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novembro 17, 2018

Número Zero - Umberto Eco

Título original: Numero Zero
Ano da edição original: 2015
Autor: Umberto Eco
Tradução: Jorge Vaz de Carvalho
Editora: Gradiva

"A redacção de um diário reunida à pressa prepara um jornal dirigido, mais do que à informação, à chantagem, à intriga, ao lodo e às reportagens ignóbeis, que a chefia exige para aumentar as vendas.
Um redactor paranóico que, circulando por uma Milão alucinada (ou alucinado por uma Milão normal), reconstrói uma história com cinquenta anos, tendo como pano de fundo um plano diabólico arquitectado em torno do cadáver putrefacto de um pseudo-Mussolini. E, na sombra, o Gladio, a P2, o assassino do Papa Luciani, a CIA, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, vinte anos de massacres e de pistas falsas, um conjunto de factos inexplicáveis que parecem inventados, até que uma transmissão da BBC vem provar que são verdadeiros ou, pelo menos, são agora confessados como tal pelos seus autores. Depois, um cadáver entra subitamente em cena na mais estreita e mal-afamada rua de Milão. E ainda uma frágil história de amor entre dois protagonistas perdedores por natureza: um ghost writer falhado e uma rapariga inquietante que, para ajudar a família, abandona a universidade e se especializa em gossip sobre amizades afectuosas, mas é ainda capaz de chorar no segundo andamento da 7ª de Beethoven. Uma história que se desenrola e, 1992, em que se prefiguram muitos dos mistérios e loucuras dos vinte anos seguintes, precisamente quando os dois protagonistas pensam que o pesadelo terminara. Um caso amargo e grotesco que se desenrola ma Europa desde o fim da Segunda Guerra até aos nossos dias.
Este é o manual perfeito para o mau jornalismo que, gradualmente, nos impossibilita de distinguir uma invenção de um directo.
Um livro que se lê avidamente, de um grande autor que surpreende sempre!"


Número Zero conta a história da criação de um jornal diário, fictício, cujo único objetivo é a chantagear e provocar desconforto em alguns grupos da sociedade italiana. 
Nunca se pretendeu publicar o que quer que seja, no entanto, para além do diretor do jornal, Simei, e de Colonna, um escritor falhado, mais ninguém sabe que Número Zero nunca chegará às bancas dos jornais. Por isso, para todas aquelas pessoas contratadas para participarem na criação deste novo jornal, tudo aquilo é real e o comportamento que observamos é, para todos os efeitos real, independentemente de o jornal nunca vir a ser publicado.

Colonna é um cinquentão, um escritor fantasma que nunca conseguiu escrever nada sem ser em nome de outra pessoa. É contratado por Simei para acompanhar de perto a invenção do Número Zero e no fim escrever um livro sobre o esquema montado, onde seria revelada toda a verdade, a troco de muito dinheiro. O que o leva a participar é apenas e só a necessidade financeira, Colonna é um homem honesto, um pouco desiludido com o rumo que a sua vida parece ter levado. 
Na redação deste jornal inventado conhece Maia Fresia, uma jovem jornalista de revistas cor-de-rosa, que viu neste projecto uma oportunidade para fugir às amizades coloridas dos famosos e crescer como profissional. Os dois, acabam por se aproximar, ele atraído pela sua juventude e aparente fragilidade, ela pela segurança e tranquilidade que ele lhe traz.

Número Zero leva-nos pelos meandros da imprensa, pelo que de pior pode ser e, leva-nos a reflectir sobre a importância da sua existência, como órgão isento e honesto.
Umberto Eco expõe a facilidade com que se manipula a opinião pública com as tão faladas fake news que nos deixam a todos, menos informados e mais desprotegidos. A descredibilização dos órgãos de comunicação social é, talvez um dos maiores perigos que a democracia enfrenta nos dias de hoje. Temos cada vez mais dificuldade em distinguir a verdade da mentira e estamos, como sociedade, menos sensíveis à mentira. Tendemos a desvalorizar estes comportamentos e, quem os pratica sente-se validado e deixa de ser sentir errado e julgado. Passa a ser uma forma de estar tolerada por todos. Somos mais individualistas e se, como individuo, não consigo percepcionar e efectivamente perceber as consequências da corrupção, não me sinto suficientemente interessado para exigir justiça.
 
