dezembro 22, 2020

O Fim do Homem Soviético - Svetlana Aleksievitch

Título original: Время секонд хэнд
Ano da edição original: 1984 
Autor: Svetlana Aleksievitch
Tradução: António Pescada
Editora: Porto Editora

"Volvidas mais de duas décadas sobre a desagregação da URSS, que permitiu aos russos descobrir o mundo e ao mundo descobrir os russos, e após um breve período de enamoramento, o final feliz tão aguardado pela história mundial tem vindo a ser sucessivamente adiado. O mundo parece voltar ao tempo da Guerra Fria.
Enquanto no Ocidente ainda se recorda a era Gorbatchov com alguma simpatia, na Rússia há quem procure esquecer esse período e o designe por a Catástrofe Russa. E, desde então, emergiu uma nova geração de russos, que anseia pela grandiosidade de outrora, ao mesmo tempo que exalta Estaline como um grande homem.

Com uma acuidade e uma atenção únicas, Svetlana Aleksievitch reinventa neste magnífico requiem uma forma polifónica singular, dando voz a centenas de testemunhas, os humilhados e ofendidos, os desiludidos, o homem e a mulher pós-soviéticos, para assim manter viva a memória da tragédia da URSS e narrar a pequena história que está por trás de uma grande utopia."

Confesso que de início estranhei muito a forma como o livro está escrito. Não estava à espera que fosse uma espécie de manta de retalhos, cuidadosamente cosida, com as palavras das muitas pessoas entrevistadas pela autora.
No entanto, quando consegui apanhar o ritmo certo, o livro acabou por se tornar uma leitura quase compulsiva. Muito, muito interessante e diferente de tudo o que já li até hoje.
Por ser contado da forma que é, senti-me muito próxima do que estava a ser dito e é muito fácil criar empatia com cada uma das pessoas, mesmo quando não concordamos com o que está a ser dito.
É curioso que a forma como cada um perceciona um mesmo acontecimento, e a forma como a expressa pode efetivamente, alterar a realidade. E o que é a realidade quando todos a podemos ver de formas tão distintas?

A União Soviética, descrita por quem a viveu, por quem a construiu e por quem nunca deixou de a viver, mesmo depois de esta ter deixado de existir, é fascinante e assustadora e, a maior parte das vezes, completamente incompreensível e irracional. 
E no meio de tanto sofrimento e dor, e de tanta irracionalidade, há algo de muito bonito e, que é comum a praticamente todos os testemunhos no livro: todos sonhavam, e continuam a sonhar, com um mundo melhor, mais justo e igual. São pessoas que fizeram mais do que sonhar com a utopia e tentaram, ativamente, concretizá-la. Deram as suas vidas, por algo que acreditavam ser pelo bem maior.
Depois de tudo se ter desmoronado, mesmo os que sofreram, os que foram sacrificados, mesmo esses, muitos continuam a acreditar que aquele era o caminho certo e, sentem-se um pouco perdidas porque não resultou.

Todo o livro é verdadeiramente fascinante. Está muito bem escrito. Não é, claramente, um livro pró-soviético, mas também não é anti-soviético. É apenas e só, aquilo que os testemunhos são, pessoas que viveram na época, de todos os quadrantes da sociedade, que assistiram à queda e ao desmembramento da União, que viveram esses tempos conturbados e que vivem na Rússia dos dias de hoje, com Putin.
 
Svetlana Aleksievitch, com O Fim do Homem Soviético, deixa que seja o leitor a formular as suas próprias opiniões. Não se trata de induzir-nos por um determinado caminho, trata-se de dar voz às pessoas que efetivamente têm algo a dizer e, no fim, o que temos é um retrato desassombrado de um povo que muitos de nós continua a não entender e de uma época que, hoje em dia, continua a despertar, tanto ódio como paixão.

Gostei mesmo muito e vou querer ler todos os que ela inclui no ciclo Vozes da Utopia, do qual O Fim do Homem Soviético faz parte. Já tenha na estante As Vozes de Chernobyl para ler.

Recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras!


Excerto (pág.79):
"As pessoas felizes não querem morrer... e aquelas... aquelas que têm quem as ame, também não querem. Querem sempre mais. Mas onde estão as pessoas felizes? Em tempos diziam na rádio que depois da guerra todos seríamos felizes, e o Khruschov, lembro-me, prometeu... que em breve começaria o comunismo. O Gorbartchov jurou, falava tão bem... Corretamente. Agora o Eltsin promete, ameaçou que se deitava nos carris... Toda a vida esperei uma vida boa. Esperava em pequena... e depois de adulta... Agora já sou velha... Resumindo, todos nos enganaram, a vida tornou-se ainda pior. Espera, aguenta e mais espera , aguenta. Espera, aguenta... O meu marido morreu. Saiu à rua, caiu e pronto - o coração falhou. Aquilo que nós passámos não dá para medir com um metro nem pesar com uma balança. Mas estou viva. Vivo. Os meus filhos partiram: o meu filho está em Novossibirsk, a minha filha ficou em Riga com a família, agora é o estrangeiro. Um país diferente. Ali já nem falam russo."

(pág. 97):
"Pergunte-me... Deve perguntar como se conciliava isto: a nossa felicidade e que viessem a meio da noite prender alguém? Alguém desaparecia, alguém soluçava atrás da porta. Por qualquer razão não me lembro disso. Não me lembro! Mas lembro-me de como os lilases floriam na primavera, e das festas de massas nas ruas, dos passeios de madeira aquecidos pelo sol. Do cheiro do sol. Dos deslumbrantes desfiles de ginastas na Praça Vermelha e dos nomes de Lenine e Estaline compostos de flores e corpos humanos vivos entretecidos. Eu fiz essa pergunta à minha mãe...
Que recordação temos nós da Béria? Da Lubianka? A minha mãe ficou calada..."

dezembro 21, 2020

A Construção do Vazio - Patrícia Reis

Título: 
A Construção do Vazio
Ano da edição original: 2017
Autor: Patrícia Reis
Editora: Publicações Dom Quixote

"Sofia é uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo.

Será possível atenuar a dor?
Como se resiste ao fantasma real da infância?
Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida?

Sofia abriga-se na amizade de três homens.
Eduardo, Jaime e Lourenço, e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final.

Esta personagem surge pela primeira vez no livro Por Estes Mundo Acima (2011) e faz parte do território ficcional da autora que, com A Construção do Vazio, termina um ciclo de três narrativas independentes iniciado em 2008, com o romance No Silêncio de Deus."

A Construção do Vazio é um livro difícil de ler. É um livro que, mais uma vez, devido à qualidade da escrita de Patrícia Reis, nos faz sentir muito próximos do que se está a contar e, quando o que se conta é doloroso, difícil e triste, a leitura pode ser, por vezes, incómoda.

