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maio 31, 2024

O Hotel New Hampshire - John Irving

Título original: The Hotel New Hampshire
Ano da edição original: 1981
Autor: John Irving
Tradução: Ana Falcão Bastos
Editora: Distri Editora - Círculo de Leitores

"Um romance imaginativo, original e encantador. 
No centro da história está uma família, uma família muito especial, extraordinária: um pai sonhador, sem qualquer espírito prático; uma mãe meiga e carinhosa; três rapazes e duas raparigas, quatro dos quais veremos crescer e o outro que, juntamente com um dos progenitores, morrerá novo, de maneira trágica."

O Hotel New Hampshire acompanha a vida dos Berry, o pai Winslow, a mãe Mary Bates e os cinco filhos, Frank, Franny, John, Lilly e Egg. E a vida deles passa por New Hampshire, pelo Maine, pela Áustria e por Nova Iorque. 

Como é habitual nas histórias de John Irving, tem ursos, prostitutas vienenses, comunistas e artistas de circo e anões. Tem personagens complexas, sexualidades complicadas e acontecimentos que não nos deixam indiferentes. 
Fala de violação, de incesto, de morte, de fatalidades e de sonhos. Mas, acima de tudo, O Hotel New Hampshire é sobre o amor e sobre lealdade. O amor que nos liga, de forma por vezes irracional, à nossa família, em particular aos nossos irmãos. Quem tem irmãos conseguirá perceber que o amor que nos une aos nossos irmãos é incondicional. Com esquisitices e defeitos incluídos. São as pessoas que sempre estiveram lá e que sempre estarão, mesmo quando não estão. E os irmãos Berry não são diferentes, são apenas mais estranhos que o comum dos mortais. 

Dentro de toda a típica estranheza nos livros de Irving, este é talvez o mais estranho que já li. A história é absurda. Talvez a maior parte do tempo seja mesmo absurda e inverosímil. Mas é divertida e é difícil parar de ler. 

Gostei porque dificilmente não gosto de Irving mas, sinto que não devia gostar, principalmente pela excessivas referências sexuais, que incomodam e são confrangedoras por envolver adolescentes. 

Talvez não seja o melhor livro para primeira leitura de Irving mas, para quem conhece o escritor o livro é incontornável. 

Recomendo a quem já leu Irving. 

Boas leituras. 

Excerto (pág. 165):
"Recordo-me que sobre as nossas cabeças pairava algo mais pronunciado do que a habitual mistura de patetice e tristeza, como se, de quando em quando, tivéssemos consciência de quase não nos lembrarmos da morte do Iowa Bob - e, noutros momentos, consciência de que a nossa maior responsabilidade (não apesar da morte do Iowa Bob, mas por causa dele) era divertimo-nos. Foi talvez o nosso primeiro teste de uma máxima que havia sido transmitida ao meu pai pelo próprio Iowa Bob; era uma máxima que o Pai nos repetia vezes sem conta. Era-nos tão familiar que nem sonhávamos comportar-nos como se não acreditássemos nela, embora provavelmente nunca tivéssemos sabido - até muito mais tarde - se aceditávanos ou não. 
A máxima estava ligada à teoria do Iwoa Bob de que estávamos todos num grande barco - num grande cruzeiro à volta do mundo. E apesar do perigo de sermos varridos pela tempestade a qualquer momento, ou talvez devido a esse mesmo perigo, não nos era permitido sentirmo-nos deprimidos ou infelizes. O modo como o mundo funcionava não justificava qualquer tipo de distanciamento cénico ou de desespero imaturo. Segundo o meu pai e o Iowa Bob, o modo como o mundo funcionava - e funcionava mal - era justamente um forte incentivo para se viver com determinação e para ter por objetivo saber viver."

Existe um filme, de 1984, baseado no livro - The Hotel New Hampshire, com uns novíssimos Jodie Foster e Rob Lowe

 

março 21, 2020

Avenue of Mysteries - John Irving

Título original: Avenue of Mysteries
Ano da edição original: 2015
Autor: John Irving
Editora: Transworld Publishers Ltd. - Black Swan

"Juan Diego's little sister is a mind reader. As a teenager, he struggles to keep anything secret - Lupe knows all the worst things that go through his mind. And sometimes she knows more. Whata terrible burden it is to know - or to think you know - your future, or worse, the future of someone you love. What might a young girl be driven to do if she thought she had the power to change what lies ahead?
Later in life, Juan Diego embarks on a journey to fulfil a promise he made in his youth. It is a long story and it has long awaited an ending, nut Juan Diego is unable to write the final chapters.
This is the story of what happens when the future collides with the past."