É um livro pequeno, que se lê muito bem. Aborda o tema quase como uma paródia, como se não se levasse muito a sério, no entanto a mensagem é bastante clara.
 
Não sendo novidade que tenho um carinho especial pelo Umberto Eco, este Número Zero foi uma versão mais levezinha do que costumam ser os livros dele, em termos de bagagem cultural e, foi uma excelente companhia nas férias de verão.
 
 
 
Recomendo sem qualquer hesitação.
 
Boas leituras!
 
Excerto (pág.162)
"Amor, não estás a considerar que, pouco a pouco, também a Itália se está a tornar como os países de sonho para onde te queres exilar. Se somos capazes, em primeiro lugar, de aceitar e, em seguida, de esquecer todas as coisas que nos contou a BBC, isto significa que estamos a habituar-nos a perder a vergonha. Não viste como todos os entrevistados desta noite contavam tranquilamente que tinham feito isto ou aquilo, e que estavam quase à espera de uma medalha? Não mais claros-escuros do barroco, coisas de Contra-Reforma - os tráficos emergirão en plein air, como se os impressionistas os pintassem: a corrupção autorizada, o mafioso oficialmente no parlamento, o evasor fiscal no governo, e na prisão só os pilha-galinhas albaneses. As pessoas de bem continuarão a votar nos patifes, porque não acreditarão na BBC, ou não quererão ver programas como os desta noite, porque terão aderido a qualquer coisa mais trash, provavelmente as televendas de Vimercate acabarão no horário nobre, será morto alguém importante, funerais de Estado."

fevereiro 20, 2016

Morreu Umberto Eco

Umberto Eco (foto aqui)
Umberto Eco morreu... Mais um dos "meus" escritores que nos deixa, de forma inesperada. Existem pessoas que para nós não envelhecem e portanto não nos preparamos para a inevitabilidade da sua morte. Umberto Eco era uma dessas pessoas, Saramago outra. Por continuarem a escrever quase até ao dia em que morrem, provocam em nós a ilusão de que são, de certa forma, imortais.

Umberto Eco morreu ontem com 84 anos. A literatura fica mais pobre, o mundo fica um pouco mais triste. Fica um legado de obras que dificilmente cairão no esquecimento mas, não vá o diabo tecê-las, podiam ganhar um lugar no Cemitério dos Livros Esquecidos de Carlos Ruiz Zafón.

Que o bom humor e a inteligência nunca deixem de andar juntos nos livros das nossas vidas.

Obrigada Umberto Eco!

fevereiro 15, 2016

O Nome da Rosa - Umberto Eco

Título original: Il Nome della Rosa
Ano da edição original: 1980
Autor: Umberto Eco
Tradução: Jorge Vaz de Carvalho
Editora: Gradiva

"Um estudioso descobre casualmente a tradução francesa de um manuscrito do século XIV: o autor é um monge beneditino alemão, Adso de Melk, que narra, já em idade avançada, uma perturbante aventura da sua adolescência, vivida ao lado de um franciscano inglês, Guilherme de Baskerville.
Estamos em 1327. Numa abadia beneditina reúnem-se os teólogos de João XXII e os do Imperador. O objecto da discussão é a pregação dos Franciscanos, que chamam a igreja à pobreza evangélica e, implicitamente, à renúncia ao poder temporal.
Guilherme de Baskerville, tendo chegado com Adso pouco antes das duas delegações, encontra-se subitamente envolvido numa verdadeira história policial. Um monge morreu misteriosamente, mas este é apenas o primeiro dos sete cadáveres que irão transtornar a comunidade durante sete dias. Guilherme recebe o encargo de investigar esses prováveis crimes. O encontro entre os teólogos fracassa, mas não a investigação do nosso Sherlock Holmes da Idade Média, atento decifrador de sinais, que através de uma série de descobertas extraordinárias, conseguira no final encontrar o culpado nos labirintos da Biblioteca."

