janeiro 30, 2011

A Ofensa - Ricardo Menéndez Salmón

"Se o corpo é a fronteira entre cada um de nós e o mundo, como pode o corpo defender-nos do horror? Quanta dor pode um homem suportar? Pode o amor salvar aquele que perdeu a esperança? São estas algumas da perguntas implícitas em A Ofensa, a história de Kurt Crüwell, um jovem alfaiate alemão empurrado pelo nazismo para o vórtice de uma experiência radical e insólita."

Não sei bem o que dizer acerca deste livro. Há livros que nos deixam assim: a precisar de um tempo para pensar neles e conseguir falar deles.
Numa fase inicial estava a achar a história muito banal, sem nada que sobressaísse, a não ser as frases gigantescas que formam parágrafos inteiros sem pontos finais. :) Os acontecimentos são contados sem que o autor nos envolva muito nos mesmos, as descrições são um pouco frias e distantes. Kurt Crüwell parecia-me demasiado complacente com a sua situação de soldado à força e pouco incomodado com a realidade dos factos. Depois a história vai crescendo de intensidade e, então ocorre o episódio na aldeia de Mieux, a 2 de Janeiro de 1941, o dia em que Kurt Crüwell ficou insensível. Nesse dia, Kurt assistiu a uma amostra do mal que o ser humano pode provocar no seu semelhante e, o que viu foi demasiado para o alfaiate de Bielefeld, na Alemanha que, com 24 anos se viu envolvido na 2ª Guerra Mundial ao ser recrutado pelos nazis.
Nesta altura é já difícil largar o livro, embora a segunda parte deste seja, de certa forma, mais calma. Quando entramos na terceira e última parte, Kurt ainda sem qualquer sensibilidade, está em Inglaterra, a receber a notícia de que vai ser pai e ficamos felizes por ele. Depois Kurt ouve a palavra Schneider - Alfaiate - vinda de três homens vestidos de preto. Kurt em Inglaterra era de origem francesa, desde que lá chegara nunca mais falou alemão, até já sonhava em inglês. Ouvir aquela palavra, de repente, deixou-o atordoado, ou o equivalente ao que sente um homem incapaz de sentir. Essa palavra leva-o, numa espécie de transe, a perseguir os estranhos que a pronunciaram. O livro não acaba sem que Kurt volte a demonstrar a capacidade de, fisicamente, reagir a uma emoção. No fim, Kurt volta a sentir...

O livro tem um fim surpreendente e inesperado e que me deixou com um nó na garganta. São poucos os livros que me emocionam e, embora este não o faça de uma forma óbvia, a verdade é que dei por mim tensa e fechei o livro angustiada e com vontade de chorar... Não é fácil, como já disse, e era algo que não estava a contar que acontecesse com este livro, aparentemente tão banal e que no início parecia prometer tão pouco.
Inicialmente a leitura pode ser menos fluída, por causa do tamanho das frases que são realmente muito longas. Ainda o meu orientador de mestrado dizia que as minha frases eram longas demais... Dei-lhe razão e desde então é algo que tento controlar mas, agora que encontrei alguém que é bem pior, o meu "problema" com os pontos finais perdeu algum significado. ;)
Gostei das perguntas que o livro vai colocando acerca da capacidade do corpo humano de resistir, ou não, à maldade alheia e ao horror. Gostei da forma como está estruturado, com capítulos muito pequenos e de rápida leitura. Louvo a capacidade de Ricardo Menéndez Salmón de ter feito um livro com tão poucas páginas mas que são as necessárias; mais uma teria sido demais e menos uma teria sido de menos. É uma capacidade que nem todos os escritores possuem. RMS é sucinto mas extremamente eficaz a passar a mensagem que pretende.

Gostei muito e recomendo. Agora que foi editado em Portugal o terceiro volume desta "Trilogia do Mal" ( A Ofensa, Derrocada e O Revisor) a ver se compro os três (este veio da Biblioteca - mais um que gostaria de reportar como perdido...).

