentes da vida que as espera. Seguem separadas mas a ligação que as une, o afeto que têm uma pela outra nunca desparece e, a vida tratará de as voltar a unir.

Belonísia gosta de trabalhar a terra, gosta de aprender com o pai. Não espera muito da vida. É pensativa, sossegada. Tem medo de perturbar o meio que a rodeia e das consequências que isso pode trazer. Só depois de muito sofrimento é que se vai encontrar, conhecer-se a si própria e ganhar o seu espaço no mundo.
Bibiana, também influenciada pelo futuro marido, começa a questionar as condições em que vivem. O facto de continuarem a trabalhar de graça, sem terem nada de seu. Sem qualquer possibilidade de sequer sonharem a terem uma vida diferente. 
Acaba por ir embora com o marido. Querem melhorar as suas vidas e ajudar todos os outros a terem condições para seguirem o caminho que quiserem, para que o único caminho não seja o herdado pelos pais - trabalharem uma terra que não é deles, terem uma casa que não permitia criar raízes, casarem e continuarem a gerar trabalhadores para a fazenda.

A história segue a vidas destas duas irmãs, descendentes de escravos libertados, dezenas de milhar de pessoas que foram libertadas sem qualquer apoio ou plano de integração. Sem terra, sem dinheiro e sem saber ler, andavam de terra em terra em busca de morada. Um sítio onde pudessem trabalhar as terras do proprietário e, em troca, poder construir uma casa, que não podia ser de pedra. Tinham também autorização para, nos poucos tempos livres, plantar para eles próprios, para comerem ou para venderem. 

Estas foram as condições que os escravos libertos encontraram quando a escravatura foi abolida. 
Conquistaram a liberdade de poderem ir embora para onde quisessem, quando quisessem, no entanto, quão livre é uma pessoa que não tem casa e que não recebe dinheiro pelo seu trabalho? Quão livre é alguém a quem foi negada educação?

Torto Arado está muito bem escrito e com personagens que são impactantes. Consegue passar a ideia das dificuldades que viviam, a violência latente, o preconceito, a acomodação ao conhecido a dificuldade em quere fazer diferente e quebrar o ciclo.

Vou regressar a Itamar Vieira Júnior, não tenho dúvidas sobre isso e, por isso, só posso recomendar.

Boas leituras!

Excerto:
"Um dia, meu irmão Zezé perguntou ao nosso pai o que era viver de morada. Por que não éramos também donos daquela terra, se lá havíamos nascido e trabalhado desde sempre. Por que a família Peixoto, que não morava na fazenda, era dita dona. Por que não fazíamos daquela terra nossa, já que dela vivíamos, plantávamos as sementes, colhíamos o pão. Se dali retirávamos nosso sustento.
Esse dia vive em minha memória. Não se apaga nem se afasta ainda que envelheça. O sol era tão forte que quase tudo ao alcance de minha visão estava branco, refletindo a luz intenda do céu sem nuvens. Meu pai retirou o chapéu, calor fazia minar de seu corpo um suor grosso que lavava seu rosto, escorrendo pela fronte e pelas têmporas. Escorria pelo lado anterior de seus braços, formando grandes manchas em sua camisa surrada. O barro cobria sua calça, sua enxada, seus braços, o seu chapéu largo em suas mãos. Eu atirava milho e restos de comida para as galinhas. «Pedir morada é quando você não sabe para onde ir, porque não tem trabalho de onde vem. Não tem de onde tirar o sustento», apertou os olhos olhando para a cova diante de seus pés, «aí você pergunta pra quem tem e quem precisa de gente para trabalho "moço, o senhor me dá morada?"». De pronto seu olho se ergueu para meu irmão, «Trabalhe mais e pense menos. Seu olho não deve crescer para o que não é seu». Apoiou a enxada em pé no solo, segurando a ponta do seu cabo com um dos braços. «O documento da terra não vai lhe dar mais milho, nem feijão. Não vai botar comida na nossa mesa.» Retirou papel e fumo do bolso e começou a fazer um cigarro. «Está vendo esse mundão de terra aí? O olho cresce. O homem quer mais. Mas suas mãos não dão conta de trabalhar ela toda, dão? Você sozinho consegue trabalhar essa tarefa  que a gente trabalha. Essa terra que cresce mato, que cresce a caatinga, o buriti, o dendê, não é nada sem trabalho. Não vale nada. Pode valer até para essa gente que não trabalha. Que não abre uma cova, que não sabe semear e colher. Mas para gente como a gente a terra só tem valor se tem trabalho. Sem ele a terra é nada.»"