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setembro 06, 2022

A Morte de Jesus - J. M. Coetzee

Título original: 
The Death of Jesus
Ano da edição original: 2019
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações D. Quixote

"Em Estrella, David cresceu, tornando-se um rapaz de dez anos com um talento inato para o futebol e que adora jogar à bola com os amigos. O seu pai, Simón, e Bolívar, o cão, assistem habitualmente aos jogos, enquanto a mãe, Inés, trabalha numa boutique. David continua a fazer muitas perguntas, desafiando os pais e qualquer figura de autoridade que surja na sua vida. Nas aulas de dança da Academia de Música, David dança a seu bel-prazer. Recusando-se a fazer somas e não lê livros algum a não ser o Dom Quixote. 
Um dia, Julio Fabricante, o diretor de um orfanato, convida David e os amigos para formarem uma equipa de futebol a sério. David decide deixar Simón e Inés para ir viver com Julio no orfanato, mas passado pouco tempo sucumbe a uma misteriosa doença.
Depois de A Infância de Jesus e Jesus na Escola, J. M. Coetzee completa a sua inquietante trilogia com uma nova obra-prima, A Morte de Jesus, onde continua a explorar o significado de um mundo destituído de memória mas transbordante de perguntas."

E chegamos ao último livro desta trilogia. Em A Morte de Jesus, após todo o drama vivido em Jesus na Escola, vamos reencontrar David, agora com dez anos, basicamente igual a si próprio. Cheio de perguntas, obsessões e com muita dificuldade em perceber quem é, porque está ali e de onde veio.

Parece, no entanto mais bem integrado. Joga à bola com os amigos e todos parecem ter por ele uma admiração muito grande. David é um líder nato, chega a parecer-nos uma espécie de Messias infantil, que todos adoram e seguem sem grandes questões ou reservas. Simón parece ser o único que o vê apenas como uma criança de dez anos, inteligente, é verdade, mas apenas uma criança.
 
É nos jogos com os amigos que conhece Julio Fabricante, o dono de um orfanato, que o convida a fazer parte da equipa de futebol do orfanato. Já sabemos que David tem uma tendência para gravitar junto de personagens meios estranhas e de cuja bondade muitas vezes duvidamos e, neste caso, não é muito diferente. De um dia para outro, e porque parece nunca estar bem junto de Simón e Inés, decide ir viver para o orfanato para junto de Julio Fabricante. Simón e Inés não o conseguem contrariar e permitem que ele fique no orfanato.

Um dia David adoece e ninguém consegue perceber que doença o afeta. Fica internado enquanto os médicos tentam perceber o que se passa com ele e, à medida que o tempo passa, David vai definhando e tem muitas conversas com Simón sobre a morte, sobre vidas passadas e vidas futuras.
Simón e Inés ficam desesperados com a situação de David, frustrados por não conseguirem fazer nada por ele, incapazes de proteger David dos males do mundo e das pessoas que gravitam junto dele e que, embora digam que querem o bem dele, temos dificuldade em perceber quais as suas reais intenções. Põem em causa a parentalidade de Simón e Inés, que na verdade não são os pais de David, por forma a isolá-lo cada vez mais da "normalidade" que só Simón e Inés lhe podem dar. Os únicos que o amam sem esperar nada em troca.
 
A Morte de Jesus é um livro mais triste que os outros dois, com uma maior profundidade emocional nos diálogos. É o livro mais pequeno, dos três, tem poucas páginas e lê-se muito rápido.
 
Podemos ler A Infância de Jesus e não lermos Jesus na Escola e A Morte de Jesus, o livro vale por si e não necessita propriamente de continuação para fazer sentido. No entanto, acho que a leitura dos outros dois é importante para efetivamente conhecermos David e os seus pais adotivos.

Gostei bastante desta trilogia. São livros muito curiosos, peculiares e que nos deixam a pensar. Há uma permanente estranheza em todos eles que me agrada muito. 

Gostei muito e recomendo!

Boas leituras! :)


Excerto (pág.115):

"- O Juan Sebastián disse-me que o David tem estado doente, de modo que vim ver com os meus próprios olhos - diz Alma. - Trouxe fruta da quinta, Há tanto tempo que não te via, David! Temos saudades tuas. Tens de nos fazer uma visita assim que estiveres melhor.
 - Vou morrer, de modo que não posso ir visitar-vos.
 - Não me parece que devas morrer, meu rapaz. Será um desgosto para demasiadas pessoas. Será um desgosto para mim, e para Simón, tenho a certeza, e para a tua mãe, e para Juan Sebastián, e isso será apenas o princípio. Além disso, não te lembras da mensagem de que me falaste, da mensagem importante? Se morreres, não poderás transmiti-la, e nenhum de nós saberá alguma vez o que era a mensagem. Portanto acho que deves dedicar toda a tua energia a restabeleceres-te.
 - O Simón diz que eu sou o número cem, e o número cem tem de morrer.
Ele, Simón, intervém.
 - Eu estava a falar de estatísticas, David. Estava a falar de percentagens. As percentagens não são a vida real. Tu não vais morrer, mas mesmo que fosses morrer não seria por seres o número cem ou o número noventa e nove ou qualquer outro número.
David ignora-o.
 - O Simón diz que na próxima vida eu posso ser outra pessoa, que não tenho de ser este rapaz e não tenho de ter uma mensagem.
 - Não gostaste de ser este rapaz?
 - Não.
 - Se não gostaste de ser este rapaz, quem preferias ser, David, na próxima vida?
 - Preferia ser normal.
 - Que desperdício seria! - Ela poisa-lhe a mão na cabeça. Ele fecha os olhos; o seu rosto assume uma expressão de intensa concentração. - Quem me dera que na próxima vida tu e eu nos pudéssemos encontrar de novo e continuar estas nossas conversas! Mas, como tu dizes, na próxima vida seremos provavelmente outras pessoas. Que pena! Bem, está na altura de me despedir. Tenho de apanhar o autocarro. Adeus, jovem. Não vou certamente esquecer-te, nesta vida."

