abril 04, 2026

O Menino - Fernando Aramburu

Título original: El Niño
Ano da edição original: 2024
Autor: Fernando Aramburu
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote

Nicasio, já reformado, costuma ir às quintas-feiras ao cemitério de Ortuella visitar a sepultura do neto. É um dos muitos falecidos na sequência de uma explosão de gás numa escola daquela localidade, um acidente que sacudiu o País Basco e toda a Espanha em 1980. Pelas andanças do avô, uma figura que se afirma até se tornar indelével, pelo testemunho da mãe, muitos anos depois, pela crónica objetiva do que sucedeu à família, descobriremos como aquela  tragédia dilacerante trouxe à baila aspetos desconhecidos das suas personalidades e como transtornou para sempre as suas vidas.

Com a mestria habitual de Aramburu, o leitor ver-se-á imerso numa história de emoções inesperadas, uma exploração psicológica e literária que o manterá preso até à última linha, para entender e se comover com o destino das personagens. Pelo tratamento extremamente humano que lhes é dado, e pelos recursos estilísticos utilizados, O Menino é um romance memorável, um prodígio literário do melhor Aramburu.


Uma história baseada num acontecimento real. Em 1980, em Ortuella uma fuga de gás provocou uma explosão na escola primária da localidade provocando a morte a 50 crianças e dois adultos.

Nuco é filho de Mariaje e José Miguel, e neto de Nicásio, o pai de Mariaje e, foi uma das crianças que morreu naquele dia.

A história é-nos contada por Mariaje, que muitos anos depois desfia as memórias daquele dia trágico e de como foram todos vivendo depois de tudo o que aconteceu.
 
Relembra a forma como lidou com a morte de Nuco, uma criança amorosa de 6 anos, o seu único filho. A forma como lidou com o luto do marido que, com dificuldade em expressar a sua própria dor, pede-lhe que tenham mais um filho. Não quer substituir o Menino mas acha que uma nova criança lhes vai aliviar a dor.
Tem de lidar também com o luto do pai. A perda do Menino deixa o avô preso a uma fantasia, na qual Nuco continua vivo. Mariaje percebe que é a forma que ele tem de lidar com a perda mas, não deixa de ser doloroso ter o pai a falar-lhe de Nuco como se ele ainda estivesse vivo. 

E Mariaje? Como é que ela consegue fazer o seu próprio luto? A reação à perda do seu Menino, para quem vê de fora, parece fria, sem emoção. Na verdade Mariaje ficou vazia de tudo. Vai sobrevivendo como pode, navegando esta nova realidade conforme acha que é melhor e, na verdade, toda a comunidade parece querer esquecer a tragédia e seguir em frente. Todos fazem o luto em privado, ninguém chora mais alto ou pede mais compaixão. Todos perderam.

É um livro pequeno, escrito com capítulos muito curtos, que incentivam a uma leitura rápida, sem pausas. Está escrito de uma forma muito objetiva, sem qualquer intenção de provocar emoções, sem apelar descaradamente ao coração do leitor. O acontecimento em si não precisa de ser amplificado.
A intenção do autor é narrar factos e, pelo meio, o próprio livro, ganha voz e vai revelando detalhes que o autor deixou de fora, e que complementam a narrativa.

É muito interessante a forma como está escrito.

Gosto da escrita de Fernando Aramburu e, ao contrário de Pátriade que gostei muito mas achei por vezes repetitivo, este O Menino tem o tamanho certo. 

Gostei e recomendo!

 Boas leituras!

Excerto 
(pág.15)
"Passados os anos, verifico que fui menos infeliz do que alguma vez cheguei a pensar, a não ser que o tempo e uma falta de memória que se me tenha ido infiltrando à socapa nos neurónios me estejam a desarrumar os fios da mente. Tudo é possível. O meu projeto de vida desfez-se da noite para o dia pela razão que o senhor conhece e por outras razões que eu não sei se lhe interessará conhecer, mas não estou desfeita, continuo de pé a respirar e a gozar com saúde e tranquilidade a minha reforma, e não declaro tudo isto para armar em dura nem em valente. Se nas minhas piores horas não sucumbi a um transtorno depressivo foi graças ao afeto que o meu marido se esforçou por me proporcionar, tão desajeitado, coitadinho, nos assuntos sentimentais; ao meu pai, por o ser e porque a necessidade que tinha de mim fez com que muitas vezes me esquecesse das minhas mágoas ou as relegasse para outro momento e depois para outro, e também, conquanto ignore até que ponto, ao consolo às revoadas que durante uma época a religião me deu."

