Título original: J'emporterai la feu (Le Pays des Autres, 3)
Ano da edição original: 2015
Autor: Leïla Slimani
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara
Mia e Inès formam a terceira geração da família Belhaj, que conhecemos nas páginas de O País dos Outros. Nasceram em Marrocos, na década de 1980, num país dividido entre o desejo de modernidade e o medo de perder a alma e as tradições. É todo um novo mundo, e as duas irmãs terão de encontrar nele o seu lugar, cada uma à sua maneira, na solidão ou no exílio, no excesso ou na contenção, enfrentando o preconceito e o desprezo enquanto abraçam todas as promessas.
O fôlego que as move é a ânsia de liberdade, que tem as suas raízes nas mulheres cujo sangue lhes corre nas veias: a avó Mathilde, a mãe Aïcha e a tia Selma. É nessa busca pela liberdade que Mia parte para Paris, levando consigo o fogo e a escrita. Caberá a Mia contar a história do seu povo.
Levarei o Fogo Comigo completa um tríptico magistral, retrato dos heróis e heroínas deste e de outros tempos. Uma saga inspirada na família da escritora, eivada de um impressionante vigor poético, que chega ao fim, mas permanecerá com os milhões de leitores que se apaixonaram por estas vidas.
Levarei o Fogo Comigo é o livro que fecha a trilogia O País dos Outros de Leïla Slimani. Uma saga familiar que acompanha os Belhaj e os Daoud, desde o dia em que Marthilde e Amine chegam a Marrocos, recém-casados e muito jovens até à velhice de ambos.
Neste terceiro e último volume, os anos passaram e Aïcha é agora uma respeitada ginecologista em Marrocos, Selim foi para os EUA e tornou-se fotógrafo e nunca mais regressou a Marrocos.
Mehdi, marido de Aïcha, trabalha para o governo no sector bancário. Continua idealista mas a proximidade do poder e do dinheiro tornaram-no mais flexível e menos radical. Tenta fazer o que é correto e justo estando dentro do sistema.
Mia é a filha mais velha de Aïcha e Mehdi e, é uma miúda curiosa, gosta de ler e começa, desde muito cedo a questionar o papel da mulher. Na verdade queria ser um rapaz, porque acha que o pai iria gostar mais dela se ela fosse um menino. Mais tarde acaba por perceber que o que sente não está só relacionado com pai. A verdade é que gosta de meninas de forma diferente. Ao contrário das amigas gostava de namorar com uma menina e não com um menino. Desde cedo percebe que é gay.
Acha que quer seguir os passos do pai, vai estudar para França, começa a trabalhar numa consultora financeira e até se sente de certa forma feliz. Vive longe de Marrocos, é livre, vive a vida como quer e com quem quer. Embora pareça que tem tudo para ser feliz, o desconforto que sempre sentiu, de não pertencer a lado nenhum, de nunca se sentir suficientemente boa e de ansiar pela aprovação do pai ao mesmo tempo que evita regressar a casa. Sente que Marrocos nunca a iria compreender e aceitar, o pai dificilmente a iria aceitar e compreender. Talvez estivesse enganada quanto ao pai mas, infelizmente nunca o saberá.
Quando percebe que a vida de escritório não é para ela e, depois de andar à deriva, sem saber que rumo tomar, acaba por se tornar uma escritora relativamente bem sucedida.
Inês é a filha mais nova de Aïcha e Mehdi. Bonita, simpática, é uma miúda de quem todos gostam. É fácil gostar de Inês, ao contrário da irmã, que é carrancuda e turbulenta. Inês adora a irmã, enquanto criança tem-lhe uma verdadeira devoção. Perdoa-lhe tudo, as respostas ríspidas, as mentiras, a violência. Parece que Inês consegue ver para além da fachada dura de Mia, percebe que a irmã vive num furacão de emoções que não consegue exteriorizar de outra forma. Adora a irmã e não há nada nem ninguém que a consiga afastar de Mia. Mia, por se lado, tem ciúmes de Inês, a menina perfeita, a filha querida e amada. Com quem se compara e sente que sairá sempre a perder. Não percebe de imediato que a irmã será a sua mais acérrima defensora e a sua melhor amiga.
