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novembro 18, 2021

A Menina que Roubava Morangos - Joanne Harris

Título original: The Strawberry Thief
Ano da edição original: 2019 
Autor: Joanne Harris
Tradução: Ana Saldanha
Editora: Porto Editora

"O coração de Vianne Rocher, a encantadora e inquieta maga do chocolate, parece ter finalmente serenado. A vila de Lansquenet-sous-Tannes, que em tempos a rejeitou, é agora o seu lar. Com a filha mais velha, Anouk, a viver em Paris, Vianne dedica-se por inteiro à chocolaterie e a Rosette, a filha mais nova, a sua menina "especial". A acompanhá-las estão os seus amigos do rio, os extravagantes vizinhos, e o circunspecto padre Reynaud. Mas o vento, quando sopra, traz sempre mudanças… E estas começam com a morte de Narcisse, o temperamental florista. A vila fica em alvoroço pois Narcisse deixa não só uma surpreendente herança a Rosette, mas também uma inesperada confissão.
Nada voltará a ser como dantes. E quando uma loja nova abre onde antes se dispunham as magníficas flores de Narcisse, tudo parece um prenúncio de algo: um confronto, alguma turbulência, ou talvez até… um crime? Conseguirá Vianne impedir que o vento leve tudo o que lhe é mais querido?
Há magia no ar. Há luz e sombra. Vingança e amor. Vinte anos depois da publicação de Chocolate, Joanne Harris regressa à pitoresca vila francesa num romance sobre a força do passado, o poder da memória e a aceitação das marcas que a vida deixa em nós."

Sinto saudades de um livro de Joanne Harris que me encha as medidas. Não consigo sentir muito interesse pelo que se passa na vida de Vianne porque sempre a achei uma chata, mascarada de excêntrica. É chata, é aborrecida e desinteressante.

Vianne está, neste livro, particularmente parva e incoerente. No entanto, o maior protagonismo de Rosette acaba por tornar o livro menos aborrecido e menos óbvio, porque Rosette é uma miúda especial, mesmo para os padrões da família Rocher. É mais complexa, mais densa e perspicaz. É uma miúda inteligente e destemida, com vontade de viver a própria vida sem medos e limitações.

A Menina que Roubava Morangos não deixa, no entanto, de ser mais do mesmo. A mudança do vento, a chegada de uma estranha irresistivelmente sedutora, que ameaça a paz e o sossego dos habitantes de Lansquenet-sous-Tannes, e em particular, parece ameaçar tudo o que Vianne conseguiu alcançar e que ama na sua vida.

Por mais que me custe, não sei se voltarei a ler mais algum livro da Joanne Harris que inclua a Vianne Rocher. Conhecendo todos os outros livros dela e todas personagens femininas que já criou, sei do que ela é capaz e, por isso, tenho muita dificuldade em gostar de Vianne e em reconhecer-lhe as qualidades que me levariam a querer saber mais sobre a sua vida.

Recomendo, para quem gosta do universo Vianne Rocher. Para quem nunca leu Joanne Harris, acho que deveriam começar por qualquer outro, fora da saga Vianne. 

Boas leituras! 

Excerto (pág. 144):

"Voltei para a chocolaterie invadida por uma profunda sensação de  inquietude. Morgane ficou a observar-me da porta, com as suas calças pretas largas a esconder aqueles pés perturbadores. O que quer que fosse que os antigos Chineses acreditassem, não tenho razão para pensar que há algo de maléfico em Morgane; e, no entanto, tudo nela me deixa inquieta. A sua chegada, na mudança do vento. As cores à volta da entrada da loja dela. A maneira como Rosette se sentiu atraída para ela apesar dos meus avisos de que devia manter-se afastada. E, agora a conversa dela sobre os Maias parece demasiado a propósito para ser uma coincidência."

dezembro 26, 2016

Uma Questão de Classe - Joanne Harris

Título original: Different Class
Ano da edição original: 2016
Autor: Joanne Harris
Tradução do Inglês: Elsa T. S. Vieira
Editora: Edições Asa

"A vaga de modernidade parece imparável e inclui a admissão de raparigas, novas tecnologias, uma possível "fusão" com um colégio feminino, e até um novo diretor. É por esse motivo que Roy Straitley, o excêntrico professor de Latim, decide adiar a sua reforma. Há mais de trinta anos que Straitley dá aulas em St. Oswald, onde ele próprio estudou. Para ele, a escola é o seu lar e a sua vida. Enquanto faz os possíveis para manter a tradição, o professor descobre que o novo diretor é nada mais nada menos que um ex-aluno seu, um rapaz cuja memória nunca deixou de o atormentar. E que representa agora uma ameaça que apenas Straitley consegue antever. Pois o novo diretor é admirado por todos. Mas por entre o pó de giz que cintila sob o sol de Outono e o ranger das tábuas do soalho ancestral, há sombras que se agitam...  e alguém que aguarda o momento certo para ajustar contas com o passado."

Em Uma Questão de Classe, voltamos a St. Oswald uns meses depois dos acontecimentos de Xeque ao Rei. Roy Straitley, o professor de latim, prepara-se para mais um ano lectivo e está motivado para ajudar o colégio a ultrapassar mais um escândalo.

No entanto, este ano lectivo parece ter preparado para ele um regresso ao passado, com a notícia de que um ex-aluno de St. Oswald é o novo diretor do centenário colégio. Straitley lembra-se bem demais deste ex-aluno e as memórias que tem do tempo em que, o agora diretor, frequentou o colégio são-lhe dolorosas e difíceis de reviver. Para além disso, esta mudança parece trazer mais mudanças à vida do colégio. O progresso parece querer tomar de assalto as tradições de St. Oswald e o velho professor de latim não parece estar disposto a ser ultrapassado sem dar luta e defender aquilo que acha ser o melhor para a instituição que foi, é e sempre será a sua casa.

Uma Questão de Classe fala de homossexualidade, de pedofilia, de fanatismo religioso e de mentes distorcidas e doentias. Mistura explosiva? Com certeza que sim.
Também fala de tradição e progresso e do preço de cada uma delas. Fala de adolescência e do difícil que pode ser ser-se diferente num mundo pouco tolerante à diferença.

