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maio 07, 2023

Um Dia Diferente - John Steinbeck

Título original: Sweet Thursday
Ano da edição original: 1954
Autor: John Steinbeck
Tradução: João Belchior Viegas
Editora: Livros do Brasil

"Com o deflagrar da Segunda Guerra Mundial, o biólogo marinho que todos conhecem por Doutor é mobilizado. Não é exatamente o mesmo homem que volta a Cannery Row um par de anos mais tarde, mas Cannery Row não é também o mesmo bairro.

O Laboratório Biológico tem a porta empenada pela humidade e o interior repleto de pó e bolor. Dora, a madame, morreu durante o sono, deixando o bordel nas mãos da sua irmã Fauna. Henri, o pintor, abandonou a cidade intempestivamente, e não foi o único.

Parece que só Mack ficou onde estava, procurando pôr as coisas em ordem. Em Um Dia Diferente, Steinbeck regressa ao Bairro da Lata e aos dramas quotidianos daquelas personagens unidas por um destino sem esperança, no centro das quais se encontra o Doutor. Após o absurdo da guerra, ele procura retomar a normalidade da vida dedicando-se à recolha e venda de animais marinhos. Até que da água lhe surge uma outra imagem de salvação: na figura da linda e impulsiva Suzy."

Regressar a Cannery Row é à comunidade de Bairro da Lata (a minha opinião aqui) é quase como saber notícias de velhos conhecidos dos quais guardamos boas memórias e por quem temos carinho. São assim estes livros de John Steinbeck, Bairro da Lata e agora este Um Dia Diferente e, que foi companhia certa nas férias de Verão do ano passado. Estes dois são muito parecidos com O Milagre de São Francisco (a minha opinião aqui) que também aconselho a lerem.

Como é dito na sinopse o Doutor é mobilizado para a 2ª Grande Guerra e, quando regressa, todo o bairro lhe parece diferente. A guerra acabou por afetar, mesmo que de forma indireta, todos e, sem o Doutor para os orientar, todos parecem estar meio à deriva.
Não é só o bairro e as suas gentes que lhe parecem diferentes, o próprio Doutor se sente cansado, desiludido com a vida e cada vez mais sozinho.

O regresso do Doutor é festejado por todos mas todos se apercebem que o homem que voltou não é o mesmo que partiu e ficam preocupados com o desalento que sentem ter tomado conta dos dias do homem que tanto admiram. É por isso que Mack e o seu grupo de inadaptados decidem que têm de fazer alguma coisa para animar e ajudar o Doutor.

Suzy é uma jovem mulher que aparece em Cannery Row, sozinha, à procura de algo que a faça feliz. Quer mudar de vida e vem de braços abertos, preparada para abraçar todos os desafios que a possam esperar. É inteligente e aguerrida e é por isso que chama a atenção de todos, sendo unânime para todos que Suzy é a mulher perfeita para acabar com a solidão do Doutor.
Mack e todos em Cannery Row vão fazer tudo para que os dois se apaixonem e vivam felizes para sempre.

E é mais ou menos isto, uma história de amor, de preconceitos e de desencontros e, mais uma vez, uma história de amizades improváveis, com gente boa, cheia de boas intenções.

É um livro divertido e bem escrito, com a qualidade certificada de John Steinbeck. :)

E foi bom voltar a estas personagens e ao ambiente de Cannery Row.

Recomendo sem hesitações. Aconselho, no entanto a que leiam primeiro o Bairro da Lata para conhecerem as personagens melhor e este não vos pareça meio desenquadrado.

Boas leituras!

