junho 05, 2026

[Ebook] Tu Não És Como as Outras Mães - Angelika Schrobsdorff

Título original: Du bist nicht so wie andre Mütter 
Ano da edição original: 2012
Autor: Angelika Schrobsdorff
Tradução: Helena Topa
Editora: Alfaguara

Uma mãe diferente das outras mães. Uma vida maior que a vida. Um livro que não é como os outros livros. Um clássico do nosso tempo que conquistou mais de meio milhão de leitores na Europa. Enquanto jovem mulher, Else, uma menina mimada da burguesia de Berlim, fez duas promessas a si mesma: viver a vida intensamente e ter um filho de todos os homens que amasse. Tu não és como as outras mães é a história real dessa vida intensa, extravagante, inconformista que foi a de Else Kirschner, uma mulher verdadeiramente livre, e uma mãe diferente de todas as outras. Nascida na conservadora burguesia judia de Berlim, Else estava prometida para casar com um bom partido. Mas os encantos de um artista cristão - "o maior amor e pior partido da sua vida" - foram o trampolim que procurava para renunciar ao conforto da casa paterna e ser dona do seu destino num mundo cheio de promessa. Corriam os loucos anos vinte, dias efervescentes numa Berlim que parecia a capital do mundo, um tempo irrepetível de cultura, esplendor e liberdade. Else instalou-se no centro dessa boémia, incapaz de suspeitar que uma ameaça arrepiante cercava inexoravelmente a sua família. Quando as sombras do Nacional Socialismo tingiram a Europa de negro, Else, judia, teve de fugir com a família da cidade que tanto amava. No exílio, na Bulgária, tudo é miserável, tudo é muito pouco quando comparado com a primeira vida. Nessa segunda vida, Else arrepender-se-á de não ter protegido a família da calamidade, que se revela trágica para alguns. Esta é a história de uma vida maior que a vida, um retalho de História extraordinário. Quem nos conta a história é Angelika Schrobsdorff, importante escritora de origem alemã. Era filha de Else e demorou quinze anos a pôr no papel a história da mãe, sem sentimentalismo mas com o amor e a admiração inevitáveis, criando um pedaço de grande literatura, um clássico do nosso tempo.

Tu Não És Como as Outras Mães é a história de Else Kirschner, uma judia de Berlim que assiste à ascensão dos nazis ao poder.
Antes de isso acontecer, Elsa é descrita como sendo uma mulher jovem que renega, de certa forma, as suas origens judaicas, porque não é religiosa. Não pensa em si como judia e sim como alemã. O que ela quer é ser livre, amar quem quiser, casar se quiser e viver a vida como entender. Muitas vezes acaba por parecer uma miúda mimada a quem todos acabam por ceder, porque é uma mulher bonita, com cabelos ruivos e vistosos e, porque é divertida e inteligente.

Else a mim pareceu-me cheia de contradições. Curiosamente, fazendo questão de ser uma mulher livre, nunca deixa de depender de um homem para conseguir viver e cuidar dos filhos. Nunca trabalhou um dia na sua vida, nem antes nem depois da subida de Hitler ao poder, nem durante a guerra, nem depois da guerra terminar.
É egoísta. Diz que vive para os filhos mas as suas ações nem sempre demonstram isso.
Acaba por sofrer com tudo o que se passa durante a 2ª Guerra mas, ao mesmo tempo, sabemos que teve muita sorte e que foi poupada a muitos horrores, ao contrário dos próprios pais.

O livro é escrito pela filha mais nova, Angelika, que é ela própria, uma personagem exuberante. Cresce mimada, protegida pelos pais e acaba por ser pouco consciente do que se passa à sua volta e, só mais tarde conhece a verdadeira história da família.
O livro é um relato interessante do que se passou naquela altura visto de um ponto de vista que não é muito comum. Uma classe, mais ou menos privilegiada, que viu tudo começar a acontecer e, parece que foi muito lenta a reagir. Infelizmente, percebemos hoje, que essa falta de reação não só foi possível como é repetível, sendo que estamos a assistir, por todo o lado a dinâmicas muito semelhantes e, nada fazemos para as impedir. Com a agravante que hoje até temos acesso a muito mais informação e, por isso, menos desculpas temos para ficarmos alienados.
É interessante a forma como Angelika relata tudo, sem tentar embelezar ou tornar a sua mãe, ou até ela própria, mais consensuais.

No geral gostei da escrita e gostei da história mas, confesso que o achei um pouco aborrecido. Não sei se a estrutura, com muitas cartas contribuiu para isso.
Não deixou, no entanto, de ser um livro que me ficou na memória, principalmente pela forma como a história é abordada. Sem grandes heróis, onde as vítimas não têm de ser necessariamente boas pessoas ou perfeitas. São humanas, comentem erros, tomam decisões que, por vezes, podem parecer a quem está de fora, egoístas e difíceis de explicar mas, quem somos nós para julgar se nunca estivemos sujeitos às mesmas condições?

Recomendo. É uma boa leitura!