E basicamente é isto.

Xeque ao Rei é um dos livros, de Joanne Harris, de que gosto muito. É natural que as minhas expectativas para este regresso a St. Oswald fossem elevadas. E não foram defraudadas. É um livro ao estilo Joanne Harris, que segue a receita de Xeque ao Rei, com um twist mais para o fim. :)
Pessoalmente, talvez tenha sentido falta de uma personagem feminina forte que a escritora tão bem sabe criar.

Embora continue a gostar muito de Joanne Harris, este últimos livros dela têm sido menos envolventes. Só não sei se foi ela que mudou como escritora ou se fui eu que mudei como leitora. O que quer que tenha mudado nesta nossa relação de tanto anos, uma coisa é certa, haveremos de nos alinhar novamente. :)

Recomendo, como não poderia deixar de ser.

Boas leituras!

Excerto (pág. 158):
"Ele parecia inseguro.
 - Oiçam, está na Bíblia - disse-lhes. - O salário do pecado é a morte. Certo?
O Goldie assentiu com a cabeça. O Caniche também.
 - E ser maricas é pecado, certo?
O Caniche soltou um som estrangulado.
 - É por isso que precisamos de um sacrifício. Para limpar o pecado - expliquei. - Está tudo na Bíblia. O sangue do cordeiro. Ele deu a sua vida para que nós possamos viver.
Acabei por ser eu a fazer a maior parte do trabalho. O Goldie, contudo, disse as palavras; não ia deixá-lo escapar-se sem ter pelo menos um pequeno papel. O Caniche chorou um bocadinho quando o fiz pôr a mão na ratoeira mas, como expliquei, precisávamos que ele estabelecesse contacto. E o Goldie sempre foi um tagarela, tal como o seu pai pregador, na verdade. Assim que lhe expliquei o que era preciso, conseguiu cumprir a sua parte.
 - Este homem foi infectado com o demónio da homossexualidade. Sai dele, demónio imundo; entra na alma desta ratazana e liberta o teu humilde servo.
Nesta altura, o Caniche estava a chorar a bom chorar. Suponho que eram os demónios. Ou talvez fosse apenas alívio; o alívio de partilhar o fardo, de alguém o estar a livrar dele. Sei como isso é, Ratinho. Tu também sabes, não sabes? É bom confessar a alguém, mesmo que a pessoa já esteja morta. Especialmente se já estiver morta - assim, ninguém dá com a língua nos dentes.
Depois afoguei a ratazana, ainda dentro da ratoeira.
Bem, resultou com os gadarenos."

abril 30, 2016

[Livro novo] Joanne Harris - Different Class

"After thirty years at St Oswald’s Grammar in North Yorkshire, Latin master Roy Straitley has seen all kinds of boys come and go. Each class has its clowns, its rebels, its underdogs, its ‘Brodie’ boys who, whilst of course he doesn’t have favourites, hold a special place in an old teacher’s heart. But every so often there’s a boy who doesn’t fit the mould. A troublemaker. A boy with hidden shadows inside.

With insolvency and academic failure looming, a new broom has arrived at the venerable school, bringing Powerpoint, sharp suits and even sixth form girls to the dusty corridors. But while Straitley does his sardonic best to resist this march to the future, a shadow from his past is stirring. A boy who even twenty years on haunts his teacher’s dreams. A boy capable of bad things."

Mais um livro novo da Joanne Harris, editado este mês, Different Class. Tenho expectativas elevadas relativamente a ele. A autora assume que é o terceiro livro de uma espécie de trilogia de histórias passadas na cidade de Malbry - Xeque ao Rei e O Rapaz de Olhos Azuis.

Espero que este seja mais ao meu gosto do que os últimos que têm saído dela.

Para quando a edição traduzida?

Boas leituras!

julho 05, 2014

Um Gato, um Chapéu e um Pedaço de Cordel - Joanne Harris

Título original: A Cat, A Hat and a Piece of String
Ano da edição original: 2012
Autor: Joanne Harris
Tradução do Inglês: Ana Saldanha
Editora: Edições Asa

"Crianças de vida difícil e coração vibrante, fantasmas domésticos, velhas senhoras em busca de aventura, uma paixão impossível sob os céus de Nova Iorque, a improvável magia de uma sanduíche, as extravagâncias a que a saudade obriga...
O universo romântico, místico e sempre especial de Joanne Harris está de volta em dezasseis histórias que são como bombons: deliciosas, tentadoras e irresistíveis."
 
Não é nos contos que o talento e encanto de Joanne Harris mais se destacam. Esta colectânea tem alguns bons momentos mas, no geral, não é memorável.
Gostei de reencontrar as simpáticas velhotas, Faith e Hope,  do  Danças & Contradanças (comentário aqui), das quais é impossível não gostar.
Gostei particularmente da primeira história, "Canção do Rio", cuja menina me fez lembrar a saudosa Framboise de "Cinco Quartos de Laranja" (comentário aqui). :) E gostei das duas bonitas histórias de amor, "Fantasmas na Máquina" e "Dríade".
As que referiam poderes sobrenaturais, os Deuses ou Aspectos não me cativaram por não ser um universo que conheça ou associe à escritora e porque as histórias em si me pareceram mais direccionadas para um público juvenil.
 
Embora goste muito de Joanne Harris, já aqui tinha dito que nos contos ela perde algum do brilho que lhe é tão característico e, embora a imaginação faça claramente parte das histórias, parece que a autora se perde um pouco sem saber como lidar com o formato conto.

De uma forma geral é um livro que acima de tudo entretém e que, embora não vá ficar na minha memória por muito tempo, acho que é um livro que vale a pena ler. Além disso, o título do livro é bonito e a capa é mais uma vez bem catita!!! :)

Recomendo sempre Joanne Harris e este não será a excepção.
 
Boas leituras!

