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julho 08, 2017

A Desumanização - valter hugo mãe

Título original: A Desumanização
Ano da edição original: 2013
Autor: valter hugo mãe
Editora:Porto Editora

"«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»
Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza."

valter hugo mãe é, parece-me, um daqueles escritores que, ou se ama ou se odeia. Eu comecei por amar, com a máquina de fazer espanhóis (comentário aqui). Neste momento estou longe, muito longe de odiar, mas também já não estou propriamente a amar. Os últimos livros que tenho lido dele têm sido, menos cativantes, não sinto a espontaneidade dos primeiros que li. E tendo a achar as histórias propositadamente chocantes. Não sei. Confesso que tenho ganho alguns anti-corpos ao valter hugo mãe. :/

A história de A Desumanização passa-se na Islândia, numa vila pequena e isolada. Dá ideia até de se passar num tempo diferente do nosso, talvez num tempo que nunca existiu.
É a história de duas irmãs, Halla e Sigridur, irmãs gémeas, inseparáveis, as melhores amigas uma da outra. Sigridur mais espontânea, mais extrovertida e criativa, Halla mais contida, menos participativa a viver mais na sombra da irmã. Um dia Sigridur morre. Num dia estava tudo bem, no outro começa a ficar doente e passado pouco tempo acaba por morrer. 
Halla vê-se sozinha pela primeira vez, sem conseguir libertar-se da presença da irmã, que imagina viva debaixo da terra onde foi enterrada. Sem a orientação da irmã e atormentada pela mãe que enlouqueceu um bocadinho com a morte da filha. A mãe culpa Halla por não ter morrido com a irmã. Que sentido faz, sendo gémeas, que uma tenha morrido e a outra tenha o descaramento de não morrer a seguir? Halla quase concorda com a mãe.

Para além das gémeas, dos pais destas, temos Einar, um homem com a mente de uma criança, num corpo de adulto. Vive com o pároco da vila e é obcecado pelas irmãs, diz que vai casar com elas. As miúdas não devem ter mais de 10 anos e Einar tem um atraso mental, embora tenha sido uma criança normal. Diz-me na vila que um trauma de infância o deixou assim. As duas sempre resistiram às investidas de Einar. Halla sozinha acaba por encontrar em Einar um bocadinho da irmã, alguém que a compreende e que demonstra uma sensibilidade e sensatez que a surpreendem.

Não vou avançar com mais pormenores da história porque acabaria por contá-la toda.

Acho que A Desumanização é sobre a desumanização de todos. A desumanização dos pais de Halla e Sigridur e a desumanização de toda uma comunidade. Existe, pelo contrário, uma espécie de humanização de Einar e da relação deste com Halla.O isolamento e a solidão que parecem esbater as fronteiras do que é certo ou errado. Crianças que não parecem crianças e que pensam e sentem como adultos. Adultos que se comportam com a imaturidade de uma criança, na forma de sentir e de agir.

É um livro triste, que não é fácil de ler. Não me consegui abstrair da pouca idade de Halla o que tornou algumas partes da história difíceis de ler e acabei por não perceber o propósito de alguns dos acontecimentos. Fiquei com a sensação de que se trata de uma espécie de fábula, no entanto não tive capacidade para me abstrair da realidade que saltava das páginas e isso acabou por tornar o livro, para mim, de certa forma penoso.

É certo que continuo a gostar muito da escrita de valter hugo mãe, continuo a achar impressionante o à vontade que demonstra com personagens femininas, de todas as idades. No entanto parece-me que as histórias deixaram de me impressionar. Não sei se deixaram de se credíveis, não sei se fui eu que deixei de me identificar, não sei. Só sei que não têm sido aquilo de que tanto gostei na máquina de fazer espanhóis.

Estou dividida. Não sei se recomendo ou não este livro. Acho que vale a pena ler valter hugo mãe, que não é um escritor para as massas e tem uma escrita e uma forma de contar histórias que pode ser muito envolvente e realista. A Desumanização não é um livro para todos e não é um livro que se possa recomendar sem reservas.
Reservas feitas, acho que o recomendo. Vai valer a pena, se não for pela história, é por se passar na Islândia. Morro de curiosidade de conhecer o país desde que li O Sino da Islândia de Halldór Laxness (meu comentário aqui).

