agosto 30, 2025

À Sombra das Raparigas em Flor - Em Busca do Tempo Perdido (vol. 2) - Marcel Proust

Título original: À La Recherche du Temp Perdu -Á L'Ombre des Jeunes Filles en Fleur
Ano da edição original: 1919
Autor: Marcel Proust
Tradução: Mário Quintana
Editora: Edição "Livros do Brasil"

"Prosseguindo a publicação de "Em Busca do Tempo Perdido, a Editora Livros do Brasil apresenta agora ao público leitor e apreciador de Marcel Proust o segundo volume desta obra fundamental da literatura francesa.
E aquele reino inteiramente fora do comum que começou a ser desvendado nas páginas anteriores surge agora sob outras nuances, em que as personagens se patenteiam revestidas de novos aspectos, revelando pormenores que anteriormente não teriam sido talvez tão determinados como agora sucede.
Tal como numa sinfonia, os temas vão-se desenvolvendo, como que completando-se, mas sem nunca abandonarem a ideia básica sobre a qual assenta esta obra admirável, símbolo de uma época que Marcel Proust tão magistralmente soube retratar e transmitir à posterioridade."


Neste À Sombra das Raparigas em Flor, 2º volume de Em Busca do Tempo Perdido, continuamos a seguir a vida do narrador do volume anterior, o rapaz de idade mais ou menos indefinida que, agora é presença assídua em casa de Swann e Odette, amigo íntimo de Gilberta por quem continua obcecadamente apaixonado.
Nesta primeira parte o narrador, agora claramente um adolescente, de 15 ou 16 anos, tímido e educado, passa os dias em casa dos Swann, onde vive fascinado com tudo o que diz respeito não só a Gilberta mas também a Odette que, com a sua elegância, os seus vestidos, o seu sentido de humor e a sua descontração fazem com se sinta feliz, acolhido e bem-vindo. A vida social em casa dos Swann, faz com que se esqueça, por momentos, da sua fragilidade e da sua pouca saúde, que de vez em quando o atira para a cama, cheio de febre.

Embora seja presença diária em casa dos Swann, a verdade é que continua a conhecer pouco a menina, tem uma ideia idealizada da mesma e é por essa ideia de perfeição feminina que é apaixonado. NO entanto Gilberta é uma rapariga caprichosa, mimada pelos pais e, ao mesmo tempo com vontade de desafiar todos os que a rodeiam e, quando sente que o nosso narrador não é capaz de a acompanhar e que a aconselha no sentido de obedecer e ser uma boa filha, a relação entre os dois acaba por esfriar. Ela parece seguir a sua vida como se nada fosse e nunca mais o procura. Ele, naturalmente, sofre muito e, não querendo dar parte de fraco também deixa de a procurar, à espera que ela se aperceba da falta que ele lhe faz, o que acaba por não acontecer. Como no primeiro volume, ele imagina as cartas que lhe vai escrever e as respostas apaixonadas que ela lhe dará. 

Por causa dos problemas de saúde que o afligem, o nosso narrador e a avó, acompanhados por Francisca, partem para Balbec, uma estância balnear, onde pretendem passar uma temporada para que ele possa restabelecer energias. 
A chegada a Balbec é atribulada, tem dificuldade em dormir no seu quarto de hotel, estranha tudo e todos. Com os cuidados da avó e de Francisca, pouco e pouco começa a ser capaz de explorar o hotel, as pessoas que nele estão instaladas e a paisagem em volta.
No mesmo hotel, está instalada a Senhora de Villeparisis, uma conhecida de Combray. Uma senhora muito distinta que se torna companhia diária para ele e para a avó.
Ainda antes de conhecer o sobrinho da Senhora de Villeparisis, Roberto de Saint-Loup, que irá visitar a tia e ficar uns dias no hotel, o nosso narrador fica obcecado por ele, imaginando na sua cabeça que irá ser o seu melhor amigo e que se vão tornar inseparáveis. 
O primeiro impacto não é positivo, o sobrinho é carrancudo e distante e despreza o rapaz. Esta primeira impressão depressa de desvanece e, num ambiente mais privado, os dois entendem-se e tornam-se companheiros. Com ele o rapaz começa a sair para fora do seu círculo habitual, indo a festas e jantares.

Um grupo de raparigas, mais ou menos da sua idade, que andam sempre juntas, junto à praia, começa a chamar a sua atenção, principalmente uma delas. Não a conhece e, não fugindo à sua natureza, fica obcecado por descobrir tudo sobre a rapariga. Quando as vê todas juntas não tem a certeza de conseguir distinguir qual delas é aquela por quem se apaixonou. São todas leves, cheias de vida, criaturas perfeitas e felizes cheias de luz e de alegria. 
Quando finalmente é apresentado às raparigas, não quer saber de mais nada, passa os dias com elas e, embora a sua predileta seja Albertina, todos os dias sente que se apaixona por uma delas. É o único rapaz no grupo e elas também o disputam, de forma inconsciente e meio inocente. É nesta interação com as raparigas que conhecemos uma nova faceta do narrador, parece que cresceu, já não é o menino tonto com relações platónicas, imaginadas. Olha de forma quase fria para este grupo de raparigas, como se elas fizessem parte de um catálogo e ele pudesse escolher e mudar de opinião quantas vezes fosse necessário sem grande respeito pelos sentimentos das raparigas.

E, basicamente este segundo volume é isto, uma espécie de desabrochar do narrador, habituado a viver no meio de adultos e de velhotas e que se vê, de repente, rodeado de raparigas que estão a viver, muito provavelmente o último Verão das suas infâncias e isso tem, em alguém com a sensibilidade deste rapaz um efeito inebriante de deslumbramento.

Este segundo volume custou-me a ler. Não achei a história tão interessante, na verdade não acontece nada digno de nota. Toda a narrativa gira em volta do rapaz, havendo muito poucas linhas dedicadas a outras personagens e, o rapaz é, por enquanto, um miúdo aborrecido e não me é muito fácil gostar dele. É um bocado irritante e, não havendo mais nada para além dele, o livro tornou-se mais difícil de acompanhar

Continuo a gostar da escrita e vou avançar para o 3º volume mas, preciso de dar um tempo, porque sinto que posso sentir-me saturada e desistir desta saga. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 364):
"Era então irrealizável a felicidade de conhecer aquelas raparigas? Por certo não era a primeira desse género a que eu havia renunciado. Bastava lembrar tantas desconhecidas que, mesmo em Balbec, o carro que se afastava a toda a velocidade me fizera abandonar para sempre. E até o prazer que me dava o pequeno bando, nobre como se fosse composto de virgens helénicas, provinha de ter qualquer coisa  da fuga das passantes pela estrada. Essa fugacidade das criaturas que não são nossas conhecidas, que nos obrigam a desprender da vida habitual em que as mulheres que frequentamos acabam por revelar as suas taras, coloca-nos nesse estado de perseguição em que nada mais detém a fantasia. Ora. despojar dela os nossos prazeres é reduzi-los a si mesmos, a nada. Oferecidas por uma dessas alcoviteiras, que eu aliás não desprezava, como já se viu, retiradas do elemento que lhes dava tantas cambiantes e imprecisão, aquelas raparigas ter-me-iam encantado menos. Cumpre que a imaginação, despertada pela incerteza de poder atingir o seu objecto, crie uma finalidade que nos oculte a outra e, substituindo o prazer sensual pela ideia de penetrar numa vida, nos impeça de reconhecer esse prazer, de sentir o seu verdadeiro gosto, de restringi-lo aos seus limites."

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