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dezembro 26, 2022

O Prisioneiro do Céu - Carlos Ruiz Zafón

Título original: El Prisionero del Cielo
Ano da edição original: 2011
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Sérgio Coelho
Editora: Editorial Planeta

"Barcelona, 1957, Daniel Sempere e o amigo Fermín, os heróis de A Sombra do Vento, regressam à aventura, para enfrentar o maior desafio das suas vidas.

Quando tudo lhes começava a sorrir, uma inquietante personagem visita a livraria Sempere e ameaça revelar um terrível segredo, enterrado há duas décadas na obscura memória da cidade. Ao conhecer a verdade, Daniel vai concluir que o seu destino o arrasta inexoravelmente a confrontar-se com a maior das sombras: a que está a crescer dentro de si.

Transbordante de intriga e de emoção, O Prisioneiro do Céu é um romance magistral, que o vai emocionar como da primeira vez, onde os fios de A Sombra do Vento e de O Jogo do Anjo convergem através do feitiço da literatura e nos conduzem ao enigma que se esconde no coração do Cemitério dos Livros Esquecidos. Este romance de Carlos Ruiz Zafón é um verdadeira promessa de felicidade."

Livro lido nas férias de Verão de há uns dois anos atrás. Os pormenores já se desvaneceram na memória, é certo mas, conservo a mística de Barcelona e as personagens que Carlos Ruiz Zafón tão bem sabia criar. Misteriosas e assustadoras.

O Prisioneiro do Céu, traz-nos Daniel Sempere, à frente da livraria, casado, com um filho e feliz. Os dias passam sem grandes sobressaltos, para além dos que atormentam todos os donos de livrarias. Não serão os negócios mais rentáveis e estáveis do mundo. :)
Um dia, um estranho homem, entra na vida do casal e, com ele traz a dúvida e o medo. Daniel Sempere descobre dentro dele sentimentos que não sabia serem possíveis. Torna-se um homem inseguro, desconfiado e agressivo. Fica obcecado por este homem que de repente tornou a sua vida num inferno.

E quem será este homem misterioso que parece trazer a desgraça para os Sempere? O que vamos conhecendo desta personagem e a sua história foi o que mais me cativou no livro. As descrições, o mistério, a dualidade - será bom? será mau?, foi o que mais me manteve interessada na leitura.
Julgo que não é novidade que a personagem do Daniel Sempere, sempre me irritou um bocadinho. Essa impressão não se alterou, agora que é um homem adulto. :)
Com a ajuda de Fermín, o amigo de sempre, e que parece estar, de alguma forma envolvido na história que o homem misterioso está a querer desenterrar, Daniel vai percorrendo as ruas e ruelas de Barcelona para tentar descobrir o que trouxe aquela personagem para a sua vida.

A história está bem escrita, outra coisa não seria de esperar do Carlos Ruiz Zafón. Consegue manter uma aura de mistério, quase terror, que nos mantém em suspenso até ao fim. Foi muto bom voltar a estar com Fermín. Acho que é uma das personagens mais bem conseguidas deste universo do Cemitério dos Livros Esquecidos.
Para quem gosta de Carlos Ruiz Zafón e deste universo, O Prisioneiro do Céu é um livro que não podem não ler. 

Recomendo sem reservas.

Boas leituras!

Excerto (pág. 95):

