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março 26, 2024

[Ebook] Gente Ansiosa - Fredrik Backman

Título original: Folk Med Angest
Ano da edição original: 2019
Autor: Fredrik Backman
Tradução: Elsa T. S. Vieira
Editora: Porto Editora (ISBN: 978-972-0-67364-0)

"Visitar um apartamento que está à venda não costuma redundar numa situação de perigo. A menos que seja antevéspera de Ano Novo, e um ladrão inexperiente tenha decidido assaltar um banco onde não há dinheiro. Quando assim é, torna-se inevitável que não haja sequer um plano de fuga, e se acabe com uma data de reféns acidentais.
Felizmente, podemos confiar na pronta intervenção das autoridades. A menos que os dois polícias responsáveis pelo caso não se entendam nem saibam o que fazer.
Ainda assim, acreditamos que tudo correrá bem, em particular se os reféns permanecerem calmos. A menos que sejam os reféns mais idiotas de todos os tempos: uma analista bancária com ideias suicidas, uma adorável velhinha com motivações pouco transparentes, um casal reformado com uma paixão enorme pelo IKEA, duas recém-casadas, prestes a serem mães, que andam sempre às turras, uma agente imobiliária com entusiasmo a mais e talento a menos, e uma pessoa vestida de coelho.
Com um sentido de humor excecional, que cativou milhões de leitores em todo o mundo, e personagens tão imperfeitas quanto tocantes, Fredrik Backman volta a surpreender com esta história sobre gente idiota e ansiosa e os laços invisíveis que (n)os unem."

De regresso a Fredrik Backman e às suas personagens estranhas, inadaptadas e inesquecíveis. É o regresso às histórias reais e ao mesmo tempo tão fora do normal que me fazem sentir, sempre um pouco estranha. :)

Gente Ansiosa, como o título acaba por indicar, fala sobre ansiedade.
Ansiedade por sermos adultos, por termos  responsabilidades e sentirmos que deveríamos saber todas as respostas para todas as perguntas. 
Ansiedade porque vivemos com culpa. Culpa porque as nossas ações, mais ou menos inconscientes, provocam reações nos outros, reações essas, que nem sempre são as que esperávamos.
Ansiedade porque queremos ajudar a pessoa que está ao nosso lado, que sempre esteve ao nosso lado, e não sabemos como fazê-lo sem que o outro se sinta diminuído.
Ansiedade porque um pai não sabe como falar com o filho e o filho não sabe como lidar com o pai. Ansiedade porque nem um nem o outro sabem como avançar depois da morte da pessoa que os mantinha unidos.
Ansiedade porque o mundo, por vezes, parece avançar a uma velocidade vertiginosa e temos medo de não conseguir acompanhar e de perdermos o comboio.
Ansiedade porque a vida é difícil e a relação com os outros é complexa e nem todos viemos equipados com as mesmas ferramentas. Viemos de sítios diferentes, vivemos coisas diferentes, fomos moldados por muitas mãos diferentes.
Ansiedades que, no limite, podem levar ao suicídio.

Tudo isto numa história que começa com uma tentativa de assalto a um banco, que não corre como o esperado e, com um grupo de pessoas presas num apartamento à venda e, que não se conhecem de lado nenhum.
Estão lançados os dados para mais uma viagem desconcertante, intrigante, divertida, angustiante mas, acima de tudo, uma viagem onde ninguém está sozinho. Aos livros de Fredrik Backman não se aplica o ditado ou expressão: "Quando pensas que bateste no fundo descobres que existe uma cave" , porque, nas histórias de Fredrik Backman, quando se pensa que bateram no fundo, descobrem que estão rodeados de gente boa e, juntos encontram uma pequena janela por onde podem sair e começar a subir.

Embora estranhe sempre a escrita simples e o sentido de humor quase infantil de Fredrik Backman, a verdade é que acabo sempre por gostar muito das histórias dele e da forma como consegue que as personagens que cria sejam tão vivas e reais e irreais ao mesmo tempo.
 
Confesso que tenho partido para os livros dele com esperança de encontrar neles Ove ou o encanto que encontrei em Um Homem Chamado Ove
Ainda não foi desta que Ove foi destronado mas, foi uma boa leitura, com personagens cativantes e uma história bonita com a qual, cada um de nós, facilmente se consegue relacionar.

Recomendo sem qualquer hesitação. 

Boas leituras!