Boas leituras!

Excerto (pág. 11):
"Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte. 
Ao deitar-me, naquela noite, lentamente senti o formigueiro da terra na pele e o molhado alagando tudo. Comecei a ouvir o ruído em surdina dos passos das ovelhas. Assim o expliquei, assustada. Disseram-me que talvez a criança morta tivesse prosseguido no meu corpo. Prosseguia viva por qualquer forma. E eu acreditei candidamente que, de verdade, a plantaram para que germinasse de novo. Podia ser que brotasse dali uma rara árvore para o nosso canto abandonado nos fiordes. Poderia ser que desse flor. Que desse fruto. A minha mãe, combalida e sempre enferma, tocou-me na mão e disse: tens duas almas para salvar ao céu. Assustei-me tanto que lhe tive ternura. A minha mãe não me perdoaria qualquer falha."

setembro 01, 2015

o apocalipse dos trabalhadores - valter hugo mãe

Título original: o apocalipse dos trabalhadores
Ano da edição original: 2008
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara Portugal
 
"A resistência de maria da graça e de quitéria, duas mulheres-a-dias e carpideiras profissionais que, a braços com desilusões e desconfianças várias acerca dos homens, acabam por cair de amores quando menos esperam. Com isso, mudam radicalmente o que pensam e querem da vida. Este é um romance sobre a força do amor e como ela se impõe igual a uma inteligência para salvar as personagens das suas condições de desfavor social e laboral.
Passado na recôndita cidade de Bragança, este livro é um elogio à força dos que sobrevivem, dos que trabalham no limiar da dignidade e, ainda assim, descobrem caminhos menos óbvios para a mais pura felicidade."

Maria da Graça é uma mulher nos seus quarentas, casada com o único pescador de Bragança, cidade sem mar, pelo que o marido passa a maior parte do ano fora, embarcado. É uma mulher frustrada, confusa, trabalhadora e sem nunca ter conhecido o amor, nem do marido nem de ninguém, vive na ilusão de que o que sente pelo patrão é amor. No entanto, não deixa de o odiar. O patrão é um homem mais velho e culto que se acha no direito de a "atacar" sempre que quer e pode. O Sr. Ferreira parece ter o necessário para ser feliz mas vive ele próprio com os seus fantasmas que o impedem de olhar a vida de frente. Maria da Graça vive atormentada por esta relação e todas as noites sonha que está às portas do céu, onde vai parar depois de o patrão a ter morto e onde São Pedro lhe recusa a entrada, noite após noite.
Maria da Graça aparece-nos como uma mulher inteligente e dividida. Dividida entre o que gostaria de ser o que lhe permitem ser. Dividida entre o amor e o ódio pelo patrão. Dividida entre o desespero e a esperança de dias melhores. Dividida entre as lágrimas e a gargalhada.
Quitéria é a melhor amiga, e vizinha, de Maria da Graça. É uma mulher livre, despreocupada e de certa forma feliz. Não é casada e tem uma verdadeira obsessão por homens mais novos. Não procura o amor, apenas a satisfação sexual. Sem saber como vê-se enamorada de Andryi, um dos seus jovens amantes, imigrante ucraniano, trabalhador da construção civil, com uma história familiar difícil. Quitéria surge aqui como a protectora de Maria da Graça e também de Andryi. É efectivamente uma mulher de bem com a vida, despudorada e imensamente bem disposta. Segue à risca o ditado "se vida te dá limões faz limonada".
Andryi é um jovem de vinte e tal anos, que veio para Portugal, como tantos dos seus compatriotas à procura de uma vida melhor. Deixa na Ucrânia os pais e vive em Portugal angustiado com o destino dos dois. Sem se conseguir adaptar ao nosso país e a nós, vive calado, fechado sobre si mesmo. Tenta ser um robot, uma máquina de trabalho que nada sente e nada vê. Quer apenas ganhar dinheiro para enviar aos pais. Com Quitéria inicia uma relação, ao princípio meramente física, depois desconfiada e magoada, que acaba por se transformar numa espécie de amor. Encontra em Quitéria compreensão e alguma da ternura deixada na Ucrânia.