Por coincidência tenho levado para as férias de Verão livros do John Irving. Talvez seja por serem grandes ou porque tenho a certeza de que serão boa companhia à beira-mar. O ano passado não foi exceção e Avenue of Mysteries foi uma das minhas companhias de Verão. Sim, do Verão. Ando com muita dificuldade em manter o Quero Um Livro a par das minhas leituras. E não é porque estou a ler mais.  Acho que estou a atravessar uma espécie de bloqueio. :)

Agora que devemos estar todos, não por bons motivos, mais por casa, acho que vou conseguir recuperar tudo o que tenho pendente aqui no blogue.

Voltando ao livro.

Juan Diego e Lupe são irmãos. Ele tem 14 anos e uma capacidade extraordinária para as letras e para as línguas. Lupe é mais nova, tem uma forma de falar que só o irmão percebe e consegue ler os pensamentos dos outros e, de vez em quando, parece que consegue prever o futuro.
Os dois são inseparáveis e praticamente não existem um sem o outro, não deixam, no entanto, de ser muito diferentes.
Vivem numa lixeira, com o dono da lixeira que, pode, ou não, ser o pai de Juan Diego. :) A mãe, de dia trabalha no orfanato católico da cidade, Niños Perdidos, e à noite é prostituta.

É a história destes dois que vamos conhecendo através da mente perturbada do, agora adulto, Juan Diego, durante uma estranha viagem às Filipinas.
Nesta viagem às Filipinas, Juan Diego, agora um cidadão norte-americano e um escritor bem-sucedido e reconhecido, espera conseguir cumprir a promessa feita ao "el gringo bueno", quando era apenas um adolescente em Oaxaca. Prometeu-lhe que iria às Filipinas prestar homenagem ao pai sepultado naquele país.
É numa espécie de transe constante, em que temos dificuldade em perceber o que é real, que Juan Diego vai dando a conhecer os acontecimentos que mudaram a vida dos dois irmãos e que o marcaram profundamente.

Avenue of Mysteries é um livro estranho. Talvez seja a primeira coisa que me ocorre dizer sobre ele. Primeiro estranhei-o, depois foi-se entranhando. :) Pareceu-me um pouco pateta, ou forçadamente estranho, mas a verdade é que, mais uma vez, o poder das personagens criadas por John Irving acaba por me prender. É curioso como no meio do absurdo, as personagens, muitas vezes elas próprias absurdas, nos parecem tão humanas.

O livro está repleto de situações caricatas, de relações improváveis e de acontecimentos tristes que nos fazem rir.
É também, como tem sido habitual em outras obras de Irving, uma crítica à religião, à intolerância e à política externa dos Estados Unidos.

Não consigo não recomendar John Irving, e este não seria de certeza a exceção.

Leiam John Irving e deixem-se surpreender.

Boas leituras.

Excerto (pág. 15):
“What Juan Diego said was that he’d had two lives – two separate and distinctly different lives. The Mexican experience was his first life, his childhood and early adolescence. After he left Mexico – he’d never gone back – he had a second life, the American or midwestern experience. (Or was he also saying that, relatively speaking, not a whole lot had happened to him in his second life?)
What Juan Diego always maintained was that, in his mind – in his memories, certainly, but also in his dreams – he lived and relived his two lives on “parallel tracks”.
A dear friend of Juan Diego’s – she was also his doctor – teased him about the so-called parallel tracks. She told him he was either a kid from Mexico or a grown-up from Iowa all the time. Juan Diego could be an argumentative person, but he agreed with her about that.”

dezembro 07, 2016

A Prayer for Owen Meany - John Irving

Título original: A Prayer for Owen Meany
Ano da edição original: 1989
Autor: John Irving 
Editora: Harper

"«I am doomed to remember a boy with a wrecked voice not because of his voice, or because he was the smallest person I ever knew, or even because he was the instrument of my mother's death, but because he is the reason I believe in God; I am a Christian because of Owen Meany.» In the summer of 1953, two eleven-year-old boys - best friends - are playing in a Little League baseball game in Gravesend, New Hampshire. One of the boys hits a foul ball that kills the other boy's mother. The boy who hits de ball doesn't believe in accidents; Owen Meany believes he is God's instrument. What happens to Owen, after that 1953 foul ball, is extraordinary."

