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dezembro 15, 2019

[Kindle] Lugar Caído no Crepúsculo - João de Melo

Título original: Lugar Caído no Crepúsculo
Ano de edição: 2014
Autor: João de Melo
Editora: Dom Quixote

"Uma viagem pela vida e pelo Além num romance surpreendente e muito aguardado. O que nos acontece depois da morte? Esta é a pergunta implícita ao longo das páginas deste romance. Um livro que impõe a vida, em protesto contra a tragédia da morte humana, recusando-se a aceitar o silêncio e a escuridão do desconhecido e do sagrado – os mistérios acreditados pela fé de muitos, mas não pela angústia dos que questionam o Além. É com elegância e com a qualidade literária a que João de Melo nos habitou que somos guiados numa viagem pelo outro lado, cruzando o Limbo, o Purgatório, o Paraíso e o Inferno. Com uma abordagem distinta dos conceitos tradicionais e numa escrita marcada pelo realismo fantástico, o autor humaniza a imagética cristã, conferindo-lhe uma realidade mais próxima do mundo e da vida. O Limbo, recentemente extinto por decreto papal, solta os espíritos esquecidos que lá moravam e abre-lhes caminho para a glória eterna. O Purgatório, sem o fogo ardente das almas, converte-se num estado depressivo cuja dor parece cingir-se à dimensão do sentimento e do espírito. O Paraíso, mesmo como reino da liberdade, mantém oculto o mistério de Deus. E o Inferno traz consigo uma paisagem gelada, surpreendentemente erguida a sul do Tejo (o rio que as almas condenadas têm de atravessar na velha barca do Sr.Vicente)."

João de Melo é um dos meus favoritos. A forma como escreve é tão próxima que será um daqueles escritores que até com uma lista de compras de supermercado impressiona.

Quando percebi o tema de Lugar Caído no Crepúsculo fiquei um pouco apreensiva. O Limbo, o Purgatório, o Paraíso e o Inferno. E não é uma história típica, romanceada, com desenvolvimento de personagens, com um enredo. É uma espécie de ensaio, talvez...
Confesso que a probabilidade de eu não gostar, por causa do tema, era elevada, mas como foi escrito por João de Melo, gostei. Gostei e muito.

Descobri com este livro o prazer de ler de manhã, enquanto o pão está a torrar e a água para o chá ferve. :) 

A melhor forma de passar o que é este livro é recorrer a excertos de alguns dos cadernos que constituem o livro:

Assim na Terra como no Céu:

"Passa-se de cá para lá, perde-se de vista o anil e o amarelo e a cal do dia. Vem até nós a noite vazia e misteriosa da eternidade. Eis que a alma entra nela, no mistério dessa noite eterna. Abre os olhos no escuro, tenta em vão compreender o que acaba de ocorrer com a sua pessoa, e nada. Só o escuro continua a mover-se, a expandir-se sobre o mar de um rio chamado infinito. Nessa altura, já nada se pode ver somente com o olhar, e menos ainda medir o tempo e os lugares recorrendo apenas aos restantes sentidos. Talvez que todos eles, de novo unidos num único, não sejam mais do que uma espada de sombra a trespassar a última batida surda do coração: não este que sustenta a vida, mas o das trevas mais profundas, ou o da luz perpétua que nos guia para o além de um lugar caído no crepúsculo."

O Limbo:

"Eu vim aqui parar logo após o acidente. Cheguei em estado de graça. E agora vejo formas, vagas, difusas formas de gente que parece adormecida ou num estado que pode comparar-se ao da hibernação. Não propriamente pessoas, tal e qual nós as conhecemos no nosso mundo; mas figuras, espectros que a toda a hora entram e saem do interior de uma espécie de nuvens esparsas que se sobrepõem umas às outras, por ali acima, como se mais não fossem do que castelos aéreos, navios voadores, montanhas suspensas do ar. Por onde quer que se ande no Limbo, as almas ao cruzarem-se connosco, largam um discreto, adocicado odor a incenso. Esse alegre cheiro a festa e a especiaria fica depois a perdurar nos ares até nos transmitir a sua alegria. (...) Ei-las por aí, as almas: sobrepondo-se, entrecruzando-se, passando de um lado para o outro no espaço sem fim dos céus toldados pelas ondas de incenso. Mas nada disso passa de ilusão óptica, porquanto elas permanecem imóveis; só as nuvens, vindo de um lado para o outro, sugerem a ideia de um movimento universal, embora sem peso nem espessura. (...)
Não serão, só por si, a prova da existência de Deus; mas atestam a substância divina a que pertencem como seres criados por Ele, merecedores de entrar nesta antecâmara do Paraíso.
À qual a santíssima Igreja Católica resolveu pôr o nome de Limbo."