Há qualquer coisa que me incomoda neste livro e não consigo dizer o quê. Não senti grande empatia com as personagens, nem com os seus problemas. Não achei credíveis as vidas de Maria da Graça e Quitéria, talvez porque não as consegui encaixar nas vidas das empregadas domésticas que conheço, que também nada têm a ver com os estereótipos que muitas vezes lhes estão associados. Consigo identificar-me com o tema, com a vida dura e sem grande perspectiva que muitas destas mulheres têm, uma vida de trabalho fisicamente desgastante e pouco valorizado. 
Acho interessante e valorizo a escolha dos protagonistas improváveis, mulheres a dias e imigrantes do leste, não sei é se valter hugo mãe os terá conseguido caracterizar da melhor forma. Neste sentido o livro acabou por não estar à altura do que esperava, porque uma das características mais interessantes de valter hugo mãe é a capacidade que tem de encarnar as vivências das suas personagens, como se tivesse efectivamente passado pelas mesmas experiências, e transmitir na escrita todas as emoções e sensações vividas.

Embora esteja longe de ser um livro mau, não foi, para mim, uma leitura marcante. Esperava mais, ou diferente, de valter hugo mãe e é por ser de valter hugo mãe que o recomendo sem reservas.

Boas leituras!

Excerto (pág. 56):
"áquela hora, a maria da graça levava as mãos ao pescoço e começava a perceber que morreria. a vida não lhe duraria interminavelmente e aos quarenta anos, era verdade, estaria quase no fim. o senhor ferreira, vindo-lhe ao de cima todo o suspeitado lado obscuro, atirava-se a ela com um punhal longo e afiado. abria-lhe o corpo de cima a baixo enquanto ela pedia ao são pedro que visse tal acto e medisse tal fúria para se apiedar da sua alma. o santo homem, preocupado com as admissões à porta do céu, ouvia pouco o que a mulher lhe gritava, ou não fazia caso, e o senhor ferreira investia mais e mais, até impossivelmente o corpo dela resistir. até que a sua própria consciência percebesse que o sonho exagerava no efeito cruel, porque ninguém sobreviveria tanto tempo a tantos e tão duros golpes. sentido-se ser morta, a maria da graça sabia não estar a morrer, mas garantia-se de que o aviso estava feito e, de olhos abertos na escuridão, o suor no rosto por tão grande susto, decidia mais uma vez depositar-se nos braços do maldito, o seu amado futuro assassino. não sorria, começava a chorar por acreditar que o amor era sempre igual à morte."

dezembro 28, 2012

o remorso de baltazar serapião - valter hugo mãe

Título original: o remorso de baltazar serapião
Ano da edição original: 2006
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara Portugal

"A aventura de baltazar serapião em reboliço com os seus amores pela formosa Ermesinda, moça com quem vem a casar e por quem se atormenta de ciúmes. Este é um romance de família e de viagem, em que o estigma de se ter um nome parece explicar à sociedade quem se é e que intenções se tem.
Um romance que é também uma aventura da linguagem, friccionando um português antigo que, não o sendo de facto, cria a ilusão de estarmos ao tempo de uma idade média tardia, feita de alçapões morais e de uma brutalidade primária, sobretudo cometida contra as mulheres.
Este livro ostenta a violência a que historicamente a mulher foi sendo sujeita por uma mentalidade machista dominante. Uma violência ainda sem redenção."

Depois de ter gostado tanto do a máquina de fazer espanhóis, as expectativas para o próximo livro a ler do valter hugo mãe eram elevadas. o remorso de baltazar serapião é muito diferente e por isso, as comparações naturais com o livro anterior desapareceram na primeira página, o que foi bom. :) Gosto de escritores que não ficam presos a uma única forma de escrever, que parecem conseguir reinventar-se a cada livro que escrevem, conseguindo manter a identidade.