John Irving é um dos meus escritores favoritos, não é segredo. Gosto particularmente da forma como nos permite acompanhar a vida das personagens, desde que nascem até ao dia em que morrem. Também gosto do sentido de humor que está presente em todos os livros que já li dele.

Este, A Prayer for Owen Meany, não me encheu as medidas e sinto que estou a cometer, quase uma heresia, porque as opiniões que tenho lido são todas tão boas que sinceramente fico um pouco constrangida. Para mim, neste livro, John Irving alongou-se demais, e sinto que o livro se tornou um pouco repetitivo. Por outro lado, não senti qualquer empatia com Owen Meany. Não sei se estava à espera que ele fosse mais "adorável", o que também não faz muito sentido, conhecendo John Irving, dificilmente Owen seria "adorável". Isto, aliado ao tema da fé e da religião, fez com que este livro, não me tivesse tocado particularmente. Não me identifiquei com o tema, com as personagens e com as sua angustias e julgo que foi, essencialmente por isso, que não me encheu as medidas.

No que à história diz respeito, não há muito a acrescentar ao que já é dito na sinopse.
O narrador desta história fantástica, quase uma versão alternativa da vida de Cristo, é John Wheelwright o melhor amigo de Owen Meany. John é neto da mulher mais rica e respeitada de Gravesend, New Hampshire e Owen é filho do dono de uma pedreira da cidade. John é um miúdo normal, sem nada que o destaque das outras crianças, a não ser o facto de não saber quem é o seu pai. Owen é a pessoa mais pequena que Gravesend conhece, possui uma voz estridente, é inteligente e é a pessoa mais obstinada e tenaz que John alguma vez conheceu ou viria a conhecer na sua vida. A história gira à volta destes dois e da amizade que os une, mesmo depois de Owen ter, acidentalmente, morto a mãe de John num jogo de basebol.
Owen acredita que Deus tem uma missão para ele, missão essa que lhe é revelada num sonho recorrente. Depois de, durante a peça de Natal onde faz de menino Jesus, ter uma visão, onde vê a sua lápide com o dia e ano em que morreu, Owen passa a ter a certeza de que sabe onde, quando e como vai morrer. John não acredita em nada do que o amigo diz e faz tudo para o convencer de que é apenas um sonho.
A verdade é que Owen passa a viver em função daquilo que julga ser certo e imutável. Prepara-se para aquele dia, fazendo tudo para estar onde acha que Deus lhe disse para estar naquele dia. Até que ponto é ele quem provoca a sua morte? Até que ponto poderia ter sido diferente? Não sabemos. Ninguém sabe e ninguém pode saber.
John, quase sem se aperceber é absorvido pela força de Owen. Tudo aquilo que conquista e todas as suas escolhas acabam por ser condicionadas por Owen, que parece saber exactamente por onde John deve seguir e o que é melhor para amigo. Quase que deixa tudo preparado e encaminhado para que John não se perca depois de ele morrer. E John não se perde, mas também não avança muito, preso a uma personagem inesquecível e a uma história difícil de acreditar. É agora crente mas, como São Tomé, precisou de ver para crer.

E, sem entrar em mais pormenores, é isto.

Embora tenha sido um livro que me pareceu longo demais, lê-se relativamente bem. Tem o cunho de John Irving espalhado pelas páginas, no entanto, para mim não tem John Irving suficiente. Não posso, no entanto, não recomendar a leitura. Acho que, embora não sendo um livro para toda a gente, é um livro que vale a pena ler.

Boas leituras!