"A cela era um rectângulo escuro e húmido, com um pequeno orifício aberto na rocha, por onde entrava ar frio. As paredes estavam cobertas de mossas e marcas gravadas pelos inquilinos anteriores. Alguns gravavam os seu nomes, datas ou deixavam algum indício de que haviam existido. (...)
Fermín estava ali há meio hora, quando reparou, no outro extremo da cela, num vulto na sombra. Levantou-se e aproximou-se devagar, acabando por descobrir tratar-se de uma saca de serapilheira suja. O frio e a humidade haviam começado a penetrar-lhe nos ossos e, por mais que o cheiro emanado daquele fardo salpicado de manchas escuras não augurasse agradáveis conjecturas, Fermín pensou que talvez a saca tivesse uma farda de prisioneiro, que ninguém se dera ao trabalho de lhe entregar e, com um pouco de sorte, um cobertor para se aquecer. Ajoelhou-se em frente à saca e desatou o nó que atava uma das extremidades.
Ao abri-la, a iluminação das candeias que cintilavam trémulas no corredor revelou o que, por momentos, julgou tratar-se do rosto de um boneco, de um manequim como os que os alfaiates colocavam nas montras para exporem os fatos. O fedor e a náusea fizeram-no compreender que não se tratava de um boneco. Cobrindo o nariz e a boca com uma das mãos, retirou o resto do tecido e atirou-se para trás, contra a parede da cela.
O cadáver parecia ser de um adulto de idade indeterminada, entre os quarenta e os setenta e cinco anos, que não deveria pesar mais do que cinquenta quilos. Os cabelos compridos e a barba branca cobriam-lhe uma boa parte do tronco esquelético. As mãos ossudas, de unhas compridas e retorcidas, assemelhavam-se às garras de uma ave. Tinhas os olhos abertos e as córneas pareciam ter-se-lhe enrugado, como frutos maduros. A boca estava entreaberta e a língua, inchada e enegrecida, ficara presa entre os dentes apodrecidos.
- Tire-lhe a roupa antes que o levem - entoou uma voz de uma cela do outro lado do corredor. - A si, ninguém lhe vai dar outras roupas até ao próximo mês."

março 15, 2013

El Príncipe de Parnaso - Carlos Ruiz Zafón


El Príncipe de Parnaso é um pequeno conto inédito de Carlos Ruiz Zafón que está a ser oferecido (não sei se com todas as edições) na compra do último romance do escritor, El Prisionero del Cielo (O Prisioneiro do Céu na edição portuguesa).
É neste pequeno livro que se faz, pela primeira vez, referência ao Cemitério dos Livros Esquecidos, lugar mítico referido em todos os livros de CRZ.

Na Barcelona do século XVII, António Sempere trava conhecimento com aquele que viria a ser um dos escritores mais importantes de Espanha, de seu nome Miguel de Cervantes Saavedra. Reza a história que o escritor, na altura apenas aspirante a escritor, teria passado uns tempos em Barcelona com a sua grande paixão, a italiana Francesca, dona de uma beleza singular e cobiçada pelos mais diversos artistas para ser a sua musa inspiradora. Cervantes chega a Barcelona, preso a um pacto selado com uma personagem sinistra, Andreas Corelli, o mesmo editor que fez a vida negra a David Martín, o protagonista de O Jogo do Anjo e, não parece trazer nada de melhor para Cervantes e a sua amada.  Segundo este conto é durante esta estadia que o escritor trava conhecimento com Sancho, fiel amigo até aos seus últimos dias.

É um pequeno conto que, à semelhança dos outros livros de CRZ se lê muito bem. Por ser um conto e por isso uma história mais pequena não há tanto espaço para as descrições tenebrosas e fascinantes de Barcelona e talvez por isso não me tenha prendido particularmente. :) Foi um regresso gostoso a um autor que não me enchendo as medidas me vai mantendo interessada no que escreve. Além disso é óptimo para treinar o espanhol! Não sei se esta oferta também esta a ser aplicada na edição portuguesa (este pertence ao meu professor de espanhol), se for esse o caso as horinhas dispensadas na sua leitura não serão, por certo dadas como perdidas.

Boas leituras!

setembro 02, 2012

Marina - Carlos Ruiz Zafón

Título original: Marina
Ano da edição original: 1999
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Editorial Planeta - Colección Booket

"«Quince años más tarde, la memoria de aquel día ha vuelto a mí. He visto a aquel muchacho vagando entre las brumas de la estación de Francia y el nombre de Marina se ha encendido de nuevo como una herida fresca.
Todos tenemos un secreto encerrado bajo llave en el ático del alma. Éste es el mío.»
En la Barcelona de 1980 Óscar Drai sueña despierto, deslumbrado por los palacetes modernistas cercanos al internado en el que estudia. En una de sus escapadas conoce a Marina, que comparte com Óscar la aventura de adentrarse en un enigma doloroso del pasado de la ciudad, un desafío de siniestras consecuencias que alguien deberá pagar."