setembro 05, 2022

Jesus na Escola - J. M. Coetzee

Título original: The Schooldays of Jesus
Ano da edição original: 2016
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações D. Quixote

"David é um rapazinho que está sempre a fazer perguntas. Simón e Inés ficam encarregados dele na nova cidade em que vão habitar, Estrella. O rapaz está a aprender a língua e começou a fazer amizades. Tem o seu grande cão Bolívar para olhar por ele. Mas vai fazer sete anos e tem se ir para a escola. Assim, tendo em conta as indicações das três irmãs proprietárias da quinta onde Simón e Inés trabalham, David é matriculado a Academia de Dança. É aí, com as suas novas sapatilhas de dança douradas, que aprende a chamar os números do céu. Mas é também aí que vai fazer descobertas perturbantes sobre aquilo de que os adultos são capazes. Nesta hipnotizante história alegórica, Coetzee lida habilmente com as grandes questões do crescimento e do que significa ser "pai", com a batalha constante entre o intelecto e a emoção, e com a maneira como optamos por viver as nossas vidas.
Jesus na Escola é a inquietante sequela de A Infância de Jesus, dando continuidade à jornada de David, Simón e Inés."

O primeiro volume - A Infância de Jesus (opinião aqui) - acabou com Simón e Inés, a saírem da cidade com David para que o menino não fosse obrigado a ir para a escola oficial e convencional que ensina os números, a fazer contas, ensina as letras e a ler. David diz que já sabe ler porque aprendeu com o livro de Dom Quixote de La Mancha, o livro que traz sempre consigo.

Na nova cidade, Estrella, é cada vez mais evidente que David necessita de algum tipo de educação para além da que Simón e Inés conseguem dar. A criança está a tornar-se cada vez mais desobediente e cada vez é mais difícil para os dois responder a todas as perguntas do miúdo.

Depois de muito ponderarem acabam por inscrevê-lo na Academia de Dança. Embora o currículo não seja convencional, não aprendem a ler nem a contar de forma convencional, a verdade é que David não é uma criança convencional. 
Simón não é grande fã da Academia, convive mal com coisas que não sejam concretas e palpáveis e tenta contrariar David, sempre que pode, para que a criança tenha uma visão mais normal do que o rodeia. Inés vive angustiada com a ideia de que David  não goste dela e não a reconheça como sua mãe. Não tem, dentro dela, a capacidade de fazer melhor e isso frustra-a.
Embora tenham ambos muita dificuldade em perceber o que se ensina na Academia e se aquilo é positivo ou não para o futuro de David, para Simón e Inés, o importante é que David se sinta feliz.

David, por seu lado, parece encontrar na Academia coisas que o mantêm interessado, embora nem sempre o que interessa David seja necessariamente positivo. Desenvolve uma paixão pela dona da Academia e professora de dança, Ana Magadlena e vive fascinado por Dimitri, o contínuo da Academia, uma personagem sinistra que parece ter hipnotizado David.

Neste segundo volume, David aparece-nos ainda mais estranho que no volume anterior. É claramente uma criança muito inteligente mas, ao mesmo tempo é altamente desajustada, a roçar a sociopatia. É mimado, obcecado, pouco empático e narcisista, tudo isto embrulhado na candura natural de uma criança de sete anos.

Jesus na Escola é um livro por vezes perturbador, onde Coetzee aprofunda, de uma forma alegórica, os meandros obscuros do crescimento e as dificuldades que se encontram na educação das crianças.

Gostei bastante, como seria de esperar de um livro de J. M. Coetzee e recomendo a leitura da trilogia. Não se fiquem apenas pelo primeiro volume, A Infância de Jesus, que podendo ser lido por si só, ganha se completarmos a história de David com os segundo e terceiro volumes - Jesus na Escola e A Morte de Jesus. Estes dois últimos só fazem sentido se tivermos lido o primeiro.

Boas leituras!

Excerto (pág. 43):

"- Deviam inventar uma máquina para colher azeitonas. Nessa altura tu e a Inés não teriam de trabalhar.
 - Isso é verdade. Mas se inventassem uma máquina para colher azeitonas, os apanhadores de azeitonas como nós não teriam trabalho e por conseguinte não teriam dinheiro. É uma velha discussão. Há pessoas que estão do lado das máquinas e outras que estão do lado dos apanhadores manuais.
 - Eu não gosto do trabalho. O trabalho é aborrecido.
 - Nesse caso, tens sorte em ter pais que não se importam de trabalhar. Porque sem nós morrerias à fome, e não havias de gostar disso.
 - Eu não vou morrer à fome. A Roberta há-de dar-me comida.
 - Sim, sem dúvida... Como tem bom coração, há-de dar-te comida, Mas queres mesmo viver assim, da caridade dos outros?
 - O que é a caridade?
 - A caridade é a bondade dos outros, a generosidade dos outros.
O rapaz olha para ele de uma maneira estranha.
 - Não se pode depender eternamente da bondade dos outros - prossegue ele. - Tem de se dar e receber, senão não há igualdade, nem justiça. Que género de pessoa queres tu ser: o género que dá ou o género que recebe? Qual é o melhor?
 - O género que recebe.
 - Palavra? Acreditas mesmo nisso? Não será melhor dar do que receber?
 - Os leões não dão. Os tigres não dão.
 - E tu queres ser um tigre?
 - Eu não quer ser um tigre. Estou só a dizer-te. Os tigres não são maus.
 - E também não são bons. Não são humanos, de maneira que estão fora da bondade e da maldade.
 - Bem, eu também não quero ser humano.
Eu também não quero ser humano.
Relata a conversa a Inés.
 - Incomoda-me quando ele fala assim - diz ele. - Teremos cometido um grande erro ao tirá-lo da escola, ao educá-lo fora da sociedade, ao deixá-lo correr por aí à solta com outras crianças?
 - Ele gosta de animais - volve Inés. - Não quer ser como nós, que ficamos para aqui a apoquentar-nos com o futuro. Quer ser livre.
 - Não me parece que seja isso que ele quer dizer quando diz que não quer ser humano - retruca ele. Mas Inés não está interessada."