Excerto (pág. 79):
"And so that day after Thanksgiving, when Owen Meany met my cousins, provided me two very powerful images of Owen - especially on the night I tried to get to sleep after the foul ball had killed my mother. I lay in bed knowing that Owen would be thinking about my mother, too, and that he would be thinking not only of me but also of Dan Needham - of how much we both would miss her - and if Owen was thinking of Dan, I knew that he would be thinking about the armadillo too."


Este foi uma das histórias de John Irving que serviu de inspiração ao cinema - Simon Birch. Fica aqui o trailer:

setembro 22, 2013

A Última Noite em Twisted River - John Irving

Título original: Last Night in Twisted River
Ano da edição original: 2009
Autor: John Irving
Tradução do inglês: Fátima Vieira
Editora: Civilização Editora

"Em 1954, no pavilhão de refeições da serração de um acampamento de lenhadores, no Norte do New Hampshire, um ansioso rapaz de doze anos confunde a namorada do chefe da polícia local com um urso. Tanto o rapaz de doze anos como o pai são forçados a fugir de Coos County para Boston, Vermont e Toronto, perseguidos pelo implacável polícia. O seu único protector é um lenhador libertário, antigo condutor de toros, e um velho amigo deles.
Numa história que abrange cinco décadas, A Última Noite em Twisted River retrata o último meio século nos Estados Unidos."

É sempre um prazer voltar às histórias de John Irving, e A Última Noite em Twisted River não foi a excepção, felizmente, mais que não seja porque o livro é grandote e porque foi a companhia escolhida para as férias deste Verão. :)

Mais uma grande história de um escritor que é tudo menos comum e cujas histórias são sempre mirabolantes e estranhas, à falta de melhor palavra que descreva os livros de John Irving.
Já o disse numa outra opinião que os livros de John Irving mais parecem uma novela televisiva por não se limitarem a um período da vida das personagens. Parece impensável não se conhecer a infância, explicação para tantas escolhas, atitudes e comportamentos. E deixar de fora a velhice ou mesmo a morte não fecharia o círculo. Com John Irving não existem finais dúbios ou em aberto e nós acompanhamos as personagens quase como se estas fossem nossos familiares. Gosto muito desta característica nas histórias dele. :-) 
Não vou sequer arriscar-me a entrar muito em pormenor na história porque, pedaços soltos sem o contexto apropriado são apenas isso, pedaços soltos de um livro que não deixa nada por contar. Vou só dar-vos um "cheirinho" do trio protagonista Dominic e Daniel Baciagalupo, pai e filho, e Ketchum o melhor e mais velho amigo dos dois.

A história tem início em 1954 em Coos County, junto ao Twisted River, onde o viúvo Dominic é o cozinheiro da serração da região. Dominic é um homem difícil de descrever. Casou cedo com a sua "quase não prima" Rose, a mãe de Daniel, com quem chegou a Coos County, em busca de um recomeço, onde ninguém os conhecesse e julgasse. Nem tudo corre como planeado, e o agora viúvo Dominic, tornou-se num homem solitário, cauteloso e prudente, quase como se não quisesse provocar novos acontecimentos nefastos à sua volta. Para além do filho, Dominic, vive para cozinhar, gosta de mulheres com excesso de peso (Rose foi a sua única mulher pequena e delicada) e de Ketchum, embora não existam no mundo duas pessoas mais diferentes. 
Conhecemos Daniel Baciagalupo com 12 anos, a única criança a viver na serração. É um miúdo solitário, inseguro mas inteligente com uma imaginação fértil que acaba por despoletar os acontecimentos que levaram à fuga dele e do pai, a meio da noite, de Coos County. É nessa última noite em Twisted River que Daniel começa a desenhar na sua cabeça as histórias que o vão tornar num escritor de sucesso uns anos mais tarde. Herda do pai a constante sensação de que algo de terrível lhe está reservado e vive angustiado com a certeza de que sobreviverá a Joe, o filho que tem anos mais tarde e que o manteve longe da guerra do Vietname. 
Finalmente, Ketchum é um dos condutores de toros da serração. É um homem rude, que se afastou, por razões nunca explicadas dos filhos que sabemos ter. É violento, amargurado, anda sempre armado e é contra todo e qualquer sinal de progresso. É, no entanto, uma personagem de quem é fácil gostar. Gosta verdadeiramente dos Baciagalupo e leva muito a sério a promessa que fez a Rose de que cuidaria deles. É muitas vezes desconcertante, mas é das personagens mais interessantes do livro.