Escolhi este livro de Carlos Ruiz Zafón para ler em castelhano, para ver se não enferrujava enquanto estou de férias das aulas de castelhano. Sabia que a escrita do autor não é muito complicada e, este livro, Marina, é relativamente pequeno, pelo que me pareceu perfeito para treinar o idioma de nuestros hermanos. :)

De Carlos Ruiz Zafón já li os mais que conhecidos e falados A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo (já comentados aqui e aqui). Gostei, sem grandes entusiasmos do primeiro, e achei mais ou menos o segundo. :)
Marina é, segundo o próprio autor, o último livro que escreveu para um público mais juvenil, partindo depois dele para os livros que o tornaram conhecido do grande público.
Este é um livro fácil de ler, mesmo em castelhano não senti grandes dificuldades, embora tivesse parado muitas vezes para ver no dicionário as palavras mais esquisitas, a história não é difícil de acompanhar.

Óscar Drai é um adolescente de 15/16 anos que vive num internato, em Barcelona no anos 80. Barcelona aparece-nos mais uma vez como uma cidade cheia de mistérios, cheia de histórias e recantos para descobrir. O autor volta a descrever a cidade como uma cidade sombria, envolta numa permanente neblina e habitada por seres sinistros que vivem nas sombras. Este continua a ser o ponto forte dos livros de CRZ e, a cada livro que leio aumenta a minha curiosidade para conhecer a cidade.

O nosso protagonista é um rapaz que adora perder-se por essa Barcelona antiga, cheia de becos e palacetes abandonados, os destroços de uma franja da sociedade que perdeu, ao longo dos tempos, o poder económico que lhes permitia viver numa zona privilegiada da cidade e que agora mais não são do que bairros fantasmas e ideais para a imaginação prodigiosa de Óscar. Todos os seus tempos livres são passados a vaguear por ali até que um dia, entra num desses palacetes, aparentemente abandonado. Aparentemente, porque é lá que ele vai encontrar a doce e inteligente Marina e o seu pai, Gérman, um pintor famoso, destroçado pela perda da sua musa, a mãe de Marina.

Óscar e Marina iniciam uma amizade que muda a vida dos dois para sempre. Juntos tropeçam num dos maiores segredos da cidade de Barcelona, que envolve uma das personagens mais misteriosas e perturbadoras da cidade, Mikail Kolvenik, um milionário, morto há mais de trinta anos, que parece ter voltado do mundo dos mortos... e mais não digo.

Gostei deste pequeno livro, da história, muito por causa da dinâmica que o autor conseguiu criar entre Óscar e Marina. Conseguiu criar uma coisa boa com estas duas personagens, o sentimento que os une é descrito de uma forma muito bonita e, sabendo nós que alguma coisa correu mal, embora só saibamos o quê no fim, torna tudo mais envolvente. Mais uma vez gostei da personagem masculina, que é o pai das personagens adolescentes que o autor cria para protagonistas dos seus romances. Germán é muito curioso, à semelhança de Daniel Sempere, de A Sombra do Vento.
A história está repleta de personagens misteriosas e assustadoras, criaturas estranhas e monstruosas e, embora não seja um livro propriamente assustador, é um livro que cria alguma tensão e que nos faz temer pela vida dos nossos protagonistas e com alguma razão, posso acrescentar... :p

Embora seja um livro claramente mais direccionado para os mais novos, como o li em castelhano, acabei por não sentir muito isso e, dentro do género, gostei bastante e recomendo, em qualquer língua!

Boas leituras!