Excerto:
"Esta história é sobre muitas coisas, mas acima de tudo é sobre idiotas. Assim, é preciso dizer desde já que é sempre muito fácil declarar que os outros são idiotas, mas apenas se esquecermos como é difícil sermos humanos. Em particular se tivermos alguém por quem tentamos ser humanos razoavelmente bons.
Porque, hoje em dia, é preciso lidar com uma quantidade inacreditável de coisas. Temos de ter um emprego, um sítio para viver e uma família, e temos de pagar impostos e ter roupa interior lavada e saber de cor o raio éa password do Wi-Fi. Alguns de nós nunca conseguem controlar o caos por completo, por isso as nossas vidas vão simplesmente andando, e o mundo vai girando pelo espaço, a milhões de quilómetros por hora, enquanto saltitamos na sua superfície como peúgas perdidas."

setembro 04, 2022

[Ebook] A Minha Avó Pede Desculpa - Fredrik Backman

Título original: Min Mormor Hälsar Och Säger Förlat
Ano da edição original: 2013
Autor: Fredrik Backman
Tradução: Elsa T. S. Vieira
Editora: Porto Editora

"Elsa tem sete anos de idade, quase oito, e é diferente. Para já, tem como melhor - e única - amiga a avó de setenta e sete anos de idade, que é doida: não levemente taralhoca, mas doida varrida a sério, capaz de se pôr à varanda a tentar atingir pessoas que querem falar sobre Jesus com uma arma de paintball, ou assaltar um jardim zoológico porque a neta está triste. Todas as noites, Elsa refugia-se nas histórias da Avozinha, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Acordar, um reino mágico onde o normal é ser diferente.
Quando a Avozinha morre de repente e deixa uma série de cartas a pedir desculpa às pessoas que prejudicou, tem início a maior aventura de Elsa. As cartas levam-na a descobrir o que se esconde por detrás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de um prédio muito especial, mas também à verdade sobre contos de fadas, reinos encantados e a forma como as escolhas do passado de uma mulher ímpar criam raízes no futuro dos que a conheceram.

A minha avó pede desculpa é uma belíssima história, contada com o mesmo sentido de humor e a mesma emoção que o romance de estreia de Fredrik Backman, o bestseller internacional Um homem chamado Ove."

Esta é a história de Elsa, uma menina de quase oito anos, que tem na avó, Avozinha, a sua única amiga. É uma criança diferente dos meninos da sua idade. Gosta das palavras e de ler, é muito inteligente e tem uma imaginação muito fértil. Não deixa, no entanto, de ser uma menina com sete anos, quase oito, que se sente desenquadrada do mundo.

A Avozinha, por seu lado, é... meio louca. É desbocada e destemida, e não gosta lá muito de cumprir regras. Anda com a neta para todo o lado, envolve-a nas suas aventuras e partilha com a criança um mundo inventado, o reino de Miamas, cheio de personagens estranhas, que parecem ter passado, não se sabe bem como, para o mundo real. Vamos percebendo ao longo da história que a avó só quer a neta seja feliz e que perceba que ser diferente não é ser pior é só sermos quem somos sem vergonha.

Demorei algum tempo a sentir-me envolvida, talvez porque as descrições do Reino de Miama e dos outros reinos e costumes me distraiam e, honestamente, achei a Avozinha um bocado irritante. A verdade é que o livro estará, provavelmente, direcionado para leitores mais jovens. :)
No entanto, dei por mim, ao fim algum tempo a sentir-me mais próxima de todas aquelas pessoas e a achar normal toda aquela esquisitice.
Há qualquer coisa na forma como Fredrik Backman escreve que torna os livros dele muito... aconchegantes. Será a palavra certa? Toca-nos no coração sem que haja lamechice. Não sei se tem a ver com o humor ou com o facto de as personagens serem todas muito fora da caixa. Não sei, só sei que é o que acontece. São personagens que ficam connosco para além da última página e ficam não porque são marcantes, ou porque fazem parte de uma história extraordinária que não conseguimos esquecer. Ficam porque são personagens que gostaríamos que existissem de facto e que fossem todos nossos vizinhos. Porque são pessoas boas, divertidas e que fazem falta ao mundo! Acho que é por isso, queríamos tê-los a todos nas nossas vidas.

Embora tenha gostado, não achei tão interessante como o Um Homem Chamado Ove (opinião aqui). Acho que não me identifiquei tanto com a temática e este pareceu-me mais para um público mais juvenil. Não destronou Ove (que continua a fazer-me sorrir só de pensar nele) mas deu para perceber que vou ler todos os que já tem escrito e todos os que vier a escrever.

Recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excerto
"Todas as crianças de sete anos merecem ter um super-herói. É mesmo assim. Quem não concordar precisa de um exame à cabeça.
Pelo menos, é o que acha a Avozinha de Elsa.
Elsa tem sete anos, a caminho dos oito. Sabe que não é lá muito boa nisto de ter sete anos de idade. Sabe que é diferente. O diretor da escola diz que ela tem de «entrar na linha» para poder alcançar «uma melhor integração com os seus pares». Alguns adultos descrevem-na como sendo «muito madura para a idade». Elsa considera que isso é apenas outra maneira de lhe chamar « terrivelmente chata para a idade»: regra geral, só lho dizem quando ela os corrige por pronunciarem mal déjá vu ou por não saberem a diferença entre «há» e «à». Isto costuma acontecer normalmente com os que têm a mania de que são espertos e daí o comentário «madura para a idade» acompanhado do sorriso forçado na direção dos pais dela. Como se Elsa tivesse uma deficiência mental ou os humilhasse por não ser completamente burra aos sete anos. É por isso que não tem amigos além da Avozinha - todas as outras crianças de sete anos da sua escola são tão idiotas como as crianças dessa idade costumam ser. Na escola, Elsa é a única criança diferente."

julho 01, 2021

[Kindle] Um Homem Chamado Ove - Fredrik Backman

Título: 
En man som heter Ove
Autor: Fredrik Backman
Ano da edição original: 2012
Tradução: Alberto Gomes
Editora: Editorial Presença

"À primeira vista, Ove é o homem mais rabugento do mundo. Sempre foi assim, mas piorou desde a morte da mulher, que ele adorava. Agora que foi despedido, Ove decide suicidar-se. Mal sabe ele as peripécias em que se vai meter. Um jovem casal recém-chegado destrói-lhe a caixa de correio, o seu amigo mais antigo está prestes a ser internado a contragosto num lar, e um gato vadio dá-se a conhecer.

Ove vê-se obrigado a adiar o fim para ajudar a resolver, muito contrariado, uma série de pequenas e grandes crises. Este livro simultaneamente hilariante e encantador fala-nos de amizades inesperadas e do impacto profundo que podemos ter na vida dos outros."

Começo por dizer que esta é uma história muito bonita, simples e de certa forma, normal. Não acho, no entanto, que seja banal.

Tive alguma dificuldade em classificar este livro porque não lhe reconheço grandes rasgos de originalidade, nem na escrita, nem na história em si.
Não partilho do sentido de humor, algo infantil, de Fredrik Backman, e achei grande parte do que se passava absurdo e pouco credível. No entanto, não fui capaz de lhe dar menos de 4 estrelas no Goodreads. 

Há qualquer coisa em Ove e na história deste homem que nos faz sorrir e nos deixa de coração apertado, sem que haja um apelo desavergonhado ao sentimentalismo, nem nada que se pareça. O facto de ter mexido comigo e de eu ter conseguido criar empatia com Ove e com todos os seus vizinhos, acabou por fazer toda a diferença. 
Não existem assim tantos livros que nos façam sentir tudo isto, sem se tornarem pedantes. E por vezes é o que basta: um livro simples, com uma história que nos faz sorrir, sobre pessoas comuns (ou nem por isso) e que acrescentam qualquer coisa ao nosso mundo. Personagens e histórias que, de alguma forma, nos enriquecem. 

Gostei e recomendo. É um livro que nos deixa com a alma um bocadinho mais cheia. Além disso, adoro histórias de amor como a de Ove e Sonja. Fascina-me o amor na terceira idade. :) Velhinhos apaixonados, de mãos dadas e sorriso no rosto. Acho que é das coisas mais bonitas que existe. :)

Boas leituras!

Excerto:
"No dia seguinte, foi aos escritórios dos caminhos de ferro devolver o salário do pai relativo ao resto do mês. Ao constatar que as senhoras da contabilidade não estavam a compreender, Ove explicou-lhes com impaciência que o pai tinha morrido no dia dezasseis e que, obviamente, não poderia trabalhar os restantes catorze dias desse mês. E como o pai recebia o salário antecipadamente, Ove viera devolver a diferença. 
Perplexas, as senhoras da contabilidade pediram-lhe que se sentasse e aguardasse. 
Cerca de um quarto de hora depois, o diretor apareceu e olhou para aquele estranho rapaz de dezasseis anos sentado numa cadeira de madeira no corredor e segurando na mão o envelope com o salário do falecido pai. O diretor sabia muito bem quem era o rapaz. E depois de se ter convencido de que não havia maneira de persuadir o jovem a ficar com aquele dinheiro que sentia não ser seu por direito, o diretor não viu outra alternativa senão propor-lhe que trabalhasse o resto do mês para ter direito a ele. Ove achou a proposta razoável e notificou a secretaria da sua escola de que estaria ausente durante as duas semanas seguintes. Nunca mais lá voltou. 
Trabalhou cinco anos nos caminhos de ferro.  Certa manhã, embarcou num comboio - e foi aí que a viu pela primeira vez. Foi a primeira vez que riu desde a morte do pai.
E a sua vida nunca mais foi a mesma.
As pessoas diziam que Ove via o mundo a preto-e-branco. Mas ela era cor. Toda a cor que ele tinha."