Excerto (pág. 11)
"Quando a guerra chegou a Monterey e a Cannery Row todos lutaram mais ou menos, duma maneira ou doutra. Quando as hostilidades cessaram todos tinham as suas cicatrizes.
As fábricas de conservas lutaram também a seu modo, desprezando as limitações impostas e pescando todo o peixe possível. Tudo por razões patrióticas, se bem que isso não voltasse a dar vida aos peixes. Exatamente como as ostras da Alice no País das Maravilhas, «comeram tudo». De resto, o mesmo nobre impulso devastou as florestas do Oeste e levou a que hoje em dia  a água seja puxada à bomba das profundezas do subsolo da Califórnia em quantidades nunca comparáveis às que chovem do céu. Se o deserto alastrar, toda a gente ficará triste, tão triste como Cannery Row quando todas as sardinhas foram pescadas, enlatadas e comidas. As fábricas de chapa ondulada de um cinzento-pérola estavam envoltas em silêncio e toda a vida que tinham era a dum pacífico guarda. A rua, que estremecera com camiões, estava sossegada e deserta.
De facto a guerra tocara a todos. O Doutro fora mobilizado. Deixara como encarregado do Laboratório Biológico Ocidental o seu amigo Old Jingleballicks e cumprira o seu serviço como sargento num posto antivenéreo.
O Doutor encarou a situação com filosofia. Entretinhas as horas livres com uma quantidade apreciável de álcool fornecido pelo Governo, arranjou amizades e evitou ser promovido. Quando a guerra acabou foi mantido no serviço por gratidão do Governo a fim de destrinçar certos problemas menos claros de inventário, tarefa que lhe incumbia, aliás, por a ele se dever em grande parte a sua pouca clareza. Dois anos após a vitória, o Doutor foi finalmente desmobilizado com todas as honras."

maio 26, 2019

Bairro da Lata - John Steinbeck


Título original: Cannery Row
Ano da edição original: 1945
Autor: John Steinbeck
Tradução: Luiza Maria de Eça Leal
Editora: Livros do Brasil

"Cannery Row, em Monterey, na Califórnia, é um pobre bairro costeiro, de poucos quarteirões, onde se acumulam fábricas de enlatar sardinhas, restaurantes de má qualidade, bordéis e mercearias atravancadas. Os seus habitantes, dependendo da frincha pela qual se espreita, são prostitutas e batoteiros, mártires e homens bons, cujas histórias encerram lições de sobrevivência. É entre eles que se encontra o jovem biólogo marinho que todos tratam por Doutor, que aí conjuga o trabalho de recolha e análise dos animais da baía com o melancólico acompanhamento das almas infelizes - e que inesperadamente acabará por encontrar a verdadeira felicidade. Publicado pela primeira vez em 1945 e inspirado pelos habitantes reais de Monterey, Bairro da Lata é um romance onde John Steinbeck recupera o cenário do seu primeiro grande êxito, O Milagre de São Francisco, escrevendo com um misto de humor e comoção sobre a aceitação da vida como ela é, no seu jogo entre um sentido de comunidade e a solidão da existência, entre a tragédia e a generosidade."

John Steinbeck é de longe um dos meus autores favoritos. Já li quase tudo o que está publicado e traduzido e, acho que todos os que li foram surpreendentes. Naturalmente uns são extraordinários outros são mais banais, mas nenhum deles foi só "mais um livro" e, Bairro da Lata não foi a exceção que confirma a regra.

Num universo muito próximo do que encontramos em O Milagre de São Francisco (a minha opinião aqui), Bairro da Lata é mais um relato comovente, sem deixar de ser de certa forma divertido, da vida num bairro de Cannery Row, uma comunidade pobre da Califórnia, que vive da indústria da conserva.

Cannery Row é habitado por todo o tipo de pessoas, uns são honestos e trabalhadores, outros honestos sem trabalho. Outros são mandriões que vivem de esquemas, mais ou menos bem intencionados. Existe uma casa de prostitutas que é muitas vezes apenas um refúgio e escape à vida real do dia-a-dia. Existe um bazar, cujo proprietário é Lee Chong, um chinês avaro que acaba por vender tudo fiado. E existe o Doutor, um jovem biólogo marinho, a única pessoa com estudos em toda a comunidade e que parece ser o elo que os liga a todos. Todos, sem exceção, o respeitam e acarinham. 
Numa comunidade onde ninguém tem nada e vivem todos os dias sem saber como vai ser o dia seguinte, o doutor acaba por ser uma das poucas constantes do bairro.

A comunidade de Cannery Row, surpreende pela qualidade dos sentimentos, pela forma como lida com as dificuldades, pela  capacidade de união em torno de um objetivo comum, e por conseguir com tão pouco fazer tanto. 