Em A Última Noite em Twisted River, John Irving atravessa cinco décadas da história dos EUA. No interior do país, encontramos homens e mulheres rudes, sem papas na língua que viveram e trabalharam em lugares inóspitos e agressivos, muitos deles descendentes de índios. Nas grandes cidades como Boston, temos os imigrantes, os que vieram em busca do sonho americano. 
São estas as pessoas que construíram o país e o transformaram na potência que é hoje em dia. 
Os Baciagalupo e Ketchum vivem a guerra do Vietname, a guerra em que os EUA perderam mais do que aquilo que poderiam ter ganho. Uma geração inteira de jovens, os que tiveram de a combater e os que tudo fizeram para não participar nela. Assistem ao 11 de Setembro, quase como algo inevitável devido à política externa do país e ao crescente anti-americanismo.
É, também por isso, um livro interessante, por nos apresentar várias perspectivas do chamado sonho americano. O EUA são um país enorme, com muitas assimetria, composto por pessoas tão diferentes e culturalmente tão diversas. 

Para além do tema EUA, onde a visão é, provavelmente a do próprio John Irving, este não deixa de lado todos os seus elementos fetiche: o sexo apresentado como algo estranho e bizarro, os ursos, a perda e a solidão. As personagens de John Irving são sempre um pouco estranhas, mas acima de tudo são solitárias, inadaptadas ou, de certa forma, deslocadas da realidade que as rodeia.
John Irving partilha, ainda connosco um pouco do processo criativo, de como nascem as histórias, de como muitas vezes o ponto de partida é algo do próprio escritor, que depois envolve tudo em muita ficção. De como, nem o próprio escritor se apercebe de quão autobiográficos podem ser os seus livros. Em A Última Noite em Twisted River, Daniel Baciagalupo, torna-se um escritor de sucesso e é ele o autor de A Última Noite em Twisted River, a obra que levou uma vida inteira a ser escrita e que só conseguiu escrever depois de ter vivido tudo o que viveu.
 
Não sendo o melhor livro que já li dele, é mesmo assim um livro que a meu ver vale muito a pena ler. 

Gostei e recomendo, claro!

Boas leituras!

Excerto:
"Estava uma noite quente, sem vento. Danny sabia que ouviria facilmente o disparo de uma arma mesmo a alguns quilómetros de distância numa noite como aquela. O que não sabia de início era: o que queria ele realmente ouvir? E qual seria o significado de ouvir ou não ouvir o disparo? Era mais do que a sobrevivência do raçado de husky-pastor-que-atacava-pelas-costas que o escritor esperava escutar. (...) Foi então que o escritor se apercebeu do que estava à escuta: de nada. Era nada que ele esperava ouvir. Era um não-disparo que significaria que o pai estaria a salvo - que o cowboy, tal como Paul Polcari, poderia nunca vir a premir o gatilho."

outubro 10, 2011

Novidade: "As Regras da Casa da Sidra" de John Irving

"A odisseia de Homer Wells começa no meio dos pomares de macieiras do Maine rural. Sendo a mais velha das crianças do orfanato de St Cloud’s que não chegaram a ser adotadas, Homer estabelece uma amizade profunda e invulgar com Wilbur Larch, o fundador do orfanato - um homem de rara compaixão viciado em éter. O que Homer aprende com Wilbur leva-o desde a sua primeira aprendizagem de cirurgia no orfanato até uma vida adulta à frente de uma fábrica de sidra e a uma estranha relação com a mulher do seu melhor amigo."

Depois de ter editado A Última Noite em Twisted River (já na minha estante) a Civilização edita o magnífico As Regras da Casa da Sidra (The Cider House Rules).
Espero que a Civilização, ou outra editora, continue a apostar neste escritor fantástico, mesmo que o preço final dos livros não seja muito convidativo.

Como já li este, em inglês (a minha opinião aqui) posso-vos dizer que vale o dinheiro. No entanto, se não têm dificuldades em ler em inglês podem sempre poupar uns euritos (valentes) e comprar uma edição original.