Boas leituras! :)

Excerto:
"Face às agressões do mundo, o corpo protege-se. Um bacilo activa as suas defesas; um aguaceiro eriça os pêlos dos braços, nuca e pernas; um alimento envenenado relaxa os esfíncteres. Mas, e o horror? Como reage o corpo de um homem face à presença do horror? Grita, sim. E faz com que o coração bombeie mais sangue, sim. Ou, pelo contrário, paralisa os músculos para não ser agredido. (...) Mas pode um corpo demitir-se da realidade? Pode um corpo face à agressão do mundo, face à fealdade do mundo, face ao horror do mundo, subtrair-se às suas funções, recusar-se a continuar a ser corpo, suspender as suas razões, abdicar de ser o que é, isto é, abdicar de ser uma máquina sensível? Pode um corpo dizer: «Basta, não quero ir mais longe, isto é demasiado para mim»? Pode um corpo esquecer-se de si próprio?"

janeiro 27, 2011

Contos - Eça de Queirós (parte III)

Chego ao fim deste livro de Contos do Eça de Queirós, com uma opinião melhor acerca de livros de contos. Começo a compreender as suas vantagens e a beleza que pode existir em pequenas histórias.

Ficam aqui os últimos textos deste livro:

A Aia:
Mais uma história triste... Um conto onde o Rei morre e o sucessor directo é o seu filho, um bebé com apenas alguns meses de vida. Naturalmente que irá surgir alguém que vai querer disputar o trono e a única maneira de o conseguir é matando o príncipe. Quando o castelo é atacado, no calor do momento, a aia do príncipe troca-o pelo seu próprio filho, também ele um bebé de meses e é este que acaba por morrer. Uma história triste, muito triste.

As Histórias: Frei Genebro:
Frei Genebro era um santo homem que na sua vida havia cometido apenas uma má acção. E mesmo essa acção cometeu com boas intenções, para ajudar um amigo em dificuldades, e nunca tomou verdadeira consciência do que tinha feito. Quando morre, já velhinho, no purgatório, a balança das boas e más acções que cometeu na sua vida equilibra-se. Aquela única acção igualou todas as coisas boas que fez ao longo de anos e anos de uma vida dedicada aos outros. No fim, Frei Genebro é repelido do Paraíso.
Lição a tirar: existem actos que não merecem perdão, principalmente aqueles que nem remorsos nos provocam por nem sequer conseguirmos apreender a enormidade do que acabámos de cometer.

O Defunto:
Uma história de amor, ciúme e milagres. :) Uma história que está muito bem escrita e que me fez prender a respiração durante toda a caminhada de D. Rui de Cardenas até ao Cabril, tal era a expectativa. :)

Adão e Eva no Paraíso:
"Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às duas horas da tarde... (...)Então, numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo Ser, desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirara toda essa manhã de longos séculos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas no solo que o musgo afofava, sobre as duas patas se formou com esforçada energia, e ficou erecto, e alargou os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a sua dissemelhança da animalidade."
Eça conta aqui uma versão da história de Adão e Eva onde mistura muito bem a versão bíblica com a teoria da evolução. Gostei muito deste texto, principalmente porque, nesta versão, Eva come do fruto do Saber e é ela a responsável por humanizar Adão, que até aí pouco diferia dos outros animais no Paraíso. :)

A Perfeição:
Encontramos Ulisses na ilha Ogigia onde naufragou e foi acolhido pela Deusa Calipso. Há já sete longos anos que Ulisses, agora mais gordo e com mãos as macias, por nada ter de fazer a não ser satisfazer as vontades de Calipso, se encontra na ilha. Não tem meios para de lá sair e, a bem da verdade, falta-lhe também a autorização de Calipso. A Deusa pergunta-se porque haveria Ulisses de querer voltar para os braços da mortal Penélope? Ulisses explica-lhe que sete anos de perfeição é demais e anseia pela imperfeição da vida mortal. É com imensa alegria que Ulisses parte, numa jangada construída por ele, rumo à vida mortal, com todos os perigos que lhe são inerentes.