" - Mas isto assim não é vida nem morte! Nada aqui anda nem desanda, porquê? Há que fazer alguma coisa por nós! Quem poderá suportar tamanha sensaboria? 
A ideia soltara-se-me de dentro, sem querer nem eu a ter premeditado. Foi como o tal relâmpago que atingirá o nosso avião em cheio e em pleno voo. Acto contínuo, também ela faiscou e fez remoinho no meio das almas que se acomodavam por ali, à minha volta. Foi logo tomando as mentes e as vontades, de patamar em patamar, indo de baixo para cima, até se perder de vez o alcance do seu raio de ação. (...) De repente, todo o imenso oceano dos espíritos entregues ao Limbo deu ouvidos à minha ideia. Pôs-se a pensar nela, a inquietar-se, a estremecer com receio da proposta seguinte e a fremir como um enxame de abelhas dentro da colmeia. As almas, que até então pareciam morcegos pendurados de cabeça para baixo do tecto de uma gruta, deram não só sinais de acordar do sono perpétuo da ausência como de ter entendido que era necessário abrir os olhos contra o peso da luz."

O Purgatório:

"As almas do Purgatório não falam, não se apoiam nem amparam umas nas outras. Nem se confortam entre si. Parecem toupeiras cegas, surdas e mudas, pelo menos na aparência. Poderia tratar-se de um exército exaurido nas suas forças, pela dureza da batalha, ali acampado no intervalo de uma manobra de guerra, a recuperar energia e vontade para enfrentar o combate seguinte. Ou tratar-se de uma cidade semimorta, saqueada pelos bandidos vencedores, e da qual já só restassem velhos, doentes, desventurados que já nem podem erguer-se do chão para se porem de novo a caminhar, à cata do horizonte. Uma cidade paralela a outra, a dos novos-ricos que só não roubaram a outrem o pão que levavam à boca. Um campo tão imenso, tão cheio de infelizes refugiados, que não se consegue medir com o olhar nem com o alcance da alma."

"Essas pessoas só voltam a chegar-se aos humanos quando eles envelhecem, coxeiam e ficam a pontos de morrer. Preferem velhinhos um tanto ou quanto taralhoucos; capazes de as divertirem com as suas confusões, os seus ditos sem sentido, as suas histórias repetidas vezes sem conta. 
Pessoas aparentemente bondosas, diria eu, tidas na conta da chamada boa vizinhança - mas vivem afinal com a maldade empedernida nos olhos, nos dentes, no estômago, no coração, na hipocrisia dos voluntariado e da bondade social."

O Paraíso:

"Ao fim de muito voar através do vazio sideral, lá chegámos à morada do senhor Deus Dei. (...) Logo um meio braço, trajado com hábito de frade, nos convidou, num gesto simples, a entrar no Navio da Glória e a juntarmo-nos aos outros - esses inúmeros outros que lá dentro se moviam e removiam por entre arcos e espadas refulgentes de luz, feixes de cores luminosas como as dos relâmpagos à chuva e uns suaves acordes de harpa.
Quais sonâmbulos ou sonhadores, os possessos divinos moviam-se ao ritmo de um deixa-andar preguiçoso, visivelmente repousado, numa sonolência que mais parecia o movimento das imagens em câmara lenta do que seres embalados pela divina graça do Senhor. (...) Tratava-se - sobre isso não existia dúvida nenhuma no meu coração - dos Justos chamados à eternidade do senhor Deus Dei. Só poderiam ser assim, tal e qual se me afiguraram: gordos, ternos, tranquilos, de uma cor rosada que atestava a saúde feliz e a boa coloração da santidade. Figuras bojudas, como as que adornam os altares e jazem nos quadros religiosos dos templos de todo o mundo, irradiavam à minha volta uma serenidade deslumbrada, adormecida.
Todas essas figuras pareciam dormir. sonhar, reviver em êxtase. O sono dos Justos aparentava o mais despojado de todos os gozos espirituais: um prazer deliciado e adormecido, remanso próprio dos eleitos, a paz eterna do Céu, tão imponderável como se consistisse numa levitação."

"Pelo contrário: Deus, omnipresente e omnipotente, viu morrer e matar, assistiu aos fuzilamentos, à abertura de valas comuns e ao pesadelo dos fornos crematórios nos horrores do Holocausto nazi, é nunca por nunca moveu um dedo pelas vítimas inocentes, nem se dignou travar a tempo a loucura dos vencedores sobre os vencidos nos campos de batalha, no saque das cidades e das casas e no estupro das mulheres. Ninguém sabe em nome de quê nem de quem Ele se absteve de intervir, que até permitiu crimes e genocídios à mão de indivíduos e exércitos, bem como os ignominiosos autos-de-fé da Inquisição em nome da Santa Madre Igreja Católica. E tantos, tantos cruzados guerreiros e outros ditos infiéis miseravelmente mortos por nada e para nada. Deus fora sempre o silêncio mais atroz de toda a catástrofe humana."