Excerto (pág. 202):
"Ele sente o coração a bater com força.
Ela sente a cabeça a andar à roda.
E se ela não estiver lá?, pensa ele.
E se ele não vier?, pensa ela.
E ele escreve: Há uma coisa que precisas de saber.
E ela escreve: Há uma coisa que eu não disse.
Mas agora também os computadores foram abaixo; o ecrã está em branco; não se vê nada a não ser o cursor a piscar contra um fundo azul; não se sente nada a não ser a linha Braille paralisada na sua onda final."

fevereiro 23, 2014

[Livro novo] Joanne Harris - Um Gato, um Chapéu e um Pedaço de Cordel

Já não será novidade, uma vez que já está à venda pelas livrarias desse país, mas a Joanne Harris tem livro novo e, mais uma vez, com uma capa deliciosa!

Sinopse (retirada do site da Wook)
«As histórias são como bonecas russas: abrem-se e em cada uma encontra-se uma nova.
As histórias neste livro são um pouco assim. Embora ao princípio não pareçam estar relacionadas, os leitores descobrirão que elas estão ligadas de várias maneiras, umas com as outras e também com os meus romances.
Para mim, as histórias são como mapas de mundos ainda por descobrir. Espero que estas vos levem a avançar um pouco mais por esse território inexplorado.»

Joanne Harris


"Crianças de vida difícil e coração vibrante, fantasmas domésticos, velhas senhoras em busca de aventura, uma paixão impossível sob os céus de Nova Iorque, a improvável magia de uma sanduíche, as extravagâncias a que a saudade obriga…
O universo romântico, místico e sempre especial de Joanne Harris está de volta em dezasseis histórias que são como bombons: deliciosas, tentadoras e irresistíveis."
Toca a comprar e a ler! :)
Boas leituras!

setembro 30, 2012

O Aroma das Especiarias - Joanne Harris

Título original: Peaches for Monsieur Le Curé
Ano da edição original: 2012
Autor: Joanne Harris
Tradução do Inglês: Ana Saldanha
Editora: Edições Asa

"Alguém me disse uma vez que, só em França. duzentas e cinquenta mil cartas são enviadas todos os anos aos mortos. O que ela não me disse foi que, por vezes, os mortos respondem...

Quando Vianne Rocher recebe uma dessas cartas, ela sente que a mão do destino está a empurrá-la de volta a Lansquenet-sur-Tannes, a aldeia de Chocolate, onde decidira nunca mais voltar. Passaram já oito anos, mas as memórias da sua mágica chocolataria La Céleste Praline são ainda intensas. A viver tranquilamente em Paris com o seu grande amor, Roux, e as duas filhas, Vianne quebra a promessa que fizera a si própria e decide visitar a aldeia no sul de França.
À primeira vista, tudo parece igual. As ruas de calçada, as pequenas lojas e casinhas pitorescas... Mas Vianne pressente que algo se agita por detrás daquela aparente serenidade. O ar está impregnado dos aromas exóticos das especiarias e do chá de menta. Mulheres vestidas de negro passam fugazes nas vielas. Os ventos do Ramadão trouxeram consigo uma comunidade muçulmana e, com ela, a tão temida mudança. Mas é com a chegada de uma misteriosa mulher, velada e acompanhada pela filha que as tensões no seio da comunidade aumentam. E Vianne percebe que a sua estadia não vai ser tão curta quanto pensava. A sua magia é mais necessária do que nunca!"

Vianne Rocher encontra-se a viver em Paris, com Roux e as duas filhas, Anouk e Rosette, num período de acalmia depois da grande tempestade que Zozie de l'Alba (Sapatos de Rebuçado) provocou na vida de Vianne e daqueles que ama. Provavelmente nunca esteve tanto tempo no mesmo sítio, sem que o vento da mudança a fizesse partir novamente, deixando tudo e todos para trás. Quando recebe um carta do passado, do seu passado em Lansquenet-sur-Tannes, de Armande, morta há já alguns anos, Vianne apercebe-se que sempre quis regressar à pitoresca aldeia e que a carta de Armande é a desculpa que necessitava para revisitar o único lugar no mundo que chegou a pensar ser a sua "casa". Pega nas filhas, desejosas de acompanhar a mãe, e parte, apenas para uma curta visita. Será assim tão curta a visita de Vianne? Regresserá a Paris? É o que veremos...

Vianne encontra Lansquenet praticamente na mesma, as mesmas pessoas, as que a fizeram querer voltar e as que a fizeram partir, há oito anos atrás. As únicas novidades parecem estar em Les Marauds onde se instalou uma comunidade muçulmana, inicialmente bem recebida e tolerada e que agora parece ser a causa de tensões e agitações no seio da comunidade de Lansquenet.
Contente com a recepção que encontrou Vianne vai ficando, decidida a ajudar, com a sua magia, na criação de pontes entre as duas comunidades para que possam coexistir de forma pacífica. Mas até Vianne Rocher com os seus chocolates vai encontrar dificuldades imprevistas, porque nem tudo o que parece é. 

A história vai-se desenrolando à volta da cultura muçulmana e debruça-se sobre as diferentes formas de se viver a religião, uns são mais tolerantes outros mais radicais, no fim, a religião não é importante, o que sobressai são as loucuras individuais de cada um projectadas na forma como gostaríamos de ver o mundo que nos rodeia. Quando os loucos são carismáticos, bonitos e dissimulados, podemos estar metidos num grande sarilho. ;) Mais uma vez, nem sempre o que parece é...

Tenho sempre alguma dificuldade em escrever sobre autores de que gosto muito. Tenho dificuldade em tornar a minha opinião mais racional e objectiva. O mais recente livro da Joanne Harris coloca-me numa posição desconfortável, por um lado o meu coração diz-me que gostei do livro e a impressão que me deixou foi maioritariamente positiva, por outro, o meu lado racional não pode deixar de dizer que o coração nem sempre é o melhor critério! É bom, mas não tão bom como eu gostaria! ;) 
Gostei da escrita, como seria de esperar, nada de novo aí e gostei de revisitar as personagens de Chocolate, que para mim estarão sempre associadas mais ao filme, que vi antes de ler o livro. Para mim Roux será sempre o Johnny Depp e por isso estranho de cada vez que Joanne Harris se refere e ele como ruivo... :p 
Achei a história interessante sobre a intolerância religiosa, mas não só, é também sobre o medo da mudança e de tudo o que não é familiar e as diferentes formas como cada um reage fora da zona de conforto.