Inês, como a mãe, vai para França estudar medicina e, é em Paris que as duas se vão mantendo o contacto.
Mathilde, já com alguma idade, é quem cuida da quinta, agora que Amine está com demência e não é capaz de trabalhar. Continua igual a si própria. Não mantem uma relação próxima com os filhos nem com ninguém.
Na verdade, o livro não aprofunda muito mais a vida destes dois. Amine está demente e, naturalmente um dia, acaba por morrer. A família junta-se pela primeira vez depois de muitos anos, por causa do funeral de Amine e, nem nesse dia, parece existir vontade de estarem uns com os outros. Tudo naquele dia é confrangedor. Aïcha e Selim nem na casa onde nasceram e cresceram se sentem em casa. É um local que lhes provoca ansiedade, a mãe provoca-lhes ansiedade, tudo naquele sítio lhes parece estranho e, ao mesmo tempo, intimidante.
Voltei a não sentir tanta ligação com a história e com a forma como é contada. Sinto que Leïla Slimani quis colocar tudo no livro, tocar todos os temas mais ou menos polémicos, a homossexualidade de Mia, a libertinagem dos costumes, a questão política em Marrocos, o 11 de setembro, a luta de Mehdi por alguma coisa em que ele próprio já não acreditava verdadeiramente. Parece que acaba por não aprofundar nada e dispersa a atenção.
Mais uma vez, gostei de conhecer mais um pouco da história de Marrocos.
Com este Levarei o Fogo Comigo acentua-se ainda mais a divisão da sociedade marroquina e o impacto dos franceses no país com a procura de uma identidade própria.
É muito estranho que toda a família Belhaj e depois os Daoud tenham nascido e crescido em Marrocos e conheçam tão mal o próprio país. A cultura, a língua, tudo.
Como crescem em guetos franceses, estudam em colégios franceses e vão estudar para França assim que podem, a vivência que têm de Marrocos é completamente enviesada. É triste crescer num sítio sem se deixar tocar por ele.
Gosto da escrita de Leïla Slimani mas sinto falta de qualquer coisa nas histórias que ainda não consegui identificar o que será.
No entanto gosto mesmo da escrita e gostei bastante desta trilogia. Talvez por retratar a vida de uma família ao longo de três gerações, tenha sentido falta de os conhecer a todos melhor. Nas sagas familiares talvez tenhamos de perder mais tempo a conhecer cada uma das personagens.
Mas, gostei. Gostei e recomendo.
Boas leituras!
Excerto:
"Ele está sempre presente na minha mente, o tremor da sua mão quando fumava os seus cigarros, a maneira como esmagava a beata, a sua forma de se sentar, o barulhinho de quando virava as páginas de um livro. O seu sorriso. O meu pai tão ingénuo que acreditava que todos os muros cairia e que construiríamos túneis. Esse túnel não existe ou, se existe, é um lugar soturno e frio onde não parei de rastejar como um animal cego e obstinado. Uma vez que ele morreu, este jogo não serve para nada e não tirarei dele nenhuma alegria. Para quando servia tentar saber qual era o meu lugar, qual era o meu país, quando eu nem sequer sabia quem era? Que quer dizer «identidade» quando perdemos a memória? Não a dos povos, não, essa pouco me importa, mas as histórias que a minha avó me contava, as fábulas que o meu pai inventava, esses íntimos <era uma vez> que constituem quem sou e com os quais cubro as paredes. Quando me perguntam de onde sou, nunca sei o que dizer, como o balbuciar de um gago tentando pronunciar uma palavra e que, exausto, acaba por desistir. O meu pai, «the great pretender», adorava fazer-se passar pelo que não era e, tal como ele, tornei-me a minha própria falsária, cópia de má qualidade de um quadro de mestre, falso bilhete que nada vale, a não ser para os ingénuos que merecem ser roubados."

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