A vida é cheia de surpresas e de desafios. Conseguir tirar algo de bom de uma situação complicada, é tarefa difícil mas não é de todo impossível. E o que Bairro de Lata nos diz, é que devemos olhar mais à nossa volta e para as pessoas que nos rodeiam. E não é uma questão de olhar para a miséria dos outros e sentir-mo-nos melhor com a nossa. É olhar para além da nossa miséria e da dos outros e juntos construirmos algo que seja melhor para todos.
E sem que fosse esse o objetivo, em dia de eleições para o Parlamento Europeu, a mensagem que retirei da minha leitura de Bairro da Lata deveria estar na mente de todos os eleitores.

Recomendo sempre John Steinbeck.

Boas leituras!

Excerto:

"Cannery Row, em Monterey, na Califórnia, é um poema, um fedor, uma estridência, uma gradação de luz, uma tonalidade, um vício, uma nostalgia, um sonho. Cannery Row é acumulação e desperdício; lata, ferro, ferrugem e gravetos; pavimentos escavacados, terrenos de urtigas e amontoados de cordame; fábricas de enlatar sardinhas de chapa ondulada, cabarés reles, restaurantes, bordéis e pequenas mercearias atravancadas; laboratórios e albergues. Os seus habitantes s
ao, como disse o homem certa vez, «pegas, alcoviteiras, batoteiros e filhos da mãe», com o que pretendia dizer «toda a gente». Tivesse o homem espreitado por outra frincha e talvez dissesse: «Santos e anjos, mártires e homens bons», e significaria a mesma coisa."

fevereiro 25, 2017

[Filme] Batalha Incerta


Título Original: In Dubious Battle
Realização: James Franco
Duração: 1h50min
Origem: EUA

Sinopse:
In the California apple country, nine hundred migratory workers rise up "in dubious battle" against the landowners. The group takes on a life of its own-stronger than its individual members and more frightening. Led by the doomed Jim Nolan, the strike is founded on his tragic idealism-on the "courage never to submit or yield." Published in 1936, In Dubious Battle is considered the first major work of Pulitzer Prize-winning author John Steinbeck.

In Dubious Battle - Batalha Incerta. O filme baseado na obra-prima e homónima, de John Steinbeck. 

Não será o melhor filme de 2017, mas é um filme que vale a pena ver pela história e pelo facto de ser baseado no livro de um escritor único e inigualável que nunca desilude.

Trailer:


agosto 17, 2015

Chama Devoradora - John Steinbeck

Título original: Burning Bright
Ano da edição:1950
Autor: John Steinbeck
Tradução: Virgínia Motta
Editora: Editora "Livros do Brasil"

"O tema de Chama Devoradora é chocante e até sensacional. Nas mãos de um escritor menor, poderia tornar-se licencioso, mórbido e obsceno. Mas John Steinbeck, que é um dos maiores escritores da América, trabalhou-o com coragem, audácia, lucidez e compaixão. Esta é, afinal, a história do impulso fundamental, a ânsia de procriar, a necessidade premente de continuar a espécie, conduzindo-a à imortalidade...
As personagens de Steinbeck encontram-se a braços com uma dolorosa situação humana, em que intervêm as mais importantes emoções do homem, tais como o amor, o orgulho, o egoísmo, a lealdade e abnegação."

Chama Devoradora é um livro original na forma como conta a história que Joe Saul, Mordeen, Vítor e Amigo Ed partilham. Estes sãos os nomes que Steinbeck decidiu dar às suas personagens, mas poderiam ter sido outros porque o que eles representam é a espécie humana, as nossas  preocupações, os nossos anseios, os nossos desejos e objectivos. As realidades de onde vimos até podem ser diferentes, mas na essência somos de facto muito semelhantes, programados para preservar a espécie, embora muitas vezes pareça exactamente o oposto.

Em três cenários à primeira vista díspares, um Circo, uma Quinta e no Mar, eles vão ser confrontados com dilemas morais, escolhas difíceis. Vão lutar pelo que acreditam, vão cometer injustiças e provocar angústias em quem amam. Vão percorrer um caminho juntos, aprender, crescer e no fim perceber que estavam errados. :)

Foi bom voltar a Steinbeck numa história deste tipo, muito diferente das que lhe são tão características. Uma espécie de experiência literária, explicada pelo próprio no início do livro e que lhe correu francamente bem.