A minha opinião é positiva, recomendo-o sem hesitação, especialmente aos amantes do livro Chocolate. No entanto não pude evitar algum tédio aquando da leitura, achei-o um pouco repetitivo com Vianne a repetir as suas dúvidas acerca do que ali estava a fazer e se queria ficar ou ir embora e com o Curé Reynaud a ter crises existenciais. Confesso que a minha opinião melhorou apenas mais para o fim do livro e grande parte da boa memória que ficou, deveu-se às últimas 100 páginas do livro, onde ocorre o desenvolvimento de toda a história. Para além de ter achado o livro menos dinâmico, houve personagens, como a de Inès Bencharki, cujas acções e atitudes não achei coerentes, mesmo com as justificações dadas no final.
Em defesa da minha posição de fã da Joanne Harris, quero apenas acrescentar que a Vianne Rocher nunca foi das minhas personagens femininas favoritas. Sempre a achei muito tonta... É crédula e demasiado ingénua e neste livro o seu papel no desenrolar da história é praticamente nulo, sendo mais uma espectadora. Há muito poucos chocolates e outros cozinhados cujas descrições nos deixam com água na boca. Já no Sapatos de Rebuçado a achei desligada, nunca acertava com as suas "previsões", o que acho estranho para alguém que se quer tão "sensível" aos outros. Enfim... Não sou grande fã de Vianne Rocher, mas gostei muito de reencontrar Roux, Rosette (acho-a maravilhosa), e o tenso Curé Francis Reynaud que tem neste livro uma autêntica lição de vida! Gostei muito dos Djerba, a família muçulmana mais descontraída relativamente à religião e o vilão da história é verdadeiramente perturbador.

Resumindo e baralhando, gostei, não tanto como gostaria, mas gostei e recomendo. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Sozinha, regressei ao boulevard. O sol do fim da manhã já ia alto, mas, afastada da claustrofobia do pequeno beco com os seus cheiros de cloro e de kif e de suor, tomei consciência de uma sensação bem-vinda de frescura. Era apenas uma brisa que vinha do rio, mas cheirava a outros lugares, à sálvia silvestre da encosta da montanha e ao aroma apimentado do rabo-de-lebre que cresce ao longo das dunas e dança loucamente ao vento - e apercebi-me do que estava diferente. 
Por fim, a calmaria interrompera-se.
O Autan tinha começado a soprar."

setembro 11, 2012

Danças & Contradanças - Joanne Harris

Título original: Jigs & Reels
Ano da edição original: 2004
Autor: Joanne Harris
Tradução do Inglês: Teresa Curvelo
Editora: Edições Asa

"As sarcásticas histórias de Danças & Contradanças podem ser resumidas em duas palavras: malévolas e maliciosas. Como em muitos dos seus romances, Joanne Harris consegue combinar de uma forma única situações e personagens únicas - e até banais - com o extraordinário e o inesperado. Mais do que nunca, a autora dá largas à sua imaginação e apresenta-nos uma exuberante e prodigiosa caixa de Pandora, que contém tudo quanto é extravagante, estranho, misterioso e perverso. De bruxas suburbanas e velhinhas provocadoras, monstros envelhecidos, vencedores da lotaria suicidas, lobisomens, mulheres-golfinho e fabricantes de adereços eróticos, estas são vinte e duas histórias onde o fantástico anda de mãos dadas com o mundano, o amargo com o doce, e onde o belo, o grotesco, o sedutor e o perturbador estão sempre a um passo de distância."

Com a notícia de que vai ser editado em Portugal o mais recente livro de Joanne Harris, O Aroma das Especiarias, fiquei com vontade de ler qualquer coisa dela, enquanto espero pelo meu exemplar. Tinha há algum tempo este Danças&Contradanças na prateleira que, por ser um livro de contos, não estava no topo da lista de leituras.

Confesso que, se não conhecesse a escritora de muitos outros livros, não sei se teria ficado muito impressionada com ela, intrigada sim, só não sei se suficientemente intrigada para pegar noutro livro dela. Embora ultimamente tenha lido alguns livros de contos que me têm feito mudar de opinião acerca do género, este de Joanne Harris fez-me lembrar porque é que não é o meu género favorito: as histórias são demasiado curtas para que se consigam desenvolver as personagens e criar empatias e, as personagens de Joanne Harris precisam de espaço para serem quem são. Com os contos isso não acontece. O que também precisa de espaço são as histórias e as múltiplas peças do puzzle que a escritora tão bem sabe montar de forma a encaixarem na perfeição.
Definitivamente, o conto é bem o género onde a autora consiga revelar o melhor de si. É muito mais eficaz no romance. :)

No entanto, o livro não deixa de ter muitos dos elementos que marcam a escrita de Joanne Harris, o fantástico, personagens com personalidades distorcidas, a presença da comida e dos cheiros, elementos quase omnipresentes em todas as obras da autora. É Joanne Harris, mas não é o melhor dela!.

Recomendo por ser escrito por quem é e porque é um livro pequeno que pode muito bem ser um bom livro para descontrair de leituras mais complexas.

Boas leituras!

Excerto:
"É possível que no próximo Sábado, ou no seguinte, tenhamos de nos transferir para novos terrenos de caça. Claro que é em parte a incerteza que torna isto tão divertido. Mas sei que o que quer que tenhamos de enfrentar num futuro por enquanto inimaginável, o enfrentaremos juntos, Veldarron, Spider, Titania e eu. As pessoas comuns, com as suas vidas insípidas, mundanas, imaginárias, nunca poderão compreender, apercebo-me com súbita compaixão. E, para minha surpresa, dou comigo a assobiar baixinho ao mesmo tempo que vou buscar a pá e começo a cavar."

agosto 31, 2012

[Pré-Venda] O Aroma das Especiarias - Joanne Harris

E vem aí um novo livro da Joanne Harris, O Aroma das Especiarias, que pouco ou nada tem a ver com o título original - Peaches for Monsieur Le Curé. 
Este é o terceiro livro da "saga" Vianne Rocher, a personagem que surgiu em Chocolate e voltou a ser protagonista em Sapatos de Rebuçado.