O Inferno:

"Começou a entristecer desde que o Inferno se lhe revelou sem o tal fogo higiénico da cremação, que tanto desejara para a sua morte, mas antes branco e frio como os países de clima extremo, com invernos tão longos quanto escuros e tempestuosos, e onde a vida nunca ia além de um dissabor e de um incómodo. A sua tristeza comportava o ódio que desde sempre votara à neve. (...) E agora, por uma cruel e manifesta ironia, um mundo todo de branco, gelado, desértico, esperava-o no Além, onde teria início a perpetuidade da morte. (...)
Não teve mais remédio senão seguir atrás dos outros e em corrente de fila única. (...)
O que viu, mal terminou a travessia dessa garganta, deixou-o em estado de choque. na sua frente, abria-se o abismo de um espaço sem medida possível para cima e para os lados, nem mais luz do que a da Lua Cheia, num firmamento falso e espelhado, sem nuvens. Entre a poalha luminosa do luar e a penumbra desses lugares, tão secretos que até lhes pareciam interditos, os seres convertiam-se em vultos na multidão, numerosos, aconchegados, sempre em fila uns atrás dos outros. (...)
Perdera-se dos outros, da mesma forma que eles se haviam perdido de si. Aquele, agora, era o pórtico de entrada para a mais absoluta solidão da sua morte. Deixava de ser possível interagir com a existência e a humanidade dos outros. (...) Agora olhava, via esquadrões de gente parada, hirta como estátuas na margem de um estradão ermo e gelado, sobre o qual deslizavam contínuas multidões de cegos em busca do seu lugar na perpetuidade da morada do Diabo; (...) Andou assim durante dias e dias, talvez anos, talvez séculos terrenos, no meio da multidão ondulante que com ele vagueava por ali sem um destino."

"A ausência consciente e inexplicável dos outros, colocados ali mesmo ao lado, ao alcance de um simples gesto, de uma mão estendida. Eis o absoluto verdadeiro. Contra ele, nada de nada se podia.
Perdeu o ânimo, perdeu a esperança. Perdeu o fio derradeiro que lhe restava da memória em que ainda acreditava. Perdeu a paz inexistencial da morte. Perdeu, enfim, a ideia da existência do Bem. Como Deus não estava ali, nem em lado nenhum, apenas o Mal o chamava para si, porque só a ele passava a pertencer. Deixou até de saber quem era de novo, onde estava, tanto em concreto como em abstracto; nem o que fazia ele naquele desterro gelado e silencioso. No qual se sentia preso, morto e mal enterrado. Ao mesmo tempo que se despersonalizava, algo de contrário à falência da sua pessoa vinha agora de regresso a si, acendendo uma réstia de luz na sua mente e tornando-a receptiva a um derradeiro assomo de sentimentos humanos. E o que sentiu não foi mais do que a crua desesperança, o desespero absoluto, a escura perda de tudo - menos da sua dor. O sofrimento vinha-lhe dos outros, que estavam mais ou menos à mão e à sua volta, como se os espíritos deles lhe enviassem mensagens e promessas de um novo Pentecostes."


Um livro cheio de ironia e sentido de humor que tenta descrever o que os católicos acreditam ser o que os espera depois da morte. É claramente uma crítica social e à Igreja Católica e, está muito bem escrito, outra coisa não seria de esperar de João de Melo.

Vale muito a pena ler e recomendo sem reservas.

Boas leituras!

fevereiro 25, 2017

O Homem Suspenso - João de Melo

Título original: O Homem Suspenso
Ano da edição original: 1996
Autor: João de Melo 
Editora: Círculo de Leitores

"João de Melo, natural dos Açores e nascido em 1949, é autor do muito premiado Gente Feliz com Lágrimas. Em O Homem Suspenso apresenta uma apaixonante análise e reflexão sobre a identidade portuguesa, construindo e desconstruindo os valores e hábitos identitários portugueses, quer através da descrição dos longos passeios numa Lisboa que tem tanto de bela e imponente como de paradoxalmente anacrónica, quer nas considerações ponderadas do seu narrador. O Homem Suspenso é indiscutivelmente um romance essencial na carreira de João de Melo, e uma obra obrigatória em qualquer biblioteca."

O Homem Suspenso é um livro um pouco estranho e tenho alguma dificuldade em escrever sobre o que li. Não sei onde é que li que o livro fazia uma reflexão sobre a identidade portuguesa após a entrada na C.E.E.. Fiquei com a ideia de que o livro seria diferente e enquanto o lia dei por mim a pensar que tinha muito pouco a ver com a entrada do país na Comunidade Económica Europeia, ou pelo menos assim me pareceu.