Sofia é uma menina que cresce sem amor, numa família onde os abusos são constantes, tanto por parte do pai como da mãe. Cresce, por isso, com a certeza de que não merece ser amada, e de forma quase consciente, afasta tudo o que possa apaziguar a sua dor. Não acredita que algo de bom lhe possa estar reservado e acaba por se autossabotar, optando por caminhos que só validam a opinião que tem sobre si própria. 

Até que ponto aquilo que nos acontece enquanto crescemos, nos limita na vida adulta? Temos consciência dessa limitações e do impacto que têm na nossa vida? Como é que ultrapassamos essas limitações? 
A Construção do Vazio põe-nos a pensar, entre outras coisas, sobre estas questões. Sobre não julgarmos sem conhecer a história das pessoas e o seu percurso. 
Não acredito que o passado sirva de justificação para todas as nossas atitudes no presente, no entanto, acredito que o que fazemos com o que nos acontece, a forma como lidamos com o que nos acontece, de bom e de mau, molda a nossa forma de ser, de viver, de pensar. Conhecer de onde vimos é fundamental para sabermos quem somos, para onde queremos ir e com quem queremos ir. 

Mais um livro certeiro da Patricia Reis.

Recomendo sem qualquer hesitação. 

Boas leituras! 

Excerto (pág. 49):

"O meu pai obrigou-me a um almoço. Combinámos num centro comercial e, ao fim de uma hora constrangedora de duro silêncio e acusações mútuas sem o tiroteio das palavras, recusei-me a entrar no carro. Voltaria para casa de metropolitano. Vi-o em estado de perder as estribeiras, a raiva, a vergonha, a surpresa de saber que eu tinha crescido, já não era o seu animalzinho de estimação. Ficou vermelho, levantou a voz, até a mão subiu da altura da sua anca. Estávamos em público e nada podia fazer. Um homem como ele escusar-se-ia a uma cena. Eu sabia. Sem dizer nada, pagou o almoço e eu fui empinando a camisola para ele ver o meu peito, como tinha crescido, como as minhas unhas pintadas eram um gesto de ser outra e que, apesar de tudo, nunca mais me tocaria. Nem um beijo."

setembro 09, 2020

World Without End - Ken Follett

Título original: World Without End
Ano da edição original: 2007
Autor: Ken Follett
Editora: Penguin Putnam Inc.

“#1 New York Times Bestseller In 1989, Ken Follett astonished the literary world with The Pillars of the Earth, a sweeping epic novel set in twelfth-century England centered on the building of a cathedral and many of the hundreds of lives it affected. Critics were overwhelmed--"it will hold you, fascinate you, surround you" (Chicago Tribune)--and readers everywhere hoped for a sequel. Look out for the prequel to the Kingsbridge series, The Evening and the Morning, coming from Viking in September 2020.
World Without End takes place in the same town of Kingsbridge, two centuries after the townspeople finished building the exquisite Gothic cathedral that was at the heart of The Pillars of the Earth. The cathedral and the priory are again at the center of a web of love and hate, greed and pride, ambition and revenge, but this sequel stands on its own. This time the men and women of an extraordinary cast of characters find themselves at a crossroads of new ideas--about medicine, commerce, architecture, and justice. In a world where proponents of the old ways fiercely battle those with progressive minds, the intrigue and tension quickly reach a boiling point against the devastating backdrop of the greatest natural disaster ever to strike the human race--the Black Death. Three years in the writing and nearly eighteen years since its predecessor, World Without End breathes new life into the epic historical novel and once again shows that Ken Follett is a masterful author writing at the top of his craft.”

Em World Without End, Ken Follett leva-nos de volta a Kingsbridge, no século XIV, cerca de dois séculos depois da construção da catedral que deu o mote ao The Pillars of the Earth e, a receita que Ken Follett aplica é, basicamente a mesma.
Temos a Igreja, o Rei e toda a nobreza que o rodeia, temos os comerciantes e artesãos e, no fim da cadeia, o bom do povo.

Na Igreja, de uma forma geral, todos muito voltados para si mesmos. Preocupados essencialmente em manter ou aumentar o poder que detêm. Neste livro há uma clara distinção entre a Igreja governada pelos homens e pelas mulheres, na figura do convento que coabita com o priorado de Kingsbridge e na gestão partilhada que fazem do único Hospital da região. Mais uma vez as personagens mais odiosas, com exceção de uma, pertencem à Igreja.

Do lado do Rei e de toda a estrutura que depende dele, temos um misto de senhorios que apenas estão preocupados em ganhar o máximo possível às custas dos outros, e senhores que, à luz dos costumes da época, vêem vantagens em melhorar a vida dos trabalhadores. Continua sempre a ser uma questão de dinheiro e poder, quer seja na atribuição de terras a determinado homem, na decisão de se declarar e alimentar uma guerra com outro país, ou até mesmo no julgamento de um crime. Há uma certa tolerância que é diretamente proporcional à quantidade de impostos e taxas que são entregues à coroa.

Os comerciantes e artesãos, naturalmente preocupados em ganhar dinheiro e estatuto, mas com a consciência de que, para prosperarem, necessitam de ajudar a cidade de Kingsbridge a crescer e tornar-se um polo comercial importante na zona. Não receiam investir para recolher os frutos mais tarde.

O povo, é o povo. Gente que trabalha por um punhado de moedas, muitas vezes apenas por um prato de comida que permita alimentar os filhos naquele dia. Os que trabalham no campo, estão presos a senhorios, que são mais seus proprietários do que empregadores. Sem oportunidades de subir na escala social, sem força anímica para lutarem por melhores condições.

Não sou fã da escrita de Ken Follett, já o disse antes e, infelizmente a minha opinião mantém-se. No entanto, gosto bastante destas suas histórias da época medieval, como a que encontramos no The Pillars of the Earth. Mais do que gostar do enredo, ou das personagens, gosto da forma como vamos aprendendo sobre a vida naqueles tempos. World Without End não foi uma desilusão a esse nível. 
Porque parte da história atravessa os anos difíceis da peste negra na Europa, cheguei a essa parte da história, por coincidência, na altura em que começamos todos a ficar confinados em casa, por causa da pandemia, algo que, nenhum de nós alguma vez pensou atravessar nas nossas vidas. 
Foi interessante ler sobre isso e, encontrar algumas semelhanças com o que começávamos a descobrir sobre a COVID-19 e a falta de conhecimento que existia sobre a peste negra. Todos os cuidados que hoje em dia sabemos serem básicos na prevenção da transmissão de doenças e que na altura ninguém tinha forma de saber. O cepticismo da Igreja em aceitar que a religião não tem resposta para tudo e que a ciência não é a inimiga. O papel das mulheres, como cuidadoras, dos doentes e dos enfermos, mas muito pouco toleradas como reformadoras, ou como capacitadas para mais do que cuidar dos outros. A vontade de serem mais, de aprender, acabava sempre por passar pelo convento, onde curiosamente as mulheres tinham a possibilidade de serem mais livres. Todas as outras, se tivessem sorte com o casamento, talvez conseguissem ter uma voz mais ativa na comunidade.