Não é novidade que gosto muito de Joanne Harris e, embora as histórias de Vianne Rocher não sejam as que mais gosto da autora, não podia deixar de o comprar. 
Ele já está em pré-venda nas livrarias. Acabei por encomendá-lo na Wook, aproveitando a oferta dos portes e um vale de desconto que tinha para utilizar. E, surpresa das surpresas, no check-out adicionaram-me, como oferta, o Maligna da mesma autora. Já o tenho (devidamente comentado aqui), mas sendo oferecido, não vou ser esquisita. Como não anunciam a oferta, nem sei se oferecem sempre o mesmo livro... Se calhar é uma espécie de roda da sorte com os livros da Joanne Harris! :)

Na Fnac online anunciam a oferta do Cinco Quartos de Laranja, que adoro (a minha opinião aqui)! 

E de repente tenho vontade de ler qualquer coisa dela... :p

Boas leituras!

novembro 20, 2011

Maligna - Joanne Harris

Título original: The Evil Seed
Ano da edição original: 1989
Autor: Joanne Harris
Tradução do Russo: Isabel Alves
Editora: Edições Asa (edição de 2011 - revista pela autora)


"Algo dentro de mim recorda e não esquecerá...

Alice e Joe têm em comum a paixão pela arte - ela é pintora e ele é músico - e, em tempos, estiveram também unidos pelo amor que sentiam um pelo outro. As suas vidas seguiram diferentes rumos, mas o reencontro é inevitável. Joe tem agora uma nova namorada, Ginny, que provoca em Alice uma intensa perturbação. A beleza etérea e singular de Ginny repele-a, e o seu sinistro grupo de amigos atemoriza-a. Os hábitos estranhos da jovem deixam Alice suficientemente inquieta para levar a cabo uma investigação por conta própria. E o que descobre vai mudar tudo. Ginny tem em seu poder um velho diário que conta a trágica história de amor de Daniel Holmes e Rosemary Virginia Ashley, cujo poder de sedução não conhece limites. Só que Rosemary morreu há meio século... mas o seu magnetismo não está certamente extinto. À medida que as histórias se entrelaçam, passado e presente fundem-se; Alice apercebe-se de que o seu ódio instintivo em relação à nova namorada de Joe pode não se dever apenas ao ciúme, já que algo em Ginny a arrasta irremediavelmente para um universo de insondável obsessão, vingança, sedução e sangue..."

É bom regressar a um porto seguro e familiar depois de ter andado a vaguear por paragens desconhecidas, estranhas e nem sempre boas. :) Este livro devolveu-me a vontade de ler e isso é, por si só, motivo para ter um lugar especial nas minhas leituras deste ano. ;) Se acrescentarmos a isso, o facto de ser da Joanne Harris a minha opinião nunca poderia ser negativa!

A história é narrada em dois tempos, o tempo de Rosemary e Daniel Holmes e o tempo de Alice, Ginny e Joe.
Daniel é um jovem com 25 anos, intelectual e pacífico que vê a sua vida mudar no dia em que, de forma heróica, salva Rosemary de uma morte certa no rio. Rosemary é uma rapariga estranha, aparentemente frágil e vulnerável, é dona de uma beleza etérea, que deixa Daniel completamente apaixonado. Provoca no jovem uma impressão tal que Daniel nunca mais será o mesmo.
Cerca de 50 anos depois de Daniel ter salvo a vida de Rosemary, é-nos apresentada Alice, uma artista e pintora promissora que perdeu a capacidade de ser feliz no dia em que o namorado Joe, a abandonou. Quando este lhe liga, passados três anos sem dar notícias, para lhe pedir um favor que envolve Ginny, a sua nova namorada, Alice não lhe sabe dizer que não e acaba por ser arrastada para o meio de uma história de terror, com personagens sinistras e assustadoras.

O que liga estas personagens é o que vai sendo desvendado à medida que a história é contada, e que história! :)

As minhas expectativas para este livro eram relativamente baixas. E porquê? Porque Maligna (The Evil Seed no original) foi o primeiro livro que Joanne Harris escreveu e editou e, é um livro sobre... uma espécie de vampiros. :) Terminada a leitura cabe-me dizer que, para primeiro livro não está nada mal e que, na realidade, os vampiros são mais criaturas malignas, que para além da maldade a única coisa que têm em comum com as míticas criaturas da noite é a sede de sangue. Tudo o resto é diferente. Aliás, a autora nunca os denomina dessa forma, são antes almas imortais, cuja imortalidade reside na memória dos vivos. :)

Afastados os receios iniciais acabei por gostar bastante do livro porque, simpatias à parte, é um livro bem escrito, que se lê muito bem, leve, mesmo com todas as descrições nojentas incluídas, que foge muito à típica história de vampiros e de horror, e que tem personagens bem desenvolvidas com as quais conseguimos criar empatia.

Posto isto, recomendo, como não poderia deixar de ser. ;)

Boas leituras!