(pág.22)
"Mariaje guarda uma viva recordação da manhã de 23 de outubro. Se pudesse, teria aplicado uma borracha na parte do cérebro onde alberga as imagens daquela jornada, que ainda agora, muito tempo depois, não hesita em qualificar de horrível; mas bem sabemos, acrescenta, que a memória funciona por conta própria. Logo a seguir afirma, em franca contradição, que seria injusto esquecer-se de Nuco por completo. Oscila, pois, esquecer e recordar, e no fundo ainda bem que não tem controlo direto sobre as suas recordações. Aprender a viver com elas foi em todos estes anos o seu maior desafio."

outubro 04, 2025

[Ebook] Crónicas Marcianas - Ray Bradbury

Título original: The Martian Chronicles
Ano da edição original: 1950
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Paulo Tavares
Editora: Cavalo de Ferro

«Não precisamos de outros mundos, precisamos de espelhos, não queremos conquistar o cosmo, só queremos estender as fronteiras da Terra até ele», escreveria muitos anos depois destas Crónicas Marcianas Stanislaw Lem, em Solaris, uma das outras grandes obras que ultrapassam em muito as fronteiras da ficção científica e que são, em certa medida, devedoras deste livro fundador de Bradbury, publicado pela primeira vez em 1950, sobre a chegada do Homem a Marte — um território de mares vazios, colunas de cristal e ruínas de cidades axadrezadas, habitado por uma misteriosa civilização — e as suas tentativas de conquistar e colonizar este planeta.
Crónicas Marcianas tornou-se uma das obras mais célebres e traduzidas de Ray Bradbury, oferecendo uma visão da essência contraditória do Homem, dos seus sonhos de infinito e da sua natureza destrutiva. Borges, um dos muitos confessos admiradores desta obra, dedicou-lhe um dos seus famosos Prólogos, no qual se interrogava: «Que fez este homem de Illinois para que, ao fechar as páginas do seu livro, episódios sobre a conquista de outro planeta me povoem de terror e de solidão? Como podem estas fantasias tocar-me de um modo tão íntimo?»

Gostei muito deste livro de pequenas histórias, com relação entre si, sobre a conquista e a colonização de Marte pelos humanos.

As primeiras histórias descrevem a vida dos marcianos antes da primeira expedição humana, a Marte, que foi bem sucedida. Depois é descrita a primeira expedição que aterra com sucesso, todos sobrevivem, mas nenhum contacto é feito com a Terra e ninguém regressa a casa para contar como correu e o que encontraram os primeiros humanos ao aterrar em Marte. 
O aparente falhanço da primeira expedição não parece diminuir a vontade de voltar a tentar. E é isso que vai acontecendo ao longo de anos e décadas a fio, algumas são bem sucedidas, outras nem por isso mas, o contacto começa a ser feito com a Terra e, as viagens entre os dois planetas tornam-se seguras.
 
E os marcianos das primeiras histórias? Como é a vida em Marte entre humanos e marcianos? Os humanos começam a colonizar Marte e, não é precisa muita imaginação para perceber que, a determinada altura, os marcianos passam a ser uma espécie extinta. Os humanos foram para Marte para fugir de uma Terra destruída por guerras contínuas, espoliada até ao limite. Porque seria diferente com Marte? Porque é que os humanos seriam diferentes? Porque é que deixariam de se comportar como a espécie dominante e respeitar a civilização existente?

Gostei muito. De Ray Bradbury apenas li Fahrenheit 451, de que gostei (opinião aqui) não tendo ficado impressionada com a escrita. Deste Crónicas Marcianas, gostei muito, da escrita e da forma como o mundo marciano é construído. Tem sentido de humor e é muito imaginativo. Gostei bastante.

Recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excerto:
"Trouxeram quinze mil pés de tábua de pinho do Oregon e setenta e nove mil de sequóia da Califórnia para construírem a Décima Cidade, uma pequena povoação limpa e bonita junto aos canais de pedra. Nas noites de domingo, era possível ver a luz vermelha, azul e verde dos vitrais das igrejas e ouvir as vozes que cantavam os hinos numerados: «Cantemos agora o setenta e nove»; «Cantemos agora o noventa e quatro.» E, em certas casas, ouvia-se a batida forte de uma máquina de escrever, o romancista a trabalhar; ou o arranhar de uma caneta, o poeta a trabalhar; ou nenhum som, o antigo vagabundo a trabalhar. Em muitos aspectos, era como se um grande terramoto tivesse arrancado as raízes e os alicerces de uma cidade de Iowa e depois, num abrir e fechar de olhos, um tornado de proporções dignas de Oz tivesse transportado a cidade inteira para Marte, pousando-a sem um único solavanco..."

Acolher - Claire Keegan

Título original: Foster
Ano da edição original: 2010
Autor: Claire Keegan
Tradução: Marta Mendonça
Editora: Relógio d'Água

Uma menina vai viver com pais adotivos numa quinta na zona rural da Irlanda sem saber quando regressará. Numa casa desconhecida, de gente estranha, encontra um calor e uma afeição que não sabia existirem e começa lentamente a florescer. Até que a revelação de um segredo a faz compreender a fragilidade da sua vida.