Steinbeck não se recomenda, os livros dele são uma espécie de inevitabilidade à qual nenhum leitor quererá escapar. ☺

Boas leituras!

Excerto (pág. 111):

"(...) Não passa de um rosto qualquer. Os olhos, o nariz, a forma do queixo... Eu pensava que urgia preservá-los por serem meus. E não é assim. É a raça, a espécie que deve sobreviver sempre, a nossa mesquinha e feia espécie, fraca e feia, dilacerada por mil loucuras, violenta e agressiva, a única que tem consciência do mal e ainda assim o pratica; a única que tem consciência da pureza e continua a ser impura, que reconhece a crueldade e sem mantém intoleravelmente cruel.
(...) A nossa querida espécie, nascida sem coragem e, no entanto, cheia de valentia; nascia com uma inteligência bruxuleante e, contudo, trazendo a beleza nas mãos. Que outro animal, além do homem, se pode gabar de haver criado beleza? Com todos os nossos horrorres e todas as nossas faltas, arde em nós uma chama única. E isso é o mais importante de tudo. Uma chama única."

maio 20, 2012

O Milagre de São Francisco - John Steinbeck

Título original: Tortilla Flat
Ano da edição original: 1935
Autor: John Steinbeck
Tradução: Gervásio Álvaro
Editora: Editora "Livros do Brasil"

"Apropriando-se da estrutura e dos temas do ciclo arturiano, Steinbeck imaginou um novo castelo de "Camelot", situou-o numa das colinas pobres que cerca a cidade de Monterey, na Califórnia, e deu-lhe por habitantes um particularíssimo grupo de "cavaleiros".
Os "cavaleiros" em causa são paisanos, homens de diversas origens, cujos antepassados vieram estabelecer-se na Califórnia há centenas de anos. Sem laços constrangedores a empregos específicos, nem a outras complicações do American way of life, eles resistem com todas as suas forças à maré corrupta do trabalho honesto, e ao oceano de rectidão cívica que os cerca por todos os lados."

Tinha muitas saudades de ler Steinbeck e foi muito bom regressar a ele com este livro. Adoro ler autores que já conheço porque me dão uma tranquilidade na leitura, uma sensação de estar em casa que com os autores novos normalmente não acontece, têm outras vantagens, mas esta pertence aos escritores que são nossos velhos conhecidos e nos dão esta sensação de aconchego. :)

O Milagre de São Franscisco é a história de Danny, dos seus amigos e da casa de Danny. Danny e os amigos moram em Tortilla Flat, uma espécie de subúrbios de Monterey, na Califórnia. Em Tortilla Flat vivem os paisanos, homens e mulheres cujos antepassados habitam a Califórinia há mais de 100 anos. No seu sangue corre uma mistura de sangue índio, espanhol, mexicano e caucasiano. "Os paisanos estão isentos de comercialismo, libertos dos complicados sistemas americanos de negócios, e como não têm nada que possa ser roubado, explorado ou hipotecado, não foram muito atacados por esse sistema."

Danny e os amigos, Pablo, Pilon, Big Joe Portagee e Jesus Maria, são paisanos típicos. Têm aversão a qualquer tipo de relação duradoura e isso inclui o trabalho e o namoro. A única coisa que prezam para além de um garrafão de vinho é a amizade que os une. No centro desta amizade está Danny, um rapaz que poderia ter sido alguém na vida  mas que escolheu vaguear, embebedar-se, dormir ao relento e andar à pancada. Quando regressa do serviço militar descobre que o avô morreu e fez dele proprietário, deixando-lhe duas casas nas colinas de Tortilla Flat. Com esta repentina subida na escala social, Danny sente o peso da responsabilidade e começa a repensar a sua forma de viver. Incapaz de viver debaixo de um tecto e ter os seus amigos a dormir ao relento, pouco a pouco a casa de Danny torna-se a casa de todos eles. Nela passam os dias encostados, a beber e a planear como conseguirão o próximo garrafão de vinho. :)
É numa dessas alturas que surge Pirata, uma pobre alma que vive rodeado de cães, que dorme num galinheiro com eles e que ganha a sua vida a vender madeira na cidade. Não gasta um cêntimo daquilo que ganha, vive em condições miseráveis sendo, no entanto, acarinhado por todos na cidade, por ser um rapaz honesto, sem qualquer malícia no seu coração. Quando Pablo se apercebe da quantidade de dinheiro que Pirata deverá ter guardado algures na mata, enceta um plano para lhe ficar com a pequena fortuna. E é quando Pirata, com toda a sua ingenuidade, entra na vida destes homens, que não sendo más pessoas não eram propriamente possuidores da melhor moralidade, que tudo começa a mudar e a lenda da casa de Danny começa a ser escrita. É também aqui que percebemos de onde vem o título da edição portuguesa, muito bem escolhido. :)