Nota: Não me entendo no site da Civilização... Não acho normal não encontrar qualquer referência a este livro lá. Se calhar sou eu que sou naba! :/

janeiro 03, 2011

The Cider House Rules - John Irving



"The reason Homer Wells kept his name was that he came back to St Cloud's so many times, after so many failed foster homes, that the orphanage was forced to acknowledge Homer's intention to make St Cloud's his home."


"Homer Wells' odyssey begins among the apple orchards of rural Maine. As the oldest unadopted child at St Cloud's orphanage, he strikes up a profound and unusual friendship with Wilbur Larch, the orphanage's founder - a man of rare compassion and an addiction to ether. What he learns from Wilbur takes him from his early apprenticeship in the orphanage surgery, to an adult life running a cider-making factory and a strange relationship with the wife of his closest friend..."

Estou a ter sérias dificuldades em escrever a minha opinião sobre este livro. O problema não reside em saber se gostei ou não, porque aí a resposta é inequivocamente sim!, gostei e muito! A questão é que, tal como nos outros livros do John Irving que já li, as histórias são tão completas, tão cheias de tudo, que é difícil decidir o que é importante ou não referir, porque é tudo importante, porque nada acontece por acaso e porque os livros dele mais parecem uma temporada completa de uma série televisiva... :)
Depois de muito escrever e muito apagar decidi manter esta opinião o mais simples possível, e não acrescentar à sinopse muito mais do que já está dito.

Homer Wells é o orfão mais velho a viver em St Cloud's, um orfanato rodeado por habitações abandonadas, numa cidade quase fantasma. A única ligação ao mundo civilizado é feita pela estação de comboios, onde chegam as mulheres que procuram St. Cloud's para terem orfãos, deixando os seus bebés no orfanato, ou para fazerem abortos, prática que o Dr. Wilbur Larch faz, ilegalmente, a todas as mulheres que o procuram.
Dr. Wilbur Larch é o fundador do orfanato e um viciado em éter, que começou a utilizar para anestesiar as dores provocadas pela gonorreia, doença transmitida por uma prostituta, que foi a primeira e única experiência sexual da sua vida. É um homem de bom coração, de convicções fortes, que cria Homer Wells, a única criança da história do orfanato a quem não conseguiu arranjar uma família, como o filho que nunca teve, educando-o para ser útil, ensina-lhe tudo que sabe sobre trazer ao mundo orfãos ou abortos. Prepara-o para ser o seu substituto quando a altura certa chegar.
No entanto Homer, como qualquer adolescente, começa a sentir necessidade de conhecer o mundo fora de St Cloud's. Depois de se aperceber de que, embora concorde com o que Wilbur Larch faz ilegalmente, ele nunca seria capaz de o fazer, decide partir com o casal jovem que aparece em St Cloud's, Candy e Wally. Wilbur é um acérrimo defensor da legalização do aborto mas também o é dos seus orfãos e, por isso, deixa que Homer parta para viver a sua vida e fazer as suas próprias descobertas. Nunca deixa de acreditar, no entanto, que Homer irá voltar, porque ele pertence a St Cloud's. O orfão que foi devolvido tantas vezes tem o seu lugar no orfanato e só lá é que ele poderá ser útil.
Homer parte com Wally e Candy, por quem se apaixonou desde a primeira vez que a viu. Parte para Ocean's View onde aprende tudo o que há para aprender acerca do fabrico de sidra de maçã. Lá conhece pessoas fantásticas que o ajudam e acolhem como se ele fosse um deles. Será que finalmente Homer Wells conseguiu ser adoptado?
É encantadora a forma como vamos acompanhando as descobertas de Homer num mundo tão cheio de novidades e onde a inocência de Homer pode ser desarmante.
Homer nunca perde o contacto com St Cloud's onde Wilbur Larch nunca desistiu de o tornar no seu sucessor. Torná-lo médico é o seu objectivo, mesmo que para isso tenha de lhe construir uma nova identidade e dar-lhe uma nova vida. Acabará Homer por aceitar esta nova vida que Larch escreveu para ele? Estará ele disposto a ir contra a sua decisão de nunca praticar um aborto? Veremos... :)