Ken Follett parece-me um daqueles escritores incontornáveis. Não é, para mim, um escritor que me encha as medidas, mas é um escritor ao qual acabo por voltar, essencialmente porque gosto muito das suas histórias e, por vezes, isso basta. :) 

Recomendo!

Boas leituras! 

Excerto (pág. 670):
"A voice in the crowd asked the question that was on everyone´s mind. "Are we all going to die, Brother Joseph?"
Joseph was the most popular of the monk-physicians. Now close to  sixty years old and with no teeth, he was intellectual but had a warm bedside manner. Now he said: "We´re all going to die, friend, bu none of us knows when. That´s why we must always be prepared to meet God."
Betty Baxter spoke up, ever the probing questioner. "What can we do about the plague?" She said. "It is the plague, isnt it?"
"The best protection is prayer," Joseph said. "And, in case God has decided to take you regardless, come to church and confess your sins." (...)
Betty was not easily fobbed off. "Merthin says that in Florence people stayed in their homes to avoid contact with the sick. Is that a good ideia?"
"I don´t think so. Did the Florentines escape the plague?"
Everyone looked at Merthin, standing with Lolla in his arms.
"No, they didn´t escape," he said. "But perhaps even more would have died if they had done otherwise."
Joseph shook his head. "If you stay at home, you can´t go to church. Holiness is the best medicine."
Caris could not remain silent. "The plague spreads from one person to another," she said angrily. "If you stay away from other people, you´ve got a better chance of escaping infection."
Prior Godwyn spoke up. "So the women are the physicians now, are they?"
Caris ignored him. "We should cancel the market," she said. "It would save lifes."
"Cancel the market!" he said scornfully. "And how would we do taht? Send messengers to every village?"
"Shut the city gates," she replied. "Block the bridge. Keep all strangers out of town."
"But there are already sick people in town."
"Close all taverns. Cancel meetings of all guild. Prohibit guests at weddings."
Merthin said: "In Florence they even abandoned meetings of the city council."
Elfric spoke up. "Then how are people to do business?"
"If you do business, you´ll die," Caris said. "And you´ll kill your wife and children, too. So choose."
Betty Baxter said: "I don´t want to close my shop-I´d lose a lot of money. But I´ll do it to save my life." Caris´s hopes lifted at this, but then Betty dashed them again. "What do the doctors say? They know best." Caris groaned aloud.
Prior Godwyn said: "The plague has been sent by God to punish us for our sins. The world has become wicked. Heresy, lasciviousness, and disrespect are rife. Men question authority, women flaunt theis bodies, children disobey theis parents. God is angry, as His rage is fearsome. Don´t try to run from His justice! It will find you, no matter where you hide."

agosto 23, 2020

[Kindle] Hanging Hill - Mo Hayder

Título original: 
Hanging Hill
Ano da edição original: 2011
Autor: Mo Hayder
Editora: Random House

"One morning in picture-perfect Bath, England, a teenage girl's body is found on the towpath of a canal: Lorne Woods - beautiful, popular, and apparently the victim of a disturbingly brutal murder. Zoe Benedict - Harley-riding police detective, independent to a fault - is convinced the department head needs to look beyond the usual domestic motives to solve the case. Meanwhile, Zoe's sister, Sally - recently divorced and in dire financial straits - has begun working as a housekeeper for a rich entrepreneur who quickly begins to seem possibly dangerous. When Zoe's investigation turns up evidence that Lorne's attempts to break into modeling had delivered her into the world of webcam girls and amateur porn, a crippling secret from Zoe's past seems determined to emerge.”

Em Hanging Hill, Mo Hayder apresenta-nos uma série de personagens disfuncionais e assustadoras, cheias de fantasmas e problemas mal resolvidos. Mesmo aquelas que nos parecem mais “normais” surpreendem pelo que conseguem fazer, sem pestanejar. 
Tendo como ponto de partida a descoberta do corpo de uma adolescente, acabamos por ter um pouco de tudo. Uma comunidade aparentemente pacífica e tranquila e um grupo de adolescentes que, como todos os adolescentes fazem coisas que os pais nem sonham e são irritantes como tudo! 
Temos duas irmãs, Zoe e Sally, cuja relação nunca foi fácil, e que agora em adultas se reencontram e redescobrem o quanto necessitam uma da outra e de como a vida de ambas teria sido diferente se não tivessem esperado tanto tempo para se entenderem.
Hanging Hill aborda o tema da pornografia, das mulheres que entram nesse mundo e da exploração a que são sujeitas. Fala de poder e de dinheiro, duas realidades indissociáveis. Fala de aparências e de vidas perfeitas que não o são, de deslumbramento e de desilusão. Fala de mal-entendidos e de pais que não são bons pais e de pais que, cometendo erros, aprendem com eles e tornam-se melhores pais. Fala de amor, de auto-estima, de aceitação e de superação. 
Pode parecer uma salganhada, mas acaba por fazer tudo sentido.

Mo Hayder é consistentemente boa. Não há um único livro que tenha lido dela que me tenha desiludido, quer em termos de enredo quer ao nível do desenvolvimento das personagens. Acho que todos os livros que li dela são diferentes uns dos outros, não existe propriamente um tema fetiche, e não detecto que aplique uma “receita” à forma como desenvolve a história. Os temas são originais, as personagens têm camadas, e nunca sabemos muito bem o que vão fazer ou que caminho vão seguir. 
Mesmo na série Jack Caffery, as investigações são sobre temas muito diversos e, pelo menos até agora, não estão diretamente ligados aos problemas pessoais dos policias, a episódios traumáticos dos seus passados ou a pessoas que lhes querem fazer mal. Acho que isso é original. 
A única coisa comum a todos os livros que já li dela (opinião dos dois últimos que li aqui e aqui) é mesmo o facto de ela ser consistentemente boa. É uma boa escritora de thrillers e acho sinceramente que se, gostam deste tipo de livros, e nunca leram Mo Hayder, devem fazê-lo o quanto antes. Não deixem de ler Tóquio e Os Pássaros da Morte. 😊
Posto isto, achei Hanging Hill bom, talvez um pouco mais previsível do que os outros e menos credível, principalmente por causa de Zoe. Zoe pareceu-me um pouco desadequada para a profissão e talvez por isso tenha achado o livro menos bem conseguido. 
Por outro lado, não posso deixar de me questionar sobre as minhas ideias pré-concebidas. Porque é que Zoe tem de ser isenta de defeitos e de dilemas morais apenas porque é polícia? Porque é que eu espero que ela coloque os outros à frente dos seus interesses pessoais? Porque é que espero que Mo Hayder crie personagens perfeitas e que façam escolhas óbvias? 😊 Talvez Hanging Hill contenha, afinal tudo aquilo de que gosto nos livros de Mo Hayder. Talvez tenha sido mais uma questão de identificação com os temas e com as personagens.
Isto não significa que não gostei do livro. Ele é de leitura quase compulsiva e queremos sempre ler “só mais um capítulo” antes de apagar a luz e dormir. Significa que, no consistentemente bom da Mo Hayder este é só bom. Não está nos meus favoritos dela e nos que recomendo para primeira leitura.