No início estranhei bastante a forma como Steinbeck retratava este grupo especial de homens, cujo único interesse era beber, procurar um rabo de saias e agradar a Danny. Retratava-os sempre como sendo homens de bom coração, cujas intenções eram sempre as melhores, mesmo quando roubavam, mentiam e interferiam na vida dos outros pensando apenas no seu próprio benefício. Era tudo absurdo e moralmente duvidoso, no entanto, pouco a pouco, estes homens preguiçosos, completamente parasitários na sociedade, incapazes de pensar para além do círculo onde se moviam, começam a mudar e o que se começa  evidenciar é o sentimento muito forte que nutrem uns pelos outros. Com um sentido de justiça muito próprio protegiam-se uns aos outros e não hesitavam em ajudar, mesmo não tendo nada para oferecer de seu. A realidade é que ao longo do livro ganham um aura de santidade, retorcida, é certo, mas que não deixa de ser mesmo assim uma coisa boa.

Mais uma vez Steinbeck coloca as suas personagens em situações limite de pobreza, evidenciando a dureza daqueles tempos e daquela região.
O Milagre de São Franscisco é uma história sobre a amizade e sobre a bondade que mesmo a mais vil das criaturas pode ter dentro de si. É uma história sobre a ingenuidade, sobre os bons corações das pessoas que cometem acções menos boas, ou moralmente condenáveis, em prol do outro. Difícil de perceber? Talvez, no entanto quando lerem o livro é fácil de perceber e de conceber.

Se juntarmos a isto tudo a escrita divertida de Steinbeck, este é um livro que não devem deixar de ler! Recomendo!

Boas leituras!

Excerto:
"Esta é a história de Danny, dos seus amigos e da sua casa. Esta história narra como eles os três se tornaram numa só coisa, de modo que, na Tortilla Flat, quando se fala da casa de Danny, não se tem em mente uma estrutura de madeira coberta de caliça velha a desprender-se do emaranhado de uma antiga roseira-de-castela. Não, quando se fala da casa de Danny, subentende-se uma unidade cujas partes são homens, uma unidade donde emanava a ternura, a alegria, a filantropia e, no fim, uma tristeza mística. É que nem entre a casa de Danny e a Távolo Redonda havia diferença nem os amigos de Danny eram diferentes dos cavaleiros." 

Deixo-vos aqui o trailer de um filme de 1942, baseado no livro de John Steinbeck, e com o mesmo nome deste - Tortilla Flat:


junho 06, 2010

A Leste do Paraíso (Vol.II) - John Steinbeck

" A Leste do Paraíso, vasto fresco levantado a partir do relato da vida de várias gerações de duas famílias norte-americanas, os Trask e os Hamilton, num período crucial da história dos Estados Unidos (1860. Guerra da Secessão - 1920, anos imediatos à Primeira Grande Guerra), proporcionou ao malogrado James Dean talvez o mais importante papel da sua carreira."

E acabei o segundo volume (primeiro volume comentado aqui) desta obra magnífica do John Steinbeck. Para mim, é neste segundo volume que se encontra o mais importante do livro e o mais interessante da história.