Excerto:
"Nenhum nome lhe serve, digo-lhe; do mesmo modo, todos os nomes servem. Só sei que ela é velha, tão velha como a corrupção de onde veio, embora ao mesmo tempo, monstruosamente jovem. Ela é algo que transcende a lenda, como Deus transcende superstições infantis de pães e peixes. Suponho que Jung lhe teria chamado uma anima pérfida; como vês, também sei falar na tua linguagem, sei usar os teus argumentos melhor do que tu, mas isso não pode exorcizar a criatura demoníaca que governa os meus sonhos. A imagem de sangue que transcende todas as minhas visões dela agonia-me e excita-me, como dirias, suponho, que a minha concepção da minha própria sexualidade me horroriza."

outubro 14, 2010

O Rapaz de Olhos Azuis - Joanne Harris

"Ela conhece-o há uma eternidade e, contudo, ela nunca o viu. É como se fosse invisível para a mulher que ama. Mas ele vê-a a ela: o cabelo; a boca; o rosto pequeno e pálido; o casaco vermelho-vivo na neblina matinal, como algo saído de um conto de fadas.
Até agora, ele nunca se apaixonou. Assusta-o um pouco: a intensidade dessa emoção, a maneira como os seus dedos traçam o nome dela, a maneira como tudo, de algum modo, conspira para que ela nunca lhe saia da cabeça...
Ela não sabe de nada, claro. Tem um ar muito inocente, com o seu casaco vermelho e o seu cesto. Mas por vezes os maus não se vestem de preto e por vezes uma menina perdida na floresta é bem capaz de fazer frente ao lobo mau..."

Nem sei bem por onde começar com o mais recente romance da Joanne Harris. Achei o livro, à falta de melhor expressão, estranho. Não é da obras mais bem conseguidas da escritora, e é com pena que o digo, pois acho que a história tinha potencial para ser maior. Na verdade achei este livro um pouco sem sal o que, lendo a sinopse, pode parecer esquisito mas, infelizmente nem sempre a sinopse espelha o livro, isto para o bem e para o mal. Foi o que aconteceu com O Rapaz de Olhos Azuis porque, quando li a sinopse e, conhecendo a escritora como conheço, fiquei a salivar por algo que depois não foi propriamente concretizado. Não vou dizer que não gostei, porque o livro tem alguns pontos muito positivos, mas que estava à espera de mais, isso estava. :)

Este é um daqueles livros em que o mais pequeno deslize da minha parte pode arruinar a história para quem ainda não o leu ou está a lê-lo, por isso, sobre a história não me vou alongar muito.
O Rapaz de Olhos Azuis está escrito ao estilo de um blogue, o webjournal, onde a personagem principal, o blueeyedboy criou um grupo denominado badguysrocks, onde publica as suas histórias. Uns são posts públicos, outros são restritos, uma espécie de diário online. Blueeydeboy descreve-se a si próprio como um homem de 42 anos que vive com a mãe, uma mulher possessiva, violenta e manipulativa. Vive na Internet, mais precisamente no webjournal onde descreve os homicídios (ficcionados ou reais?) que já cometeu, todos eles de pessoas que fizeram, de uma forma ou de outra, parte do seu passado e do da sua família, os dois irmãos e a estranha mãe.
A história que blueeyedboy nos conta está repleta de cor, sabores e cheiros, que raramente são agradáveis. Isto porque blueeyedboy é aquilo a que se chama um sinestésico, as palavras para ele têm uma cor, cheiro e por vezes sabor. Vê e vive o mundo de maneira diferente, o que lhe dificultou a vida na infância e contribuiu para que se tornasse num adulto, socialmente inadaptado, sem amigos e com uma relação com a mãe que tenho alguma dificuldade em classificar. É uma relação de ódio, de dependência e de medo. Percebemos desde o início que quer matá-la e desconfiamos que tudo o que vai fazendo ao longo do livro faz parte do plano que traçou para que finalmente se possa ver livre da mãe. Irá consegui-lo? Veremos se tudo é como parece à primeira vista. Ou se, como na Internet, as coisas nem sempre são o que aparentam.
Existem obviamente outras personagens, como a rapariga que é referida na sinopse, mas falar delas é perigoso porque pode revelar pormenores e dar dicas involuntárias que revelem demais.
Quanto à história propriamente dita fico-me por aqui.

Pontos positivos do livro:
- É um livro da Joanne Harris menos inspirado mas, não deixa de ser um livro diferente, com personagens atípicas e imperfeitas, com histórias de vida bizarras.
- Mais uma vez temos um livro que apela aos nossos sentidos. Está cheio de cor e de cheiros.
- É um livro que prende e que surpreende. A Joanne Harris aguça-nos a curiosidade e quando as peças vão encaixando nos seus devidos lugares vamos tendo aquela sensação de "aaahhhh! Então era por isso que....". E as peças encaixam muito bem umas nas outras. Nisso o livro é muito bom, as pistas estão lá, mas de uma forma tão natural que só quando as revelações são feitas é que nos lembramos daquela passagem, alguns capítulos atrás.
- O livro passou-me uma sensação de irrealidade que, julgo ter sido propositada, uma vez que fala daquela faceta da Internet em que todos nós podemos ser e dizer o que quisermos, sem grandes consequências. Essa irrealidade e liberdade que a Internet permite está impregnada no livro, sentimo-la como se estivéssemos nós próprios num mundo virtual onde as leis da física fossem diferentes. Mérito da escritora, mais uma vez.

No entanto, com este livro houve coisas que, para mim, não correram tão bem assim:
- Começo por dizer que a estrutura, em género de blogue, para mim não funcionou. Não me consegui habituar à forma como a escritora nos vai contando a história, achei que tornou tudo um pouco confuso e mais impessoal. Não sei se foi intencional mas, intencional ou não, não gostei, principalmente dos comentários dos seguidores do blueeyedboy. Irritavam-me... não há grande coisa que possa fazer quanto a isso... :)
- Ao contrário do que costuma acontecer com os outros livros da Joanne Harris, as personagens deste livro não me cativaram, não criei qualquer empatia com elas. Não sei se foi por a história ser tão estranha e irreal ou porque está contada da maneira que está mas, a verdade é que nem por um momento eu deixei de ter a noção de que estava a ler um livro. Ou seja, não houve aquele transportar para dentro do livro e que nos permite viver a história quase como se fosse nossa. Não achei, nem a história nem as personagens credíveis.
- As descrições dos supostos homicídios são pouco empolgantes e, de certa forma, pueris. A escritora é capaz de muito melhor, que eu sei. :)

Resumindo e baralhando, de uma forma geral, gostei do livro mas estava à espera de mais. Se calhar o mais correcto será dizer que estava à espera de outra coisa, porque tanto a sinopse como o primeiro capitulo pareciam apontar noutra direcção.