Boas leituras!

Excerto (pág. 277):
"She dreamed of the room again, the nursery with the snow falling outside. Except this time she was on the floor, feeling very small and very scared and, terrifyingly, Sally was standing above her. She was holding the broken hand over Zoe. It was wrecked, with bones sticking out at all angles, and the blood dripped out of it, rolling in fat plops on to Zoe's face. 
She pushed her legs out, scrambling away from Sally, flipping herself over and stumbling for the door. Sally followed close behind, her hand raised. 'No!' she was crying. 'Don't go - don't go!' 
But Zoe was out of the door, tumbling down the stairs, breaking into a run, pelting through the streets. It was Bristol, she realized. St Paul's. Ahead she saw a doorway, a red light coming from it, a hand beckoning her. Hurry up, someone yelled. Hurry up! This is the way through. In here! And then, suddenly, she was standing on a stage, an audience looking expectantly up at her. In the front row were her parents, her first-form teacher and the superintendent. Do something, shouted the superintendent. Do something good. The lighting man frowned from the box at her, and at the back the maintenance man leaned on his broom, grinning up at her. Get on with it, someone yelled. Do something good. Someone was pushing her from behind. When she turned she saw David Goldrab, as a young man, London Tarn."

O Nosso GG em Havana - Pedro Juan Gutiérrez

Título original: Nuestro GG en la Habana
Ano da edição original: 1984 
Autor: Pedro Juan Gutiérrez
Tradução: Magda Bigotte de Figueiredo
Editora: Publicações Dom Quixote

"O escritor britânico Graham Greene chega a Havana em Julho de 1955 e mergulha num mundo trepidante e vertiginoso, onde confluem artistas porno, travestis, agentes do FBI e do KGB, caçadores de nazis e a mafia italiana de Nova Iorque.
Baseado em factos reais, este romance recria um momento apaixonante, e até agora desconhecido, da história cubana mais recente. É, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre a arte da escrita e os avatares do ofício de escritor."

Foi muito bom regressar a Pedro Juan Gutiérrez. Acho a escrita dele muito envolvente e toda a dinâmica cubana muito divertida, embora os temas subjacentes não sejam motivo para diversão.
Em O Nosso GG em Havana, o escritor Graham Greene vê-se, involuntariamente envolvido no submundo de Havana em 1955, quando descobre, nas primeiras páginas dos jornais, que se encontra preso em Havana, em circunstâncias no mínimo embaraçosas para si. 
Em Havana, em 1955, coexistiam, com diferentes interesses, agentes do FBI, do KGB, caçadores de nazis e a mafia italiana. E todos eles parecem interessados em que Graham Greene dê uma ajuda às suas causas. 😊

É um livro pequenino, que se lê numa tarde de praia, ou no jardim. E, embora seja um livro pequenino, com tão poucas páginas, consegue ser um livro divertido, com as habituais referências sexuais, onde todo o ambiente vivido em Havana salta da páginas e sentimos o calor denso nas casas, ouvimos a música dos cafés e quase conseguimos sentir o cheiro das ruas de Havana.
Acho que Pedro Juan Gutiérrez não é um escritor que agrade a todos, mas acho que só se o lermos teremos a certeza se se entranhou ou se se estranhou. :) No meu caso entranhou-se logo no primeiro livro que li dele e nunca o estranhei.
Procurem-no nas estantes das vossas bibliotecas e dêem-lhe uma oportunidade. Acho-o uma óptima companhia.

Boas leituras!

Excerto (pág. 16):
"Os cartazes apareciam cobertos de fotografias de homens e mulheres nuas, exibindo a sua beleza. As arcadas tinham lâmpadas coloridas. GG atravessou para o passeio em frente para observar o ambiente antes de entrar na sala. Havia putas baratas e sujas, vendedores de bagatelas, barracas de fritos, gente, ruído, música, luzes coloridas. Centenas de chineses, contaminados pelos cubanos haviam perdido a sua tradicional compostura, lenta, silenciosa e comedida. Gritavam, vociferavam, apreciavam a mercadoria, moviam-se rápida e incessantemente. Havia um cheiro enjoativo a fruta podre e a fritos de tasca ordinária. Duas putas aproximaram-se dele sorrindo. Suadas e sujas, cheiravam mal. Uma tinha os dentes estragados pelas cáries. Mal olhou para elas e rapidamente se escapuliu. Atravessou de novo a Rua Zanja. Comprou bilhete. Cobraram-lhe um dólar e cinquenta, mais do que o preço real, e entrou na sala."

O Paraíso Segundo Lars D. - João Tordo

Título: O Paraíso Segundo Lars D.
Ano da edição original: 2015
Autor: João Tordo
Editora: Companhia das Letras

"Numa manhã de Inverno, Lars sai de casa, enxotado por uma dolorosa insónia, e encontra uma desconhecida a dormir no seu carro. Ele é um escritor sexagenário há muitos anos sem vontade de escrever; a rapariga chama-se Glória e vive os dias conturbados da juventude. Poucas horas mais tarde, Lars parte em viagem com a jovem, deixando para trás um casamento de uma vida inteira e um romance inédito: O luto de Elias Gro.
A mulher de Lars é quem assume as rédeas da narrativa, tal como tentara fazer com a vida do marido, cavaleiro solitário. Refém das memórias, por vezes cómicas, por vezes dolorosas, dos anos vividos com o escritor, a narradora reconstrói uma cartografia emocional do seu casamento, que é afinal um mapa de solidão e de afectos. Com a vida paralisada pela ausência de Lars, o seu caminho cruza-se com o de Xavier, um jovem estudante de Teologia. Juntos, investigação o paradeiro de Lars e, pelo caminho, explorarão uma certa ideia do Paraíso."