E aqui está, Umberto Eco, um dos meus autores favoritos. Não sei do que gosto mais, se da escrita, das histórias, do sentido de humor discreto, ou do desafio constante que é cada livro dele, a nível mental. 
O Nome da Rosa é uma releitura. Li-o há muitos anos e foi um daqueles livros de que gostei, adivinhando apenas uma ínfima parte da grandeza do autor que tinha acabado de conhecer. Foi um daqueles livros, à semelhança do primeiro que li de Saramago, Memorial do Convento, que me fez pensar, provavelmente tropecei em ti demasiado cedo. No entanto, deixaram-me uma impressão tal que olho para eles, até hoje, como sendo dos principais responsáveis pela leitora que sou hoje. :)

Esta reedição, do primeiro romance de Umberto Eco, com uma nova tradução (chancela Gradiva) de uma edição revista pelo próprio autor, pareceu-me uma óptima oportunidade para colmatar esta lacuna nas minhas estantes, e para voltar a reler um livro que me tinha deixado muito boas impressões.

O Nome da Rosa é, à semelhança de outros do autor, um livro pesado, em termos históricos e culturais, que nos inunda com conhecimento e factos até ao último ponto final. Não nego que às vezes o achei demasiado denso, mais maçudo que os outros que já li dele, estes sobre temas ou épocas até mais obscuras para mim do que a que é retratada neste. No entanto, e mais uma vez, a escrita de Umberto Eco leva-nos de um extremo ao outro, aliviando a pressão na leitura de forma hábil e, quando damos por ela, estamos na última página e de sorriso no rosto. :)

Como diz na sinopse, a ação de O Nome da Rosa passa-se em plena idade média numa abadia beneditina, numa altura em que a inquisição reinava. A abadia foi o lugar escolhido para uma histórica reunião entre os teólogos do Papa João XXII e do Imperador Luís IV. Nela, os seguidores de João XXII e do Imperador esgrimem argumentos sobre os Franciscanos, para uns - os seguidores de João XXII - não passam de hereges que devem arder na fogueira, para outros - os do lado do Imperador - um grupo de homens que pregam a pobreza, a abnegação e a ajuda ao próximo como forma de viver a religião e o amor a Deus.
Guilherme de Baskerville, ele próprio um franciscano chega à abadia, acompanhado de Adso de Melk, um adolescente curioso, seu discípulo e escrivão e o narrador desta história. Guilherme viaja até à abadia com a missão de mediar a reunião que vai ocorrer e acaba envolvido numa investigação policial. No dia em que chegam, os monges lidam com a morte misteriosa de um dos seus jovens monges. Conhecendo o poder de dedução de Guilherme de Baskerville, o abade pede-lhe que tente trazer alguma luz à misteriosa morte de um dos seus irmãos, antes que toda a delegação chegue para a reunião. Mas, nem Guilherme, com o seu extraordinário raciocínio, e muito menos Adso de Melk, poderiam prever a dimensão da tragédia que está para se abater sobre a abadia...

Todas as mortes violentas que ocorrem na abadia, parecem estar ligadas à biblioteca, uma das maiores e mais ricas bibliotecas do mundo. O acesso à biblioteca era muito restrito. Existem livros perigosos, o conhecimento deve ser partilhado apenas com alguns, e de acordo com o critério de poucos. Existem livros que nunca deveriam ter sido escritos porque podem pôr em causa toda a religião e a forma como é pregada e praticada. Existem outros livros cujos ensinamentos devem ser mantidos no seio de um grupo restrito e privilegiado para que não seja diminuída a importância destes na sociedade. Existem pessoas capazes de tudo para defender um ideal, uma visão e, especialmente existem pessoas capazes de tudo quando acreditam estar a fazer a vontade de Deus.

O Nome da Rosa é muito mais do que um policial, e também o retrato de um época onde a Igreja tinha muito poder e lutava, com todas as armas, para manter e aumentar a influência que tinha sobre as pessoas. Uma época onde, ao mesmo tempo até se respirava algum desejo de mudança, com algumas correntes a pregarem uma maior aproximação às vidas dos fiéis, ao despojamento de bens materiais e a uma vida dedicada aos outros. 
Uma época onde a ciência ainda era vista como uma heresia, algo que punha em causa a existência de Deus. A luta interna dos homens de fé que, ao mesmo tempo, tinham sede de conhecimento, muitos deles forçados a uma vida eclesiástica como único meio para aceder a esse mesmo conhecimento.Um equilíbrio difícil de manter, principalmente de manter longe das fogueiras da Santa Fé. :/

Resumindo e baralhando, O Nome da Rosa é um livro que devem ler, numa altura da vossa vida em que tenham uma maior disponibilidade mental porque vai valer muito a pena. Umberto Eco é um autor que não podem deixar passar ao lado.

