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junho 29, 2010

Nana - Émile Zola

"Nana é uma das obras mais conhecidas do célebre romancista francês Émile Zola. A personagem central, que dá nome ao romance, chama-se precisamente Nana. Filha de pai alcoólico e de uma lavadeira, Nana, medíocre artista de teatro, mas com um corpo de Vénus e uma sexualidade desequilibrada e vulcânica, torna-se no tipo perfeito da prostituta de luxo, da cortesã da sociedade francesa dos tempos do Segundo Império. Personalidade contraditória, atinge a riqueza à custa do comércio carnal, sobretudo na alta-roda da aristocracia e da finança, e reina, no seu palacete da Avenida de Villiers, entre móveis de laca branca e no meio de um «perfume perturbante», como a força voluptuosa e brutal, sem inteligência e sem amor (embora não totalmente deserta de sentimentos humanos), que irresistivelmente atraí, corrompe e arruína, até morrer, como um destroço, numa decomposição antecipada. Zola supera, no entanto, o âmbito da história individual, para nos apresentar, num quadro profundamente realista, a corrupção dourada das classes francesas mais elevadas da época de Napoleão III."

Desde que li o Germinal (já opinado aqui), também escrito por Émile Zola, que fiquei muito curiosa de ler mais livros deste autor francês. Nana, embora diferente do que estava à espera, não deixou de ser uma leitura interessante. :)

Nana é um mulher surpreendentemente bela, fisicamente irresistível cujo menear de ancas incendeia a plateia do Variedades, sala de teatro onde representa de forma sofrível Vénus, a Deusa do Amor e da Beleza. Não existe homem que lhe consiga resistir e são poucas as mulheres que não a invejam. Desta forma, Nana torna-se na prostituta de luxo mais requisitada de Paris. Vive à custa dos seus amantes, enganando-os com o seu rosto de anjo emoldurado por uns cabelos doirados como o sol, quando lhes promete fidelidade e exclusividade, assim o façam por merecer, pagando de forma exuberante pelos seus serviços.
Nana é uma mulher infantil, temperamental, com súbitos ataques de fúria e frustração seguidos de enternecimentos sinceros, mas breves, pelos problemas dos que a rodeiam. Sente um desprezo enorme por todos os homens que rastejam aos seus pés e, por isso humilha-os de todas as formas que consegue. Nem assim eles a abandonam, completamente dependentes dos seus carinhos e da atenção que esta lhes dispensa. Enfeitiçados pela sua beleza, esbanjam as suas fortunas com ela, comprando-lhe palacetes ricamente decorados, roupas luxuosas, pagando todas as suas despesas e satisfazendo todos os seus caprichos.
Os homens neste livro são dos seres mais desprezíveis que já vi descritos na literatura. Não escapa nem um, são animais com cio, sem qualquer amor próprio, irresponsáveis e burros. Nana, embora não deva nada à inteligência, faz deles o que quer, gritando e exigindo, outras vezes ronronando e iludindo. É uma personagem irritante, por ser emocionalmente tão inconstante e por me fazer lembrar tanto uma criança insuportável e birrenta que consegue sempre o que quer. Mas embora seja irritante, é uma personagem fortíssima de quem cheguei a sentir alguma pena, porque me parecia que ela estava presa numa rede da qual não conseguia escapar, embora o tenha tentado mais que uma vez.

Embora tenha sido diferente do que estava à espera, estava à espera de algo mais parecido com o Germinal, talvez algo mais revolucionário, gostei do livro. Gostei principalmente mais para o fim, onde finalmente reconheci a escrita de Zola, com as suas descrições espantosamente realistas, nomeadamente na descrição da corrida de cavalos, o Grande Prémio de Paris e porque, mais para o fim, há um ritmo alucinante onde todos os que rodeiam Nana começam a ser destruídos, consequência de todos os seus actos irreflectidos na ânsia de cair nas boas graças da cortesã. E Nana exulta com esta destruição à sua volta, como que sentido-se vingada pois, uma rapariga, filha de pai alcoólico e mãe lavadeira, pôs a alta sociedade a rastejar aos seus pés, destruindo-os, ou melhor, deixando que se destruíssem a si próprios, deixando que chafurdassem na sua imoralidade e falta de princípios.