o remorso de baltazar serapião - escrever sem maiúsculas é, ao mesmo tempo estranhamente libertador e anti-natural - é um livro, à falta de melhor palavra que o adjective, perturbador. 
Numa espécie de caricatura, exagerando as personagens, tornando-as menos credíveis, valter hugo mãe consegue, mais uma vez, entrar numa realidade que, à partida não lhe é familiar, e descreve-la como se fosse. Neste, pelos olhos de baltazar serapião, entra na vida sofrida e deprimente de uma mulher, da idade média. baltazar serapião casa por amor com Ermesinda, a rapariga mais bonita e recatada da aldeia. Ermesinda parece gostar dele e todos têm esperança que baltazar não siga as pisadas do pai, que mutilou a mãe, para lhe ensinar a ser uma melhor esposa e mãe.Por ignorância e machismo (serão sinónimos?) o pai de baltazar serapião deixou a mulher para sempre coxa, com os pés irremediavelmente torcidos e retorcidos. Que seria se não tivesse, também ele casado por amor... Provavelmente não teria posto tanto afinco na "educação" da mulher. Porque as mulheres são malignas, a sua voz é perigosa e os homens não devem dar-lhes ouvidos. As mulheres são burras, menos que nada, com a cabeça cheia de ideias estranhas e perigosas, que servem apenas para satisfazer todos os desejos dos homens. A mulher ideal é submissa e calada.
É com pena que percebemos que Ermesinda, a rapariga mais bonita e recatada da aldeia não terá sorte diferente quando se casa com baltazar serapião. Este louco de ciúmes, que até podem ter razão de ser, nunca o sabemos ao certo, vai aos poucos mutilando fisica e psicologicamente a rapariga.

Toda a família serapião é estranha, com comportamentos bestiais - adj bestial [bəʃti'al] próprio de animal - ou não fossem eles conhecidos por sargas, porque tratavam a velha vaca como se fosse da família. Alguns acreditavam inclusive que era a vaca a progenitora das crias serapião e não a desgraçada com os pés tortos. E, também neste caso, nunca sabemos com certeza...

Não é um livro fácil de ler, é muitas vezes revoltante e apenas o tom mais caricatural permite aliviar um pouco o que lá se conta. Por ser tão próximo à realidade de muitas mulheres, ainda nos dias de hoje, torna-se ainda mais desconfortável. Os homens do livro são quase todos uns animais, e as mulheres são quase todas pouco mais que bichinhos assustados. Dá vontade de gritar de estupefacção!
Todas as mortes na família serapião são trágicas. O que leva à morte da mãe é, indescritívelmente repugnante e chocante.
A relação de dependência que existe entre baltazar e Ermesinda é revoltante e incómoda. O comportamento de cachorrinho que ela demonstra é difícil de ler e a inexistência de remorsos em baltazar é ofensiva.
O que acaba por ser mais incómodo é a inevitabilidade dos comportamentos de cada uma das personagens. baltazar aparece-nos sempre como alguém simpático, como alguém de quem até poderíamos vir a gostar, cujos comportamentos surgem como inevitáveis. É inato ao homem e por isso impossível de condenar, como doença incurável com a qual todos teríamos de aprender a viver.
valter hugo mãe a fazer bem o papel de advogado do diabo. :)

É impossível dizer que gostei deste livro, como posso gostar? É demasiado gráfico, demasiado chocante e demasiado certeiro. Só por isso não posso dizer que gostei mas a verdade é que gostei, como posso não gostar? :)

Gostei e só não recomendo sem reservas porque é preciso ter algum estômago e ter a capacidade de nos distanciar-mos.

Boas leituras!

Excertos:
"a minha mãe deixava de falar comigo e com o aldegundes, porque lhe saíam coisas de mulher pela boca fora, e barafustar, como fazia, era encher os ouvidos dos homens com ignorâncias perigosas. uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros."

"a minha mãe roubou-a dos nossos olhos, furiosa com o destino, e todos soubemos que se cobriram uma à outra de segredos, semelhantes e porcas de corpo, condenadas à inferioridade, à fraqueza. um corpo que as obrigava, sem falta, a uma maleita reiterada, como um inimigo habitando dentro delas, era o pior que se podia esperar, um empecilho de toda a perfeição, e tão belas se deixavam quanto doloridas e acossadas. por isso eram instáveis, temperamentais, aflitas de coisas secretas e imaginárias, a prepararem vidas só delas sem sentido à lógica. tinham artefactos e maneiras de parecer gente sem quererem perder tudo o que deviam perder. eram, como sabíamos tão bem, perigosas."