José Matias:
Uma história de amor que embora não tenha propriamente um final feliz - aparentemente Eça não é dos que gostam de terminar com o "Viveram Felizes para Sempre!" - tem o final que, no meio de tanto desencontro e más decisões, um dos protagonistas sentiu ser o final correcto. José Matias era homem sério, pouco dado a grandes sentimentos, até ao dia em que pousa a vista em Elisa. Elisa é sua vizinha e casada com Matos Miranda, um senhor com alguma idade e muito doente. Os dois mantêm uma relação puramente espiritual e durante 10 anos nunca trocaram um beijo sequer, trocando olhares e cartas por cima do muro que os separa. Quando Elisa fica viúva, José Matias parte para o Porto e recusa casar-se com Elisa. Porquê, só ele o saberá. Só ele saberá também porque continua a vigiar todos os passos de Elisa, mesmo depois de ela ter casado novamente, ter ficado viúva mais uma vez e ter tomando para amante, sem com ele casar, outro homem que não José Matias. Só ele saberá porque desgraçou a vida dele por amor de uma mulher que o amava de igual forma e que nunca deixou de o amar... Há pessoas que complicam e muito a vida! :)

O Suave Milagre e Um Milagre:
Dois contos que são uma versão ligeiramente diferente da que surge no conto Outro Amável Milagre (já comentado aqui).
Não sei porque decidiram incluir estes no livro, porque o Um Milagre é na sua essência igual ao final dos outros dois e, O Suave Milagre é algo que poderia ter sido acrescentado ao conto Outro Amável Milagre. Segundo nota no final do livro, estes três contos são três versões diferentes da mesma história, que Eça publicou em diferentes revistas e colectâneas da altura.


Nestes textos, surpreendeu-me o tema religioso estar tão presente, muitas das histórias eram sobre Jesus, porque nunca me tinha apercebido desse gosto por parte do Eça. Não foram esses contos os que mais me entusiasmaram, devo dizer, mas a escrita de Eça é sempre muito boa e até esses li com gosto.
É uma colectânea de textos que merecem ser lidos e por isso só posso recomendar a leitura dos mesmos. Destaco de entre todos estes os que mais me disseram: Memórias de uma Forca, A Catástrofe, Um Dia de Chuva, Civilização, O Defunto e Adão e Eva no Paraíso.

Boas leituras!

Déjà Lu - Leilão de Livros

Deixo aqui a informação sobre uma iniciativa que me parece de muito valor:




No site: http://dejalu4ds.blogspot.com/ são leiloados livros usados cujo lucro reverte na sua totalidade para a APPT21, Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21.
É possível ainda fazer doação de livros.

Informação "roubada" do blogue Horas Extraordinárias:
http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/48132.html

Continuação de boas leituras.

janeiro 25, 2011

Contos - Eça de Queirós (parte II)

Mais Contos de Eça de Queirós. Destaco A Catástrofe, texto tão certeiro no século XIX como nos nossos dias.

Sir Galahad:
Relato da demanda pelo Santo Graal de Sir Galahad, um dos cavaleiros da Távola Redonda do Rei Artur. Demanda que o leva a vaguear pela terra perseguindo o privilégio de segurar com as suas mãos mortais a taça por onde Jesus Cristo bebeu na última Ceia. Ao longa da jornada tumultuosa e solitária, encontra alguns do cavaleiros da Távola Redonda que também partiram na mesma demanda e dá por si, depois de atravessar um mar envolto de névoas, num mosteiro onde encontra a sepultura de Percival, Cavaleiro de Artur, sepultura esta com mais de vinte anos. Para onde foram todos esses anos que não recorda ter vivido?

A Catástrofe:
Não poderia ter lido este conto em melhor altura: rescaldo das eleições da abstenção e da indiferença.
Em A Catástrofe Eça apresenta o país invadido por um inimigo estrangeiro. Lisboa está ocupada e o protagonista vive angustiado com a sentinela inimiga que todos os dias vê, da sua janela, em frente ao Arsenal. O protagonista em retrospectiva encontra algumas das razões para o estado a que o país chegou: "Tínhamos caído numa indiferença, num cepticismo imbecil, num desdém de toda a ideia, numa repugnância de todo o esforço, numa anulação de toda a vontade...Estávamos caquécticos!"
O conto acaba deixando alguma esperança num futuro melhor, entregue nas mãos de uma geração que crescerá com o objectivo de recuperar a pátria pelo "caminho seguro (...): trabalhar, crer e, sendo pequenos pelo território, sermos grandes pela actividade, pela liberdade, pela ciência, pela coragem, pela força de alma (...) e a amar a Pátria, em vez de a desprezarem, como nós fizéramos outrora."