É um livro muito curto, que se lê numa tarde. Neste livro pequeno, vamos encontrar uma história bonita, daquelas que, não apelando à lágrima, nos deixam sensibilizados. Temos vontade de abraçar a menina que é enviada, temporariamente para casa de um casal para que tomem conta dela. A mãe está novamente grávida e, menos uma criança com que se preocupar é uma ajuda que é bem-vinda. 
A menina não sabe quanto tempo irá ficar, mas depressa percebe que a vida pode ser diferente. Que pode viver sem ter medo, que pode errar e que é possível ser amada pelo que é, sem que do outro lado esperem algo em troca. 
No início sente-se mal por sentir uma espécie de felicidade junto dos Kensilla, um casal só mas não amargurado, que tem uma atitude positiva perante a vida. Cuidam da menina com carinho, envolvem-na na vida familiar, são compreensivos e bem-humorados. Querem que a rapariga se sinta bem e que não sinta que foi abandonada pela família.
A menina sente-se acolhida, como nunca se sentiu na sua própria casa. Em nenhum momento a mãe da menina é criticada, é até alvo de compreensão pelo casal Kensilla. A verdade é que a mãe da menina leva a vida à qual muitas mulheres não conseguem escapar, casadas com homens que só sabem fazer-lhes filhos e reclamar. Mulheres que se tornam insensíveis ao que as rodeia. Só trabalham, sobrevivem, e fazem o melhor que sabem para ir criando os filhos que vão nascendo.

Acolher mostra-nos o lado da criança, a diferença que faz na vida de uma criança sentir que importa, que é amada, que está segura. Todas as crianças se criam, é verdade, mas também é verdade que criar uma criança vai muito para além de alimentar e dar banho. Não digo que estas crianças não são amadas, porque o são, digo que a vida muita vezes foge ao controlo e, por mais voltas que se dê, se não temos o básico, não há espaço para muito mais. As famílias vão sobrevivendo e, estas crianças, se tiverem sorte, conseguem quebrar o ciclo de pobreza, caso contrário perpetuam a única realidade que conheceram. 

Acolher é um livro com uma história que se pode dizer que é bonita, tem momentos de muita ternura e, embora não tenho um final de conto de fadas, porque a miúda acaba, naturalmente por regressar a casa, fica a esperança de que as semanas que passou com os Kensilla sejam aquilo que lhe vai permitir ter uma vida diferente da mãe. E isso é bom. 

Gostei muito da escrita e da forma com Claire Keegan conta a história. Uma escritora a repetir, certamente.

Recomendo!

Boas leituras. 


Excerto (pág.16):
"Fico a vê-lo fazer marcha-atrás, virar para o caminho de acesso e afastar-se. Ouço as rodas passarem por cima do estrado metálico, seguido do som das mudanças e do ruído do motor a fazer a estrada de onde viemos. Porque é que se foi embora sem se despedir, sem dizer que viria buscar-me mais tarde? A brisa estranha e madura que atravessa o pátio de entrada parece-me mais fresca agora, e uma nuvens brancas e gordas surgiram por cima do celeiro.
- O que se passa, rapariga? - pergunta-me a mulher.
Baixo o olhar para os meus pés, sujos dentro das sandálias.
O Kinsella aproxima-se.
- Seja o que for, podes dizer-nos. Não ficamos chateados.
- Ó santo Deus, mas então não é que ele se foi embora e se esqueceu de deixar os teus cacarecos?! - exclama a mulher. - Não admira que estejas enervada. Enfim, é mesmo uma cabeça oca, aquele homem.
- Acabou-se a conversa - diz o Kinsella. - Nós tratamos de te arranjar o que vestir.
- E não se fala mais nisso - comenta a mulher, imitando o meu pai.
Riem-se às gargalhadas por momentos e depois calam-se."

agosto 31, 2025

[Ebook] Torto Arado - Itamar Vieira Júnior

Título original: Torto Arado
Ano da edição original: 2018
Autor: Itamar Vieira Júnior
Editora: Leya


Bibiana e Belonísia são filhas de trabalhadores de uma fazenda no Sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário. Intrigadas com uma mala misteriosa sob a cama da avó, pagam o atrevimento de lhe pôr a mão com um acidente que mudará para sempre as suas vidas, tornando-as tão dependentes que uma será até a voz da outra.

Porém, com o avançar dos anos, a proximidade vai desfazer-se com a perspectiva que cada uma tem sobre o que as rodeia: enquanto Belonísia parece satisfeita com o trabalho na fazenda e os encantos do pai, Zeca Chapéu Grande, entre velas, incensos e ladainhas, Bibiana percebe desde cedo a injustiça da servidão que há três décadas é imposta à família e decide lutar pelo direito à terra e a emancipação dos trabalhadores. Para isso, porém, é obrigada a partir, separando-se da irmã.