O Paraíso Segundo Lars D. é um livro intimista e essencialmente triste. Há algo de intrinsecamente triste em toda a história de Lars D., contada pela sua mulher quando Lars, um dia sai de casa e nunca mais regressa. Há muita solidão nesta narrativa que acaba por se tornar numa viagem quase desapegada pelo casamento dos dois.
Lars D., um escritor genial, uma personagem respeitada, cujo processo de criação surge como sendo muito difícil, muitas vezes doloroso, que o afasta de todos, que o obriga a viver apenas consigo e com os seus traumas e problemas interiores. 
A mulher de Lars D., aparece-nos como a pessoa por detrás do génio, que afasta todas as interferências no processo criativo, que o ajuda a levantar-se quando cai, que o alimenta e mantém fisicamente saudável. A mulher que vive todo o seu casamento, a cuidar de um homem que, na maior parte das vezes não parece aperceber-se que ela está lá. A mulher que abdica de tudo para que ele possa continuar a escrever e ela tenha o privilégio de estar ao lado dele. A mulher que casou com ele e não esperava mais do que isso, apenas estar presente quando ele precisasse, antecipar as suas necessidades e dar-lhe condições para criar a sua próxima grande obra. A mulher que, quando ele desaparece, se apercebe que os anos do seu casamento foram os anos mais solitários da sua vida. Com Lars D. fora da sua vida, terá de reaprender a viver para si, apenas para si, e a aceitar que nunca é tarde para se ser feliz.

Agrada-me muito esta fase mais intimista de João Tordo, a escrita mais madura e o que consegue transmitir-nos enquanto leitores. Tinha gostado muito do Luto de Elias Gro (opinião aqui)e, acho que gostei ainda mais deste O Paraíso Segundo Lars D.. Mais simples na narrativa, mas muito eficaz nas emoções que transmite.

Gostei muito e recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras!

Excerto (pág. 74):
"Xavier trouxe tudo para a mesa e começamos a comer. A refeição era um dos rituais que eu e Lars nunca descurávamos. Ao longo de várias décadas, a maneira de comer do meu marido levou-me ao desespero e ao amor mais profundo. Quando ainda era jovem, ele comida apressadamente e, depois de terminar, ficava a observar-me enquanto eu comia, muito mais devagar. Os anos passaram e, no período de trabalho mais fértil, ele chegava às refeições como quem chega a uma corrida de estafetas e comia ainda mais depressa, mastigando tudo ao mesmo tempo (brócolos, bife, vinho, pudim). Depois dizia:
    Sabe tudo a coentros.
    Até o pudim?, perguntava eu. 
    Sobretudo o pudim. 
    E desaparecia para o escritório. 
No entanto, nem depois de ter deixado de escrever, quando se dedicava ao ascetismo e comia pouquíssimo, Lars faltava às refeições. Nunca: as refeições eram nossas e ele participava sempre delas, como um cavalo que tem de ir ao bebedouro para não perecer."

maio 14, 2020

[Kindle] O Espião Português - Nuno Nepomuceno

Título original: O Espião Português
Ano da edição original: 2015
Autor: Nuno Nepomuceno
Editora: Edições ASA

“E se toda a sua vida não passar de uma mentira? André Marques-Smith é um bom rapaz. Dedicado à família e aos amigos, é o mais jovem funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros português a assumir a tão desejada direcção do Gabinete de Informação e Imprensa. Uma dedicação profissional que esconde um coração partido. Freelancer é o nome de código de um espião da Cadmo, uma organização semigovernamental internacional. A par do MI6 e da CIA, a Cadmo age nos bastidores da política mundial, moldando o mundo tal como o conhecemos. Freelancer é metódico e implacável, um dos seus operacionais mais cotados.”

O Espião Português é, como o título indica, um livro de espionagem.

Fiquei na dúvida, antes de iniciar a leitura, se o mundo literário ainda tem alguma coisa a dizer sobre o universo da espionagem e, depois de terminar, acho que sim.
Depois de ler este livro, acho que o mundo da espionagem continua a ser um mundo fascinante, independentemente de não estarmos no meio de uma guerra mundial, ou da guerra fria. :)
Neste caso em particular, tratando-se de um escritor português, cuja personagem principal é portuguesa, existe uma familiaridade e empatia com André Marques-Smith, que é especial e não seria tão imediata se ele fosse de outra nacionalidade.

O Espião Português é, portanto, uma história típica de espionagem que envolve gente bonita e perigosa, que são mais do que aparentam. Há muita ação, ou como já ouvi sobre alguns filmes de ação, tem muitos "murros e pontapés nas trombas".
Tem, para além disto uma boa história de suporte a toda a ação, e personagens com as quais criamos empatia. Está bem escrito, com algumas revelações que, se pode dizer, são surpreendentes.

De que precisamos mais numa história deste género? Diria que nada.

Não tenho bem a certeza quando é que me cruzei com o nome de Nuno Nepomuceno mas, muito possivelmente foi no Goodreads. Terei apanhado alguma crítica de alguém, cuja opinião valorizo.

Li sempre coisas muito positivas sobre os livros dele e, andava curiosa, há algum tempo. Felizmente, confirmaram-se todas as críticas positivas que li e por isso recomendo, sem quaisquer reservas.

Boas leituras!

Excerto:
"Está a correr. Não tem a certeza de quantos são. Olha para trás. Os guardas dobram a esquina do corredor. São apenas dois. Não, três. O certo é que mais venham a caminho. De arma em punho, gritam em sueco. Um deles atira, mas falha. Uma luz de presença estala, deixando o corredor um pouco mais escuro. Vindo de cima, o besouro do alarme ressoa-lhe nos ouvidos. O corredor parece não ter fim. Sente as solas duras a escorregar sobre o chão antigo de pedra. As dores no pé começam a incomodá-lo verdadeiramente. «Stanna, stanna!», ordenam eles, como se parar fosse mesmo uma opção. Tem de continuar a correr!" 

abril 17, 2020

Jovens Corações em Lágrimas - Richard Yates

Título original: Young Hearts Crying
Ano da edição original: 1984
Autor: Richard Yates
Tradução: Miguel de Castro Henriques
Editora: Quetzal

"Michael Davenport e Lucy Blaine são um casal jovem e atraente. Michael formou-se em Harvard e tem a ambição de uma carreira literária; Lucy é bonita, discreta, culta e muito rica.
Recém-casados, mudam-se para Nova Iorque nos início dos anos 1950. Michael trabalha no seu primeiro livro de poemas, enquanto sustenta a família com um medíocre emprego diurno - paradoxalmente, em nome da sua liberdade criativa, recusa-se a tocar no dinheiro da sua mulher. Nesses anos, em que a contracultura Beat começa a dar os primeiros sinais, Michael e Lucy descobrem, por acidente, a nova boémia artística nova-iorquina. Embora deslocados e inseguros face à sofisticação e licensiosidade deste leque de fascinantes possibilidades sociais, sabem que encontraram o que procuravam. Porém, o curso dos acontecimentos e das relações (incluindo a deles, Michael e Lucy Davenport) deixá-los-á sempre algo aquém das suas expectativas.
Jovens Corações em Lágrimas demonstra mais uma vez a inigualável mestria de Richard Yates, o grande cronista do sonho Americano e das suas depressões."