Evoluímos assim tão pouco, como país?
Muito bom este texto. :)

Um Poeta Lírico:
A história de Korriscosso, um poeta lírico grego que o narrador encontra a servir à mesa num hotel em Londres. Alma triste e angustiada que lhe desperta a curiosidade. Ama quem não o ama. Ama quem não tem a capacidade de compreender a profundidade da sua alma, mas ama mesmo assim... :)

No Moinho:
História triste esta... A mais bela rapariga da aldeia casa-se com o enfermiço João Coutinho para fugir à vida triste que até aí levara em casa dos pais. No entanto, a vida que a espera é a vida de um enfermeira, que cuida do marido entrevado e dos três filhos pouco saudáveis. Mãe e esposa extremosa, "toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado", até ao dia em que Adrião aparece e ela se apercebe do que poderia ser a sua vida...
Triste, é verdade, mas a escrita de Eça torna-o meio irónico e por isso menos pesado.

Outro Amável Milagre:
Mais um texto religioso, onde a fama de milagreiro de Jesus começa a crescer. Todos os procuram mas só aqueles que o procuram de coração puro o conseguem encontrar.
Não sabia Eça tão religioso e estou a achar estranha esta inclinação... :)

Um Dia de Chuva:
José Ernesto vai à província conhecer a quinta que pretende comprar. Está farto de Lisboa, do seu cheiro a pó e da fútil vida que lá leva. Quando chega à quinta começa a chover, uma chuva que não pára e que não lhe permite conhecer o terreno e os arredores da casa. Uma chuva que deprime e que o deixa desgostoso. É no entanto por causa dessa chuva que se apaixona pela mulher com quem casará. Um amor que começou a crescer ainda antes de a ter conhecido. História bonita e muito bem escrita. :)

Enghelberto:
Enghelberto, senescal das Ilhas, príncipe da Escânia e senhor de Elfingor, também conhecido por O Cavaleiro de Estanho era um jovem violento, impiedoso e sanguinário que atormentava a vida dos seus súbditos. Esta é a história de Enghelberto. :)

Civilização:
Uma história acerca de um homem, Jacinto, supercivilizado, que vive na sua casa, o Jasmineiro, rodeado por toda a tecnologia disponível na época. Vive rodeado de livros e tem um biblioteca invejável. Porque se sente, então Jacinto tão aborrecido? Porque parece tão desligado do mundo e dos seus prazeres? A verdade é que Jacinto só vai aprender a beleza da vida quando parte para o seu solar em Torges. Isolado num sítio sem luxos, por ter estado abandonada a casa, Jacinto descobre a beleza da natureza, descobre as estrelas, a boa comida e a simplicidade das coisas importantes. Por lá fica e retornar à civilização é algo em que nem sequer pensa.

As Histórias: o Tesouro:
"Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram, em todo o reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados." Um dia estes irmãos encontram, na floresta uma arca cheia de moedas de ouro e a vida deles dá uma volta de 180º. ;)

Mais Contos numa terceira e última parte.

Boas leituras!

janeiro 23, 2011

Contos - Eça de Queirós (parte I)

Apercebi-me no outro dia de que nunca tinha lido este livro de Contos do Eça de Queirós. Tenho-o aqui em casa desde sempre, no entanto a minha menor inclinação para contos sempre adiou a sua leitura. Cheguei inclusive, a levá-lo para a escola, pois estudei nas aulas de português dois dos contos que fazem parte desta colectânea: A Aia e No Moinho. Nunca fui além disso e quando deixei de precisar dele para escola, voltou ao seu lugar nas estantes, entre A Cidade e as Serras e Prosas Bárbaras. Apercebi-me no outro dia que me apetecia ler Eça de Queirós e porque não um livro de contos?
Sendo os textos tão diversos um dos outros decidi que valia a pena falar de todos individualmente.

Ficam aqui os que li até agora.

O Réu Tadeu:
Tadeu Esteves é encontrado junto ao corpo de Simão. Simão é seu irmão e enforcou-se. Tadeu é preso pelo homicídio do irmão, e a única coisa que disse durante todo o julgamento foi que era culpado. Se é ou não culpado, não sabemos. Sendo um texto que está incompleto, o máximo que podemos fazer é, com a informação que os textos que Tadeu escreveu na cadeia, enquanto aguardava a execução da pena, morte por enforcamento, especular acerca do que realmente se passou. Tenho pena que este texto esteja incompleto pois deixou-me muito curiosa e gostei de o ler.