Boas leituras!

Excerto (pág. 174):
" - Digo que muitas destas heresias, independentemente das doutrinas que defendem, encontram sucesso entre os simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida diferente. Digo que, muito amiúde, os simples não sabem muito sobre doutrina. Digo que aconteceu frequentemente que turbas de simples confundiram a pregação cátara com a dos patarinos, e esta em geral com a dos espirituais. A vida dos simples, Abbone, não é iluminada pela sabedoria e pelo sentido vigilante das distinções que nos fazem sábios. E está obcecada com a doença, com a pobreza, tornada balbuciante pela ignorância. Muitas vezes, para muitos deles, a adesão a um grupo herético é apenas uma maneira, como outra qualquer, de gritar o próprio desespero. Pode-se queimar a casa de um cardeal seja porque se quer aperfeiçoar a vida do clero, seja porque se julga que o Inferno que ele prega não existe. Isso faz-se sempre porque existe o inferno terreno, em que vive o rebanho de que nós somos pastores."


Deixo-vos o trailer da adaptação para o cinema do livro de Umberto Eco, The Name of The Rose, com o fantástico Sean Connery. Do que me lembro é bastante fiel à história do livro.

fevereiro 10, 2013

O Cemitério de Praga - Umberto Eco

Título original: Il Cimitero di Praga
Ano da edição original: 2011
Autor: Umberto Eco
Tradução: Jorge Vaz de Carvalho
Editora: Gradiva

"Durante o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres num esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades de Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, a disseminação gradual daquela falsificação conhecida como «Os Protocolos dos Sábios de Sião» (que inspirará a Hitler os campos de extermínio), jesuítas que tramam contra maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam padres com as suas próprias tripas, um Garibaldi artrítico, com as pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemontenses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem os ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que, entre vapores de absinto, planeiam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras. Óptimo material para um romance-folhetim de estilo oitocentista, para mais, ilustrado como os feuilletons daquela época. Há aqui com que contentar o pior dos leitores. Salvo um pormenor. Excepto o protagonista, todos os outros personagens deste romance existiram realmente e fizeram aquilo que fazem. E até o protagonista faz coisas que foram verdadeiramente feitas, salvo que faz muitas que provavelmente tiveram autores diferentes. Mas quando alguém se movimenta entre serviços secretos, agentes duplos, oficiais traidores e eclesiásticos pecadores, tudo pode acontecer. Até o único personagem inventado desta história ser o mais verdadeiro de todos, e se assemelhar muitíssimo a outros que estão ainda entre nós."

Julgo que ainda não tinha comentado aqui nenhum dos livros que li do Umberto Eco, acho que os li todos antes da criação do Quero Um Livro. Ficam, no entanto a saber que Umberto Eco é um dos meus autores preferidos e só não o leio mais porque... bem porque os livros dele são tão cheios de cultura, de história e de conhecimento que devem ser "tomados" em doses controladas! ;) Com isto não quero dizer que os seus livros são pretensiosos e intelectuais, nada disso. Não conheço nenhum escritor que faça o que Umberto Eco faz com tanta eficácia, a linha que separa o que realmente aconteceu daquilo que é puramente ficcionado é tão ténue mas tão magistralmente mantida que as lições de história transformam-se em puro prazer e alimento para o cérebro. :)

Feito o elogio a quem de direito, passemos ao que realmente interessa, o livro, O Cemitério de Praga.
Começo por dizer que não é um livro fácil de seguir, acho que nunca senti tanta necessidade de tomar notas, de escrever uns lembretes, para conseguir manter todas as personagens e o seu papel na história, bem vivas na memória. Tem imensas referências literárias e históricas e, como é dito na sinopse e no fim do livro, todas as personagens são reais, excepto Simone Simonini o nosso protagonista rabugento, o que torna o livro ainda mais envolvente. 
Como desconhecia a grande maioria dos nomes referidos e sei muito pouco sobre a história europeia do século XIX, para mim, o livro foi sempre encarado como um romance, embora algumas das referências e personagens não me fossem totalmente desconhecidas, não sou assim tão ignorante. :p No fim senti-me na obrigação de pesquisar todos aqueles nomes e redescobrir a história que tinha acabado de ler.