novembro 27, 2011

a máquina de fazer espanhóis - valter hugo mãe

Título original: a máquina de fazer espanhóis
Ano da edição original: 2009
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara Portugal (Objectiva)

"Esta é a história de quem, no momento mais árido da vida, se surpreende com a manifestação ainda de uma alegria. Uma alegria complexa, até difícil de aceitar, mas que comprova a validade do ser humano até ao seu último segundo. a máquina de fazer espanhóis é uma aventura irónica, trágica e divertida, pela madura idade, que será uma maturidade diferente, um estádio de conhecimento outro no qual o indivíduo se repensa para reincidir ou mudar. O que mudará na vida de antónio silva, com oitenta quatro anos, no dia em que violentamente o seu mundo se transforma?"

Adiei a leitura deste livro durante alguns meses com medo de que não correspondesse às expectativas. Agora que o li vejo que os receios não tinham qualquer razão de ser. Este livro é tudo aquilo que já se disse acerca dele e muito mais. Gostei mesmo muito! :) E, quando gosto muito enfrento a típica dificuldade de colocar em palavras o porquê de ter gostado... Muitas das coisas de que gostamos, gostamos porque sim, sem necessidade de esmiuçar o porquê. Gostamos e pronto... Neste caso a reacção não é tão irracional ou emotiva, não é apenas gosto porque sim. As razões são fáceis de identificar e não são originais: está muito bem escrito, o tema é original e a forma como é abordado é tudo menos previsível, as personagens estão muitíssimo bem desenvolvidas e é divertido na mesma medida em que é angustiante e triste. Poderia continuar a enumerar razões que justifiquem o meu "Gostei mesmo muito!" e não seriam de todo originais, pois já foram utilizadas muitas outras vezes em posts anteriores aplicados a outros livros e escritores. Porque é que a máquina de fazer espanhóis é diferente? Talvez porque aquilo que não conseguimos exprimir por palavras é o que distingue um livro bom de um livro especialmente bom. Talvez seja isso... :)

E porque a dificuldade em escrever esta opinião estar a ser grande mas, também porque a minha vontade enquanto lia o livro era transcrevê-lo na íntegra para aqui, vou recorrer mais do que o normal a passagens do livro. ;)

O livro é todo ele passado num lar de terceira idade, o lar da feliz idade, onde o mais recente utente, antónio silva, ou senhor silva, ingressa após a morte de laura, a companheira de uma vida e o amor da vida dele.

"a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram. depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder a minha mulher. depois, ainda nessa tarde, trouxeram uma imagem da nossa senhora de fátima e disseram que, com o tempo, eu haveria de ganhar um credo religioso, aprenderia a rezar e salvaria assim a minha alma."

O que não aconteceu, a imagem de nossa senhora de fátima foi baptizada de mariazinha e as pombinhas arrancadas da nuvem fofa para servir outros propósitos. :) mariazinha foi, no entanto, muitas vezes companhia para a solidão do senhor silva e um conforto no meio do pesadelos que o assomavam durante a noite. Credo religioso? Talvez sim, talvez não. :)

A tristeza do senhor silva pela perda de laura é de cortar o coração, o amor que transparece em todas as suas palavras é comovente, mais ainda quando vêm de um octogenário. Sejamos sinceros, poucos de nós olhamos para as pessoas de idade como pessoas que ainda possam dar tanto e amar tanto de uma forma tão boa. O que é estranho, porque todos nós o desejamos, no entanto não reconhecemos nos outros essa capacidade. Somos criaturas estranhas e, deve ser verdade que a sabedoria vem com a idade. :)

"eu ia tomar chá sozinho, adorando as nossas brigas de namorados. tão imaturos quanto os mais jovens. tão feitos um para o outro quanto possível. já conhecedores do caminho das pedras que, ao fim de uma ou duas horas, nos levaria novamente ao coração um do outro com mimos e promessas de eterno amor."

"com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutria pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu, devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante."

Fiquei impressionada com a revolta que emanava das palavras desta personagem e com a humilhação que sentia. Senti-me pessoalmente atingida pelas palavras de revolta do senhor silva, pela forma como se sentia desprezado e diminuído pelas pessoas mais novas. É mesmo isto que nos espera a todos? Fazemos mesmo isto, ainda que inconscientemente e com boas intenções? Os nossos "velhos" sentem-se realmente assim?
Perguntas retóricas, porque todos sabemos qual é a resposta e, todos sabemos que este é daqueles pensamentos, como a morte, que preferimos não aprofundar muito...

