Título original: El Niño
Ano da edição original: 2024
Autor: Fernando Aramburu
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote
Autor: Fernando Aramburu
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora: Publicações Dom Quixote
Nicasio, já reformado, costuma ir às quintas-feiras ao cemitério de Ortuella visitar a sepultura do neto. É um dos muitos falecidos na sequência de uma explosão de gás numa escola daquela localidade, um acidente que sacudiu o País Basco e toda a Espanha em 1980. Pelas andanças do avô, uma figura que se afirma até se tornar indelével, pelo testemunho da mãe, muitos anos depois, pela crónica objetiva do que sucedeu à família, descobriremos como aquela tragédia dilacerante trouxe à baila aspetos desconhecidos das suas personalidades e como transtornou para sempre as suas vidas.
Com a mestria habitual de Aramburu, o leitor ver-se-á imerso numa história de emoções inesperadas, uma exploração psicológica e literária que o manterá preso até à última linha, para entender e se comover com o destino das personagens. Pelo tratamento extremamente humano que lhes é dado, e pelos recursos estilísticos utilizados, O Menino é um romance memorável, um prodígio literário do melhor Aramburu.
Uma história baseada num acontecimento real. Em 1980, em Ortuella uma fuga de gás provocou uma explosão na escola primária da localidade provocando a morte a 50 crianças e dois adultos.
Nuco é filho de Mariaje e José Miguel, e neto de Nicásio, o pai de Mariaje e, foi uma das crianças que morreu naquele dia.
A história é-nos contada por Mariaje, que muitos anos depois desfia as memórias daquele dia trágico e de como foram todos vivendo depois de tudo o que aconteceu.
Relembra a forma como lidou com a morte de Nuco, uma criança amorosa de 6 anos, o seu único filho. A forma como lidou com o luto do marido que, com dificuldade em expressar a sua própria dor, pede-lhe que tenham mais um filho. Não quer substituir o Menino mas acha que uma nova criança lhes vai aliviar a dor.
Tem de lidar também com o luto do pai. A perda do Menino deixa o avô preso a uma fantasia, na qual Nuco continua vivo. Mariaje percebe que é a forma que ele tem de lidar com a perda mas, não deixa de ser doloroso ter o pai a falar-lhe de Nuco como se ele ainda estivesse vivo.
E Mariaje? Como é que ela consegue fazer o seu próprio luto? A reação à perda do seu Menino, para quem vê de fora, parece fria, sem emoção. Na verdade Mariaje ficou vazia de tudo. Vai sobrevivendo como pode, navegando esta nova realidade conforme acha que é melhor e, na verdade, toda a comunidade parece querer esquecer a tragédia e seguir em frente. Todos fazem o luto em privado, ninguém chora mais alto ou pede mais compaixão. Todos perderam.
É um livro pequeno, escrito com capítulos muito curtos, que incentivam a uma leitura rápida, sem pausas. Está escrito de uma forma muito objetiva, sem qualquer intenção de provocar emoções, sem apelar descaradamente ao coração do leitor. O acontecimento em si não precisa de ser amplificado.
A intenção do autor é narrar factos e, pelo meio, o próprio livro, ganha voz e vai revelando detalhes que o autor deixou de fora, e que complementam a narrativa.
É muito interessante a forma como está escrito.
Gosto da escrita de Fernando Aramburu e, ao contrário de Pátria, de que gostei muito mas achei por vezes repetitivo, este O Menino tem o tamanho certo.
Gostei e recomendo!
Boas leituras!
Excerto
(pág.15)
"Passados os anos, verifico que fui menos infeliz do que alguma vez cheguei a pensar, a não ser que o tempo e uma falta de memória que se me tenha ido infiltrando à socapa nos neurónios me estejam a desarrumar os fios da mente. Tudo é possível. O meu projeto de vida desfez-se da noite para o dia pela razão que o senhor conhece e por outras razões que eu não sei se lhe interessará conhecer, mas não estou desfeita, continuo de pé a respirar e a gozar com saúde e tranquilidade a minha reforma, e não declaro tudo isto para armar em dura nem em valente. Se nas minhas piores horas não sucumbi a um transtorno depressivo foi graças ao afeto que o meu marido se esforçou por me proporcionar, tão desajeitado, coitadinho, nos assuntos sentimentais; ao meu pai, por o ser e porque a necessidade que tinha de mim fez com que muitas vezes me esquecesse das minhas mágoas ou as relegasse para outro momento e depois para outro, e também, conquanto ignore até que ponto, ao consolo às revoadas que durante uma época a religião me deu."
(pág.22)
"Mariaje guarda uma viva recordação da manhã de 23 de outubro. Se pudesse, teria aplicado uma borracha na parte do cérebro onde alberga as imagens daquela jornada, que ainda agora, muito tempo depois, não hesita em qualificar de horrível; mas bem sabemos, acrescenta, que a memória funciona por conta própria. Logo a seguir afirma, em franca contradição, que seria injusto esquecer-se de Nuco por completo. Oscila, pois, esquecer e recordar, e no fundo ainda bem que não tem controlo direto sobre as suas recordações. Aprender a viver com elas foi em todos estes anos o seu maior desafio."