João de Melo tem uma escrita muito bonita, não me ocorre outra palavra que descreva a forma como ele conta as suas histórias. O Homem Suspenso não é muito diferente, nesse sentido.
O Homem Suspenso narra a história de um homem (não me recordo se alguma vez nos dizem como se chama), professor universitário, casado com Carminho, a quem traiu alguma vezes durante os anos em que esteve casado com ela.
A história é narrada na primeira pessoa e começa com este homem a vaguear por Lisboa, confuso e meio perdido, sem saber para onde ir nem o que fazer. Surge-nos como um homem a quem foram retiradas todas as certezas, tudo aquilo que sempre teve como garantido parece ter desaparecido. Quem ele achava que era, o que ele achava que tinha e tudo aquilo sobre o qual foi construindo a sua vida, parece ter deixado de fazer sentido.
Carminho terminou o casamento de anos e pediu-lhe que saísse de casa. Sem qualquer hesitação, drama ou rancor, pediu-lhe que se fosse embora porque "Creio, porém, ela deixou de viver-me; que desistiu de amar-me com amor".
É depois deste desfecho inesperado que se inicia a narrativa de O Homem Suspenso que, depois de dormir no carro, inicia uma viagem por uma Lisboa ainda meio adormecida, acompanhado apenas por um cão vadio que o conquistou na sua recente e desconhecida solidão e que nunca mais perdeu de vista.

A mim, O Homem Suspenso, pareceu-me uma reflexão sobre as escolhas que fazemos na vida e o impacto que as mesmas têm em quem nos rodeia e em quem, supostamente, nos é mais próximo. É uma reflexão sobre as relações que vamos criando ao longo da vida e que nem sempre sabemos manter. É uma reflexão sobre o crescimento e a imagem que temos de nós próprios e que, muitas vezes, parece estar desfasada da realidade.

Se tem alguma coisa a ver com a entrada de Portugal na C.E.E.? Talvez, metaforicamente, o país possa ser O Homem Suspenso, um pouco perdido a tentar encontrar o seu próprio caminho, numa estrada completamente estranha, cheia de perigos, mas também repleta de oportunidades e de escolhas. :)

Boas Leituras!

Excerto (pág. 78):
"Todavia o que vai dentro de si é como um grito e um sufoco. Um grito de protesto e indignação, um sufoco de misericórdia ou pena a seu respeito.Pudesse ele chorar, dir-lhe-ia agora tudo o que sempre se esqueceu de lhe dizer chorando. Se pudesse enlouquecer, rir-se-ia alto, correria de braços erguidos pela casa fora, aos gritos, tenebroso perdido alucinado, protestando amá-la mais do que à própria vida. Sair de casa, expulso por ela, eis o infinito absurdo o ridículo o dado precioso e inexplicável da sua tragédia. Em vez do corpo de um homem vivo, sairão daqui para a morgue a chama o fogo e a cinza do seu espírito. A sua natureza. O reino a que pertence, também. Como ele muito bem sabe, como ela sempre soube, como ela nunca deixará de saber."

outubro 19, 2014

O Mar de Madrid - João de Melo

Título original: O Mar de Madrid
Ano da edição original: 2006
Autor: João de Melo 
Editora: Publicações Dom Quixote

"A primeira vez em que viajou até ao país vizinho, Francisco Bravo Mamede, o senhor poeta, viu que as cidades de Espanha ficavam no fim de todos os caminhos. Para se ir de uma para a outra, e não havendo passagem para a cidade seguinte, andava-se por ali ao deus-dará, às voltas e mais voltas para não se enredar a gente no fio de orientação que levava para fora do emaranhado urbano, como quem procura e finalmente encontra a porta de saída de uma casa desconhecida. Ia-se então adiante, sem rumo nem certeza alguma sobre a hora de chegada ao destino que se havia traçado (se haciendo el camino al andar, como no verso do querido mestre Antonio Machado) - e logo toda ela se recortava ao longe, muito nítida de luz, como um baixo-relevo que emergisse do fundo da paisagem."

João de Melo é um dos escritores que ultimamente me tem dado mais prazer descobrir. A qualidade da sua escrita, aliada a histórias surpreendentes, tornam os seus livros num autêntico carrossel de emoções.