Excerto:
"A finales de la década de los setenta, Barcelona era un espejismo de avenidas y callejones donde uno podía viajar treinta o cuarenta años hacia el pasado con sólo cruzar el umbral de una portería o un café. El tiempo y la memoria, historia y ficción, se fundían en aquella ciudad hechicera como acuarelas en la lluvia. Fue allí, al eco de calles que ya no existen, donde catedrales y edificios fugados de fábulas tramaron el decorado de esta historia."

julho 14, 2011

O Jogo do Anjo - Carlos Ruiz Zafón

Título original: El Juego del Ángel
Ano da edição original: 2008
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Isabel Fraga
Editora: Dom Quixote

"Na Barcelona turbulenta dos anos 20, um jovem escritor obcecado com um amor impossível recebe de um misterioso editor a proposta para escrever um livro como nunca existiu a troco de uma fortuna e, talvez, muito mais. Com deslumbrante estilo e impecável precisão narrativa, o autor de A Sombra do Vento transporta-nos de novo para a Barcelona do Cemitério dos Livros Esquecidos, para nos oferecer uma aventura de intriga, romance e tragédia, através de um labirinto de segredos onde o fascínio pelos livros, a paixão e a amizade se conjugam num relato magistral."

Não sei bem o que dizer acerca deste livro. O que normalmente até é uma coisa boa, neste caso não é bem assim. Não sei o que dizer porque cheguei ao fim do livro sem qualquer nota mental acerca das coisas que gostaria de destacar ou que gostaria de não esquecer.
É claro que posso falar da história, posso até destacar uma ou outra passagem mas, a realidade é que o livro me pareceu... demasiado normal. Fui passando as páginas com algum interesse, mas ao mesmo tempo sentia que nada do que lia iria ganhar raízes na minha memória.
O livro lê-se bem, a escrita é fluída, a história é intrigante, as personagens criam alguma empatia com o leitor mas, não sabendo precisar o porquê, senti sempre alguma distância da minha parte relativamente ao que lia. Não sei se é por achar, como já tinha acontecido com o A Sombra do Vento (a minha opinião aqui), que as personagens e as suas acções não são credíveis, o tom dos diálogos e as expressões usadas pareceram-me muitas vezes inadequados para a época retratada e a linguagem pareceu-me dirigida a um público mais novo. No entanto, nas descrições a linguagem que Carlos Ruiz Zafón utiliza é extremamente rica e bem conseguida. É nos diálogos e na interacção das personagens que sinto alguma imaturidade e daí a sensação de que se dirige a um público mais jovem.
Acho que o autor se perdeu um pouco no final, não sabendo como por um ponto final e justificar todas as suspeitas que vai criando no leitor. Confesso que acabei por não perceber muito bem o objectivo de todo aquele desfilar de mortes violentas e de todas aquelas fugas e regressos de Daniel Martín, o protagonista. Não percebi bem o que, ou quem, era Corelli, o editor misterioso de Martín, e o final pareceu-me despropositado... :/

Enfim, não vale a pena continuar a dissertar sobre a estranheza que os livros de Carlos Ruiz Zafón me provocam. Até porque, não posso dizer que não gostei do livro, só não o achei nada de extraordinário. E isto é algo que me custa admitir, porque sei que este é um autor que tem seguidores acérrimos que defendem os seus livros com unhas e dentes. Sinto com Carlos Ruiz Zafón o mesmo que sinto por não conseguir apreciar Ernest Hemingway, simplesmente não percebo o que prende tanto os leitores... Falha minha? Provavelmente... :)

Mas, deixemos para trás os sentimentos menos positivos que este livro me despertou e vamos falar das coisas boas que, tanto neste O Jogo do Anjo, como no A Sombra do Vento, se podem encontrar! :)