Recomendo, mais que não seja por ser do Zola. :p

janeiro 18, 2010

Germinal - Émile Zola


"A obra-prima de Émile Zola. A vida de um operário parisiense despedido pelas suas ideias políticas e que só encontra trabalho nas minas de Montsou. A história de um idílio trágico. A cena atroz da mina invadida pelas águas. O assassinato de um rival. As lutas e os dramas que surgem nas galerias subterrâneas, por onde se cruzam homens e mulheres. Um romance que é uma epopeia."

O Germinal faz parte da série Os Rougon-Macquart que Émile Zola escreveu, embora o livro se possa ler sem que se tenham lido os anteriores. O livro é extraordinário, uma daquelas leituras obrigatórias. Segundo a Wikipédia, Zola passou dois meses a trabalhar numa mina de carvão, para escrever o Germinal falando, por isso, com algum conhecimento de causa. É mais que um romance, é um retrato da vida naquela época.

A história do livro decorre durante o 2º Império Francês, numa altura em que França se encontrava com grandes dificuldades económicas, com muitas fábricas a fecharem e, consequentemente, onde as condições sociais eram cada vez mais degradantes. A história gira à volta de uma mina de carvão, a Voreux em Montsou. Nela conhecemos Estevão Lantier, um homem novo, que antes de chegar a Montsou, depois de ter sido despedido em Paris, não comia há oito dias e só sonhava com uma côdea de pão. Arranja um emprego na Voreux e fica a viver com a família Maheu. É na família Maheu e em Estevão que Zola centra toda a história e, é através deles que nos dá a conhecer o trabalho miserável na mina, das condições pouco humanas em que vivem, da promiscuidade e do conformismo.
Quando Estevão chega à mina, nunca tendo trabalhando numa, sente na pele as condições desumanas do trabalho e as dificuldades que todas aquelas pessoas sentem para sustentar as numerosas famílias. Estevão, mais letrado que qualquer pessoa naquela mina, com ideais socialistas, começa a incutir nos trabalhadores algumas das suas ideias, fazendo-os acreditar que têm direito a uma vida melhor, onde a carne não seja uma miragem e o pão nunca falte, incentivando os trabalhadores da região a uma greve por melhores condições salariais e melhores condições de trabalho.
É através da família Maheu que nos vamos apercebendo das transformações que Estevão traz para o Montsou. No início olham-no com desconfiança, mas a esperança que ele lhes promete é demasiado tentadora, impossível de recusar. Gente que não se permitia sonhar, para que não sentissem ainda mais a miséria em que viviam, é incentivada a lutar pelos seus sonhos, que neste caso pouco mais eram que ter uma casa em condições e a certeza de que haveria comida na mesa todos os dias. Renovada a capacidade de sonhar, nada nem ninguém os poderá impedir de tentar alcançar os sonhos. Mas, a que custo?

O livro está muitíssimo bem escrito, com descrições muito realistas e sufocantes do trabalho na mina, da descida diária de todos aquele homens e mulheres para debaixo da terra, dos cheiros e do calor insuportável. Li o livro com um aperto constante no coração porque ninguém deveria trabalhar naquelas condições e trazer tão pouco para casa... Casa, onde no meio de toda a pobreza se tenta viver com alguma dignidade, com honestidade, criando os filhos com as armas que se têm. Senti raiva porque seres humanos não deveriam tratar assim outros seres humanos e, por saber que hoje em dia existem milhões de pessoas a viverem em condições semelhantes. Senti tristeza por saber que nunca deixará de haver gente miserável no mundo, gente que mais não faz que sobreviver.

Não me canso de repetir, é um livro extraordinário e muito bem conseguido. Poucos são os livros que me deixaram um marca tão vívida na mente. Émile Zola é um mestre em nos fazer sentir tudo aquilo que escreve; sentimos a tristeza, a frustação, as dores, a injustiça, a fome e as alegrias (poucas), que nem só de desgraças vive o livro. :)

Recomendadíssimo!