Excerto:
"Else nunca havia estado no estrangeiro e toda a vida desejara fazê-lo. A ideia de partir com um homem que amava para terras estranhas do Sul, de que só ouvira falar, lera ou sonhara apenas, de ver cidades antigas e belas, aldeias brancas sob céus azuis, o mar, palmeiras e laranjeiras, era tão poderosa que nem sequer pensou em Hans por um instante que fosse. Lançou-se ao pescoço de Erich, rindo e chorando de felicidade.
Só quando ficou sozinha começou a pensar — não propriamente se havia de renunciar à viagem por amor a Hans, não, isso não havia ninguém que lhe pudesse pedir, mas como havia de lho dizer. Acreditava que sabia como ele ia reagir! Ia implorar-lhe para não ir com aquele desespero terrível que a irritava porque lhe doía. Ia começar com a velha ladainha para convencê-la de que aquilo que ia fazer era injusto, impulsivo, egoísta, perigoso, irresponsável, inconsciente. Que pensasse pelo menos nas pobres crianças, já que não pensava nele. Que ganhasse juízo finalmente e que pensasse no que tinha verdadeiramente valor na vida, e que não era a diversão e a aventura, mas a família: pais, filhos, um homem que estava sempre com ela para o que desse e viesse. Que a amava como nunca ninguém a amara ou iria alguma vez amar.
E ela, Else, iria esperar, com uma impaciência ressentida, até que ele acabasse de falar e não teria argumentos para apresentar. Porque ele teria razão em tudo o que diria, e o único argumento dela, que não podia pura e simplesmente dispensar as coisas belas e estimulantes na vida, nunca seria um argumento para Hans. Portanto, ficaria calada e ele, agora na segunda fase da raiva impotente, iria apresentar armas de maior calibre: que devia ter consciência de que era uma mulher de meia-idade, com trinta anos, e que já não era nova. Já não tinha muito tempo diante dela e que se continuasse assim mais uns anos iria ficar sozinha pelo caminho, disso podia estar certa. Uma mulher trintona com dois filhos, ninguém a quereria. Nem ele. Porque mesmo o maior dos amores teria um fim se estivesse sempre a ser pisado, e ele já estava prestes a pôr um ponto final. 
E depois viria outra vez com a história de Munique e da propriedade que lá tinha e a fábrica de cerveja e a vida fantástica que poderiam ter lá, eles os quatro, e ela estremeceria até à medula. Baviera e cerveja e Hans, de calções de couro, faces vermelhas, a dançar à volta dela. Então preferia ficar sem ninguém e em Berlim. Mas haveria de certeza sempre alguém a querê-la, em primeiro lugar Hans, com quem tinha uma filha afinal de contas, com quem brincava como um louco e que nunca abandonaria, nem mesmo se um dia ficasse farto dela. 
Pois era assim que as coisas iriam correr e ela desejava ter já passado por tudo aquilo, pois já não suportava a expressão desesperada dele e a velha ladainha e a sua própria má consciência, que ele tão bem sabia manipular. Mas o que era uma má consciência comparada com o deleite que iria desfrutar naquela viagem! Seis semanas com Erich, o sol, países fascinantes, desconhecidos — o prelúdio de uma vida nova, enobrecida. 
Ao final do dia, comunicou a Hans os seus planos. 
Não aconteceu nada do que previra. Hans não implorou, não barafustou, não apelou à sua consciência. Transformou-se numa espécie de estalactite, branco-azulado, rígido e frio, e disse com uma voz áspera, que não lhe conhecia: se fosse com Erich de viagem, sairia de casa de imediato e nunca mais as veria, nem a ela nem à filha. A decisão era dela, e que fizesse o favor de a tomar de imediato.
Sentiu o susto como um murro no estômago. Else sentiu-o alastrar para baixo, até às vísceras, e para cima, até ao peito. Ficou com a garganta tão seca e a língua tão grossa que mal podia engolir. 
Sabia que havia de chegar a um ponto em que Hans não vergaria mais, mas não esperava que já tivesse chegado. Vinha num momento extremamente inoportuno. Mas tinha de decidir: ou Hans, o carvalho que nunca oscilaria até ao fim dos seus dias, ou Erich, a cana movediça, pelo tempo de uma viagem em cujo final estava a incerteza. A resposta dela foi clara: Erich, a viagem e a incerteza. Sempre escolhera o amor, a alegria, o «completamente diferente», ia escolher agora a segurança à custa daqueles tesouros? Não, ela não! Só havia uma vida, com uma juventude breve e doses pequenas de felicidade. O futuro era um conceito hipotético. Planeá-lo era construir castelos no ar. Tinha o destino ao alcance da mão? Havia de sacrificar a felicidade imediata, palpável, a uma segurança longínqua, desconhecida, em vez de gozar a vida; havia porventura de se blindar contra a vida? 
Que estava à espera, disse Hans. 
Quando ouviu o som da sua voz áspera, estranha e das palavras que proferiu como ultimato, sentiu apenas um pequeno tremor nas vísceras. Já tinha decidido. Apesar disso, queria tentar dar-lhe a oportunidade de uma conversa que atenuasse a decisão que ele tomara. 
Ia partir em viagem, disse ela, era definitivo. Mas ele que pensasse em Bettina, não podia castigar a filha pelo comportamento da mãe, fazendo-a infeliz. 
Se alguém fazia a filha infeliz, disse ele, esse alguém era ela. Que entendesse isso e que nunca o esquecesse era o mais importante para ele agora. E além disso não fazia tenções de conversar com ela sobre Bettina. Era filha dela e tinha o nome do marido, Fritz, e esperava que o amante, Erich, a tomasse a seu cargo. 
Se aquelas eram as suas palavras de despedida, perguntou Else, com asco. 
Sim, disse ele, e abandonou a sala."