Numa trama tecida de segredos antigos que têm quase sempre mulheres por protagonistas, e à sombra de desigualdades que se estendem até hoje no Brasil, Torto Arado é um romance polifónico belo e comovente que conta uma história de vida e morte, combate e redenção, de personagens que atravessaram o tempo sem nunca conseguirem sair do anonimato.


Bibiana e Belonísia são irmãs, e é através delas que a história vai ser contada. As duas são filhas do curandeiro da fazenda onde a família vive e trabalha desde sempre. O pai. conciliador e ponderado, era respeitado por todos. Fazia partos, curava doenças e dava voz aos Encantados, os espíritos antigos que vagueavam pelo mundo, tão mais poderosos quanto o culto que os humanos lhes faziam.

Depois de um acontecimento trágico, que marca a vidas das duas irmãs, as duas seguem juntas, cada vez mais unidas. A adolescência afasta-as, cada uma com dificuldade em perceber a outra, inseguras e com visões aparentemente diferentes da vida que as espera. Seguem separadas mas a ligação que as une, o afeto que têm uma pela outra nunca desparece e, a vida tratará de as voltar a unir.

Belonísia gosta de trabalhar a terra, gosta de aprender com o pai. Não espera muito da vida. É pensativa, sossegada. Tem medo de perturbar o meio que a rodeia e das consequências que isso pode trazer. Só depois de muito sofrimento é que se vai encontrar, conhecer-se a si própria e ganhar o seu espaço no mundo.
Bibiana, também influenciada pelo futuro marido, começa a questionar as condições em que vivem. O facto de continuarem a trabalhar de graça, sem terem nada de seu. Sem qualquer possibilidade de sequer sonharem a terem uma vida diferente. 
Acaba por ir embora com o marido. Querem melhorar as suas vidas e ajudar todos os outros a terem condições para seguirem o caminho que quiserem, para que o único caminho não seja o herdado pelos pais - trabalharem uma terra que não é deles, terem uma casa que não permitia criar raízes, casarem e continuarem a gerar trabalhadores para a fazenda.

A história segue a vidas destas duas irmãs, descendentes de escravos libertados, dezenas de milhar de pessoas que foram libertadas sem qualquer apoio ou plano de integração. Sem terra, sem dinheiro e sem saber ler, andavam de terra em terra em busca de morada. Um sítio onde pudessem trabalhar as terras do proprietário e, em troca, poder construir uma casa, que não podia ser de pedra. Tinham também autorização para, nos poucos tempos livres, plantar para eles próprios, para comerem ou para venderem. 

Estas foram as condições que os escravos libertos encontraram quando a escravatura foi abolida. 
Conquistaram a liberdade de poderem ir embora para onde quisessem, quando quisessem, no entanto, quão livre é uma pessoa que não tem casa e que não recebe dinheiro pelo seu trabalho? Quão livre é alguém a quem foi negada educação?

Torto Arado está muito bem escrito e com personagens que são impactantes. Consegue passar a ideia das dificuldades que viviam, a violência latente, o preconceito, a acomodação ao conhecido a dificuldade em quere fazer diferente e quebrar o ciclo.

Vou regressar a Itamar Vieira Júnior, não tenho dúvidas sobre isso e, por isso, só posso recomendar.

Boas leituras!

Excerto:
"Um dia, meu irmão Zezé perguntou ao nosso pai o que era viver de morada. Por que não éramos também donos daquela terra, se lá havíamos nascido e trabalhado desde sempre. Por que a família Peixoto, que não morava na fazenda, era dita dona. Por que não fazíamos daquela terra nossa, já que dela vivíamos, plantávamos as sementes, colhíamos o pão. Se dali retirávamos nosso sustento.
Esse dia vive em minha memória. Não se apaga nem se afasta ainda que envelheça. O sol era tão forte que quase tudo ao alcance de minha visão estava branco, refletindo a luz intenda do céu sem nuvens. Meu pai retirou o chapéu, calor fazia minar de seu corpo um suor grosso que lavava seu rosto, escorrendo pela fronte e pelas têmporas. Escorria pelo lado anterior de seus braços, formando grandes manchas em sua camisa surrada. O barro cobria sua calça, sua enxada, seus braços, o seu chapéu largo em suas mãos. Eu atirava milho e restos de comida para as galinhas. «Pedir morada é quando você não sabe para onde ir, porque não tem trabalho de onde vem. Não tem de onde tirar o sustento», apertou os olhos olhando para a cova diante de seus pés, «aí você pergunta pra quem tem e quem precisa de gente para trabalho "moço, o senhor me dá morada?"». De pronto seu olho se ergueu para meu irmão, «Trabalhe mais e pense menos. Seu olho não deve crescer para o que não é seu». Apoiou a enxada em pé no solo, segurando a ponta do seu cabo com um dos braços. «O documento da terra não vai lhe dar mais milho, nem feijão. Não vai botar comida na nossa mesa.» Retirou papel e fumo do bolso e começou a fazer um cigarro. «Está vendo esse mundão de terra aí? O olho cresce. O homem quer mais. Mas suas mãos não dão conta de trabalhar ela toda, dão? Você sozinho consegue trabalhar essa tarefa  que a gente trabalha. Essa terra que cresce mato, que cresce a caatinga, o buriti, o dendê, não é nada sem trabalho. Não vale nada. Pode valer até para essa gente que não trabalha. Que não abre uma cova, que não sabe semear e colher. Mas para gente como a gente a terra só tem valor se tem trabalho. Sem ele a terra é nada.»"