O Milhafre:
Eça de Queirós depois de dizer que "a literatura em Portugal está a agonizar", conta-nos uma fábula.
Numa casa arruinada havia um portal com um nicho onde um santo de pedra lia uma Bíblia de pedra, da qual não despegava os olhos. A excepção acontecia quando, à noite aparecia uma criança muito pobre que se deitava junto ao nicho. Aí, "o santo afastava um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo com a grande luz dos seus olhos aquela criança miserável, adormecida sobre as lajes."
Na mesma casa arruinada, havia um crucifixo onde "sobre a cabeça e sobre os braços de Cristo havia teias de aranha: em baixo os ratos roíam-lhe a cruz." Um homem entra na casa arruinada e, compadecendo-se do estado em que se encontra o crucifixo prepara-se para limpá-lo, no entanto, o milhafre que lá se encontra pousado não deixa: "Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o apodrecimento. (...) Tudo o que ele criou, o amor, o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquele evangelho da vida nova, anda pelo mundo, tão degredado, tão coberto de bichos, tão imundo, como o seio desta imagem antiga."
Gostei muito deste conto, onde Eça de Queirós, pela voz do milhafre transparece alguma tristeza por o Homem ter morto a alma e o pensamento e cultivar o culto do corpo: "Oh, amigos íntimos dos vermes, como vós cuidais do corpo, e o laveis, e o amaciais, e o engordais - para a pastagem escura das covas."

O Senhor Diabo:
"O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza imensa e doce. Tem talvez a nostalgia do Céu!" Assim é retratado o Senhor Diabo, uma criatura cuja existência não é a preto e branco, está antes cheia de todas as cores do arco-íris. Criatura que está mais perto do Homem que Deus.

Memórias de Uma Forca:
Neste conto conhecemos as memórias de uma forca, um carvalho que "desde pequeno fui triste e compassivo. (...) eu só queria o bem, o riso, a dilatação salutar das fibras e das almas." Um dia "um daqueles homens metálicos que fazem o tráfico da vegetação, veio arrancar-me à árvore". A Forca descreve a sua viagem angustiante até à cidade, sem saber que destino a aguardava. Quando percebeu que iria ser uma forca ficou "inerte, dissolvida na aflição (...) tinha enfim entrado na realidade pungente da vida. O meu Destino era matar."
Muito bonito este conto, escrito de uma forma que achei muito original.

A Morte de Jesus:
Mais um texto incompleto que não li todo. É o relato de Eliziel, capitão da polícia do Templo sobre a altura em que Jesus da Nazaré apareceu em Jerusalém e começou a ser conhecido como o Messias e Profeta. É um conto a dar para o comprido e o tema, demasiado religioso, com referências que não compreendo não me cativou.

Singularidades de Uma Rapariga Loura:
Um jovem pacato e reservado é um guarda-livros competente e responsável do armazém do seu tio. Um dia, numa janela do outro lado da rua, surge uma rapariga loura que prende a sua atenção e lhe rouba o coração. Apaixonado e cego de amor desvaloriza os pequenos incidentes que parecem ocorrer quando ela está por perto. Por causa dela, perde o emprego, vive na miséria, ganha algum dinheiro para o voltar a perder, recupera o emprego, pede-a em casamento e não casa com ela mas nunca a esquece. :) É uma boa história!

Mais dos Contos de Eça de Queirós nos próximos posts.

Boas leituras!

janeiro 21, 2011

Flashman, A Odisseia de Um Cobarde - George MacDonald Fraser

"Pode um homem que foi expulso da escola por andar sempre bêbado, que seduziu a amante do próprio pai, que mente com quantos dentes tem e é um cobarde desavergonhado no campo de batalha, protagonizar uma série de triunfantes aventuras na era vitoriana?
A escandalosa saga de Flashman, herói e soldado, mulherengo e agente secreto relutante, emerge numa série de memórias campeãs de vendas em que o herói gingão revê, na segurança da velhice, as suas proezas na cama e no campo de batalha."