O Mar de Madrid é um pouco diferente dos outros livros que já li dele - Gente Feliz Com Lágrimas e Autópsia de um Mar de Ruínas (opinião aqui e aqui) - não só pela contemporaneidade como pelo tema em si. Em O Mar de Madrid, João de Melo leva-nos numa viagem entre Portugal e Espanha, através dos olhos de um poeta e uma escritora de novelas negras. Português o poeta, espanhola a escritora. :) Conhecem-se numa convenção de escritores em Madrid. Ele deslumbrado com a atenção que nuestros hermanos dispensam à sua genialidade como poeta e, ela perdida numa relação destrutiva e que descobriu Portugal e os portugueses há muito pouco tempo.
A história vive das ideias pré-concebidas destes dois, Francisco Bravo Mamede e Dolors Claret, sobre os portugueses e os espanhóis, sobre a poesia, sobre os escritores e sobre as relações.
Francisco é um funcionário público que escreve poesia, tendo alguns livros publicados. É fascinado por Espanha e os espanhóis, por achar que são culturalmente superiores aos portugueses, por entenderem e valorizarem a sua poesia, reconhecimento que não encontra em Portugal. É casado com Branca, com quem mantém uma relação por pura rotina, por lealdade e, de certa forma, por pena. É engraçado ver, mais à frente no livro como tudo aquilo que o prende a Branca é uma ilusão, um engano, porque nada sabe sobre a mulher com quem casou. Conhece Dolors na conferência de escritores em Madrid e inicia uma relação conturbada com ela. Dolores parece louca, desequilibrada e ele não faz ideia de como lidar com ela.
Dolors chega à conferência uma mulher insegura e deprimida, após anos de um casamento pouco feliz com Victor, um advogado bem sucedido e um mulherengo incurável, retratado como um típico macho latino. O fascínio que Dolors sente por Francisco quando o vê a discursar na conferência é algo inesperado e que não entende. Francisco vai acabar por ser o factor que faltava para que a Dolors ganhe coragem para mudar de vida. Não será fácil, vai chorar muito, vai passar por crises de ansiedade, mas no fim... No fim pode ser que finalmente aprenda a estar sozinha e a gostar de si mesma.

Para além da relação destes dois, João de Melo fala muito no que nos distingue dos espanhóis e naquilo que nos une. É duro nas comparações e na caracterização que faz dos portugueses, na sua grande maioria exactas, ou pelo menos é assim que a maioria de nós nos vemos. E Francisco, a voz destas comparações, é um português, como todos nós um pouco provinciano na ideia de que tudo e todos são melhores que os portugueses. Para ele a única excepção é a poesia, que só os portugueses sabem fazer bem. :)

É também duro na caracterização que faz dos escritores, todos eles uns deslumbrados, a viverem num mundo à parte, seres superiores e injustiçados pelos leitores que não têm capacidade de abarcar toda a sua genialidade.

O Mar de Madrid é diferente dos outros que já li de João de Melo, talvez menos poético, menos certeiro nas emoções que pretende transmitir mas, não deixa de ser um livro cheio de humor, mordaz na crítica que faz e muito bem escrito. Achei um pouco cansativa a dinâmica de Francisco e Dolors, ela demasiado histérica e desequilibrada e ele, demasiado confuso. No entanto, confesso que, após ter escrito este post, dou por mim a gostar e a compreender melhor o livro. Aparentemente é um desses livros cuja distância permitirá vê-los com novos olhos.
Recomendo!

Boas leituras!

Excerto (pág. 41):
"O silêncio provinha não das vozes que não falavam - ao contrário das contínuas vozes de Espanha - mas dos olhos, da pele, dos ossos secretos das pessoas. Estava no corpo. existia nas mãos e na linguagem. Como um modo de ser e de pensar. Se se estivesse em Espanha, e numa cidade assim, tão breve como Elvas, as mãos seriam como tochas acesas que riscavam o ar, por cima dos gestos, sobre o ruído ensurdecedor doas vozes, e haveria em todas elas um tumulto de palavras. Dolors sabia que nenhum povo no mundo falava tanto, tão alto, tão depressa como os espanhóis. Falavam freneticamente, cheios do universo absoluto das palavras, sendo corpo e alma no acto de comer de pé ao balcão dos bares e restaurantes, paixão de falar, arte e vício de viver ao som das próprias vozes. As vozes de Espanha juntam-se todas no ar, expandem-se pelo tempo fora, vogam no espaço desse império da língua, como se a universalidade espanhola dependesse do hábito de falar mais alto do que o vizinho, e de não permitir que alguém lhe replicasse. Ao invés, o silêncio português conversava a meia-voz, com pausas e suspiros. Sorria com moderação e timidez, abria muito os olhos para escutar e entender, mas ainda assim sua compostura não era isenta de orgulho, nem denotava resignação."

março 05, 2013

Autópsia de um Mar de Ruínas - João de Melo

Título original: Autópsia de um Mar em Ruínas
Ano da edição original: 1984
Autor: João de Melo
Editora: Círculo de Leitores