"estou entregue, pensei. aos meus pés os dois sacos de roupa e uma enfermeira dizendo coisas simples, convencida de que a idade mental de um idoso é, de facto, igual à de uma criança. o choque de se ser assim tratado é tremendo e, numa primeira fase, fica-se sem reacção. se aquela enfermeira pudesse acabar com aquele sorriso, ao menos acabar com aquele sorriso, seria mais fácil para mim entender que os meus sentimentos valiam algo e que sofrer pela laura não vinha de uma lonjura alienígena, não era uma estupidez e, menos ainda, vinha de um crime para clausura e tudo. e ela sorria e eu poderia desejar-lhe, com tanto desprezo, o pior mal do mundo. que lhe arrancassem os braços e as pernas, pensava eu, tirem-lhe os olhos e façam-lhe perder a voz e chamem-lhe cabra porque é o que ela merece. senhor silva, com esta mantinha vai ficar quentinho à noite. ainda aqui vai ter muitos sonhos bonitos, vai ver."

"gosto desta maldade, não podemos ficar velhos e vulneráveis e todas as coisas, temos de nos rebelar aqui e acolá, caramba, temos de estar a postos para alguma retaliação, algum combate, não vá o mundo pensar que não precisa de tomar cuidado com as nossas dores."

Embora o início do livro pareça todo ele um desfiar de recordações, de recusas em pertencer aquele lugar, de resistência a uma nova espécie de felicidade, como se isso fosse ofender quem partiu, o livro não é apenas isso. A morte está sempre presente, as doenças idem idem aspas aspas, mas também estão presentes a amizade, o amor, a alegria, a gargalhada e a vida. Naquele lar da feliz idade ainda há muita vida. :) E, até o rabugento do senhor silva acabou por reconhecer que ainda não tinha vivido e aprendido tudo.

"depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade."

Para além do senhor silva, valter hugo mãe, apresenta-nos outras personagens igualmente idosas que se tornam o apoio do senhor silva, eles próprios com as suas tristezas pessoais, mas melhor adaptados ao que é esperado deles. São homens que trazem da tristeza profunda um senhor silva, perdido sem a laura. Juntos, riem, fazem partidas, gozam com as mazelas uns dos outros e com a religião e criam, quando já pouco se espera, laços que talvez nunca tivessem sido possíveis de criar noutras condições.
São eles o Esteves sem metafísica, centenário, que Fernando Pessoa imortalizou no poema Tabacaria, o senhor pereira, o conciliador do grupo e o primeiro grande amigo do senhor silva, o anísio franco, também ele octogenário mas cheio de vida e de projectos e, por último o silva da europa, o mais novo do grupo, sexagenário, funcionário da clínica onde laura morreu e que estava junto do senhor silva quando a notícia lhe foi dada. O silva da europa é um anti-fascista convicto e é dele a expressão que dá título ao livro:

"e sabem que mais, portugal ainda é uma máquina de fazer espanhóis. é verdade, quem de nós, ao menos uma vez na vida, não lamentou já o facto de sermos independentes. quem, mais do que isso até, não desejou que a espanha nos reconquistasse, desta vez para sempre e para salários melhores. deixem-se de tretas, meus amigos, que o patriotismo só vos fica mal, bem iam assentar-vos uns nomes à maneira, como pepe e pablo, diego e santiago, assim a virar para o lado de lá da fronteira, onde se come mais à boca grande e onde sempre houve mais ritmo no sangue. aqui, enquanto houver um salazar em cada família, estamos entregues ao inimigo."

Este livro é um murro no estômago, um dedo na ferida, e, embora angustiante, desconfortável e triste é, ao mesmo tempo, enternecedor, divertido, inesperado e incrivelmente bem escrito. :)
valter hugo mãe, numa escrita despida, límpida e fluída, numa história sem preconceitos e surpreendente, onde as personagens são muito bem exploradas é bem capaz de ter escrito um dos melhores livros que já li! Gostei mesmo muito!

Recomendadíssimo, como é óbvio! ;)