Neste segundo volume, os gémeos, Caleb e Aaron, filhos de Adam e Cathy, cresceram, a família Trask abandonou o rancho e mudou-se para Salinas.
Aaron é loiro e de olhos claros e é fisicamente muito parecido com a mãe mas, em termos de personalidade será mais parecido com o pai, é um sonhador e idealiza demasiado as pessoas que ama, não conseguindo apreender a verdadeira essência de quem o rodeia. Todos gostam de Aaron, todos se sentem atraídos por ele, como se ele necessitasse de protecção, por causa da aparência frágil que exibe. No entanto, é um miúdo que quando se irrita ou quando se sente ameaçado se torna extremamente violento, ficando mais parecido com o seu tio Charles do que com o pai, que é completamente avesso a qualquer tipo de violência.
Criou uma história para si: casará com Abra, uma criatura pura e perfeita, e faz questão de acreditar que a mãe morreu sendo ela também pura e perfeita. Vive numa bolha, fora da realidade e, no dia em que alguém o força a sair do mundo que criou, lida mal com a descoberta de que no sangue dele correm o pecado e a perversão.

Caleb é muito diferente do irmão, moreno com uma atitude de constante desafio que esconde a necessidade enorme que tem de ser amado e acarinhado. Fisicamente é mais parecido com o tio Charles, mas tem uma personalidade muito vincada, é muito inteligente e conhece a fundo todos os que o rodeiam. No entanto, sofre com a maldade que sente dentro dele, que luta para reprimir mas que por vezes não consegue. Quando descobre quem é a mãe, julga estar condenado a ser como ela, pois só a hereditariedade poderá explicar o ódio e o ciúme que sempre o acompanharam. Ama o irmão, mas tem ciúmes dele e ama o pai, procurando sempre a sua aprovação. É um miúdo extremamente carente, que para se proteger constrói um muro à sua volta, passando por arrogante e perigoso.
É o responsável pelos acontecimentos mais dramáticos da história mas o que sentimos é sempre uma vontade enorme de o confortar e aliviar-lhe o sofrimento em que vive. Chegamos a odiar a fraqueza de Adam por ser desatento às necessidades dos filhos e por se ter deixado morrer por dentro quando a mulher o abandonou. Chegamos a odiar Aaron, por ser tão egoísta e tão desligado da realidade e do irmão. Sofremos com Caleb os conflitos interiores que o atormentam e com a inevitabilidade do que acaba por acontecer.
Caleb e Abra acabam por ser as personagens mais reais deste livro, são humanos, comentem erros, têm defeitos e aprendem a viver com isso. São as personagens mais fortes da história.

John Steinbeck faz no A Leste do Paraíso uma construção de personagens notável. Estas diferenças entre dois irmãos, gémeos, criados da mesma forma mas que se apresentam tão diferentes um do outro. A influência que a genética tem na nossa vida, mas particularmente a enorme importância que a educação tem na formação da nossa personalidade.
Uma das palavras mais importantes da história que está presente, implicitamente, em todas as acções é a palavra hebraica Timshel, que surge no quarto capítulo do Génesis, a passagem de Abel e Caim. Deus, quando condena Caim a vaguear pela terra, diz-lhe, segundo a versão hebraica, que ele pode (timshel) dominar sobre o pecado, o que significa liberdade de escolha entre o bem e o mal. Embora todos nós, segundo a Bíblia, descendamos de Caim, um fratricida, todos nós somos responsáveis pelas nossas escolhas e não podemos desculpar as nossas acções com os erros cometidos pelos nossos antepassados. É uma mensagem muito forte ao longo de todo o livro.
A referência à passagem de Abel e Caim não é inocente, porque esta passagem é discutida por Adam, Lee e Samuel, no primeiro volume, quando procuravam na Bíblia nomes para os gémeos. A semelhança entre a histórias dos irmãos da Bíblia e os irmãos do livro de Steinbeck é muita. E a verdade é que, tal como na Bíblia, um dos irmãos acaba por ser indirectamente responsável pela morte do outro.
Não posso esquecer a família Hamilton, tão caricata, com todos os irmãos tão diferentes uns dos outros. O que me fica desta família é, ao contrário dos Trask, que nunca foram uma família na verdadeira acepção da palavra, é a solidariedade e o amor verdadeiro que todos os membros dos Hamilton sentem uns pelos outros, mesmo tendo personalidades tão distintas. Fiquei triste com o fim trágico e prematuro de alguns dos seus membros.
Por último, a mãe dos gémeos, Cathy, a tal que Steinbeck apelidou de monstro. Gostei muito da maneira como ela é descrita no livro, gostei do rumo que a vida dela toma e gostei da forma como acaba. É uma personagem fascinante, como todos os monstros podem ser. :)