novembro 14, 2021

A Infância de Jesus - J. M. Coetzee

Título original: The Childhood of Jesus
Ano da edição original: 2013
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote

"Depois de cruzarem oceanos, um homem é um rapaz chegam a uma nova terra. Recebendo ali um nome e uma idade, são alojados num campo do deserto enquanto aprendem espanhol, a língua do novo país. 
Agora chamados Simón e David, dirigem-se ao centro de realojamento da cidade de Novilla, onde os funcionários são corteses, mas não necessariamente prestáveis. Simón assume então a incumbência de localizar a mãe do rapaz. Embora, como todos os que chegam a este novo país, pareça estar completamente limpo de todos os vestígios de recordações, tem a convicção de que a reconhecerá quando a vir. E , de facto, ao passear pelo campo com o rapaz, Simón vislumbra uma mulher que tem a certeza tratar-se da mãe dele, persuadindo-a a assumir esse papel. E será a nova mãe de David a aperceber-se de que está é uma criança excecional, um rapaz inteligente e sonhador, com ideias muito invulgares sobre o mundo. As autoridades académicas, porém, detestam nele um traço de rebeldia e obstinam-se em que ele seja enviado para uma escola especial distante. A mãe recusa-se a entregá-lo, e é Simón que terá de conduzir o automóvel durante a fuga do trio pelas montanhas. 

A Infância de Jesus é um belo e profundo romance, sempre surpreendente, assinado por um esplêndido escritor. "

Tinha algumas expectativas quando peguei neste livro para ler. Gostei de tudo o que li de J. M. Coetzee e por isso, quando comecei a ler A Infância de Jesus, e a primeira impressão foi de estranheza, fiquei preocupada.
A verdade é que estranhei um pouco a história, as personagens e a dinâmica entre elas. Estranhei o ritmo. Houve momentos em que pensei que não estava a gostar muito, e outros em que me consegui embrenhar em tudo aquilo.
Acabei por ler o livro em muito poucos dias, o que hoje em dia é uma raridade e, terminado o livro, gostei bastante. É um pouco diferente dos outros que li dele, achei-o original, gostei das personagens e da forma como nos permite refletir sobre algumas questões que, enquanto sociedade, devíamos todos refletir.

De uma forma muito resumida, não querendo repetir ou acrescentar mais ao muito que já é dito na sinopse, A Infância de Jesus conta-nos a história de um homem e de uma criança, que chegam juntos a Novallis. O homem não é familiar da criança, não o conhecia até há pouco tempo e não sabe o nome dele. Aliás, nenhum dos dois tem memória da sua vida passada, algo que parece ser uma consequência da viagem que todos fazem até ali, uma espécie de preço a pagar para poderem entrar e ficar em Novallis porque, "não há mais nenhum sítio para estar a não ser aqui." Por isso, na verdade, nenhum dos dois sabe como se chama e os seus nomes e idades foram escolhidos no centro de onde vieram antes de poderem avançar para Novallis.
 
Simón fica como responsável por David, a quem prometeu que iria encontrar a mãe, embora não saiba o nome dela, nunca a tenha visto e o rapaz não se lembre dela. No entanto, Simón tem a certeza que quando a vir vai saber que é ela.

Novallis não é uma cidade normal, parece que estamos, de alguma forma, a viver numa espécie de distopia. As pessoas são todas muito simpáticas, mas não são particularmente disponíveis e prestáveis. Não parecem genuinamente interessadas em ninguém ou por nada. São burocráticas, vivem de acordo com as regras e não as questionam. Não parecem precisar de mais nada, não criam novos laços e já perderam a memória dos laços que existiam antes de lhes ser dada a oportunidade de viverem em Novallis.
David é um miúdo inteligente que questiona tudo e todos, principalmente a autoridade e, começa a destacar-se num meio onde todos obedecem.

Não existe propriamente uma autoridade repressiva ou autoritária que incute o medo. É mais uma espécie de apatia que parece estar entranhada em todos os habitantes de Novallis. Não há uma proibição de questionar nem existe violência ou reações extremadas. As crianças vão à escola e os adultos trabalham, em qualquer coisa, para poderem comprar comida e ter um sítio onde morar. Mais nada.

