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agosto 31, 2016

A Confissão da Leoa - Mia Couto

Título original: A Confissão da Leoa
Ano de edição: 2012
Autor: Mia Couto
Editora: Editorial Caminho

"Um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do Norte de Moçambique - é pretexto para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas. Como afirma um dos personagens, «aqui não há polícia, não há governo, e mesmo Deus só há às vezes».
E A Confissão da Leoa, através da versão de Mariamar, habitante da aldeia de Kulumani, e do diário de Arcanjo Baleiro, o caçador contratado para matar os leões - os dois narradores desta história - vai expondo diante dos nossos olhos como a guerra, a fome, a superstição, podem transformar os homens em animais selvagens: «foi a vida que a desumanizou. Tanto a trataram como um bicho que você se pensou um animal». Sobre e contra este pano de fundo ergue-se uma extraordinária figura de mulher - Mariamar.
A Confissão de Leoa é bem um romance à altura de Terra Sonâmbula e Jesusalém, já conhecidos do leitor português."

Em A Confissão da Leoa, Mia Couto, à semelhança do que tem acontecido com os seus livros mais recentes, inventa menos palavras. Acaba por ser um livro menos fantasioso, menos mágico na forma como nos envolve na leitura, no entanto, a história não parece perder com esta escrita mais séria de Mia Couto. Se calhar por ser um livro que fala de um tema sério, os espaço para interpretações não deva ser tanto.

A história de A Confissão da Leoa é narrada a duas vozes, a de Mariamar, habitante da aldeia de Kulumani, que tem sido assolada por diversos ataques de leões, e Arcanjo Baleiro, o caçador contratado para matar os leões que ameaçam os habitantes da aldeia. Curiosamente todas as vítimas dos leões, até agora, foram mulheres e os leões acabam por ser apenas uma leoa.
Mariamar é uma jovem mulher, que viveu toda a sua vida em Kulumani. Teve uma vida atribulada, marcada pela guerra, pela pobreza, pela violência e pela ignorância. Nunca teve muitos motivos para sorrir, oprimida pela família, uma mãe que sempre a desprezou e um pai que a violentava, e onde apenas o avô a compreendia e protegia. Cresceu no meio da violência que é reservada às mulheres, por homens ignorantes e cobardes, presos a superstições e a tradições desumanizantes, fugindo para dentro de si, como forma de se proteger, de não enlouquecer. No meio de tanta tristeza não deixa de sonhar. Sonha em sair da aldeia, em ter filhos, em ser amada por um homem bom que a proteja. Sonha mesmo sabendo que não são concretizáveis os seus desejos. Sonha porque não lhe resta mais nada.

Arcanjo Baleiro vem de uma família de caçadores. É contratado para se deslocar a Kulumani para matar os leões que andam a atacar as mulheres da aldeia. Traz consigo, para além da espingarda, a alma carregada de tristeza. O coração pesado de dor e revolta. Traz consigo um amor não correspondido pela cunhada, mulher do seu único irmão, que está internado num hospício por ter morto o pai de ambos há muitos anos atrás. Algo que atormenta Arcanjo e o impede de dormir à noite. Assaltado pelos fantasmas desse dia em que acorda com o disparo da espingarda e encontra o pai banhado em sangue e a espingarda na mão do irmão, pouco mais do que um adolescente. Um acidente? É a versão com que vive durante os anos que se seguem, sem nunca perdoar totalmente o irmão pelo que fez. Sem nunca perceber na totalidade o que se passou naquele dia.

A Confissão da Leoa retrata a mulher, a mulher africana, vítima de violência, vítima de superstições e tradições que continuam enraizadas na cultura, nos sítios mais recônditos, onde a autoridade vigente é a dos deuses, aquela que sempre guiou a vida das pessoas. Sítios onde o conceito de governo central é algo abstracto, algo que lhes bate à porta em época de eleições e em tempos de guerra. A Confissão da Leoa é um grito de revolta e um elogio à força e à importância da mulher na comunidade e no mundo.

É sempre bom regressar a Mia Couto. A Confissão da Leoa é um livro triste, essencialmente triste mas que se lê muito bem. Recomendo como não podia deixar de ser.

Boas leituras!

Excerto (pág. 15):
"Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito céu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção do céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar."