agosto 30, 2025

À Sombra das Raparigas em Flor - Em Busca do Tempo Perdido (vol. 2) - Marcel Proust

Título original: À La Recherche du Temp Perdu -Á L'Ombre des Jeunes Filles en Fleur
Ano da edição original: 1919
Autor: Marcel Proust
Tradução: Mário Quintana
Editora: Edição "Livros do Brasil"

"Prosseguindo a publicação de "Em Busca do Tempo Perdido, a Editora Livros do Brasil apresenta agora ao público leitor e apreciador de Marcel Proust o segundo volume desta obra fundamental da literatura francesa.
E aquele reino inteiramente fora do comum que começou a ser desvendado nas páginas anteriores surge agora sob outras nuances, em que as personagens se patenteiam revestidas de novos aspectos, revelando pormenores que anteriormente não teriam sido talvez tão determinados como agora sucede.
Tal como numa sinfonia, os temas vão-se desenvolvendo, como que completando-se, mas sem nunca abandonarem a ideia básica sobre a qual assenta esta obra admirável, símbolo de uma época que Marcel Proust tão magistralmente soube retratar e transmitir à posterioridade."


Neste À Sombra das Raparigas em Flor, 2º volume de Em Busca do Tempo Perdido, continuamos a seguir a vida do narrador do volume anterior, o rapaz de idade mais ou menos indefinida que, agora é presença assídua em casa de Swann e Odette, amigo íntimo de Gilberta por quem continua obcecadamente apaixonado.
Nesta primeira parte o narrador, agora claramente um adolescente, de 15 ou 16 anos, tímido e educado, passa os dias em casa dos Swann, onde vive fascinado com tudo o que diz respeito não só a Gilberta mas também a Odette que, com a sua elegância, os seus vestidos, o seu sentido de humor e a sua descontração fazem com se sinta feliz, acolhido e bem-vindo. A vida social em casa dos Swann, faz com que se esqueça, por momentos, da sua fragilidade e da sua pouca saúde, que de vez em quando o atira para a cama, cheio de febre.

Embora seja presença diária em casa dos Swann, a verdade é que continua a conhecer pouco a menina, tem uma ideia idealizada da mesma e é por essa ideia de perfeição feminina que é apaixonado. NO entanto Gilberta é uma rapariga caprichosa, mimada pelos pais e, ao mesmo tempo com vontade de desafiar todos os que a rodeiam e, quando sente que o nosso narrador não é capaz de a acompanhar e que a aconselha no sentido de obedecer e ser uma boa filha, a relação entre os dois acaba por esfriar. Ela parece seguir a sua vida como se nada fosse e nunca mais o procura. Ele, naturalmente, sofre muito e, não querendo dar parte de fraco também deixa de a procurar, à espera que ela se aperceba da falta que ele lhe faz, o que acaba por não acontecer. Como no primeiro volume, ele imagina as cartas que lhe vai escrever e as respostas apaixonadas que ela lhe dará. 

Por causa dos problemas de saúde que o afligem, o nosso narrador e a avó, acompanhados por Francisca, partem para Balbec, uma estância balnear, onde pretendem passar uma temporada para que ele possa restabelecer energias. 
A chegada a Balbec é atribulada, tem dificuldade em dormir no seu quarto de hotel, estranha tudo e todos. Com os cuidados da avó e de Francisca, pouco e pouco começa a ser capaz de explorar o hotel, as pessoas que nele estão instaladas e a paisagem em volta.
No mesmo hotel, está instalada a Senhora de Villeparisis, uma conhecida de Combray. Uma senhora muito distinta que se torna companhia diária para ele e para a avó.
Ainda antes de conhecer o sobrinho da Senhora de Villeparisis, Roberto de Saint-Loup, que irá visitar a tia e ficar uns dias no hotel, o nosso narrador fica obcecado por ele, imaginando na sua cabeça que irá ser o seu melhor amigo e que se vão tornar inseparáveis. 
O primeiro impacto não é positivo, o sobrinho é carrancudo e distante e despreza o rapaz. Esta primeira impressão depressa de desvanece e, num ambiente mais privado, os dois entendem-se e tornam-se companheiros. Com ele o rapaz começa a sair para fora do seu círculo habitual, indo a festas e jantares.