Trabalham sem que exista um objetivo definido no trabalho que desenvolvem. Simón arranja trabalho nas docas na descarga de mercadoria e, passado uns tempos apercebe-se de que tudo o que ele e os colegas descarregam não serve para nada, toda aquela carga é levada, por outros colegas, para um outro sítio nas docas e fica por lá sem qualquer serventia. 
Muita da nossa economia é exatamente isto: Consumir matérias-primas finitas, para produzir coisas que ninguém vai comprar ou que têm uma utilidade muito limitada e que acaba no lixo. Existem milhares, milhões de pessoas que se levantam todos os dias para passarem mais de metade do seu dia a produzirem algo que vai diretamente para o lixo. Trabalho inútil que só serve para dar trabalho, também ele inútil, ao próximo agente na cadeia de valor. E andamos todos, a correr atrás da própria cauda, preocupados em aumentar produtividade, em aumentar lucros, quando na realidade a grande maioria de nós está a trabalhar para produzir lixo... É angustiante... 

Gosto muito de J. M. Coetzee. Para além de falar em assuntos que, de uma forma geral, são pertinentes, há uma leveza na escrita e na forma como nos conta uma história que faz com que tudo nos pareça muito próximo.
A Infância de Jesus não fugiu à regra. Primeiro estranhei, é verdade, mas depois entranhou de tal forma que já comprei o segundo volume, Jesus na Escola, da trilogia, que fecha com A Morte de Jesus.

Recomendo, sem qualquer hesitação.

Boas leituras.

Excerto (pág. 28):

" - Para que é que estamos aqui, Simón? - pergunta baixinho. 
 - Já te disse: estamos aqui só por uma ou duas noites, até encontrarmos um sítio melhor para ficarmos.
 - Não, o que eu quero dizer é porque é que estamos aqui? - o seu gesto abarca o quarto, o Centro, a cidade de Novilla, tudo. 
 - Tu estás aqui para encontrar a tua mãe. E eu estou aqui para te ajudar. 
 - Mas depois de a encontrarmos, para que é que estamos aqui? 
 - Não sei o que dizer. Estamos aqui pela mesma razão pela qual todas as outras pessoas estão. Deram-nos uma possibilidade de viver e nós aceitámos essa possibilidade. É uma grande coisa, viver. É a maior de todas as coisas. 
 - Mas temos de viver aqui? 
 - Aqui em vez de onde? Não há mais nenhum sítio para estar a não ser aqui. Agora fecha os olhos. São horas de dormir. "

janeiro 26, 2014

Desgraça - J. M. Coetzee

Título original: Disgrace
Ano da edição original: 1999
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: José Remelhe
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Com cinquenta e dois anos, o professor David Lurie perde o emprego e os amigos depois de um romance com uma das suas alunas, refugiando-se na quinta da filha, Lucy. As tentativas de David para se relacionar com Lucy e com uma sociedade feita de novas complexidades raciais são perturbadas por uma tarde de violência que os vai modificar, a ele e à filha, de uma forma que ele jamais poderia prever." 

J. M. Coetzee é um autor para o qual não devemos partir de ânimo leve. As suas histórias têm uma espécie de força para a qual temos de estar preparados . A violência, não apenas física, que lá vamos encontrar é, à falta de melhor palavra, desconcertante e toda a dinâmica que ele cria chega a ser desconfortável. 
Quando o título do livro é Desgraça, não podemos dizer que fomos apanhados desprevenidos.

(pode conter spoilers)

Desgraça passa-se na África do Sul, o país que todos conhecemos pelas piores razões, mesmo que pelo meio surjam coisas boas, quando o nome África de Sul surge, a nossa primeira reacção é, naturalmente, de apreensão. David Lurie é um dos brancos daquele país, tem cinquenta e dois anos, divorciado, com uma filha e professor universitário na Cidade do Cabo. Dá aulas apenas porque precisa da estabilidade financeira, não sente qualquer vocação e não sente por parte dos seus alunos qualquer afeição ou interesse particular pelas suas palestras literárias.
É, ao mesmo tempo, obstinado e fiel aos seus princípios, não pensa no país como sendo preto e branco, vê pessoas e principalmente vê mulheres, miúdas mais novas que lhe despertam interesse. É o que acontece com Melanie, uma das suas alunas com quem acaba por se envolver. Gosta dela, para além do físico, e em plena crise de meia idade, não vê qualquer sinal de perigo na relação que mantém com a rapariga. Naturalmente, nem tudo corre como esperado e David, após uma espécie de julgamento académico, levado a cabo pelos seus pares na universidade, é expulso da instituição, acusado de assédio sexual. Para além da questão moral, que é discutida por alguns colegas de David, principalmente colegas femininas, a sensação que fica é que, David foi expulso porque não entrou no jogo da expiação e remorso que os seus colegas teriam desejado. Não precisavam  de remorso verdadeiro apenas de um pedido de desculpa que David nunca esteve disposto a pedir. Desculpa porquê? Nunca fez nada de mal.

Sem nunca alcançar a gravidade do que lhe aconteceu mas sabendo que o melhor é desaparecer por uns tempos, parte para o interior, para viver uns tempos com a filha Lucy. E é aqui que tudo começa. É engraçado como deste livro de Coetzee as referências que tinha eram apenas a da história inicial, da relação da personagem com uma aluna e dos problemas raciais à volta. Na realidade esta é apenas uma parte da história e que fica mais ou menos resolvida assim que ele parte para junto da filha. A história com Melanie parece servir apenas para nos dar a conhecer David, a forma como vive e o que pensa. Serve também para mostrar dois mundos distintos, o meio urbano onde todos tentam ser o mais civilizados possível, e o meio rural onde a violência é uma realidade e a questão racial é um problema muito mais concreto.