E de que história estamos a falar? Os Protocolos dos Sábios de Sião são uma obra, publicada nos finais do século XIX, por Serge Nilus, na Rússia onde, supostamente é denunciada uma mega conspiração dos Judeus para acabarem com os cristãos e tomarem conta do mundo. Este livro, foi durante uns anos tido como autêntico, tendo sido revelada a sua verdadeira natureza uns anos antes de Hitler começar a sua longa caminhada na conquista do mundo, facto que não o impediu de o usar como justificação para o horror que levou a cabo nos anos que se seguiram.
O Cemitério de Praga tem como fio condutor este livro, desde a sua invenção até à sua publicação. Paralelamente vamos acompanhando, na primeira fila, acontecimentos importantes na história da Europa.
É Simone Simonini quem nos empresta os olhos para assistir a tudo isto, ou não fosse ele o nosso protagonista, um italiano que se muda para Paris e que ao longo de toda a história colabora com os serviços secretos de Itália, França, Rússia e Alemanha. A sua espantosa capacidade para falsificar todo o tipo de documentos, associada a uma prodigiosa imaginação para conspirar, chamou naturalmente a atenção destas entidades.

Em Itália, terra natal de Simonini, este vive de perto os conflitos que levaram à unificação de Itália, privando com Giuseppe Garibaldi e Giuseppe Mazzini, membros da Carbonária e acérrimos defensores de uma República Italiana com todos os seus territórios unificados. É neste período conturbado que Simonini inicia os seus trabalhos para Bianco, um agente dos serviços secretos italianos e que introduz o nosso protagonista no fantástico mundo dos espiões. E é durante estes anos que surge a suposta acta de um encontro secreto num Cemitério em Praga, onde um grupo de judeus, de forma conspiratória, planeiam tomar as rédeas do mundo. Este encontro nunca existiu (que o saibamos) e o autor da magnífica falsificação só podia ser Simonini. Uns anos mais tarde quando, a criatividade, por vezes demasiado independente, começa a incomodar os italianos, e este é enviado para França, onde inicia uma estreita colaboração com Lagrange, um importante membro dos serviços secretos franceses. França torna-se a sua pátria e é com os serviços secretos franceses que ganha a sua fama de espião e faz a sua fortuna. França é caracterizada, por Umberto Eco, como um país que não se envolvia directamente nos conflitos e nas tensões que estalavam junto às suas fronteiras. Era o país da igualdade e fraternidade, no entanto os serviços secretos franceses trabalhavam que se fartavam para influenciar e garantir alguns acontecimentos políticos. O único desgosto de Simonini em França era o facto de estes não estarem interessados em diminuir a influência dos judeus, são demasiado importantes para que possam ser tocados. Depressa Simonini descobre que, fora das fronteiras francesas e sem o apoio oficial da equipa de Lagrange, nada o impede de prosseguir com a sua missão, uma vez que os russos e, mais tarde os alemães, começam a sentir-se incomodados com os hebreus. Durante todo  livro, a sua história sobre o Cemitério de Praga é reinventada e transforma-se naquilo que Simonini chamava carinhosamente os seus Protocolos do Cemitério de Praga, que para o fim deixam de ser seus e são renomeados como Os Protocolos dos Sábios de Sião.

É impossível referir tudo aquilo de que fala o livro, porque paralelamente a tudo isto, conhecemos de perto uma personagem infame, Léo Taxil o rosto de um dos maiores embustes da época, por ter escrito e publicado como verdadeiros, os relatos de Diana Vaughan, uma satanista que participava em reuniões maçónicas. Com o pretexto de descredibilizar os maçons, algo que interessava muito à igreja católica, Taxil, tendo como mentor Simonini, leva a cabo uma das farsas mais bem conseguidas da época.
Simonini cruza-se ainda com Drumont, Dumas e outras figuras mais ou menos conhecidas e mais ou menos importantes para a história.