"«(...) João de Melo oferece-nos um romance cuidadosamente elaborado, o arado da sua escrita revolve bem fundo no chão onde pisamos as palavras do quotidiano, a autópsia proposta talvez não se circunscreva ao cadáver de uma guerra morta à nascença, mais morta que a maior parte das guerras, porquanto até para matar, trucidar, exterminar é preciso ter objectivos e motivações - por egoístas ou irracionais que sejam (são-no sempre) uns e outros - não se chacina pelo simples prazer de sentir o cheiro do sangue ou verificar se a cor do plasma vital que corre nas veias dos Negros é igual à do que circula  nas artérias dos Brancos. Ora, ao povo português faltava, felizmente, essa sanha de ferocidade mórbida que só a irracionalidade «justifica», cabendo-nos viver no limiar de um misterioso ritual selvático de que desconhecíamos as fórmulas litúrgicas e as palavras mágicas despoletadas do transe exaltador. (...)» João de Melo pega-nos pela mão e põe-nos «a andar às arrecuas no lodo que o nosso imaginário acumulou, numa regressão psicológica até às vísceras de nós mesmos, porquanto esse pesadelo de vinte e três anos nos salpicou a todos de dor, e sangue, e vergonha. Quem se atreverá a invocar a neutralidade para não ser engolido pela mancha da desonra colectiva? (...)»"

Esta é uma obra incontornável sobre a guerra colonial. É um relato emocionado e fortíssimo sobre o que foram, para os militares portugueses e para o povo angolano, os duros tempos de uma guerra que uns se viram obrigados a fazer e os outros obrigados a viver. João de Melo conheceu de perto o que de forma tão dura relata nesta autópsia de um mar em ruínas. Cumpriu o serviço militar em Angola, em Calambata uma zona do interior, experiência essa que por certo serviu para que este seja um livro de cortar a respiração de tão realista, de tão sujo, de tão duro e feio, de tão vergonhosamente real e genuíno. Aliada a esta dureza, está a escrita poética de João de Melo que nos permite afastar um pouco do que é descrito.

Autópsia de um Mar em Ruínas é contado a muitas vozes, mas duas destacam-se claramente, a do alferes Renato e a da negra Natália, uma das muitas mulheres que vivem na Sanzala da Paz. A história é, portanto contada sob dois pontos de vista que, ao contrário do que poderíamos achar, são muito mais coincidente que divergentes. 
Do lado dos militares portugueses conhecemos homens de olhar perdido, de corpos exaustos, afectados física e psicologicamente pelo que já viveram na guerra, pelos companheiros mortos e pela certeza de que a sua hora não tardará a chegar. Não compreendem a guerra, não a querem fazer, não querem matar ninguém, só não querem morrer sem poderem abraçar uma última vez as namoradas, as mulheres, os filhos ou os pais. Acreditam que a forma mais rápida de acabar com a guerra é a apatia, é miná-la por dentro. Afinal não existe guerra se ninguém estiver disposto a combater. Na messe do quartel de Calambata mantinha-se a seguinte frase escrita numa das paredes: 

É PROIBIDO DIZER QUE HÁ GUERRA.

Em Calambata os militares seguem convictamente esta máxima, vivem os dias em contagem decrescente para o fim da comissão em Angola, passando os dias a beber, a jogar às cartas, ou a pensar nas namoradas que deixaram em Portugal. Até que uma emboscada os põe frente a frente com os horrores de uma guerra que ainda não tinham conhecido e a partir desse dia nada mais pode voltar a ser o que era.

Do lado dos negros, que vivem na sanzala da paz, assistimos à miséria a que estavam sujeitos. Deslocados da sua terra natal, viviam como prisioneiros, trabalhando praticamente de graça para os colonos da região. Tratados como animais e brutalizados pelos brancos, são homens e mulheres resignados à miséria, sem força ou armas para lutar. Desejam secretamente que os seus patrícios na mata acabem de vez com a presença dos brancos em Angola. As crianças são a única referência positiva naquele lugar. Mesmo mal-nutridas, são inúmeras as vezes que se referem as barrigas arredondadas com o umbigo pontiagudo destes meninos (curiosamente não falam das meninas, apenas dos meninos), é nas crianças que surge o sorriso da esperança, da alegria de viver. As mulheres surgem como o pilar da pequena comunidade, desesperadas pela resignação dos maridos que gastam tudo em bebida, todos eles precocemente envelhecidos e derrotados.
Quando João de Melo refere os maus-tratos por parte dos brancos, estes quase nunca envolviam os militares, que desempenhavam, neste caso, um papel mais neutro. Convém também referir que os colonos da região não aceitavam muito bem a presença militar na zona. Diziam-se capazes de dar caça aos "turras" e ensinar-lhes uma lição que os ia colocar nos seus devidos lugares e terminarem com o conflito num piscar de olhos.