A filha de David, já adulta, vive sozinha numa quinta no interior do país. Cultiva hortaliças, planta flores e tem um canil. É uma mulher branca a viver sozinha numa quinta e David não percebe como a filha não vê os perigos que isso pode trazer. Para Lucy, o pai é um homem da cidade, instruído e que vem para ali cheio de preconceitos e que simplesmente não percebe que a felicidade está nas coisas simples, trabalhar no campo, ajudar animais em perigo e viver de forma a não ofender ninguém. Ela acredita que vivendo de forma honesta, sem tiques de proprietária colonialista, nada de mal lhe pode acontecer. David acaba por se ir adaptando à vida no campo, ao contrário do que a filha pensa, ele não é um pseudo-intelectual preconceituoso. Ambos têm muito a aprender um com outro. Na verdade David gosta da oportunidade que a vida lhe está a dar para conhecer melhor Lucy, a filha independente que sempre fez o que quis, sem precisar de grande orientação por parte dos pais. Acima de tudo, existe em David uma necessidade de encontrar um lugar no mundo onde se possa sentir útil. Para David envelhecer não tem sido pacífico, principalmente por causa das mulheres, o seu calcanhar de Aquiles. :) Por isso pretende aproveitar toda a história com a aluna para recuperar o tempo perdido com a filha e ser um pai mais presente, protegê-la dos perigos e se conseguir sair de todo este processo uma melhor pessoa tanto melhor.

Infelizmente os receios de David acabam por ser concretizar no dia em que os dois são atacados na propriedade de Lucy, por um grupo de homens, quase uns miúdos, que fazem mais do que roubar o carro de David. A violência, mais insinuada do que descrita, é revoltante e as consequências vão muito para além do físico. 
David martiriza-se por não ter conseguido proteger a filha. Lucy após um período de isolamento, encontra uma forma de despersonalizar o que lhe aconteceu e tenta contextualizar, justificar o comportamento dos homens que a atacaram. Ela começa a encarar tudo aquilo como o preço a pagar para poder permanecer ali, como se a violência de que foi vítima estivesse escrita nas condições contratuais que vinham com a compra do seu pedaço de terra. Existe a partir dali uma dinâmica entre as personagens que é desconcertante. Com o pai a não saber lidar com as ideias de uma filha que achava ser mais inteligente, mais livre e evoluída, no seu entender. Sem conseguir perceber a teimosia da filha em querer continuar ali, a viver, lado a lado com um dos miúdos que violou. A lidar com a culpa, completamente incapaz de convencer a filha a sair daquele lugar, a relação entre os dois degrada-se. David regressa à Cidade do Cabo, apreensivo por deixar Lucy sozinha mas consciente de que lhe faz mais mal que bem, naquele momento. Volta para um cidade que já não reconhece e que deixou de o aceitar. Percebe finalmente o que precisa de fazer relativamente a Melanie e à família desta, pede perdão, e volta para junto da filha que, quer ela saiba quer não, precisa mais dele do que imagina. Volta redimido e predisposto a retirar-se da equação e concentrar-se na recuperação física e psicológica da filha.

Desgraça é um livro violento, com personagens difíceis de esquecer, complexas e inesperadas, que nos exasperam e nos comovem. Gosto de Coetzee e do que faz com as palavras. Gosto da forma como conta uma história e de como cria em nós, leitores, empatias. 

É um livro que deve ser lido, por toda a carga emocional e humana que transporta e porque Coetzee é realmente um escritor muito bom. 

Boas leituras!

Excerto:
"(...) Na minha opinião, aquilo que me aconteceu só a mim diz respeito. Noutra época, noutro local, talvez pudesse ser considerado um assunto público. Mas, neste local, nesta época, não é. É um assunto meu, apenas meu.
 - E a que local te referes?
 - A África do Sul.
 - Não concordo. Não concordo com o que estás a fazer. Pensas, porventura, que ao aceitares pacificamente o que te aconteceu, conseguirás diferenciar-te de agricultores como o Ettinger? Pensas, porventura, que o que aconteceu aqui foi um teste: se tiveres boa nota, recebes um diploma e um salvo-conduto para o futuro, ou uma tabuleta para colocares por cima da porta que fará com que a praga passe sem te atacar? Não é assim que a vingança funciona, Lucy. A vingança é como um incêndio. Quanto mais devora, mais fome tem."

Fica o trailer do filme inspirado na obra de J. M. Coetzee - "Disgrace" de Steve Jacobs, com John Malkovich no papel de David Lurie:

maio 02, 2013

O Homem Lento - J. M. Coetzee

Título original: Slow Man
Ano da edição original: 2005
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote

"Neste romance, Coetzee oferece-nos uma profunda meditação sobre o que faz de nos humanos e o que significa envelhecer, reflectindo no modo como vivemos as nossas vidas.
Como todas as grandes obras literárias, O Homem Lento levanta questões mas raramente oferece respostas. Em consequência de um acidente, Paul Rayment altera a perspectiva que tem da vida e começa a dedicar-se ao género de preocupações universais que nos definem a todos: O que significa fazer o bem? O que é que nas nossas vidas é, em última análise significativo? É mais importante que alguém nos ame ou que alguém se interesse por nós? Como definimos o local a que chamamos "casa"?
Na sua voz lúcida e firme, Coetzee debate-se com estas problemáticas. O resultado é uma história profundamente comovedora, sobre o amor e a mortalidade, que deslumbra o leitor a cada página." 