Um grupo de raparigas, mais ou menos da sua idade, que andam sempre juntas, junto à praia, começa a chamar a sua atenção, principalmente uma delas. Não a conhece e, não fugindo à sua natureza, fica obcecado por descobrir tudo sobre a rapariga. Quando as vê todas juntas não tem a certeza de conseguir distinguir qual delas é aquela por quem se apaixonou. São todas leves, cheias de vida, criaturas perfeitas e felizes cheias de luz e de alegria. 
Quando finalmente é apresentado às raparigas, não quer saber de mais nada, passa os dias com elas e, embora a sua predileta seja Albertina, todos os dias sente que se apaixona por uma delas. É o único rapaz no grupo e elas também o disputam, de forma inconsciente e meio inocente. É nesta interação com as raparigas que conhecemos uma nova faceta do narrador, parece que cresceu, já não é o menino tonto com relações platónicas, imaginadas. Olha de forma quase fria para este grupo de raparigas, como se elas fizessem parte de um catálogo e ele pudesse escolher e mudar de opinião quantas vezes fosse necessário sem grande respeito pelos sentimentos das raparigas.

E, basicamente este segundo volume é isto, uma espécie de desabrochar do narrador, habituado a viver no meio de adultos e de velhotas e que se vê, de repente, rodeado de raparigas que estão a viver, muito provavelmente o último Verão das suas infâncias e isso tem, em alguém com a sensibilidade deste rapaz um efeito inebriante de deslumbramento.

Este segundo volume custou-me a ler. Não achei a história tão interessante, na verdade não acontece nada digno de nota. Toda a narrativa gira em volta do rapaz, havendo muito poucas linhas dedicadas a outras personagens e, o rapaz é, por enquanto, um miúdo aborrecido e não me é muito fácil gostar dele. É um bocado irritante e, não havendo mais nada para além dele, o livro tornou-se mais difícil de acompanhar

Continuo a gostar da escrita e vou avançar para o 3º volume mas, preciso de dar um tempo, porque sinto que posso sentir-me saturada e desistir desta saga. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 364):
"Era então irrealizável a felicidade de conhecer aquelas raparigas? Por certo não era a primeira desse género a que eu havia renunciado. Bastava lembrar tantas desconhecidas que, mesmo em Balbec, o carro que se afastava a toda a velocidade me fizera abandonar para sempre. E até o prazer que me dava o pequeno bando, nobre como se fosse composto de virgens helénicas, provinha de ter qualquer coisa  da fuga das passantes pela estrada. Essa fugacidade das criaturas que não são nossas conhecidas, que nos obrigam a desprender da vida habitual em que as mulheres que frequentamos acabam por revelar as suas taras, coloca-nos nesse estado de perseguição em que nada mais detém a fantasia. Ora. despojar dela os nossos prazeres é reduzi-los a si mesmos, a nada. Oferecidas por uma dessas alcoviteiras, que eu aliás não desprezava, como já se viu, retiradas do elemento que lhes dava tantas cambiantes e imprecisão, aquelas raparigas ter-me-iam encantado menos. Cumpre que a imaginação, despertada pela incerteza de poder atingir o seu objecto, crie uma finalidade que nos oculte a outra e, substituindo o prazer sensual pela ideia de penetrar numa vida, nos impeça de reconhecer esse prazer, de sentir o seu verdadeiro gosto, de restringi-lo aos seus limites."

junho 22, 2025

Sua Excelência, de Corpo Presente - Pepetela

Título: Sua Excelência, de Corpo Presente
Ano da edição original: 2018
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote


"Num enorme salão deitado num caixão jaz um ditador africano. Está morto, mas vê, ouve e pensa. Assim estirado, aprisionado num corpo sem vida, mas na posse das suas faculdades intelectuais, só lhe resta entreter-se a recordar as peripécias vividas com muitos dos que lhe vieram dizer adeus, entre os quais se encontram diversos familiares, a primeira-dama (e as outras mulheres e namoradas), os numerosos filhos e as altas dignidades do Estado. Ao relembrar a sua vida, o percurso que o levou a presidente e os muitos anos como chefe de Estado, vai-nos revelando os meandros do poder político, o nepotismo que o corrói e os vários abusos permitidos a quem o detém.
E, como percebe tudo o que se passa à sua volta, e é muito difícil a um ditador deixar de o ser, Sua Excelência não só vai tecendo considerações sobre os presentes e os seus interesses políticos, como tenta adivinhar os seus pensamentos e maquinações. Pois, mesmo morto, não deixará a sua sucessão em mãos alheias, e nela tentará imiscuir-se através do seu espião-de-um-olho-só, que lhe é tão fiel na morte como era em vida."