Este livro é muito divertido, mas isso provavelmente não será novidade para vocês. O que talvez não saibam ainda é que para além de divertido é também muito imaginativo, inteligente e está muito bem escrito. Quase acreditamos que Flashman realmente viveu a vida que George MacDonald Fraser inventou para ele e que divertido teria sido se fosse mesmo verdade! Muito divertido digo-vos eu... Que sacana sortudo é Harry Flashman!

Harry Flashman é o rufia do livro de Thomas Hughes, Tom Brown no Colégio, e Flashman, A Odisseia de Um Cobarde é o relato da sua vida depois de ter sido expulso do tal colégio de Tom Brown, por embriaguez. Flashman apresenta-se a si mesmo como "alto, imponente, bem-parecido (...) um malandro, mentiroso, vigarista, ladrão e cobarde" e pelo que nos vai contando é tudo isso, sem tirar nem pôr. :)
Passado na Inglaterra, Índia e Afeganistão do século XIX, o livro relata-nos as peripécias de Flashman que, com dezanove anos, se torna militar por achar que vai ter uma vida descansada, rodeado de mulheres, em permanente festa no quartel da 11ª companhia, acabada de regressar da Índia. Engana-se, pois a sua personalidade exibicionista e a sua propensão para se meter em sarilhos e irritar as pessoas erradas levam-no a ser enviado para a Índia e mais tarde para o Afeganistão.
Este primeiro volume das memórias de Flashman concentram-se, na sua maioria, na passagem pelo Afeganistão, onde Flashman passa as passas do Algarve. Os afegãos não são um povo fácil de "domesticar", e o destacamento inglês em Cabul que recebeu Flashman, descobre isso da pior forma. No meio de tanto incompetência e cobardia por parte das chefias do exército, a verdade é que Flashman acaba por sobressair, não como cobarde, mas como um soldado valente e destemido. Quem diria? O facto de muita da sua reputação ter sido granjeada a partir de mentiras e mal-entendidos não importa para o caso. Afinal só ele conhece a verdade. :)
O maior mal-entendido de todos acaba por trazer Flashman de regresso a Londres como um herói nacional, com direito a medalha da Rainha e tudo. Só vos digo uma coisa, este livro põe-nos a reflectir sobre os mal-entendidos que transformaram os Flashmans da história mundial em heróis. Quanto da história como a conhecemos não é feita de percepções erradas, alterações propositadas de relatos e da idolatração da personagem que melhor se pôs a jeito ou que se limitou a estar no sítio certo à hora certa?

Embora o livro esteja escrito num tom divertido e leve, muito do que lá vem descrito não é tão leve assim. Afinal Flashman andava em guerra e na guerra existem muito poucas razões para rir. Contém relatos violentos de tortura, de perseguições e de actos de violência gratuita e irracional. Flashman é divertido, mas também é racista, machista, muitas vezes desumano e um ser desprezível que comete actos reprováveis sem qualquer tipo de arrependimento ou remorso. É por isso que gostamos menos dele? Nem por isso, alturas houve em que até senti alguma pena do desgraçado que parecia um autêntico íman para problemas. Mas também houve alturas em desejei que sofresse só mais um bocadinho, antes de ser salvo, mais uma vez por um inesperado golpe de sorte. Flashman é assim, encantador! :)

Gostei bastante do livro, não sabia bem o que iria encontrar e estava apreensiva por ser um livro rotulado como cómico e divertido. Não é fácil um livro fazer-me rir e, embora tenha dado algumas risadas, o livro não é feito de piadas fáceis, tem um sentido de humor com o qual me identifiquei e por estar todo ele muito bem escrito é realmente um livro que me deu muito prazer ler.
Quero ler o próximo, Royal Flash, já editado pela Saída de Emergência e fiquei até curiosa por ler o Tom Brown no Colégio, que tenho aqui em casa e que não me recordo de alguma vez ter lido.

Recomendadíssimo e preparem-se para passar um bom bocado na companhia desta criatura extraordinária que é Harry Flashman.