Agora que a Feira do Livro deste ano se aproxima a passos largos, chegou a altura de ler os livros que foram comprados o ano passado. O Homem Lento do Coetzee foi um dos que veio para casa comigo, deixando para trás tantos e tantos livros por ler...

Gosto de Coetzee, gosto da forma como conta uma história e de como constrói as personagens.
Deste, O Homem Lento, não gostei tanto... A verdade é que até estava a gostar, mas a "aparição" de Elizabeth Costello deixou-me um pouco confusa e o livro tornou-se estranho. Achei a personagem pouco credível e a forma com foi introduzida na história despropositada. O livro acabou por não ser bem aquilo que eu estava à espera, no entanto, não dei o meu tempo por desperdiçado, porque, tirando Elizabeth Costello, com quem confesso ter embirrado um pouco, as restantes personagens são interessantes e, à semelhança do que aconteceu com outros livros que li do mesmo autor (No Coração desta Terra e A Idade do Ferro, já comentados aqui e aqui), a personagem principal, Paul Rayment, está muito bem construída.

Rayment é um sexagenário divorciado e sem filhos, que num dos seus passeios diários de bicicleta vê a sua vida mudar por completo ao ser abalroado por um carro. O acidente não o mata, mas como consequência do mesmo é-lhe amputada uma perna e alguma da sua vontade de viver desaparece.
Sem família que o possa ajudar nesta fase da sua vida, Paul começa a questionar até que ponto, ao longo da sua vida, fez as melhores escolhas e se ainda vai a tempo de corrigir algumas delas.
O Homem Lento conta a história de Paul Raymen, mas poderia ser a história de outro idoso qualquer, dos muitos que chegam à terceira idade sozinhos, porque nunca lhes passou pela cabeça poderem vir a precisar de alguém para além deles próprios.
É a história de um homem que, com mais de sessenta anos se vê obrigado a aprender a viver com limitações físicas, dependente dos outros, de estranhos condescendentes que o tratam como um mentecapto. O ajustamento a um mundo que aparentemente já não lhe reconhece utilidade possível é difícil e doloroso. A resistência à mudança por parte dele é grande o que dificulta, e muito, a convivência dos outros com ele. A ideia de se suicidar ronda-o permanentemente, até ao dia em que conhece Marijana, a enfermeira croata, contratada para o ajudar na adaptação deste à sua nova vida. Marijana é a primeira pessoa, depois do acidente a tratá-lo com respeito, sem condescendência, de forma profissional. Esta mulher dos balcãs, para além da ansiada dignidade, traz a Rayment e à sua vida empoeirada, uma lufada de ar fresco.


O Homem Lento é, literalmente Paul Rayment, que lentamente vai procurar encontrar o seu lugar no mundo, tentando deixar para a história mais do que uma invejável colecção de velhas fotografias, a serem expostas, depois da sua morte. Rayment quer ser recordado com carinho, quer que alguém lhe sinta a falta. Quem não deseja o mesmo? :)

Este é um livro, como muito bem diz a sinopse, que levanta uma série de questões, relacionadas com o envelhecimento, com a solidão na terceira idade, com o amor interessado ou desinteressado, com o sentimento de pertença a um sítio ou a alguém, com a vontade de fazer o bem, de sentir que toda a nossa vida teve significado, não tendo sido uma mera passagem.

Gostei da história, gostei das ideias e das reflexões que levanta, gostei das personagens, mas de uma forma geral, se este tivesse sido o meu primeiro livro de Coetzee talvez não tivesse ficado tão impressionada com o escritor, como fiquei depois de ler No Coração desta Terra.
Conhecendo um pouco o escritor, consigo apreciar até as suas obras menos inspiradas e por isso, este foi um livro que me fez companhia e que me deu gozo ler. Desta forma só o posso recomendar!

Boas leituras!

Nota: Aparentemente Elizabeth Costello, a personagem com quem embirrei, é uma repetente nas obras de Coetzee. Existe um livro intitulado Elizabeth Costello que, a ter sido lido primeiro me poderia ter ajudado a enquadrar a forma intempestiva com que esta invade a vida de Paul Rayment. Talvez um dia o leia...

Excerto:
"Dirá alguma coisa sobre ele, essa preferência nata preto e branco e matizes de cinzento, essa falta de interesse pelo novo? Seria disso que as mulheres sentiam a falta nele, em particular a sua mulher: cor, abertura?
A história que contou a Marijana foi que guardava fotografias antigas por fidelidade aos seus objectos, os homens, mulheres e crianças que ofereciam os seus corpos à lente do estranho. Mas isso não é a verdade integral. Guarda-as por fidelidade às fotografias em si, às reproduções fotográficas, a maioria delas sobreviventes, únicas. Dá-lhes um bom lar e vela, tanto quanto consegue, tanto quanto alguém pode, por que elas tenham um bom lar depois de ele desaparecer. Talvez, por seu turno, algum estranho ainda por nascer vá rebuscar o passado e guarde uma fotografia sua, do extinto Rayment da Doação Rayment."

agosto 19, 2012

A Idade do Ferro - J. M. Coetzee

Título original: Age of Iron
Ano da edição original: 1990
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: Ana Luísa Faria
Editora: Publicações Dom Quixote

"Na Cidade do Cabo, uma mulher, idosa e só, está a morrer de cancro. Durante toda a sua vida, conseguiu distanciar-se dos horrores e da violência do apartheid. No final dos dias, porém, é obrigada a confrontar-se com as dramáticas brutalidades forjadas por um regime a que sempre se opôs. A Idade do Ferro retrata a situação de muitos sul-africanos que se viram mergulhados num clima de tensão social a que não estavam habituados nem previam; mas, ao mesmo tempo, é uma perturbante metáfora sobre um regime político que se sustentou pela injustiça até provocar uma irrupção de revolta que a todos atingiu."