O ditador de um país africano morre. O ditador, por algum motivo desconhecido por todos os envolvidos, embora esteja morto e não existam dúvidas relativamente a isso, permanece numa espécie de limbo, e consegue ver e ouvir tudo o que se passa à sua volta. Tem consciência de quem foi, de que morreu e de que está a assistir ao seu próprio funeral. Não está assustado mas sim divertido e muito curioso para saber o que realmente pensam sobre ele. Quem apareceu e, principalmente quem está ausente. 
Enquanto decorrem as cerimónias, relembra a sua vida e todos os que se cruzaram consigo. Os aliados de sempre, os muitos amores, os filhos, os amigos e os inimigos. Recorda a forma como chegou à posição de Chefe de Estado e como se manteve por lá tantos anos.

Pepetela não desilude. Este é um tema de que o escritor gosta. Caminha pelos meandros do poder, de homens que governam para si e não para quem os elege. Homens que utilizam o seu poder para enriquecer, sabendo que não pode ser de outra maneira. Se não fossem eles seriam outros a fazer exatamente o mesmo. O sistema está podre e ninguém está interessado em torná-lo melhor e mais justo.
Protegem-se a si e aos seus, derrubando todos os que sintam que os podem atraiçoar.

Não sendo o meu livro favorito de Pepela, é um livro divertido e que se lê bem.

Recomendo sem qualquer ressalva.

Boas leituras!

Excerto (pág. 9):
"Estou morto.
Estou morto, de olhos cerrados, mas percebo tudo (ou quase) do que acontece à minha volta. Sei, estou deitado dentro de um caixão, num salão cheio de flores, as quais, em vida, me fariam espirrar. As pessoas não sabem que flores de velório cheiram mal? Sabem, mas a tradição é mais forte e velório sem flores é para pobre.
Ora, não somos pobres, dominamos uma nação.
Estou morto, no entanto, posso escutar, entender os dizeres, mesmo os sussurros e, em alguns casos, adivinhar pensamentos.
Um grupo cochicha lá atrás na multidão. A distância e outros sons e ideias partilhando o éter não permitem perceber a razão das piadas em surdina, ou estarão a conspirar governos e lideranças, ou a prever o futuro. Esses são inimigos há muito camuflados, pois se divertem ao me verem estirado em fato preto no caixão. É cedo para revelar nomes, mas conheço todos e nenhum me surpreenderá. Sempre os avaliei como hostis, ou a minha polícia política não valeria os altos salários sempre providos a tempo e alguns presentes caros pelo Natal. Deixei-os intrigarem durante anos, eram inócuos. Sem mim na tribuna, talvez ganhem alguma força, daí a alegria deles. Ou o que virá para o meu lugar dá cabo do seu pescoço com um assopro. Uma coisa é certa, no momento do meu enterro, também se prostrarão em soluços, alguns até se ajoelharão, em gesto de orfãos desamparados. E cantarão saudades antecipadas. De preferência diante de jornalistas e televisões.
É a natureza das coisas."

maio 18, 2025

[Ebook] À Espera do Dilúvio - Dolores Redondo

Título original: Esperando al Diluvio
Ano da edição original: 2022
Autor: Dolores Redondo
Tradução: Ana Maria Pinto da Silva
Editora: Planeta

"Entre 1968 e 1969, o assassino, que a imprensa batizou de John Biblia, matou três mulheres em Glasgow. Nunca foi identificado e o caso continua em aberto até hoje.
Neste romance, passado no início dos anos 80, Noah Scott Sherrington, investigador da polícia escocesa consegue localizar John Biblia, mas no momento de o prender sofre um ataque de coração. Apesar da sua saúde frágil, contra o conselho médico e a recusa dos seus superiores para que continue a perseguir o assassino em série, Noah segue um palpite que o levará a Bilbau, em 1983. Poucos dias antes de um dilúvio varrer a cidade.
Dolores Redondo define-se como «uma escritora de tempestades» e com este novo romance, baseado em factos reais, leva-nos ao epicentro de uma das maiores tempestades do século passado, ao mesmo tempo que retrata uma época de plena agitação política e social. É uma homenagem à cultura do trabalho, cheia de nostalgia de um tempo em que a rádio era uma das poucas janelas abertas para o mundo e, sobretudo, para a música. É também um hino à camaradagem e às histórias de amor que nascem de um capricho.
Uma obra deslumbrante com personagens que nos levam da mais terrível crueldade à esperança no ser humano."

Scott Sherrington, polícia de investigação escocês, vive obcecado por encontrar John Bíblia, um assassino em série, nunca identificado, que anda há décadas a assassinar jovens raparigas. Todas estas raparigas, partilham entre si o facto de estarem menstruadas na altura em que são assassinadas.