Com este não aconselho ou deixo de aconselhar, porque Joanne Harris não é unânime e tenho a certeza de que há pessoas que gostaram imenso do livro. Experimentem e logo verão. :)

Boas leituras!

julho 22, 2010

Cinco Quartos de Laranja - Joanne Harris

"Framboise regressa à pequena cidade onde nasceu, na província francesa, e abre aí um restaurante que rapidamente se torna famoso, graças às receitas de um velho caderno que pertencera à sua mãe. Essa espécie de diário contém igualmente uns estranhos apontamentos cuja decifração lançará uma nova luz sobre os dramáticos acontecimentos que marcaram a infância da protagonista nos dias já longínquos da ocupação nazi. Framboise recorda os sabores e os sentimentos da sua infância, numa França marcada pela dor e pela penúria da guerra, e muito especialmente um episódio que marcou a vida da família e constituiu, para ela, a perda definitiva da inocência. Agora, já no Outono da vida, chegou a hora de enfrentar a difícil verdade."

Já disse aqui que a Joanne Harris é uma das minhas escritoras favoritas. Aguardo sempre com alguma ansiedade os livros que escreve e é das poucas que compro sem qualquer hesitação, qualquer que seja o preço marcado. :) Não é um escritora unânime, eu própria tenho livros dos quais gosto menos e não a considero perfeita. Mas há algo nos livros desta escritora que tenho dificuldade em expressar por palavras mas que me encanta. Os seus livros são difíceis de rotular, ela escreve romances, considerados mais femininos, é verdade, mas como são normalmente tão pouco ortodoxos e livres de regras e de pudores é complicado colocá-la na mesma prateleira que a Sveva Casati Modignani, Nora Roberts ou outras. Falam de amor, mas às vezes é um amor tão retorcido que não sei se serão livros assim tão românticos. Os livros têm todos algo de fantástico e até algum horror, mas não são de todo livros de fantasia e de terror. Falam de factos históricos, mas a intenção também não é dar lições de história. A dificuldade em classificar os livros da Joanne Harris está na originalidade das suas histórias e na genialidade da sua escrita. Percebo que nem todos gostem. Eu gosto! :)

O Cinco Quartos de Laranja é, de todos os que já li dela , aquele que mais me encheu as medidas. Este narra a história de Framboise e da sua família, em Les Laveuses, uma pequena aldeia francesa, durante a ocupação da França pela Alemanha. Framboise é a mais nova de três irmãos, Cassis e Reine-Claude. Vivem os três com a mãe, Mirabelle Dartigen. O pai de Framboise morreu na guerra, morto na frente quando defendia as fronteiras de França contra as investidas da Alemanha nazi.
Os Dartigen não são uma família normal, a mãe é uma mulher torturada, amarga, seca como uma ameixa, rígida e, aparentemente, incapaz de amar. É acometida por dores de cabeça tão fortes que a deixam violenta e irascível e, depois prostrada na cama. Essas dores de cabeça são sempre precedidas pelo cheiro de laranjas, que só ela consegue sentir. Este é um fruto completamente proibido em casa. Mirabelle é desequilibrada e instável, receia a qualquer momento ficar louca. Demonstra o seu amor pelos filhos através da culinária, cozinhando autênticos festins que serve de cara fechada, mas no qual colocou todo o seu afecto.
As crianças crescem sem carinho, cheios de regras e de deveres, mas sem amor, sedentas de atenção. Aprendem a temer a mãe e evitar os seus ataques. São pequenos selvagens e por isso, facilmente seduzidos por Tomas Leibnitz, um alemão de falinhas mansas e olhos doces que os começa a usar como informadores no seu negócio de mercado negro.
Framboise tem 9 anos e é um criança corajosa, inconsequente, teimosa, inteligente mas, acima de tudo é carente. Sente um abandono tão grande dentro de si que o alemão de voz doce, com os seus sorrisos e os seus presentes a deixam num estado de adoração perigoso. Por ele e para o agradar, Framboise é capaz de tudo.
Demasiado parecida com a mãe, tem por ela um ódio inimaginável, vivendo as duas num desafio constante. Framboise é o catalisador de toda a história. Na inocência e na crueldade dos seus 9 anos, ela é responsável pelo desenrolar dos acontecimentos trágicos que acabaram em mortes e na fuga dos Dartigen para longe de Les Laveuses.
Anos mais tarde, Framboise volta a Les Laveuses como a veuve Simon, e a ninguém revela a sua verdadeira identidade. Receia que o nome Dartigen ainda seja capaz de despertar ódios antigos na pequena comunidade. Framboise tornou-se uma mulher determinada, intolerante e por vezes fria. Não quer desafiar ninguém, apenas regressou à velha quinta da mãe, onde pretendia acabar os seus dias em paz. Nem tudo lhe corre como esperado e ela será obrigada a reviver os horrores da infância. É, aliás ela quem nos conta a história, doída pela culpa que sente e triste por não ter tido a capacidade de entender a mãe, que não era só aquilo que aparentava.

Eu gosto muito deste livro. Adoro as personagens, principalmente a Framboise, que nos arrepia por ser tão cruel, mas que temos dificuldade em odiar, por ser uma criança, mas principalmente porque é uma criança amargurada e mal amada e a mãe Mirabelle que é tão atormentada, por algo que não sabemos, com aquelas enxaquecas que a deixam quase louca. Incapaz de demonstrar o amor que sente pelos filhos, e que se revela no livro de receitas, onde no meio das receitas foi escrevendo uma espécie de diário, que deixou a Framboise quando morreu.
Não é uma história bonita, está cheia de rancores e de sentimentos obscuros, associados a crianças o que torna a coisa ainda mais perturbadora. Não sei se a posso considerar uma história de amor, o que é de certeza é uma história sobre actos e consequências. Tudo o que fazemos tem uma reacção e nem sempre é possível controlar a reacção, especialmente se estivermos em tempo de guerra e numa aldeia de província ocupada pelas tropas invasoras. Especialmente se formos uma criança mal-amada e que se comporta quase como um cachorrinho ao menor gesto de carinho e afeição.