Alguns dos provérbios no inicio dos capítulos:

"O verdadeiro nome da mulher é «Sim». Alguém manda: «não vais». E ela diz: «eu fico». Alguém ordena: «não fales». E ela permanecerá calada. Alguém comanda: «não faças». E ela responde: «eu renuncio»."
                                                                                                                              Provérbio do Senegal

"Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem de correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá à fome. Não importa se és leão ou uma gazela: quando o sol desponta o melhor é começares a correr."
                                                                                                                              Provérbio africano

"Um exército de ovelhas liderado por um leão é capaz de derrotar um exército de leões liderado por uma ovelha."
                                                                                                                              Provérbio africano

julho 12, 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto

Título original: Terra Sonâmbula
Ano de edição: 1992
Autor: Mia Couto
Editora: Editorial Caminho

"Primeiro romance do moçambicano Mia Couto, já bem conhecido e apreciado pelo público português, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo os recentes tempos de guerra em Moçambique, da qual traça um quadro de um realismo forte e brutal.
Dentro deste cenário de pesadelo movimentam-se personagens de uma profunda humanidade, por vezes com uma dimensão mágica e mítica, todos vagueando pela terra destroçada, entre o desespero mais pungente e uma esperança que se recusa a morrer. 
Terra Sonâmbula é um romance admirável, sem dúvida uma das melhores obras literárias que nos últimos anos se escreveram em português."

Li este livro pela primeira vez há uns largos anos. Na altura, pouco percebi, no entanto gostei.
Porque é que gostamos de coisas que não percebemos? Talvez aquilo que não percebemos nos intrigue, nos desperte para o desconhecido e nos ajude a alargar horizontes e a sair da nossa zona de conforto.
Terra Sonâmbula, deve ter sido o primeiro livro "estranho" que li. Estranho na escrita, com personagens difíceis de conceber mas com uma linguagem que, embora não conseguisse captar na sua totalidade, não me era tão estranha assim. Um livro cheio de palavras inventadas que mostrou que uma história não tem de ser regrada e cheia de barreiras gramaticais. Quando se conseguem quebrar barreiras e ultrapassar preconceitos, a linguagem deixa de ser rígida e é possível reinventar toda a língua e as palavras tem o significado que lhe queremos dar. Não deixa de ser reconfortante que nem tudo na vida tenha de fazer sentido. Sabendo isso é mais fácil apreciar as coisas que realmente importam e a beleza de uma nova linguagem, a linguagem dos sonhos, dos sentimentos, a linguagem mais próxima da primeira palavra proferida pelo Homem há milhares de anos atrás.

Mia Couto é irrepreensível na forma como nos conta uma parte da história de Moçambique, apoderando-se dos sonhos dos dois jovens Muidinga e Kindzu. É um livro cuja beleza reside na forma como está escrito e nos sentimentos nobres que o escritor tão bem descreve. Tudo o resto é feio e angustiante, igual a todas as guerras.

Este é um livro difícil de descrever e de comentar porque embora fale de assuntos muito concretos e muito reais, fá-lo de uma forma pouco palpável e qualquer tentativa, da minha parte, para tentar fazer ver o porquê de este ser um livro especial e que não devem deixar de ler, seria uma tentativa inútil de chegar perto da qualidade literária de Mia Couto.
Por isso vou-me limitar aquilo que consigo transmitir por palavras "normais".


Em Terra Sonâmbula, Mia Couto fala-nos de um país destruído pela guerra, onde as pessoas se sentem perdidas e desenraizadas. Todos são órfãos de alguma espécie, todos perderam e têm a certeza de que vão continuar a perder. Muidinga é um rapaz, de idade um pouco indefinida, é jovem mas não consegui perceber quão jovem seria, que foi salvo por Tuhair. Sem qualquer memória do que lhe aconteceu, o rapaz tem como única referência este homem que foge de algo ou de alguém que não identifica. Encontram abrigo num machimbombo incendiado à beira da estrada, uma estrada que parece ela própria deslocar-se. Toda a paisagem envolvente parece mudar, como se não fossem só as pessoas a deslocarem-se, fugindo da guerra, de um conflito que não conseguem perceber. Como se toda a terra fosse sonâmbula e caminhasse sem destino certo.
Perto do machimbombo Muidinga encontra uns cadernos, junto a um cadáver. Estes cadernos foram escritos por Kindzu, mais um jovem sem idade, porque as crianças da guerra parecem-nos sempre mais velhas, precocemente envelhecidas. Nos seus cadernos Kindzu registou a viagem que iniciou com o objectivo de se tornar um naparama, figuras temidas pela população por serem uma espécie de exército de almas guerreiras, abençoadas pelos feiticeiros e que lutavam contra a guerra. O relato da aventura de Kindzu passa a ser uma parte importante na vida de Muidinga e Tuhair, permitindo-lhes evadir-se da vida triste e temerosa que levam no machimbombo destruído. Com os cadernos de Kinzu a capacidade de sonhar e a esperança de um futuro mais risonho mantêm-se vivas!