Quando Scott parece ter descoberto John Bíblia e se prepara o prender, sofre um ataque cardíaco fulminante. John foge e Scott quase morre, abandonado à beira do rio, num dia de chuva abundante. 
Scott acorda numa cama de hospital e não se lembra de quase nada. Lembra-se que encontrou John, tem a certeza de que era John Bíblia e depois, é só um espaço em branco. Não se lembra de mais nada.

No hospital Scott descobre que quase morreu e que o seu ataque cardíaco foi mais do que um ataque. Scott está gravemente doente, com um problema cardíaco intratável, que a qualquer momento o pode matar de vez. A sua situação clínica exige repouso, boa alimentação e zero stress, tudo aquilo que a vida de Scott não permite. 
Em estado de choque por todas estas novidades, com alguma dificuldade em aceitar a sentença de morte que lhe passaram no hospital, Scott só pensa em apanhar John Bíblia antes de morrer. Sente que mais ninguém o conseguirá fazer e ficar parado à espera que a morte decida que chegou a sua hora não lhe parece ser, sequer, uma opção.

Quando sai do hospital não perde tempo e retoma as investigações que o levam a Bilbau, para onde acredita que John Bíblia fugiu depois de quase ter sido preso por Scott.
Em Bilbau, uma cidade portuária, onde muita gente chega e de onde muita gente sai, Scott encontra pessoas duras e trabalhadoras, que gostam de se juntar para beber e relaxar ao fim de um dia de trabalho. Na verdade, Bilbau não é muito diferente de Glasgow, terra natal de Scott.

Chove copiosamente todos os dias e todo o dia. As pessoas são afáveis desde que não se sintam invadidas na sua privacidade e são genuinamente alegres e generosas não obstante a vida dura que levam.
Em Bilbau, sob disfarce, Scott conhece Maite, a dona de um bar perto da pensão onde está a viver. Apaixona-se por Maite, e luta contra o sentimento porque, na verdade, estando a morrer, não faz muito sentido arrastar outra pessoa para o fim triste que o espera.
Conhece Rafa, um jovem com 16/17 anos, com paralisia cerebral. É um miúdo solitário, discriminado pelos outros miúdos mas que se sente acolhido por Scott, adivinhando o que o trouxe ali e ansioso por poder ajudar.
Conhece ainda Mikael, uma espécie de polícia do sítio, que também acaba por se juntar a Scott e ajudá-lo na perseguição a John Bíblia.

À Espera do Dilúvio, é um policial típico, diria eu, e não digo isto de forma depreciativa. Tem momentos de grande tensão e descrições perturbadoras, que incomodam. Dolores Redondo faz isso bem, tem uma escrita que prende e a história principal está bastante bem construída.

Onde é que este livro me perdeu um pouco? No romance de faca e alguidar de Scott e Maite porque parece forçado. Um amor descoberto depois de uma sentença de morte, em que lhe deram meses, semanas, talvez dias de vida? Parece um pouco o enredo de um daqueles filmes que passam no Star Life, com atores bonitos, paisagens impecáveis, vidas perfeitas e zero argumento e representação. :p

Dispensava também as premonições e as partes mais espirituais de Scott. Não combina com ele, não sei. Parecem-me deslocadas e uma muleta para justificar alguns desenvolvimentos, como se a autora não tivesse capacidade para fazer de outra forma. 

Mas, tirando estes pormenores gostei muito da história e da forma como é contada. Da envolvente chuvosa, escura e húmida que concorre com a alegria dos bascos e com as festas da cidade que não são prejudicadas pela chuva incessante.

Não sendo este o meu género de eleição diria que é um bom livro, com uma boa história, bem escrito e que vale a pena ler. 

Boas leituras!

Excerto:
"Avançou escondendo-se atrás dos troncos e procurando entre o matagal os exíguos raios de luz da Lua, que de vez em quando se infiltravam por entre as densas nuvens de tempestade. O estrondo que as árvores faziam era fenomenal. Os ramos batiam uns de encontro aos outros e Scott Sherrington teve a sensação de que caíam por toda a parte pedaços da ramagem quebrada pela fúria do vento. Tentou concentrar-se; se não o fizesse, corria o risco de caminhar ao acaso e acabar na outra extremidade do bosque. Como se alguém tivesse escutado as suas preces, as luzes traseiras do Capri brilharam no escuro como os olhos de um monstro lendário. O terreno formava ali uma planície, e a folhagem espessa da árvore debaixo da qual Clyde havia estacionado parecia ter mantido o solo razoavelmente compacto à sua volta, mas pela ladeira inclinada atrás de si a água descia formando um pequeno regato natural de água lamacenta. As luzes dianteiras do carro projetavam-se na direção da margem iluminando as bátegas de chuva, que como cortinas embaladas pelo vento ondulavam diante dos faróis do Capri.
Scott Sherrington sobressaltou-se. Sem se dar conta, tinha-se aproximado muito, demasiado."