Excerto:
"Inclinaram-se quatro cabeças em resposta, e uma assentiu - era a Sra. Morrison, alta e de nariz aquilino, em quem se via toda a beleza murcha de um abutre. Fiz um inventário rápido das filhas: Agnes, peituda e morena, bonita - serviria. Mary peituda e feia - não. Grizel, magra e deslavada e ainda colegial - não. Elspeth não se parecia com nenhuma das outras. Era linda, loura, de olhos azuis e faces rosadas, e só ela sorria para mim com o sorriso aberto e simples de quem é verdadeiramente estúpida. Marquei-a logo, e dediquei toda a atenção à Sra. Morrison."

Nota: As notas do autor estão no fim do livro, antes do excerto do livro Blasfémia, do Douglas Preston (não sei se outras edições têm excertos de outros livros). Não as encontrei durante algumas páginas... Cheguei a pensar que o livro tinha defeito... :p

janeiro 17, 2011

O Amor Nos Anos de Chumbo - E. S. Tagino

"Estamos no finais de 1837, em plena Guerra Civil entre liberais e miguelistas. O brigadeiro José Joaquim de Sousa Reis, mais conhecido por Remexido, Comandante do Exército do Sul por nomeação do proscrito D. Miguel, atravessou todo o Alentejo e veio atacar Grândola. Este ataque - que marca o início da nova estratégia da guerrilha miguelista que se irá estender a toda a planície alentejana - é o ponto de partida de O Amor nos Anos de Chumbo.
Através de uma tórrida e triangular história de paixões, E, S, Tagino transporta-nos a um tempo em que, sobre as cinzas do antigo regime e enquanto o romantismo florescia no coração dos poetas, os frades egressos, com a extinção das ordens religiosas e a confiscação dos conventos, vagueavam pelos campos; os barões, disfarçados de liberais, abocanhavam o cadáver do país, e o vírus do caciquismo se instalava no corpo apodrecido da Nação.

Com o Estado na bancarrota, sob a pressão inglesa que ameaçava tomar-nos a Índia, com as diversas facções do
Setembrismo a digladiarem-se publicamente e uma revolta camponesa generalizada, O Amor nos Anos de Chumbo retrata uma realidade decadente onde, apesar de tudo, o amor sem barreiras, alguma consciência social e o lento despertar do Povo são sinais, ténues mas esperançosos, de uma possível regeneração."

Com o fim oficial da Guerra Civil entre liberais e miguelistas, em 1834, nem todos os miguelistas depuseram as armas. Uns foram para Espanha onde, com o apoio dos Carlistas continuaram a lutar pela causa de D. Miguel, outros criaram movimentos de guerrilha que lutavam, em território nacional, no Alentejo e nas serras algarvias. É neste contexto histórico que se desenrola o livro O Amor nos Anos de Chumbo de E. S. Tagino.
Rafael Leocádio, um dos membros da guerrilha do brigadeiro Remexido é recrutado para ser uma espécie de espião/elo de ligação entre os apoiantes de Lisboa e o valoroso Exército do Sul. De origem algarvia, é um jovem descendente de corajosos seguidores da causa miguelista, que viu parte da sua família morrer às mãos dos liberais. Juntar-se à guerrilha foi por isso algo natural. Rafael é um rapaz corajoso, inteligente e com bom coração que luta, por convicção ao lado dos companheiros da guerrilha, reconhecidos e apoiados pelo exilado D. Miguel.
É em Grândola que vai levar a cabo a sua vida dupla onde, para os grandolenses é apenas um comerciante e uma novidade que acabam por estimar. É lá também que conhece as duas mulheres da sua vida, Quinita e Isabel. Joaquina Luísa, ou Quinita, é a filha de uma das famílias abastadas da vila, os Vasconcellos, apoiantes de Rafael na sua missão, sendo os únicos que conhecem a sua verdadeira identidade. Isabel é a mulher do Tenente Oliveira, liberal destacado (ou desterrado) em Grândola. Isabel, depois de o marido ser transferido para o Algarve, nunca mais o vê e fica sozinha. É assim que Rafael a encontra, bela, desejável e sozinha, quando regressa a Grândola e se apaixona perdidamente por ela. Por Quinita, Rafael sente um amor parecido ao das histórias românticas, é um amor platónico, está apaixonado pelos seus belos olhos castanhos, que viu em sonhos ainda antes de a conhecer. É um sentimento pueril, quase infantil que o faz estremecer, mas que não o arrebata como o sentimento que nutre por Isabel, com quem mantém uma relação verdadeira, real, completa e secreta, como convém a uma mulher casada.
Através das viagens de Rafael pelo sul do país, Alentejo e Algarve, E. S. Tagino vai-nos dando a conhecer um período negro da história de Portugal, como só podem ser as guerras civis. Vamos seguindo o jogo de interesses dos que mudam de posição para que o poder nunca lhes seja retirado, dos que oprimem e emburrecem continuamente o povo no jogo das cadeiras e onde a mudança resultante é quase sempre insignificante para os que mais lutaram por ela. Enfim, coisas que podem ser perfeitamente adaptadas aos dias de hoje, com as devidas diferenças, porque infelizmente, ou o país não mudou muito ou a história tem uma tendência mórbida para se repetir, connosco a viver permanentemente num carrossel que não pára de girar e do qual temos dificuldade em sair.
Rafael vai assistindo a isso tudo e vai-se apercebendo também de que não existem maus nem bons na guerra que trava à anos e que esta só interessa a quem pode ganhar algo com ela, quer seja dinheiro, quer seja apenas prestígio ou um lugar na história.

