Título original: Regardez-nous danser (Le Pays des Autres, 2)
Ano da edição original: 2015
Autor: Leïla Slimani
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara
Ano da edição original: 2015
Autor: Leïla Slimani
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara
1968, Marrocos: Mathilde, alsaciana, e Amine, oficial do Exército marroquino, são um casal com uma longa história atrás de si e um incerto futuro pela frente, à imagem do país onde vivem. Esta é a história de uma família hesitante entre a tradição e a modernidade, protagonizada por uma mulher enredada entre duas culturas, sufocada pelo conservadorismo do país onde escolheu viver e dividida entre a dedicação à família e o amor à liberdade. É também a história de um país que acabou de conquistar a independência e que procura o seu lugar, entre o espartilho religioso e o fascínio pelo Ocidente, entre a repressão e o hedonismo.
Leïla Slimani, uma das vozes mais importantes da literatura francesa, regressa à história da própria família para construir um romance cheio de personagens inesquecíveis e imagens fortes. Retratando um tempo e um lugar em que ressoam os ecos do Maio de 68 e as mulheres encetam o pedregoso caminho da emancipação, a escritora reafirma a sua impressionante destreza narrativa e o olhar clínico sobre a intimidade.
Vejam como Dançamos é o segundo livro da Trilogia O País dos Outros e, deste gostei bastante. Talvez porque tivesse menos Mathilde e Amine. A relação dos dois não me cativou nada. Não na forma como foi descrita por Slimani.
Neste segundo volume a história centra-se mais nos dois filhos do casal, já crescidos. Aïcha a terminar o curso de medicina em França e o irmão, Selim, ainda a estudar e a viver com os pais.
Os dois são muito diferentes um do outro. Aïcha continua a ser uma miúda tímida, muito inteligente mas sem grandes competências sociais. Insegura, quase pode licença para existir. Estuda, faz amigos com dificuldade e apaixona-se por Mehdi, um jovem marroquino, revolucionário, cheio de ideias de liberdade e de uma sociedade marroquina menos conservadora. Mehdi é uma espécie de intelectual de esquerda. :) É muito interessante ver a evolução de Aïcha ao longo da história. É uma personagem muito bem desenvolvida.
O irmão não sabe o que fazer da vida. Sendo o único rapaz, o pai espera que ele se interesse pela quinta e o ajude. Ele não está interessado e tem medo do pai. Não se sente bem em casa e estranha o próprio país que não conhece de todo.
Fisicamente destaca-se, é loiro de olhos claros e, sente que nunca será realmente aceite no seu país, o único que conhece. Por isso, e porque faria tudo para sair de casa, para longe dos pais que não o compreendem, junta-se a uma comunidade de hippies estrangeiros e parte com eles. Vai conhecer o seu próprio país, para além dos portões da quinta dos pais.
Neste livro seguimos também a vida de Selma e de Omar, irmãos de Amine.
Selam é uma miúda rebelde para a cultura e hábitos marroquinos. É bonita demais e simpática de mais para o conservadorismo dos irmãos, Amine e Omar. Tenta ser feliz, longe deles. Apaixona-se por um piloto americano, que a engravida e abandona. Amine, para esconder a vergonha desta gravidez fora do casamento, obriga a irmã a casar com um ex-companheiro de Amine na guerra, bem mais velho que Selma. É muito triste ver Selma castrada desta forma e sem o apoio da cunhada Mathilde. Lamenta que a cunhada não lhe devolva, agora, a forma como aberta e sincera como recebeu Mathilde, quando esta chegou a Marrocos, completamente perdida e assustada. Achou que a cunhada era sua amiga e sente-se traída por esta não a defender do irmão.
Omar sempre teve ciúmes de Amine, o irmão mais velho a quem todas a oportunidades foram dadas. É um rapaz violento, um pouco desequilibrado, muito revoltado com tudo e com todos, a viver num país que procura desesperadamente encontrar uma identidade própria depois da independência da França que demora a sair, a todos os níveis de Marrocos. Omar tem um fim trágico. É uma daquelas personagens que sabemos à partida que não pode acabar bem tal é a sua atração pelo caos.
Neste segundo volume, aprofunda-se mais ainda a questão da relação tensa com França. Aïcha e Selim nasceram em Marrocos mas como são filhos de uma francesa, estudaram sempre numa escola francesa. Como todos os miúdas da sua idade, Aïcha parte para França para prosseguir os estudos superiores.
Enquanto vivem em Marrocos os únicos marroquinos nas suas vidas são os tios, a avó, o pai e os empregados da quinta. Só se dão com franceses e apenas sabem falar francês. Não conhecem o país onde nasceram e vivem numa bolha que os deixa, à medida que crescem, com crises de identidade e com um sentimento de que não pertencem a lado nenhum. Apenas a quinta dos pais os une e até esse lugar onde cresceram lhes traz memórias que preferiam esquecer.
Gostei mais deste segundo volume do que do primeiro. Achei as personagens mais bem desenvolvidas e achei a história mais coesa.
Gostei e recomendo.
Boas leituras!
Excerto:
"Enquanto a filha estava nos bancos da faculdade, enquanto Selma vivia a sua vida em Rabat, ei-la ali, naquela cozinha, com o rosto por cima de uma toalha a cheirar a pano molhado. Que se aprende dentro de uma cozinha? Século após século, as mulheres criaram na cozinha poções para curar e fazer crescer, para consolar e fazer feliz. Nela, prepararam decocções para os velhos em fim de vida e remédios para as raparigas que já não tinham o período. Aqueceram o óleo para espalhar na barriga de uma criança com cólicas e, com farinha, água e um pouco de gordura, garantiram que famílias inteiras se aguentassem de pé. Tanta coisa não era nada? Elas nada aprenderam?
Nesses momentos, tinha vontade de explicar a vida a Amine. Dizer-lhe que podia parecer descanso, mas quer ele estava enganado. Ele acha que ela faz aquilo tudo por amor e só lhe apetece gritar: <Isto a que chamas amor é trabalho! > Estariam as mulheres assim tão cheias de afecto, de benevolência, que podiam passar uma vida inteira, a cuidar dos outros?"
"No bairro de lata, nada mudava. Nem na paisagem, nem nas casas, nem sequer nas conversas ou nos hábitos. Ruminavam-se os mesmos problemas, sofria-se ainda e sempre dos mesmos males, morria-se das mesmas doenças e reclamava-se das mesmas dores. Fatima percebeu, então, que era isso a miséria: um mundo que não muda. Os burgueses, as pessoas ricas e instruídas, quando se encontram, perguntam sempre pelas novidades. A vida reserva-lhe surpresas. Falam do futuro e até de revolução. Acreditam que é possível mudar."





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