Este é o segundo livro que leio de J. M. Coetzee e é com este pequeno livro que Coetzee confirma que merece um lugar de destaque nas minhas estantes. Em No Coração Desta Terra (já comentado aqui), fui surpreendida por uma personagem feminina extraordinária e difícil de esquecer. Neste A Idade do Ferro, temos novamente uma mulher que me vai acompanhar durante uns tempos. :) Coetzee é bom com as personagens femininas, estou a ver. Aliando a isto histórias muitíssimo bem contadas, a leitura dos seus livros só pode acabar por ser uma experiência muito intensa.

Em A Idade do Ferro, Coetzee leva-nos até à África do Sul do Apartheid. Um país que, à semelhança de muitos outros países africanos, tem tudo para ser líder mas, quando escolhem o caminho da ignorância, da injustiça e da desigualdade, perpetuando atitudes racistas e desumanas, geram violência, medo e morte e zero de liderança e desenvolvimento.
Na Cidade do Cabo vive Mrs Curren, uma senhora idosa, que está a morrer com cancro. No dia em que o médico que lhe diz que não irá sobreviver à doença, conhece Vercueil, um sem-abrigo que escolheu o seu jardim para se abrigar. A idosa vive sozinha, a filha emigrou para os EUA, amargurada e desiludida com o país que deixou de reconhecer como seu. Partiu e nunca mais regressou. Quando Mrs Curren encontra o desconhecido no seu jardim, a primeira atitude é expulsá-lo da sua propriedade, no entanto a reacção do homem é de total indiferença e apatia, o que deixa a velha senhora sem reacção.
Sem que ninguém o pudesse prever, inicia-se ali uma relação estranha entre os dois a que só podemos chamar de amizade mais para o fim do livro. Ela vê nele uma companhia para a sua solidão, despertando nela curiosidade. Vercueil intriga-a e mantêm-a interessada na vida. Acredita, até ao fim que Vercueil foi enviado para a ajudar a morrer, para tornar a sua despedida do mundo menos dolorosa. No que a ele diz respeito, não se percebe muito bem o que ele quer. Inicialmente, talvez tenha visto nela segurança, no entanto, à sua maneira, acaba por gostar dela e da sua crescente loucura. Talvez vá ficando porque se sente útil na cada vez maior fragilidade da senhora. Na realidade é muito difícil não gostar dela... :)

Numa longa carta que decide escrever à filha, onde relata os seus últimos meses?, semanas? de vida, vamos descobrindo o estado a que o país chegou. A crescente revolta dos negros com a natural violência que isso acarreta. Os jovens negros que lutam, com as armas que têm e conhecem, por uma vida melhor para todos e que, à conta disso não têm infância, crescem demasiado rápido, tornam-se frios e distantes, perdendo valores como o respeito pelos mais velhos. São quase orfãos todos eles... São no entanto o orgulho dos pais que vêem neles a esperança de dias melhores, mesmo que isso signifique perde-los na luta. São heróis para a comunidade negra e uns arruaceiros para a comunidade branca que governa o país. Mrs Curren é confrontada com esta realidade, da qual se conseguiu manter afastada quase toda a sua vida, quando Florence, a sua empregada, traz para sua casa o filho adolescente, Bheki, com o intuito de o afastar das zonas de maior violência.

Paralelamente a isto, Mrs Curren vai descrevendo à filha a sua crescente degradação física e mental, com momentos de pura confusão e alheamento, devido à medicação forte que toma para deixar de sentir dor. Esta é uma mulher extraordinária que vale a pena conhecer. Só nos seus piores momentos perde a vontade de viver, numa luta perdida à partida, contra a morte.
É  um relato apaixonado e muitas vezes incómodo, do caminho que é feito até ao dia em que a morte a decide levar. E é, também, um relato impressionante de uma luta desigual que condenou à morte muita gente, que permitiu conquistas que são, ainda hoje, tão frágeis. Um relato contado na perspectiva de alguém que, vivendo ali nunca se tinha apercebido da dimensão do problema.

Gostei imenso deste livro que, sendo tão pequeno consegue falar de coisas tão grandes e importantes. Gosto muito da escrita de Coetzee, gosto muito das histórias que conta e gosto muito das personagens que cria, principalmente das personagens femininas.

Gosto e recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excertos, de entre os muitos possíveis:
"«Agora a criança está enterrada, e caminhamos por cima dela. Digo-lhe que quando caminho por esta terra, por esta África do Sul, tenho cada vez mais a impressão de caminhar por cima de rostos negros. Estão mortos, mas o espírito que os animava não os abandonou. Jazem na terra, pesados e empedernidos, à espera de que passem os meus pés, à espera de que eu me vá, à espera do dia em que tornarão a erguer-se. Milhões de figuras de ferro fundido, a vogar debaixo da pele da terra. A idade do ferro que se prepara para voltar."