Acho que um dos pontos mais positivos deste livro é a capacidade que o autor tem em criar ambientes sinistros, opressivos e soturnos. Não só Barcelona me parece assustadora como qualquer outro ambiente descrito no livro é arrepiante, quer seja uma rua, quer seja uma casa, ou simplesmente um sombra. Foi uma das coisas que mais gostei, neste livro e que é comum ao A Sombra do Vento.
Foi bom regressar ao Cemitério dos Livros Esquecidos e à familiar livraria dos Sempere, desta vez com o avô e o pai de Daniel Sempere, o jovem protagonista do A Sombra do Vento, à frente do negócio. Mais uma vez, gostei muito do Sempere pai, deste livro. E achei curioso conhecer um pouco da vida do pai de Daniel Sempere, por ter sido uma das personagens que mais gostei no A Sombra do Vento.
No início achei Daniel Martín, o protagonista deste livro, cativante mas, dei por mim, a páginas tantas, a achar que ele tinha perdido qualquer coisa pelo caminho. A determinada altura houve uma mudança demasiado brusca na sua personalidade que, na minha opinião o descaracterizou e me fez perder algum interesse por ele. Senti alguma confusão e, por momentos, pensei que tinha baralhado nomes,e que estava a confundi-lo com outra personagem. Curiosamente, acho que é com os protagonistas, que Carlos Ruiz Zafón tem mais dificuldade, sendo as personagens secundárias mais interessantes. Nisso, e em finalizar a história de forma mais ou menos coerente, sem que se fique com a sensação de que teve de acabar tudo à pressa por falta de tempo ou perda de inspiração... :/
Não vou falar da história propriamente dita porque acho que é um daqueles casos em que, ou contamos tudo ou o pouco que desvendamos parece insignificante e pouco apelativo. É uma história misteriosa que me manteve intrigada ao longo de quase todo o livro. Digo quase todo o livro, porque a revelação dos segredos não é tão bem conseguida como a montagem de toda aquela "conspiração".
Concluindo e baralhando: achei o livro banal, talvez porque é, na minha opinião, muito parecido com o A Sombra do Vento e, daí pouco original. Aliás o facto de o livro ser referido tantas vezes nesta minha opinião é sintomático das similaridades que fui encontrando ao longo da leitura. Se eu tivesse gostado mais do A Sombra do Vento, do que gostei na realidade, talvez me tivesse sabido bem regressar aos lugares e às personagens aí retratadas, como não foi esse o caso, achei o regresso um pouco cansativo.

Embora para mim tenha sido uma leitura pouco memorável, não posso deixar de o recomendar porque tenho perfeita consciência que a minha dificuldade com os livros de Carlos Ruiz Zafón é a mesma que tenho com Ernest Hemingway, não me identifico com a escrita nem com a forma que têm de contar uma história. É apenas e só uma questão de gosto pessoal e nada mais, por isso, leiam e quase de certeza que vão gostar. :)

Boas leituras!

Excerto:
"O táxi subia lentamente até aos confins do bairro de Gracia, em direcção ao solitário e sombrio recinto do Park Güell. A colina estava pontilhada de casarões que já tinham visto melhores dias assomar no meio de um arvoredo que se agitava ao vento como água negra. Vislumbrei no alto da ladeira a grande porta do recinto. (...) Esquecido e abandonado, o jardim de colunas e torres fazia agora lembrar um éden maldito. Fiz sinal ao motorista para que parasse diante do gradeamento da entrada e paguei-lhe a corrida.
- O senhor tem a certeza de que quer sair aqui? - perguntou o motorista, com o credo na boca. - Se quiser, posso esperar uns minutos por si...
- Não é preciso.
O ruído do táxi perdeu-se colina abaixo e fiquei sozinho com o eco do vento entre as árvores. As folhas caídas arrastavam-se à entrada do parque e redemoinhavam aos meus pés."

fevereiro 26, 2010

A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón

"Numa manhã de 1945, um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito, que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura da cidade. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, A Sombra do Vento é sobretudo uma trágica história de amor, cujo eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página."