Mais uma nota, num post que já vai longo, aconselho verem o filme East Of Eden com o malogrado James Dean no papel de Caleb Trask e o Richard Davalos no papel de Aaron Trask. Quando dei de caras com o filme no meu vídeo-clube fiz questão de o ver, e eu não sou nada dada a filmes antigos. É para verem quanto gosto desta história! :)

Leiam que vale a pena! :)

maio 28, 2010

A Leste do Paraíso (Vol.I) - John Steinbeck

"A Leste do Paraíso (1952), de John Steinbeck, relata, sob a forma de um grande «fresco histórico», a vida de várias gerações californianas, os Trask e os Hamilton, de 1860 a 1920. Nas palavras do próprio autor: «O assunto é o mesmo que cada Homem tem utilizado como tema: a existência, o equilíbrio, a batalha e a vitória, na eterna guerra entre a sabedoria e a ignorância, a luz e a treva, o bem e o mal»."

Acabei de reler o primeiro volume do A Leste do Paraíso e, acho que faz algum sentido separar também a minha opinião em "dois volumes". :) Isto porque, no segundo livro dá-se um salto no tempo, com algumas personagens a morrerem e onde os filhos de Adam Trask, Caleb e Aaron, assumem uma maior notoriedade que não têm no primeiro volume.

É a terceira vez que leio esta saga familiar que John Steinbeck, um dos meus escritores favoritos, escreveu em 1952. Na primeira vez fiquei apaixonada pela história, pelas personagens enfim, pelo livro. Voltei a lê-lo numa altura em que precisava de me sentir próxima de alguém que julguei ter perdido e por isso foi uma leitura de saudade, li-o não pela história mas pelas recordações que me trazia o livro em si.
Por isso achei que estava na altura de lê-lo novamente apenas e só porque me apetecia, sem a sofreguidão da primeira leitura e os fantasmas da segunda.

O mais estranho é que continua a ser uma leitura surpreendente, porque estando eu mais velha, identifico-me com outras coisas, reconheço-me noutras partes da história, anseio pelo que sei que vai acontecer e sofro por antecipação. No fim, a sensação de que o livro é muito bom permanece! Gosto desta capacidade que os livros têm de nos surpreender mesmo quando os estamos a reler. Acho que é por isso que não tenho qualquer pudor em reler livros que gostei, porque sei que há livros que não se esgotam numa primeira leitura, exigindo que voltemos a eles passados uns anos.

Bem, vamos então ao livro, porque é para isso que aqui estou. Aviso desde já que a partir daqui está cheio de spoilers. :)

Em A Leste do Paraíso, John Steinbeck apresenta-nos duas famílias, os Trask e os Hamilton, contando-nos tudo sobre as suas vidas entre 1860 e 1920, ao mesmo tempo vamos percorrendo a história dos EUA nessa época.

Neste primeiro volume, conhecemos Adam Trask, ainda criança, o seu estranho meio-irmão Charles e o pai de ambos, Cyrus Trask.
Adam e Charles têm uma relação difícil. Charles é pura força física, um bruto que resolve tudo à pancada. Adam odeia o pai e tem pelo irmão sentimentos ambíguos, teme-lhe a capacidade destrutiva mas não o odeia. É um rapaz que repudia a violência tendo uma natureza sonhadora. Por isso não é de estranhar que se apaixone perdidamente pela mulher que um dia aparece à porta da casa que partilha com o irmão. Esta mulher, Cathy Ames, aparece no rancho dos irmãos Trask, quase morta, depois de ter sido violentamente espancada por um homem que tentou enganar. Adam acolhe-a como se esta fosse um anjo caído do céu, completamente cego a todos os sinais de perigo que emanam desta mulher com aparência de anjo.
Cathy Ames é uma personagem fascinante de tão cruel e desumana que é. John Steinbeck descreve-a como um monstro, dizendo: "Se há monstros físicos, não haverá monstros mentais ou psíquicos? A cara e o corpo podem ser perfeitos; mas se um esperma deficiente ou um factor hereditário produzem monstros físicos, porque não hão-de produzir almas disformes?" E Cathy é assim, uma criança que não nasceu com a capacidade de amar, nasceu antes com a convicção de que todos os seres humanos são intrinsecamente maus e aprendeu desde logo a aproveitar-se dessa maldade para atingir os seus objectivos.
Adam casa-se com Cathy e muda-se com ela para o Vale de Salinas, onde sonha construir um jardim para a mulher e para o filho que esta carrega na barriga. Cathy, no entanto tem outros planos, assim que se restabelece do parto dos filhos (afinal eram dois e não um) vai-se embora abandonando Adam e os gémeos. Afinal eles foram um percalço e Adam nunca significou mais do que uma oportunidade para sair da situação em que se encontrava. Sem quaisquer remorsos abandona-os, deixando Adam completamente perdido e alienado do mundo.