Na mata escondem-se autênticos fantasmas, um pesadelo para os militares portugueses, incapazes de se protegerem de um inimigo que simplesmente não conseguiam vislumbrar. Expostos às inúmeras emboscadas, os militares faziam o melhor que sabiam para sobreviver, para adiar o dia em que iriam morrer.
As descrições dos ataques é tremenda, no sentido em que, por diversas vezes, quis fechar os olhos e não ler... Tamanha violência e irracionalidade é muito difícil de conceber para quem, felizmente, nunca a sentiu de perto, mas julgo que o relato de João de Melo nos consegue fazer chegar bem perto. O mesmo se aplica à violência física sobre os negros, essa sim, completamente irracional e arbitrária, que me fez sentir vergonha. Como é que sentimentos destes se continuam a perpetuar pelas gerações mais novas?

É um livro imenso, imensamente triste, violento, real e um documento que não pode nunca ser esquecido. Este é daqueles que deveria ter lugar no "Cemitério dos Livros Esquecidos" de Carlos Ruiz Zafón. :)
Todos nós sabemos o final desta história. O que gostaria de frisar é que Autópsia de um Mar de Ruínas não é só mais um livro sobre a guerra colonial, é muito mais do que isso. João de Melo é sem dúvida um escritor extraordinário, com uma enorme capacidade de expor as emoções e deixa-nos, enquanto leitores, completamente desprotegidos.

Recomendo sem qualquer hesitação! Mesmo os mais sensíveis deveriam fazer um esforço... :)

Boas leituras!

Excerto:
" Agora, pensei, tem de haver um músculo. Vai ter de abrir-se um músculo no meu olhar. A memória fechar-se-á logo de seguida sobre tudo isto, fechar-se-á de fora para dentro e talvez para sempre - e então eu jamais esquecerei aquele dia. (...) O músculo da minha memória estava-me devolvendo agora um cheiro a chamusco de porco, porque toalhas de fumo se agitavam ao longo da picada e havia tudo: havia nela o tal solo de emboscada com crateras de sonhos mortos à granada, havia o silêncio translúcido dos cemitérios da minha noite de toda a vida; havia tudo, tudo, desde o espanto daqueles náufragos cujo olhar acreditava ainda na possibilidade de uma ilha deserta, até à completa destruição dos olhos gelados onde o sol dava de chapa e também morria. Nenhuma respiração agitava a lâmina daquele dia, nem sopro algum faria estremecer a manhã sem horas da sua eternidade."

abril 10, 2011

Gente Feliz Com Lágrimas - João de Melo

Título original: Gente Feliz Com Lágrimas
Ano da edição original: 1988
Autor: João de Melo
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Uma saga que irresistivelmente arrasta o leitor ao longo de cinco mundos, vividos e pensados através da obsessiva busca da felicidade que move os seus protagonistas. Concebida polifonicamente como a descrição dos vários modos de viver a amargura que medeia entre o abandono da terra e o retorno ao domínio do que é familiar, esta peregrinação possível em tempos de escassez de aventura é a definitiva lição de que o regresso se não limita a perfazer o círculo e constitui uma visão fascinante do Portugal que todos, de uma maneira ou de outra, conhecemos."

Este demorou algum tempo a ler, não porque não estivesse a gostar mas porque o próprio livro exige uma leitura mais sossegada e calma. Chegado ao fim, digo que gostei e muito. :)