E a história de uma forma muito resumida é esta. Custa-me deixar de fora desta opinião personagens como a Melony, que tão importante é para o desenrolar dos acontecimentos, as enternecedoras enfermeiras Edna e Angela, o Angel, Ray Kendall e a Olive Worthington e todos os trabalhadores da quinta, porque existe tanto mais para dizer acerca deste livro e sobre os temas que aborda. O tema central é o aborto, mas fala mais sobre as mulheres e a sua vida nos anos 40 e 50 do século passado. Fala também de racismo, de sexo, de crianças abandonadas e indesejadas, de adopção, de violência doméstica e de sacrifício mas, também fala de amor, de heróis, de amizade e de justiça. Não pensem, no entanto, que o tom do livro é pesado e deprimente. Nada disso, o tom é sempre de permanente ironia e comédia contida.
Se tem momentos dramáticos? Claro que tem, momentos como aquele em que Curly Day pensou que iria ser adoptado pelo casal bonito (Candy e Wally), que ele iria ser escolhido porque era o "melhor orfão" e ficou despedaçado por estes terem partido com Homer. É claro que Curly percebeu tudo mal, Candy e Wally não estavam lá para adoptar ninguém, mas não deixa de ser angustiante a aflição do rapazinho. Toda a situação desenrola-se de forma muito caricata e de certa forma cómica, mas não deixa de ser um momento particularmente triste do livro. Tal como é triste a forma como John Irving descreve a chegada e partida das mães que não o querem ser, a vergonha e a dor estampadas nos seus rostos. É triste e chocante a descrição dos abortos, mas também o é a descrição dos abandonos e das razões que levam as mulheres a cometerem tais actos.
John Irving é um autor pouco comum, que escreve autênticas histórias de vida, que nos apresenta personagens fantásticas e permite que acompanhemos as suas vidas desde que nascem até à sua morte, tornado-as tão familiares que nos sentimos abandonados quando lemos a última frase do livro. E agora, o que vai ser deles?, pensamos.

Gostaria que ao lerem esta opinião ficassem com um gostinho do que são as histórias do Irving, mas isso é impossível porque os livros dele são estranhos, divertidos, absurdos, dramáticos, tristes, envolventes, chocantes, polémicos e viciantes. Só lendo é que se consegue apreender todo o génio de John Irving como o escritor e como contador de histórias.
Existem autores que não nos fazem correr para a livraria mais próxima quando lançam um novo livro mas que, quando lemos nos fazem pensar no quanto sentimos a sua falta. Ler John Irving, para mim é isso: não corro para a livraria para comprar os seus livros, dele apenas li quatro livros e com intervalos de tempo grandes entre eles, mas de cada vez que o leio é como encontrar um velho amigo.

Não só recomendo como exijo que leiam pelo menos um livro dele para verem se tenho razão ou não! :p Recomendo todos os que já li dele (a minha opinião sobre Um filho do Circo aqui) mas, este The Cider House Rules (As Regras da Casa na edição portuguesa há muito esgotada) e o The World According to Garp (O Estranho Mundo de Garp na edição portuguesa) simplesmente genial, talvez sejam mais emblemáticos do que é a escrita de Irving. Leiam!!! :)

Para os que possam estar renitentes devido ao tema do aborto, esclareço que este livro não é um livro pró-aborto, não sendo também um livro que condene o aborto. O que este livro espelha é a uma realidade e todos os argumentos apresentados nele são verdadeiros e todas as justificações justas. Não me fez mudar o que penso sobre o assunto, nem veio revalidar a minha opinião. Quem é a favor do aborto não o é de ânimo leve e não o é sem compreender alguns dos argumentos dos que tem outra forma de pensar. Para mim é e será sempre, uma questão de saúde pública, de justiça social, de igualdade de direitos e uma questão acima de tudo pessoal. Se seria capaz de o fazer? Provavelmente não, mas essa seria uma decisão minha e não algo imposto por terceiros. Que não seja o tema do aborto a afastar-vos deste livro, até porque, embora seja um assunto importante para a história, não é de todo A história.

Boas leituras!


Nota: John Irving tem visto alguns dos seus livros serem adaptados para o cinema (livros adaptados ao cinema aqui). Foi o caso do The Cider House Rules. Nunca vi o filme mas pelo que já li sobre ele está bastante diferente do livro. John Irving trabalhou nesta adaptação que foi galardoada com dois Óscares, o de Melhor Actor Secundário para Michael Caine (Dt. Larch) e o de Melhor Argumento Adaptado.