Jovens Corações em Lágrimas é, mais uma vez, um livro onde nada parece correr bem às personagens. Página a página vamos vendo as decisões que tomam e vamos sentido que mais tarde ou mais cedo, algumas trarão consequências.

A história gira à volta do jovem casal Michael Davenport e Lucy Blaine. 
Ele um aspirante a escritor, de origens humildes, formado em Harvard. Moderadamente conhecido por um poema que publicou quando era mais novo, e que lhe trouxe alguma notoriedade no meio.
Ela veio de uma família abastada, bonita e culta. Quando conhece Michael é uma jovem alegre, cheia de ideias e, fica um pouco fascinada pela cultura de Michael.

Conhecem-se, apaixonam-se, casam-se e têm uma filha. Michael, por orgulho, não aceita que Lucy utilize o dinheiro de família para os sustentar ou ajudar na sua carreira literária.
Enquanto trabalha no seu novo livro de poemas, o livro que sente o consagrará como um escritor de culto e de relevância, trabalha para uma revista, trabalho que lhe permite pagar as contas. 
Vivem, por isso, sem luxos, num pequeno apartamento em Nova Iorque, cidade que fervilha de ideias, onde tudo acontece e onde vivem todas as novas mentes brilhantes do século XX.
Para Lucy, a mudança de vida é grande, mas respeita a decisão de Michael e, na verdade, sente-se feliz com o que tem. Sente-se encantada por Michael e pelo seu talento.

Os dois desejam pertencer à nova cena artística. Conhecem, por mero acaso, alguns desses artistas e começam a ser presença assídua nas festas e encontros do meio.
Parece que desejam pertencer a este meio mais do que desejaram alguma outra coisa nas suas vidas. Não querem apenas conhecer estas pessoas, artistas das mais diversas áreas, querem ser os seus melhores amigos. Querem pertencer e ser reconhecidos, pelo que acham ter para oferecer ao mundo.

São um casal apaixonado que vemos, inicialmente, com uma certa candura e inocência. Desejam ficar na história, de certa forma, mudar o mundo. São jovens e parecem ter tudo para serem felizes. No entanto, a constante insatisfação, a vontade de se destacarem e de pertencer, torna-os extremamente infelizes. Ao estarem tão focados nos outros, são incapazes de reconhecer neles próprios motivos para serem felizes.
Michael torna-se ciumento, amargurado e imensamente infeliz. Lucy, que sempre foi mais uma espectadora na vida dos dois do que propriamente participante, percebe que necessita de outras coisas na vida dela e afasta-se de Michael, divorciando-se dele.
Após a separação, e depois de uma fase inicial onde se sente perdida, Lucy, inicia um processo de autodescoberta onde experimenta a escrita, a pintura e a representação. Chegando à conclusão de que não é especialmente boa em nenhuma delas.
Michael, após a separação, oscila entre fases de profunda depressão, associadas à bebida, e fases de esperança alucinada.

O livro, embora até seja um livro volumoso, lê-se muito bem. 

É um livro que nos põe a reflectir sobre a vida e sobre aquilo que nos faz felizes. Põe-nos a pensar sobre as pessoas da nossa vida e de como todos nós mudamos ao longo dos anos. Mudamos a muitos níveis, mudamos fisicamente, mudamos de opiniões, descobrimos de que afinal já não faz sentido perseguir algo que sonhamos ter desde sempre. Crescemos, mudamos e, acho que, se mantivermos a mente aberta, descobrimos coisas que nunca pensámos vir a descobrir quanto mais gostar.
Ter objetivos é muito bom, essencial até, mas estes objetivos têm de deixar algum espaço para a descoberta. Nem sempre a linha recta, sem possibilidade de desvios é o melhor caminho para alcançarmos o que quer que seja. Temos de tentar viver o melhor possível, com aquilo que sabemos e com o tempo que temos disponível.

Richard Yates não me desilude. Gosto dos livros dele e pronto, não há mais nada a dizer!

Recomendo e boas leituras!


Excerto:
"Ela então parou de falar, como se falar não a pudesse senão levar a um estado de exaustão, e Michael não tinha nada para dizer. Sentia-se mais fraco do que ressentido e sabia que nenhuma resposta seria adequada, por isso contraiu os maxilares para se impedir a si mesmo de responder de todo. De vez em quando, durante os intervalos da estrada em que não se viam árvores, olhou para as estrelas que cintilavam no céu escuro como se lhes perguntasse se alguma vez - alguma vez - chegaria a altura em que ele faria algo como deveria ser."

abril 16, 2020

Morreu Luís Sepúlveda

São poucos os escritores cuja morte me deixa abalada e triste. 
Aconteceu com Saramago, com João Aguiar, com Umberto Eco e, agora com Luís Sepúlveda.

Sinto que perdi alguém próximo, alguém que ainda tinha muito para dar ao mundo das letras, mas não só. 

Sempre que pessoas como o Luís Sepúlveda desaparecem, é mais um pedaço de história que deixa de ser contada por quem a viveu. Perde-se um exemplo de honestidade, de justiça e de luta por um mundo melhor, com as armas que tinha, a sua escrita e a sua exposição como figura pública.

Os livros dele acompanham-me desde que me lembro, e sempre foi um escritor pelo qual senti muito carinho e, é com grande tristeza que o vejo partir, de forma tão prematura.

Na minha estante faltam muitos livros deles, alguns até dos mais conceituados. Alguns já li, muitos outros ainda tenho para ler. Vai, por isso continuar a fazer parte da minha vida, enquanto leitora.

Há um livro dele, dos mais recentes, História de um Gato e de um Rato que se tornaram amigos que deve ter sido dos livros que mais comprei. Acabei sempre por retirá-lo da minha estante para o oferecer. Gosto tanto dele e acho que é um livro tão bonito, que quero que faça parte das estantes das "minhas" crianças.

Ainda não tive oportunidade de voltar a comprá-lo.


Obrigada Luís Sepúlveda pela companhia, pelos ensinamentos e por todas as histórias que, tenho a certeza, contribuíram para formarem a pessoa que sou hoje.