A forma como a história nos é contada é muito original, pois chega-nos em forma de diário, escrito a duas mãos. A grande maioria é escrita por um Simonini confuso que parece ter apagado da memória alguns acontecimentos importantes. É neste estado de confusão mental que Simonini decide escrever, com o objectivo de recuperar pedaços da sua vida que desapareceram. No meio dos escritos de Simonini, surge de quando em vez um intruso, Dalla Picolla que, funciona um pouco como a voz da consciência de Simonini. Se não fossem as intrusões de Dalla Picolla, talvez nunca conhecessemos o lado mais negro do nosso protagonista.
Mas quem é Dalla Picolla? Dalla Picolla e Simonini são vizinhos mas nenhum dos dois se recorda de alguma vez se terem cruzado, no entanto partilham alguns conhecimentos e segredos... Como é que isto é possível? É a pergunta que nos acompanha todo o livro.

Enfim, não é um livro muito fácil de ler, mas que vale cada segundo que se gasta com ele. Vale pelo que acabamos por aprender com ele, vale pela lição de história e por nos recordar que, como sociedade temos de facto uma memória muito curta e extremamente selectiva. Somos perigosamente tendenciosos relativamente ao que, e em quem escolhemos acreditar e seguir. Só assim se percebe que textos republicados em diversas alturas, como sendo originais e actuais, nunca tenham sido postos em causa. E não o foram porque se limitavam a expressar aquilo que, secretamente ou não, a maioria pensava.
É um livro que vale a pena pelo que conta mas também porque Umberto Eco é divertido e os seus protagonistas tendem a ser inesquecíveis! O Baudolino, depois de estes anos todos, ainda me desenha um sorriso nos lábios. :)

Gostei muito e recomendo, ressalvando que pessoas religiosamente menos tolerantes podem sentir-se de alguma forma, atacadas.

Boas leituras!

Excertos:
"- Dás-te conta, rapaz - dizia -, de que as leis daquele Siccardi aboliram os denominados privilégios do clero? Porquê abolir  o direito de asilo nos lugares sagrados? Porventura uma igreja tem menos direitos do que uma gendarmaria? Porquê abolir o tribunal eclesiástico para religiosos acusados de delitos comuns? A Igreja não tem porventura direito de julgar os seus? Porquê abolir a censura religiosa preventiva sobre as publicações? Porventura agora cada um pode dizer aquilo que lhe agrada. sem moderação e sem respeito pela fé e pela moral? (...) E agora chegámos à supressão das ordens mendicantes e contemplativas. quase seis mil religiosos. O Estado confisca-lhes os bens e diz que servirão para pagamento das côngruas aos párocos, mas, se juntares todos o bens destas ordens, atinges uma quantia que é dez... que digo eu!... cem vezes mais do que todas as côngruas do reino, e o Governo gastará esse dinheiro na escola pública, onde se ensinará aquilo que não serve aos humildes ou há-de servir-lhes para calcetar os guetos! E tudo sob a divisa do movimento «Igreja livre em Estado livre», lá onde quem é verdadeiramente livre de prevaricar é o Estado. A verdadeira liberdade é o direito do homem de seguir a lei de Deus, de merecer o paraíso ou o inferno. Ora, em vez disso, entende-se por liberdade a possibilidade de escolher as crenças e as opiniões que mais te agradam, em que tanto vale uma como outra; é igual para o Estado que tu sejas maçom, cristão, judeu ou sequaz do Grão-Turco. É desse modo que nos tornamos indiferentes à Verdade."

"Alguém disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais envolve-se habitualmente numa bandeira, e os bastardos remetem-se sempre para a pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Ora, o sentido da identidade funda-se no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É necessário cultivar o ódio como paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. Faz falta sempre alguém a quem odiar para nos sentirmos justificados na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. É o amor que é uma situação anómala. Por isso, Cristo foi morto: falava contra natura. Não se ama alguém para toda a vida; dessa esperança impossível nascem o adultério, o matricídio, a traição do amigo... Por contrário, pode-se odiar alguém durante toda a vida. Desde que esteja sempre lá, para reacender o nosso ódio. O ódio aquece o coração."