Os Hamilton são uma família irlandesa que se estabelece no vale do Salinas, no pedaço de terra mais pobre e seco da região. Samuel é um homem cheio de ideias, um inventor. Inteligente e culto, quase um filósofo. No início é olhado de lado pelos habitantes da região, no entanto, depressa todos se rendem à sua boa disposição, pois é um homem honesto e trabalhador e a sua forma de olhar o mundo é vista como sendo apenas uma excentricidade inofensiva. É casado com Lizzie uma mulher pequena e seca, extremamente religiosa que, ao contrário de Samuel, nunca questiona nada, aceitando tudo como sendo desígnios de Deus. Têm nove filhos todos diferentes uns dos outros.
Samuel é uma personagem fascinante, o oposto de Cathy, por ser tão humano. Torna-se conselheiro de Adam, não sendo exagero dizer-se que lhe salvou a vida mais que uma vez.
John Steinbeck ter-se-à inspirado nos seus avós maternos para criar esta família, uma vez que A Leste do Paraíso começou por ser uma história que explicaria aos seus filhos como era o vale de Salinas, na Califórnia, vale onde nasceu e cresceu, que amava e que serviu de cenário a praticamente todas as suas histórias.

Paralelamente à história central destas duas famílias, vão sendo feitas algumas reflexões sobre a sociedade da época e sobre o progresso tecnológico que começava a surgir. Estas são feitas pela voz do narrador que neste caso é o próprio John Steinbeck. Outras reflexões mais filosóficas e bíblicas são protagonizadas por Samuel Hamilton e Lee, o criado chinês de Adam que terá um papel muito importante para o desenrolar da história. Lee é uma personagem muito interessante e curiosa.
Estas reflexões fazem com que este livro seja muito mais do que um livro sobre duas famílias, pois levanta questões pertinentes que são, curiosamente, ainda muito actuais.

Para além de tudo isto, nota-se sempre em cada palavra escrita sobre o vale de Salinas o amor que Steinbeck nutria pela terra onde nasceu e cresceu e que imortalizou nos seus livros. Terra difícil, com um clima instável, onde os anos de seca podiam destruir o fruto de anos de trabalho árduo. No entanto, eram poucos os que abandonavam as suas terras, era como se a terra exercesse uma espécie de feitiço sobre eles. Todos pressentiam nela qualidades ainda por descobrir.
É muito interessante conhecer o modo de vida das pessoas, as dificuldades que enfrentavam e as suas maiores preocupações. Nestas páginas e em outras escritas por Steinbeck, está bem patente o espírito inovador e progressista dos americanos. A resistência e a capacidade de transformarem tudo à sua volta. As histórias de Steinbeck são "muito americanas" porque são sobre os americanos, os verdadeiros, não os heróis inverosímeis retratados nos filmes de Hollywood. Retratam uma época muito complicada, de grandes mudanças e de grandes dificuldades. Steinbeck escreveu muito sobre os problemas sociais que assolaram o país durante a Grande Depressão com a pobreza e os consequentes fenómenos migratórios e sobre a guerra. Problemas que, não sendo exclusivamente americanos, nos permitem uma identificação com a história. Não sentimos a distância de um oceano entre nós e aquelas pessoas.

Se nunca leram nada dele, façam-no e já! Recomendo, para além do A Leste do Paraíso, o As Vinhas da Ira (à espera de ser relido um dia destes) e o Ratos e Homens. Eu gosto de todos, mas estes talvez sejam os mais emblemáticos.

Boas leituras! :)