Obrigada!

abril 04, 2020

[repost] A Peste - Albert Camus

Passaram-se praticamente 10 anos desde que li A Peste, de Albert Camus, e nenhum de nós pensou alguma vez, que estaríamos, em 2020, a passar por algo tão estranho e perigoso a tantos níveis.

Reli a minha opinião sobre o livro e, achei que fazia sentido voltar a destacá-la.


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A Peste é o primeiro livro que leio de Albert Camus, e estou certa não será o último, embora tenha sido um pouco diferente do que estava à espera.

Em A Peste, Orão é uma cidade próspera do litoral argelino, construída de costas voltadas para o mar, cujos habitantes vivem para trabalhar e acumular riqueza, vivendo de rotinas e sem qualquer sobressalto que os faça questionar a vida que levam. Orão é uma cidade moderna onde as relações humanas são relegadas para segundo plano, sobrevivendo no hábito e na tranquilidade das coisas dadas como certas, "Em Orão, como no resto do mundo,por falta de tempo e de reflexão, é-se obrigado a amar sem o saber." Os negócios são demasiado importantes e o divertimento tem dia e hora marcada. Fez-me alguma confusão a descrição de Albert Camus faz dos habitantes de Orão, tão indiferentes e desligados uns dos outros, mesmo durante a epidemia. Enquanto lia pareceu-me tão irreal que semelhante cidade existisse, mas a verdade é que é um retrato bastante fiel do que vivemos nos dias de hoje.
Fiquei ansiosa quando os ratos começaram a subir à cidade para morrer, por ver a falta de reacção da população. Era quase como se pensassem que ao ignorar o problema, ao não enfrentar a realidade, os ratos acabariam por desaparecer sem consequências. Eram algo desagradável, é certo, mas que apenas lhes alterava a rotina tranquila do dia a dia. Quando as pessoas começaram a morrer de forma tão avassaladora e em tão grande quantidade, a negação da epidemia deixou de ser possível e a cidade foi fechada ao exterior, ficando de quarentena por tempo indeterminado. A morte tinha-se instalado em Orão, separando famílias, amantes e amigos. Quando se viram isolados, sem poderem comunicar com o exterior, todos perceberam a importância que essas pessoas tinham nas suas vidas. Casamentos que se mantinham apenas pelo hábito ganharam nova vida e os amantes separados pelas portas da cidade reavivavam o sentimento devido à separação. Com o passar dos meses a dor da separação foi, para muitos a única razão para se manterem sãos, mesmo que para fim já nem os rostos das pessoas amadas conseguissem recordar com clareza.

Alguns viviam obcecados em fugir da cidade. Reencontrarem-se com quem ficou do lado de fora, era o mais importante. Aparentemente o medo de morrer sozinho era bem maior do que o perigo de contagiarem aqueles a quem desejavam voltar a ver e, que tinham por um golpe de sorte escapado à peste. Outros, como Rieux, Rambert, Tarrou e Grand, entregaram aqueles intermináveis meses de isolamento, medo e dor ao combate e à luta contra a epidemia. Relegando para segundo plano as aflições pessoais de cada um, em prol da comunidade. E houve, como sempre, aqueles que vêm em situações destas a oportunidade de lucrar com a miséria, como Cottard. Este livro tem de tudo e para todos os gostos... :)

Enfim, A Peste é um livro que faz um reflexão muito interessante sobre a morte e a vida, sobre as fragilidades humanas e sobre a forma como lidamos uns com os outros, em sociedade. Gostei muito de o ler, embora tenha ficado com a sensação de que a tradução desta edição não é das melhores. Fez-me confusão a forma distante como a história é narrada, numa espécie de crónica, onde os factos são relatados com muita objectividade pelo narrador. As excepções a esta objectividade resultaram, para mim, nos momentos que mais gostei de ler, embora falar de gosto seja provavelmente de mau gosto, pois foram momentos dramáticos. É o caso da morte do filho do juiz, apenas uma criança e a morte de Tarrou, uma pessoa intrinsecamente boa. Gostei muito das personagens que constituem o núcleo desta narrativa, Rambert, Grand, Cottard e, particularmente de Rieux e Tarrou.

Vale muito a pena ler A Peste. :)

Pretensos Factos:
- Dizem os dissecadores de livros que A Peste é uma alegoria à invasão de França pelas tropas alemãs, em 1940, em pleno nazismo. E, provavelmente essa leitura é válida.
- Albert Camus ter-se-à inspirado na epidemia de cólera que dizimou, em 1849, uma elevada percentagem da população de Oran, a segunda maior cidade da Argélia.

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Tudo isto vai passar, e a maioria de nós vai ficar bem, desde que, cada um de nós faça a sua parte e, sejamos sinceros, se o que nos pedem é que fiquemos em casa, não nos estão a pedir nada do outro mundo. O importante, nesta fase, é garantir que todos têm acesso ao melhor tratamento possível, em caso de necessidade.

Acredito que o difícil vai ser quando tudo isto passar. O desemprego e a recuperação económica vai ser algo que vai demorar mais do que uns meses e tudo isto irá deixar marcas profundas em todos nós, os que ficaram em casa e os que, por serem imprescindíveis, continuaram a trabalhar.

Mas, neste momento, não há muito que se possa fazer quanto a isso. Por isso, façamos todos o que nos pedem: Ficar em casa! Por nós, pelos nossos mas, também por todos os outros.

Boas leituras!

março 21, 2020

As Histórias de Terror do Tio Montague - Chris Priestley

Título original: Uncle Montague's Tales of Terror
Ano da edição original: 2009
Autor: Chris Priestley
Ilustrações: David Roberts
Tradução: Joana Neves
Editora: Arte Plural Edições

"Edgar não resiste às cativantes histórias de terror que o seu tio Montague lhe conta quando o vai visitar, do outro lado do bosque. Mas qual será a ligação do seu tio a estas histórias sinistras?
Prepara-te para morreres de medo quando descobrires que o tio Montague é, afinal, o protagonista da história mais terrífica de todas.
Um livro assustador... Terás coragem para o ler?"

Comprei este livro nas promoções do Halloween com a intenção de o oferecer às minhas sobrinhas de 10 anos. Tenho por hábito, a não ser que já conheça o autor ou o tipo de histórias, ler o que lhes compro, para perceber se está ou não adequado à idade. Como não conhecia o autor, e por se tratar de um livro de “terror”, este teve de passar pelo crivo e, acabou por ficar nas minhas estantes. Achei que ainda não era adequado para elas. Talvez para o ano. :)

Dito isto, As Histórias de Terror do Tio Montague, é um conjunto de histórias assustadoras, que o sinistro tio Montague conta ao seu sobrinho Edgar. O cenário é uma assustadora mansão, no meio de um pequeno bosque, para a qual Edgar se dirige todos os dias só para ouvir as histórias do Tio Montague.