Este livro foi um achado! Comprei-o na Rua Anchieta, ao lado da Bertrand do Chiado, por 5€. Costumam estar lá, pelo menos aos sábados, umas quantas bancas com livros, mais ou menos usados e quando dei de caras com o livro tão baratinho confesso que desconfiei que lhe faltassem páginas ou algo do género. :) Até onde fui capaz de perceber, tenho-o inteiro, com todas as páginas e em excelente estado! Bom para mim! :)

A Sombra do Vento é o nome do último livro que Julián Caráx escreveu e, A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón conta a história de Julián Caráx.
Daniel Sempere, um rapaz de quase 11 anos, é levado pelo pai ao Cemitério dos Livros Esquecidos, numa noite em que acorda aflito por não conseguir recordar do rosto da mãe que morrera anos antes. Nessa biblioteca fantástica onde entra, é-lhe permitido levar um livro que deverá proteger da destruição e impedir que caía no esquecimento. Daniel escolhe o livro de Julián Carax, lê-o todo nessa mesma noite e o livro afecta-o de tal forma que, a curiosidade sobre o autor leva-o a entrar numa aventura que lhe mudará a vida para sempre. Assim se inicia este livro encantador, porque outra palavra não me ocorre para o descrever. Não vou falar da história do livro, para não correr o risco de revelar mais do que devia e, dessa forma diminuir o vosso prazer em a descobrir ao ritmo que o autor impõe. Ele vai revelando pedaços inicialmente soltos que depois se vão juntando como num puzzle. Algumas revelações serão surpreendentes, outras já seriam de esperar, outras acabam por ser clichés literários mas, tendo em conta a espécie de magia em que se desenrola a história, até os clichés se vão perdoando.

A história desenrola-se entre 1945 e 1966, período durante o qual conhecemos Daniel Sempere, um rapaz sonhador e inocente. Pessoalmente esta é a personagem do livro que menos me disse, embora seja a principal... Achei-o um pouco infantil e por isso algumas das coisas que fez pareceram-me pouco credíveis, além de que, o fascínio que sentia por toda e qualquer personagem feminina que se cruzava com ele me irritou um pouco. A adolescência é uma fase complicada, eu sei... :p Talvez o livro não tenha sido excepcional para mim exactamente porque não criei empatia com esta personagem, nem com o par romântico que lhe calha em sorte. No entanto, existem outras personagens que se revelaram bem mais interessantes, como o Fermín Romero de Torres, homem vivido e meio louco que se torna amigo de Daniel e o ajuda nas investigações sobre Julián Caráx, o próprio Julián Carax é uma personagem por quem sentimos alguma empatia, bem como pela sua amada Penélope, até o pai de Daniel, embora seja uma personagem que não participe tanto na história é mais consistente que Daniel. A relação que este tem com Daniel é muito angustiante e ao mesmo tempo muito bonita, aqui acho que o autor fez um bom trabalho e é por isso que o pai de Daniel se afigura como uma personagem que, para mim, é das mais interessantes do livro. Por último é impossível não sentir pavor de alguém como o Inspector Fumero e como a criatura dantesca que é Laín Coubert.

O livro é muito sombrio, onde o autor expõe os sentimentos menos nobres das pessoas como, o desejo de vingança, a cobardia, o despeito, a inveja, a traição e a pura maldade. Em quase todas as cenas a noite está a cair e chove copiosamente e, por isso o livro deixa-nos sempre com uma sensação de tristeza e de algum desespero por não haver sol e dessa forma uma réstia de esperança de que tudo acabará bem. Está cheio de desencontros e tragédias, de amores sofridos, a lembrar o Amor de Perdição do Camilo Castelo Branco, embora a linguagem seja outra, obviamente.

Resumindo, é um livro que começa muito bem - achei que iria ser uma leitura memorável - para o meio comecei a achá-lo menos bem conseguido (a tal parte dos clichés) e que na realidade não me trouxe nada de muito novo, em termos de história. Gostei muito do ambiente criado, gostei do Cemitério dos Livros Esquecidos (lugar e conceito fascinante), gostei da maneira como ele montou o puzzle, embora não tenha gostado da forma como ele o desmonta no final, revelando tudo de uma vez em forma de carta. Por último, embora tivesse preferido um outro final, a história até prende e lê-se com gosto e gostei de algumas personagens mas, confesso que estava à espera de mais.