Terra Sonâmbula foi o primeiro livro de Mia Couto e a "brincriação" com as palavras é genial e refrescante. É curioso voltar a uma obra mais antiga de um escritor que têm evoluído na forma como escreve, tornando-se mais maduro. As últimas obras dele são mais "normais" mas igualmente boas. São apenas uma outra vertente de um escritor que acredito, escreveria novamente e com a mesma qualidade Terra Sonâmbula.
O livro para além da guerra e das pessoas que nela se vêm envolvidas, fala nas tradições, nas crenças de uma sociedade fechada e muitas vezes preconceituosa.
Com este livro veio-me à memória um dos pouco poemas que conheço e recordo (não sou dada à poesia) do tempo da escola, "Pedra Filosofal" de António Gedeão:

"Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."


Obra de leitura obrigatória!

Boas leituras!

Excerto (um dos infinitos possíveis de escolher):
"Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E, sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com os olhos postos no mar."

Deixo-vos ainda o trailer do filme Terra Sonâmbula, de Teresa Prata, baseado neste livro de Mia Couto:


abril 15, 2010

Contos do Nascer da Terra - Mia Couto

Não havendo uma sinopse, transcrevo parte do conto, A menina sem palavra (segunda estória para a Rita), que vem na badana da frente do livro:

"Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamento. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu
de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
- Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez."


Não é bonito? Este livro de contos do Mia Couto é lindo! É puro prazer! Estava a precisar de ler algo assim, simplesmente bonito, que me deixasse com um sorriso na cara e que me enchesse de ternura e encantamento. :)
Estes contos transportam-nos para outra dimensão, são realmente contos do nascer da terra, numa altura em que, como se diz, os animais ainda falavam.
Vale muito a pena ler este livro, desde que o façam devagarinho, saboreando cada palavra e cada frase. Mia Couto é O contador de histórias, um contador de histórias de encantar para adultos. Estes contos deixam-nos de olhos brilhantes e com uma sensação de aconchego imensa. É um livro reconfortante e mais não digo! Não percam mais tempo, vão mas é ler Mia Couto porque é um consolo para a alma. :p

Boas leituras!

novembro 02, 2009

Jesusalém - Mia Couto

"Jesusalém é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor no auge das suas capacidades criativas. Aliando uma narrativa a um tempo complexa e aliciante ao seu estilo poético tão pessoal, Mia Couto confirma o lugar cimeiro de que goza nas literaturas de língua portuguesa. A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado, diz um dos protagonistas deste romance. A prosa mágica do escritor moçambicano ajuda, certamente, a reencantar este mundo"

Gosto muito dos livros do Mia Couto, porque estão cheios de fantasia, parecem fábulas dos tempos modernos, mas com personagens muito reais. Jesusalém não foge a isso, embora ache o livro um pouco mais terra a terra do que os outros que li dele, o que não é necessariamente mau, apenas diferente. Já o Venenos de Deus, Remédios do Diabo, me pareceu diferente nesse sentido.

Jesusalém fala-nos de um pai, Silvestre Vitalício, de dois filhos, Ntunzi e Mwanito (o narrador da história) e de Zacaria Kalash, o militar. Embora existam outras personagens importantes na história, estas constituem o núcleo central da narrativa.
O livro começa com Mwanito a dizer que "A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas", o que nos prende logo desde o início. O pai de Mwanito, Silvestre Vitalício, depois da morte da mulher, Dordalma, pegou nos filhos e no fiel amigo Zacaria Kalash e instalou-se num pedaço de terra, a que chamou de Jesusalém, longe de tudo e de todos. Para ele "o mundo terminara e nós éramos os últimos sobreviventes", tal foi o desgosto de perder a mulher.
Mwanito, o filho mais novo não se lembra de nada do "Lado de lá", para ele o mundo resume-se ao homens que com ele vivem em Jesusalém, e ao Tio Aproximado que lhes leva o necessário para sobreviverem. O irmão mais velho, Ntunzi, pelo contrário, tem memórias claras de como era a vida antes e sente-se, por isso, preso e frustrado.

É uma história bonita, cheia de sentimentos contraditórios, porque embora Mwanito se sinta roubado, por o pai o ter afastado do mundo, tem por ele muito respeito e amor. E quando este mais precisa dele não o abandona porque, por mais mágoas que existam, pai é pai.
É também uma história que fala de culpa e do que somos capazes de fazer para expiar essa culpa, de maneira a podermos seguir em frente.

É sempre complicado descrever e classificar os romances do Mia Couto mas, Jesusalém é a história de um homem ferido e envergonhado de tal forma que se isola do mundo levando com ele aquilo que lhe resta. Um homem que, de tão infeliz, impede a felicidade dos filhos protegendo-os das crueldades da vida e do mundo. Qualquer pai gostaria de o poder fazer, afastar os filhos das brigas, dos desgostos, da infelicidade mas, é virtualmente impossível, porque sem esses dissabores eles nunca aprenderão a ser felizes.

Tudo isto é contado ao estilo de Mia Couto, com alguma loucura à mistura. Eu gostei muito! :)