Leiam! :)

Nota: O próximo livro de Joanne Harris O Rapaz de Olhos Azuis, será editado em Portugal, pela ASA, lá para Setembro. Segundo a agenda da autora, ela estará em Portugal entre 14 e 19 Setembro para o apresentar. Mais notícias, em português, sobre a autora estão neste blogue que descobri há pouco tempo: http://joanneharris.blogs.sapo.pt/.

março 05, 2010

Na Corda Bamba - Joanne Harris

"Forçada pelas circunstâncias a procurar refúgio com a sua jovem filha na remota abadia de Saint Marie-de-la-Mer, a actriz Juliette reinventa-se como Sóror Auguste sob a tutela de uma bondosa abadessa. A pouco e pouco, Juliette adapta-se a tão grande mudança: ao colorido das viagens e constantes descobertas da sua vida de actriz seguem-se as novas exigências de uma existência em semi-clausura. Mas os tempos estão a mudar: o assassinato de Henrique IV transforma-se num catalisador para a sublevação em França, e a nomeação de uma nova abadessa, cuja ânsia pela Reforma não conhece limites, rapidamente destrói tudo aquilo que Juliette começara a amar na sua nova vida. Mas o pior está ainda para vir... A abadessa, Isabelle, é uma criança de onze anos, vinda de uma família nobre e corrupta, e faz-se acompanhar de um fantasma do passado de Juliette: disfarçado de clérigo, eis um homem que ela tem todas as razões para temer..."

"Tratando com subtileza um tema delicado - a religião como subterfúgio, como manobra de evasão face às dolorosas realidades da existência - Joanne Harris constrói uma história bem ao seu jeito, tocante e vívida, apaixonante desde a primeira página."

Voltei a este livro, que já tinha lido há uns anos atrás, porque não me apetecia ler nada do que tinha aqui em casa, e voltar a ler Joanne Harris, para mim é sempre um prazer - já perdi conta às vezes que reli Cinco Quartos de Laranja... Escolhi este, porque me lembro que, dos livros das Joanne Harris, foi aquele que menos me encantou. Na altura culpei a forma como o tinha lido, muito à pressa, talvez não na melhor altura. Por isso estava na hora de lhe dar uma segunda oportunidade. :)
Li-o como se fosse a primeira vez, embora me lembrasse dos traços gerais da história. Foi muito bom voltar a ele porque achei-o melhor que da primeira vez. No entanto, o que me tinha incomodado aquando da primeira leitura continuava lá: a personagem feminina, Juliette, é muito diferente do tipo de mulheres que a autora costuma criar, mulheres fortes, corajosas e decididas. Esta Juliette, filha de artistas itinerantes, ela própria uma actriz e especialista do trapézio é, na minha opinião, cobarde e crédula demais, chegando a ser incoerente. Para além da personalidade de Juliette, mas também por causa dela, voltei a não gostar muito do final onde, a já conhecida imaginação da autora passou alguns limites que tornaram o final um bocadinho esquisito... :)

A história do Na Corda Bamba, decorre no ano de 1610, ano da morte de Henrique IV, rei francês conhecido pela sua tolerância religiosa tendo em conta os tempos que se viviam, em plena inquisição e consequente caça às bruxas. Onde conhecer ervas e plantas e as suas aplicações era perigoso e tudo o que fosse contra as regras instituídas pela igreja era motivo para segregação social. Sempre num tom leve, de crítica despretensiosa, a autora vai-nos dando uma ideia de como devem ter sido deprimentes aqueles tempos.
Mulheres subjugadas que, para fugirem à triste realidade da suas vidas entravam para o convento, abdicavam de tudo, inclusive dos filhos gerados no pecado. No entanto, não era por entregarem a vida a Deus que se tornavam pessoas melhores, menos frustradas e menos rancorosas. Crianças educadas para serem santas e dessa forma imortalizarem o nome da família. Tempos onde vale tudo para agradar a Deus. Aliás, vale tudo para em nome de Deus agradarmos a nós próprios sem consideração por quem é pisado no caminho. Infelizmente ainda não evoluímos o suficiente para conseguirmos erradicar da face da terra o fanatismo religioso e provavelmente nunca o conseguiremos enquanto houver tanta ignorância e falta de respeito pelo outro.

À parte dos pequenos pecados referidos, vale a pena ler o livro porque a escrita é muito boa. É fluída e divertida e a história levanta algumas questões pertinentes sobre o fanatismo religioso e os protagonistas da religião. Para além disso a Joanne Harris possui uma capacidade enorme de criar histórias e enredos que nos vão mantendo presos até ao fim, revelando apenas o necessário para nos manter interessados enquanto leitores embora, não sejam, de todo, livros de suspense. É difícil descrever a escrita e as histórias da Joanne Harris, são muito próprias e só lendo se consegue apreender todo o seu encanto.
Este não é, no entanto, o melhor livro para se iniciarem na autora. Eu aconselho Cinco Quartos de Laranja, Xeque ao Rei (surpreendente) e A Praia Roubada. :)

Agora vou-me agarrar ao A Ilha Debaixo do Mar, da Isabel Allende, que a minha linda e espectacular (eu sei que eventualmente vais ler isto :p) mana me ofereceu!

Boa Leituras!

dezembro 17, 2009

Blueyedboy - Joanne Harris

Adoro tudo é que é livros da Joanne Harris e sempre que sei que ela tem um novo, espero e desespero até que seja editado em Portugal, já devidamente traduzido.
Parece que para o ano vou poder deliciar-me novamente com as histórias desta fantástica escritora! :)

http://www.joanne-harris.co.uk/pages/bookpages/blueyedboy.htm

Já estou em pulgas, mas é melhor nem pensar mais nisto... Só em Abril de 2010 é que vai ser editado, pelo que estará em Portugal lá para o final do ano que vem, na melhor das hipóteses. Bem, hei-de sobreviver! :p

P.S. As capas do livros da Joanne Harris são de encher o olho! Das mais bonitas que andam pelas livrarias. :)