Este é o segundo livro que leio de E. S. Tagino (a minha opinião do Mataram o Chefe do Posto aqui) e achei-o... mais ou menos. Não me entusiasmou por aí além, não é livro que me vá ficar na memória e em termos de entretenimento... bem, cumpriu mais ou menos. Na verdade achei a escrita pouco inspirada, os diálogos sofríveis e forçados, as personagens pouco desenvolvidas e, embora acredite que historicamente o livro seja irrepreensível, o mesmo não posso dizer da parte romanceada do livro. A "tórrida e triangular história de paixões" referida no sinopse foi por vezes tórrida, é verdade, mas a escrita de E. S. Tagino, neste livro não soube tornar esta história de amor, que escusava de ser triangular de tal forma um dos vértices foi desprezado pelo autor, numa história mais envolvente, onde criássemos alguma empatia com os protagonistas. Não foi o caso.
Valorizo a lição de história e todos os pormenores descritos no livro. Nesse aspecto acho que é um documento interessante mas, para o meu gosto pessoal, foram demasiados os pormenores históricos e pareceram-me sempre uma amálgama confusa de informação, onde encontrar um fio condutor foi difícil. Uma imensidão de nomes que não conheço e que poderiam ter sido mais bem explorados, para que verdadeiramente me importasse com o seu destino, ou sentisse algum reconhecimento pelo papel que tiveram na história do país. Mas isso, mais uma vez, não aconteceu e o facto de não ter vontade de pesquisar mais sobre eles, diz mais do que qualquer outra coisa que possa acrescentar sobre a incapacidade que senti, por parte do autor em criar uma história que fosse fluída e onde a parte ficcional casasse na perfeição com os factos históricos. Depois de ter lido este livro, não me sinto mais capacitada para falar sobre a guerra civil nem sobre os anos sangrentos que se seguiram e, comigo, o livro acabou por não conseguir cumprir com os objectivos.

Tenho a certeza de que lerei mais livros deste autor, até porque gostei do Mataram o Chefe do Posto e, não será uma obra menos inspirada que me fará desistir de E. S. Tagino, mas a este, não o posso recomendar.

Boas leituras!

Excerto:
"Pela primeira vez, tinha-se confrontado com o outro lado da questão. Até aí, o seu ponto de vista e o dos seus camaradas comungavam das mesmas coordenadas: de um lado estavam os malhados; do outro lado estavam os nossos. (...) Finalmente, dera-se conta de que 34 era a repetição de 28 e que, de ambos os lados, havia as mesmas culpas, as mesmas queixas e as mesmas recriminações. (...) E o desenho argênteo da Lua, assim abundantemente revelado, recordou-lhe as noites inesquecíveis da infância em que, ao lado do Avô, deitado de costas na açoteia da casa grande do morgado de Apra, ia descobrindo o mapa luminoso que se abria, escancarado à sua frente:
- Avô, porque é que vemos sempre a mesma face da Lua?
- Ora, Rafael, isso só pode ser porque a Lua tem vergonha da outra face.
"