As histórias não são assustadoras do tipo ficarmos com dificuldade em adormecer ou atravessar divisões às escuras mais rápido do que o normal, com receio da própria sombra. As histórias são um pouco assustadoras, até certo ponto duras e sem grandes rodeios. Acho que acima de tudo, estão muito bem escritas e tentam passar, de alguma forma, uma mensagem. Fiquei agradavelmente surpreendida por este pequeno livro.

Gostei e recomendo. :)

Boas leituras!

Excerto (pág.9):
“O caminho para casa do Tio Montague passava por um pequeno bosque. O carreiro ondulava por entre as árvores como uma serpente a esconder-se no mato, e embora o carreiro não fosse longo e o bosque não fosse nada grande, essa parte da caminhada parecia sempre demorar muito mais do que eu esperava."

(Pág. 13):
“Uma das muitas excentricidades do meu tio era que, embora claramente não lhe faltasse dinheiro, ele nunca tinha querido ter nada a ver com luz elétrica – nem com iluminação a gás, na verdade -, e iluminava toda a casa apenas com luz de velas, e mesmo assim, com pouca. Por isso, segui-lo até ao seu escritório era sempre muito desconcertante; apesar de estar seguro em casa do meu tio, não me sentia nada confortável em ficar às escuras lá dentro, e apressava-me sempre para não o perder de vista – e para não deixar de ver a luz das velas.
Enquanto o meu tio caminhava pela casa cheia de correntes de ar, a luz das velas tornava-me certamente mais nervoso; a sua passagem tremeluzente criava toda a espécie de sombras grotescas na parede, que dançavam e saltitavam por todos os lados, dando a irritante impressão de ter uma vida própria e parecendo fugir para se esconder debaixo da mobília ou correr pelas paredes acima para se refugiar nos cantos dos tetos.
Depois de caminhar mais tempo do que pareceria possível, a avaliar pelo tamanho da casa tal como parecia vista de fora, chegámos ao escritório do meu tio: uma divisão vasta, com diversas estantes cheias de livros e de raridades que o velho senhor tinha trazido das suas viagens. Das paredes pendiam vários quadros e gravuras, e as janelas com caixilhos de bronze estavam tapadas por pesadas cortinas. Mesmo que ainda fosse de dia, o escritório estava sempre escuro como uma gruta.”

Avenue of Mysteries - John Irving

Título original: Avenue of Mysteries
Ano da edição original: 2015
Autor: John Irving
Editora: Transworld Publishers Ltd. - Black Swan

"Juan Diego's little sister is a mind reader. As a teenager, he struggles to keep anything secret - Lupe knows all the worst things that go through his mind. And sometimes she knows more. Whata terrible burden it is to know - or to think you know - your future, or worse, the future of someone you love. What might a young girl be driven to do if she thought she had the power to change what lies ahead?
Later in life, Juan Diego embarks on a journey to fulfil a promise he made in his youth. It is a long story and it has long awaited an ending, nut Juan Diego is unable to write the final chapters.
This is the story of what happens when the future collides with the past."

Por coincidência tenho levado para as férias de Verão livros do John Irving. Talvez seja por serem grandes ou porque tenho a certeza de que serão boa companhia à beira-mar. O ano passado não foi exceção e Avenue of Mysteries foi uma das minhas companhias de Verão. Sim, do Verão. Ando com muita dificuldade em manter o Quero Um Livro a par das minhas leituras. E não é porque estou a ler mais.  Acho que estou a atravessar uma espécie de bloqueio. :)

Agora que devemos estar todos, não por bons motivos, mais por casa, acho que vou conseguir recuperar tudo o que tenho pendente aqui no blogue.

Voltando ao livro.

Juan Diego e Lupe são irmãos. Ele tem 14 anos e uma capacidade extraordinária para as letras e para as línguas. Lupe é mais nova, tem uma forma de falar que só o irmão percebe e, consegue ler os pensamentos dos outros e, de vez em quando, parece que consegue prever o futuro.
Os dois são inseparáveis e praticamente não existem um sem o outro, não deixam, no entanto, de ser muito diferentes.
Vivem numa lixeira, com o dono da lixeira que, pode ou não ser o pai de Juan Diego. :) A mãe, de dia trabalha no orfanato católico da cidade, Niños Perdidos, e à noite é prostituta.

É a história destes dois que vamos conhecendo, através da mente perturbada do, agora adulto, Juan Diego, durante uma estranha viagem às Filipinas.
Nesta viagem às Filipinas, Juan Diego, agora um cidadão norte-americano e um escritor bem-sucedido e reconhecido, espera conseguir cumprir a promessa feita ao "el gringo bueno", quando era apenas um adolescente em Oaxaca. Prometeu-lhe que iria à Filipinas prestar homenagem ao pai sepultado naquele país.
É numa espécie de transe constante, em que temos dificuldade em perceber o que é real, que Juan Diego vai dando a conhecer os acontecimentos que mudaram a vida dos dois irmãos e que o marcaram de profundamente.

Avenue of Mysteries é um livro estranho. Talvez seja a primeira coisa que me ocorre dizer sobre ele. Primeiro estranhei-o, depois foi-se entranhando. :) Pareceu-me um pouco pateta, ou forçadamente estranho, mas a verdade é que, mais uma vez, o poder das personagens criadas por John Irving acaba por me prender. É curioso como no meio do absurdo, as personagens, muitas vezes elas próprias absurdas, nos parecem tão humanas.

O livro está repleto de situações caricatas, de relações improváveis e de acontecimentos tristes que nos fazem rir.
É, também, como tem sido habitual em outras obras de Irving, uma crítica à religião, à intolerância e à política externa dos Estados Unidos.

Não consigo não recomendar John Irving, e este não seria de certeza a exceção.

Leiam John Irving e deixem-se surpreender.

Boas leituras.

Excerto (pág. 15):
“What Juan Diego said was that he’d had two lives – two separate and distinctly different lives. The Mexican experience was his first life, his childhood and early adolescence. After he left Mexico – he’d never gone back – he had a second life, the American or midwestern experience. (Or was he also saying that, relatively speaking, not a whole lot had happened to him in his second life?)
What Juan Diego always maintained was that, in his mind – in his memories, certainly, but also in his dreams – he lived and relived his two lives on “parallel tracks”.
A dear friend of Juan Diego’s – she was also his doctor – teased him about the so-called parallel tracks. She told him he was either a kid from Mexico or a grown-up from Iowa all the time. Juan Diego could be an argumentative person, but he agreed with her about that.”