Gente Feliz Com Lágrimas é um livro triste, muitas vezes violento e tão estranhamente próximo que se torna por vezes incómodo. Nele é narrada a história de Nuno e da sua família. Nuno é açoriano e o quarto filho de uma família onde as crianças nascem a um ritmo acelerado, "roubando" aos irmãos mais velhos a infância e a pouca ternura que os pais lhes dispensavam.
O livro está dividido em cinco partes. Na primeira parte Maria Amélia, Luís e Nuno contam-nos a infância dura que tiveram, numa família que gravitava em torno dos humores da figura paterna, um homem violentíssimo e duro, que espancava os filhos e os considerava apenas como braços para trabalhar que cedo tinham de começar a merecer o pão que comiam. A mãe era uma mulher que, ao contrário do que seria de esperar, não era submissa, mas sim desligada dos inúmeros filhos que lhe iam crescendo no ventre, era mesquinha e a versão feminina do marido para as filhas que com ela ficavam a gerir a casa. Este casal era, de certa forma, perfeito um para o outro, todo o amor que sentiam era direccionado para eles próprios, os filhos eram uma consequência da paixão animalesca que viviam.
Desta forma, Maria Amélia, a primogénita, tornou-se a única figura maternal que muitos dos irmãos conheceram. Com 4 ou 5 anos já tomava conta dos irmãos que iam nascendo a um ritmo alucinante, cozinhava e geria a casa. Nos intervalos dessas tarefas levava porrada da mãe se se distraia nalgum devaneio de criança ou se a sua tenra idade lhe dificultava a execução de algumas tarefas. Tornou-se uma menina triste e uma adulta amargurada e de olhos cansados.
Luís, o segundo filho, era um miúdo de bom coração que tentava proteger os irmãos travando a violência do pai. Começou, como todos os irmãos, a ajudar o pai nas tarefas diárias que a quinta exigia. E tal como todos os irmãos sentiu desde cedo a mão pesada do pai.
Nuno nasceu pequenino, o gémeo que sobreviveu, e cresceu frágil, magro, de pele clara e com os olhos azuis da mãe. Tão diferente do pai e dos irmãos foi sempre perseguido pelo pai que o achava um inútil que pouco contribuía para a economia da família.
Para fugirem aos trabalhos desumanos da quinta e à falta de amor dos pais, Maria Amélia ingressou num convento em Lisboa, Nuno num seminário, também no Continente e, Luís voluntariou-se para a tropa acabando por ser enviado para guerra na Guiné. Maria Amélia acabou por ser expulsa do convento gerido por freiras pouco caridosas e formou-se enfermeira ficando livre da influência dos pais. Nuno tem o mesmo destino, sendo expulso do seminário por se ter começado a interessar por política e a questionar em demasia. Torna-se professor e mais tarde um escritor relativamente bem sucedido, é o intelectual da família, de quem acaba por se afastar.
Nas restantes partes do livro, a história é narrada na perspectiva de Nuno, que entretanto se casou com Marta, a mulher que sempre idealizou mas por quem acaba por se desencantar. Conhecemos a sua vida e a dos irmãos que se encontram todos a viver no Canadá, para onde os pais também foram e onde acabam por morrer. Tanto Nuno como os irmãos vivem uma vida superficial, uma felicidade que nunca poderá ser livre de lágrimas, são todos eles "gente feliz com lágrimas".

É um livro pesado, muitas vezes doloroso e estranhamente comovente porque é desesperante a forma como todas aquelas crianças procuravam um gesto de ternura, de como mesmo sendo maltratadas não conseguiram nunca odiar os pais, tendo até tornado os seus últimos anos de vida o menos dolorosos possível. Que este pai me tenha conseguido surpreender com alguns gestos de genuína afeição no meio de tanta violência e descontrolo e que esses gestos tenham sido guardados nas memórias de infância daqueles adultos como se se tratassem de preciosidades é de cortar o coração. É na realidade um livro de cortar o coração e real demais.
O que me fez mais confusão foi o facto de eles nem serem uma família considerada pobre. Tinham algumas posses, eram proprietários de algumas terras e possuíam muitos animais. Trabalhavam muito é certo e tinham muitos filhos, mas a pobreza neste caso não era desculpa para a violência a que as crianças eram sujeitas desde cedo, forçadas a trabalhos pesados e a responsabilidades completamente desadequadas às suas idades. Não existiam atenuantes para a falta de amor daquele pai e daquela mãe e isso foi o que mais confusão me fez. Isso e o facto de toda a vizinhança saber do tratamento que era dado às crianças da família e nada fazer para além de criticar, virar costas ao pai e mais tarde ostracizar os filhos por serem filhos de quem eram.
É um livro muito duro mas que está escrito com algum sentido de humor e onde a crítica social está bem evidenciada. Retrata uns Açores agrestes, onde a natureza quase selvagem tornava a vida de gente já muito pobre ainda mais difícil. Bonitos e magníficos mas onde era extremamente duro viver e cujos habitantes eram eles próprios duros e tristes e cansados e desesperados.

Concluíndo, é um livro que está escrito numa linguagem extremamente rica e poética, cuja história é do mais angustiante que já li e que recomendo sem qualquer hesitação.

Excerto:
"Não compreendera ainda como o tinha eu salvo da crucificação. Mas quando os seus braços musculados se abriram para o meu corpo delgado, senti que o peito se lhe tornara discretamente ofegante, ao reconciliar-se com o meu. E, estando eu morto, ressuscitei. E, pedindo-me ele de novo que comesse, agarrei na tigela com as mãos muito trémulas e pus-me a sorver, em apressados e sôfregos tragos, aquele delicioso caldinho de farinha, com cujo sabor se cruzou para sempre a memória doce da minha infância. E os olhos dele, rasando-se de lágrimas, eram afinal olhos felizes com lágrimas - assim você me perdoe o facto de a minha história comportar também episódios felizes..."