"Filhos de ferro, pensei. A própria Florence, também não muito longe da dureza do ferro. A idade do ferro. Após a qual virá a idade do bronze. Quanto tempo, sim, quanto tempo até que o ciclo regresse às idades mais brandas, a idade do barro, a idade da terra? Uma matrona espartana, um coração de ferro, gerando filhos guerreiros para a nação. «Nós temos orgulho neles.» Nós. Regressa a casa empunhando o teu escudo ou deitado no teu escudo."

agosto 24, 2011

No Coração desta Terra - J. M. Coetzee

Título original: In The Heart of the Country
Ano da edição original: 1977
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: Maria João Delgado
Editora: Publicações Dom Quixote (Colecção Autor Nobel - Revista Sábado)

"Numa fazenda remota da África do Sul, a protagonista deste romance lança um olhar sobre a vida de onde foi excluída. Ignorada por um pai duro, desprezada e temida pelos criados, é uma mulher amarga e inteligente, cuja docilidade aparente esconde uma vontade desesperada de não se tornar «um dos esquecidos da história». Quando o pai arranja uma amante africana, essa vontade vai precipitar uma vingança que lembra uma reacção química entre o colonizador e o colonizado e entre os anseios europeus e a vastidão e solidão de África. No Coração desta Terra é uma obra de uma força irresistível. J. M. Coetzee transformou, com uma enorme segurança e uma visão penetrante, um romance de uma família num espelho da experiência colonial."

Gostei bastante deste livro. É um livro intenso, com uma personagem muitíssimo bem construída e das mais interessantes que já encontrei na literatura. Magda é uma mulher, de uma idade indefinida, por vezes parece um rapariga, outras aparenta ser uma mulher mais velha. A maioria das vezes a impressão que passa é que Magda nunca foi criança pois a infância é uma lembrança confusa e perdida no meio de todas a histórias que esta foi inventando para tornar a vida menos dolorosa.
Magda vive com o pai e alguns criados numa fazenda isolada do resto do mundo. Cresceu no deserto total, quer em termos de paisagem quer em termos de afectos. O pai é um homem duro que a ignorava, dispensando-lhe menos atenção do que aquela que dedicava aos criados e aos trabalhos na fazenda. Ignorada pelo pai, temida e desprezada pelos criados, é uma mulher que toda a vida viveu aprisionada a uma vida triste, rotineira e, sem qualquer contacto com o mundo civilizado, viveu toda a vida sozinha. Torna-se, por isso, uma pessoa rancorosa, amargurada e cheia de ódio, um ódio imensurável por tudo e por todos os que a rodeiam, especialmente por ela própria. Ao mesmo tempo sente-se nela uma vontade enorme de viver, de ser feliz e de amar e ser amada. Sente-se nela uma vontade imensa de sentir, o que quer que seja... apenas sentir, algo para além do ódio e do desespero.

Todo o livro é sofrimento, um sofrimento atroz que desespera, porque Magda, enredada numa relação estranha com o pai, praticamente a única pessoa que conhece, oscila entre o respeito, o ciúme e o ódio irracional, quando lhe imagina as mais diversas mortes, todas elas perpetradas por ela. Magda é claramente desequilibrada, doente, o que torna muitas vezes a narrativa confusa, porque é muito difícil de distinguir o que realmente aconteceu daquilo que é fruto da sua prodigiosa imaginação. Mais difícil ainda se torna distinguir as duas realidades quando o discurso de Magda é tudo menos incoerente é, pelo contrário, extremamente lúcido e articulado, pelo que conseguir descortinar o que realmente se passou na vida desta mulher é praticamente impossível. Tanto pode ter assassinado o pai logo nas primeiras páginas e, tudo o que se passou a partir daí não ser mais do que a alucinação de uma louca, como este pode ter sido morto quando decidiu levar uma escrava para a sua cama ou, pode até ser que o pai tenha morrido de velhice, tendo Magda cuidado dele até que a morte decidiu levar um deles.

A única coisa certa neste livro é a solidão extrema de Magda que esta tenta atenuar com uma imaginação descontrolada, vivendo uma vida e idealizando cenários, acontecimentos e conversas, que apenas existem na sua cabeça e, que acabam por levá-la à loucura. Uma loucura consciente, mas um loucura mesmo assim.

Gostei bastante deste livro, principalmente porque gostei muito da personagem da Magda. É ela alma de todo o livro, que consegue manter o interesse, quase exclusivamente recorrendo a conversas com ela própria, expondo-se completamente perante o leitor, ao não esconder os seus desejos mais secretos. É uma personagem desarmante e que dificilmente vou esquecer.

Gostei também da escrita de Coetzee, que conseguiu manter-me interessada na leitura de um livro cuja estrutura narrativa se assemelha muito à de um diário. O livro não tem capítulos e sim notas, registos numerados de 1 a 266, ao longo das quais Magda vai arrumando a sua história. Não sou de diários e esta estrutura deixou-me instantaneamente de pé atrás mas, mérito para o escritor (e este foi o seu primeiro livro!), foi por pouco tempo porque a leitura foi, em certas alturas, quase compulsiva.

Recomendo, como é óbvio! :)

Excerto:
"A minha raiva fica tolhida entre quatro paredes. Fazendo ricochete nas placas de estuque, nos azulejos, nas tábuas e no papel de parede, as minha explosões de raiva são-me devolvidas, colam-se à minha pele, impregnam-se na minha pele. Embora eu possa parecer uma máquina com dois polegares móveis que faz trabalhos domésticos, na realidade sou uma esfera que gira com uma energia violenta, pronta a explodir mal algo me toque. E embora haja, dentro de mim, um impulso que me incita a ir lá para fora explodir, inofensivamente, no meio do nada, receio que haja um outro impulso - sou cheia de contradições - dizendo-me para me esconder num canto com uma aranha, a viúva negra, e lançar o meu veneno a quem passar por perto. «Toma, pela juventude que nunca tive!», cicio eu e cuspo, se é que as aranhas sabem cuspir."