Fica aqui o trailer do filme, que conto ver brevemente:

outubro 02, 2010

Lançamento: "A Última Noite em Twisted River" de John Irving

E eis que vai ser lançado, pela Civilização em Outubro, o mais recente livro do John Irving, A Última Noite em Twisted River.

Não é segredo que gosto muito do John Irving, considero-o um dos meus favoritos e ver o último livro dele editado e traduzido é algo que me deixa muito contente. Estou em pulgas para poder comprá-lo e lê-lo. Os livros dele são sempre uma lufada de ar fresco. Adoro!!!! ;)

Boas leituras.

dezembro 10, 2009

Um Filho do Circo - John Irving

" Muito mais do que escrever um romance sobre a Índia, que não conheço, John Irving apresenta em Um Filho do Circo a história de um médico - indiano sem ser indiano... - que, tendo assistido vinte anos atrás a um duplo homicídio cometido em Goa, procura agora empenhadamente desvendar a verdade. Todavia, através da acção é revelado ao leitor o autêntico âmago da psicologia indiana, toda ela impregnada do intenso perfume de Bombaim, constituído por uma mescla de sexo, morte e flores. Muitas vezes comparado a Charles Dickens, John Irving utiliza um estilo seguro e fácil na descrição dos diversos episódios dramatizados e justifica, sem dúvida, esta apreciação publicada em The Times: A procura da verdade por parte do Dr. Daruwalla é a base do livro (...) Um escritor que tem a coragem de acompanhar esta díficil jornada ao mesmo tempo que comenta as situações de pobreza, racismo e doença num romance tão cheio de humor é um escritor que vale um tesouro."

O John Irving é um escritor fantástico. Um Filho do Circo foi o primeiro livro que li dele, comprei-o numa daquelas "feiras do livro" que o Continente (passe a publicidade) faz periodicamente para se livrar das velharias que tem em armazém. Custou-me 5€ ou coisa que o valha e, foi uma pechincha tendo em conta o quanto me diverti a lê-lo.

Quando comecei a ler, franzi a testa e pensei "ainda bem que não foi caro" porque as primeiras páginas são sobre anões e a obsessão do Dr. Daruwalla por eles, especialmente pelo seu sangue. E não, nada tem a ver com vampiros, o interesse é puramente académico, embora o Dr. Daruwalla seja ortopedista... :) Por estas e por outras é que o livro é, no mínimo surpreedente.
Embora tenha estranhado no início, a verdade é que depois o estilo do John Irving se entranhou. O sentido de humor do autor é fora de série e dei umas boas garagalhadas enquanto lia o livro e, acreditem quando digo que isso nunca me aconteceu com outro livro. Não sou de gargalhada fácil. :)

Para que não sejam induzidos em erro pela sinopse, convém dizer que o livro não é de todo um policial, embora os homicídios tenham de facto ocorrido e o livro tenha como base a investigação levada a cabo pelo Dr. Daruwalla. No decorrer das investigações o autor vai fazendo referências à cultura indiana, à gigantesca indústria de Bollywood e à descriminação provocada pelo sistema de castas instituído na Índia, mas fá-lo de forma leve e mostrando com humor o rídiculo das situações. É, como nas outras obras que já li dele, um livro com muitas referências sexuais e personagens sexualmente ambíguas.
Como não quero correr o risco de aqui contar mais do que devia e estragar as surpresas da história, limito-me a dizer que o livro é, como já disse, surpreendente. O resto fica por vossa conta. :)

Fiquei fã do John Irving e, foi com muita pena que verifiquei que este autor tem muito poucos livros traduzidos para português e que, os que estão traduzidos, são muito difíceis de encontrar porque, regra geral deixaram de ser editados. Restam-me os livros em inglês que, embora não tenha dificuldade em ler, não estão em português e, por isso tenho sempre a sensação de estar a perder alguma subtileza linguística que os bons tradutores fazem o favor de transportar para a tradução. Mas, pensando positivo...pior era se ele fosse francês! :p

Boas leituras!